Alice Caymmi revisita obra de Dorival Caymmi em novo álbum com influência latina
- Álbum CaymmiInfluência da música latina · Produção de Yuri Rio Branco · Releitura da obra de Dorival Caymmi
- Processo CriativoMaturidade artística · Desapego na criação
- Show de lançamento
30 de abril completaram-se 112 anos do nascimento de Dorival Caymmi, uma das bases do cancioneiro popular do Brasil, porque não do mundo. E no mesmo dia chegou às plataformas o disco Caymmi. Uma visita da cantora e compositora Alice Caymmi, a obra do avô. E a Alice que a gente recebe agora com muito prazer no Show da Notícia. Boa tarde, seja bem-vinda.
Boa tarde, obrigada por me receber. Eu que agradeço pela participação. Lindo disco, pra começar, que chegou nessa semana, tá fresquinho. Parabéns. Uma, opa, daqui a pouco tem repórter CBN, agora não. Uma cara toda diferente pras músicas do Dorival Caymmi. Aliás, como que você chamava Dorival Caymmi? De vô, de vovô ou de Dorival mesmo? Vô. E vovô.
Alice, quando é que você começou a pensar em gravar um disco com músicas do seu avô?
Olha, isso na verdade é uma ideia que sempre esteve, né? Aquela grande ideia que não fui eu que tive, está subentendida na minha existência, né? Seguindo a minha carreira, era natural que se falasse nisso e sempre esteve subentendido até que chegou a hora, a hora da maturidade, a hora da possibilidade de olhar para dentro e visitar essa obra sem ser engolida por ela.
E isso já, a preparação do disco, dos arranjos e tal, já começou há bastante tempo? Não, na verdade esse disco foi feito em mais ou menos um ano e meio, dois anos no máximo. Ele foi feito de forma muito rápida, mas é aquela coisa que a gente diz, né? Dez anos de pesquisa, dez anos de estudo, para fazer tudo em dez minutos.
Eu acho que a minha união com Yuri Rio Branco é muito isso, sabe? A gente sabe muito bem o que a gente quer, a gente olhou para a obra dele, a gente entendeu o nosso encontro e a gente entendeu rapidamente do que se tratava. Yuri Rio Branco é o produtor do disco.
Isso, justamente. E eu vi que ele também toca um monte de instrumento, né? Um polvo, praticamente. Sim, nossa! Eu tava vendo a ficha técnica, assim, eu falei, nossa, gente, tô precisando bater uma laje também, viu, Yuri? E realmente eu vi ele tocando tudo isso, mas na hora eu não atinei, sabe? Mas é muito impressionante como ele é um bom, excelente multi-instrumentista. Ele tá onde? No baixo, na guitarra?
Cara, é baixo, é teclado, escaleta, é bateria, ele é um exímio baterista. Impressionante. E um grande beatmaker, né? Então ele tá em muita coisa, é genial. E a ideia, essa ideia, a concepção de usar música latina, entre outros gêneros aí, pra dar essa roupagem pras músicas, tem mão dele?
Tem sua mão também? Como é que foi esse trabalho? Muito, assim, eu chamei ele porque ele tem isso muito. Ele tem uma marca muito forte, latina, na produção dele, nos arranjos. E ele tem também uma coisa da rua, né? Da vivência da rua. Ele não é um cara... Ele não chegou aqui agora. Ele tem uma cara de novinho, assim, mas ele não chegou aqui agora.
Então é muita experiência com música e música popular na rua. E eu sabia que ele ia ter uma visão sobre a música latina, que era o que eu queria trazer. Eu queria trazer a obra do meu avô, expandir para o continente uma obra que é do país, entendeu? E por que isso? Porque eu acho que isso é eternizar uma obra que não está sendo eternizada. A obra de Caymmi é eterna, mas não estava sendo colocada dessa forma no mundo.
E aí ficou aquele dilema, né? Como é que a gente vai inovar com essa obra? E como é que a gente vai expandir uma obra que já é tão expansiva, já é tão colocada, já é tão firme? Como é que a gente vai expandir mais ainda? Vamos olhar para fora do país, então? Vamos pegar outras tradições? Vamos pegar outras músicas populares? Vamos pegar outras histórias musicais da América Latina e trazer para o cancioneiro dele para expandir mais ainda, para ganhar e ser também atemporal?
transformar essa leitura não numa coisa pontual. Ah, o que seria a Caymmi hoje? Aí colocasse, por exemplo, um trap, que é uma música muito atual. Isso seria uma maneira de colocar ele aqui, mas não de uma maneira que ficasse. Então, como é que a gente podia trazer para uma coisa moderna sem ser algo que se perdesse em duas semanas na história, entende? Eu acho que foi uma solução que a gente achou e acabou sendo uma solução ótima.
Vamos pegar um exemplo aqui, já ouvimos aí na abertura a modinha pra Gabriela, que é um dos grandes clássicos que tem aí uma mudança de compasso e tudo, ficou bem legal. E aí tem outro clássico que é esse aí, O Que É Que A Baiana Tem? O Que É Que A Baiana Tem? O Que É Que A Baiana Tem?
Tem toço de seda, tem. Tem brinco de ouro, tem. Tem pano da costa, tem. Corrente de ouro, tem. Tem bata arrendada, tem. Pulseira de ouro, tem. Tem saia engomada, tem. Sandalha enfeitada, tem. Tem graça comum.
Imagina, né? Uma música que a Carmen Miranda gravou lá no começo do século XX, né? É, essa é antiga, hein? Antiguíssima. E aí tem essa bateria eletrônica que tá bem na moda, né? Você passa nos bares, assim, nas esquinas, você ouve aquele piseiro e tal, né? É, na verdade o piseiro veio disso, né? O piseiro veio do bolero e ele é um filho do bolero com o reggae, né? Isso que a gente tá ouvindo aí é reggae.
Reggae é um estilo musical mais ou menos antigo, não é um estilo musical muito novo, não. Ele é a base...
e latino. E é a base de tudo, né? O Piseiro, claro, tem influências disso, enfim. O reggae no Brasil é uma coisa muito difundida e ele é feito de maneiras diferentes em cada ponto do Brasil. O reggae do norte não é o reggae do nordeste, que não é o reggae do sul, que não é o reggae do sudeste. Cada um faz a sua maneira. Então, Brasil é um país continental. A gente tentou, a gente trouxe o reggae à nossa maneira. O Yuri é de Brasília, digamos que é um reggae assim de Brasília.
Você falou uma coisa muito legal, que eu não tinha pensado, sobre eternizar uma obra, porque é o que você disse. Dorival Caymmi é gravado a todo momento. A gente vê discos em homenagem a Caymmi. Eu cito alguns aqui. Tem aquele clássico da Gal, né? Anos 70.
Eu lembro de… Eu entrevistei uma vez o Roberto Menescal sobre a Gal. Ele tava produzindo ela e sugeriu, né? Porque você não grava um disco só sobre Caymmi, né? Aí ela falou, nossa, mas eu gravar um disco sobre Caymmi? Ele falou, quem mais, né? E você, Gal, claro!
Quem mais poderia ser? Ainda mais naquela época. Aliás, eu falaria, né? Quem mais, além de Alice e Caíme, gravar Gal? Gal não, Dorival agora. Mas tem outros, né? Outras homenagens. Em outro tempo. É a mesma ideia. A mesma ideia que a Gal trouxe ali naquele momento daquele disco. É a mesma ideia que eu tenho hoje. Eternizar.
eternizar uma obra que é eterna. Mas o que eu queria pegar é justamente, né? Como eternizar, não apenas gravando, né? Porque você poderia gravar de novo com violão e tal, com a mesma pegada. Isso você acha que passaria, né? Não, é preciso contextualizar uma obra. Toda vez que você relê algo, você relê em outro tempo.
Outro tempo é outro contexto. Cada tempo é um contexto sociocultural, coletivo, diferente, político, diferente.
Entendeu? No tempo de Gal não se imaginaria o que é a geopolítica hoje, não se entenderia a música, jamais poderia se entender a música, uma música sem refrão como é feita hoje na gringa e funcionando da forma que funciona. A estrutura da canção mudou, a maneira de comercializar a canção mudou, como é que você vai reler a obra do Erival que foi feita em 1920, entendeu? Sem levar em consideração o contexto de agora.
Entendeu? Mas é uma armadilha também. A gente podia ter caído numa coisa. O que está rolando agora? O que é? Vamos se conectar, vamos ficar antenados. É perigoso, né? Vamos tomar um bilhão de feats que estão rolando agora. Eu não acho, eu acho que isso é uma das maneiras de contextualizar uma obra. Mas eu não acho isso a maneira mais inteligente de contextualizar uma obra, principalmente uma obra como essa.
Entendeu? Eu acho que se fosse uma obra de um artista que tem mais ou menos essa pegada, que tem mais ou menos essa ideia, tudo bem. Mas o meu avô tinha uma coisa... É simples. É pouca letra, são poucas ideias sendo colocadas ali, é popular, é para ser dançado, é para ser ouvido. É facilmente compreensível na primeira audição. Estamos falando de uma parte da obra, não da obra como um todo. A gente está falando da parte que eu olhei nesse disco.
Mas essas canções, elas... A gente colocou em contexto sem esse ranço, sabe? De, tipo, ficar moderno, sabe? Essa coisa, tipo... Mas você gosta de estar na pista de dança? Gosto, sem dúvida. É o lugar mais feliz pra mim, sempre. E gosta de ter a sua música lá também? Sim, gosto também. Faço muita coisa pra gente dançar chorando. Eu gosto muito da diplomia. Dançar chorando?
É, eu gosto, eu gosto. Isso são as minhas coisas, né? Que eu fiz até hoje, antes do meu avô entrar em cena na minha trajetória. Agora que ele entrou, acabou esse negócio de chorar. Muito bom. Vamos pegar mais um aqui, mais um clássico. Maracangalha.
Ô Alice, e aí que recorte que foi esse que você falou? Como foi selecionar essas músicas? São músicas que têm uma ligação afetiva maior? Qual foi o critério? Você sabe que eu não fritei muito nisso. Eu não fiquei, meu Deus, qual vai ser o recorte? Mas a coisa foi andando de uma maneira. A gente foi achando arranjos. A gente foi seguindo pra essa coisa mais reggae, salsa, salseado.
e essa coisa latina, eu falei o que cabe nisso e fui trazendo. Apesar de ter outras canções também, baladas bonitas, que a gente botou em trip hop, que a gente recontextualizou em outros lugares também. Apesar de ter isso, eu fiz uma coisa para a coisa ficar mais divertida e emocionante.
Eu ia escolhendo ao longo do... Sabe, eu fiz uma pré-seleção, mas sem pirar muito, sem trazer um peso muito grande. E eu ia trazendo para o estúdio, eu falava, Yuri, o que você acha dessa? E aí eu botava para tocar assim uma vez, ele, ah, eu faço assim, assim, assim, assim. Eu falei, então vamos. Entendeu? E era sempre muito assim, tudo muito rápido. De novo aquela coisa que eu falei antes. Dez anos de estudo, dez anos de pesquisa para fazer tudo em dez minutos. Mas não teve nenhuma crise, não, no meio do caminho?
Cara, a única coisa parecida com uma crise foi o Yuri em dada hora olhar para mim e ver se dava para a gente dar uma mudada em uma melodia ou outra.
E eu assim, ó, meu amorzinho, a gente já tá mudando tudo, a gente já tá mudando a harmonia, tudo. Aqui a gente vai, não brigar, mas aqui a gente vai ter um embate. Em vários momentos a gente teve embates assim, que eu tive que... Teve coisas que não se tornaram embates, era simplesmente eu sentada no sofá do estúdio pensando, eu não posso impedir isso de acontecer.
Eu não posso deixar a Alice que sacralizou a obra de Dorival interferir nisso aí que está acontecendo. Eu vou ter que deixar rolar. Depois eu vejo isso. Deixa eu ouvir. E aí eu fazia o exercício de ouvir e ouvir e ouvir, internalizar e entender. Não, ele está certo. É isso. E está tudo bem isso. Mas o único embate, o mais parecido com uma crise...
foi... Ai, Yuri, não quero mudar essa nota, não. Melodia é mais delicado, né? A harmonia até vai lá, né? Melodia é... Eu tenho essa opinião, né? Aí entre as minhas caretices e as minhas coisas... Alguma eu tenho que ter. E aí a coisa da canção... Eu acho que o coração da canção está muito na melodia. Claro que a harmonia influencia muito. Eu não estou diminuindo isso. A harmonia é uma coisa fundamental. Mas eu acho a melodia o coração da canção.
Alice Caymmi está conversando aqui com você na Rádio CBN. Está lançando seu novo disco, Caymmi, com músicas de Dorival Caymmi. São 12 faixas e vai ter show, né, Alice? Sim, dia 7, no Cultura Artística, em São Paulo. 7 de maio, às 8 da noite, no Teatro Cultura Artística, Alice Caymmi, na região central de São Paulo.
E a estreia, viu? O pessoal de São Paulo que curte pra caramba, é a estreia. Tô dando a estreia pra vocês, vai lá. Primeirona, primeirona. E aí, queria saber o seguinte, quando o Dorival morreu, você tinha 18 anos, né? Então você teve uma convivência razoável com ele, né? Tive, tive, tive. Como é que era? Porque assim, eu em casa ouço Dorival Caymmi, né? E lá, como é que era? Na família? Bota no rádio? Bota na vitrola? Como é que era?
Não, ele pegava o violão. Mas depois e tal, assim, no ambiente familiar, como é que é? Olha, deixa eu te dizer uma coisa sobre quem trabalha com música. Às vezes a gente precisa de silêncio, porque é tanta coisa. E uma coisa sobre quem trabalha com música também, principalmente ele, eu acho que ele tinha isso. A música, ela tá sempre tocando na nossa cabeça. Independente do que a gente bota ali pra rolar.
E uma coisa que acontecia muito com meu avô era o silêncio, claro, e a contemplação. Muito mais do que tocar e cantar e ouvir música o tempo inteiro, eu aprendi a fazer silêncio. E contemplar. E eu aprendi com ele que a maior parte da criação dele, musical ou não, era feita em silêncio e meditação. E a música dele tem muito disso, né?
Sem dúvida, sem silêncio não há pausa, sem pausa não há música. E você aprendeu isso já lá com 18 anos ou demorou? Claro que demorou com 18 anos, eu era uma adolescente ansiosa. Imagina, muitos anos até eu olhar para aquilo e falar Ai, era isso que ele estava ensinando, gente. E é claro que eu vivi a minha vida loucamente, com pressa demais e mil crises de ansiedade, é claro, eu sou da minha geração.
Eu não tive o direito que ele teve ao silêncio e à contemplação. Eu não tive esse direito, eu fui atropelada. Eu fui atropelada por imagens, sons, por um tipo de artista, um viver como artista hoje, completamente diferente do que era viver como artista na época dele. Ele tinha direito a alguma privacidade, o artista hoje não tem o menor direito. Então eu sou uma Kayme ansiosa, extremamente ansiosa. E hoje eu olho para...
pra ele, e penso, poxa, seria bom recuperar isso. Uma Caimia ansiosa, isso é muito bom, né? Porque é completamente paradoxal. É uma realidade. Meu pai já é nervoso, eu vim mais esquisito ainda.
pai da Alice é o Danilo. Aliás, eu queria resgatar o Danilo, porque há um ano, eu fui ver agora, eu não tinha sacado isso. A Nana morreu justamente no 1º de maio, né? Fez um ano ontem. E eu, no dia, por coincidência, também estava no ar aqui na CBN e conversei com o seu pai no dia.
ali, minutos depois da notícia, ele teve a gentileza completa de falar naquele momento. E uma das coisas que ele falou, eu falei da personalidade da Nana, personalidade forte, e ele falou todas as mulheres da família Caíme têm essa personalidade forte, é uma característica. O que você acha disso? Eu acho um absurdo meu pai ficar me entregando assim na rádio. Eu acho isso um absurdo. Quando ele fala isso, ele me entrega absolutamente porque...
eu tenho que ser fofinha, eu estou trabalhando há anos, eu faço análise há 15 anos pra ser um pouco mais legal, um pouco mais fofinha, pro papai chegar e dar uma entrevista na rádio e estragar todo o meu trabalho até hoje tentando ser uma pessoa vai ter que levar mais essa
tudo. Eu tô aqui, eu tava quase te convencendo, por exemplo. Aí você lembrou dessa entrevista. Tava me convencendo que tava em silêncio e tal, né? Ah, aqui é o que eu valorizo a meditação, silêncio e a contemplação.
Mas é louco, a gente tem que se forçar a isso hoje em dia, né? Você falou uma coisa que é isso, né? A gente não sai sem celular e tal, tem que estar ligado. Uma coisa da nossa geração. Eu fui tentar, eu fui tentar dia seguinte que lançou o disco, eu falei hoje eu quero ficar em paz. Quem disse? Esqueça. Não acontece, não há. É difícil, muito difícil.
E retomando a Nana, você fez show, inclusive em homenagem a ela, o repertório dela recentemente. E a morte dela teve influência em se debruçar agora também sobre a obra do Dorival?
Não, e agora que o disco do meu avô já saiu, em homenagem ao meu avô já saiu, eu consigo contar a história toda do porquê que eu enfiei, tipo, assim que ela morreu, eu botei a turnê. Esse show para minha tia Nana já existia antes. E ele já tinha estreado há anos atrás. Eu circulei um ano com esse show para ela. Uma época que ela já não saía mais de casa, não podia ouvir, mas ouvia falar do show e ficava todo feliz que o show acontecia.
No advento da morte dela, eu falei, meu Deus, vai vir o Caymmi. Vai vir o disco Caymmi e eu não vou ter tempo de fazer uma homenagem a ela.
Aí eu enfiei essa turnê, falei, gente, cancelei a turnê anterior, matei a turnê que vinha vindo, que era uma turnê voz e violão. Falei, gente, eu preciso de um show voice piano agora, porque ela precisa ser louvada, ela precisa ser ouvida. Deixa eu viajar o Brasil inteiro aqui com ela, com o repertório dela, ela precisa ser ouvida agora, porque em mais ou menos seis meses vai sair outro disco e eu não vou poder olhar para isso.
Então, por isso foi tão rápido, né? No mês seguinte eu já estava, até porque foi a minha maneira de processar.
perda dela, era cantando ela e até hoje essa turnê ainda não morreu, está se encerrando agora e eu estou vivendo esse luto a minha maneira, que é me debruçando sobre a obra dela e como é que a ausência dela influenciou também em olhar para Dorival Caymmi? olha, é muito difícil você falar em ausência de Nana porque não existe física mesmo assim mesmo assim
Não existe. Nana é uma coisa... Minha tia se tornou quase que uma entidade, assim. E eu, por ser muito espiritualizada, eu tenho uma relação com outro plano muito direta, engraçada. A minha relação com a morte é estranha. E em momento nenhum eu deixei de fazer ligações com ela e falar com ela e entender o que ela está achando.
E não pense que as pessoas ficam mais fáceis de lidar quando elas passam para o outro lado, não, porque não ficam não, só piora, tá? Então, negociei muita coisa com ela, negociei muita coisa com o vovô para fazer esse disco, negociei muita coisa com ela, continuo conversando e negociando.
Então a ausência de Nana, assim, mesmo, mesmo, não vivia ainda. É mesmo, não teve a virada de chave. Assim, ó, agora que ela se foi do plano terreno, eu posso olhar com mais calma pra isso, vamos dizer assim.
Ah, eu tenho mais calma sem sombra de dúvida, porque ela aqui terrenamente ela já teria me pego pelo pescoço. Agora eu só olho e falo, ó, eu tô aqui. Vou negociar com você, mas quem tá aqui sou eu, hein? Então eu tomo a frente e faço do meu jeito. Mas tudo que eu consigo saber é que ela gosta. E ela tá feliz. Falando em religiosidade e família, vamos pra mais uma, então.
É meu pai Xangô, é meu pai
O Badi Xangô, seu Oba Otum, Onikoi, que tanto precisa, precisa de ti. Pro canto compor, pra canto cantar, o canto em louvor das graças da flor, da terra do povo e do mar da Bahia. Meu pai Xangô.
Essa aí é uma das músicas mais fortes, mais pra frente a letra cita Caíme, cita Estela, sua avó, Nana, Danilo, Dori. E eu acho que te emociona, né? Muito, muito. É uma oração, é uma oração de proteção à minha família, à minha linhagem, à espiritualidade. Xangô é o Orixá que protege a todos nós.
Meu avô era Oba de Xangô, um dos 12 representantes de Xangô na Terra. Ele era Oba Onikoi. E o cargo dele era esse. Uma Estela deu esse cargo a ele. Ele, Jorge, Caribe, entre outros grandes nomes. E essa música representa muito isso para mim. Essa música representa a minha ligação com ele, representa a minha família, representa as minhas raízes e a minha espiritualidade também.
Sobe o som.
Nossos ouvintes participam aqui da nossa entrevista. O Guilherme aqui de São Paulo. A Alice trouxe músicas de quando eu era criança, né? A Alice cita uma das músicas, já nem sei qual é. Maravilha essa composição. Ela é cheia de alegria e simpatia. Amei esse espírito disposto dela. Olha que legal. Viu como meu pai tava errado? Eu sou fofa.
Sensacional Falar em Fofice Tem uma das músicas aqui que mais me chamaram a atenção Pela mudança com o caráter original dela Que é uma música de Niná Vamos ouvir Acalanto Com esse acalanto ninguém dorme
Aí foi uma brincadeira que vocês resolveram fazer? Como é que foi?
Ah, sem dúvida, foi uma brincadeira grande, assim, né? Porque é uma canção de niná. E aí toda a relação do Yuri com o hip-hop, né? Yuri é um grande produtor de hip-hop. Ele fez agora há pouco tempo o último disco do Don Welly, que é um super rap. Enfim, as produções, os beats. Yuri é um beatmaker, né? Então ele olhou e falou, cara...
Eu acho que isso aqui é um hip hop. Aí a gente chegou nesse lugar e... É aquela coisa que eu te falei. Os momentos que eu sentei no sofá e falei... Eu vou deixar.
Tem um significado, claro, emocional, essa música que foi feita pra ninar as crianças da minha família e tudo mais. Mas eu falei assim, ai, vamos construir isso. É um exercício de desapego muito grande. Ai, é meu, minha história, minha família. Eu tive que botar a música na frente de tudo isso, entendeu?
Mas tem muita música de Niná. A música irreverência e a brincadeira. É, e muita música de Niná dá medo mesmo, né? Boi da cara preta, tal e coisa. Então essa brincadeira ficou mais legal ainda. Sobe o som.
Muito bom, é uma pequena amostra do disco Caymmi, que acaba de ser lançado. Vai ser lançado também fisicamente? Olha, Deus te ouça, como diz o meu amigo, que os anjos da boca mole digam amém. Quem sabe, né? É isso, eu acho que vai sair sim. Os fãs ficam desesperados, cadê meu negócio, cadê meu negócio, cadê meu negócio? Mas a vida é muito doida e eles sabem que a minha vida é imprevisível.
Mas tudo indica que vamos ter sim. É, né? Mas por enquanto você acompanha nas plataformas digitais. A gente mostrou uns trechinhos aí. Eu recomendo que você ouça o disco completo, que tem 12 faixas, todas de Dorival Caymmi. Uma delas, só o Canto de Obá, que tem parceria com o Jorge Amado, né?
Isso, exatamente. Muito bem. Alice, parabéns pelo trabalho. Repetindo então, estará em São Paulo 7 de maio, às 8 da noite no Teatro Cultura Artística. Agradeço demais pela sua participação. Ótimo fim de semana. Até a próxima. Eu que agradeço, querido. Até a próxima. Alice Caymmi. O morena do mar
Eu disse que ia voltar Aí eu disse que ia chegar Cheguei Para te agradar Aí eu trouxe os peixinhos do mar Morena Para te enfeitar Eu trouxe as conchinhas do mar As estrelas do céu