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Escritos de Mario de Andrade sobre a música brasileira ganham edição inédita em francês

04 de maio de 202611min
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O intelectual, escritor e poeta modernista Mario de Andrade foi pioneiro nos estudos sobre a música popular brasileira. Entre as décadas de 1920 e 1940, o autor de Macunaíma recolheu e pesquisou cantos, danças e tradições folclóricas em diversas regiões do Brasil, em busca de uma cultura brasileira autêntica. Pela primeira vez, ensaios, críticas, artigos e poemas de Mario de Andrade sobre a música brasileira foram traduzidos para o francês e publicados pela editora da prestigiosa Philharmonie de Paris (Filarmônica de Paris).

Adriana Brandão, da RFI em Paris

O livro "Écrits sur la Musique Populaire Brésilienne" (Escritos sobre a Música Popular Brasileira), de Mario de Andrade, foi organizado por Pedro Fragelli, especialista na obra do escritor modernista. A tradução é de Mathieu Dosse, e a edição é ilustrada com fotografias das expedições de Mario de Andrade pelo Brasil.

O organizador Pedro Fragelli, que esteve em Paris para o lançamento, destaca o caráter único da obra em francês.

“Não existe no Brasil um volume que reúna uma parte significativa dos ensaios de Mario de Andrade sobre música, nem que articule esses textos com as fotografias de suas expedições. Uma edição como essa faz falta no país”, diz.

As traduções dos textos para o francês também são inéditas. O tradutor Mathieu Dosse observa que os ensaios de Mario de Andrade preservam a oralidade presente na ficção do autor.

“Ele usa expressões originais, elipses e uma ortografia particular. Optamos por não reproduzir isso literalmente em francês, mas procurei manter a oralidade e a proximidade com o leitor, porque mesmo nos ensaios o Mario dialoga e narra de forma muito generosa”, conta Dosse.

Intelectual brasileiro mais importante da primeira metade do século XX

Mario de Andrade fundou a etnomusicologia no Brasil e promoveu uma verdadeira revolução na produção artística nacional. Ele foi um dos principais expoentes do modernismo brasileiro, ao lado de Oswald de Andrade e Sérgio Milliet, entre outros. Mas no prefácio de “Escritos sobre a Música Brasiliera”, Pedro Fragelli afirma que Mario é o intelectual brasileiro mais importante da primeira metade do século XX.

O especialista sabe que sua afirmação é passível de contestação e crítica, mas sustenta a sua tese. Segundo ele, “a intervenção cultural de Mario de Andrade é incomparável pela abrangência e pela influência. Sua obra ultrapassa a literatura e inclui música, artes plásticas, cultura popular, costumes e dança. Além disso, ele compreendia a cultura como uma construção coletiva, dialogava intensamente com intelectuais de todo o país e acabou se tornando um centro de articulação da vida cultural brasileira”.

O conjunto excepcional de documentos reunidos por Mario de Andrade sobre a música brasileira "diversa e variada" constitui um de seus maiores legados. O autor acreditava que a singularidade dos ritmos nacionais estava justamente na diferença ou no desvio em relação aos padrões da música clássica ou tradicional europeia.

Mario de Andrade começou a escrever sobre música brasileira nos anos 1920, quando músicos e ritmos do país começavam a ganhar projeção internacional. Para Pedro Fragelli, no entanto, a singularidade defendida por Mario era muito diferente do exotismo que fazia sucesso no exterior. “Ele se preocupava com a valorização excessiva de traços exóticos para agradar ao gosto europeu. Seu projeto buscava construir uma música nacional capaz de contribuir para a música dita universal”, afirma.

Visionário

Para o tradutor Mathieu Dosse, Mario de Andrade foi um visionário.

“Ele falava de uma outra época, mas já percebia que a música brasileira se internacionalizaria. Não sei o que teria pensado da Bossa Nova, mas tinha um conhecimento profundo da música popular, especialmente do Nordeste, e defendia que ela servisse de base para a música erudita no Brasil. Era um nacionalismo positivo, voltado para o que o Brasil podia oferecer ao mundo.”

Apesar de escritos há cerca de cem anos, os textos de Mario de Andrade revelam ao público francês um Brasil ainda pouco conhecido na Europa. “Eles mostram uma música muito mais complexa, variada e rica do que se imagina, cheia de contradições internas" avalia Pedro Fragelli. Além disso, revelam um país multifacetado e uma produção intelectual cosmopolita, mas autônoma em relação aos parâmetros culturais europeus, 

Mario de Andrade "mostra a possibilidade de desprovincianizar o pensamento nos países de origem colonial", resume o especialista.

Por enquanto, "Écrits sur la Musique Populaire Brésilienne" existe apenas em francês, mas Pedro Fragelli já trabalha em uma edição em português que reunirá, em um único volume, o trabalho revolucionário de Mario de Andrade sobre a música popular brasileira. Os textos defendem uma visão nacionalista crítica, sem qualquer forma de patriotismo simplista.

Pedro Fragelli e Mathieu Dosse participam nesta segunda-feira (4) à noite de uma mesa redonda sobre o livro de Mario de Andrade na Maison de l'Amérique latine de Paris. Na terça-feira, eles voltam a falar sobre Escritos sobre a Música Popular Brasileira na livraria Portuguesa e Brasileira de Paris.

Participantes neste episódio2
M

Mathieu Dosse

ConvidadoTradutor
P

Pedro Fragelli

ConvidadoEspecialista na obra de Mário de Andrade
Assuntos3
  • Dia da Língua Portuguesa em ParisPioneirismo de Mario de Andrade nos estudos de música popular brasileira · Pesquisa de cantos, danças e tradições folclóricas · Tradução e publicação pela Philharmonie de Paris · Organização e tradução da obra · Ilustrações com fotografias das expedições · Preservação da oralidade nos ensaios
  • Mario de Andrade: intelectual e modernistaFundador da etnomusicologia no Brasil · Revolução na produção artística nacional · Expoente do modernismo brasileiro · Intelectual brasileiro mais importante da primeira metade do século XX · Intervenção cultural abrangente e influente · Obra tentacular que abrange literatura, música, artes plásticas, cultura popular, costumes e dança · Visão da cultura como construção coletiva
  • Música Cristã BrasileiraDiferença em relação aos padrões da música clássica europeia · Preocupação com o exotismo na difusão internacional · Projeto de construção de uma Música Nacional · Contribuição para a música dita universal · Visão de internacionalização da música brasileira · Uso da música popular para criar música erudita · Nacionalismo positivo e contribuição do Brasil para o mundo
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O intelectual, escritor e poeta modernista Mário de Andrade foi o pioneiro dos estudos sobre a música popular brasileira. Entre os anos de 1920 e 1940, o autor de Macunaíma coletou e pesquisou cantos, danças e tradições folclóricas em todo o Brasil na busca de uma cultura brasileira autêntica. Pela primeira vez, os ensaios, críticas, matérias e poesias de Mário de Andrade sobre a música brasileira Operation

foram traduzidos em francês e publicados pela editora da prestigiosa Filarmônica de Paris.

O livro, escrito sobre a música popular brasileira de Mário de Andrade, foi organizado por Pedro Frageli, especialista na obra do escritor modernista. A tradução é de Mathieu Doss. A edição é ilustrada com fotografias das expedições de Mário de Andrade pelo Brasil. O organizador Pedro Frageli, que veio a Paris participar do lançamento, ressalta que o livro em francês é único.

A grande maioria dos textos que estão reunidos no volume está publicada no Brasil, em edições disponíveis, algumas edições esgotadas, mas os textos estão espalhados em edições diversas, algumas mais antigas, outras mais recentes, algumas excessivamente acadêmicas, então mais difíceis de ler para o público.

porque tem muitas notas, muitos comentários, etc. Mas não há um volume que reúna uma parte significativa dos ensaios sobre música ou sobre música popular brasileira, mais especificamente, do Mário de Andrade no Brasil. As fotografias também, uma parte delas foi publicada em livro, mas não há um volume que reúna ou que põe em relação as fotografias com os textos sobre música também.

Então, uma edição como essa falta no Brasil. As traduções para o francês também são inéditas. O tradutor Mathieu Doss ressalta que os ensaios de Mário de Andrade sobre a música também têm a oralidade que marca os textos de ficção do autor. Mário de Andrade tem expressões um pouco originais, ele faz elipses.

Ele também usa às vezes umas palavras que hoje em dia não se usa mais. E quem conhece um pouco a escritura dele, sabe que ele usa uma ortografia muito particular. Ele escreve, por exemplo, si com S e I. Algumas vezes, não sempre. Ele não escreve ainda, mas ainda é o Mário de Andrade. No Macunaíma ele também faz isso.

E aqui ele fazia isso também em alguns textos. Então eu me perguntei, meu Deus do céu, será que eu vou fazer isso em francês? Daria para fazer alguma coisa parecida, daria para fazer, mas ficava estranho. E eu conversei com o Pedro Frageli e o Pedro me disse, olha, eu acho que é melhor a gente não fazer isso. Vamos manter o texto num francês, num registro natural e não...

usar essas particularidades do Mário. Mesmo assim, eu consegui ali, um ou outro momento, botar um pouco de oralidade em francês, uma frase um pouco mais coloquial, talvez para dar essa impressão do Mário, que é um texto muito generoso. O Mário conta, mesmo quando são ensaios que falam da música, que falam de um projeto de vanguarda brasileira, ele fala com o leitor, se expressa diretamente.

Mário de Andrade fundou a etnomusicologia no Brasil e iniciou uma revolução na produção artística nacional. Ele foi um dos principais expoentes do movimento modernista brasileiro, ao lado de Oswald de Andrade e Sérgio Millier, mas no prefácio, Pedro Frageli afirma que Mário de Andrade é o intelectual brasileiro mais importante da primeira metade do século XX.

A meu ver, a intervenção cultural que o Mário de Andrade realiza é incomparável em relação aos outros autores, do ponto de vista da sua abrangência e do ponto de vista da sua influência.

Até porque a obra do Mar de Andrade é uma obra tentacular. Ela ultrapassa os limites da literatura e abrange a música, abrange as artes plásticas, abrange a cultura popular, os costumes, a dança. Então é uma atuação muito mais ampla e mais vasta que a dos outros modernistas.

A segunda razão está no fato de que o Mário de Andrade entendia a produção da cultura como uma realização coletiva, então ele interagia constantemente e intensamente com os intelectuais do país todo.

Com isso, ele se tornou uma espécie de centro de gravidade da produção cultural brasileira do século XX. O conjunto excepcional de documentos sobre a música brasileira, diversa e variada, é um dos principais legados de Mário de Andrade. Segundo ele, a singularidade dos ritmos nacionais era a diferença ou o desvio em relação aos padrões da música clássica ou tradicional europeia.

A CIDADE NO BRASIL

Mário de Andrade começou a escrever sobre a música brasileira nos anos 1920, quando os músicos e ritmos do Brasil começavam a ser conhecidos no exterior. Mas segundo Pedro Fragelli, a singularidade da música que ele buscava e defendia é muito diferente do exotismo que faz sucesso no estrangeiro. Ele percebe que a música brasileira começava a despertar interesse na Europa. E...

Isso o preocupava na medida em que ele notava que o que era difundido aqui, em geral, se caracterizava por um certo...

exotismo, ou seja, uma música que realçava de maneira excessiva as características da música brasileira para agradar um gosto europeu pelo exótico. Agora, o projeto de construção da Música Nacional do Mar de Andrade tem em vista a formação de uma música que pudesse contribuir para a música dita universal.

Para o tradutor Mathieu Doss, Mário de Andrade foi um visionário. Eu me perguntei uma hora, quando eu estava traduzindo, o que o francês, o que o leitor francês não conhece o Brasil tão bem, mas que conhece a música brasileira. A partir dos anos 50, a música brasileira ficou conhecida no mundo com a Bossa Nova e depois, mais tarde, com a MPB. Mas o Mário de Andrade, ele fala de uma outra época e talvez ele era, de certa forma, um visionário, porque ele percebeu que a música brasileira ia se internacionalizar, de certa forma.

Eu não sei o que ele teria pensado da Bossa Nova. Não sei se ele ia ter gostado muito desse gênero. Eu não tenho certeza disso. Mas, enfim, ele tinha uma visão da música, um conhecimento muito profundo da música brasileira. Ele sabia que aquele conhecimento, aquela música brasileira popular, que é a música, sobretudo, do Nordeste, mas de outras regiões também, ela tinha que ser usada para criar a música erudita no Brasil. E ele tinha uma consciência muito forte da nacionalidade brasileira. Não uma nacionalidade negativa, mas sim um nacionalismo positivo,

que era entender o que o Brasil podia dar para o mundo e para ele próprio também. Apesar de terem sido escritos há cerca de 100 anos, os textos de Mário de Andrade sobre a música revelam ao público francês um Brasil ainda pouco conhecido na Europa, acredita Pedro Frageli. Desde o Mário de Andrade a música brasileira popular passou a ser muito conhecida aqui na França, mas acho que não é essa música popular brasileira que o Mário apresenta.

a música popular rural, por exemplo, as danças dramáticas, os copos dos cantadores nordestinos. Mas os textos do Mário mostram que a música brasileira é muito mais complexa e muito mais variada e rica do que se imagina por aqui. É uma música cheia de contradições internas que contribuem para o interesse dessa música.

e que a tornam uma espécie de contramodelo cultural para quem pensa a música dos países periféricos de maneira não problemática. Então, acho que ele apresenta um país multifacetado e muito interessante. Outra coisa importante é que ele mostra como no Brasil há uma produção intelectual voltada para o próprio país, mas dotada de uma incrível informação cosmopolita.

Então ele se coloca de maneira bastante autônoma e independente em relação aos parâmetros culturais europeus. Ele mostra a possibilidade de um pensamento, de desprovincianizar o pensamento nos países de origem colonial.

Por enquanto, o escrito sobre a música popular brasileira só existe em francês, mas Pedro Frageli já está trabalhando em uma versão em português, reunindo em um só volume o trabalho revolucionário de Mário de Andrade sobre o tema. Os textos defendem uma visão nacionalista crítica sem nenhum patriotismo primário.

A CIDADE NO BRASIL

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Livro "Écrits sur la Musique Populaire Brésilienne"
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