Episódios de 30:MIN - Livros e Literatura

596: Te dei olhos e olhaste as trevas, de Irene Solà

08 de agosto de 20261h11min
0:00 / 1:11:36

Arthur Marchetto, Anna Raissa e Igor Oliveira Neves se reúnem em mais um episódio do Clube de Leitura 30:MIN e, desta vez, discutem ⁠"Te dei olhos e olhaste as trevas", de Irene Solá. Eles comentam sobre o estranhamento, sobre o sagrado e o profano, de uma casa povoada por fantasmas e compartilham alguns dos trechos preferidos.

O episódio anuncia a próxima leitura do clube: ⁠"Kim Jiyoung, Nascida em 1982", de Cho Nam-Joo.

---

Links

⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠Apoie o 30:MIN⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠

⁠⁠⁠⁠⁠⁠Confira nossa vitrine na Amazon!⁠⁠⁠⁠⁠⁠

⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠Siga a gente nas redes⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠

⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠Já apoia? Acesse suas recompensas⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠

⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠Confira todos os títulos do clube!

Transcrição52 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
AMArthur Marchetto

Está começando mais um 30 Minutos, a sua maior alucinógena de literatura. Eu sou Arthur Marqueto, estou aqui com Igor Oliveira Neves e Ana Raíssa para a gente fazer a discussão do livro do clube de leitura de 2026 de julho, que é o livro Te Dei Olhos e Olhaste as Trevas de Irene Solá. É um livro que eu particularmente gostei bastante. E vocês gostaram?

ARAnna Raissa

Muitíssimo, muito.

IOIgor Oliveira Neves

Terremoto. Opinião, recomendações, curiosidades e muito mais. Está no ar mais um 30 Minutos, sua meia hora alucinógena de literatura.

AMArthur Marchetto

Em primeiro lugar fica o aviso dado que a gente pode começar a ler agora o livro Kim Jong-un, nascida em 1982, de Cho Nam-jo. É um livro que vai contar aqui Vou ler para vocês a sinopse, como é o primeiro recado, para vocês saberem o que que nos espera por aí. Abre aspas: em um pequeno apartamento nos arredores da frenética Seul, vive Kim Jong-un, uma millennial comum que largou o seu emprego em uma agência de marketing para cuidar da filha recém-nascida em tempo integral, como se espera de tantas mulheres coreanas.

Mas em pouco tempo começa a apresentar sintomas estranhos que preocupam o marido e os sogros. Ela personifica vozes de outras mulheres, vivas e mortas. A estranheza de seu comportamento cresce na mesma proporção que a frustração do marido, que acaba aconselhando a esposa a se consultar com um psiquiatra. Toda sua trajetória é então contada ao médico. Nascida em 1982 e com o nome mais comum entre as meninas coreanas, Jong rapidamente se dá conta de como é desfavorecida frente ao irmão mimado.

Seu comportamento sempre é vigiado e cobrado pelos homens ao seu redor, desde os professores do ensino fundamental, que impõem uniformes rígidos às meninas, até os colegas de trabalho, que instalam uma câmera escondida no banheiro feminino para postar fotos íntimas das mulheres em um site de pornografia. Aos olhos do pai, é culpa de Jong-un que os homens a assediem. Aos olhos do marido, é dever dela abandonar a carreira para cuidar da casa e da filha.

Diante de tudo isso, será que seu psiquiatra pode curá-la ou descobrir o que realmente a aflige? Best-seller internacional, Kim Jong-un, nascido em 1982, é uma obra poderosa e contemporânea que não só atinge o âmago da individualidade feminina como também questiona o papel da mulher em âmbito universal. Vocês já leram este livro? Vocês já tinham ouvido falar? Como que é?

ARAnna Raissa

Eu ganhei de presente. E dos nossos ouvintes, tá bem aqui. Mas ainda não li, lerei.

IOIgor Oliveira Neves

Eu li há alguns anos, quantos eu não sei, mas eu já li esse livro.

AMArthur Marchetto

Eu ainda não li, então vai ser— eu estaremos, eu e a Ana, no mesmo time de leitura. O Igor talvez esteja no time de releitura, talvez ele—

IOIgor Oliveira Neves

Peraí que eu leio com certeza.

AMArthur Marchetto

Mas falaremos com vocês então no começo de setembro. Fica o convite pra gente fazer essa discussão em conjunto. Pra você que quiser participar da próxima live, participar da próxima leitura, você pode apoiar a gente de algumas formas. Pra participar das discussões ao mesmo tempo, você pode entrar tanto no grupo do Telegram ou do Goodreads, que são grupos abertos, são menos movimentados, ou você pode entrar no nosso grupo do WhatsApp.

É um grupo exclusivo para apoiadores. A gente tem lá alguns grupos de discussão, tanto grupos ali de leitura coletiva, de discussão dos episódios, como os grupos de conversa, balbúrdia, questionário, amigo secreto, enfim. Tá chegando o fim do ano, se vocês quiserem participar de algum amigo secreto literário, Também estaremos por lá. Outras formas de apoiar o podcast inclui você parar agora aí que na live disseram: Balbúrdia é o grupo que mais cresce no Brasil.

Sim, Balbúrdia é o grupo que mais cresce no Brasil, é o grupo exclusivo dos apoiadores ali de conversa, bagunça, tem um fluxo intenso de mensagens no dia a dia. Além disso, vocês podem seguir a gente nas nossas redes sociais, Instagram, e acho que é isso de rede social ativa hoje em dia. E vocês podem apoiar a gente também abrindo seu tocador de podcast agora, comentando, seguindo, dando joinha, 5 estrelas, coração, tudo mais.

Importante lembrar aqui no chat que o Amigo Secreto é não oficial, apesar dele existir. Curtir a live também, seguir a gente aqui no YouTube. E a gente tem outros apoios financeiros, além de assinar a gente pela Aurelo, tanto no aplicativo quanto em www.30min.com.br. Você pode também fazer um Pix de qualquer valor para pix@30min.com.br ou utilizar os nossos links afiliados e a vitrine da Amazon que tá aqui na descrição do episódio.

Acho que por enquanto é isso, bora para episódio. Te dei olhos e olhaste as trevas é um livro publicado então pela escritora catalã Irene Solá. Ela é artista plástica, ela é poeta e ela é ficcionista. Ela é espanhola, mas a gente chama de expressão catalã porque ela tá ali na região da Catalunya, que é uma região complexa com bastantes questões políticas que não vamos discutir aqui agora, mas ela tá ali relacionada com essas questões culturais e políticas da região.

Ela é uma multiartista. Então, né, a gente viu uma mesa na Flip que discutia um pouco da autora, e a editora da Mundarel chegou a comentar que quando ela vai fazer a escrita dos livros dela, ela passa por esse processo de investigar um tema, de fazer a pesquisa, e depois descobrir qual que é a linguagem, qual expressão que essa, que essas pesquisas vão tomar, né. Então, traduzido, a gente já tem aqui O Canto Eu e a Montanha Dança.

Também o Te Dei Olhos e Olhaste às Trevas, este sim que a gente vai discutir. E o Te Dei Olhos e Olhaste às Trevas vai contar a história de uma espécie de 6, 7 gerações ali de uma família de mulheres, que elas foram amaldiçoadas talvez por um pacto demoníaco que a matriarca de todas, a primeira mulher da história, Joana, ela faz, porque ela pede para o diabo, para o demônio, um marido inteiro que ela pode para poder casar. E ela encontra um marido inteiro para se casar, ou pelo menos é o que ela imagina.

Então ela tá ali, se apaixona, tá no rala e rola, e um dia ela descobre que ele não tem o dedo mindinho do pé. E aí ela volta para o cramonhão e fala: olha, desfez o nosso trato, ele não tem o mindinho do pé, eu pedi um homem inteiro, então você não cumpriu sua parte, eu também não vou cumprir a minha, vai cada um para o nosso lado. E as coisas começam a desandar a partir daí. Todas essas mulheres passam a ficar numa espécie de espaço liminar ali, elas não podem cruzar para ir para o pós-vida, o que causa muita angústia em uma das mulheres, a Margarida, que ela tem muita vontade de ir para o céu e rever várias pessoas queridas.

E elas ficam ali nesse espaço intermediário observando a vida das 3 mulheres que são da família e ainda estão vivas, né, que é a Bernadetta, a Marta e a Alexandra. E elas ficam nesse espaço observando uma vida cotidiana nos dias de hoje, que elas veem um espelhinho que as pessoas usam, uma urna transparente que acende a luz e de repente esquenta comidas. Luzes esquisitas que acendem de forma muito bizarra, com cores esquisitas.

E elas ficam nesse espaço fazendo comidas, fazendo refeições, rituais e contando histórias também, piadas, fábulas, coisas— fábulas não, perdão, contam histórias, narrativas orais. Enfim, vão compartilhando esses causos enquanto a gente acompanha para ver o que acontece ao longo dessa narrativa e vai descobrindo também o passado dessa família. Antes de tudo, queria ouvir de vocês dois se vocês gostaram e por que sim. Não vou dar o espaço para vocês desgostarem desse livro incrível.

Vamos começar pela Ana. Isso, vamos começar pela Ana. Como ela tá com atraso, aí a gente deixa ela falar primeiro para a gente poder se organizar melhor.

ARAnna Raissa

Muito obrigada pela gentileza, eu amei. Começando que tem uma capa belíssima, como não, né? Uma capa que tem assim várias almas no purgatório dentro de uma bocona do diabo. É uma bela capa e é realmente muito bom. Eu já queria ler esse livro só pelo título, porque eu achei o título uma beleza. E a Irene, o outro livro dela se chama Canto Eu e a Montanha Dança, que também é um título muito bonito. E aí eu tava olhando as traduções, e o inglês é mesmo uma língua muito fim-fim, né?

Porque não tem essa beleza em inglês, é só uma tradução. Desculpa, Shakespeare, você fez pouco por essa língua. Não, não funcionou. Então eu já tinha vontade assim pelo, pelo, pelo esse quê poético. E eu gostei imensamente, primeiro porque esse livro me surpreendeu, pois a sinopse é uma ótima sinopse, né? Porque eu não leio sinopse, mas Arthur lê sinopse. A primeira vez que o Arthur leu a sinopse desse livro, eu achei que era aquela coisa meio sororidade, né?

Porque fala assim, ah, é uma mulher que está morrendo e ela está sendo observada pelas suas descendentes que estão ali com ela na casa e pelas suas ascendentes. E aí parece uma coisa meio sororidade que atravessa gerações, e não, é uma maluquice. Muitas delas se odeiam. A Margarida é péssima, assim, ó, uma fica torcendo para outra morrer logo. A Margarida não vê a hora da Bernadetta morrer. É muito bom, é assim, ó, quebrou todas as minhas poucas expectativas e eu Amei a escrita da Irene, é ótima.

A cabeça da Irene é doida. Como pensou nisso? Não sei. Essa, eu acho que essa, essa escrita catalã, né, toda vez que eu leio um autor catalão eu tenho essa impressão. Eles são muito ligados, tem muita imagem, muito imagens muito fortes ainda da Idade Média, né, de coisas assim, de essas, esse imaginário de Idade Média que a gente não tem, né, porque a gente não teve Idade Média. Então são mundos diferentes para a gente, é muito, muito, muito interessante.

A figura do diabo é muito presente e é muito diferente do que a gente tem, né? Se a Cê estivesse aqui, ela ia citar o Guimarães Rosa. O diabo do sertão que a gente tem aqui, o demônio no meio do redemunho, que é uma— os demônios do Novo Mundo, eles são muito diferentes do quando a gente lê falando né, sobre pactos com demônio, essas coisas, ou o pós-vida, esse espaço meio de limbo, de, ou mesmo de céu e inferno. A figura do céu e do inferno é muito forte para quem teve Idade Média, né?

Eu acho assim, eu fiquei pensando nisso. E é a construção dessas mulheres, é muito interessante a construção dessa imagem e a forma como ela conta, porque inicialmente você acha que ela tá intercalando passado e futuro até você perceber que não, aquelas mulheres estão naquela casa, elas só estão mortas. Ah, tudo perfeito, livro perfeito.

IOIgor Oliveira Neves

Eu gostei muito também. Livros com pacto, eles me atraem. Já tem algum tempo que eu venho lendo, procurando, né, e lendo livros com temática do pacto fálsico. Então quando eu vi que esse livro ia tratar desse tema, eu já comprei. Inclusive comprei na feira da UNESP, da USP, do ano passado. Então nem pensava em participar do podcast. E eu gostei muito de como ela constrói vários ambientes, né, a casa. E a Ana falou da capa. Eu gosto muito de como a capa conversa com o livro, como essa pintura ela conversa com o que acontece ali no livro.

Até mesmo porque elas estão ali sentadas, né, meio que numa mesa. E aí remete muito à imagem da cozinha. E tem um momento que a cozinha descrita quase como um corpo assim. Acho que tem uma parte do ouvido, tem uma parte da boca. Isso. Então a capa conversa muito com a história. Assim, gostei muito de como ela faz isso também. E acho que isso vem do que o Arthur falou, né, aquela pesquisa. Faz essa pesquisa primeiro e depois ela vai, ela vai traduzir isso na hora de construir a história, né.

Então gostei bastante. Eu gosto como ela usa os— ela descreve, né, os sentidos, o cheiro, a visão, o tato, assim. Eu gosto muito de como que ela faz isso. Sempre que ela vai descrever a escuridão, ela é um pouco diferente, né, as diversas cores da escuridão, os cheiros, né. O cheiro tem uma parte que ela vai falar que o cheiro é pontiagudo, assim. Eu gosto bastante de como ela usa essas descrições. E eu gosto como ela constrói essas personagens também, essas personagens femininas que A mana falou, elas não caem nesse, né?

Ah, é uma sororidade, todas se amam, todas dão uma mãozinha. Não, muito pelo contrário. Então foi bem interessante, eu gostei bastante de ler e quero ler as outras coisas dela. Sei que ela tem mais um romance, né? Um primeiro que não foi publicado. Tomara que seja, que eles tragam aqui para tradução.

AMArthur Marchetto

Tem uma coisa legal no que vocês falaram da capa. A capa ela escolheu exatamente no momento em que ela tava escrevendo, né? Então ela deve ter já construído a partir dessa, dessas imagens que ela foi escrevendo ao longo do romance, e ecoou bastante inclusive as cenas finais, né, em que elas fazem ali efetivamente as receitas e tal. E eu acho muito legal isso que a Ana falou, porque o livro em que ela tira, que ela tira essa gravura da capa, é As Horas, que é um livro que remonta ali, supõe-se que seja do período de 1440, né, já mais para o fim desse dito Idade Média, e que vai tratar de uma mulher que é Catarina de Cleve.

É um livro holandês devocional, e ela condena, condena não, ela encomenda esse livro para ficar orando na casa dela e não ser condenada. Ela tem quase um trajeto como da Margarida ali ao longo do livro. E é bastante um pouco desse caminho. Isso que você falou também, na Idade Média, de como o diabo é representado diferente para gente e para eles. Tem uma hipótese, eu não tenho certeza se eu li isso ou se eu inventei isso da minha cabeça, que eu acho que acontece mais ou menos nesse período.

Quem seguiu o Carl Felipe no Twitter há alguns anos, há muitos anos já na verdade, ele fazia muitas threads, muitas muitos fios ali no Twitter analisando algumas coisas de questão de cultura popular, narrativas orais e de inclusive narrativas féricas, né, dessas fadas que tinham ali no que eu vou chamar de Europa, mas eu não sei se é um recorte preciso do que é a região que tá ali que eu tô pensando, porque eu acho que ela vai até um pouquinho mais para frente.

Enfim, a gente vai, vou pedir desculpas pela minha porca precisão geográfica, mas é um pouco do que ele falava ali e eu tenho uma hipótese de que a gente tem essas construções do demônio e das ideias que a gente tem desses pactos fáusticos nessa época, porque a gente tem uma ideia de vários demônios. A gente tem histórias, por exemplo, de algumas regiões que tem estátuas de demônios perto de pontes, por exemplo, porque os demônios faziam tratos para cuidar de ponte, ou demônios que colhiam trigo, que a gente viu ali na história.

E nesse momento em que a gente tem uma espécie de domesticação dessas narrativas orais pelo cristianismo, a gente vai unificando, me parece, o que eram as narrativas de tratos com fadas e com seres féricos num espectro específico do que é pagão. Então toda essa pluralidade de fadas, de seres fantásticos que poderiam fazer esses tratos terríveis com os seres humanos, vão sendo incorporados nas perspectivas e nas características de demônios.

Então por isso que essa diferença, porque a gente não tem essa tradição aqui. Essa tradição é lá. Então eles vão passando por esse processo até que eles virem especificamente a figura do Satanás, do tinhoso. Tanto que mais para frente, no Te Dei os Olhos, né, tem as discussões de: mas era um demônio ou era o demônio? Era um demônio ali. Você acha que o diabo vai vir para cá? Não, era um outro que tava ali. Dizem que até pegaram ele, cortaram as pernas dele, as pernas de galinha dele.

Então acho que tem, me parece que tem um pouco dessa, dessa construção. E aí eu queria começar, o que eu queria falar é que eu queria, primeiro lugar, mostrar a pesquisa que ela faz da cultura popular, que eu acho muito interessante. Para mim foi um dos pontos mais interessantes da narrativa, é como a gente consegue ver esse trabalho dela da cultura da Catalunha. E aí ela vai tratar tanto das histórias orais que a gente vai ver, desses pactos com o demônio.

Quando você chega no final do livro e você vai ver a nota da autora, você vê, bom, Essa história do Mindinho eu tirei de tal livro de tradição oral, as receitas eu tirei de tal livro, os costumes e rituais das mulheres da família eu pesquisei em tais livros, o personagem do Pântano, que é um personagem maravilhoso, eu tirei de tal livro. E a gente tem uma construção muito complexa de uma narrativa em que a gente tem uma valorização muito interessante dessa cultura que ela tá se propondo a analisar ali, e algo que eu gostei bastante ao longo da minha leitura.

Não sei se para vocês foi assim também, mas é uma das coisas que eu acho que mais enriqueceu para mim a leitura. E outro ponto que eu acho que junto com essa da questão cultural que a gente pode falar é já então encerrar esse primeiro bloco falando de como foi para vocês essa experiência com esse contato do que é o trabalho estilístico dela, né? É porque para mim Eu fiquei pensando muito enquanto eu lia como o texto dela é carregado dessas profundidades do escatológico, de tem peido, tem mijo, tem um monte de descrição bestial e animalesca, e ao mesmo tempo uma prosa poética muito bonita.

É um livro lindíssimo. Então eu queria ouvir de vocês um pouco dessa, dessa questão, tanto da escrita dela quanto da valorização da das questões folclóricas que ela traz para narrativa.

ARAnna Raissa

Eu tenho um livro que acho que alguns ouvintes vão lembrar, devem ter tido ele na infância também, que chama Um Tesouro de Contos de Fadas, que é um livrão assim. E ele é, ele tem um, um que ele é um livro de contos de fada pouco americanizado. Então ele é muito interessante porque ele foge dessa disneyficação que os contos de fadas passaram. Então até o traço, e ele é um livro sem ficha técnica nenhuma, ele não tem expediente, é um horror.

Você não sabe quem fez os desenhos, você não sabe quem traduziu, você não sabe de onde que saíram aquelas histórias.

AMArthur Marchetto

A chance disso ser um livro feito por uma fada, um livro enfeitiçado que tá na sua mão, que você não faz a menor ideia do que você tá lendo, me parece muito grande.

ARAnna Raissa

Pegamos. E as ilustrações dele são lindíssimas. E ele traz até contos que são comuns, como A Bela e a Fera, só que uma leitura diferente do que a gente tem. E ele tem uma peculiaridade que eu não vi em contos de fadas depois, quando eu li na vida adulta, adolescente, que ele traz receitas de vez em quando assim alguém, ele não traz a receita, mas ele cita assim, ah, que alguém fez um não sei o quê com batatas e cebolas, e que não são receitas que para a gente são conhecidas, sabe?

Então eu acho que faz parte desse resgate de alguma história oral, que me lembra também um pouco como Água para Chocolate, mas tão diverso. E aqui esse livro O da Irene me lembrou muito esse outro, que é uma leitura de formação para mim, porque é um livro que eu cresci lendo e que tem— não tem uma linguagem muito modernizada, sabe? Então quando é para falar do feio, fala do feio. Quando é para falar de morte, fala de morte. Fala do demônio.

A bruxa é realmente feia e a bruxa é má. E a Rapunzel sabe, teve o cabelo raspado muito brutalmente, e que também foge dessa, desse recontar mais novo do, ah, os contos eram violentos, veja só. Ele é muito diferente, esse livro. E aí, de novo, ele tem um quê meio Idade Média que me lembrou muito lendo a Irene. E quando chega nessa nota da autora que ela fala de onde ela tirou alguns aspectos da história, eu acho que fiz essa ligação, né, que esse livro que eu tenho talvez ele tenha esse aspecto de recolher histórias da forma como elas eram contadas oralmente.

Então daí você tem o linguajar, umas coisas mais escatológicas, você tem a questão da cozinha muito presente, da receita muito presente. Quando elas falam, né, quando elas estão cozinhando e tal, e você fica assim, meu Deus, mas o que que elas estão fazendo? Que elas lavam essa tripa e pica essa tripa e cozinha a tripa no sangue, e aí depois põe uma manteiga. Eita, que comida é essa? Parece estranho, mas parece bom. Iria sim para um jantar desse, embora muito esquisito.

Então é muito interessante e eu gosto muito, me agrada muito quando eu me deparo com textos que fazem essa essa recolhida, né, de aspectos orais e da maneira como era contada, e não uma adaptação, mas carrega muito dessa oralidade, dessa, muito antigo, dessa forma muito antiga de contar as coisas. Eu gostei muito, é uma pesquisa muito interessante essa que ela faz e me mostra muito que dá para você fazer uma pesquisa para escrever um livro e mesmo assim o livro não tem um quê acadêmico.

Porque o quarto falou, é um livro lindíssimo, ele é muito poético. A cena da morte da Dousa é a parte mais bonita do livro para mim. Eu li e reli, belíssima, belíssima.

AMArthur Marchetto

Eu separei para ler aqui daqui a pouco porque é muito lindo.

ARAnna Raissa

E então você pode fazer essa pesquisa sem o livro parecer um relatório de pesquisa, e você pode escrever de forma bonita sem abrir mão da parte acadêmica da coisa, da parte mais trabalhosa, sabe? Que eu acho que a gente já tá cansado de falar sobre isso assim, que escrita não é a musa que vem, te traz assim, né? Certinho o que vai sair, é trabalho. E essa linguagem trabalhada dela não se divorcia da linguagem pesquisada do trabalho da escrita, onde fica uma coisa meio o belo e o feio ali convivendo.

E o feio nesse sentido, né, do, aquela coisa do Umberto Eco, né, da história da feiura, história do belo, história do feio. De haver uma beleza ali no escatológico, no feio. Elas têm deformações, essas mulheres, né? Então assim, uma delas tem uma corcunda, e a Dolce tem um namorado que sofreu queimadura, então metade do corpo dele é queimado. E fala-se, né, da pele embolada, da pele que foi muito machucada. E várias outras. Então o aspecto do feio que é muito presente, e de novo traz essa cara muito Idade Média para o texto, ele faz parte da construção da beleza desse livro, tanto da imagem quanto da linguagem.

Eu achei o trabalho dela muito peculiar nesse sentido e muito bem feito. E é um livro muito consistente. Eu não sei se vocês sentiram isso assim, ele é bom igual o tempo todo assim. Ele não é um livro de picos e não é um livro de vale assim. Ah, ele começou assim e depois ficou assim. Não, ele começa bem, ele vai assim até o final. Ele não tem um— a gente já falou muito aqui de livros que, poxa, a gente gostou muito, mas o final faltou uma coisa.

Não, nada, nada. Ele é redondinho assim, ele começa muito bem e ele termina muito bem, e tudo é muito bom. É, eu acho difícil, talvez o Igor, mas eu sei que o Arthur sentiu a mesma coisa que eu, é difícil você não terminar esse livro e falar assim, vou reler imediatamente, porque você quer pegar mais coisas, né? Porque depois que você entende a linguagem e a sobreposição que ela faz, que você entende que, pera aí, ela tá andando no tempo, ela tá voltando Por que que a Bernadette é velha e a mãe dela tá ali do lado dela?

Mas a mãe dela, como que ela envelheceu tanto e a mãe dela não? Aí quando você vai entendendo, aí você, caramba, eu preciso ler de novo porque eu quero pegar mais disso assim, dessa beleza. E dessa, então ele é belo em vários, várias camadas, a estruturação dele, a pesquisa, a forma como ela encadeia o belo e o feio, o desagradável com o agradável, com sangue, com— e a gente tá aqui nessa síndrome aqui, ai, fulana, né, fez um pacto com demônio, e não sei quem dormiu com demônio.

O demônio não é o demônio bonitão que vocês estão pensando não, viu? É o demônio que fede, é o demônio feio, é o demônio. Então é, e essas é ao mesmo tempo tem a descrição da escuridão, como o Igor falou, que é uma escuridão cheia de cores, é uma escuridão que tem roxo, que tem magenta, que tem verde, que tem o cintilante, e é tudo muito bonito. Elas têm histórias entre si assim, histórias pessoais muito bonitas, com de maneiras muito feias assim. É, nossa, que graça esse livro, que joia!

AMArthur Marchetto

Antes do Igor começar o relato dele, eu queria dizer que eu aluguei o Igor pela essa manhã. Que eu falei, bom, tô no fim desse livro, eu vou querer reler. Eu comecei, Igor, me ajuda aqui, fulano morreu como? Fulano morreu como? Fulano é de quem? E aí eu mandei a foto da minha primeira versão da árvore genealógica. E o Igor, não, tá errado, tem que trocar aquele ali não sei aonde, tem que fazer não sei o quê. Aí eu arrumei. E ele, não, mas esse daí não tá certo porque o filho de fulano não sei aonde.

Eu falei, mas é porque as duas ficam juntas. Ele, mas não interessa, árvore genealógica. Então a gente teve um debate. O Igor já estava separando porque ele também ia reler. E foi uma discussão muito interessante. Eu queria fazer um adendo dessa questão da árvore genealógica, porque as pessoas estavam discutindo a produção da árvore genealógica, compartilhar tal. Eu acho importante para quem quiser ouvir esse episódio depois e for ver esses comentários, fazer a árvore genealógica é uma possibilidade de experiência com o livro, tá?

O livro, a Ana, por exemplo, ela não fez a árvore genealógica, ela leu o livro, ela teve uma experiência tão boa quanto. Árvore genealógica é uma possibilidade de você construir, se relacionar e e ver o que que você quer anotar ou não para o livro, tá? Não é uma obrigatoriedade, não é um livro TCC, não é um livro, ai meu Deus, se eu não fizer eu não vou entender. Não, é um livro que você às vezes pode querer no futuro reler, e é interessante pegar algumas sutilezas da linguagem, porque é um livro que o tempo vai e vem.

Então a gente tá vendo esses espíritos contando as histórias, e aí a quebra de linha aparece e a gente tá no presente, e aí você fica, opa, pera aí. Então, e tem pistas, né? Porque como a gente sabe que acontece, que vai e vem, a gente tem algumas questões de construção, mas não é obrigatório, tá? Eu queria deixar só isso claro para as pessoas, porque eu vejo pessoas conversando muito sobre árvore genealógica. Às vezes, quando a gente vê um livro que fala, putz, eu vou ter que fazer tudo isso daqui para conseguir ler o livro, a gente fica receoso.

Não é o ponto, tá? É só uma possibilidade de acesso ao livro, porque eu acho que ela consegue fazer uma construção muito bem de que, mesmo que você não fizer, você entende de certa maneira quem é filho de quem, que ordem tá o quê, o que acontece, porque ela tem esse controle narrativo. Ela consegue descrever muito bem quem ri como uma burra, quem ri como um asno, quem ri como um cachorro. Então você vai meio que conseguir conseguindo organizar essas coisas, né? Enfim, é isso. Perdão, Igor, não queria tomar outro tempo. Pode continuar.

IOIgor Oliveira Neves

Bom, vamos lá. Mas o que eu gostei bastante, voltando o que você falou da questão da oralidade, das histórias orais, eu gostei muito quando a Joana contava as histórias, né? Primeiro porque elas eram engraçadíssimas. A história do peido, não tem como. Eu li, eu li esse trecho no ônibus voltando de Paraty e eu tive que me segurar muito para não dar uma risada alta assim, né? Para ninguém, para mulher do meu lado não achar que eu era meio doido.

Mas assim, as histórias orais, elas são muito boas. As histórias da Joana, elas são muito, muito boas, muito engraçadas, e elas conversam muito também com a história ali, né? Principalmente ali quando ela vai contar a última história da mulher enganando os 3 demônios, né? Aí você fala, ó, o verso fechando no final. Não sei se vocês entenderam, mas enfim, é a referência aqui. Mas é, e aí também tá aquela questão, são 3 demônios, então aquele era só mais um demônio, era o diabo mesmo, enfim.

E aí uma outra coisa que eu gosto muito é essa escrita, que ela é escatológica, mas ela tem um pudor também ao mesmo tempo. Eu acho engraçado, principalmente quando ela vai falar do primeiro, do herdeiro, né, que é o que nasce sem 1 ano. Ela poderia, eu não sei se eu posso falar no YouTube, se o YouTube vai derrubar a gente, mas ela poderia falar ele nasceu sem o, mas ela não fala. Ela falou assim, ela nasceu sem buraco de trás, depois ele nasceu sem 1 ano, mas ela nunca Ela tem essa escatologia, mas ela nunca vai usar essas palavras de baixo calão, enfim.

Mas assim, ela não usa, né? Eu acho interessante como ela, essas, a opção dela na hora de construir essas imagens, mostra também o domínio da linguagem, né? Que você não precisa usar essas palavras para construir imagens escatológicas, imagens pesadas, imagens densas, né, como ela faz. E o domínio, esse domínio dela como a Ana disse, né, deixa o livro todo, não tem altos e baixos, né, um livro muito bom todo momento. Acho que reflete muito como ela conseguiu construir esse livro, né, como ela, como tá sempre indo e voltando, a gente tá vendo o presente, o passado, presente, o passado, ela consegue amarrar tudo muito bem, fica tudo muito, tudo muito junto, né.

Assim, você não consegue, você não esquece, ai, quando volta para o passado eu não quero, ai, quando tá no presente tá mais chato. Não, ela faz isso tudo muito tudo fica tudo muito amarrado, tudo fica muito bom assim. Você tá ali vendo acontecer alguma coisa tenebrosa e aí de repente pula próximo parágrafo, dia presente, opa, quem que tá aqui, quem que tá, quem que não tá. Então isso é muito, muito interessante. Que era o final da fala do Arthur, que era sobre a árvore geral.

Isso é, então eu terminei de ler o livro, eu queria começar logo em seguida de novo assim. Eu falei, eu quero ler pelo menos o primeiro capítulo antes da live, não consegui. Enfim, trabalho, vida, não deu tempo de reler o primeiro, pelo menos o primeiro capítulo assim. Eu queria reler, eu não consegui, mas é um livro que eu sei que eu vou reler, porque eu acho que é um livro que nessa primeira leitura a gente deixa escapar muita coisa, fica muita coisa que você lê, você fala assim, tá, vou continuar aqui, mas eu acho que tem mais coisa, mais coisa para ver, mais coisa para voltar depois.

Então eu acho que é um livro bem interessante, é um livro que pede releituras assim. E eu fui pesquisar, eu fui ver umas entrevistas, se eu achava algumas entrevistas da Irene Solar. E aí ela vai falar sobre a árvore genealógica, que ela falou assim: eu poderia até colocar da árvore genealógica, eu gosto de livros que tem árvore genealógica, mas eu sinto que é mais interessante que o leitor vá construindo essa árvore conforme a leitura, que ele vá se relacionando do jeito que ele quer com esses personagens, do que eu dar a árvore genealógica que tá lá e você citar e você já vê tudo logo de cara.

Porque a graça do livro é essa também. Construir árvore genealógica é legal também, porque a gente fica: não, calma aí, Eu no começo achei que a Bernadetta era a primeira. Eu pensei, ah, então ela que começou tudo e as outras morreram antes dela, e ela que sobreviveu por causa do pacto. E não, é depois você vai descobrir onde que ela tá, e ela tá bem baixa assim, né? Já passaram muitas e muitas pessoas até chegar ela. Então, como ela vai construir essa árvore genealógica, ela é— eu gosto bastante.

Eu acho que construir conforme você vai lendo o livro é uma experiência muito legal também de leitura. Para falar da árvore genealógica do Arthur, É a árvore genealógica. Então, se as pessoas tiveram filhos, o filho tem que estar na Margarida e no Francesco, na Elizabeth e no Francesco. Ele colocou, ele não queria colocar a, qual que é o nome dela, a Ângela, né? Ângela, não.

AMArthur Marchetto

Aí agora já eu me recusei a deixar Elizabeth junto com Francesco e sem estar conectado com a Blanca.

ARAnna Raissa

E aí, árvore genealógica, Arthur demitido do departamento de árvores genealógicas.

IOIgor Oliveira Neves

Eu fiz outra e mandei para ele assim: assim que se faz, aprenda.

ARAnna Raissa

Ele queria julgar mal o Igor, achei que o Igor não ia querer, ia querer reler, tipo, eu peguei tudo.

AMArthur Marchetto

Mas não, o Igor é fã de releitura também. É isso aí, Valéria, é isso aí! A Valéria tá comigo na trincheira da árvore genealógica.

IOIgor Oliveira Neves

Não, tudo bem, gente.

ARAnna Raissa

Não, tudo bem, palavras não significam mais nada, né? Genealógica.

IOIgor Oliveira Neves

É, mas árvore genealógica ela tem que ter uma ordem, ela tem que ter um sentido. Você não pode colocar os filhos mortos em cima dos filhos vivos, não é assim que funciona. É assim que ele montou a primeira árvore genealógica, parecia que os filhos mortos eram pais dos filhos vivos. Não faz sentido, eles são irmãos, eles têm que estar na mesma linha.

AMArthur Marchetto

Enfim, a gente vai compartilhar todas as árvores genealógicas para os apoiadores e vocês vão poder compartilhar as suas e as nossas.

IOIgor Oliveira Neves

Façam as árvores. Mas eu acho que isso, se forem ler, não consultem árvore genealógica, vão ler, vão fazendo vocês, ou vão fazendo na cabeça, vão deixando esse emaranhado e tomando conta de vocês. Porque acho que essa é a graça da leitura também, principalmente de uma primeira leitura. De uma releitura, quando você quer ver outras coisas, né, além desse primeiro desse primeiro impacto, acho que faz sentido. Mas para primeira leitura, acho legal cada um ir montando a árvore genealógica do jeito que quer, ou não montando, enfim, só ir lendo.

AMArthur Marchetto

Acho que tem uma coisa interessante no que você falou, porque a gente teve uma discussão parecida quando as novas— eu não vou saber quem que vai lembrar e quem que não vai lembrar, mas as primeiras edições dos 100 Anos de Solidão, antes das edições que a gente tem agora, elas não vinham com árvore genealógica. Eu li uma dessas edições que tinham aqui em casa e foi um processo muito parecido assim de descobrindo os Aurelianos, os coronéis, os Aurelianos, os Boendias, todos eles ali.

José Arcádio e os Aurelianos, tava tentando lembrar o nome do José Arcádio, fiquei enrolando aqui, agora lembrei. Descoberta dos Arcádios e dos Aurelianos foi um pouco dessa relação assim. E aí numa segunda vez, quando eu reli, eu já nem consultei mais a árvore porque a gente vai conseguindo descobrir quem que é, por conta da trajetória, enfim.

ARAnna Raissa

Mas veja, eu tenho uma edição colombiana e uma edição argentina dos 100 anos e não tem árvore genealógica. Então talvez não seja muito consistente mesmo essa opção editorial.

AMArthur Marchetto

A gente tem aqui, curiosamente, no chat mandaram ao mesmo tempo. A Renata Beltrão falou aqui também que é a primeira vez que ela leu o Tá Ciente sem árvore. E a Maria Antônia falou que ela também não tem, que ela vai descobrindo os arcades aos trancos e barrancos. Eu acho que isso é interessante também, você descobrir, mas esse que voltou, ele veio do circo? Ele veio da onde? Que que é isso? Da onde ele veio? Esse é o coronel aquele que tava lá?

Então faz parte um pouco, eu acho que, da intenção desse efeito de sentido pretendido pelos escritores em questão, né?

IOIgor Oliveira Neves

Uma coisa que eu acho legal, não, só falar, acho que se tá confuso muitas vezes é porque o autor quer que seja confuso também. Então isso também faz parte da experiência, né?

ARAnna Raissa

O autor não é seu amigo, ele quer que você sofra às vezes.

AMArthur Marchetto

É isso, é uma boa observação. Mas queria falar que eu acho muito legal como ela faz essa valorização do espaço profano de maneira completa. Vocês ouviram aqui então eles falando de várias questões da prosa, do escatológico, das inscrições, mas eu coloquei aqui numa num texto que eu fiz, que a gente tem uma série de questões. O profano é o que fica fora do espaço sagrado. Então é claro que a gente tem aqui demônio, a gente tem o ritual, a gente tem as descrições de sexo, a gente tem o bestial, carnal, essas pessoas que estão rindo, a gente tem descrição de excremento.

O ritual nada mais é do que a Joana levantando a saia, mijando numa cruz. Você tem ali uma escrita muito suja de mostrar esse ritual, né? Tem essa escatologia tal, mas a gente tem valores que também estão fora do espaço sagrado. Que ficam no espaço do profano, que são menos óbvios muitas vezes. Então o fato de ser uma narrativa de humor, a comédia não é para ser uma coisa religiosa, uma coisa sagrada. O fato de ter esses conhecimentos e as práticas populares, o fato de ter narrativas orais como as piadas, como os mitos, como os tratos, são histórias que não são institucionalizadas, não são escritas, não estão com aval do sagrado, do poder instaurado em questão.

A gente tem essa questão dos corpos idosos também, que eu não tenho certeza se a gente pode considerar como profana e sagrada, mas é um corpo que não é um corpo vigente na representação como um todo. E a gente tem essa adoção desse espaço de maneira completa em todos os detalhes da narrativa. E aí eu acho que ela adota e ela consegue colocar isso numa espécie de epistemologia do romance ali. O que ela adota como postura é o que vai guiar o romance inteiro.

Então a gente consegue ver que essa ideia é afundante para todos os tipos de situação que ela vai estabelecer. E aí o que eu ia falar que eu esqueci é que a Silvia, editora do livro, ela fala na mesa da Filipe uma coisa que eu achei muito interessante, que a Irene Solar é uma editora com uma escritora com território, né? Ela tem um território, ela ocupa aquele território. Então os livros, as temáticas, elas vão sempre falar um pouco dessa questão da Catalunha.

Mas eu queria inserir um segundo trecho que eu acho que tá mais relacionado com a estrutura do livro e também com a questão de gênero ali. Porque eu reli há pouco tempo o ensaio da Ursula K. Le Guin, né, a bolsa de ficção, a teoria do romance, né, como bolsa da ficção, como bolsa. E li também aquele livro que eu já falei uns 2 ou 3 episódios atrás, do Ola Minnarrami, que eu não vou ficar me repetindo. Se vocês ouviram os últimos talvez 4 episódios, vocês já ouviram eu falar algumas vezes dele.

Mas queria falar que eu acho que esse livro ele adota também essa postura, porque ela vai construir ali uma narrativa que tá nesse espaço da narrativa oral, que é uma história que eles valorizam. A gente não tem um herói, a gente não tem um eixo, a gente não tem um grande conflito que guia o livro. A gente vai conhecendo o passado e as histórias dessas mulheres. A gente tem essas várias vozes que estão no espaço liminar ali, nesse espaço que não é nem o vivo, nem o morto, nem a vida, nem o pós-vida.

A gente tá no intermeio ali e a gente vai acompanhando essa narrativa. E é muito curioso que ela faz uma inversão maravilhosa dentro dessas propostas que elas colocam, né? A gente vai descobrindo as histórias dessas mulheres que estão enclausuradas, todas elas. Elas não conseguem fugir desse espaço doméstico que é o casarão. Então a gente vê essa construção desse casarão na montanha. Eu achei muito irônico que a Ana falou que a narrativa não tem altos e baixos.

Sendo que é uma narrativa que fica bem nos primeiros ali das montanhas. E se tem uma coisa que esses personagens vivem ali são altos e baixos das caminhadas deles. Mas todas as narrativas que são enfocadas, que perseveram e que são contadas dentro desse livro são narrativas dessas mulheres que escolheram ficar vivas, que escolheram ficar dentro ali daquela casa, que estão vivendo e contando as histórias desse espaço doméstico.

Todas as figuras masculinas do livro, elas desaparecem porque elas saem de casa em busca desse conflito. Então a gente tem desde o próprio Bernard, que vai em busca da loucura dele com a porcaria dos lobos, o Francesco, que é um grande bandido, os irmãos que batem na Ângela até ela ficar toda podre, lascada, e falar: vamos para guerra. Que depois a gente intui que talvez eles tenham morrido porque eles sequestram, que eles invadiram alguma casa e foram ali condenados.

O esquartejamento, o Martim, os dois Martim, o Raposa, que são ali confundidos com guerrilheiros e que são executados. Enfim, todos eles entram nesse espaço do conflito, da violência, da fama, desse legado que a gente tem de construir uma história póstuma, né, que são essas narrativas masculinas. E todas essas histórias, elas desaparecem em algum momento, elas contam, e esse grande legado ele não existe. A gente descobre só quem eles eram, e essa relação heroica ela não acontece, essa relação de narrativa que fica são as mulheres desses espaços domésticos.

Isso eu achei muito interessante de perceber na narrativa, é por isso que eu fiz essa relação com esses dois textos. Então eu gosto muito de como isso é tratado na leitura, né? Além, inclusive, a Ana, quando ela começou, ela falou, meu, eu achei que era para ser esse negócio de sororidade, mas são velhas malvadas. Eu tô adorando, tá? São essas figuras. Então eu não sei como é que foi para vocês esse contato, se vocês fizeram alguma leitura nesse sentido. Fiquei curioso.

ARAnna Raissa

Primeiro assim, para mim, e aí eu vou voltar um pouquinho na questão da linguagem, me pegou desprevenida também o quanto que eu gostei da forma como ela coloca essas coisas mais, tanta violência, né? Tem quando a história vai ficando mais recente, aparece muito a época do fascismo, do, eles citam o Franco, né, os guerrilheiros. E então de vez em quando aparecem homens lá que vem do que estão fugindo, que estão escondidos nas florestas, na montanha ali.

E tem uma hora até que a Bernadetta recebe um assim, ela abre a porta e os caras estão lá, contaram a história deles. A gente tá fugindo porque não sei o quê, querem matar a gente, não sei o quê. Ela simplesmente fecha a porta e eles: uou, qual é, a gente tá com fome. Ela: foda-se, tomara que peguem vocês aí e matem. Então assim, elas são do mal. Então É como ela conseguiu colocar essa diferença, né, entre o espaço doméstico, e é o espaço onde as mulheres ficam e aonde as mulheres não conseguem sair após a morte, e o espaço do lá fora, que é o espaço do masculino, da violência, dos lobos que atacam crianças, dos esquartejamentos, das punições.

Até mais recentemente, né, a Marta, quando arruma uns namorados assim, aí ela tem um namorado com quem ela vai assistir rally, e aí eles, ela sofre um acidente de carro. Ela é meio assim, ela é atropelada no rally, o carro foge da pista e passa por cima dela, e ela chega toda arrebentada em casa. Então o espaço fora da casa é um espaço de violência, de morte. Elas só sabem que os homens morreram nas visões da Bernadetta E aí tem mulheres depois da guerra, né, da Guerra Civil Espanhola, que vão até a casa querer saber onde estão seus homens.

E a Bernadetta tem sempre uma história trágica para contar. Falou, então pegaram ele, fuzilaram, foi esquartejado, foi jogado não sei aonde, parará. E a Irene trabalha isso, essa diferença e essa diferenciação do espaço doméstico com o lá fora, com o mundo, de uma forma muito pouco óbvia. Você percebe no todo depois que você, que a história já tá na sua cabeça e tal, que você chega a essa conclusão. Então, se você não leu e tá ouvindo a gente, você já chegou a essa conclusão antes, veja.

Mas nós fizemos esse caminho para vocês, nós abrimos essa Quando a Elizabeth aparece na casa, ela vem, né, ela foi sequestrada ali pelo Francesco porque ela tinha se casado. E aí ela foge porque ela quer fugir com outro cara. E aí nessa fuga ela se ferra porque ela estava na casa dela, que são os mas, né, que são as mansões, as vilas em italiano. Então você tem essas, essas casas, esses casarões que são os casarões de família.

E aí ela sai do próprio casarão porque ela se casou, então o espaço dela seria aquele espaço doméstico. Ela foge com outro cara e aí ela cruza caminho com o Francesc, que já é ladrão nessa época e que a estupra e tudo e a sequestra. E ela encontra depois um espaço doméstico que é a casa da Joana e ela já chega lá grávida, a Blanca também tá grávida. E aí sim ela volta para esse espaço doméstico, que já é um outro espaço, mas agora é dela também.

Então todas, eu acho que algumas vezes poucas, acho que duas ou três vezes que as mulheres saem desse espaço doméstico é quando alguma coisa terrível acontece, né? A Marta é atropelada, a Elizabeth, porque esse é o espaço do feminino nessa história. Quando a Joana sai também é quando ela faz o pacto com o demônio, quando ela tá mudando. Então o espaço doméstico é o espaço desse casarão Que é um casarão de dimensões absurdas, porque inicialmente, o Igor falou disso também, ele é descrito como se fosse um corpo, né?

Então você passa pela garganta do corredor e você chega nos dentes do não sei o quê. E em alguns momentos ela parece muito pequena, algumas pessoas entram lá e fazem comentários do tipo, nossa, isso aqui parece uma toca de bicho, né? O cheiro, e é bagunçado e tá meio destruído. Porque o tempo passa também e aí depois parece um casarão realmente mais moderno. Então no início e no final ele parece um casarão, parece uma habitação mais ampla e mais aconchegante, digamos, ou mais casa, mas tem uma época meio de ruínas e tal.

E o espaço do masculino é o espaço de fora, da violência, da revolução, da guerra civil, da luta com os lobos, dos bandidos que te atacam no meio do caminho e da justiça que chega, né, quando ele é condenado, qual é o Francesco, que é condenado, que é esquartejado naquele, naquela punição de ser amarrado em 4 cavalos, ser esquartejado. Então você tem essa diferenciação do espaço que é muitíssimo interessante. O máximo que as mulheres chegam em segurança é até ali onde a floresta começa, às vezes para alimentar os homens que estão escondidos ali. Isso é muito, muito interessante.

IOIgor Oliveira Neves

Pegando um pouco essa questão que ela fala, que a gente já falou, da casa como corpo, eu não sei se isso vai estar no terceiro bloco, se não vai, se o Arthur não vai puxar, Mas também nessa entrevista que eu li dela, ela fala que ela partiu desse livro pelo corpo. Então, corpo, é pela corporeidade que ela partiu aí da escrita. Então, não só corporeidade humana, animal e também dos objetos, né? Então, a casa tem um corpo, né? A casa.

Então, quando ela foi descrever a casa, ela tava pensando nessa corporeidade também da casa. Tanto é que tem um momento quando a Margarida, ele vai falar Nenhum homem mais vai entrar nessa casa. E ela vai citando, né, nem isso, nem aquilo, nem policial, nem padre, nem etc. e tal. A casa diminui, né, a casa, ela acha que ela baixa 2 palmos para ficar meio escondida assim. Aí ela fica escondida até, acho que, a Bernadetta, né. Aí depois da Bernadetta, a casa volta a participar dali.

Outra coisa que a gente falou desse lugar doméstico, né, é muito interessante porque o livro se passa quase, sei lá, 80% dentro da cozinha, que é um espaço historicamente feminino, né? É um espaço onde as mulheres vão para cozinhar, contar fofoca, para contar piada, e onde elas estão livres da companhia masculina. Então a gente só vai para os quartos quando a Bernadetta tá para morrer, né? Então é o único momento que a gente vê algum espaço que não é a cozinha.

Inclusive, eu acho muito legal elas cozinhando. E aí eu até marquei ali quando ela falou assim, ah, vai lá na cozinha. A Joana tá cozinhando e ela manda alguém, vai lá surrupiar alguma coisa na dispensa. Acho que é uma cenoura. Aí eu falei, calma aí, elas são fantasmas e elas estão roubando da cozinha real, da cozinha que existe. Ah, então aquele cabrito que sumiu são elas que estão cozinhando. Então assim, essa Essa invasão dos espaços também é bem interessante.

Gostei bastante do livro. A questão dos homens também eu acho muito interessante porque eles ficam muito pouco tempo, né? Eles chegam e eles querem sair, é como se eles fossem expulsos da casa. Acho que porque tem essa questão da casa, a partir do momento que a Joana chega, né? A partir do momento que ela se casa e ela faz parte da família, os homens duram muito pouco tempo ali. E já duravam antes, né? Porque os lobos comiam todo mundo.

Mas acho que depois que ela chega, a casa vira um espaço predominantemente feminino. E aí eu trouxe a minha árvore aqui. O Bernardinho morre logo, o francês que não consegue ficar muito tempo ali, os dois irmãos, né, os dois mais velhos da Margarida já vão embora, eles não aguentam ficar ali também, né, querem ir para guerra. Os Marti, que acho que gostavam, morrem, coitados. E não sobra mais ninguém, né? Tanto é que o—

AMArthur Marchetto

não, eu ia falar que isso é interessante porque o Smart e o Tio Raposa, que são mais afeitos à casa, eles só não voltam porque eles não acham o caminho, né? Que ela fala, eles só não voltaram porque eles não sabem onde a casa é.

IOIgor Oliveira Neves

Então a gente tem essas questões. E aí, uma coisa que eu me lembrei quando a Ana falou de quando sempre que as mulheres saem é para alguma coisa terrível, eu lembrei da prisão da Margarida, né? Que é quando ela vai ser presa e aí ela vai E aí quando ela vai indo no corredor, é o momento em que ela tem aquela noção que ela tá no inferno, né, que ela tá chegando no inferno. E é onde sai, de onde sai o título, né, que aí Deus, ela imagina Deus falando: te dei, acho que, ouvido e ouviste os outros, te dei boca e falaste com outros, te dei olhos e olhastes as trevas.

Muito, eu gosto muito desse trecho. Eu acho a cena da morte da Dulça é muito, é muito, né, muito bonita, mas eu acho que para mim a cena do livro É a da Margarida passando pelo corredor e vendo o diabo, né, ou vendo o inferno e tendo essa conversa com Deus, que é o momento inclusive que Deus é presente, né, quando ele fala na alucinação da Margarida, porque em todos os outros momentos Deus não responde. A Joana tenta, ele não responde.

A Margarida pede, pede, pede, pede, pede, pede. Ela tá rezando, sei lá, tá morta há 200 anos, há 200 anos ela reza. E elas nunca são ouvidas, né? Então o único momento que ele é ouvido é numa alucinação da Margarida falando: olha, coitada, tá ferrada. Então eu achei interessante isso, de perceber onde que aparece a voz de Deus aqui.

AMArthur Marchetto

Eu vou puxar para o terceiro bloco então, porque eu acho que a gente falou de alguns trechos. Eu tenho para mim 2, 3 trechos muito marcantes do livro. O primeiro deles talvez seja o momento da piada de peido, que tem a grande frase da literatura, que é: a mãe descia os degraus de 2 em 2, mas peidava de 3 em 3. Que é uma excelente frase absoluta de literatura. E eu queria ler também um trecho que eu acho lindo que é um trecho que vai mostrar efetivamente como é a relação da Blanca e da Elizabeth quando elas se encontram, que mostra um pouco disso que a gente falou da relação dessa escrita, que é ao mesmo tempo bastante animalesca, mas que ao mesmo tempo consegue preservar uma espécie de poesia no que está sendo escrito ali, né?

Consegue preservar essa construção dessa dessa poética. A Ana falou que queria ler o da Dulça, da Dulça. Então eu vou deixar para ela ler o trecho. E aí o trecho que eu acho que é legal é o momento em que a Blanca vê a Elizabeth pela primeira vez. E aí ela fala, abre aspas: Blanca viu a Elizabeth no alpendre como um bicho extraviado no meio da neblina, pegou-a pela mão e enfiou dentro do casarão. Tinha os dedos gelados e a barriga ainda mais protuberante e grande que a barriga que a própria Blanca carregava.

Pareciam um espelho. E desde aquele dia, a Blanca e a Elizabeth tinham se amado de todas as maneiras que há para amar: como as corças, com delicadeza; como as galinhas, encolhidas; como os patos, com força bruta; como as cabras, afoitas; como as lebres, brincalhonas; como os cães, sedentas; como as moscas, dissimuladas; como os gatos, sem piedade; como as raposas, insinuantes; como os porcos, como se fizesse séculos que se amassem.

Este trecho eu acho maravilhoso porque a gente tem várias descrições de como elas observam os bichos se acasalando ao longo do livro. Acho que principalmente a Dolça. E aí termina esse capítulo deste jeito e você fica, caralho! Eu acho muito bom esse trecho. Não sei o que que vocês acham desse momento, mas enquanto o Igor pega ali o trecho dele, Ana, se você quiser ler o da Dolça também, que é muito bonito.

ARAnna Raissa

Mas eu gosto muito desse trecho aí também, da chegada da Elizabeth. É perfeito. A Dolça pariu de manhã e morreu à tarde, mas a Bernadeta não chorou para não assustá-la. Chamava de cabritinha e a Dolça se ajoelhava, dava voltas pelo aposento de quatro, empapada de suor, com cabelo grudado na cara. A Bernadeta o afastava e dizia e a acariciava. Às vezes a doça queria carícias, outras vezes não. Estavam agachadas e a Bernadeta dizia: empurra, faz força, e você consegue, cabritinha, e estou aqui.

E então a cabeça saiu e a Bernadeta exclamou: olha só, olha só! O bebê era redondo e cheio e vinha de olhos fechados e a boca aberta. Parecia um furão e lhe puseram a Marta. A doça era uma fonte que não cessava, um jorro de sangue vermelho. Mas a Bernadeta não foi procurar uma parteira nem um médico porque viu que a doça estava morrendo e queria fazer-lhe companhia. Mordia os lábios para que não se separassem e dissessem que, de tanto observar a safadeza, de tanto observar as safadezas dos outros, não haviam olhado o suficiente para sua menina, que ela havia sido pega de surpresa que a menina crescera rápido demais, como os gatos e as amoreiras, e amarrou o Ador com a corda muito curta.

E não pedia à Dolça que a perdoasse, porque a Dolça lhe teria perdoado. Nem acreditava que a vida, que nesta vida há dois milagres: um que é nascer e o outro que é morrer. Porque a Dolça tinha sono, seus olhos se fechavam e a cabeça caía para trás. Nem murmurava que teria gostado de lhe repetir mais vezes que era a cabritinha mais linda de todas as cabritinhas, porque a Dolça entreabria as pálpebras e olhava para o bebê que acabara de parir, tranquila, meio adormecida, contente.

Por isso a Bernadeta se calava, porque há coisas que não podem ser ditas. Porque é possível falar de desgraças e é possível falar de pena e falar de arrependimento e de culpa e de morte e de dor e das coisas que os homens fazem, as boas e as ruins, mas não é possível dizer como se faz uma menina. Não há palavras para explicar como você a fez, como é tão linda, porque você a fez como a terra faz as árvores e as árvores fazem os galhos, seus galhos fazem frutos Todos os deuses foram lançados as sementes no escuro de um lugar tão dentro de você que não sabia que era dele.

AMArthur Marchetto

Essa parte é muito bonita, a parte que ela fala: e ela não falou para pedir perdão porque a Dolce perdoaria. Eu acho muito bonito, é muito legal, é muito bonito esse livro. Leiam todos vocês. E é isso aí, e a outra você tá lendo esses trechos. Eu, antes do Igor deixar, deixar o Igor ler, eu queria só comentar que eu falei, eu comecei, eu cismei de fazer árvore 2 parágrafos antes desse. Aí o Igor falou, aí, aí pode botar aí também que a Dolça morre no parto.

Aí eu falei, ah, não tinha chegado nessa parte ainda, mas eu imaginei, né, uma narrativa só de mulheres nessa época, alguma delas ia morrer no parto em algum momento. E faltava só a Dolça ali e tal. E aí eu cheguei, eu falei, caralho. Aí ele falou, desculpa por estragar. Eu falei, jamais, não tem nada que estrague o momento em que você ia ler esse parágrafo tão bonito, não tem como estragar.

IOIgor Oliveira Neves

Eu e o Arthur tivemos um professor que se ele lesse esse trecho em voz alta, ele falaria, filho da mãe! Que era um professor de, ele era de tudo, né? Mas o José Salvador Faro, que inclusive faleceu recentemente, Deus o tenha, mas que a gente lia Sangue Frio, né? E ele começava a ler Sangue Frio, ele parava e falava assim, Filho da mãe, olha aqui, olha como que ele escreve. E aí imagina ele lendo e falando, filho da mãe. Mas é depois desse trecho, né, acho que tudo fica um pouco mais, mais pálido.

Mas é o trecho que é o que eu falei, né, o que, de onde ela tira o título do livro, que é logo em seguida que ela tá, que o Francesco sumiu. Que ele já tinha engravidado, acho que a Elizabeth. E aí o diabo aparece para ela. E aí acho que é a parte muito interessante, porque é o momento que ela não consegue negar o diabo. Ela fica lá, ela fica ouvindo o que que o diabo tá falando. Aí depois ela falou, não, era para ter esconjurado, era para ter feito.

Mas ela não consegue não ouvir o diabo, porque o diabo fala. O diabo, né, é o que aparece, né? É quem vai lá e vai dar as respostas. E aí o diabo é É um boy lixo, como eu já disse para o Arthur. O diabo nesse livro, ele é um boy lixo, e mas muito sedutor, né? E aí, enfim, e aí logo depois disso ela é presa. E aí é a cena dela indo presa, que tá na página 61. Eu não sou muito, não sou um bom orador, mas vamos lá. A Margarida disse a si mesma: O Clavel tem outra mulher, mas sua barriga havia crescido desde a última visita do Francesc.

Disseram-lhe: você é a mãe dos filhos dele. Prenderam-na e a Margarida suplicou que, por favor, matassem-na logo. Em vez disso, amarraram-na atrás de um dos cavalos e arrastaram por um caminho cheio de espinhos que não terminava nunca. Então ela ouviu, inconfundível como um trovão no fundo dos ouvidos, a voz de Nosso Senhor que lhe dizia: foge de mim, maldita! O clamor terrível saía do meio das ancas da montaria: Entra no fogo do inverno que o demônio e seus ministros prepararam para ti.

Enfia-te nas trevas como a serpente que não descansa. E enquanto escalavam montanhas de esterco e fogo, desciam por vales de brasas onde o vento bramia e as árvores cobertas de gralhas e corvos guinchavam, a voz incessante a fustigava: Por que te cinzelei e tu te fizeste serva de outro? Tão ensurdecedora que a mulher quase não distinguia as palavras. Afaste-te de mim, endemoninhada, que te dei ouvidos e escutaste o outro. A Margarida olhava aterrorizada para a bunda do cavalo e negava com a cabeça.

Que te dei boca e confabulas com o outro. Ela se atravancava, mas o clamor continuava. Que te dei olhos e olhastes as trevas. E aí, logo em seguida, ela começa a ter a visão de que ela tá no inferno. E quando ela vai passando pelas celas, né, ela vai ouvindo as mulheres que são os demônios, né, também as mulheres que estão presas lá por matarem o marido, filho e mais tanto, elas também atuam ali como demônio nessa visão da Margarida.

Essa para mim é a imagem do livro, assim. Eu sei que a morte da Lúcia é muito, muito bonita, mas para mim, acho que quando eu penso no livro, eu penso nessa imagem assim dela passando pelo inferno.

AMArthur Marchetto

Mas faz sentido, porque se a gente pensa na centralidade desse Deus ausente, na presença desse demônio, né? E é um demônio muito palpável, como você falou, que é o boy lixo, né? É muito curioso que elas veem um touro e fica, nossa, mas que belo touro! E aí você vê que tem uma hora que ele só tá tipo, ah, que droga, ninguém deixa eu entrar na casa, eu tô tão sozinho. E aí ele vai, ele entra na casa, ele fica com a Bernadette, aí depois ele fala, pô, beleza, agora meu ego tá de boa, eu vou desaparecer, que se lasque.

E aí a gente descobre depois que talvez na verdade ele só não tenha desaparecido, talvez ele tenha sido capturado e morto, mas vai saber o que acontece de fato, né? O que a gente falou comigo, não dá para saber. Será que era isso? Será que era sabedoria popular? Enfim, o que que tava acontecendo ali, né?

IOIgor Oliveira Neves

É só um pai realmente dando desculpa. Ai, desculpa, não consegui participar da criação da minha filha, eu fui capturado.

AMArthur Marchetto

Tem uma coisa muito importante que a gente tem no livro, que aparece aqui inclusive na quarta capa, e que eu fui pensando se faz sentido ou não. Inclusive eu quero ouvir de vocês, porque tem uma questão de que cada pessoa dessa família tem uma falta, né? Então Tem um que nasce sem orelha, o que nasce sem ânus, a menina que nasce sem o fígado e morre, o que nasce sem o amor à mãe, a que nasce sem memória, a que nasce, enfim, sem um quarto do coração.

E eu fiquei pensando nessa, nessa relação, porque essa falta em alguma medida me parece bastante palpável no que acontece ali em relação à narrativa, ao pacto. A tudo isso que a gente vai acompanhando das histórias, todas essas ausências que a gente tem. Mas ao mesmo tempo, eu acho que ele fica nesse espaço do incerto, do demônio. De fato faltava alguma coisa, ou será que sempre falta alguma coisa para alguém porque isso é um ciclo da vida?

Será que de fato tivemos essa, essa reação, ou é apenas uma coincidência dos nascimentos, né? Tanto que eu tinha esquecido da importância dessas ausências Porque me pegou muito nesse espaço da incerteza, assim, de fato, será que é uma constituição desses personagens? É uma relação direta com a maldição ali da família ou não? Vocês tiveram essa percepção também? Para vocês, a construção da ausência se fez mais presente? Como que foi para vocês?

ARAnna Raissa

No início eu senti que isso é mais forte porque ela cita, né, um quarto de coração da Margarida, a criança que nasceu sem fígado e tal. Depois, para mim, foi se diluindo nessas faltas de sempre, né? De ter um momento que a Margarida fala que uma das filhas, uma das descendentes dela, ela percebeu que ela nunca tinha sido amada pela mãe, que a mãe nunca tinha feito carinho nela e tal. Então é uma coisa que sempre falta ali. A Margarida é uma pessoa de muitas faltas, não é só o coração, né?

Ela odeia todo mundo, ela acha todo mundo muito pecador, e ela muito— e ela quer morrer porque ela quer provar para essas outras que ela vai entrar no céu. Vocês não vão, mas eu vou. Então você sai dessas faltas físicas para essas faltas da natureza humana. É o próprio Francesca que abandona ali a vida que ele tem para caçar lobo, porque ele fica tão desesperado com essa história desses lobos que estão sempre ali, ele vira bandido.

E ele, então, eu acho que passa, a falta passa de um nível corpóreo físico para essa, para essas outras faltas. Eu gosto disso, mas tem, tem um momento que você se esquece, né? E aí daqui a pouco ela retoma isso e você vai, vai fazendo essa ligação. Como isso é feito de uma forma, até a questão da guerra, sabe, dos homens que vão para guerra, né, tem esse pano de fundo assim da Guerra Civil Espanhola, os guerrilheiros, é essa questão, essa falta, é a falta de liberdade que o fascismo traz, é a falta de outras coisas, é bem, bem interessante mesmo.

Mas é isso, ele vai passando por um um plano mais subjetivo. Ele vai entrando nas camadas mais de formação dessa, da escrita, do que ali no início.

IOIgor Oliveira Neves

É, as faltas vão ficando cada vez menos palpáveis, né? Até o Marte, que é o manco, a própria narradora disse, ah, mas quando ele cresce, quando ele começa a andar, o fato dele andar tão normal quanto qualquer outra pessoa. Então acho que também tem uma parte que é a Margarida que vai começar a elencar tudo. Eu acho que ela é um pouco mais obcecada com essa questão também, que ela fala assim: o que que falta no meu filho? Ai, falta a parte do coração dele que ama a mãe, né?

E aí, e aí chega na— e aí ela vai falando mal de todo mundo, né? Aquela ali não deixa passar ninguém. E aí quando ela vai chegando até na Alexandra, né, que é o que que falta nela? Aparentemente falta tudo, né? Que ela fala, porque ela não, quando ela vai descrever a Alexandra, porque eu até anotei aqui, acho que eu até deixei marcado aqui, que ela fala, Alexandra, ela não, é até difícil falar que falta nela, porque nela falta tudo, ó, tudo de paciência, espírito de sacrifício, a sangue nas veias, a expediente, a respeito.

Ou seja, né, coitada da menina ali, ela E é a única que tá longe da casa, né? Acho que a Alexandra, ela não entra, ela tá só pelo celular. Eu não lembro dela entrando, eu não lembro. Pode ser que ela tenha entrado, é porque entra tanta gente viva ali também no final, que é entrar a Rosa, os filhos da Rosa, a filha da Rosa, os netos da Rosa, enfim. Mas quando chega na Alexandra, já tá tipo tão pouco palpável o que que falta, que falta tudo e ao mesmo tempo não falta nada, né?

Então, mas é legal porque você tem um primeiro momento que é falar, tá, então, que é os primeiros 4 filhos, né, as duas que sobrevivem, os dois que morrem. Então, não, aqui tudo bem, aqui tá muito palpável, aqui é o trabalho do diabo.

AMArthur Marchetto

E depois vai ficando cada vez mais diluído isso, até o ponto em que ela descreve a Alexandra como alguém que nasceu fora da casa, né. Então ela já não tem mais também a conexão. Então acaba, entre aspas, ali. Ou talvez não, sei lá também o que que vai acontecer quando for a vez da Marta. Muito bem, então acho que a gente pode ir encerrando por aqui, que a gente já tem uma hora e meia de live, para também não ficar muito longo.

Se você está ouvindo este episódio enquanto ele está sendo gravado na sexta-feira, enquanto ele está sendo gravado, não. Você tá ouvindo esse episódio no momento da gravação dele, no sábado. Exato. Não, se você viu esse episódio no feed depois que ele foi postado, saiba que primeiro sábado do mês a gente tem a live. E fica o convite para nossa próxima leitura. Está dada a largada para Kim Jong-un, nascido em 1982, de Show Não Jô, um livro que parece bastante interessante e que vamos discutir no mês que vem.

Além disso, você pode, se gostar do 30 Minutos, ajudar a gente de algumas formas: compartilhar esse episódio com quem você acha que pode gostar, pode seguir a gente nas nossas redes sociais, tanto no Instagram quanto no grupo aberto do Telegram do Guruja, ou pode também compartilhar esse episódio nas suas redes sociais, postar nos seus status aí do que você usar, nos seus feeds de texto que você preferir. Pode também abrir o seu tocador de podcast agora, pode deixar um joinha, 5 estrelas, coraçãozinho, seguir, o que o seu tocador de podcast permitir.

E se puder deixar um comentário para gente ali, a gente também acompanha e dá uma lida nas devolutivas de vocês, sugestões, ideias, impressões, o que vocês acharem deste episódio. Para ajudar a gente financeiramente, tem algumas possibilidades. Você pode, em primeiro lugar, ouvir o episódio pela Aurelo, tanto no aplicativo quanto em www.30min.com.br, o 30 numeral mesmo, 30min. Lá na Aurélio cada player é remunerado, então você escuta, não gasta nada, e a gente ganha um trocadinho.

Você pode clicar no nosso link afiliado e na vitrine da Amazon aqui embaixo. Sempre repetimos, não é o nosso incentivo, não use a Amazon como primeira escolha. Tem biblioteca, aplicativos gratuitos, várias iniciativas também que deixam você encontrar livros sem precisar pagar. Tem sebo, tem livraria. É sempre importante lembrar que nós não consideramos a literatura como um acesso pago. A literatura está aberta, existem várias possibilidades.

Mas nos momentos em que você for utilizar a Amazon para comprar o livro, pode clicar no link e reverter parte do seu gasto, da sua renda, para o nosso caixa, para manutenção do podcast. Você pode também pela Aurelo apoiar o podcast. Temos faixas de R$10, R$20, R$40 e R$80 para você apoiar, e lá cada um tem uma coisa específica. Mas se você não puder comprometer a sua renda mensalmente, o que que a pessoa pode fazer, Ana?

ARAnna Raissa

A pessoa pode fazer um Pix de qualquer valor para pix@30min.com.br e nós não usaremos esse dinheiro para fazer pactos com o demônio ou algum demônio. Nós usaremos esse dinheiro para manter esse episódio no ar todas as semanas do ano, para quem paga, para quem não paga, para quem fez pactos, para quem não fez, para quem está vivo e para quem nem tanto. Então, pix@30mil.com.br.

AMArthur Marchetto

Aquele perguntou onde a gente pode imprimir e colar esse episódio. Você pode imprimir o QR code desse episódio e colar nos bancos da sua paródia da Igreja Católica. Passa cola ali naqueles folhetinhos que tem antes da missa, cola nos bancos, deixa ali colado nos degraus, deixa ali para quem for fazer um casamento. De repente você não é católico, tudo bem, passa lá só para colar o QR code. Só para a gente manter essa tradição do Te Dei Olhos, olhar essas trevas vivas ali para a gente compartilhar.

Então, oficialmente, a gravação, nós vamos ficando por aqui. Teremos recadinhos na live, mas para quem nos acompanha gravado, um beijo e até a próxima semana. Tchau, tchau!

IOIgor Oliveira Neves

Senhoras, senhores e proletariado não Este podcast foi editado por Ajota Oliveira.