582: Os Piores Patrões da Literatura
Em homenagem ao Dia do Trabalhador, Anna Raíssa, Arthur Marchetto e Cecilia Garcia Marcon investigam uma figura recorrente nas narrativas literárias: o patrão. A conversa percorre diferentes obras em que a relação entre empregador e empregado é marcada por insensibilidade, oportunismo ou crueldade.
Os participantes analisam como esses personagens são construídos e quais recursos narrativos os autores utilizam para expor dinâmicas de poder desiguais. O debate reflete sobre o as relações entre literatura e sociedade na construção dessa figura.
Mas conta pra gente: qual outro patrão literário você incluiria nessa lista?
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Livros citados
Os Supridores, de José Falero
Metamorfose, de Franz Kafka
Um conto de natal, de Charles Dickens
Moby Dick, de Herman Melville
Frankenstein, de Mary Shelley
Os Miseráveis, de Victor Hugo
O Alienista, de Machado de Assis
O Diabo Veste Prada, de Lauren Weisberger
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Links
Confira todos os títulos do clube!
- LiteraturaO que define um patrão terrível · A figura do capataz e o gerente · A impessoalidade das grandes corporações · A incompetência como característica de patrão · O papel dos pais como patrões na educação
- O Diabo Veste Prada de Lauren WeisbergerMiranda Priestly como figura de poder e crueldade · A normalização do assédio moral no ambiente de trabalho · A ilusão neoliberal do 'self-made woman' · A relação entre literatura, tempo e normalização de comportamentos
- Moby Dick de Herman MelvilleO Capitão Ahab e sua obsessão pela baleia · A tripulação proletária forçada a seguir a loucura do capitão · A impossibilidade de lutar contra a loucura do patrão
- Os Miseráveis de Victor HugoO Inspetor Javert e seu rigor excessivo com a lei · A crítica à lei como instrumento de opressão · O patronato exercido pelo Estado e a burocracia
- O Alienista de Machado de AssisO Doutor Simão Bacamarte e a autoridade pelo discurso acadêmico · A definição de loucura e a internação compulsória · A aplicação rígida de normas sem reflexão crítica
- Obra de KafkaA insensibilidade do diretor diante da transformação de Gregor · O apego excessivo ao trabalho e a perda da humanidade
- Um Conto de Natal de Charles DickensA figura de Ebenezer Scrooge e sua avareza · A visita dos três fantasmas e a redenção · A negociação com o patrão e a desvalorização do trabalho
- Os Supridores de José FaleroConfronto com o gerente da rede Fênix · A consciência de classe e a estrutura de trabalho
- Frankenstein de Mary ShelleyO Capitão Walton e seu sonho de glória · A relação entre o trabalhador e o sonho do patrão · A importância da conversa entre pares para a tomada de decisão
- Genero e Poder
Está começando mais um 30 Minutos, a sua meia hora alucinógena de literatura. Eu sou Arthur Marqueto e estou aqui com Ana Raíssa e Cecília Garcia Marcon para mais um episódio deste podcast, que hoje vai falar para vocês sobre os piores patrões da literatura. Como eu disse aqui no momento em que criei o link para a nossa chamada, é um episódio sintonizado direto na Rádio Peão.
Pois então, né, gente? Se tem uma coisa que todos nós, ouvintes e ouvintas, temos em comum é que somos trabalhadores, não é mesmo? E todo trabalhador, mesmo quem hoje é empresário, diz mesmo, tem ou teve patrões. E esta é ou não é uma grande aventura. Reticências. Que bom o eufemismo, não é mesmo? A gente está com um minuto de gravação, não posso baixar o astral. Tem uma retenção, vai pra onde? Então é isso, AJ. Sobe a vinheta.
Opinião, recomendações, curiosidades e muito mais Está no ar, mais um 30 Minutos Sua meia hora alucinógena de literatura
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de comentar sobre a live, peço desculpas, mas vocês vão ver esse episódio, que é um episódio especial do Giro do Trabalhador no dia 1º de maio, e significa que então no dia 2 de maio, no sábado, depois da publicação desse episódio, estaremos ao vivo, em live, eu, Ana Raíssa e Igor Neves, para falar de Os Pescadores, o livro do clube deste mês. Então você pode também apoiar o podcast, indo até a live, se inscrevendo no canal do YouTube, dando um joinha e comentando lá.
pra gente, contando o que você achou do livro, vendo como que é a dinâmica, pra você ler o livro do mês seguinte. Se você quiser apoiar, quiser dar um apoio financeiro ao podcast, você pode fazer três coisas. A primeira delas é ouvir esse podcast pela Aurelo. Aurelo é um tocador de podcasts e lá cada play que você dá é remunerado. Então você escuta, não gasta nada e a gente ganha um troquinho. Você também pode apoiar pela Aurelo, que é um apoio recorrente de 10, 20, 40 ou 80 reais.
A gente tá aí com uma nova assistente de produção pra me ajudar a regularizar os sorteios e envios e tudo mais nesse momento de licença de Cecília. Então logo logo a gente volta a entregar as recompensas de forma regular. E vocês podem encontrar todos os benefícios lá no aplicativo da Aurelo ou em www.trintamin.com.br. Mas se você não puder comprometer a sua renda mensalmente, você pode fazer um Pix de qualquer valor para pix.com.br.
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Muito bem, agora chega de recadinhos, vamos para o episódio. E começaremos agora falando sobre essa proposta, sobre a ideia. A Cecília deu essa ideia de pauta para a gente. A gente tem algumas datas especiais que a gente sempre trabalha aqui no 30 Minutos. O dia do trabalho é uma delas. E este ano, desta vez, a Cecília propôs uma pauta para a gente pensar em como a literatura representa e fala desses patrões. Cecília, conta para a gente como é que foi a sua... ...
Seu processo de viação. A gente já fez reflexões aqui diversas de obras e tal, pensando aqui no Dia do Trabalhador e tudo mais. E aí eu pensei que muito do desgaste que existe na vida do trabalhador, além de trabalhar em si, que já é um desgaste, já é um tempo da nossa vida que...
não volta, né? E você ficou lá, de repente, em reuniões. Eu acho que reunião é o grande mal, igual aquele meme do vocês falam disso, vocês falam daquilo, mas não combatem o maior mal que há na Terra, que é o Flamengo. Meme da bolha boleira, galera, sinto muito se vocês não pegaram, mas é um meme maravilhoso.
E aí, para que vocês não combatem, no caso do trabalho, vocês não combatem a reunião, que poderia ser um e-mail, né? Então, o mal do trabalhador é não apenas trabalhar, como, às vezes, ter o azar de ser chefiado por pessoas com os mais diversos tipos horríveis de personalidade, que vão dar incompetência à maldade mesmo, né? Ao descaso, à negligência.
E aí eu fui refletindo e vi que na literatura a gente tem algumas dessas figuras, acho que vem ali a partir de um determinado momento histórico, a gente tem muito marcado algumas dessas figuras de liderança, que o patrão é isso, deveria ser isso, uma figura de liderança num espaço de trabalho. Por isso que eu estou falando patrão e não dono dos meios de produção, tá, galera?
o dono do meio de produção, ele não vai estar lá trabalhando vendo se as pessoas estão trabalhando, tá entendendo? Ele tá muito ocupado nas Maldivas numa segunda-feira à tarde, tá? Então eu estou falando de pessoas que são trabalhadoras também, porém hierarquicamente, né, tem essa outra função. E aí eu acho que tem uma coisa legal da gente pensar na nossa vida enquanto trabalhadores e também no efeito, né, que...
esses tipos que vão aparecendo na literatura, eles têm na construção do nosso imaginário também, né? Do que são as relações trabalhistas, o que são as relações de liderança, o que são as relações de trabalho e assim por diante. Então eu falei, se a gente falasse, e aí os piores é porque o ódio engaja, né, galera? Se eu falasse dos melhores, primeiro ia ser muito difícil achar, segundo, vocês não tem mais episódios, aceitem, vocês estão no beijo de ódio das redes. Mas vai ser ótimo, tem aqui uma catarse coletiva também.
Eu acho que pra gente começar, a gente podia fazer aquele movimento que você sugeriu, Cecília, de comentar um pouco dessas relações que a gente tem, talvez até a gente compartilhar um pouco de como chegam essas relações de classe e chefes pra gente na literatura. Eu vou começar falando que eu acho muito interessante pensar em como essas relações aparecem, como elas são...
importantes e sutis em alguns tipos de literatura e mais escancarados e alvos de reflexão em outras, né? O que eu quero dizer com isso? Como a gente já comentou em alguns episódios, as relações de poder, as relações ali que perpassam esses personagens na literatura, as representações deles, né? Eles estão ali de qualquer forma, de maneira direta ou indireta, né? Um bom livro, uma boa literatura, ele vai trabalhar.
com essas construções dos personagens de uma forma ou de outra. Então, quando a gente fala, por exemplo, dos tripés, né? Quando a gente tem alguma trama que envolve poder e que envolve alguma movimentação de enredo em relação à posição que os personagens ocupam na ordem social.
A Cecília já falou mais de uma vez o tripé do capitalismo que envolve na exploração de gênero, de raça e de classe. A gente já comentou um pouco sobre isso e como essas coisas aparecem. Então, desde, sei lá, Mrs. Dalloway, que essas relações não são tão explícitas e discutidas abertamente, a gente tem ali a construção de cada um dos personagens que vai habitar uma esfera e vai falar um pouco dessa subjetividade a partir desse espaço.
Então essa representação, ela tem uma razão de ser um motivo. Ao mesmo tempo, a gente tem, sei lá, tramas até mesmo de fantasia e ficção científica, em que as conspirações e os cargos políticos e os espaços que eles atuam dentro daquelas esferas de movimentação, elas são muito mais importantes e muito mais destacadas, né? Então a gente tem essa construção dessa figura, dessa importância, dessa questão do cargo, né? Na literatura e como a Cecília falou, de...
uns tempos pra cá, né? A gente precisa de uma construção social, de uma de um espaço da realidade que vai permitir que isso seja traduzido ou transferido pra literatura de alguma forma, né? Acho que um bom livro que consegue descrever e apontar esse processo, principalmente assim pra quem tem curiosidade sobre o tema sobre história, sobre política, e não é uma pessoa que, sei lá, tá preocupada em estudar, em percorrer um percurso acadêmico pra poder falar sobre política.
Sobre isso, eu comecei recentemente a ler O Era das Revoluções, do Robsbawn, que é um livro que vai falar sobre a instauração ali da questão, da modernidade da estrutura como a gente entende hoje, né? Dessa questão do capital e tal. E é muito interessante como ele faz um percurso bastante didático pra mostrar, principalmente aqui nesse primeiro livro, né? Dessa coleção das eras, né? Que tem os três primeiros numa editora e o último...
Em outra, ele começa aqui pela Era das Revoluções, que ele parte de 1789 e vai até 1848 para falar da Revolução tanto francesa quanto industrial, que é majoritariamente inglesa. E aí ele vai mostrar como essa Revolução, ela muda a forma de produção, ela vai mudar também a forma de organização social e vai também criar uma nova classe.
essa ideia que a gente tem do que é a classe média, da burguesia liberal e tal, que ele vai explicar no começo desse livro. Eu acho que isso dialoga muito bem com o que a Cecília está falando, porque a gente está pensando não nessas figuras que são as figuras detentoras, as figuras donas, a gente está pensando nessa figura intermediária, que é uma pessoa que está ali num espaço.
mais acessível e mais visível, ao mesmo tempo em que tá com essa... habita também essa, às vezes, até imaginação, delírio de estar do outro lado, né? A gente comentou falando de como a gente pode ver essas representações e diferenças em propostas distintas, né, de narrativa. A gente começou brincando falando do The Office, que como o Michael Scott é um chefe, é um personagem que ele é feito pra ser um personagem cômico, né? Um personagem que é uma sátira ali, uma brincadeira com essa ideia de que porra...
Eu sou chefiado por uma pessoa que o que que tá fazendo ali? Como é que ele tá ali? E por outro lado, que eu acho que as meninas vão aprofundar mais tarde, que da própria Miranda Priestley, né? Que voltou a ficar em cena, em jogo agora com o Diabo Veste Prada 2. Que é uma pessoa, pelo menos no primeiro filme, é uma pessoa deplorável, né? Uma pessoa, um chefe, beira o criminoso ali, né?
Pera o criminoso e eu que usei eufemícios, Arthur. É porque ela não foi condenada efetivamente, né? Não, mas o crime não vai dar condenação. Epa, menino, cuidado. Oi, oi, oi, calminha. Mas enfim, acho que fiz esse preâmbulo pra ouvir um pouco de vocês, pra vocês também terem mais tempo de organizar. Mas queria ouvir vocês duas agora também dessa relação. E a gente já pode começar também, de repente, a citar alguns chefinhos pra gente falar.
Eu acho que antes da gente entrar nos chefinhos, eu queria perguntar pra vocês uma coisa. Pra vocês, e aí a gente tá entrando num lugar subjetivo, eu não sei se vocês ouviram aqui, uma cerveja imaginária, né? O Arthur, uma coquinha imaginária. Eu, a minha cerveja mais imaginária que todas aqui. Porque eu estou gravando, eu ainda estou grávida, galera.
Mas, assim, o que é um patrão terrível pra vocês? Na descrição mesmo, assim, de todas as características horríveis que um patrão pode ter, qual irrita mais ou incomoda mais vocês ou dá vontade de vocês cometerem um crime? Falar, bom, já que estamos nesta esfera, é rinha de crime agora.
Para mim, é o patrão que ele não se percebe trabalhador e ele defende ou ele está contra os seus liderados, os seus subordinados, até quando não precisa. Ele chega ao ponto de prejudicar um trabalhador, sendo que a empresa ou ele não vão ganhar nada com isso.
Sabe? E isso passa por coisas do tipo, às vezes dá uma folga ali que o cara vai resolver, vai levar uma criança no médico e ele fala assim, ah, mas são as regras da empresa. Sim, mas a empresa não vai acabar. Ah, mas são regras. Sabe? Esse tipo de cegueira que prejudica o trabalhador não beneficia a empresa, mas ele é defensor. Pra mim, é o pior tipo. É o regulamento debaixo do braço o tempo inteiro, né? É.
É o cara com o regulamento ali e contra você, assim. Contra você. Porque é o patrão que ele, é isso, ele não se enxerga trabalhador. E eu gosto de pensar quando a gente pensa nessa relação patrão, lembrando o que você falou, César, que a gente não tá falando do capitalista, por quê?
À medida que as empresas foram ficando muito grandes, porque antes a empresa era de um cara, né? Então, você trabalhava para um cara, para uma família, você sabia quem era o dono e o dono era o patrão. E aí, à medida que você vai trabalhando para lugares maiores, sei lá, uma fábrica, um...
Essa relação vai se distanciando. E o que a gente tinha, que era a figura do capataz, que é essa figura cruel de capataz, ele vai se tornando a figura do gerente, do coordenador, do chefe imediato. Então, ele já vem historicamente dessa raiz de capataz. O capataz está ali com o regulamento embaixo do braço e o chicote na mão.
E aí, à medida que você vai tendo multinacionais, empresas muito grandes, filiais, o que acontece? Você remove a figura do dono da empresa. Então, o trabalhador não tem quem odiar. Eu não odeio aquele filho da puta ali que trabalha naquela sala. Eu nem sei. Eu trabalho para a Amazon e eu nem sei quem é o dono da Amazon. Eu trabalho para o Carrefour e eu nem sei quem é o dono do Carrefour.
Eu trabalho pra JBS, e assim, eu tô falando nomes grandes, que são nomes que vêm à nossa cabeça pra dar essa dimensão de empresas grandes, sabe? Então eu não... Renac fala um pouco disso, eu não lembro em qual ensaio agora, mas que ele fala da questão das revoluções não serem mais possíveis porque agora são corporações, então você tem você não tem mais um líder a quem você derruba.
você não tem mais uma centralização você tem uma coisa muito pulverizada pra onde você vai? e nas empresas acontece isso também, né? tem um braço da Toyota no Brasil tem um braço dela, quem que é o dono? foda-se quem que eu odeio? Não sei quem é que tá me fodendo?
E aí, com esse afastamento desse fudido maior aí que é o dono, você tem de baixo pra cima, você tem nós que, tá, eu vou odiar então o bicho que assina a minha folha de ponto, que é o que tá me sacaneando que é o que paga sapo porque, sei lá só que de lá pra cá a mudança é assim o gerente, o ex-capataz, ele começa a se sentir dono, e aí ele age como se ele fosse dono, aí ele vai o que? vestir a camisa da imprensa
E aí ele é a pior pessoa. Vestir a camisa é, de fato, uma expressão, né? E você, menino Arthur, qual... A gente sabe que você tem espaço pra odiar todos, né? A gente não tá questionando o seu potencial de raiva. Mas qual é o tipo que mais, assim, ó... O que mais te irrita? Eu vou fazer uma afirmação complicada aqui agora e vou explicar o motivo.
Primeiro porque, apesar dessa minha skin, eu tive sorte de todas as equipes que eu trabalhei serem equipes em que eu confiava muito nas pessoas que estavam imediatamente acima de mim, assim. Então, de experiência, eu, felizmente, só trabalhei em boas equipes. Porém, contudo, entretanto e todavia, a gente conhece pessoas, né? E a gente ouve relatos e desabafos.
E tem uma particularidade que me irrita muito. Eu somo a isso, eu ia comentar também do que a Ana falou, mas a Ana já comentou. Somo a isso também uma questão que é a parte neutra da estruturação do trabalho, né? Que é a parte técnica, a parte puramente funcional, que vai além das pessoas serem cretinas e prejudicarem as pessoas de maneira gratuita. Que é quando claramente existe uma hierarquia na empresa que não é respeitada.
Então, por exemplo, eu já ouvi relatos muitas vezes. Olha, tá dentro do laudo dele, gente. De pessoas, por exemplo. O problema dele é com o fluxograma. Olha que loucura, né? Claro que é. Veja bem, Cecília. Eu tive um amigo meu, por exemplo, que tinha um chefe, ocupava uma posição de liderança, que era uma posição pra ele liderar.
e que o cara foi colocado lá porque era parceiro dos caras. E aí, o que ele tinha que fazer na área de trabalho dele, em que ele tinha que estar trabalhando? Ensinar o trabalho dele pro chefe. Porra, desculpa, isso não é pra acontecer. Se eu tô explicando meu trabalho pra você, talvez você não mereça estar no espaço que você está. Talvez você precise ter uma progressão na sua carreira, sabe? Esse tipo de coisa, por exemplo, é uma coisa que me incomoda. Com razão.
bastante surpresa com a sua resposta. Não, porque as outras questões éticas e morais a gente já vai discutir. Mas uma questão prática me incomoda também a visualização de que dentro dessa estrutura que é bastante estruturada, dentro dessa burocracia e dessa impessoalidade, que é o que vocês já citaram aqui também, o Mark Fisher também vai falar em Realismo Capitalista. Naquele nosso episódio louvácio de três horas de duração, um episódio no podcast chamado 30 Minutos.
Que a gente comenta os ensaios. Que é a constituição desse CNPJ, né? Que você nunca consegue chegar a uma pessoa física, você não consegue ter um rosto, você tem uma estruturação, que é sempre uma estruturação de uma entidade fictícia, de uma entidade falsa. Eu quero falar como uma pessoa. Não existe. Uma pessoa, não há pessoa. E logo mais, inclusive, você vai ter só CNPJs e as. Você vai ter que escolher com qual entidade fictícia você vai se relacionar. Você não tem uma escolha.
O Arthur tem o mesmo problema que eu, viu? Que é o nascido para ser vilão, amaldiçoado para ser um bom empregado. Exato. Porque dentro dessa estrutura que é claramente impessoal e inatingível, você tem ali também uma construção de uma coisa que é completamente freestyle.
de você não conseguir passar por um processo seletivo, de você não conseguir ter uma progressão correta numa empresa, porque existem outros fatores muito pessoais rodando em plano de fundo. E que isso acontece muito mais intensamente nessas empresas que são maiores e você tem cargos incertos e você tem coisas que não são muito claras e setores muito divididos e você não consegue conversar com as pessoas.
Isso é um ponto que me pega bastante, assim. Por exemplo, vou falar mais uma vez de The Office. Aquele episódio em que a Pema simplesmente cria o cargo dela. Isso é uma coisa que funciona. De repente você assina e você tem um cargo novo. Quem disse? Sei lá. É uma coisa que aconteceu. Isso é uma coisa que me pega um pouquinho, assim.
Mas fora dessa seara que a gente já tava falando, era só pra diversificar um pouquinho. Qual é o CID? Comentem qual é o CID, Bruno. Eu vou dizer que essas duas coisas que vocês falaram, a do Arthur muito menos. Até porque em escola, sei lá, entendeu? Qual é o fluxograma, sim? É, não, escola realmente. Às vezes ser coordenador vira uma punição, né, tadinhos. Também tem esse...
e meu pai, coitado, ele sofreu ele viu, meu pai abandonou o colégio porque ele dava aula de história no colégio de freira e aí a coordenadora foi embora e aí ele foi congratulado com o cargo de coordenador e ele não ficou meses assim, ele foi embora depois ele chegava em casa passando mal e ele falou estou realmente saindo do ensino não gostei nunca mais, eu quero chegar perto de uma lousa é isso, acontece cada vez mais tá galera
O que a Ana falou me irrita profundamente, gente que veste a camisa da empresa, né? Mas eu acho que tem uma coisa que me irrita mais e que aí tem a ver com uma realidade de professor hoje em dia. Quem é professor, estiver me ouvindo, vai entender. A gente tem uma quantidade surreal de patrones que são todos os pais dos alunos.
Então me irrita muito, gente. O que me irrita num patrão é incompetência. Você não tem a menor ideia do que é o meu trabalho. Você não tem a menor capacidade de fazer o meu trabalho. Você não tem capacidade de avaliar o meu trabalho. Mas mesmo assim você tem poder sobre o meu trabalho. Isso é enlouquecedor.
Fala assim, cara. De fato. Por que que essa pessoa está mandando um recado para a minha coordenadora dizendo que não concorda com a minha didática de aula, sendo que ela não viu a minha aula. Ela é biomédica. E o relato vem de uma criança de 12 anos. O relato que chega nela. Uma criança de 12 anos diz que não gosta da aula e, de repente, eu tenho um problema de didática com base... Da onde saiu essa afirmação? E aí, eu passei a me defender. Quando vinha isso, eu aceito...
esse tipo de comentário dos meus pares. E eu falo isso em reunião pedagógica. Eu aceito se a minha chefe, que é coordenadora pedagógica, que tem formação e tal, chegar e falar, ó, se ele é essa abordagem aqui, ó, eu tava vendo o pessoal, não engajou, não funcionou, eu acho que isso daqui ia funcionar, por mim, beleza. Se um par meu olha uma atividade e fala assim, ah, essa aqui eu acho que ficou assim, assim, assim, vamos tentar mudar isso, por mim, beleza. Agora, criança de 12 anos dizer que não concorda com a minha didática?
Oi, do que vocês estão falando? Aí o Papito, que é representante, sei lá, representante comercial de indústria farmacêutica, ele tá vindo falar de como eu ensinei sinônimo na aula, não vai falar. Não autoriza essas pessoas a terem influência em como eu faço o meu trabalho. Mas é um desgaste do cacete. Então, existe... E assim, já trabalhei em escolas em que...
escolas pequenas, por exemplo, em que o dono era aquela coisa, né? Tipo, o dono e a esposa criaram a escola, era uma escola infantil que foi crescendo, de repente tinha até o nono ano, e era uma coisa que assim, eles podiam ter aberto uma escola e podiam ter aberto uma padaria, abrir uma escola porque a mãe tinha magistério, assim, entendeu? É meio esse rolê, assim, de muitas escolas ali criadas na década de 70, década de 80. É meio isso, assim.
E aí eles também se sentem muito confortáveis pra fazer avaliações, assim, do seu trabalho. Você fala, desculpa, meu querido, quando que você entrou numa sala de aula? Então a nossa crítica, ela tem mais proximidade. Pra mim é a questão da competência. Eu aceito críticas, comentários, sugestões e apontamentos de pessoas que tenham, que no mínimo estejam na mesma área que eu.
Mas não existe nada pior do que ser liderado por uma pessoa incompetente. Porque ela tem poder sobre você, mas ela não consegue nem de perto fazer o seu trabalho. Ou avaliar o seu trabalho técnicamente. Aí não dá, entendeu? Aí pra mim me pega muito. Falei muito em terapia disso já. Nossa, não tem como isso não enlouquecer uma pessoa. Não tem como assim.
Por isso que ninguém aguenta mais... Gente, por que você acha que ninguém aguenta mais ser professor? Entendeu? O pessoal fala muito do salário. O salário, de fato, não é um salário... Pelo tanto que eu estudei, o tanto que eu ganho hoje, é um salário bom. Ok. A gente não aguenta isso. É insuportável. É insuportável. Não tem como. Eu tenho que responder acusações de crianças de 11 anos. Aí é muito complicado, entendeu?
E como é que a gente pode ver essas representações, esses retratos na literatura? Como é que vocês visualizam essa construção? Acho que a gente pode citar já um nesse caminho, que coloca a camiseta, uma boa construção, no que um livro que a gente falou pouquíssimo nesse podcast faz, que é Os Próprios Supridores, né? Do José Faleiro. E a gente tem ali uma construção... Caramba, fazia tempo que a gente não falava desse livro, uns três episódios. Em 2026 é a primeira vez, eu acho.
em maio, aquelas, né? É a primeira menção de maio de 2026 aos supridores de José Faleiro, que na verdade é, enfim, maravilhoso apenas fazer o quê? É, porque a gente tem ali a construção de dois personagens que são os toquistas, os supridores de supermercado ali, e aí eles têm um momento em que eles começam a fazer as coisinhas deles, e aí eles começam a dar certo no negócio que eles propõem.
E, eventualmente, eles precisam confrontar o gerente da rede de supermercados Fênix, né? Perto de um momento de um diálogo, que eu acho um diálogo sensacional para explicar como funcionam os negócios no dia de hoje. Que é, se o cara ganha o suficiente, o equivalente a 25 mil camisetas, como é que ele pode produzir essas 25 mil camisetas? Alguém está produzindo camisetas a mais e não está recebendo dinheiro por essas camisetas enquanto ele recebe. E isso, eu acho aquele exemplo que ele usa com as camisetas.
um exemplo maravilhoso. E mais pra frente, quando ele vai confrontar o gerente e dar um belo de um tapinha na cara desse gerente, a gente já tá muito... Ufa! Que bom que isso aconteceu! Um grande fica na sua!
Exato. Nem é selo esse mercado, parceiro. O que você tá enchendo o saco? E é exatamente o que acho que a Ana gostaria de fazer com as pessoas que ela citou no primeiro bloco ali. Entendeu? É? Nem é selo esse negócio. Bermão, te toca! Você não é dono desse lugar. Cala tua boca, fica na sua. Queridos, a Ford existe há muito mais tempo do que você. Imagina, você tá aqui defendendo sei lá qual que seja a empresa. Nossa, é muita falta de... É, é...
A gente cai nessa, né? A consciência de classe. Quem sou eu nesta estrutura? É você não perceber que você está muito mais perto do chão de fábrica do que da sala da diretoria. E está assim, viu? E eu acho que entra nessa mesma seara o diretor do livro A Metamorfose, do Kafka, em que o funcionário de uma repartição pública fala assim...
tô com um problema que não vou poder tá indo trabalhar hoje, não. Tô, tô, meio que eu virei um inseto. Tá meio foda pra mim, assim. E aí a reação dele fala assim, poxa, mas é que, assim, infelizmente eu vou ter que... Aí ele vai e humilha, né, na frente da família toda e tal, e eu vou te demitir. É que aí você me prejudica, né? É que é o erro do chefe ter ido na sua casa.
complicado já imaginou nossa senhora e é uma dói meu coração essa parte que ele acorda ele virou um inseto, ele não consegue se virar literalmente porque é um inseto eu consigo me relacionar com isso quase 38 semanas de gravidez acorda
Eu te entendo, Gregorio. E está lá ele totalmente, Gregor Sansa, grávido de nove meses, e aí ele pensa assim, eu vou perder o trem. Cara, isso é horrível! Isso é horrível. O primeiro pensamento dele é, eu vou perder o trem. Eu vou me atrasar para o trabalho.
Que, na verdade, é o destino de quem vestiu demais a camisa, né? Vestiu demais a camisa, e o que aconteceu? Você não pode nem virar uma barata de dois metros, que aí já dá problema, entendeu? Complicado. Mas o diretor, ele representa muito essa figura de alguma insensibilidade, assim, né? Eu não acho que é só, porque eu acho que tem uma crueldade também, mas tem uma insensibilidade de não conseguir enxergar pessoas como pessoas, né? E eu acho que patrões muito ruins têm essa tendência, né? E acho que...
A sua descrição do que te irrita traz isso, assim. É um patrão que não enxerga que são pessoas ali, entende? E que tem mais cuidado com o maquinário que é caro. O maquinário que tá com leve desgaste, ele deixa duas semanas em manutenção, que é pra garantir que só volte a funcionar quando estiver bem. Mas o funcionário, né? Não, mas por favor, você podia, pelo menos, ter deixado sua planilha em ordem aqui, né? Sabe? Poxa vida.
Eu achei muito curioso o que você falou do... do metamorfose, que é o patrão que tem dificuldade de enxergar pessoas. Foi só uma observação, por isso que eu ri, baixinho. E o bom do metamorfose é que ele sofre esse assédio de trabalho e ele tem uma família muito boa, né, pra acolhê-lo também.
É um combo de situações maravilhosas. Cara, na situação do Gregor Sansa, eu já teria virado a barata há muitos anos. Isso inclusive parece... Um pai horrível, uma mãe horrível, um emprego horrível. Que isso? Me bote na casca da barata. Me bote na casca da barata, por favor. De fato. Mas acho que tem isso, assim, né? Do ambiente de trabalho que transforma você numa figura absolutamente insensível, né?
Vocês estavam comentando também, agora pra gente mudar o foco e voltar pra falar pros piores patrões, deixar a coitadinha do inseto na cama. Vocês estavam comentando do encontro de Natal do Tio Patinhas, original. Tio Patinhas. Conta pra gente, pro ouvinte, o que vocês estavam falando, o que é um conto de Natal, do que se trata.
Que a solução pra patrão ruim é você botar três fantasmas na cola dele. É o spoiler de toda discussão é essa. Se o seu patrão estiver apavorado de medo de um fantasma, talvez ele mude de ideia com relação a te dar folga no Natal, por exemplo. Então, às vezes, a solução pedagógica é pelo medo. Mentira.
A Educação pela Pedra. A Pedrada, né, no caso, Educação pela Pedra. Não é. Mas o Um Conto de Natal é uma obra escrita pelo Charles Dickens, né? Em que a gente vai ter uma figura que se tornou mesmo esse personagem antológico aí, que inspirou, inclusive, a criação do Tio Patinhas, o Tio Scrooge, né? O Ebenezer Scrooge, que inclusive é o nome do Tio Patinhas em inglês. Patinhas, um nome muito mais legal por um pato, porra, pelo amor de Deus, é um pato chamado Patinhas, velho, na boa.
Se não é o melhor nome. É, a figura do homem rico avarento, ela permeia a literatura, né? A gente pode pensar até no Molière, né? Quando a gente pensa no avarento e tal. E vai aí o Rony, nosso padrinho, que vai, inclusive, para a Grécia, muito chique esse ano.
E ele vai fazer escavações, tá, galera? Porque ele é um excelente aluno da universidade. Então, é por isso que ele vai. Mas estou falando do Rony porque no nosso material de latim, porque o Rony é desses que estudam letras clássicas, né? Essas loucuras aí. Mas no primeiro tinha a Aululária, que é uma história que vai inspirar depois o Moliere. Então, essa figura do avarento, da pessoa que é extremamente apegada ao ouro, ao pote de ouro, né? E ao dinheiro e tal.
E o Scrooge, ele tem isso, mas ele tem uma camada que é muito característica da obra do Charles Dickens, que é o efeito da industrialização mesmo nesse ambiente, né? E como isso modificou para sempre as relações de trabalho. E aí o Scrooge, ele vai ter esse elemento de ter muito dinheiro, de ser muito avarento, mas de mais do que isso, de ser uma figura ruim, insensível, que não, né? Poxa, nada ou nada o sensibiliza à família, não o sensibiliza ao Natal, não o sensibiliza...
O funcionário com o filho doente não sensibiliza a nada, de nada, de nada, de necas, né? E aí a estratégia ali vai ser ele receber a visita dos três fantasmas, né? Do Natal passado, do Natal presente e do Natal futuro, pra mostrar pra ele, do tipo, meu irmão, onde você acha que isso vai dar? Até onde você acha que você vai viver? É só você com o seu dinheiro e tal. E provocam aí essa...
essa mudança aí, né, essa parte realmente ficcional, né, no livro não são os fantasmas, mas a mudança, e aí o que que tem aqui, né, no Scrooge? Essa figura de apegada assim, ao material, ao extremo, né, então, de repente vai ser essa figura que tá sempre focada no lucro e tal, eu quase entrei outro dia numa briga no Twitter, mas Jesus pôs a mão no meu ombro e falou, não, minha filha, falou, querida.
Será que precisa? E aí eu falei, tem razão, Jesus, melhor não. Que tava tendo um rolê lá do negociar com o patrão, né? E eu acho que o Scrooge, ele é o exemplo do porquê o negociar com o patrão não funciona. E aí tava, um cara compartilhou um tweet que falava sobre negociar com o patrão, falando de que ele ganhava num cursinho 50 reais a hora, num determinado momento X, e que o cursinho resolveu, numa das maracutaias e tal, aquela coisa de manda embora, recontrata, mas recontrata tá ganhando 35.
E ele foi falar, falou assim, então, mas ganhar 35 não me interessa. Ao que o patrão virou e falou assim, então, um beijo, até mais, pode ir embora, não precisa, né? E aí as pessoas falaram, pô, é isso, né? Tipo, não tem um poder real de negociação. Ao que veio um querido e disse, olha, mas se tem gente que aceita trabalhar por 35, é porque o seu trabalho, na verdade, vale 35. Então, na verdade, 50 era um valor inflado do seu trabalho.
caralho então vamos voltar pra escravidão minha ideia pra esse querido era então vamos voltar pra escravidão, porque aí o que você faz? você não paga nada, olha que ideia maravilhosa nossa, era ninguém mais ninguém menos que o satanás nessa discussão nossa você entendeu? aí eu falei, por que eu vou brigar com essa pessoa? eu nem conheço ela você entendeu? eu não vou entrar nessa
Mas o Scrooge é exatamente alguém que pensaria isso, entendeu? Aí é que tá, né? Por isso que o livro sobrevive há tanto, tanto, tanto tempo. Porque ele ainda descreve um comportamento muito... Com o que a gente consegue muito se relacionar. Que é essa ideia do, olha, mas... Se tem gente que aceita por menos, então eu vou pagar menos mesmo. E daí que é indigno, e daí que é pouco. E daí que, de repente, a mão de obra não é qualificada o suficiente. E daí que...
São 15 mangos que vão sobrar pra mim aqui, pra eu mergulhar na minha piscina de ouro, como grande tio Patinhas que sou. Deixa eu fazer um parentezinho. Você falou bem no início que o Mulier se baseou na Aululária, né? Que é a comédia da panela. E o Suassuna também. O Santo e a Porca é baseado, que é excelente, excelente, excelente. Eu também, quando estudei latim, estudei esse texto. Foram dois semestres chorando, pensando, como isso pode ser uma comédia se eu estou chorando?
pra declinar aqui, então, mas vale a pena ótimo texto é comédia pra quem tá entendendo, né?
Agora pra gente mudar o foco dos chefes, a gente aqui tava pensando em dois chefes que são pessoas horríveis no sentido insensível. Agora eu vou pensar em chefes que são, como eu posso dizer, visionários, vanguardistas, disruptivos. Meu Deus, que medo. E a gente pode começar pensando no incrível chefe que foi o Capitão Arrab, né?
Nossa senhora, que macapu. Desgraçado. Não, vamos todo mundo atrás da baleia, assim. Arrombado. Capitão Arrabi, por exemplo, é o Capitão de Mob Dick. Um livro escrito por Herman Melville. E que eu sempre recomendo que as pessoas leiam, porque quando eu fui ler o livro...
E eu já tava, pô, beleza, a história do cara lá que vai atrás da baleia. E eu fui positivamente surpreendido com uma série de outras questões e discussões que não tinham absolutamente nada a ver com o que as pessoas sempre falam do livro. É mais um daqueles casos em que a gente vai esperando uma coisa e encontra outra completamente diferente, que eu acho que a gente tem aqui na literatura brasileira, por exemplo, o Grande Sertão Veredas e o Dom Casmurro, que a gente já vai ali com um repertório gigantesco falando, bom, beleza, eu já sei tudo isso que esse livro fala.
E aí você abre e faz, como ishmael? Ué? É o velho plot de duas pessoas numa cama? O que que está acontecendo? E aí a gente... É o velho plot de duas pessoas numa cama e você me pegou demais. É, não, eu comecei ali e falei, ué, gente, o que que está acontecendo nesse livro? Muito bem. Adorei, foi uma leitura incrível. E a gente tem um grande chefe ali, que aparece.
como, é... Inclusive, lido filosoficamente em diversos ensaios, diversas pesquisas sobre o que é essa encarnação do Ahab, né? O que ele significa, o que ele incorpora. É... E o grande mote dele ali, que vai guiar a narrativa, é que ele enfrentou a baleia Mob Dick e não consegue... Tomou-lhe um pau? Tomou-lhe um pau, exato. Quem diria, né, que um homem não ia conseguir ganhar uma baleia?
E é muito interessante porque existe um momento do livro em que ele ocupa esse espaço que a gente falou do chefe, né? Porque ele não é o patrão deste barco, ele precisa de um incentivo, ele precisa de um apoio, ele precisa de um patrocínio, efetivamente, de alguém que tem dinheiro e tem um barco. E ele emprega essa tripulação dele para ir fazer a caça de baleias e a coleta do óleo, da gordura, enfim, tudo que tem ali, enquanto a gente tem um protagonista.
que supostamente chama-se Ishmael, que vai também descobrir o que são baleias e compartilhar com as pessoas as belas paisagens e a grande biologia e catalogação das baleias em mar aberto. Enquanto ele vive uma história bastante complexa com o Cuicoga, enfim, é um livro bastante repleto de coisas e o que a gente tem aqui é esse patrão.
que é o Ahab, que vai levar toda essa tripulação dele, de pessoas que são claramente proletárias, de pessoas que estão ali tentando juntar uma grana para conseguir pagar as contas, comprar comida, e que claramente não tem a menor intenção de entrar nessa empreitada, que não tem nenhum pingo da mesma motivação que o Ahab para ir atrás da Mob Dick por motivo nenhum.
Principalmente porque eles não foram pessoalmente afetados, então não existiria em primeiro lugar um motivo pra eles entrarem nessa empreitada, mas o Arraba está nessa posição de poder, de definir o curso do navio. Não existe ali uma espécie de mutim, movimentação, então eles seguem rumo ao Mobidiki até o fim trágico conhecido do livro, que é esse relato do Ishmael, pós todo o desenrolar do caos.
Eu acho que tem uma coisa aí que é a impossibilidade de lutar contra a loucura do seu patrão, né? É isso, o seu patrão é doido. Você é só subordinado a ele, você infelizmente vai ter que conviver com a loucura ali, não tem muito o que possa ser feito. E ele prometeu uma meta impossível de ser batida pro fim do mês, e ele é o seu chefe, vocês infelizmente vão ter que viver.
pairando a sombra da neta, é impossível. Não, pode só fazer isso aqui. O César, em particular, odeia isso. Ele fala, porra, não é pastel? Como é que eu faço um vídeo desse em uma hora? Isso não é o caso. Porque a gente precisa matar a baleia. Que baleia, meu irmão, que baleia, velho! Você tá louco, caralho! É tipo isso, entendeu?
É a proatividade com o trabalho dos outros. Claro que essa galera vai achar. Vai achar essa baleia. Claro que vai. E você tá assim... Que baleia, você tá doido. É complicado. E se o seu patrão é doido, repetindo o que a Céssia falou, você fica sem saída porque ele tem o poder em cima do seu trabalho. Se o seu patrão é maluco, esse barco não vai voltar. Você tá dentro do barco, você vai fazer o quê?
E aí o que me lembra, colateralmente, porque vejam vocês, atenção nessa frase que eu vou falar agora, eu tava relendo Frankenstein no Féu do Alton. Caramba! Ediçãozinha da Martin Clare, chuchu, viu? Boa demais. É, quem diria também. E aí, tava pensando no Capitão Walton aqui, enquanto eu via vocês. Que tinha tudo pra ser o Arrabi. Por quê? Ele tinha um sonho que era dele.
eu quero ser grande, eu quero encontrar o caminho para o Polo Norte, eu vou, eu sou um grande homem, e ao mesmo tempo, eu quero um amigo, também quero ser amado. E aí ele contrata uma galera, que é isso, é um emprego, não é ele estar indo por amor, por ideal, por não sei o quê, o resto está indo porque é um emprego.
Inclusive ele contrata um cara que já tinha trabalhado com ele em outros barcos e ele sabe que o cara é bom, e aí então já começa a diferenciar aqui. O Alton já foi atrás de fulano quando soube que ele estava na cidade, porque ele é um ótimo profissional, contratou.
E ele vai entrando nessa mesma espiral, que é uma loucura dele. Ele é o dono do rolê ali. Ele está bancando aquele barco, ele está bancando aquelas pessoas. O barco congela. E aí ele fica assim, não. Mas nós temos que chegar, nós temos que chegar, nós temos que chegar. Quem é que tem que trazer esse homem à razão? Vitinho. Vitinho Frankenstein fala para ele assim, se esses caras quiserem ir embora, deixa eles embora.
E aí quando ele vai falar com os caras, Vitinho já tá o quê? Doido de novo. E fala assim, mas vocês vão embora, seus covardes? Vocês são os covardes? Porque se vocês forem embora, não sei o quê. Aí o que o trabalhador faz? O que todo trabalhador tem que fazer? Antes de discutir com o patrão, você vai fazer o quê? Você vai discutir com seus pares. Eles vão conversar lá entre eles.
lições. E vão falar assim, não importa o que esse doido vestido de cetim, de veludo, aí já tá misturando todas as referências ao Victor Franklson, tá falando, nós vamos voltar. E aí eles vão falar com o alto e falam, olha meu patrão, literalmente. Me desculpa, mas se esse gelo partir...
a gente não vai pro norte. E aí ele cai em si e é o momento que ele fala assim, eu não posso obrigá-los a sonhar o meu sonho. E isso não é fraqueza, é o emprego dos caras. Então, isso é o quê? É fortaleza de classe, converse com seus pares, converse com seus pares. Ah, mas é porque o diretor da empresa, o diretor não, é na hora da copa, é na hora do cafezinho que vocês vão começar assim, ó. E aí, galera? E o desfile desse ano?
Se é que você, né, se é SLT. Agora, se é PJ, você vai discutir outras coisas. Você vai falar, e aí? A gente vai ficar, o quê? Com a obrigação do empresário e a obrigação do trabalhador? Então, temos aí também um outro lado. Conversa. Tutorial de conluio com Ana Raíssa Guedes. Comigo é assim. E é muito bom isso que você falou, porque no fundo é isso, né? Ele tá ali pensando nesse...
Nessa posição, nesse retrato de um patrão, né? Na literatura. É uma investida que ele vai fazer com a equipe. Só por o nome dele entrar nos análises da história, né? Vai estar lá. Descoberta do Walton, não é? Descoberta do Walton e toda a sua tripulação. Não tem... At all. Exato. Tem uma passagem... Você já leu o Incidente em Antares, Ana? Aham.
Tem uma passagem do Incidente de Andares na parte 1 que é brilhante, é um capítulo curtinho que o Érico Veríssimo fala, né? Tipo, todas essas coisas que estão acontecendo em Antares, a gente fala pelo nome das duas famílias, mas não são as duas famílias que fazem a vila. Porque tem... Que é absurdo o que ele fala. Porque essa vila existia com pessoas trabalhando nessa vila. Essas duas famílias que estão tretando aqui, elas não fazem a vila. Então é lembrar isso um pouco, né?
E saudades, Erco Veríssimo. Nossa. E esse é um livro que eu tinha separado aqui também, porque eu acho muito boa a construção desses poderes no espaço ali, né? No lugar onde a história se passa. Porque a gente tem diversos tipos de poderes, né, ali. Inclusive o poder da...
da familiar ali, né? Daquela senhora que fica viva. Vocês não querem apresentar as outras de vocês? O Simão, o Javer aqui? Uma outra figura que eu acho que representa muito esse espírito aqui é o Javer dos Miseráveis.
Javé que é o cara que tem ali tudo a ver com o tipo que a Ana odeia que é esse veste a camisa da firma se você falou Javé meu olho já tremeu ele veste a camisa, ele veste a farda da firma é e a
Por que eu estou dizendo isso? Nos Miseráveis, o Javé é o militar que vai ter com o Jean Valjean uma rinha de décadas mesmo, uma disputa gigantesca. E aí, como que isso aparece? Então, primeiro, a gente aparece na crueldade do que aconteceu com o Jean Valjean. A gente tem ali um sistema que pune um cara que roubou um pão porque a família estava passando fome.
lembrar que Vitor Hugo era socialista então ele não coloca essas coisas aqui à toa, e aí esse cara é preso ele tenta fugir, e aí ele ganha uma pena ainda maior, e aí quando ele sai tem esse oficial da lei que ele tá numa energia que a gente no Brasil não conhece muito que é lugar de vagabunda na cadeia tá com dó, leva pra casa né
O cara passou, tipo, 20 anos quase da vida dele preso por causa da porra de um pão, né? E aí é isso. E ele fica perseguindo o tempo todo. E ele tem essa postura excessivamente rigorosa com a lei o tempo todo, que mostra, né, na minha leitura, né, que eu faço aí do Vitor Hugo, essa coisa do...
pra que serve a lei se é isso que ela tá fazendo com as pessoas? Pra que serve a lei se, na hora que ele encontra uma prostituta fragilizada, que tá vendendo os dentes pra mandar pra sustentar a filha que ela teve porque ela foi enganada por um homem, e aí ele encontra, o pensamento dele é prender essa mulher.
do que adianta e tal, tudo isso, se o que ele vai fazer é essa perseguição. E não tem absolutamente nada que tire o Javert dessa posição. O tempo todo ele fala, mas é que eu sou da lei, é isso que a lei tem que fazer. Eu estou aqui para cumprir a lei. A lei diz que... E assim, aí a lei se torna também...
o que ele diz que é. Esse é um ponto importante, né? Porque ele se absorve, ele fica tão mergulhado nesse papel que aí é aquilo, né? A lei ou o regulamento, o que quer que seja, vão se tornar aquilo que ele fizer da burocracia.
que a gente vai ver em outras figuras militarescas, se a gente pensar no soldado amarelo, duvidas secas, são figuras que vão fazer um exercício da própria autoridade, aqui no Brasil a figura do coronel vai aparecer bastante dessa forma, um uso da autoridade com base no, olha, mas é que aqui é a regra do eu sei, do eu mando, e foda-se você, você não gostou? Me bota no paredão, entendeu?
E o Javer, ele é um pouco, e acho que é interessante falar do Javer lá atrás, né, exatamente pela cronologia, né, porque o Vitor Hugo vai propor isso ali no século XIX como parte da estética ali do romantismo e tal, já caminhando ali pro final do século, meados pro final do século XIX.
e que já existe toda essa efervescência ali das relações de trabalho, e pensar que ali o Javier está numa relação de trabalho, ele não está numa relação cidadã. Mas será que a lei não deveria ter uma relação cidadã? Então, do que adiantou a gente fazer revolução e os caralhos, né? Ele na França, colocando isso assim.
Então, o Javer é um exemplo desse exercício do patronato pelo Estado, né? Ou seja, qual que é o poder que o Javer tem em termos de... Ah, de algum poder político real? Nenhum, né? É um Zé Bunda. Mas qual que é o poder que ele, de fato, acha que ele tem? É o que ele exerce, né?
É, se você pega a figura do Jean Valjean, que se torna um bom patrão, né? Ele abre uma fábrica e ele assume outra identidade porque ele sabe que não vai se livrar daquilo. Nem isso é o suficiente para fazer o Javé largar o osso. Nada. Nada. Ele vai para um lugar que nem é da jurisdição dele lá.
pra perseguir pra, não, eu vou pegar esse cara no pulo, eu tenho certeza que ele não é quem ele está dizendo que é então ele chega no limite da loucura, assim esse legalismo excessivo dele beira a loucura, né, já que a gente falou do arrabo de loucura aqui, beira a loucura assim, é ele se perturba com a própria incapacidade de sair da camisa da empresa do arrabo
que é o que culmina com a morte dele, já velho, né? Porque foi uma coisa da vida toda essa rinha deles, mais de 20 anos. Décadas, décadas. Décadas disso. E ele começa, ele entra num labirinto de que tem que cumprir a lei, tem que cumprir a lei, ele tem que ser preso, ele tem que ser preso.
Aí você pensa assim, porra, ele tem que ser preso por quê? Porque ele roubou um pão. Não, mas depois ele tentou fugir. Sim, porra, mas já tem 20 anos. Não, mas aí depois, não sei o que. E aí ele não cumpriu a pena. Aí não sei o que. Aí depois ele se passou por outra pessoa. E aí ele vai entrando num espiral de maluquice pra manter essa lei.
que já se tornou uma coisa carnavalesca, porque é isso, é a lei que ele acha que é agora, porque já chegou num nível de abstração, de legalidade, de suposta legalidade, que é uma lei que funciona pelas próprias regras na cabeça do Javé, que é uma figurinha asquerosa.
E por falar nessas figuras que assumem esse papel de... Além sou eu, eu que mando, é assim porque eu quero, ah, mas são as regras da empresa, mas o RH é que direcionou... Porque ele também nunca assume nada, né? A gente tem o Simão Bacamarte, do alienista.
que é um cara que... E aí o legalismo dele já é na área da saúde mental. Porque ele começa a decidir quem é que está doido. Não, porque aí os estudos na Europa e tal, então, assim, se você está sentindo isso e aquilo e tal, é porque você está... Seus nervos estão à flor da pele.
Você já está ficando alienado e vou te internar aqui no meu... E aí o cara ainda é dono do lugar, né? É o meu hospital. Ele é o dono da bola, o dono do campinho. Do campinho. E aí se você não quer brincar com ele, ele te segura ali. Vai entrando também nessa espiral. Falando do Javé, a gente tem essa espiral de legalidade aí, quando a gente fala de lei, né? Da autoridade pela lei.
E do Simão Bacamarte é autoridade pelo discurso, sei lá, acadêmico, o discurso de autoridade, porque ele é a autoridade, ele é o médico. Então você fica preso numa coisa quase, uma teia invisível de que a lei arregra o que é doença ou não.
só funciona na cabeça de quem tem aquele poder. E nesse caso é o médico, é o diretor do hospital. Não, mas... E aí ele acaba encarcerando todo mundo num ponto que ele percebe que ele tem que se encarcerar. Aí o machadão brilhou, porque é eu que tenho que estar aqui dentro. Porque ele começa a perceber em si esses sintomas, né? Porque ele começa a colocar o carimbinho em todo mundo. Assim, não, você não está bem. Tá, mas quem decidiu que eu não estou bem? Eu. Porque a autoridade sou eu.
Eu sou autoridade, eu sou o médico, eu sou o alienista, né? Que era, que seria o pré-psiquiatra. E é desesperador. E eu acho que aí pode ser uma leitura mais feminina do negócio. Porque você lê isso do Machado, você tem toda essa questão.
que puxa pro cômico, né, do cara que todo mundo, ele usa sua régua, sua medição moral e de uma suposta saúde mental tão estritamente que ele acaba, todo mundo acaba se encaixando naquilo, naquele padrão de doido que ele arruma.
inclusive ele mesmo, e aí é a hora que ele pira, que ele fica, e agora? Se eu também tô doido, quem é? Quem cuida? Só que se você pensa por um lado feminino, assim, é muito desesperador, alguém que decide que não, é você que tá doida. Você vai no médico, você fala assim, ah, então, eu tenho sentido aqui uma melancolia, que era o mal, né, o mal do... Ah, então, mas é porque a senhora tá maluca, eu vou ter que internar a senhora aqui no meu, na minha casa, agora ali é nada.
e aí, o que acontece? quanto mais você fala que não está doido, mais doido você soa, não por sua causa mas por essa figura de autoridade que está o tempo todo ali, com a sua reguinha de não, mas você tem que caber nessa regra, que quem define sou eu, quem tem autoridade da mesma forma que a gente falou, quem tem autoridade sobre o seu trabalho, não necessariamente sabe o que você faz nesse caso aqui, a gente tem essa postura policialesca da saúde
De que não, mas quem define se você está doente ou não sou eu. Não adianta você falar que está bem. Que você melhorou, que você não está sentindo mais isso, sou eu. E aí é a carteirada pesada no lombo. Não, você não está no seu juiz perfeito. Eu decido isso.
Tem uma coisa muito curiosa desse poder também exercido aqui, no caso do Arrabi, do Simão e do Javer, dessa figura que, de alguma maneira, tem relação com o Estado, né? E que não tem poder político algum, mas que exerce infernos na vida das pessoas com quem convive. Que é exatamente a figura do patrão que a gente tem descrito aqui. Que é uma figura que não tem um poder real, mas que, de alguma maneira, consegue atormentar materialmente a vida dos seus subalternos, né?
Eu penso também que, não sei se faz sentido o que vocês acham, que eles também dialogam com uma espécie de racionalidade técnica, né? De uma aplicação rígida, de uma norma, sem uma reflexão necessária, crítica, né? Sobre aquilo que está acontecendo, né? Uma, pô, o que eu estou fazendo? Da onde eu estou tirando essa minha ideia? Da onde vem essa ciência? Por que eu quero prender o cara 20 anos depois? Será que faz ainda algum sentido, né? Então, eu acho também essa posição de...
de supervisão, esse cargo de poder que envolve uma criação que retoma aquilo que a gente falou no começo do episódio, né? É uma burocracia, é uma impessoalidade, é uma aplicação de uma técnica sem necessariamente uma reflexão crítica sobre aquilo, sem necessariamente uma questão...
de profundidade do que envolve ali. A gente vira uma ferramenta do sistema ali, né? Uma reprodução de como as engrenagens têm que girar. Não necessariamente uma conexão humana. Eu não vejo no outro um ser humano, né? Eu vejo alguém que deveria ser parte dessa engrenagem também, que deveria auxiliar nesse funcionamento e que não está fazendo isso. É, que tem que se enquadrar pra que isso funcione. A empresa funcione, a sociedade funcione, a escola funcione.
Exato. Eu queria dizer que nesse momento em que eu gravo um grande parênteses, o Kaki está em cima das estantes tentando derrubar livros, mangás Joga aí, Kaki Isso aí, Kaki, mija em cima Agora ele parou, ele mara pedir pra ser justo. Mas ele tava ali se esticando fazendo assim, ó, pra tentar derrubar alguma coisa Poxa, eu amo Ele ao vivo, a gente fala, a gente seria insubordinado e ele falou, bom, é isso, é o meu momento não vejo momento melhor pra fazer isso, senão agora
Mas acho que pra gente encerrar esse episódio com o gancho que a gente deixou lá no começo, pensando aqui no boom que o Diabo Veste Prada está tendo, o que é um livro, né? A gente tem também uma outra relação que eu não sabia, descobri há pouco tempo. E eu queria saber... Eu fiquei particularmente interessado na construção que vocês fizeram pensando na figura da Miranda na primeira versão, né? Principalmente do filme, talvez. Nessa repaginada dela agora.
Essa leitura de vocês duas que vocês estavam conversando achei bastante interessante. Se vocês puderem compartilhar com os ouvintes, acho que vai ser bacana. A minha pergunta, gente... A minha pergunta é... Miranda Priestley tem girl power, Arthur? Miranda Priestley tem girl power. Ela é uma mulher empoderada no primeiro filme, que eu não vi o segundo. Mas ali a gente vê que ela realmente conquistou o lugar dela para poder humilhar todas as outras pessoas.
Pois é. A gente esclarece pra quem é ouvinte recente de onde que vem a piada do Girl Power, só pra gente ter um contexto. Existe uma figura do humor anglófono, que é o Eric Andre. Ele é uma pessoa complexa, eu não vou...
negar as controvérsias dessa figura, mas existe um quadro em que ele tá entrevistando uma moça e ele pergunta pra ela se a Margaret Thatcher tem girl power. E desde então eu uso essa questão, essa pergunta pra gente refletir também sobre algumas
questões que permeiam as complexidades de se viver hoje em dia, não é mesmo? Então, por isso, a questão. Será que Miranda Priestley tinha girl power? Menino, mas sabe que essa é uma coisa... Eu sempre me diverti muito com o Diabo Veste Prado, tá? Principalmente porque eu me identificava muito com a Andy no começo, porque eu não sou muito ligada em estilo, moda, sei lá, eu sou basicona de tudo pra mim, coisas com, né? Eu gosto de coisas bem discretinhas, uma ou outra estampa e tal.
Eu tenho uma coisa, trato terapia, que é a coisa do... Por mim, eu fico invisível, entendeu? Eu fico, nossa, não tem ninguém aqui, né? Questões aí. Mas eu sempre vi no Diabo Beste Prado um filme de terror um pouco. Aquela mulher sempre me aterrorizava. Aí vão vindo as camadas, né? Primeiro, quando você descobre que a Miranda Priestley foi inspirada em uma pessoa real. Fala assim, gente, isso não foi a criatividade humana.
que inventou. Nossa, até parece que existem patrões assim. Sim, existe. Essa personagem foi inspirada em uma pessoa que existe. Pronto, o mundo já acaba dali, né? Meu Deus do céu. Quantos crimes foram cometidos aqui, né? Vírgula do medo e delírio em Brasília. Oh, não! Mais um crime de responsabilidade. Só que aí é... Oh, não! Mais um crime trabalhista.
Meu Deus. Então, primeiro isso, que é uma pessoa que existe. E segundo, acho que com o passar do tempo, aí rola uma coisa perigosa, que é a ideia de tornar ela, assim, uma bad bitch, uma girl boss, sabe? Tipo, meu, uma mulher, nossa, meu, ela é isso e aquilo, e só assim... Empoderada e independente. Ela é um monstro.
Essa mulher é um monstro. Ela é maldosa. Ela é cruel. Tecnicamente, ali, ela domina o que ela faz. Evidentemente que sim. Mas a forma como ela trata as pessoas... E aí vai ganhando um tom meio de comicidade, assim, né?
E aí eu acho que é quando a coisa fica perigosa. Porque quando a gente vê todos os outros de quem a gente falou, a gente vê com bastante clareza o quanto aquela pessoa é transtornada e absurda. Mas eu acho que na Miranda da Crisley a gente não chegou lá ainda. Eu acho que a gente olha ainda pra ela, assim, tem um tanto misto de admiração, assim.
puta, assédio moral, humilha as pessoas na frente de quem tá. O rolê dela chegar jogando as coisas dela em cima da mesa do funcionário. O que é isso? O que é isso? E aí isso se torna o elemento, é o que o Mark Fisher sempre fala, né, que é o elemento do imaginário. O que é o elemento do imaginário de chegar na posição dela? Quando eu chego na posição...
dela quando eu posso ser a pessoa que joga as minhas coisas na mesa de alguém, sabe? Então eu tenho um certo, eu gosto muito da história, eu acho que se desenvolve bem, até porque no final se vê que é uma figura solitária, sem vínculos, etc. Eu acho que a narrativa dá conta de dar dentro das possibilidades estadunidenses, né, galera? A gente sabe que eles têm um jeitinho deles. É...
Eles chegam até certo ponto. Calma também. Mas acho que a narrativa dá conta de fazer uma finalização disso que é decente. O efeito disso, assim, me chama muito a atenção. Porque eu acho aterrorizante. Eu acho uma coisa assim... A gente vai fazer de conta que isso é normal mesmo. É isso. Tá tranquilo.
Não ligariam de ser tratados dessa forma se vocês pudessem chegar nesse lugar, é isso? Porque aí o sonho de vocês é chegar nesse lugar pra vocês serem a pessoa que joga as coisas na mesa dos outros, que trata os outros numa reunião, que chama de burro, que chama de feio. Sei lá, eu acho que ali a gente tem um nó. E você vê, é um nó bem contemporâneo, que é da ordem do...
capitalismo tardio, que é o que são as relações de trabalho, que é aquela cena que virou meme da Emily Blunt, né, fodida, trabalhando, segurando o olho, falando, I love my job, I love my job, I love my job. Então a gente tem ali um conflito trabalhista muito característico do momento em que a gente está. Sabe por que, Arthur? Porque nenhuma obra consegue estar nem à frente nem atrás de seu tempo. Elas estão sempre, sempre no seu tempo. Você acredita nisso? Eu tenho dificuldade. Tenho dificuldade.
mas é uma descrição muito característica exata do momento que a gente vive, de uma impessoalização das relações e de um exercício brutal do poder justificado enquanto uma liderança, enquanto um comportamento de liderança.
É, e acho que retomando aquilo que a gente comentou no começo do episódio, agora com mais repertório e mais exemplos pra gente compartilhar, acho que tem tudo a ver com aquilo que você falou do momento em que esses personagens aparecem, né? A gente não tem essa construção do patrão, sei lá, pensando num vassalo, num suzerano. A gente não tem essa construção de patrão pensando num arrendatário de terra e num...
no campo esinato, até a estruturação, a gente tem isso mais pra frente, né? Quando a gente vai vendo os romances ingleses, quando a gente já tá nessa construção dessa revolução industrial, nessa construção dessa classe média, isso vai se construindo. Por quê? Porque na literatura isso vai se relacionar com a própria construção social, de como a gente tá vivendo esses momentos, de como essa questão da renda da área de terra, da renda que é passiva, de quem é dono das terras, vai construindo, né?
como essa figura vai aparecer, sei lá, em romances europeus que vão falar dessa ascensão do burguês, enquanto a intelectualidade, a aristocracia vai ficando apartada desse projeto, então eles têm que lidar com a abre aspas, educação do burguês inculto, pra entender as normas, essas coisas elas vão aparecendo e vão se complexificando conforme a gente tem essa estruturação social, então a gente tem sempre esse diálogo, muito bom.
O que a gente vê nessas figuras do avarento, do funcionário público, do capitão do navio e a questão filosófica da vingança, do Simão, do Javé, da Miranda Priscila, são essas questões de relação de trabalho que perpassam a construção que a gente tem em determinado momento. O que intriga, o que causa incômodo, o que é essa relação que vai se construindo. Acho que é um pouco por aí que a gente pode fazer esse nó de repente.
Ana, você ia falar alguma coisa e eu talvez tenha cortado você. Não, não cortou não. É pensando nessas relações. A Ana tem girl power, cara. Ela não liga pra isso. Eu não ia te cortar e jogar as coisas na sua cara aqui no meio da gravação.
essas relações desenvolvidas como é fácil pegando esse fio de condução aí como é fácil você perceber que o Scrooge é um otário, que o que ele faz é impensável, mas se fosse a Miranda fazendo e todo mundo fazendo nossa, ela proibiu as meninas de irem pra casa no Natal porque a gente está mergulhado no nosso tempo, então quando você
utiliza o artifício mais safado do neoliberalismo, que é a ilusão de você também vai chegar lá, porque quando eu estou lendo o Scrooge, eu estou me colocando no lugar do fudido. Eu sou fudido que ganha mal, que está com um filho doente, que você não pode passar a Natal em casa. Agora, se eu estou lendo o de Aves Prada...
Eu sou a mocinha que, quem sabe, se tudo der certo, porque este é o caminho natural, vou virar a chafona. E aí essa ilusão neoliberal, essa ilusão que o capitalismo tarde coloca na nossa cabeça de que você tem que passar por isso, porque o caminho natural é você se tornar empresário, bem-sucedido, famoso, rico...
ele embota esse nosso sentimento do absurdo. Ela não é uma mulher fodona, ela é uma grande escrota, essa mulher deveria estar atrás das grades. A sede moral, sabe, não é um trabalho difícil.
Não é um dia difícil numa escola, numa agência de publicidade, numa redação de jornal. É um trabalho calcado no assédio moral. O rolê do café... Eu vi esse filme umas duas vezes na época, depois nunca mais revi. Mas fica sempre na minha cabeça o rolê dela botar a menina pra levar café pra ela e ela sequer tomar o café. Ou de fazer a menina... É, porque ela pode mandar. Ah, então minha filha quer ler o Harry Potter. Mas ainda não foi publicado, se vira. Não estou perguntei isso.
E ficar como se isso fosse uma lição a ser aprendida. E aí você vira o que? A pessoa que fala, ah, não, mas eu só cheguei aqui porque eu passei por isso. Não, você podia ter chegado sem passar. Citando a Eutl Krenak de novo, a gente não precisa sofrer para aprender. Não precisa passar.
Do self-made man, self-made woman, né? Porque ela consegue superar todos os obstáculos, por mais bizarros que eles são. Então ela tem o direito de jogar as coisas dela em cima de você quando ela chega. Então se eu tenho a ilusão de que eu também vou enxergar lá, aí eu vou deixar de lado o absurdo que é uma pessoa...
ser assim. E aí, anos depois, você vai ter o quê? A parte 2. E aí você vai ter, inclusive, a pessoa que inspirou esse papel fazendo, merchando esse filme. É um merchan de ser um escroto. Olha, então, sou eu. Lembra ali que falaram que era baseado numa grande, numa cuzona? Sou eu. É isso pra mim. É o que a Ana Wilton tá fazendo ali. É isso.
E aí esse ano, quando ela aparece no Oscar, todo mundo aplaude, tipo, ó lá, escroto, vai ter o Diabo Veste Parada 2, lembra que a Miranda Puzla é inspirada nessa escrota aí? E aí todo mundo aplaude, né? Aí tem uma tiradinha, né? Do tipo, você gostou do meu look na Winter? E ela olha pra frente e fala, and the nominees are, né? Os indicados são, tipo, não vou responder, sabe? Aí você vai naturalizando essas relações de alguma maneira, né?
Então, provavelmente, quando a gente tiver um distanciamento maior de tempo, a gente vai olhar isso de outra maneira, como a gente olha hoje o Scrooge, o diretor, de uma maneira diferente também, por estar distante temporalmente e ter ganhado corpo à discussão de outra forma. Mas... Eu não... Quando...
como a gente estava montando aqui, eu não podia deixar de trazer porque eu acho que é uma das coisas que mais me assusta, assim, né? No sentido de haver uma... um efeito, uma responsabilidade até diante de como a gente lida com a narrativa, né? Do que a gente normaliza, do que a gente aceita, do que a gente não aceita, do que a gente problematiza, até de como a gente discute. E aí eu acho que a Miranda Priestly, como personagem, é interessantíssima dentro da narrativa, né? Mas o que a gente faz dela...
né? Acaba essa coisa da linkedização da coisa, tipo, o que podemos aprender sobre liderança com Miranda Priestley? Tipo, não faça nada daquilo, porque você vai preso com regras, né? Ou no mínimo você vai tomar vários processos, vai causar um prejuízo pra empresa e aí pode ser demitido. Então, o que a gente aprende? A gente aprende que aquilo ali é ficção, né? E que tem uma pessoa que ficou, né, rica e famosa assim, mas a gente não quer ser essa pessoa, não é legal, não é bacana. É isso que a gente aprende.
Bom, eu tenho certeza que você, enquanto ouvia esse episódio, já pensou em diversos outros patrões na literatura, que você encontrou ao longo da sua trajetória. Então não deixa de contar para a gente, ou no Telegram, ou no Goodreads, ou no Instagram, ou no Spotify.
onde você tiver mais familiaridade, pode contribuir lá, falar, putz, eu lembrei também desse livro que vocês não falaram, acho que esse livro também tem bastante coisa, vocês têm feito muito isso, e é muito interessante vocês responderam ali, por exemplo, no episódio recente de 5 Sentidos, vários outros livros que mexeram com vários outros sentidos de vocês, comentem aí o que vocês lembrarem também.
Enquanto a gente fica por aqui, vocês já sabem, amanhã, 7 horas da noite, no nosso canal do YouTube, teremos a live de Os Pescadores, eu, Ana Raíssa e Igor Neves. Cecília já está aí se encaminhando para a licença dela, que ele está se preparando para a chegada da Flora. Então ela vai participando conforme ela consegue.
E a gente vai dando as folguinhas também pra ela ir podendo descansar, essa lombar e essa costela, pra ela poder ficar da melhor maneira possível, do jeito que dá, né, Cicí? É assim, né? Não tem conforto mais, mas é mais pra vocês já irem se habituando, até porque, eu não sei, né? A gente tá gravando num dia, eu não sei se ela vai ter até nascido, de repente, ali, animada com o show da Shakira. Waka waka! Ei, ei!
Às vezes, né, o que motiva a Diva a sair. Falar, ah, quero curtir a Shakira. E às vezes pode ter sido isso. Considere o nome composto se ela sair no momento do show da Shakira. Verdade. Flora Waka, né? Flora Waka seria sensacional. Já pensou. Aí não precisa nem fazer composto. Você já puxa ali do Flora e já vai pro Waka. E aí você... Mas aí deixa vocês pensando nessa ideia. Ah, vou pensar. Eu tenho algumas horas que dá.
E se você gosta do 30 Minutos, você também pode ajudar a manter esse podcast, fazer com que ele continue existindo. E os caminhos vocês já sabem. Vocês podem seguir a gente no Instagram, pode compartilhar esse episódio, pode imprimir, de repente, um folheto, tal qual os antigos ativistas proletários. Você imprime vários ines aí no seu mimeógrafo e distribui na saída.
do seu turno, deixa as pessoas pegarem um link direto pra esse episódio de Spotify, você pode também curtir essa postagem, compartilhar enfim, abrir os nossos grupos abertos que eu já falei, e você pode ajudar esse podcast a continuar existindo de maneira financeira, o primeiro delas é ouvir esse podcast pela Aurelo que lá cada play é remunerado Aurelo é um tocador de podcast, você escuta o podcast por lá, a gente ganha um troquinho e você não paga nada
É também pelo aplicativo do celular ou o site www.trintamin.com.br, o 30 sempre o numeral mesmo, 30MIM, que você encontra as quatro faixas de apoio que a gente tem e pode escolher uma que cabe no seu bolso e que você vai ter acesso a diversas recompensas, sendo o maior destaque o grupo da Balbúrdia, o grupo que mais cresce no Brasil.
que é a nossa comunidade de leitores, e ali você pode fazer o que você quiser. Não quero grupo, não quero falar com ninguém. Pode ficar só no canal de avisos. Ah, eu quero falar, mas eu quero falar só de livro. Você pode entrar só no grupo de livro. Eu quero falar de livro, mas eu quero encontrar um pessoal para ler também. Então você pode entrar no canal de livro, no canal de...
leitura coletiva. Ah, eu não quero muito falar de livro, eu quero falar de bagunça. Pode entrar na Balbúrdia. Ah, eu não quero nada disso, mas eu adoro caderninho, joguinho, adoro coisas manuais. Pode entrar no grupo de joguinho, a gente tem um grupo pra cada coisa. E se não tiver, a gente cria... A gente pode também entrar em nada, a gente coloca o quê? Fica só no aviso vendo os episódios, as coisas do podcast. Exato. Também tem essa possibilidade.
que funciona ali também como um comentário, que é comentar, de repente, alguma coisa, pode colocar no aviso. Não precisa entrar nos grupos, receber as notificações, você pode ficar no espaço que te der mais conforto. A gente tem algumas pessoas que entram nos grupos e ficam só no quadro de avisos, principalmente as pessoas que estão em momento de pesquisa acadêmica também, que estão ali. Um abraço, Alan, que você volte aos grupos assim que você defender. Tá? Tem um espacinho para cada um.
de vocês ali, do jeito que vocês quiserem. Mas se vocês não puderem manter, comprometer a sua renda mensalmente, o que a pessoa pode fazer, Cecília? A pessoa pode fazer um Pix de um real até o infinito, como diria ele, o rei do camarote. Todos os Pix mandados para pix.com.br serão utilizados para manter esta bela iniciativa funcionando em todas as semanas do ano para quem pode pagar e para quem não pode. Nós não utilizaremos nada disso para custear aí um lookinho... E...
Girl Power para mim, Ana Raíssa. Não faremos isso. Nós apenas manteremos tudo isso funcionando o ano inteiro para vocês. Sigam-nos para saberem as emoções surpreendentes da leitura de Pescadores no dia 2 às 7 horas da noite. Ficamos por aqui. Ana Raíssa, você vai desmutar, você vai falar alguma coisa? Estou ansiosa. A Ana muta o microfone dela a você. Eu fico vendo o botãozinho, eu fico e ela vai falar.
Perdão, eu estava só curtindo a vibes. Eu estava só vibes aqui na telinha. Ó, tchu, tchu, tchu. Perdão. Então é isso. Muito bem, até a próxima semana e até amanhã. Tchau, tchau. Senhoras, senhores e proletariado não binário. Este podcast foi editado por a J. Oliveira.