Festival de Veneza começa com coprodução brasileira ‘Retorno a Buenos Aires’ na disputa
A coprodução brasileira ‘Retorno a Buenos Aires’ está na disputa pelo Leão de Ouro do importante Festival de Veneza de 2026, que começa nesta quarta-feira (2). O longa é dirigido pelo ítalo-chileno Marco Bechis, que viveu entre a Argentina, o Brasil e a Itália.
“Retorno a Buenos Aires” acompanha a volta de Mariano Guerra à Argentina depois de 33 anos vivendo na Itália. Ele regressa ao país para depor no julgamento dos ex-militares que o sequestraram, torturaram e escravizaram durante a ditadura militar.
O filme de Marco Bechis é uma coprodução da Itália e do Brasil. Pelo lado brasileiro, três produtores assinam o longa: Patrick de Jongh, da 34 Filmes, Cibele Amaral, da Neocórtex, e André Ristum. O filme é estrelado pelo italiano Adriano Giannini e conta, entre outros atores, com os brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy em papéis de destaque.
O diretor de “Terra Vermelha” e “Garage Olimpo” retoma, com essa nova obra, “um pouco as suas origens, ao abordar essa temática tão significativa e tão importante em toda a vida e na formação dele”, destaca André Ristum, amigo de Marco Bechis, que deu o pontapé inicial para a realização do projeto.
“A gente estava tendo a volta dos financiamentos no Brasil e, depois de ter lido o roteiro maravilhoso, eu apresentei para o Patrick e para a Cibele. Eles adoraram e nasceu essa relação, esse casamento em torno desse projeto que está sendo realmente muito feliz”, lembra.
Tema importante para o Brasil
Patrick de Jongh é o fundador e diretor da 34 Filmes. A produtora independente de Brasília venceu o edital de coprodução internacional de 2024 da Ancine para financiar o filme que trata, segundo ele, de um tema importante para o Brasil.
“Os tribunais militares aconteceram na Argentina, mas acabaram não acontecendo no Brasil. Eu acho que é uma maneira de trazer esse assunto à tona de novo, justamente em vista de tudo o que tem acontecido após a polarização política dos últimos anos no Brasil”, diz.
A seleção para Veneza consolida a atuação internacional da 34 Filmes e coloca Brasília pela primeira vez no mapa do cinema mundial.
“Nosso objetivo não é só uma estratégia da produtora de abraçar essas coproduções internacionais, mas também sacramentar essa estratégia federal dos arranjos regionais. A gente ganhou o edital pela cota regional e ter conseguido, já de cara, colocar o filme num festival tão importante só mostra que esses programas precisam continuar. Investir nesses mercados fora do eixo Rio-São Paulo é importantíssimo. São novas narrativas, novas possibilidades, para trazer um outro Brasil também para o mundo”, ressalta Patrick de Jongh.
Política pública de sucesso
“Retorno a Buenos Aires” é o único representante brasileiro na competição principal de Veneza. Em Cannes, em maio, o Brasil também só esteve presente na disputa pela Palma de Ouro com coproduções internacionais. Cibele Amaral, da Neocórtex, acredita que essa política de coproduções internacionais é uma estratégia de sucesso.
“Hoje em dia, você precisa fazer um pacote realmente poderoso para ter êxito de bilheteria e também nos festivais. Esse modelo de coprodução traz uma força grande para o projeto e, com certeza, traz o Brasil para um protagonismo. É uma política pública que está dando seus resultados”, avalia.
O filme de Marco Bechis custou € 2,5 milhões, financiados majoritariamente por quatro produtoras italianas: Fandango, 39Films, Karta Film e Rai Cinema. O Brasil entrou com € 700 mil (R$ 4,2 milhões), cerca de 25% do total, e o retorno para a indústria cinematográfica do país já foi significativo.
O longa se passa na Argentina, mas foi rodado durante quatro semanas em Porto Alegre, no Brasil, e mais três semanas em Turim, no norte da Itália, com participação destacada de técnicos, atores e atrizes brasileiros. Paula Cohen, filha de uruguaios, faz o papel da juíza no processo dos ex-militares argentinos.
“Eu fui criada entre esses países e foi muito especial. O Marco foi sequestrado, foi torturado. Ele viveu essa história muito de perto. Ele é um diretor excepcional e trabalhar com ele, ouvi-lo, foi, para mim, realmente um aprendizado maravilhoso. Acho que me expandi como atriz nesse projeto”, revela a atriz.
Paula Cohen participa pela primeira vez do Festival de Veneza. Ela está “felicíssima” por estar na disputa “contando essa história tão importante, tão necessária de ser contada”, salienta.
Estreia mundial
A coprodução brasileira “Retorno a Buenos Aires” integra uma lista de 21 filmes assinados por grandes nomes do cinema mundial que concorrem ao prestigioso Leão de Ouro do Festival de Veneza. Entre os concorrentes estão diretores como o britânico Danny Boyle, o alemão Werner Herzog, o japonês Kore-eda e o italiano Nanni Moretti.
Esta 83ª edição do Festival de Veneza será dominada por temas políticos. A disputa será acirrada, mas a seleção já é festejada pela equipe.
“Para nós é um sucesso, um enorme êxito poder estar nessa competição. Vamos para Veneza e vamos curtir esse momento dessa viagem de um filme do cinema brasileiro, por meio de um filme internacional, na disputa com grandes realizadores e equipes talentosíssimas do mundo inteiro. Realmente vai ser uma emoção muito grande estrear esse filme em Veneza”, antecipa André Ristum.
“Retorno a Buenos Aires” estreia no Festival de Cinema de Veneza em 11 de setembro, com a presença dos três coprodutores brasileiros, da atriz Paula Cohen e do ator Eduardo Hoy. O filme de abertura na noite desta quarta-feira é “Ink”, de Danny Boyle.