594: O invisível trabalho intelectual feminino (ONG de macho)
Arthur Marchetto e Anna Raissa tiram Cecília Garcia Marcon da licença maternidade para compartilhar algumas das histórias mais sinistras sobre o trabalho invisível das mulheres de escritores.
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- Legitimidade intelectual femininaONG de macho · Rui Alves · Gabriel Galípolo · Livro 'Mil Dias de Solidão'
- O trabalho de Vera Nabokov com LolitaLolita · Exegese Evangelho Joao · Posição de Vladimir Pershin
- Produções recentes de TokusatsuGuerra e Paz · Sofia Tolstaya · Caso de Luana e Welington
- Obras de Mikhail Bulgákov e Lafcadio HearnO Mestre e Margarida · Kwaidan · Exegese Evangelho Joao · Mikhail Bulgákov · Lafcadio Hearn
- O trabalho de Carolina, esposa de Machado de AssisMachado de Assis · Carolina · Literatura portuguesa
- Dostoiévski· CulturaFiódor Dostoiévski · Anna Grigórievna Snítkina
- Obras de Harlan CobenCapitalismo e escravidão · Trabalho doméstico não remunerado · RPG de Várzea
- Obras de F. Scott Fitzgerald e ZeldaO Grande Gatsby · F. Scott Fitzgerald · Zelda Fitzgerald
Está começando mais um 30 Minutos, a sua meia hora alucinógena de literatura. Eu sou Arthur Marqueto, estou aqui com Ana Raíssa e rufem os tambores, estamos aqui com nossa mamãe Cecília Garcia Marcon.
Eu, gente, o que que eu tô fazendo aqui? Por que que essa mulher não tá lá cuidando de criança? O que que ela tá fazendo aqui falando?
Onde tá sua filha?
A Flora também vai participar. Não, brincadeira, ela não vai gravar ainda. Já vai compartilhar as primeiras leituras. Não, a gente veio aqui hoje para trazer uma pauta que a Cecília quis gravar, estruturou para gente. Estamos aqui para discutir um tema muito interessante com vocês. Você quer dar uma palhinha, Cecília? O que que as pessoas podem esperar?
Tudo começou há um tempo atrás. Não, mentira, é Ana Raíssa, esta diva que está aqui conosco, compartilhou um post no seu story contando uma das histórias que a gente vai comentar aqui hoje sobre como algumas das obras muito maravilhosas da literatura que nós temos chegam até nós porque havia, cuidando de um contexto doméstico, cuidando das finanças ou garantindo que não fossem queimadas ou algo do gênero, mulheres, né, que estavam fazendo esse trabalho ali, que de alguma forma davam essa sustentação, essa possibilidade para que a obra acontecesse, né?
E aí, e o quanto isso não é reconhecido de alguma maneira assim, o quanto isso fica, tudo acaba sendo ofuscado, encoberto pela genialidade da obra, e a gente esquece do que que será que foi necessário para essa obra acontecer, chegar lá, né, aqui nas nossas mãos e tudo mais. E aí eu brinquei com ela na resposta, falei assim: mulheres ongu de macho. Para quem ouve, não inviabilize, é do programa da Dé Freitas. Ongu de macho é um termo que ela usa para mulheres que se colocam numa situação em relações, se que não são colocadas, vai, em situações, se colocam também em alguma medida em que elas sustentam 100% seus companheiros.
Não porque, sei lá, eles estão casados, perderam o emprego e precisou bancar a casa um tempo, que é uma coisa natural. É assim, começa: ah não, eu pago o bis de limão que o fulaninho gosta. Ah, o fulaninho gosta da Coca Zero de garrafa de vidro. E aí ela paga, né? E aí esse cara acaba sempre dando um golpe Nela ali, né? Essas são as histórias do Colégio Limão. E ela cunhou, não seja, o termo, né? Não seja ONG de macho, para que as mulheres fiquem espertas e vejam se não tá rolando ali uma coisa desigual, uma possibilidade de golpe.
Então eu brinquei com ela que assim, muitas mulheres foram ONGs aí desses grandes escritores, de alguma forma cuidadoras, etc., para que a gente pudesse ter essas obras hoje. Aí o episódio é, olha só, tá? É uma coisa da qual a gente nunca falou, né? Desses bastidores aí, dessas figuras invisíveis aí. Então é isso, dei uma palha gigantesca. Não sei mais gravar, Arthur, esqueci.
E você falou bis de limão, eu lembrei da história do bis de limão, que é inclusive o cara que é onga de macho do casal. Eu acho maravilhosa essa história, foi uma das minhas favoritas.
Simplesmente o auge. Bisnaguinha e bis de limão.
Existem pessoas que fogem de conflito, mas esse cara Muito bem, vamos para os recadinhos e bora para o episódio. Opinião, recomendações, curiosidades e muito mais. Está no ar mais um 30 Minutos, sua meia hora alucinógena de literatura. Se você está ouvindo este episódio no dia em que ele saiu, ou pelo menos no dia próximo, significa que você está preparado para começar e participar da próxima live de leitura, que é Te Dei os Olhos e Olhaste as Trevas.
Já começamos as leituras no grupo, as pessoas já estão empolgadas, achando interessante. É um livro meio esquisitinho, meio com pacto fáustico, é um livro que tem muitas discussões e que de alguma forma vai dialogar com a temática desse episódio. É um livro protagonizado por mulheres. Eu ainda não comecei a leitura, vocês já ouviram a sinopse dele em alguns episódios aqui. Vocês duas já começaram alguma coisa?
Ainda não?
Uai, esse eu nem vou ler, que eu não vou participar da live.
Ai, que dó, mas o livro é bom, pode ler, Cecília.
Uai, meu filho, assim, calma. Eu tenho as minhas leituras do Puerpério que são farofas de madrugada, porque é o que meu cérebro dá conta, madrugada adentro. E 1 a 2 livros mais analíticos que eu leio durante o dia, nos minutinhos ali que eu tô acordada, ou que a Flora tá dormindo. Então não cabe. Mas eu tô muito curiosa para ler o do próximo mês, então quem sabe dê certo. Mas esse aqui, esse aqui não. Mas eu tenho uma amiga que já gravou aqui com a gente, a Tati Fadel, que gravou um episódio de Grande Sertão Veredas, que já leu o autor e gostou muito, ficou alucinada com O Canto Eu e a Montanha Dança, ficou muito empolgada.
Então se isso serve de algum, de algum auxílio aí, de uma motivação para quem tá lendo, a Tati tem um gosto muito, muito apurado assim, tipo, ela curte muito várias coisas que a gente curte aqui também. Então a autora parece ter essa possibilidade aí de cativar e faz títulos muito interessantes, né? Quando Eu e a Montanha Dança, Te Dei os Olhos e Olhaste as Trevas.
Também gostei, me chamou atenção inicialmente pelos títulos também. Estou aqui, ó, ansiosa.
Mas você tá igual eu, sem começar, sem começar.
E até agora você fez o quê?
Tá vendo? Vocês ainda tão em dia, é só vocês pegarem o livro e participarem com a gente. Tamo ainda na caçada pra começar e a gente espera vocês lá. Além disso, vocês podem apoiar esse podcast pra ele continuar existindo de várias formas. Você pode seguir a gente no Instagram, pode entrar no nosso grupo no Telegram e no Goodreads, participar ali dos desafios de leitura do Goodreads que a gente faz toda vez que sai. Muitas pessoas não conseguem, como eu na última vez, mas tem sempre algumas coisas legais, lançamentos, títulos novos, coisas que a gente vai conhecendo.
Alguma farofada que você vai lendo. A Cecília comentou aqui um das Donas de Casa Caçadoras de Vampiros, que faz parte da lista dela de leituras do Puerpério, já está arrancando comentários. Não sei se são risos ou tristezas, indignações, mas muitos comentários no grupo do WhatsApp. Você tem também o grupo fechado do WhatsApp, que é onde as conversas acontecem mais, e para isso você pode ser uma pessoa que apoia e contribui com esse podcast pela Orelo lá.
É um tocador de podcasts, cada player é remunerado, você escuta e não gasta nada, mas a gente já ganha um trocadinho. E é lá também que você ganha acesso a todos os benefícios, links, grupos, sorteios, enviar áudio, tudo você encontra no aplicativo de inscrito, recompensas e faixas, tanto no celular quanto em www.30min.com.br. O 30 numeral mesmo, 3-0-M-I-N. Você acessa, é só encontrar e estaremos lá. Deixa um comentário pra gente também, seja no Instagram, no Telegram, ou no Spotify.
Temos agora alguns comentários que estão chegando no Telegram, o grupo está ficando mais ativo, estou muito feliz. Podem continuar. Um agradecimento especial para Priscila, que sempre manda lá. Podem também deixar os seus comentários no Spotify, que vocês estão aumentando. Então gostamos muito, sempre acompanhamos, sempre lemos. E é isso, podem continuar, que a gente gosta. Muito bem, acho então que para a gente começar, a Cecília quer apresentar mais alguma coisa da pauta? Você acha que a palhinha já foi bom? Senão a gente vai comentando.
Ah, eu acho que a gente pode lembrar, né, o ouvinte e apresentar para quem não ouviu. A gente teve um episódio, Por que ler Silvia Federici?
Ah, sim, muito bom.
Tem tudo a ver com essa pauta, né? A Silvia Federici, uma historiadora italiana muito importante, porque ela vai estruturar e de alguma maneira trazer para o grande público a ideia de que O capitalismo se estrutura como se estrutura por causa da escravidão, por causa do colonialismo e por causa do que foi feito com as mulheres, principalmente ali a partir dos cercamentos em que as propriedades deixam de ser comunais, as mulheres passam a perder o direito de ter suas propriedades, uma série de questões vão acontecendo, e aí existe esse confinamento das mulheres na esfera doméstica que impossibilita o acesso a uma série de espaços, né, e assim por diante.
E ela vai dizer que esse trabalho doméstico que é feito pelas mulheres e que não é remunerado, ele estrutura tanto a domesticação ali das mulheres, elas ficarem em casa presas ali porque elas não conseguem sair para trabalhar, né, não conseguem se sustentar sozinhas, quanto o enriquecimento, né, dos homens assim. Então essa ideia do que se populariza na internet como o trabalho que é dado como um amor. Então a mulher ela cuida da casa, ela cuida dos filhos por amor.
Gente, é por amor também, mas é um trabalho do caralho. Tá falando com muito conhecimento de causa agora, é um trabalho do caralho e você não ganha um mísero centavo. Deveria? Não deveria? Não é isso que tá em pauta. A questão é que é um trabalho que não se ganha. A gestão doméstica passa a ser vista a partir desse momento como uma responsabilidade natural das mulheres, né? Então esse episódio a gente discute um pouco sobre a obra, sobre a importância da Silvia Federici, dá um caminhozinho de como fazer a leitura da obra dela.
Para não se perder, né, porque obras teóricas sempre dão essa coisinha. Acho que tem tudo a ver com isso que eu propus aqui para nossa pauta de hoje, assim, os trabalhos invisíveis de alguma maneira, não remunerados também, sabe? Então só esse, acho que vale a pena lembrar desse episódio muito bacana que a gente gravou de Dia Especial da Mulher.
Esse post que eu compartilhei, que a Ceci comentou, ele falava especificamente da Mercedes Bártia, Borchia, esposa do Gabriel García Márquez. Eles foram casados a vida toda, quase 60 anos. Ele sempre foi muito vocal em falar que só existe O Cem Ano de Solidão por causa dela, não só porque ela era sua primeira leitora e ele chamava ela de a minha crítica mais implacável, como pelo fato dela ter administrado a vida doméstica ali ao ponto ela ficar devendo aluguel.
Ele contava isso morrendo de rir, assim, que o cara ligava para cobrar o aluguel, ela tampava o telefone assim e falava assim: quanto que falta para terminar o livro? Aí ele: 3 meses. Aí ela negociava com o cara: 3 meses. Sendo que a gente sabe que não dá, não é assim que se mensura, né? Então ela, ela administrou as contas da casa, a casa, o cuidado com os filhos, o cuidado com o próprio Gabo, para que ele pudesse se dedicar Não só O Cem Anos de Solidão, como ele sempre deixou muito claro que ele só pôde se dedicar às letras, né, à literatura, porque ela fazia esse trabalho administrativo.
E aí fala disso, especificamente esse post fala do Cem Anos, que tem já a história muito conhecida de que quando ele terminou, eles foram aos Correios e ela só tinha metade do dinheiro quando ele pesou, porque eles moravam no México e o livro foi publicado, a editora do Gabo era na Argentina. E aí eles pesaram o livro e falou, olha, deu sei lá, 80 pesos. E ela, putz, eu só tenho 40, hein. Aí eles mandaram metade, ela voltou em casa, penhorou algumas coisas em casa, batedeira, secador de cabelo, voltou e enviou a outra metade. Ainda brigou com ele, falou assim, só me falta esse livro ser ruim.
Aí também é foda.
Eu abro mão, Gabriel. Porque essa hora ele já não era Gabo, né? Essa hora quem é casado sabe, essa hora ele já virou Gabriel. Sabe o que só me falta, Gabriel? Esse livro ser uma merda, porque eu empreendi meu secador de cabelo.
Meu secador de cabelo.
Graças a Deus.
Você vai se ver comigo. Então ele sempre foi muito vocal, o que não é comum. É isso que a gente vai discutir. Não é comum mulheres nesse papel, nesse espaço, terem esse reconhecimento público, né? E ela, Mercedes, sempre foi muito reconhecida pelo Gabo, pelos amigos do Gabo. Pelos editores. Então ela teve um caminho meio diferente aí, mas não deixou de ser a pessoa que administrou a carreira do García Márquez. Porque a gente sabe que mesmo quando a gente fala de trabalho, um trabalho não criativo, vamos dizer, um trabalho comum como o nosso, o mercado de trabalho ele é desenhado para o cara pro homem que tem uma— eu não vou nem dizer um empregado, ele tem uma esposa em casa.
Ele só se trabalha 8 horas por dia, só se trabalha presencial, só porque esse mercado de trabalho foi moldado para o cara que não cuida de casa, não cuida de filho, não leva ninguém no hospital, não é o que vai na escola buscar boletim, porque quem faz isso é a mulher. Quem deveria fazer segundo as normas. Então o mercado de trabalho ele já é moldado. Então quando se ouve falar que um homem se dedicou a isso, provavelmente tinha uma mulher administrando aquilo, e a Mercedes Bártia fazia esse papel.
E o É o País, que foi o jornal para qual o Gabo escreveu durante anos, fez um editorial muito bonito quando ela faleceu em 2020, que chama, e começa com o título, né, é: Morre Mercedes Barcha, a mulher que tornou possível o sucesso de García Márquez. É muito difícil a gente ter isso na mídia. A gente já tem o famoso meme da Folha de São Paulo de morreu essa vagabunda, toda vez que uma mulher morre, né? E aqui a gente tem um—
desculpa, tô rindo de nervoso.
Rita Lee, Marília Mendonça são bons exemplos desses editoriais horrorosos.
Horrorosos, então. E nem são mulheres que são mulheres que, no caso da Rita Lee, da Marília Mendonça, que eram donas da própria carreira, né? Imagina.
Pois então, é horrível.
Então, até esse espaço que o É o País deu também é fora da curva. Então a Mercedes, ela teve esse papel. O Gabo não se furtou nunca a dedicar livros a ela, a falar da importância dela, a contar engrandecendo mesmo assim. Foi ela que fez, foi ela que cuidou dos meninos, foi ela que vendeu o carro. Tem a história do carro branco que ele tinha, ele tinha, sei lá, um Cadillac, um carro assim, quando ele trabalhava com publicidade, que era o que dava dinheiro.
E se enfarou, pensou assim, eu não vou ficar escrevendo roteiro para TV aqui para vender, sei lá, gilete, sabe? Eu quero— então é essa administração da vida cotidiana que se espera de uma mulher. E que essas mulheres fizeram. Aí a gente tem essa diferença aqui. Nesse caso não era só o cara que saía de casa para bater ponto e ter um trabalho administrativo, ou sei lá, um professor, ou no nosso caso, mesmo trabalhando com o mercado editorial, eram mulheres que eram esposas de figurões da literatura e que de certa forma a gente vai falar, né, de de todas nesse sentido assim, eram mulheres que admiravam o trabalho do próprio marido.
Então ele tem uma questão aí além, que vai além do simples é o que é esperado de uma esposa e viram não é só um investimento naquela família, eu não estou só investindo nos meus filhos, no futuro dos meus filhos, da minha família, do meu marido, estão literalmente investindo nessa carreira que é uma carreira na qual elas provavelmente acreditam. Né? A gente tem outros exemplos também, dos quais a gente vai falar, que são mulheres que liam, reliam, sei lá, assinam um copy, descavam, que faziam revisão.
No caso do Machado de Assis, a Carolina era revisora dele, era a mulher que lia para ele quando ele perdeu a visão. Então é um trabalho essencial e é um trabalho que torna possível essas carreiras. Assim, essas carreiras foram, são os gênios que são porque puderam se dedicar àquilo Sem precisar acordar no meio da noite pra levar menino na UPA porque tá com febre, sabe?
É, a ideia é te desconstruir a coisa do gênio solitário, né? Do cara que entrou num escritório, começou a datilografar, começou a escrever e dali saiu a obra e plim, mágica, né? Tem que lembrar desse entorno.
Tem uns casos em que isso aparece no próprio livro, né, que vocês estão comentando. Tem, acho que a Cecília pode comentar depois do outro que ela descobriu bastante parecido. Mas não é surpresa pra vocês de que um dos meus livros favoritos é O Mestre e Margarida. Do Mikhail Bulgákov. E no livro tem a história de um escritor frustrado, perseguido ali pelo regime soviético e tal. E nesse, nessa narrativa, nesse livro, o escritor ele vai queimar o livro, né, por medo da perseguição do regime, da censura.
E o livro é salvo pela Margarida ali, né, pela história. Esse livro inclusive é um livro que tá no meio do livro, né, a narrativa é intercalada entre o que acontece com a chegada do do Jânio e a sua trupe na União Soviética. E intercalado com esses capítulos tem uma narrativa de Pôncio Pilatos, que é o livro que supostamente o escritor do livro tava escrevendo. Só que na verdade essa história acontece também na vida real. Então o Bulgákov, ele queimou os livros numa fornalha de casa ali com medo de perder a leitura.
E entre outros trabalhos editoriais que a esposa fazia ali com o livro. Teve também esse processo de salvar a própria leitura, o próprio romance do queimado, assim como no romance. Tem outros casos muito interessantes. Se vocês estiverem ouvindo esse episódio agora, vocês provavelmente ouviram há pouco tempo o episódio do Autores Viajantes com a Paula, há duas semanas, uma semana, vamos ver ainda quando esse episódio vai sair.
E aí a gente falou brevemente do Kwaidan, que é um livro de contos que aqui a gente tem publicado pela Fósforo, que foi escrito pelo Lafcadio Hearn. E é uma trajetória muito interessante essa do livro, que inviabiliza também esse processo editorial. Porque vejam bem vocês, ele é um cara que passa por um processo muito complexo na vida dele. Ele vem de uma família rica, perde tudo quando ele é criança, é tudo mesmo. Ele perde os pais, ele perde a fortuna, ele vai viver de cuidado com um parente.
Logo esse parente também perde tudo, ele vai morar no internato, ele vai morar na rua. Aí ele vai mudando de país, ele passa por uma série de problemas, até que em um momento ele vai cobrir um evento no Japão. Ele chega a morar na rua um tempo e tal, ele começa a morar numa redação, ele começa a escrever porque ele começa a morar na rua, passa a morar numa gráfica que ele trabalha, e um dia o escritor vê que ele escreveu em um papel lá, acha que ele tem uma espécie de dom e contrata ele, ele vira jornalista e tal.
E uma dessas viagens ele vai pro Japão e ele conhece o Japão e ele gosta muito do Japão. Ele encontra lá uma espécie de de paraíso idealizado, aquela questão um pouco orientalista, um pouco de olha como esse povo aqui é um povo bonito, um povo legal. E ele tem também uma questão com a modernidade. Então ele vai para um espaço no interior em que ele entende ali que tem um modo de vida japonês que tá sendo preservado e tal. E ele se encanta por aquilo, por aquela vida, e ele passa o resto da vida lá registrando os relatos, as histórias, os contos, tudo que ele consegue fazer ali de história oral e de costume para poder manter essa espécie de espaço idealizado que ele visualizou sem a contaminação da modernidade.
Então, o Kwaidan, por exemplo, é uma reunião dessas narrativas orais de histórias de terror, de uma tradição muito específica do Japão, de enfim contar história de noite, cada uma com a vela, enfim, história de fantasma, uma série de particularidades. Ele reúne essas histórias para poder narrar. Ele casa com a filha de um samurai, porque o samurai ele foi deserdado, e aí ele não vai conseguir um bom casamento, e aí ele acha que esse professor ali é uma figura interessante para manter.
O que é engraçado, porque ele vai para o Japão para ensinar inglês, então ele também é um agente da modernização. Ele fica ali ensinando inglês ao mesmo tempo que ele preserva esse espaço. Mas eu queria dizer que é curioso, é porque ele registra essas narrativas, essas histórias orais. Mas vejam vocês, ele nunca aprendeu japonês, ele não conseguiu aprender a língua. Então o processo editorial, vejam só, o processo editorial é a esposa dele ouvia as histórias, passava reunindo as histórias, recontava as histórias para ele.
Ela fazia esse processo que ninguém sabe muito bem se ela editava, se ela mudava, se ela passava, se ela fazia, né, uma professora, o que provavelmente faria de ajustar, de trabalhar esse texto. Ela fazia basicamente um preparo de texto oral, né? Ela fazia a preparação do texto, narrava para ele o texto, e ele antes de dormir contava o texto para ele. Ele dormia, acordava e escrevia o texto efetivamente. Então esses livros que são muito famosos pelo Cádio Hearn, são praticamente contadas pela esposa que faz o processo de pesquisa e coleta das histórias orais.
É um processo da Glória, é, tô passada.
E aí você vai ver as histórias, né?
Não tem o nome do mundo.
É, exato. E aí ele passa por esse processo de escrever, passa por esse processo.
Eu não posso falar aqui que o jurídico não deixa o processo, mas vocês saibam que eu tenho uma palavra para esse processo. Que geraria um processo se eu dissesse, mas eu não disse.
Então não pode gerar um processo.
Parceria! Meu pau na sua pia, esse rapaz seria o meu favorito.
Mas é isso, a gente falou brevemente desse nome no episódio com a Paula porque ele faz parte desse processo de autores viajantes, de pessoas que vão, né, na pesquisa dela, viajam. É porque o processo da história de vida viaja porque não tá preso, né?
Se tivesse preso, não viajava.
Mas é esse processo que ele tem de construção da identidade dele, enfim. E aí esse é o, a presença que ele tem ali. Mas é uma história, a edição da Fósforo, honestamente, a edição da Fósforo tem uma introdução muito interessante sobre o trabalho da esposa e sobre a vida dele. É um livro bastante legal assim.
Eu vou aproveitar que a gente tá na rinha de filho da puta e vou trazer o outro filho da puta já. Depois a gente fala sobre o outro que quase queimou tudo, que era um chili quente. Quanto mais eu pesquisei sobre essa história Mas eu fiquei passada com, meu Deus, depois nós que somos emocionais, né? Gente, a hora que eu contar, vou deixar para o final para aumentar a retenção. Mas é, o grande filho da puta é o Tolstói, sabemos.
Ah, porque na Karenina, tudo bem, a gente pode achar, eu tenho avisado. Ah, nossa, é, gente, fazer o quê? Fazer o quê? Às vezes acontece, não é raro, entendeu? E aí o Tolstói, ele tinha uma letra extremamente difícil de entender, tá? E além de tudo, ele tinha o costume de ficar escrevendo e reescrevendo as coisas, né? Então tudo muito tranquilo assim, escrevendo e reescrevendo uma coisa que ninguém entendia. Vejam, entende como uma coisa é complexa, né?
E aí a Sofia Tolstaya, né, que é a esposa dele, ela chegou a copiar. Eu estou usando o termo copiar para que vocês entendam que não é digitar, é pegar algo e com as suas próprias mãos, como diriam as pessoas do Diva Depressão, Reescrever, usar ali, ó, 7 vezes ela reescreveu Guerra e Paz. Eu vou repetir porque talvez não tenha tido impacto suficiente. 7 vezes reescrever Guerra e Paz, tá bom para vocês?
Para o querido ouvinte que nunca viu Guerra e Paz, Cecília, qual o tamanho mais ou menos do Guerra e Paz?
O Guerra e Paz, se por acaso faltar um tijolo baiano para você construir a sua parede um dia da sua casa, dá para colocar Guerra e Paz. Estamos falando de mais de 600 páginas. Digitadas, tá bom?
Porque eu não sei.
Só que aí você fala assim, não, então eles eram de uma família rica e tava tudo rolando. Não, eles tinham 13 filhos. É claro que o Tolstói não ia se meter na criação das crianças, né? Então ela gerenciava os 13 filhos, ela revisava as obras dele, ela administrava a propriedade, ela era agente dele em alguma medida. E o Tolstói, o que que ele fazia? Enchia o saco, que ele era muito bom. E o Tolstói, ele era, ele era essa seria o 14º filho de alguma maneira, porque ele era essa figura extremamente— e crises e tudo acontecendo assim, né?
Então Tolstói é uma figura extremamente controversa e complicada, extremamente talentosa, evidentemente, não tô aqui para falar que não. E que só é possível que a gente tenha acesso a Tolstói porque houve Sofia, entendam isso. Não estou disposta a fazer concessões na minha afirmação, sabe? Então E aí vocês acham que ele fazia igual ao Gabo? Não, não, não, não, não, não, não, não, não. Ela só fez a obrigação dela, nunca, né, não surge um agradecimento, nada assim, né.
Então, se eu não me engano, a Carambaia tem uma obra que é publicada, que é da Carambaia Sofia Tolstói. É isso, é o livro da Carambaia que é o Tolstói e Tolstói, que vai trazer ali um pouco da voz literária da Sofia. Então tem essa publicação da Carambaia para quem tiver interesse. São 3 novelas, 2 da Sofia e uma do Tolstói, que sabemos está na mão das pessoas porque ela provavelmente reescreveu, porque ele tinha problemas ali com a sua caligrafia.
Então, ouso dizer que ele só se deu ao luxo de ter uma caligrafia ruim porque ela conseguia ler a caligrafia dele. Porque se ele não tivesse ninguém para fazer esse trabalho, ele tinha aprendido a escrever direito. Não me venha com essa.
Isso aí é, ou tinha pagado alguém para fazer isso, entende?
De forma de competência, essa letra feia.
Aí, pessoal, eu vou dizer, eu vou falar uma coisa aqui agora como professor, que é: na minha carreira de 15 anos de docência, pelo menos 90% das letras ilegíveis que eu peguei, pensando em letras ilegíveis de pessoas obviamente que tinham condições de fazer uma letra legível e não faziam por outras razões, não tô falando de pessoas com dificuldades motoras efetivas, obviamente, mas sempre bom dizer o óbvio, né? Pelo menos 90% eram meninos.
Pouquíssimas meninas tinham uma letra ilegível. Eu consigo lembrar de umas duas assim, mas acho que é isso, né? Se ele não conseguisse resolver esse problema, ele poderia pagar alguém. Mas tendo uma esposa, você não precisa pagar por muita coisa. Esse aqui é o grande rolê, né? E ele usava isso, né, com grande filho da puta. Que nem eu falei, depois da história do Arthur, né, hoje a gente vai na rinha de filho da puta aqui, né?
Porque sinceramente Quando a Cecília me apresentou essa pauta, eu lembrei muito de um livro que eu tava, que eu tô ainda, não consegui terminar lendo, que chama Olha-Me, Narra-Me. E é um livro que eu tô achando muito interessante e que me parece que de alguma forma ele dialoga com a temática desse episódio. Porque a Brisa Della Li, ela é uma filósofa que vai falar de narrativas e narração e vai falar principalmente de uma de um desejo de ter a própria história contada, que é um desejo inerente a todas as pessoas.
Ponto. Todo mundo gostaria de ter a própria história de vida contada, narrada, e que isso se dá em moldes diferentes e construções diferentes, e isso se apresenta de maneiras diferentes. E como ela é uma pensadora italiana feminista, ela vai usar uma grande parte da análise dela como uma chave de gênero também. E ali uma coisa que eu achei bastante interessante: primeiro lugar, ela vai postular como a filosofia crece em oposição à narração e parte também de um pressuposto de mudança de uma cultura oral para uma cultura escrita.
E ela vai colocar a poética do Aristóteles como ponto de partida, que ele vai falar como toda parte da ficção é uma grande idiotice, uma grande mentira, e que só serve ali para ludibriar o pensamento e as sensações e tal, e que o grande trunfo é o pensamento estruturado, o pensamento filosófico. Que é o que também vai se transformar hoje em dia, milhares de anos depois, nesse pensamento científico do que a gente tem até hoje, né?
Então essa questão de estruturar da racionalidade, de não ceder aos sentidos, tudo isso tá ligado também à estruturação desse pensamento platônico, aristotélico, perdão, aristotélico. Mas Platão também vai fazer muito da caverna, vocês entendem. Platão também já tinha um pouco disso. O ponto que eu tô querendo dizer com isso é porque a gente tem aí na estruturação dessas histórias, desse pensamento, uma tradição de histórias, de registros, de questões de pessoas e histórias de vida que se mantêm principalmente por atos heroicos e por histórias que são justificadas pela vida que viveram, e uma vida que é justificada no campo político.
No campo público. Então as vidas, elas são justificadas a partir do que você é, não quem você foi. Então não é uma história particular, mas uma história sobre a sua função, sobre o seu cargo que você ocupava, e que isso geralmente tá envolvido com a sua relação na morte. E aí ela cita, por exemplo, Aquiles, que a grande honra dele que Zeus concede ali como justiça é a possibilidade de morrer com grandes feitos. Ela vai falar do Odisseu, que chora quando ouve a própria história, porque ele entende todas as ações que ele fez e consegue compreender a grandiosidade da vida dele, porque a pessoa ouve a história dele sem saber, sem que o narrador saiba que ele tá ali.
E vai falar do Édipo, que tem a tragédia que tem porque ele não entende a diferença da individualidade da vida dele com a individualidade, com uma questão do homem enquanto unidade, enquanto ser exemplar, né, do que que é um cidadão. E ela vai falar que isso não acontece nas narrativas de história de vida de mulheres, porque a mulher ela não tem o espaço público. Então esse espaço que elas ocupam, essa ideia de ter uma vida pautada pelas ações que foram vividas e preservadas e tal, ela não existe no campo dessas histórias de vida, né.
Então o que existe às vezes é uma relação de papel. Então assim, o que que elas foram? Ela foi mãe, ela foi professora, ela foi tal coisa. Mas não tem uma valorização dessa história de vida. E pra essa pauta, quando a Cecília apresentou, eu fiquei pensando muito nisso assim, porque a gente tem esses papéis que elas foram, funções majoritariamente inclusive domésticas. A gente tem em segunda etapa uma função editorial. E que é uma função editorial invisibilizada até os dias de hoje.
Então assim, a luta por um crédito de tradução, ela ainda acontece com muita força. A gente ainda tem pouquíssimas editoras que se dignificam a dar crédito de edição, crédito de revisão, crédito de preparação, crédito, enfim. Mesmo na folha técnica, né, não é uma questão de colocar na capa e mostrar todo mundo como autor igual, mas é assim uma questão de funcionamento técnico, de como funciona. E imagino que parte dessa resistência tenha também a ver com essa tradição doméstica de quem faz a preparação e a edição do texto, que tem a ver com essas histórias que a gente traz.
Enfim, eu fiquei pensando em muitas coisas. Eu não sei se vocês já tiveram contato com esse texto, alguma questão nesse sentido, ou se faz sentido para vocês também.
Eu não conhecia, não conhecia não, mas você tem falado bastante, né, dessa, desse livro aí. Acho que tem algumas questões importantes, né, dessa questão do do por onde você narra a história de alguém, do que você destaca da história de vida de alguém, o que você esconde, né, os recortes que se fazem na construção dessas identidades aí, né. Fiquei interessada aí, um dia, quem sabe. Não consigo fazer planos a longo prazo no momento.
Eu também não conhecia, conheço através do que você vem comentando, e enquanto te ouvia eu fiquei pensando nisso que você também chegou a essa conclusão do talvez pelo trabalho de edição, de tradução, de coleta, ter vindo desse âmbito doméstico, até hoje você tem um problema de mercado, né, disso ser reconhecido. E aí me lembrou a, que não é a única, e eu falei que a Carolina, mulher do Machado de Assis, que era quem apresentou para ele, por exemplo, a literatura portuguesa.
Então, o que ele conhecia de literatura, que ele traduziu Vitor Hugo, ele era um grande leitor dos franceses da época. E mas quem abriu essa porta da literatura europeia para ele foi ela. Ela era portuguesa, de família portuguesa, morava no Rio, e ela era então né, uma mulher interessada em literatura, uma mulher culta, e ela era a revisora dele, né. Não sei até que ponto ela não fazia um trabalho de edição, mas ela era quem apresentava os textos para ele, era quem revisava os textos dele, era quem lia para ele depois quando ele foi ficando cego.
Ele não chegou a ficar totalmente cego, né, mas à medida que ele foi envelhecendo, o Machado de Assis tinha uma série de questões de saúde. Então também esse fato, né, de ser um cara com uma série de questões de saúde que pode se dedicar à literatura, é porque tinha esse apoio inclusive de saúde, né? Ao contrário do Proust, que não foi casado e também era conhecido por ser bem doentinho, só que o Proust era rico, né? E aí entra o que você falou, quando você tem uma esposa você deixa de pagar por várias coisas, Então a Carolina fazia.
Carolina era outra que era muito elogiada publicamente pelo marido. Tem um poema lindíssimo dele para depois da morte dela, assim, se vê-se que era.
E olha que Machado nem era tão bom assim na poesia quanto ele é na prosa, mas esse poema é de fato lindo, o amor dele.
E ele morreu logo depois, né, um desses casos, desses casais que não sobrevivem muito um ao passamento do outro. E ela, então, ela com certeza teve contato com esses textos que para a gente até hoje a gente está discutindo muito acaloradamente o quanto que ele era um gênio. E ela provavelmente tava ali, né, ajudando ele a se construir como autor, fazendo esse trabalho editorial. Então quando se mandava um texto, você achava uma editora, é editora X, O máximo que você tinha era um editor para topar seu texto.
O trabalho, a mão na massa ali da escrita, da cópia, como a Ceci falou, a cópia física ali, ó, do livro, a revisão do texto, o trabalho inicial com texto era feito de forma caseira. E provavelmente, e não são raros os casos em que a gente sabe que quem fez foi a esposa do cara, às vezes foi uma filha, Então era um trabalho que não era um trabalho da editora, era um trabalho do autor. E o autor tinha esse auxílio mais que luxuoso dentro de casa, porque tava ali, né, eram mulheres, todas essas que a gente tá falando eram mulheres que tinham um talento para escrita, para entender um texto como texto literário, como uma obra acabada, né.
A gente falou aqui da Sofia, da Mercedes e agora da Carolina, de mulheres que têm essa participação. E olha que não estamos entrando no mérito, e a gente falou isso, que não ia entrar no mérito das mulheres que tiveram suas obras roubadas pelos maridos.
Fitzgerald, você está ardendo no inferno neste momento. Vocês sabem que eu sou muito fã do Grande Gatsby, acho a obra muito boa, mas o fato é que, o fato é que trechos do Grande Gatsby foram roubados do Fitzgerald Tá, da Zelda pelo Fitzgerald, marido dela, tá bom? Então, o senhor Francisco, Francis Scott Fitzgerald, tem coisas que são dele ali, que também era um escritor muito talentoso, evidentemente, mas acima de tudo um homem invejoso, né?
Péssimo, péssimo. Enlouqueceu a pobre da mulher até o fim, botou ela doida, alcoólatra. Imagina, você já tem que lidar com alcoólatra, você já tem que lidar com artista Meu Deus, ainda tem que salvar!
Nossa Senhora, poxa, Zelda! Aí você também, você tava num picolézaço de limão aí, mas tudo bem.
E sabe uma coisa que eu tô pensando ouvindo vocês? Mais um motivo pelo qual eu falo muito disso e da miogeriza o termo, mas esse é uma grande, um grande exemplo pelo qual, ou não sei se pelo qual, não é isso, mas é um grande exemplo de por que A expressão de alguém à frente do próprio tempo é uma coisa que não é só um preciosismo meu, é uma coisa prejudicial. Porque esse tipo de frase, esse tipo de pensamento, ele abre essa exceção para uma espécie de permissividade de gênio e de autorização para algumas coisas e apagamento de outras coisas que não ficam claras.
Então, por exemplo, a gente tá falando aqui da, da escrita do Gary Paes. E aí é muito fácil você cair num discurso que é, pô, mas tudo bem ela escrever 25 vezes porque o cara era um gênio, era uma grande obra. Então, mas não é esse o ponto, entendeu? É tudo bem ela ter narrado a história do Kwai Dan porque era uma obra maravilhosa.
Não é isso.
A gente não sabe como é o processo, a gente não sabe como foi essa escrita, a gente não tem a documentação. Eram ideias que além de tudo já estavam provavelmente circulando porque que ninguém efetivamente é à frente do próprio tempo. Então esse tipo de pensamento, esse tipo de lógica, ele abre brecha para naturalização de algumas formas de trabalho e de exploração de trabalho areio, que eu acho que é o ponto principal do que a gente tá falando aqui, porque é uma exploração de trabalho, porque é um trabalho que não é nem remunerado efetivamente nem creditado oficialmente dentro das produções.
Então a gente tem essa apropriação, exploração de trabalho Permitida por uma espécie de pensamento que vai falar: bom, mas se o cara no futuro se prova um gênio, então foda-se, os fins justificam os meios, e que se dane quem ficar no caminho sem saber de fato o trabalho.
É o vetor, Arthur, porque eu não sei se existem histórias de homens que fizeram isso por suas mulheres.
Exatamente.
Algumas pessoas podem dizer assim: isso é tudo coincidência, né? Será? Não, porque, por exemplo, você pode até falar, por exemplo, do Leonard Woolf, né, com a Virginia Woolf, que era um super companheiro. Mas eles trabalhavam em pé de igualdade, porque ele também escrevia, ele também tinha um papel de poder ali no círculo editorial deles. É que ele não era tão bom quanto ela, e é outra questão. E ele não se ressentia disso, o que é uma excelente questão, né?
Mas não sei, eu não consigo pensar num exemplo de vetor contrário. Então, se a gente não conseguir enxergar nisso um padrão, aí a gente só tá sendo maluco mesmo. E quem quiser ser maluco, fique à vontade, mas saiba que você está sendo maluco. Só tenha ciência, entendeu? Não tem problema. Tem uma coisa que eu queria comentar dos russos ainda, que tem muito a ver com o que a Ana trouxe do Machado de Assis, que é o próprio Dostoiévski, porque esse viveu uma vida intensa, né? Campo de trabalhos forçados, é vício em jogo, é, enfim, questões.
Ele viveu, ele viveu, ele olhou a vida e falou, eu vou viver.
E aí tem um determinado momento em que ele assina, né, um contrato em que ele perderia, porque ele tava sempre endividado, é viciado em jogo, né? Tá sempre esperando, sempre esperando o tigrinho soltar a carta. Não tinha o que fazer. Pois então, Nossa Senhora, que horror! Frase amaldiçoada.
Perdão, lá não tem tigrinho, é o jogo do ursinho.
Vou precisar passar mais 2 meses sem gravar depois dessa. Então ele assina um contrato ali meio terrível e que ele perderia todos os direitos da obra dele, a não ser que ele entregasse algo inédito em um mês. Parece impossível entregar um romance em um mês? Não. Assinou o contrato sim, porque viciado em viver. Essa é a hora que ele traz a Ana, a Ana que é a companheira dele ali, que vai ser— ele vai dizer, vocês estão vendo que vagabundo não fica solteiro? Olha assim que frase, que canetada, né, Raíssa? Que canetada!
Eu vou colocar esse nome do episódio, abre aspas: vagabundo não fica solteiro.
Que canetada! Foi por isso que eu vim hoje. Daí não, olha, o doidinho, né? Ai, como eu sou doidinho! Ai, meu Deus, perdi minhas mões, me ajuda a escrever, né? Aparentemente você pisa na russa, você fica sem alfabetização. Paulo Freire, você prometeu, entendeu? E aí ela, é disso que sai, ela que fica de estenógrafa dele ali nessa função de escrever, transcrever, ajudar esse maluco a terminar a obra. E sai o jogador que salva tudo assim, né?
Aí isso, eles não eram casados ainda, eles se casam. E aí ela fala assim, tá vendo isso aqui que é dinheiro? Você não rela mais, eu que vou administrar tudo, porque você não sabe fazer isso, você é doido, cara. E aí você é doido viciado em jogo, né? Então ela resolve a vida dele assim, né, nesse período. Porque aí dinheiro, esse aqui que você quer fazer com esse dinheiro? Dinheiro, né? Não tem dinheiro para essas coisas não, não tem dinheiro, não tem pão Vepsen não, do Vepsen.
Então aí ela resolve a vida dele. Mas é isso, né? Mais um homem, no caso de uma forma mais grave, mas um absoluto inútil, coitado. Que que ia ter sido dele sem essa mulher? Que que seria de nós aqui? Que que teria sido feito da obra dele? Quanto da gente teria perdido da obra dele, entendeu? O quanto ele teria escrito qualquer coisa e dado para os outros ali em troca de jogar, você entendeu? Então quantas coisas ali Teriam sido diferentes sem essa figura ali dando um mínimo.
Eu tenho uma— eu falava em umas reuniões pedagógicas uma metáfora que é: algumas pessoas e alguns espaços, a minha sensação é que você tem um cilindro e várias bexigas com gás hélio, e que você precisa de alguém que seja o cilindro, que mantenha as bexigas com gás hélio ali. Eu falava que essa é a sensação de entrar numa sala do 6º ano, a gente precisava ser o cilindro que prende as bexiguinhas ali na sala. E é isso, né? Dostoievski era uma bexiga de gás hélio.
Para onde que ia? Para onde foi o palito do balão? É meio isso, entendeu? Para onde ia Dostoievski? E a Ana era o seu cilindro ali, sabe, que possibilitou, enfim, questões bastante importantes com relação à obra dele, de segurança jurídica mesmo, né, no limite assim.
Falando em russos, Cecília, você também contou que teria uma história cabeluda, interessante e curiosa de um autor que praticamente Queimou os livros aí.
A gente latino tem essa fama, mas o povo russo, que povo intenso, né? Nossa Senhora! É não saber escrever, é vender, vender os direitos da sua obra no jogo, é tacar suas obras no fogo. Que gente doida! O que que tá acontecendo, galera?
Vamos se acalmar. Quem que é essa pessoa?
Pesquisando aqui, eu tinha prometido, pesquisando, a esposa do Vladimir Nabokov, a Vera, foi responsável por tirar com as próprias mãos de dentro do inspirador do quintal o manuscrito de Lolita, apenas porque ele tava em crise, porque ele achou que era tudo uma merda, porque ele achou que aquele livro ia arruinar a vida dele, porque de fato passou uns perrengues, coitado, que as pessoas têm dificuldade de entender a obra. Meu Deus, ele tinha razão, né?
Era uma ansiedade justificada. E aí simplesmente ela viu a fumaça, correu para o quintal e arrancou ali, tirou as coisas, pisou em cima, aquela cena. E aí ele, não, cenas intensas mesmo, não, deixa queimar essa merda, tal. E ela, não, não vamos deixar queimar, que isso aqui pode ser bom para nós. E ele sabe o quê? Correta, né? E aí pesquisando, de fato, será que ela tava correta?
Vocês sabem que eu sou, que eu sou partidária lá do Kafka, né? Era para jogar fora assim. Eu amo Kafka. Mas não me peça para, ai amiga, vou queimar. Eu vou deixar queimar? Eu vou deixar jogar fora? Então eu não vou fazer a mulher do Nabokov não. Mas eu tô em choque que a gente quase ficou sem Lolita.
Você tá vendo? Eu não. Eu sou a Libranda do outro prato, entendeu? Na raiz, falou assim, eu só fiz o que você queria. Você não tem que querer. A partir do momento que você é meu amigo, você abriu mão de saber o que é melhor para você. Ai, porque eu quero que queime, problema seu. Ah, que coisa! Então você queime longe de mim, queime, me conte. Queimei, não conte, vou queimar, porque eu vou impedir. Chega para mim com a cagada feita.
Vem aí, hein, vou queimar. É verdade.
Ou então você acha, o Kafka, ai, joga fora para mim, meu irmão. Você tá achando uma merda, você mesmo joga, picota essa porra com a tua mão, porque entendeu?
E ó, Freud entende hoje em dia, seria assim, apaga esse arquivo aqui para mim, vou mandar para o meu email, pera aí.
Eu sou, é, gente, imagina as minhas coisas. Eu provavelmente inclusive faria isso, deletaria tudo, história pronta.
Denúncia!
Ai, Arthur, como você— ai, gente, não sejam, não façam amigos, não vale a pena.
No momento em que você vira meu amigo, você para.
Olha aí, é para isso que faz amizade.
Mas você não pediu nada, né? Por quê? Porque eu fiz a cagada completa. Mas além disso, tem uma coisa, eu fui pesquisando, né, porque eu fiquei muito chocada com esse rolê assim, e principalmente com a intensidade da coisa. E fiquei imaginando essa cena, ela correndo atrás e tirando o negócio do fogo e tentando apagar, e ele falando, deixa queimar isso. E eles já moravam na época nos Estados Unidos, então eu fiquei imaginando a vizinhança estadunidense assim, meu Deus, esses russos gritando Minha Nossa Senhora, fiquei imaginando assim, que loucura, entendeu?
Eles no estado de Nova York queimando coisa, tentando, um tenta queimar, outro tenta salvar, que insanidade.
E aí teve algum momento na vida que ele pensou assim, caralho, bicho, olha o que que eu ia fazer? Com certeza teve.
Eu não cheguei a encontrar informação se ele fala que se arrependeu, essa informação eu não encontrei. Se alguém tiver e quiser comentar aqui, ia ser massa a gente saber se em alguma entrevista ele virou e falou assim, ah, pô, ainda bem que ela fez.
Eu ficaria muito surpresa dele dar esse braço a torcer, pois como mostrou Y, mas o Nabuccovi não é conhecido pela pessoa mais amigável também, principalmente em relação aos outros. Pelo menos ele é condizente, né? Ele odeia os outros e a própria obra. Então assim, ele reclama de tudo, é um grande reclamão.
Esse não é vagabundo, mas Mas se eu te contar, você quer saber? Você vai ficar, você tá sentada, né, na raiz? Que coisa boa, porque senão você ia cair. Talvez seja bom você ficar firme na cadeira. Ele se metia em muitas encrencas, né? Ele tinha ameaças reais que ele sofreu porque era anticomunista. Enfim, uma figura que fugiu da Rússia pós-revolução, né? Então eu estou falando do Nabokov, uma figura bastante complicada também.
E ele tava sempre sendo meio ameaçado. Por quê? Porque tinha uma boca de sacola imensa, né?
Então fazer por onde?
Que pessoa complicada. Ela andava com uma pistola ponto 38 na bolsa, era guarda-costas dele. Você tá Você tá acreditando? Você tá entendendo o porquê que eu fiquei obcecada com essa história? Eu tô quase, eu tô a isso aqui de comprar biografia para ler. Vocês não me empurrem que eu tô na beira já, porque eu tô completamente passada.
Efetivamente, eu tenho que fazer tudo nessa casa.
E eu não terminei porque ele tinha um hobby, ele tinha um hobby que era estudo de borboleta. Aí me pegou um pouco, achei pouco viril. Estou julgando porque ele não era o senhor, ó, então Ah, nossa, senhor machão que brigava com todo mundo e estuda borboleta, cadê esse skin? Não tá combinando, tá? Senhor, por favor, mantenha-se como um russo preconceituoso de ponta a ponta, por gentileza. E aí ele gostava então de sair viajando, curtir o hobby dele.
Normal até aí, né? Por enquanto, deixa eu te perguntar uma coisa, Arthur. Também vou te perguntar uma coisa: ele sabia dirigir? Longe de mim julgar, eu tenho carta, morro de me dirigir, sento no lugar do motorista, começo a chorar antes de ligar o carro. Mas eu não faço o César me levar por aí para caçar borboleta. Olha, que a Vera dirigia pelos lugares o bichinho lá ver borboleta. E é por isso que eu tive que deixar essa para o final, porque se eu começo o podcast contando essa, a gente encerra o episódio, porque ninguém aguenta.
Mas tem a história do Jorge Amado não dirigir também, quem dirigia era a Zélia Gattai. E o Sartre não dirigia, quem dirigia era a Simone. E quando eles vieram visitá-los aqui, fizeram aquela viagem já icônica pelo Brasil e tal, É, um dia a Zélia, elas saíram para resolver alguma coisa as duas de carro, e a Simone falou para Zélia assim: nós somos mulheres de homens inúteis.
E tá errada. E olha que assim, era só dirigir, que é uma coisa absolutamente ok, enfim. Mas não, eu quero, eu quero caçar borboleta.
Puta porra, hobby, porra, pelo país, vamos pelo país, você que vai dirigir.
Com uma .38 na bolsa, porque a qualquer momento alguém pode tentar me matar.
Porque eu sou otário?
Porque eu sou chato pra caralho. Inclusive tão chato que eu vou escrever uma obra-prima, vou tentar queimar, e você que vai ter que tirar do fogo. Você tá entendendo?
A gente precisa ler essa biografia.
Não, não, eu tô, eu tô de verdade, eu tô transtornada com esse homem. Eu tô transtornada de verdade. Como que pode uma pessoa dessa ser real? E aí a gente, entendeu? Eu não estou inventando.
Ele é russo. Nossa, ele é um personagem, gente.
Que isso? O que é isso? O que que tá acontecendo aqui? É por isso que eu tinha que deixar isso aqui para o final, porque eu fiquei— juro, é isso. Drop the mic.
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Não será do nosso feitio. Mas a gente vai manter o programa funcionando em todas as semanas do ano para quem pode pagar e para quem não pode.
E eu assumo que eu tenho um problema com mariposas também. Eu cresci ouvindo que mariposa deixava a gente cego e eu tenho um pouquinho de— olha só, saber, ele vai Vai vir, não é que é curioso, porque borboleta não é um problema para mim. Borboleta eu acho lindo, pego, não é um problema.
Mas mariposa tem uma asa marrom e fecha para baixo, que a asinha da borboleta também deixa cego.
Porque, mas esteticamente é esteticamente bonito.
Também cresci ouvindo isso e tem um amigo que tem pavor de borboleta, mariposa, por causa desse.
Eu tenho só de mariposa, principalmente da bruxinha. E é isso, é o único animal que eu falo, caraca, esse animal me incomoda, é mariposa.
É isso.
E uma observação aleatória agora que tem Ana e Cê, se eu fico confuso, já fiquei pensando, o que que eu vou falar que não dá para fazer? Eu já tô aqui, ó, mas tudo bem, conseguimos uma solução.
Parabéns pela sinapse realizada.
E vocês verão mais sinapses realizadas na semana que vem, talvez, não sei. Mas ficamos por aqui e até a próxima. Tchau, tchau!
Senhoras, senhores e proletariado não binário, este podcast foi editado por AJ Oliveira.
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