Episódios de Naftalina Fresh

#82 Luto, ansiedade climática e visões do futuro

11 de agosto de 202624min
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4 meses depois, mas antes tarde do que mais tarde.

Hoje a conversa é meio longa, espero que vocês estejam sentados.

Participantes neste episódio1
K

Karina

HostMédica radiologista
Assuntos3
  • Luto e Perda· SociedadeLidar com o luto·Medo da morte·Outro lado·Planejamento de funeral·Necromancia digital
  • Aceitação do que não se pode controlar· SociedadeEl Niño·Ciclone bomba·Fenômenos naturais·Impotência diante da natureza
  • Planejamento para o futuro· SociedadeEntrevistas de emprego·Perspectiva de longo prazo·Ansiedade e paralisação
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Queria perguntar para vocês se vocês sabem lidar com o luto, ou se vocês sabem como que vocês costumam lidar com esse tipo de coisa quando alguém muito importante para vocês se vai. E o que que vocês fazem a partir disso? Eu demorei muito tempo para voltar aqui para o podcast, como já é de costume eu demorar, mas dessa vez eu realmente não sabia o que fazer ou o que falar. Então eu vou falar sobre um tema que tá muito frequente na minha cabeça nos últimos meses, para que de repente tirando isso da minha cabeça eu consiga voltar a falar sobre outras coisas.

Oi, se é a primeira vez que tu clica aqui nesse podcast, seja bem-vindo. Meu nome é Karina. Aqui no Naftalina Fresh geralmente eu falo sobre, sei lá, livro, música, filme, série, alguma coisa que eu assisti ou pensamentos aleatórios que eu tive. E hoje especificamente eu vou falar sobre uns 3 assuntos principais, e o primeiro deles vai ser sobre luto, porque é uma coisa que eu tô atravessando no momento. Em junho teve uma perda muito importante na minha vida, na vida da minha família como um todo.

Eu perdi a minha avó e era a última avó que eu tinha. Eu perdi minha outra avó e os meus dois avós já há bastante tempo, então era o último elo, digamos assim, com a questão de ter a voz. Então foi, foi, tá sendo, né, um momento que eu tô tentando entender como é que eu lido, como é que a gente continua daqui para frente. E eu tenho tentado observar também como eu reajo diante disso e como as outras pessoas também tentam lidar com essa perda, porque que a gente sabe que é uma coisa muito particular, né, o luto.

Cada um lida de uma forma, uns lidam não lidando, entre aspas, né, mas cada um vai tentando arrumar um jeito de continuar e levar adiante o que quem partiu não vai poder continuar levando. Então quando a minha avó partiu em junho eu comecei a ter 1 milhão de perguntas sem resposta na minha cabeça, 1 milhão de pensamentos que antes eu não tinha. Eu acho que eu nunca tinha tido antes, e eles começaram a surgir na minha vida e na minha cabeça com bastante frequência, coisas que eu acho que eu nunca cheguei a pensar mesmo quando os meus outros avós e a outra avó partiu, porque eu era bem adolescente, eu tinha recém entrado na vida adulta, a minha cabeça era outra, eu não tinha muita profundidade de pensamento para nada.

E agora, depois de 32 anos sendo a neta dela, eu vou continuar sendo a neta dela, só que de uma maneira diferente, porque ela não vai mais estar aqui nesse plano, pelo menos. E aí quando a vó partiu, eu comecei a pensar muito sobre como que é do outro lado, coisas que eu já pensava assim, só que eu comecei a pensar com um pouco mais de força, não sei se é força, mas de uma maneira mais consistente, eu acho que pode ser assim, de tentar acreditar um pouco mais que existe um outro lado, que agora ela tá bem lá do outro lado.

Que ela pode ter encontrado com o meu avô depois de 19 anos deles separados, porque ele faleceu há 19 anos. Eu tento entender assim coisas que podem me ajudar a lidar com isso e a me confortar de certa forma, porque o luto eu acho que nunca desaparece, né? A gente encontra uma maneira de lidar com ele, mas ele não some. Ele vai se adequando e vai se tornando parte, eu acho, da tua vida daqui para frente. Mas ele não some, a falta que tu vai sentir da pessoa não vai desaparecer, ela vai assumir uma outra forma, talvez.

E aí eu até tô olhando agora para uma folha de caderno que eu escrevi um tempo atrás, vários tópicos que eu queria falar sobre isso quando eu voltasse a gravar. E aí o primeiro era esse do luto e de ter muito medo da morte, porque A gente sabe, desde que a gente nasce, a gente sabe que a única coisa certa na vida é a morte. Só que quando ela chega mesmo tão perto assim de ti, tu nunca vai saber o que fazer. E eu até escrevi sobre isso, porque é óbvio que a única maneira que eu ia conseguir me expressar primeiramente sobre isso era escrevendo.

Eu não consigo me expressar tão bem falando e nem gravando vídeo para o YouTube, né? A primeira coisa que eu fiz foi, depois de 14 dias de um grande vazio da perda dela, eu fui escrever no meu Substack. Foi o pessoal, né, não o profissional. Foi a primeira vez que eu tentei colocar em palavra o que eu tava sentindo. E eu lembro que eu escrevi isso, acho que até o título, que é: quando a morte chega muito perto, tu não sabe o que fazer, porque tu não sabe.

Tu não sabe como é que vai ser, tu não sabe como tu vai reagir. Tu sabe que ela tá por ali rondando, mas quando ela chega mesmo e leva alguém embora, é muito esquisito. É muito esquisito porque não tem mais o que tu fazer, não tem mais o que tu fazer, não tem mais o que tu falar, não tem mais para quem tu rezar, e te resta aceitar. E não é fácil aceitar. Se é uma pessoa que tá há muito tempo já numa situação muito difícil e que tu sabe que vai chegar a qualquer momento, é uma coisa.

Agora, quando a pessoa tá bem e duas semanas depois ela simplesmente não tá mais aqui nesse plano, é uma situação muito diferente, muito, muito diferente. E o medo que eu passei a ter não foi só assim o medo de morrer, né, que a gente nunca sabe como que vai ser. Foi de ter medo de pensar na hora da morte, assim, sabe? De se a pessoa sabe que ela tá partindo, se ali na hora ela sente que tá indo, porque algumas pessoas sabem, né, se conformam.

Outras já sabem há muito tempo e começam a pensar muito sobre isso porque algo nelas tá sinalizando que o momento tá chegando e elas estão muito tranquilas com isso porque beleza, elas viveram o que dava para viver. E agora elas podem ir embora. E aí muita coisa começou a aparecer na minha cabeça, o que eu acho que é normal de quando tu passa por um baque desses, tu começar a pensar em tudo, a questionar tudo, a tentar entender o porquê da gente tá aqui e por que que a gente vai embora, e como que as coisas são do outro lado, se existe um outro lado.

E eu procuro pensar que existe porque talvez seja a única maneira de eu me conformar e me confortar com isso em algum momento da minha vida. Então eu precisava trazer para cá isso, porque só escrevendo talvez não fosse suficiente para eu tirar do meu coração esse monte de coisa que eu tô falando aqui sem parar, né? E aí eu comecei a ter esse milhão de perguntas assim. E uma coisa que eu nunca tinha sentido antes, e eu senti no dia que a minha avó faleceu e no dia seguinte principalmente, foi ter, sentir medo por ela, de como que ela chegou do outro lado, se ela tava se sentindo muito sozinha, se quando ela acordou, né, no outro plano, ela entendeu o que tinha acontecido, se não sei se o meu vô tava lá para receber ela, se os dois irmãos que ela já perdeu estavam lá para receber ela.

Eu comecei a ter muito medo por ela e medo de que ela tivesse sentindo medo, sabe, de estar do outro lado. Mesmo eu tendo essa noção de que nos momentos finais ela sabia que eram os momentos finais dela, eu tinha muito medo que ela tivesse sozinha ou com medo. E esse é o tipo de coisa que eu só posso imaginar como é que foi, porque O momento que eu vou ter certeza de como é, é quando em algum momento da minha vida eu já não tiver mais na minha vida.

E aí também, a menos que eu apareça em sonho pra alguém pra contar, a gente só descobre quando é a nossa vez, né? E aí essa história toda também me faz pensar uma coisa, que é se eu já deveria estar pensando minimamente sobre isso, mesmo que a gente não saiba quando que vai ser a nossa vez, em que momento isso vai chegar. Eu deveria ter uma noção do que que eu espero desse dia. Eu já deveria ter decidido se eu quero ser velada, enterrada num cemitério, se eu quero ser cremada.

Eu já sei que roupa que eu gostaria que colocassem em mim, porque isso é o tipo de coisa que quem é mais novo nunca vai parar para pensar. Eu acho que isso é muita coisa de pessoa mais idosa ou dos mais antigos, que tinha uma roupa de ser enterrado. Geralmente era roupa que usava, sei lá, em festa, ou a roupa de sair, uma roupa mais ajeitada, pra pessoa ter uma última aparência decente. As minhas avós, tanto essa que faleceu recentemente quanto a outra, elas já tinham escolhido uma roupa que elas queriam ser, enfim, enterradas usando determinada roupa, que era uma roupa bonita, uma roupa de festa.

Um dos meus avós, na época eu não sabia que ele já tinha escolhido uma roupa ou não. O que eu tinha de informação é que ele não queria sapato, porque ele nunca usou sapato. Usava, sei lá, no casamento das filhas e tal, mas ele não gostava de sapato. Então não era pra ele ir embora usando um sapato. E coisas do gênero, sabe? Então existia, e eu acho que ainda existe, essa coisa de a roupa que vai ser enterrado. Mas pra quem é mais novo, pra quem não pensa sobre isso, e eu só parei pra pensar sobre isso porque eu estou enfrentando esse momento de ter perdido recentemente alguém, de pensar, com o passar dos anos eu vou atualizando na minha cabeça qual é a roupa que eu gostaria que colocassem em mim, qual é a última visão que eu gostaria que tivessem do meu corpo, sei lá, porque a gente não pensa nisso, né, nunca pensa nisso, ninguém quer pensar sobre a própria morte ou sobre a morte de pessoas próximas porque Tem muito essa coisa de é bom não falar porque vai que atrai, mas a questão é que vai chegar em algum momento.

E quanto mais informações tu tiver deixado dita para alguém ou escrita, vai facilitar para quem ficar, porque na hora de tomar as decisões e de fazer as coisas, se a pessoa não souber nada o que que tu queria, ela vai fazer do jeito dela, porque ninguém avisou, ninguém deixou nada dito, ela não faz ideia, ela vai tentar fazer o melhor. Mas não vai ter 100% de certeza se isso era o que tu queria. A minha avó, a gente sabia a roupa e era uma coisa assim, ok, sabemos a roupa, sabemos o local, mas e a gente?

A gente não pensa nisso, né? Nunca pensa, tipo, eu deveria ter um caderno com todas as minhas senhas anotadas? Eu deveria ter alguma coisa guardada onde vai ter alguém que vai saber que Aqui tu acessa a minha senha do banco para pegar o meu dinheiro e fazer o que for preciso nessa minha última estada, ou aqui tá a senha de tudo para tu poder acessar e excluir as minhas redes sociais, excluir os meus emails, entrar no meu computador e sei lá, salvar tudo no HD ou deletar tudo, tá aqui o acesso, esse tipo de coisa, porque Como tá tudo digital agora, eu não sei se eu quero que fique, sabe, internet afora, uma rede social, uma página, alguma coisa que eu fazia depois que eu já não tiver.

E aí, se tu te vai e ninguém sabe qual é a senha, qual é o acesso, tu fica lá pra sempre. Uma coisa meio, sei lá, necromancia digital que as pessoas falam, que é usar inteligência artificial pra reviver pessoas que já se foram, nesse caso tu nunca vai ter se ido, porque ninguém deletou a conta. Tu não deixou a senha e o login em lugar nenhum, então vai ficar lá pra sempre. É isso que tu quer? Ou tu gostaria que as pessoas, sei lá, deletassem e tal?

E a gente nunca pensa nisso. E é o tipo de coisa que eu comecei a pensar, assim, se a gente tinha que ter alguma coisa planejada, se tinha que, sei lá, saber minimamente quanto que custa. Porque isso é uma coisa que a gente fala muito, né, na hora de ver os preços desse tipo de coisa. Quando alguém se vai, é muito caro morrer, não tá dando para morrer porque custa muito caro. Um caixão custa caro, tem uma cerimônia. Se tu vai decidir que a pessoa vai ser cremada, tem outro valor.

Se vai ser sepultado, boa sorte procurando um lugar no cemitério para essa pessoa ser alocada. E é uma função assim que, nossa, boa sorte mesmo, é só o que eu posso falar em resumo. Então eu comecei a pensar nesse tipo de coisa depois que a minha avó partiu, porque fica muito, muito presente na tua cabeça esse tipo de pensamento de eu deveria ter uma noção mínima de quando for a minha vez. Porque uma vez no podcast da Lorelay Fox A Lorelay falou sobre isso, nem a tua foto que vai ficar lá no memorial ou na divulgação, ou até a foto que vai ficar no teu, na tua lápide, não é tu que escolhe porque tu morreu.

E vai que é uma foto que tu não ia gostar ou que tu não acha que tu tá bonito o suficiente. E a gente nunca para para pensar. E agora eu comecei a pensar nisso assim, conforme vai passando os anos eu atualizo essas informações, eu deixo para alguém. O que que eu faço? Eu vou querer que toque música? Porque um dos meus avós, eu descobri na hora da missa que ele tava sendo velado, que ele tinha deixado combinado com um amigo dele que era para tocar gaita no velório dele, e eu não fazia ideia.

E tocaram a gaita no velório e no enterro, e foi o enterro mais bonito e proporcionalmente o mais triste que eu já presenciei na minha vida. Ele sendo sepultado e o amigo dele tocando a gaita e tocando a música da despedida que ele tinha escolhido. E eu não fazia ideia que esse tipo de conversa tinha acontecido e que ele tinha deixado isso previamente discutido com alguém de confiança. Então fica aí de coisa para vocês pensarem, porque eu tenho pensado bastante sobre isso.

Talvez eu tivesse que pensar até menos, mas eu vou me dar esse desconto porque não tem Nem 2 meses que a gente passou por isso. Então eu acho que ok eu estar falando sobre isso e eu precisar verbalizar isso para além de um texto escrito. Tá tudo certo ter esse tipo de pensamento por enquanto. Outra coisa que tem me tirado um pouco a saúde das ideias é ansiedade climática. Gente, a gente tá atravessando o El Niño. Não é novidade para ninguém, não sei onde tu mora, não sei como é que o El Niño tá chegando aí na tua casa, mas eu moro no Rio Grande do Sul e tem sido assim um babado, porque eu costumo falar que eu tenho sorte aqui onde a gente mora, que fica num lugar mais alto.

Só que ultimamente, quando dá assim as loucuras de El Niño, vem o temporal e vem o vento E na hora do vento, tu não tem certeza de como que a tua casa vai ficar. Porque já aconteceu de dar umas batidas na telha durante um temporal, coisa de 20 minutos, mas pareceu uma eternidade. E a telha batendo te dá uma sensação de impotência tão grande que tu não— Principalmente de noite, né? Esse tipo de coisa é sempre de noite que acontece.

Nunca é de dia, nunca é durante a tarde, quando tu consegue enxergar longe. É sempre quando o teu campo de visão tá bem restrito. E a tua cabeça tá paranoica, porque daí tu tá fechado dentro de casa, lá fora tá escuro, e tu não consegue visualizar nenhum tipo de saída para quando o medo te chega. Porque ele chega, tá? É uma loucura. Tu fica com medo que as coisas aconteçam e tu não consegue imaginar tu saindo de casa, indo para casa de um vizinho pedir ajuda, porque não tem como.

O medo te toma conta. E isso é uma coisa que tem me feito dar uma evitada de vez em quando em ler as notícias. Ou até tem página de meme no Instagram que às vezes faz um carrossel de notícias sérias para informar as pessoas. Só que daí vem umas coisas assim: é o ciclone bomba, é rajada de vento, e é o Rio de Janeiro voando, e no Rio Grande do Sul é a chuva, e não sei o quê, não sei o que lá. E aí eu acho que eu não preciso de toda essa informação.

É bom a gente se informar, Pra não ficar 100% alheio ao mundo, né? Mas eu acho que tem que ser uma cautela também, porque tem horas que me bate um pânico. Que isso já vai ressoar com o terceiro tópico que eu queria trazer aqui, que é o de não conseguir imaginar muito o futuro. Isso acontece com vocês também? De, por exemplo, um clássico, né? Perguntas de entrevistas de emprego: aonde você se imagina daqui 5 anos? Onde você se imagina daqui 10 anos?

Eu já falei nisso num podcast mais antigo, não vou lembrar qual o episódio, mas eu não consigo me imaginar em nenhum desses cenários. Dificilmente eu consigo me imaginar nos próximos 6 meses, então que dirá 5 anos, 10 anos. Todas as poucas vezes que eu precisei responder isso, eu menti. Eu sei lá, fazer uma fanfic, eu pensava, ah, eu vou estar assim, assado, desse jeito, fazendo tal coisa. Mas eu não conseguia me imaginar de verdade no futuro.

E eu não sei se é uma coisa que acontece com todo mundo, queria que fosse, que é o de passar pela tua cabeça assim, tá, eu tô vivendo hoje, o futuro a Deus pertence. Porque eu não sei, eu não faço a menor ideia, não faço a menor ideia. Eu queria ter um pouco mais de perspectiva assim, de não, eu vou estar trabalhando nisso, morando não sei aonde, minha vida vai estar desse jeito. Mas eu não sei se vai estar. E aí eu também não fico me preocupando muito em pensar nisso, porque eu estou fazendo o possível.

E talvez isso, o meu possível, seja, sei lá, o nada para as pessoas vendo de fora, como se eu não tivesse fazendo nada. Mas eu estou fazendo o meu máximo, o meu possível, o que eu estou realmente tentando todos os dias fazer algo para que eu tenha algum futuro. Qual vai ser esse futuro? Não faço a menor ideia, não faço a menor ideia. E aí, quando eu vou ficando com essas coisas de ansiedade climática, de ver as notícias e ficar apavorada de, meu Deus, outro ciclone e outras nuvens cúmulo-nimbus que vão dar microexplosões, sabe?

É umas expressão assim que estão sendo comuns agora nas notícias de clima, que elas estão sendo Não sei se era para a gente tá achando tão normal escutar isso toda segunda-feira. E aí chega na sexta, vem os alertas do fim de semana, e aí a Defesa Civil, sabe? Não era para estar sendo uma coisa normalizada, porque infelizmente são fenômenos da natureza que vão continuar acontecendo, mas parece que tá sempre acontecendo agora, nunca para.

Eu nunca vou esquecer que a Mel, a minha cachorra, Tem 14 anos a Mel, e só dos 10 anos para cá que ela passou a morar dentro da mesma casa que a gente. Antes ela ficava numa casinha de madeira que fica atrás da minha casa, onde meu pai guarda, enfim, ferramenta, a minha bicicleta, máquina de cortar grama, coisas assim. Tinha uma casinha da Mel dentro dessa casa, e aí durante o dia ela ficava na grama solta, né, sempre solta, e durante a noite a gente fechava ela naquela casinha para ela ficar para ela ficar abrigada.

E em 2022, eu me lembro que no começo do ano deu uma notícia de que não vai ter um ciclone no Rio Grande do Sul, muito vento, cuidado, vem aí. E aí eu falei para minha mãe, traz a Mel para dormir dentro de casa porque vai ter ciclone, e se Deus o livre acontece alguma coisa na casinha de madeira, não dá tempo da gente sair correndo na rua para resgatar ela. E aí, desde então, a Mel passou a morar aqui dentro. A cama dela fica agora na sala e ela dorme dentro de casa com a gente nos 4 anos para cá.

Porque ciclone era uma coisa assim muito rara. A gente sabia que tinha no mar e lá para o meio do oceano, e de vez em quando via notícia sobre o que que aconteceu porque passou o ciclone, deu muito vento. Agora é toda semana. Toda a semana. Então fica um pouco difícil, digamos assim, de vislumbrar um futuro, vislumbrar o daqui 5, 10 anos, sabe? Mas a gente vai tentando, a gente vai fazendo o que pode, um pouquinho por dia, e daí no fim da semana já fez um pocão, e assim tu vai indo.

Porque não adianta querer fanficar muito de, ai, daqui meia década, daqui 20 anos. E daqui não sei, eu não sei, eu tenho que pensar no hoje, no agora, e no que dá para ser feito para diminuir essa ansiedade e não ficar completamente paralisada. Porque eu não vou mentir para vocês não, acontece com uma certa frequência de eu não saber mais o que fazer, não saber mais como continuar, mas a gente vai continuando de um jeito ou de outro, precisa continuar, né?

A gente tem a possibilidade de continuar. É o que eu falei no começo do episódio, é continuar e levar adiante o que as pessoas que partiram não podem mais continuar por nós. Então cabe a gente continuar de alguma maneira, né? Importante não parar. E eu acho que esses eram os 3 assuntos assim que eu queria muito falar e eu sei que só ia conseguir falar falando assim sozinha, que era sobre tá passando por um luto de alguma forma, sobre ter essa ansiedade climática com as notícias e o El Niño que tá aí, né?

E de ter essa dificuldade de ver o futuro e de como que tu vai lidando com o teu dia a dia, porque um dia depois do outro, e quando tu vê, tu tá no futuro, né? Então acho que era isso. Vai ficar um episódio um pouquinho longo, mas tudo certo, não tem problema. A gente se vê numa próxima e é isso aí. Se cuidem, fiquem bem e até mais. Tchau, tchau!

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