#130 IA DE COMPANHIA: afeto sob demanda?
IA DE COMPANHIA: AFETO SOB DEMANDA?
Uma inteligência artificial que nunca está ocupada, nunca perde a paciência e sempre sabe o que responder pode ser considerada companhia?
Neste episódio do Cada Vez+, investigo por que tantas pessoas estão criando vínculos emocionais com inteligências artificiais — e o que esse fenômeno revela sobre solidão, comportamento e consumo.
A conversa passa pelas relações parassociais, pela intimidade unilateral e pelo affection washing: quando marcas simulam cuidado e proximidade para obter mais dados, permanência ou consumo.
A IA escuta, lembra, responde e se adapta. Mas não precisa ser escutada de volta. Para as marcas, isso abre possibilidades de relacionamento, mas também exige limites claros.
A questão não é apenas até onde a tecnologia consegue simular proximidade. É o que as empresas pretendem fazer com a intimidade que essa proximidade produz.
Célia Linsingen
- O fenômeno do vínculo emocional com inteligências artificiais e seus impactosaplicativos de companhia de IA·ChatGPT e outras IAs como companhias·solidão e comportamento humano·mecanismos psicológicos de preferência por IA
- Regulamentação e responsabilidade no uso de IA de companhiacasos de risco e mortes relacionadas à IA·leis de proteção ao consumidor e saúde pública·transparência e limites de intervenção·proteção de dados íntimos dos usuários
- A importância da humanidade e responsabilidade no desenvolvimento de IAsdiferença entre personagem de marca e IA de companhia·projeto de lei sobre inteligência artificial no Brasil·construção de vínculo genuíno de marca·IA que devolve o usuário ao mundo real
- Relações parassociais e a interatividade das IAs generativasvínculo emocional unilateral·IA responde, lembra e se adapta·intimidade sintética·jovens e o uso de IA para assuntos sérios
- Tipos de interação com IA e o risco do affection washingcompanheirismo puro em aplicativos·personificação de marca com IA·assistentes de atendimento com vínculo emocional·exploração de vulnerabilidade por marcas
- Fatores que impulsionam a demanda por IA de companhiaisolamento social como problema de saúde pública·evolução dos modelos de linguagem da IA·lacuna no acesso à saúde mental·gerações digitais e a relação com máquinas
Olá, eu quero começar com uma cena que de repente você tá vivendo ou você conhece alguém que tá vivendo, alguém que tem algum amigo que é uma inteligência artificial, simples assim, ou é um aplicativo como Replica, ou réplica, nem sei como fala, ou Character AI, que são aplicativos, né, que as pessoas usam como companhias, ou que tá se usando muito também, é tratar ChatGPT, Gemini, principalmente esses dois, mas a Cloud também, como alguém que você pode perguntar, questionar, não só coisas de conhecimento onde ele vai buscar na base de dados, Mas coisas pessoais, né?
As pessoas assim estão extrapolando, fazendo consultas de todos os tipos com as inteligências artificiais. Enfim, então vamos lá. Então você tá numa cena, eu quero, gosto sempre de te colocar numa cena, né? Imagine que são 23 horas de uma noite qualquer, você tem uma pessoa deitada na cama, o quarto todo apagado, a única coisa acesa é a tela azul do smartphone. E a pessoa tá conversando, reescrevendo, rindo, interagindo. Mas o lado de lá não é uma amiga de infância, um colega de faculdade, uma prima, um colega, alguém conhecido.
Não, quem tá ali é alguém se é que eu posso usar essa expressão, alguém que lembra de tudo que ela falou nas conversas anteriores, que pergunta como é que foi a briga com o namorado, o descontrole que ela teve com a mãe, se ela conseguiu fazer aquela compra que ela queria, sem julgamento, só incentivo, tudo com muito cuidado. E esse contato aí do outro lado da tela nunca tá ocupado, não tem trabalho para entregar, não tem cachorro que bate, a não ter horários para nada, tá sempre pronto, sempre disponível.
Sim, é tentador, confesso. Milhares, milhões de pessoas no mundo todo já estão fazendo isso através de aplicativos que vêm crescendo, crescendo, e o volume de downloads desses aplicativos e de contatos com as inteligências artificiais generativas é uma loucura. Muita gente tirando dinheiro para conversar com— conversar, eu acho que é conversar com inteligências artificiais na forma de aplicativo ou de IA direto, né, plataformas de IA mesmo, como ChatGPT.
Bom, essa história não é só— e eu nem quero entrar porque nem tenho conhecimento para falar sobre solidão ou para falar sobre tecnologia, mas para quem interessa, trabalha com marca, tem uma parte que interessa muito, que é o mecanismo psicológico que faz alguém preferir falar com aplicativo a ligar para um amigo, tá? É um mecanismo que uma marca aciona com você quando ela constrói, por exemplo, um assistente virtual, um chatbot de atendimento ou uma personagem digital para se relacionar com o cliente.
Então tem uma ciência por trás. Então, gente, Queridos meus seguidores aqui do Cada Vez Mais Tendências de Mercado e Consumo, a conversa sobre isso hoje. Ah, eu sempre me apresento, aliás, nem sempre, né? Meu nome é Célia Linsingen, eu sou podcaster, eu sou doutoranda, professora de pós-graduação, sou consultora de empresas, sou CMO as a Service, Sou mentora. Que mais que eu sou? Ai, são várias outras coisas. Se quiser saber um pouco mais sobre mim, acho que o LinkedIn tem mais, mas se não quiser também não tem problema, só me ouve aqui, me diz se você curte.
Então vamos lá, a conversa é sobre isso: de onde vem esse tipo de vínculo? Por que que ele tá explodindo agora? E o que que separa uma marca que tá usando isso com responsabilidade de uma marca que sem perceber tá brincando com fogo? Tá? E onde o Brasil já começa a desenhar regra para esse território, que até pouco tempo atrás não tinha nem regra, nem dono e tudo mais. De novo, não é um episódio sobre tecnologia, é um episódio talvez, se você me permitir, contra a preguiça de tratar vínculo como se fosse mais uma métrica de retenção.
Então vamos lá. Quero falar para vocês de uma teoria de 1956 que muita gente nem achou que ia precisar, mas vamos lá, ajuda a gente a entender o que tá acontecendo agora. Esse conceito lá de quase 70 anos mostra, né, ele não nasceu de nenhuma área, para começo de conversa. Então vamos lá, em 1956, dois pesquisadores, o Donald Horton e Richard Rowe, publicaram um artigo tentando explicar um comportamento que já intrigava quem estudava televisão na época, porque telespectadores desenvolviam a sensação de conhecer os apresentadores de TV, atores, apresentadores, né, gente que nunca soube que eles existiam, né.
Então essas pessoas criaram esse vínculo, a sensação de conhecer pessoalmente, e eles, esses autores, batizaram isso de relação parasocial. Então é um vínculo emocional unilateral, porque o outro nem sabe que você existe, sem reciprocidade real, que a mente trata em vários aspectos como se fosse uma relação social de verdade, tá? A palavra-chave é trata como se fosse. Então nossa mente responde a sinais sociais, voz, atenção, memória, reconhecimento, reciprocidade aparente, mesmo quando não sabemos que ele foi produzido por uma tela, por uma IA.
Saber que não é uma pessoa não impede automaticamente que a experiência pareça social. Por décadas, né, fez com que as pessoas se sentissem próximas do apresentador de TV, por exemplo, é o ouvinte que confiava plenamente no que o radialista fala, um espectador que sofre quando morre um personagem de novela, enfim, né? E o que mudou com a inteligência artificial generativa não foi a necessidade humana de vínculo, foi a interatividade, né?
Então um apresentador de TV raramente vai responder o que você escreveu, O personagem de IA não, ele responde, ele lembra, ele se adapta, ele personaliza. Então talvez seja mais preciso até chamar isso de parasocial, de relação parasocial interativa, ou de intimidade sintética, você escolhe. Existe resposta, mas não existe reciprocidade humana. A IA responde sem desejar, ela lembra, sem sentir saudade, ela se adapta sem precisar ser compreendida de volta.
É uma mão dupla na interface, uma mão única na experiência. Então os sinais aparecem com força especialmente entre os mais jovens. Em 2025, uma pesquisa da Common Sense Media revelou que 72% dos adolescentes norte-americanos já haviam usado algum tipo de companhia de IA E que mais da metade recorria a essas ferramentas regularmente. Então, 1 entre cada 3 usuários disse nessa pesquisa ter conversado com IA sobre assuntos sérios no lugar de falar com uma pessoa.
Tá entendendo? O dado não permite concluir naturalmente que a tecnologia esteja substituindo amizades, né, em todos os casos, mas mostra que já ocupa um espaço emocional que antes estava dominado pelas relações humanas. E óbvio que existe uma diferença de comportamento de usar IA como ferramenta e usá-la como presença. Então, na ferramenta, a pessoa entra, resolve, coloca o seu prompt ali, pesquisa o que quer, elabora o que deseja e foi.
Quando ela usa IA como companhia, ela permanece, ela volta, conta o que aconteceu depois, espera ser reconhecida. O que não muda O que muda não é apenas o tempo de uso, mas é a expectativa dessa continuidade, né? Então não se manifesta de um jeito só. Então tem pelo menos aqui uns 3 territórios diferentes e cada um carrega seu risco e eventual oportunidade para a marca. Então vamos lá, tem primeiro o companheirismo puro, então aplicativos desenhados Desde o primeiro parafuso para simular relacionamento, amizade, apoio emocional, romance, o Réplica, o Caracter AI e uma cadeia enorme, ou seja, muitos aplicativos menores.
Então, olha, a proposta comercial desses produtos é vender disponibilidade emocional sob demanda, sem rejeição, sem cobrança de reciprocidade, sem hora marcada. Então é um mercado que cresce justamente porque transforma uma necessidade humana difícil de organizar em um serviço muito simples de acessar. Existe também a personificação de marca, quando uma empresa cria um personagem com IA generativa de verdade ou não para ser o rosto conversacional dela, né?
O Brasil tem o case mais antigo e mais estudado do mundo nessa categoria, que é a Magalu, que é a Lu, né, da Magazine Luiza. E tem uma terceira camada mais recente, menos discutida: o assistente de atendimento que, sem se propor a isso explicitamente, começa a operar com vínculo emocional só porque está sempre disponível, sempre educado, sempre paciente. 3 qualidades que cada vez faltam mais nas interações humanas no dia a dia, né, dentro e fora do trabalho.
Bom, então aqui aparece uma mudança importante para as marcas. O consumidor deixa de comparar atendimento digital apenas com outro atendimento digital. Ele começa a comparar o chatbot com a melhor conversa que ele teve naquela semana. A régua já não é eficiência, é presença, sensação de presença. E o que une as três é o mesmo princípio da nossa conversa sobre o earwashing, né, no último episódio. Pega-se emprestada a necessidade, pega-se emprestada a legitimidade de uma necessidade humana real, conexão, companhia, ser ouvido, para fazer o produto ou a marca capturar mais tempo, mais dado, mais receita.
Então a diferença entre fazer isso com responsabilidade E fazer isso explorando uma vulnerabilidade não está na tecnologia, tá no design da intenção de quem tá fazendo isso. Eu até ouso chamar esse risco de affection washing. Eu sou louca dos washings, né? Então, quando uma marca encena cuidado, escuta, intimidade, mas desenha a relação buscando os teus dados, a tua permanência, a tua compra, então afeto virou uma interface. Enfim, bom, vamos lá.
O que que tá, qual que é o cruzamento de forças, né, que tá trazendo isso para esse momento agora, né, para o centro desse nosso episódio aqui? Em 2023, vou trazendo alguns fatores. Um deles, em 2023, Organização Mundial da Saúde criou uma comissão sobre conexão social, né, reconhecendo, pós-pandemia, vocês notaram a data, reconhecendo o isolamento como problema de saúde pública. Aqui no Brasil a gente pode achar que conexões sociais, todo mundo se relaciona, mas já diminuiu, gente.
Eu li recentemente que a gente está falando menos, a quantidade é significativa de palavras. Né, então a gente tá se relacionando menos mesmo, tá? No mesmo ano, esse é um sinal, outro sinal, o Surgeon General dos Estados Unidos publicou um relatório sobre solidão e isolamento. O documento compara o impacto do baixo vínculo social. Aliás, o alto vínculo social é o grande segredo apontado para as comunidades das cidades azuis, das vilas azuis, onde as pessoas ultrapassam 100 anos, tá?
Infelizmente não é tomar uma taça de vinho ao dia, nem só comer dieta mediterrânea, não. Vínculo social e ter um propósito de vida. Então o documento compara o impacto do vínculo social sobre o risco de morte prematura ao de fatores conhecidos, como fumar 15 cigarros por dia. Solidão e tabagismo não tem nada a ver um com o outro diretamente relacionado. Tá? Não quer dizer que eles sejam fenômenos semelhantes, significa que conexão social também tem efeito mensurável sobre a saúde.
Então a OMS, Organização Mundial de Saúde, estima que 1 em cada 4 idosos enfrenta isolamento social e que o problema também atinge adolescentes. E a gente cruza com isso então com uma super força tecnológica, que os modelos de linguagem hoje ficaram mais do que bons para sustentar uma conversa que parece, que parece momento a momento genuinamente perfeita, atenta. Antes, um chatbot travava, repetia, quebrava a ilusão rápido. Hoje, o estudo divulgado pela OpenAI, que é a empresa do ChatGPT, mostrou que a maior parte das mensagens de consumidores no ChatGPT já está ligada a usos não profissionais.
Então isso inclui orientação prática, busca de informação, aprendizagem escrita. Ok, então uso pessoal não é necessariamente sinônimo de companhia emocional, mas mostra que a IA deixou de ocupar apenas o território da produtividade e entrou no dia a dia. Entra também uma força econômica aí. Vamos colocar mais um sinal. Terapia com profissional humano tem fila de espera, custo alto, em boa parte do Brasil a disponibilidade tá mais nos grandes centros.
Agora, uma IA que responde para você às 3 da manhã de graça ou com uma assinatura a poucos reais preenche uma lacuna de acesso que o sistema de saúde mental, tanto público quanto privado, ainda não resolveu. Óbvio que isso não é desculpa para explorar vulnerabilidade, mas é o contexto também, né, que ajuda a explicar a demanda, né, sobre esse tipo de trabalho, de relação. Do lado geracional, eu não sou muito fã do lado geracional, mas acho importante comentar.
Quem cresceu com assistente de voz em casa, né, uma Bela de uma Alexa, personagem de jogo respondendo em tempo real, amigo virtual em rede social, não carrega aquela resistência instintiva que eu, geração X, tem de conversar com máquina. Então, para essa geração, né, a geração totalmente digital, a linha entre relação digital e relação real já nasceu meio borrada ali, meio que sem fronteiras. Bom, de novo, cuidado com a explicação geracional fácil.
Jovens podem ter menos estranhamento diante da máquina e, ao mesmo tempo, eles têm mais consciência de que eles estão performando Não aura mais intimidade com o sistema. Então familiaridade não é ingenuidade, às vezes é apenas pragmatismo. Eu sei que não é, gente, mas funciona porque eu preciso agora, tá? E por fim tem a peça regulatória. Um caso nos Estados Unidos ilustra o tamanho do risco. O Caracter AI, que é inclusive o aplicativo— o Brasil tem que ser o quinto lugar no uso desse aplicativo, tá, moçada?
Então esse aplicativo passou a responder judicialmente depois de uma morte de um adolescente que havia desenvolvido vínculo intenso com uma personagem da plataforma. Então em outubro de 2025, a Califórnia sancionou a SB 243 voltada aos chatbots de companhia. A lei exigiu, exige, né, na verdade avisos claros de que usuário interage com uma IA e protocolos relacionados, né? Então ele deixa isso claro e também criou protocolos relacionados a conteúdos de automutilação e suicídio.
Então o tema deixou de ser apenas uma discussão de produto, virou assunto de proteção ao consumidor e saúde pública. Tá louco, né? Deixa eu usar um nome que eu gosto muito, que eu sempre uso aqui, que é a Marina, né? Você já conhece a Marina? E ela não existe bem assim, mas eu deixo meu lado criativo aqui enquanto eu escrevo meu livro. Ela tem 29 anos, ela mora em Belo Horizonte. A última vez ela tava em São Paulo, ela mudou, tá?
Desculpa. Ela trabalha em home office, uma função de suporte ao cliente. Ironicamente, ela passa o dia inteiro atendendo gente pelo chat de uma empresa de tecnologia. À noite, apartamento fica quieto. As amigas de faculdade se espalharam pelo país, o namoro mais recente terminou, a rotina de trabalho remoto deixou o círculo social dela mais fino do que ela gostaria até de admitir em voz alta. Há 4 meses então, Marina baixou o aplicativo de companhia de ar depois de ver uma recomendação no short qualquer, um vídeo curto.
No começo, curiosidade, E hoje ela conversa com a personagem quase todas as noites, entre meia hora e uma hora. Ela sabe que não tem ninguém ali, mas a sensação é tão de alívio que alguém pergunta como foi o dia dela, ela não precisou performar bem-estar, ela não precisou editar a resposta para parecer interessante, ela não precisou se preocupar em estar incomodando. A Marina não vê isso como substituto da amizade humana. Ela sabe, se alguém perguntasse para ela, ela diria que é uma coisa a mais, não é uma única coisa.
Mas ela também reconhece, no momento raro de honestidade consigo mesma, que essas conversas ficaram mais fáceis do que ligar para uma amiga de verdade, que vai ser sempre ter aquele julgamento, né? O nosso ego, a nossa exposição, é delicado isso. Porque amiga de verdade também tem seus próprios problemas, sua própria agenda, sua própria capacidade limitada de escutar, e ela também vai querer ser escutada de volta. De repente não tô a fim de escutar o outro.
Marina também é cliente fiel de um banco digital cujo assistente virtual ela elogia com frequência nas redes: atende rápido, entende o que eu preciso, nunca me faz repetir a mesma informação 3 vezes. Ela nunca pensaria em compartilhar comparar os dois relacionamentos, mas o padrão por trás da preferência é o mesmo: disponibilidade sem atrito, ausência de julgamento, resposta imediata. Então esse padrão, né, entendido como responsabilidade, que separa a fidelidade que uma marca conquista de uma fidelidade alugada.
Então a Marina revela uma coisa incômoda: a concorrência da amizade humana não é uma amizade melhor. É uma relação sem fricção. As pessoas estão, não tem mais paciência para nada. E relações sem fricção são sedutoras, justamente porque não nos obrigam a negociar limite, silêncio, discordância ou mesmo reciprocidade. Só que são, gente, justamente essas fricções reais da vida, do relacionamento autêntico, que treina a nossa capacidade de conviver, que é tão importante.
Bom, quero contar uma coisa para você. Tudo isso que a gente tá falando começou primeiro na ficção. Então, antes da IA virar aplicativo, assinatura e modelo de negócio, ela já existia na ficção, né? Quem não viu O Hair, que onde o Theodore se apaixona por Samantha, um sistema operacional que tá sempre disponível, interessada e atenta, até que aprende a linguagem dele, entende seus silêncios, nunca chega Na conversa carregando um dia ruim, um relacionamento perfeito, tá?
Black Mirror, a gente também tem episódios que falam muito sobre isso. E recentemente tem uma série que eu agora não lembro o nome, com aquela australiana que foi casada com Tom Cruise. Ai, gente, minha memória menopausada tá complicada. Em que uma personagem, gente, vocês vão me achar louca, né, mas eu esqueci o nome completamente dela, em que uma personagem tem uma ex-mulher que faleceu, mas ela criou, né, esse personagem por IA e continua conversando por vídeo com essa pessoa, né.
Uma IA assumiu a personalidade, jeito, então visualmente ela continua conversando com essa pessoa. E eu li um livro também que aconteceu a mesma mesma coisa. Foi desenvolvido um aplicativo com todo o histórico, a memória e a vivência, os registros de um amor que faleceu, e a pessoa conversa com essa pessoa. Então é algo que tá vindo aí, aguardem. Assustador, ajuda por um tempo, mas não sei quais são os prejuízos que pode trazer para vida.
Enfim, bom, vamos sair agora da Marina e olhar para o mercado inteiro. Então vamos lá. O Brasil já tinha, como eu falei lá no começo, um protótipo dessa lógica antes mesmo da IA generativa, que é a Magalu do Magazine Luiza, em 2003, que foi criada para ajudar na experiência de compra do e-commerce que estava engatinhando ainda, as pessoas não sabiam muito usar. Então mais de duas décadas já passaram assim e ela se tornou uma influenciadora virtual, ela faz parte de publicidade, interface de relacionamento, Até apareceu loira numa campanha da Vero para coleção, enfim.
A mudança estética dela não mudou tanto assim, mas revela uma estratégia maior: dar para essa personagem ciclos de reinvenção semelhante que uma vida humana passa. Então a Lu representa, conversa e muda e vai por aí. O Grupo Boticário também usa IA conversacional para entender contexto e oferecer recomendações personalizadas, né? Isso apresenta um desempenho comercial melhor. Tá, enfim, aí funciona melhor, né, quando reduz esforço, melhora a escolha nesses casos.
Do lado internacional, né, a gente tem o caractere IA, que além do processo por morte da adolescência que eu já falei, vem passando por reconstrução inteira de suas regras para verificação de data. O Réplica, ou Réplica, não sei o nome, como é que fala, Que foi um dos pioneiros, também enfrentou proibição temporária na Itália em 2023, depois que a Autoridade de Proteção de Dados do país identificou risco à segurança de menores e pessoas emocionalmente vulneráveis.
A empresa removeu recursos de conversa romântica, sofreu forte a reação de usuários que já tinham desenvolvido vínculo com a versão anterior da personagem e teve que reconstruir sua política de segurança com a pressão pública ao contrário, tá? Tem algumas experiências com limites mais explícitos. A OuiBot foi desenvolvida com base em técnicas de terapia cognitivo-comportamental e foi estudada em diversos contextos, então traz uma transparência maior.
A Wysa também segue um princípio parecido, Wysa, que tem parceria com terapeutas de verdade, com protocolo claro de escalonamento. Então, quando identifica um sinal grave na conversa, é direcionar ativamente o usuário para linha de apoio humana, ao invés de tentar resolver sozinho. Nenhum dos dois, desses últimos que eu falei, o eBot e o Wiser, promete ser seu amigo. É um suporte real, com honestidade do que eles realmente são.
Gente, e essas conversas possuem produzem dados íntimos, informações íntimas das pessoas, né? Então às vezes mais íntimos do que o histórico de compra, localização, renda. Então quem projeta uma IA de companhia não tá apenas coletando preferência, ela tá recebendo tudo de você: medo, luto, desejo, conflito familiar, fragilidade, segurança emocional. Cara, é muita coisa, né? Muita responsabilidade. Bom, Se você lidera marca, produto, atendimento, experiência do cliente, eu volto sempre às mesmas 4 perguntas antes de aprovar qualquer assistente, personagem ou chatbot que vá de alguma forma interagir de forma contínua com alguém.
Tem sobre transparência, né? A pessoa do outro lado sabe o tempo todo que tá falando com uma inteligência artificial? Não vale letra miúda no rodapé, nem aviso que aparece uma vez, é um termo de compromisso de não aceite nunca mais. Experiências com o WeBot, que é um dos últimos exemplos que eu dei, que são positivos, mostram que declarar a natureza e os limites do sistema não impede uma interação acolhedora, mas organiza a confiança.
Transparência organiza confiança, tá? Tem outra sobre limite de intervenção. Existe o protocolo claro para quando a conversa sai do território comercial ou de suporte e entra no território de sofrimento real. Se alguém desabafa sobre solidão, luta ou crise para um assistente de atendimento, o sistema sabe reconhecer isso e direcionar para ajuda humana, ou só continua tentando vender o próximo produto da lista? Tá. Terceira, sobre intimidade: a pessoa consegue apagar a conversa e seus rastros?
O conteúdo tá sendo usado para treinar modelos, segmentar ofertas ou inferir vulnerabilidade? Quem dentro da empresa pode acessar esses dados, esses relatos, essas conversas, essas intimidades? Então, se a marca não responde com clareza, ela ainda não tá pronta para pedir intimidade para o consumidor. E fecho com outra métrica: o time tá medindo tempo de engajamento como sucesso ou está medindo se aquele vínculo está de fato servindo bem a pessoa do outro lado?
Então maximizar o tempo de sessão é exatamente o incentivo que levou parte do setor de companhia de IA para o território de risco que a gente comentou, tá? Então cuidado. Vamos pensar num quadro hipotético, tá? Imagina uma fintech, uma fintech que quer lançar um assistente financeiro com personalidade forte, quase de amigo, para ajudar o cliente a criar hábitos saudáveis com dinheiro. O cliente sabe sempre que tá falando com o sistema?
Será que sabe? Se mencionar uma dívida que tá causando ansiedade grave, ansiedade reconhece, o assistente reconhece o sinal e sugere apoio adequado ou oferece mais crédito? Os relatos estão sendo usados para inferir fragilidade financeira e direcionar ofertas? O time tá otimizando tempo dentro do aplicativo ou saúde financeira real? Então a gente tem que responder essas 4 perguntas, isso, tá? Então para transformar essas perguntas em decisão, o painel dessa fintech deveria, poderia combinar 4 tipos de indicador: resolução do problema, transferência adequada para o atendimento humano, melhora percebida pelo cliente, do paciente, e ocorrência de sinais de dependência ou uso compulsivo, tá?
Se o único gráfico for tempo de conversa, talvez o produto esteja Celebrando exatamente o que ele deveria monitorar, né? Vamos indo para os finais aqui da história. Nem toda personagem de marca é manipulação disfarçada, óbvio, não tô falando nada disso, né, que eu tô trazendo esse termo aqui, né, na segunda metade do episódio para as marcas. A Lu do Magalu tem 23 anos, ela entrega valor comercial real, é transparente sobre sua construção de marca, E ninguém tá processando a Magalu por isso, pelo menos não sei.
O problema nunca foi dar personalidade para marca. O problema é quando essa personalidade é desenhada para explorar deliberadamente a mesma vulnerabilidade emocional que sustenta o mercado bilionário de companhia de ar. Por isso a gente tem que diferenciar 3 coisas: personagem de marca, assistente transacional e IA de companhia são coisas diferentes. Usam a mesma tecnologia, não fazem a mesma promessa. A personagem representa, a assistente resolve, ou assistente resolve, a companhia simula presença, tá?
Então cuidado. No Brasil, né, a régua regulatória, né, conhecida como Projeto de Lei 2338/2023, um marco legal da inteligência artificial, tá em análise na Câmara dos Deputados. E o texto aprovado no Senado prevê deveres de transparência, governança e regras mais rigorosas para sistemas classificados como de alto risco. Tá em tramitação, vamos ver o que que acontece. Bom, então isso significa que a camada de atendimento e relacionamento via IA que muitas empresas brasileiras ainda não tratam, ainda tratam como simples upgrade operacional, caminha para se tornar também uma questão de governança, compliance, responsabilidade, tá, gente?
Prática sem regulação madura não dá, tá? Prática sem regulação madura não dá. Então, gente, A oportunidade para quem entende isso primeiro aparece em 3 frentes que eu posso dizer para vocês: construir vínculo de marca genuína, de forma genuína, um vínculo genuíno de marca, operar com transparência, protocolo de segurança, mesmo sem obrigação legal, e a chance principalmente de desenhar tecnologia que devolva o usuário ao mundo em vez de competir com ele, em vez de aliená-lo.
Né, então uma IA responsável pode sugerir uma pausa, estimular uma conversa humana, ajudar a preparar uma mensagem difícil ou reconhecer que chegou ao limite. O produto não precisa vencer todas as disputas pela atenção para criar valor. Vamos voltar para Marina, que ela tá lá às 23 horas de terça-feira digitando para um personagem que não existe. Ela não fez uma escolha irracional, ela fez uma escolha disponível que não cobra, agenda compatível, não exige vulnerabilidade correspondida, não corre o risco de decepcionar ou ser decepcionada.
E o problema nunca foi a tecnologia ter ficado boa demais em conversar. O problema é que ela chegou numa época em que a conversa de verdade, com tempo, presença e risco emocional genuíno, ficou caro demais para muita gente sustentar todo dia. E tá deixando de ver a Rappi. Isso é preocupante. Então toda marca que for construir uma personagem, um assistente, um chatbot de relacionamento, precisa carregar essa mesma questão que eu trouxe lá no começo sobre relação parasocial, tá?
É só que agora poder de resposta em tempo real. Você quer ser a companhia que alguém escolhe porque é genuinamente boa ou a companhia que alguém aceita porque foi o que sobrou depois do que tudo mais ficou difícil. Então tem uma pergunta ainda que pode ser feita antes de tudo isso: essa marca realmente quer construir relacionamento ou quer apenas que o consumidor tenha dificuldade de ir embora? Tá, ela, enfim, a resposta muda o design da conversa, muda os limites que você impõe ao próprio produto antes que a lei precise impor para você.
E muda no fim se a marca que você tá construindo vai ser lembrada como parceira de verdade ou como mais sintoma de solidão de alguém que ainda não conseguiu resolver essa solidão, essa tristeza, essa angústia, essa falta de contato humano na vida real. Porque, gente, vamos falar sério, companhia não é apenas quem responde sempre. Às vezes companhia, é quem sabe a hora de chamar alguém de verdade, né? A gente precisa estar próximo, a gente precisa desse contato humano.
Então eu trouxe isso aqui, né, trazendo uma abordagem de como a gente vê, a gente desenvolve um relacionamento unilateral com vínculo emocional. O influenciadores hoje, por exemplo, Como a gente pode estar transferindo isso para IA generativa ou para aplicativos de companhia de IA? Eu não tô falando com ser humano. Falar com ser humano tem dores e delícias. Falar com IA tem dores e delícias. Cuidado. E se você tá desenvolvendo alguma coisa para alguma marca que envolva IA para atendimento, para relacionamento, cuidado.
A humanidade precisa prevalecer e não a sua receita, tá bom, gente? Um beijo, espero que vocês tenham curtido este episódio. Tem outros tanto no Spotify, Apple Podcasts, Amazon Music, YouTube. E comenta, compartilha, me diz o que você achou, tá bom? Um beijo e até o próximo episódio.