#126 ECONOMIA DA LONGEVIDADE
A longevidade deixou de ser um tema restrito à saúde, à estética ou à chamada “terceira idade”. Ela começou a atravessar mercados muito diferentes: beleza, alimentação, farmácias, construção civil, tecnologia, turismo, trabalho, dinheiro e cidades.
Neste episódio do Tendências de Mercado e Consumo, Célia Linsingen fala sobre a economia da longevidade como uma nova lógica de consumo e estratégia. Não estamos falando apenas de viver mais, nem daquela promessa meio fantasiosa de juventude eterna. A conversa aqui é sobre como as pessoas querem atravessar melhor o tempo: com autonomia, saúde, segurança financeira, mobilidade, prazer, vínculos e relevância.
O episódio passa por mudanças na beleza, que sai do discurso “anti-idade” e começa a falar mais de saúde da pele; pela farmácia e pelos suplementos, que deixam de ser compras isoladas e entram na lógica de protocolos de cuidado; pela casa e pela cidade, que precisam acompanhar corpos e rotinas em transformação; e pelo dinheiro, porque viver mais também muda a forma como pensamos trabalho, aposentadoria, cuidado e planejamento.
No fundo, a pergunta para as marcas muda bastante: não é só como vender para pessoas mais velhas, mas como continuar fazendo sentido ao longo das diferentes fases da vida.
Um episódio sobre envelhecer, sim, mas principalmente sobre mercado, comportamento e os negócios que vão precisar aprender a acompanhar uma vida mais longa.
Célia Linsingen
- Trabalho e envelhecimentoPlanejamento financeiro para vida longa · Repensando aposentadoria e previdência · Mudanças no mercado de trabalho e educação · Economia do cuidado
- Farmácias e VarejoConsumo de suplementos como protocolo · Farmácias como hubs de manutenção de saúde · Organização e clareza na oferta de produtos
- Skincare e AparênciaTransição de 'anti-idade' para saúde da pele · Narrativas de vitalidade e envelhecimento ativo · Ciência e transparência em cosméticos
- Planejamento Urbano e o Impacto na Vida do CidadãoDesign de longevidade em moradias · Cidades inclusivas para todas as idades · Valorização da proximidade e do bairro
Deixa eu começar com uma cena bem simples deste episódio. Imagine uma mulher de 50 e poucos anos, ela acorda cedo, não porque alguém disse que amanhã é dos vitoriosos, dos vencedores, 5 da manhã, não, porque o sono dela mudou. Ela levanta, ela olha para o relógio inteligente dela ou para o smartwatch, como preferirem, Ela percebe que ela dormiu mal, prepara um café da manhã com mais proteína porque ouviu falar, ela entendeu que massa muscular é super importante.
Ela passa um sérum no rosto, não porque ela quer apagar rugas, mas ela sabe que é importante fortalecer a barreira da pele. Ela confere o saldo da previdência, ela marca uma consulta preventiva por telemedicina e antes de sair Olha para o banheiro e pensa: nossa, esse piso tá escorregando demais. Agora vamos seguir aqui nosso exercício de imaginação. Imagina um homem de 41, 42 anos, ele ainda não se considera público da longevidade.
Se você falar isso para ele, talvez ele te responda assim: calma, gente, eu nem cheguei aos 50. Mas ele treina força, ele monitora o sono, ele toma suplemento, ele começa a pensar em saúde metabólica. Ele quer morar em um bairro perto de um parque onde ele possa correr. Ele quer trabalhar mais tempo, mas sem adoecer. Ele quer ter dinheiro para envelhecer com autonomia. Ele quer evitar doenças que os pais dele têm. E agora pensa numa pessoa de 70 e tantos que não quer ser tratada como frágil, muito menos como invisível, e jamais como fofinha.
Ela quer viajar, ela quer aprender, Ela quer namorar, ela quer trabalhar em projetos, ela quer escolher o que vestir, ela quer usar tecnologia sem se sentir infantilizada, ela quer comprar de marcas que falem com ela como uma adulta. Percebe? Longevidade nessas 3 personagens que eu trouxe para você não é uma conversa sobre gente velha, entre muitas aspas. Também não é sobre biohacker tentando viver 150 anos, para quem tá lembrando daquele episódio do Netflix, aquele documentário Netflix.
E sinceramente também não deveria ser mais uma fantasia de Poço de Leão da juventude eterna vendida numa embalagem bonita. A longevidade que está redesenhando o mercado é outra coisa. Ela é mais cotidiana, mais concreta, mais estratégica. Ela aparece no creme que deixa de falar anti-idade e começa a falar de saúde da pele. Aparece na construtora ou na incorporadora que tá projetando apartamento sem barreira, em cara de hospital, muito mais inclusivos.
No banco, que entende que viver mais muda a lógica da aposentadoria, né? Na cidade, que precisa de calçada decente, sombra, transporte acessível, serviços próximos. No supermercado, na farmácia, no seguro, no turismo, na tecnologia, na moda, no trabalho, na alimentação. Então hoje a nossa conversa, neste episódio de tendências de mercado e consumo, é sobre isso: a economia da longevidade. Não a longevidade como promessa de viver para sempre, mas como uma nova lógica de consumo, projeto e marca.
Porque no fundo a pergunta tá mudando. A pergunta agora é: como eu ajudo as pessoas a atravessar melhor o mundo? Então nesse podcast que a gente gosta de transformar os sinais, de buscar transformar os sinais de presente em estratégia para marcas, negócios e pessoas que querem entender o que vem por aí. Então puxa a cadeira que hoje a gente vai falar de beleza, de casa, de cidade, de dinheiro e vida melhor. Vamos começar limpando o terreno?
Vamos. Então, quando a gente ouve, né, quando a palavra longevidade começou a ganhar força no mercado, ela vinha muito grudada em dois grandes imaginários: o imaginário clínico, né, de saúde, exames, biomarcadores, check-ups avançados, medicina preventiva, terapias, protocolos. No outro, o imaginário performático do biohacking, que é aquela pessoa que mede tudo, que acompanha sono, Glicose, batimento, idade biológica, toma uma pilha de suplementos, entra em banheira gelada, usa anel inteligente, aplicativo de respiração, painel de dados, transforma a vida quase numa planilha.
Nada contra quem gosta de medir, medir pode ajudar, tá? O problema é que quando a vida vira uma planilha tão louca, a gente esquece de viver. Quem viu o documentário da Netflix sabe o que eu tô falando. Eu não queria a vida daquele homem não. Bom, eu baseei esse episódio, me inspirou esse episódio, foi um relatório, The Longevity Effect: New Codes of Luxury, da The Future Laboratory, que mostra que a longevidade saiu do nicho desses biohackers e entrou no cotidiano, no dia a dia da beleza, do wellness e do luxo.
Mas ela entrou com uma mudança bem importante: o consumidor não quer promessa, ele quer Prova, ciência, transparência, experiência percebida e mudança que faça sentido na vida real. Esse relatório mostra, por exemplo, que 86% dos early adopters, adotantes iniciais, eu falo sempre nas aulas de inovação e de marketing também, então 86% dos early adopters esperam que produtos de beleza tenham respaldo científico semelhante a qualquer produto de saúde.
Uma virada enorme, tá? Então, durante muitos anos, o marketing do bem-estar se baseou em palavras super subjetivas e confortáveis: natural, equilíbrio, detox, energia, glow. Essa é uma das últimas. Agora, a parte do consumidor olhar para isso e perguntar: tá, mas com base em quê? Isso mudou o jogo, né? A McKinsey estima que o mercado global de wellness, que é o meu favorito, vocês já devem ter percebido, esteja em torno de 2 trilhões de dólares.
Nesse momento, com millennials e geração Z tratando bem-estar como prática diária e personalizada, rotina, não é uma compra eventual. A consultoria, né, a McKinsey também aponta crescimento em áreas como envelhecimento saudável, nutrição funcional, aparência, saúde mental e serviços presenciais de bem-estar de maneira geral. Não é uma modinha não, gente, é uma reorganização de prioridades. As pessoas querem viver mais, mas querem viver melhor.
Autonomia, energia, saúde mental, segurança financeira, vínculos, com beleza, que não humilham o envelhecimento, tá? Essa economia da longevidade, e ela passa pela nossa vida inteira. E eu quero começar pela beleza, que é um ponto forte, né, principalmente nos países latinos como nós. Nem todos latinos, né, porque a França também é um país latino e ela não tem essa preocupação visual tão forte, estética tão forte como os países da América Latina, por exemplo.
Então vamos lá, vamos falar da beleza. Durante muito tempo a beleza vendeu uma ideia cruel: envelhecer é o problema, né? Então a palavra antidade dizia tudo, anti, contra, como se o tempo fosse um inimigo. E aí vinha aquele combo clássico: apague rugas, elimine sinais, recupere a juventude, volte a ser quem você era. Só que tem uma geração Tem muitas pessoas, todas as gerações, que olham para isso e pensam: mas eu não quero voltar a ser quem eu era, quero estar bem sendo quem eu sou agora.
E não é abandonar a estética, mas não vamos cair na ingenuidade, né, gente? Lógico que as pessoas querem continuar se sentindo bonitas, cuidadas, com uma pele boa, com aparência boa. Só que a narrativa precisa mudar, é sair, combater o envelhecimento e cuidar da função, é barreira cutânea, hidratação, inflamação, que mais? Microbioma, né, que se fala muito hoje em dia, regeneração. Skin Pen, né? Skin Pen. É uma diferença sutil, mas enorme, né?
Quando a gente fala da saúde, a gente vende cuidado. Quando a gente fala anti-idade, a gente vende medo, né? Então esse mercado todo tá sendo reposicionado em torno da vitalidade, do envelhecimento ativo. Não adianta só trocar palavras, né, gente? A marca pode mudar o discurso, mas continuar vindo da mesma promessa, o consumidor tá esperto. O consumidor vai perceber. Como ele tá percebendo que a beleza tá cada vez mais próxima da saúde, tá?
Mas a marca, então, as marcas de cosméticos estão começando a utilizar linguagem científica, mas ela precisa sustentar essa linguagem, tá? Então é como se você precisa traduzir essa ciência que existe sem assustar, sem exagerar e sem prometer milagre. Então a consumidora não precisa, ela não quer uma aula de biologia molecular toda vez que ela compra um creme, não tô falando disso, mas ela também não quer ser tratada como alguém que acredita qualquer palavra bonita impressa em dourado na embalagem, tá?
Então o caminho tá por aí, tá no meio, né? Então uma ciência compreensível, uma promessa responsável e uma experiência agradável, com prova, com evidência, tá? E para o Brasil isso é importante porque a gente tem uma cultura da beleza fortíssima, né, gente? Até demais. Mas também a gente tem um consumidor muito informado nisso, comparativo e naturalmente desconfiado. Então a pessoa pesquisa, compara, olha o dermatologista, o perfil do dermatologista no Instagram, pergunta no grupo, lê review, vê vídeo de antes e depois, quer saber se vale o preço.
E a beleza não vende da longevidade, não vende juventude eterna, mas uma relação menos ansiosa com o tempo. E daí também entram para complementar essa história da beleza, dos cremes e tudo mais, suplementos, os alimentos, as farmácias, né, a prateleira que virou protocolo. Aqui então ela entra no— a beleza dessa longevidade entra no que você escolhe para comer, na cápsula, no sachê, no chá, no shot, aplicativo de nutrição, no exame de sangue, enfim.
Então o consumidor não tá mais comprando um produto isolado e apostando nele, ele tá fazendo um protocolo específico. Então vamos lá, Qualquer semelhança é mera coincidência. Pensa naquela pessoa que toma magnésio porque ouviu falar em relaxamento, proteína para preservar a massa muscular, vitamina D porque ajuda uma série de coisas, ômega-3 porque são maravilhosos para muita coisa também, creatina, cúrcuma porque ouviu falar no podcast, ômega porque o médico comentou, enfim.
Agora multiplica isso por milhões de pessoas tentando organizar saúde, energia, sono, pele, imunidade, digestão, humor, foco e performance. Uau, é muita coisa, tá? Então é isso que tá acontecendo, né? Entre os early adopters pesquisados no relatório que eu comentei no início, eles fizeram ou fariam um plano de suplementação e nutrição. Então isso muda a estratégia de qualquer marca. Não é vender um suplemento, mais um suplemento, é fazer esse consumidor entender como é que aquele suplemento entra na rotina dele, né, com provas, com evidências, tudo que eu já falei até aqui.
Então aqui mora uma oportunidade enorme para profissionais de saúde, para farmácias, para marcas de suplementos, de fitoterápicos, de alimentos funcionais, de laboratórios, de clínicas e profissionais de saúde, né. A farmácia tá se reinventando, ela tá deixando de ser o lugar onde a pessoa vai buscar reposição de medicamentos, mas ela tá indo lá para manter sua saúde. Aferição, depressão, orientação, vacinação, rastreio, acompanhamento.
Ela pode e deve virar um hub de manutenção de saúde, né? E é sobre isso. O supermercado também tá mudando. A gente encontra o Whey no supermercado de marcas de alimentos, muitos Né? Então a gôndola entra novos critérios nela: proteína, fibra, saúde intestinal, cognição, todas as coisas que eu já falei. Então a comida deixa de ser ou prazer ou dieta, ela tem, ela entra na vitalidade, tá? Mas a gente às vezes, o consumidor pode ficar perdido porque tanta coisa, né, gente?
É colágeno, é com enzima Q10, é creatina, magnésio, é cúrcuma com enzima, probiótico, proteína, adaptógeno, nootrópico, shot matinal, shot noturno, pós-funcional. Super Coffee, ah, muita coisa, é uma loucura, né? Então a gente, a marca que vai ganhar espaço não é aquela que necessariamente promete mais, mas é aquela que ela consiga, ela consegue organizar melhor as coisas, contextualizar. E eu já falei isso sobre isso no episódio sobre segmentação, lembra disso?
Dá uma olhadinha, se você não lembrar me pergunta que eu te mando, tá? Então organizar é dizer Para quem é, para quem não é, o que você pode esperar, o que não se deve esperar, como usar, quando procurar orientação profissional, qual evidência existe, qual é o limite. Clareza é ativo de confiança nessa nova economia, tá? Mas, gente, não entra só aí não, entra na construção civil também. Então a gente falou de beleza, falou de suplementação, mas vamos falar de construção civil, que é uma área fascinante.
Arquitetura, mercado imobiliário, Sabe? Então a gente pode falar de suplemento, treino, pele, check-up, sono, mas onde que a gente vai envelhecer? Onde a gente tá? Na casa. Então vamos lá, eu tô exercendo tua imaginação, juro que não é um exercício para neurônios para aumentar tua longevidade, não, mas poderia até ser. Então imagine uma casa pensada para uma pessoa jovem, ágil, apressada, com boa visão, bom equilíbrio, força, não tem limitação alguma.
De mobilidade. Degrau pequeno ali, piso escorregadio acolá, banheiro apertado, iluminação ruim no corredor, armário alto demais, maçaneta difícil, tomada escondida, escada sem corrimão. Agora imagina essa casa, esse apartamento, 25 anos depois, quando o corpo da pessoa mudou. A casa pode estar a mesma, mas o corpo não, né? Então a OMS Na Década do Envelhecimento Saudável, que é 2021-2030, propõe uma ação coordenada para melhorar a vida das pessoas mais velhas, suas famílias e comunidades, dizendo que envelhecer bem não depende apenas da saúde individual, mas também dos ambientes físicos e sociais que sustentam essa capacidade funcional.
A Harvard Joint Center for Housing Studies mostra nos Estados Unidos que a população 65 anos ou mais cresceu 34%. Entre 2012 e 2022, passando de 43 milhões para 58. É um dado americano, mas será que nossas casas também estão preparadas para essa vida mais longa? Eu acho que não. E não é transformar apartamento em clínica, não. Isso é importante, gente. O design da longevidade precisa ser bonito, precisa ser desejável, precisa ser discreto e funcional.
Não é aqueles banheiros com cara de banheiro hospitalar, não é uma casa Sem barreiras não é uma casa adaptada. Um condomínio com serviços não é para pessoas velhas, né? É projetar moradias que acompanham a vida. Portas mais largas, iluminação caprichada, piso seguro, banheiro com possibilidade de adaptação, elevador confiável, espaço para atividade física, telemedicina, delivery organizado, portaria preparada, conforto térmico, gente, que facilite o uso real.
E daí a gente tá chamando isso de senior living. Não pode ser um nome elegante para esconder a ideia de colocar pessoas velhas no mesmo lugar. Não é nada disso, tá? E esse mercado está crescendo absurdamente. Já tem algumas plantas legais aqui em Curitiba. Uma casa bonita no Instagram pode ser péssima para envelhecer, né? E uma casa preparada para longevidade não vende velhice, ela vende liberdade. E liberdade é o que a gente espera das cidades também, né?
Vamos para rua. Uma hora a gente tem que— o velho não tem que ficar velho, entre aspas, tá, crianças? Ele não tem que ficar preso em casa. Mas as calçadas, os lugares para sentar, iluminação ruim, travessias perigosas, transportes inacessíveis, bairros sem comércio próprio, insegurança, metrô sem elevador funcionando, ruído, falta de sombra, tudo isso interfere na longevidade, pode destruir a longevidade. A OCDE publicou em 2005 O relatório Cities for All Ages, defendendo ações para que governos locais e nacionais tornem cidades mais inclusivas para todas as gerações.
O relatório propõe medidas em temas como moradia, mobilidade, serviços, participação social e infraestrutura urbana. Então esse ponto é muito importante. Cidade amigável ao envelhecimento não é uma cidade para idosos, é uma cidade para todo mundo, gente, tá? Então é inclusão, não é nicho. Tá? Então uma calçada sem buraco, óbvio que vai ajudar uma pessoa de 80 anos, mas vai ajudar uma mãe com carrinho de bebê, uma criança, vai ajudar todo mundo.
Um ônibus acessível ajuda sim a pessoa mais velha, mas também ajuda qualquer corpo cansado, machucado, com mobilidade reduzida. Então é por isso que eu gosto dessa frase: uma cidade longeva é aquela onde uma pessoa de 8 e uma de 80 anos consegue circular com dignidade. Isso abre mercados: mobilidade urbana, transporte sob demanda, aplicativos, iluminação pública, varejo de proximidade, saúde comunitária, academias de bairro, farmácias, supermercados menores, cafés, centros culturais.
A longevidade recoloca o valor no bairro, e a gente tem percebido isso, sim. Durante muito tempo o mercado vendeu velocidade, vá mais longe, faça mais, atravesse a cidade, more longe, compensa com carro. E agora a gente tá valorizando a proximidade, ter tudo mais perto. Eu amo o meu bairro por isso, tem tudo mais perto. Então a cidade da longevidade não é necessariamente futurista, mas ela é básica, ela tem tudo ali, né? Viver por mais tempo é um motivo econômico.
E agora eu vou falar de um tema importante que é o money, dinheiro. A gente tem que encarar, né, o dinheiro. Viver mais é maravilhoso, mas sem planejamento financeiro complica, tá? Se uma pessoa vive, e essa é a perspectiva, 20, 30, até 40 anos depois da aposentadoria, precisa fazer como? O dinheiro precisa durar mais, o trabalho precisa ser repensado, a previdência melhorar, o serviço seguro melhorar. Então, herança, moradia, saúde, autonomia, né?
Então, pensando nisso, o Fórum Econômico Mundial publicou em 2025 o relatório Future Proofing the Longevity Economy, que sintetiza 5 tendências da economia da longevidade: sistemas públicos de aposentadoria resilientes, transição da acumulação para o uso dos recursos ao longo da vida, papel dos empregadores no bem-estar financeiro, economia do cuidado e caminhos financeiros para crescimento e econômico. A Arca, que é uma associação americana, né, de aposentados, também mostrou um relatório global que o impacto de consumo da população com mais de 50 anos sobre PIB, emprego e renda do trabalho em 75 economias.
Então é um impacto gigantesco, tá? A gente achava que essas pessoas não consumiam, só davam trabalho. Mas a economia mostra, a economia da longevidade mostra bem algo bem diferente. Essas pessoas mais maduras consomem, trabalham, investem, cuidam de famílias, viajam, sustentam redes, movimentam patrimônio, compram tecnologia e influenciam decisões. E aqui tem uma oportunidade enorme para bancos, seguradoras, previdência, educação financeira, fintechs, imobiliárias, empresas de cuidado.
Mas precisa mudar a linguagem. Não vai falar, né, você vai viver muito e seu dinheiro vai acabar. Também não vai poder vender produto complexo com linguagem que ele entende. Então, como você quer viver as próximas décadas? Onde você quer morar? Quer continuar trabalhando? Quer ajudar filhos ou netos? Quer viajar? Quer empreender? Quer ter cuidado em casa? Quer contratar seguro? Gente, o dinheiro não é acumulação, ele é desenho de vida.
Isso vale também para as empresas, que elas precisam pensar em jornadas mais flexíveis, requalificação, Saúde ocupacional, mental, previdência corporativa, modelos de transição, mentorias intergeracionais. Então, quando a vida fica mais longa, a carreira linear fica curta demais, né? Então agora vamos aprofundar em trabalho e educação. Antes era assim, né? Você estudava, entrava no mercado, constrói carreira, aposenta e acabou.
É ou não é? Só que essa linha reta não conversa mais, não só com a vida longa, com esses mercados que a gente tem super instáveis, tecnologia acelerada, mas com o bem-estar, saúde que as pessoas chegam aos 50, 60 ou 70, energia, repertório, vontade de continuar contribuindo, vivendo. Então longevidade muda o trabalho de duas formas. Primeiro, que as empresas precisam lidar com equipes mais geracionais. Pessoas de 22, 38, 51 e 64 trabalhando juntos, cada uma com repertório, talvez expectativas, ritmos e formas de aprender diferente.
Eu disse talvez. Segundo, porque aprender uma vez só ficou pouco. A educação deixa de ser uma fase de vida e vira manutenção contínua. Então o Fórum Econômico Mundial, que eu mencionei há pouco, coloca a contribuição produtiva, conexão significativa e resiliência financeira como componentes dessa economia da longevidade. Então associando essas vidas mais longas a novas necessidades de trabalho, aprendizado, cuidado e participação.
Então escolas de negócio, universidades, plataformas de curso, edtechs, consultorias de carreira, RH, marcas empregadoras, tá? Então ajudar essa galera a evoluir. Outro mercado muito impactado pela economia da longevidade é turismo, hotelaria e lazer. É bem mais gostoso esse território, né? Então a longevidade tá mudando assim como as pessoas descansam, viajam e consomem experiências, né? Então não era só antigamente hotel que vendia cama boa, café da manhã e localização, depois experiência, depois restauração, e agora vende sono, detox, check-up, nutrição, spa, meditação, natureza.
Então o relatório, nos relatórios que eu comentei com vocês, aponta que espaços físicos como clínicas, clubes, varejo, E ambientes de hospitalidade estão virando proposições de longevidade em si. Não são apenas lugares onde a marca aparece, mas sim lugares onde a promessa de vitalidade, bem-estar, precisam ser vividas. O Global Wellness Institute estimou que a economia global do wellness chegou a 6,8 trilhões em 2024 e projeta para 2029, 9,8 trilhões de dólares.
Tá, então por isso que esse turismo voltado para bem-estar, para retiros, para spas, para programas de sono, experiências restaurativas, estão ganhando tanta atenção, né? Agora, gente, não vamos transformar a viagem de lazer em um protocolo, né, em planilha, em obrigação, uma rotina militar de wellness. Pelo amor de Deus, não vamos torturar. Tá? Então a gente não quer só serviço de saúde. Pessoas maduras, eu me incluo nessas, a gente quer show, a gente quer viagem, a gente quer cultura, a gente quer gastronomia, a gente quer aprendizado, romance, festa, descanso.
Não quer só assistência, a gente quer vida. E varejo? O que que pega no varejo? Na embalagem, no atendimento, né? Embalagem. Quem nunca sofreu para abrir ou para ler uma embalagem? Um lacre impossível, uma letra impossível, um rótulo confuso. Gente, um aplicativo que o botão mais importante está escondido, um atendimento por chatbot que tira a gente do sério. Agora imagina uma pessoa que tem problema na mão, não tem força, tem menos visão, tem menos paciência, menos familiaridade digital.
Então, gente, a longevidade obriga o varejo a revisitar, a revisar a experiência inteira. Não é só vender para pessoa 60 a mais. É reduzir fricção para todo mundo, porque você melhora para as pessoas se sentarem mais, melhora para todo mundo. Gente, tem o design, tem que ser universal, inclusivo, embalagem fácil de abrir para todo mundo, a menos que seja um chai ou trufa, lógico. Uma letra legível, um contraste adequado, a loja tem que ter boa circulação, provador confortável e várias outras coisas, né?
Opção de falar com humano, quase venda que resolve, é básico, mas é o bem feito. É, então, gente, precisamos criar experiências ageless, sem idade, sem apagar a idade, sem reduzir a pessoa à idade, tá? Pensando na usabilidade, na representação. Marca longeva não é aquela que fala com jovens sobre juventude eterna, é aquela que fala com diferentes fases da vida sem perder relevância. Que tal? Vamos falar de tecnologia agora? Não poderia falar de longevidade sem falar de tecnologia, né?
Que isso se transforme numa autonomia e não numa ansiedade. Então vamos lá: wearables, aplicativos, telemedicina, exames preventivos, inteligência artificial, sensores domésticos, casas inteligentes, prontuários digitais, plataformas de cuidado, monitoramento remoto, Ah, tudo isso pode ajudar muito, casa inteligente, né, mas smart homes, smartwatches, aplicativo para lembrar medicação, ai, tanta coisa que pode ajudar. Mas tem uma pergunta delicada: a gente tá ajudando essa tecnologia, tá ajudando as pessoas a viverem melhor, ou tá transformando a vida numa vigilância permanente?
Porque tem um limite entre cuidado intenso e Controle invasivo, tá? Monitorar para proteger de monitorar para infantilizar, dar autonomia e criar dependência, tá? A causa, a casa da longevidade inteligente não é aquela que acende a luz por charme, aquela que reduz risco, cuida sem invadir, tá? Então, para essas marcas que atuam nesse setor, não basta falar de inovação, tem que falar de confiança, de privacidade, de simplicidade e benefício real.
Tá? Na economia da longevidade, a melhor tecnologia talvez seja aquela que desaparece um pouco. Ela tá ali, mas ela não domina a vida. Não podemos transformar longevidade em medo, em mais uma indústria de ansiedade. Isso a gente já tem demais. A gente não pode colocar uma necessidade legítima numa cobrança. Você precisa dormir melhor, você precisa comer melhor, você precisa medir melhor. Você precisa tudo, tudo, tudo, cuidar da massa muscular, cuidar da mente, do dinheiro.
Gente, daqui a pouco a vida vira igual meu computador aqui, 500 mil abas abertas. Não é para ser fonte de culpa, tá? É, você tem ameaça embutida: faça isso ou você vai envelhecer mal, faça isso, você vai ficar para trás, ameaça isso. Gente, desgasta. Você tem que dar autonomia para pessoa, não ansiedade. Você tem que fazer com que a pessoa se sinta bem, não que se sinta fracassada por não acordar 5 da manhã como os grandes vencedores da humanidade.
Por que você não medita 2 vezes ao dia? Por que você não tem 8 horas de sono? Por que você não fica livre das telas? Por que você não tem— gente, não. Eu vi uma propaganda, um post de uma pessoa no LinkedIn que eu odeio. Ela tava vendendo um curso de IA e ela falando assim, não tem a ver com longevidade, mas tem a ver, é um exemplo: não perca, pare de perder tempo vendo Netflix. Quem é você, querida, para dizer que eu perco tempo vendo Netflix?
Por que que prazer, lazer e cultura é perder tempo? Você tem que estudar e fazer o seu curso. É muito ameaçador, é muito antipático. Eu odiei, nem parei nem vi como é que era o curso. Pude até me interessar, mas morreu para mim. Outra coisa, uma discussão social importante, né, gente? Longevidade não pode virar privilégio, mais um privilégio de quem pode pagar exame caro, suplementos caríssimos, retiro de luxo, senior living. Ela precisa pensar em acesso, prevenção acessível, em casas melhores nas cidades, né?
Incluir mais as pessoas E o trabalho precisa ser menos etarista também. E o que que as marcas devem fazer? Vamos ver. Gosto de terminar sempre com isso. Uma pergunta para você então: o meu produto, ou minha marca, minha empresa, ajuda a pessoa atravessar melhor o tempo ou só usa longevidade como uma frase, uma palavra bonita? Eu tenho prova para sustentar o que eu prometo? Minha comunicação reduz confusão ou aumenta ansiedade?
Minha experiência funciona para corpos, idades e habilidades diferentes? Estou pensando em compra pontual ou em relacionamento ao longo da vida? Estou tratando, olha isso aqui, estou tratando envelhecer como falha ou como parte da vida? A economia da longevidade não vai premiar marcas, marcas que apenas falam com pessoas mais velhas. Vão premiar as marcas que entendem ciclos de vida. Isso vale para tudo. Tudo que nós falamos aqui: suplemento, construção civil, fintech, farmácia, hotelaria, vestuário, prefeitura, universidade, startup.
A longevidade obriga todo mundo a pensar em continuidade, e continuidade é uma palavra que tem tudo a ver com branding, que termina em -ing, gerúndio, né? Então marca forte não é aquela que aparece uma vez, é aquela que permanece relevante conforme a vida muda. Então quero fechar esse episódio voltando àquela cena do começo, né? Lembra da mulher que acorda, olha o relógio, toma café com proteína, passa o sérum, confere o dinheiro no app, marca consulta, percebe que o piso escorrega?
Aquele dia comum diz mais sobre o futuro do mercado do que muita palestra futurista, porque longevidade não mora no laboratório, ela mora no dia a dia, no banheiro, na cozinha, na calçada, no supermercado, na embalagem, no ônibus, em tudo isso. Tá na marca que fala com você assim de reduzir a idade. Longevidade deixou de ser uma batalha contra o tempo, começou a virar uma negociação com a vida. A gente não quer mais anos, a gente quer viver melhor, mais presença nesses anos, mais autonomia, mais força, mais lucidez, mais vinho, segurança, prazer, mais possibilidade de continuar escolhendo.
Então, para marcas, não é como que eu faço para essa pessoa comprar agora? Sai dessa e pergunte: como é que eu acompanho essa pessoa ao longo da vida com respeito, prova e relevância? A economia da longevidade não pergunta apenas quantos anos queremos viver, ela pergunta em que condições queremos atravessar esses anos, né? E tudo tem a ver com tudo que eu falei aqui. Então essa é a conversa que eu proponho nesse episódio. E o novo luxo, né, eu já falei sobre o novo luxo, tá muito atrelado a isso.
Não seja novo luxo, não é parecer jovem para sempre, que ele tá ficando meio brega inclusive. O novo luxo é envelhecer sem desaparecer. Então esse foi mais um episódio do podcast Tendências de Mercado e Consumo. Eu sou a Célia Linsen e eu sou Tô sempre com vocês, há 126 episódios, e aqui a minha ideia é sempre observar esses sinais do presente para construir marcas mais relevantes, negócios mais inteligentes, futuros um pouco melhores para nós.
Se você curtiu esse episódio, por favor avalie, coloca o seu comentário, avalie o podcast. Quero ouvir mais. Um beijo e até o próximo.