Episódios de Tendências de Mercado e Consumo - Celia Linsingen

#127 A CULTURA DO BASTIDOR

23 de julho de 202634min
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Durante décadas, a embalagem bonita vendeu mais do que o produto. Hoje, o que prende atenção é a bagunça antes da embalagem: a cera derretendo, a parede que precisou ser refeita, o prato sendo montado três vezes até sair certo.A gente já sabe como termina. Mesmo assim, fica vendo.Neste episódio eu uso quatro conceitos da psicologia cognitiva (Curiosity Gap, Efeito Zeigarnik, IKEA Effect e Narrative Transportation) para explicar por que o processo virou tão interessante quanto o resultado, e o que isso mudou na forma como marcas constroem confiança. De "acredite em mim" para "venha ver": os dados mostram que o consumidor não quer mais a afirmação, quer a prova (e tem números específicos sobre origem e matéria-prima que talvez expliquem, sozinhos, boa parte do fenômeno).Também entro no lado que pouca gente discute: o que acontece quando o bastidor é encenado, e por que essa encenação custa mais caro pra marca do que nunca ter mostrado processo nenhum.Quando foi que a gente começou a gostar tanto do caminho?

Participantes neste episódio1
C

Célia Lins

HostConsultora e Professora de Marketing, Branding e Comportamento do Consumidor
Assuntos4
  • Construção e Manutenção de Reputação e CredibilidadeMudança da lógica 'Acredite em mim' · Exigência de provas e evidências · Transparência radical · Origem e matéria-prima
  • Gestão e resultadosValorização do processo · Entretenimento no trabalho · Transformação de estado
  • Autenticidade versus performanceBastidor encenado e roteirizado · Risco de percepção de falsidade · Diferença entre espontaneidade e produção
  • O Bastidor como ProdutoDocumentários e séries sobre processos · Plataformas de cocriação · Cozinhas abertas e bastidores de restaurantes
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Olá, hoje eu quero que você observe uma cena que eu vou começar a narrar para você aqui e te provocar para ver se você já vê, já percebe esse movimento em outros contextos, tá? Então vem comigo. Eu vi um vídeo esses dias e me chamou atenção. Era um vídeo de uma pessoa fazendo velas, sabe essas velas, velas aromáticas, né? Velas especiais e tal. Não tinha ninguém falando nada, não tinha uma trilha sonora emocionante, não tinha call to action nenhum, não tinha nenhum clímax.

Era simplesmente a cera derretendo, né, a parafina, o pigmento ali sendo misturado, o molde sendo preenchido. Um processo, a filmagem de um processo, tá? Fica com essa informação aí: o resultado apareceu, mas grande parte da jornada teve a ver com o processo. Além disso, né, você já deve estar acostumado a vários conteúdos de reforma que existem por aí, né? Antes e depois de reformas de casa, tem vários programas sobre isso. Tem programas também de pessoas, né, que mudam seu estilo de vestido, todo o processo, né, de estilo, de uma piada, e corta cabelo, daí tem o antes e depois do que a pessoa era antes, do que é depois.

Tem de plásticas, de cirurgias, são 2 até cirurgiões de Los Angeles que as pessoas vêm lá com dilemas, com problemas, né, de cirurgias anteriores ou mudanças bruscas, e eles vão lá e contam todo o processo. Ou seja, o antes e depois não é novidade para vocês, a gente conhece isso há décadas, Mas o que a gente tem visto com muito mais cuidado é o processo, tá? Então você vê anúncios, vídeos e muito bastidor. Então o bastidor de como se organiza uma corrida de Fórmula 1, tem fundadores de empresa ou gestores de empresa que colocam o seu, que acompanham, faz com que a gente acompanhe seu dia veja como se fosse uma novela, como se fosse um reality show, melhor dizendo, processo inteiro tem muito bastidor.

Os bastidores e o que vem antes do resultado vem crescendo, tá? Isso não é um acidente, uma coisa que o algoritmo tá colocando para você assim acidentalmente, mas é algo maior, é um sintoma de algo maior. Quando é que a gente começou a gostar tanto disso, do caminho, do processo? Então é sobre isso que eu vou falar hoje, sobre essa cultura que eu tô chamando o episódio de A Cultura do Bastidor. Por que conhecer o processo ficou tão interessante quanto o resultado?

É ou não é? Bom, mas antes de eu trazer você para esse meu caminho aqui do processo, da cultura de bastidor, se você tá entrando aqui agora, eu sou a Célia Lins, Eu acho, eu acho não, eu sei que eu trabalho na fronteira entre academia e o mercado. Estou doutoranda, há anos trabalho como consultora e professora nas áreas de marketing, branding, comportamento do consumidor. E na prática eu acho que o mais fácil é traduzir, né? O que eu gosto de pegar um conceito complexo, porque nada do que eu falei anteriormente aí que eu faço é simples, apesar de muita gente achar, né?

Então eu gosto de pegar esse conceito complexo, essa teoria densa, esse dado isolado e transformar isso em algo que faça sentido, que dê direção estratégica, que as pessoas consigam se inspirar e se deglutir. Isso eu faço com os meus alunos, com os meus mentorandos, nas empresas que eu trabalho e para você que tá me ouvindo aqui no meu podcast, né? Então esse é o compromisso aqui do podcast Tendências de Mercado e Consumo. Eu não quero comentar tendência pela tendência, né?

Só ler e ver o que já tá se falando por aí. Mas eu gosto de examinar o comportamento real, o que que a psicologia, os dados do mercado, a pesquisa acadêmica estão dizendo sobre isso, né, para ver como que isso pode se refletir em como as marcas se posicionam, em como são criados produtos e serviços, tá. E é isso, esse episódio, por exemplo, nasceu dessa observação simples: a gente tá gastando cada vez mais, despertando o nosso interesse, a gente depositando a nossa atenção no processo, não necessariamente no resultado.

Então eu vou mostrar como que isso tem acontecido e algumas evidências para a gente discutir sobre essa importância dessa jornada. Vamos lá então, seja bem-vindo, fica aqui comigo. O processo virou entretenimento em muitos casos, né? Então por que que muitas pessoas gostam de assistir alguém trabalhando, produzindo algo? Isso não é força de expressão não, tá acontecendo literalmente. Tem uma categoria inteira de conteúdo com bilhões de visualizações que mostram unicamente trabalho sendo feito, restauração de objetos quebrados ou mesmo de atualização, né, de deixar mais bonito, mais recondicionado.

Ou tem hashtag, não sei se você já viu, tem programas do Pack and Order With Me, em que alguém simplesmente empacota, né, os produtos de uns pedidos de uma loja online, a gente fica vendo. Build It With Me, que é, né, construa comigo, empacote comigo, que eu falei anteriormente, que é Marcenaria, cerâmica, costura, panificação, pintura, culinária, de tudo, né, que a gente vai vendo o processo, vai acompanhando o processo, né. Isso antes do TikTok existir era como isso é feito, né.

Hoje tem muito mais. Então se a gente separar todos esses formatos por categorias, né, de produto, eles não têm quase em comum. Uma vela não é uma mesa, uma mesa não é um pão, um pão não é uma peça de cerâmica, mas todos compartilham uma estrutura narrativa que vem crescendo. Que mostram, né, uma coisa deixando de ser o que era para se tornar outra, ou seja, um processo. Então, durante décadas, né, a lógica do consumo e também da publicidade foi muito centrada no resultado, a embalagem bonita, o produto pronto, a entrega, nem tanto a criação do valor, né.

E hoje a transformação tá ganhando audiência, tá ganhando interesse por uma série de coisas que a gente vai ver aqui. A diferença é bem conceitual, ela não é estética, né? Assistir alguém construindo, fabricando uma mesa, por exemplo, é um processo de mudança de estado. Então, para o cérebro humano, isso é interessante, né? Um pedaço de madeira se transformar numa mesa é interessante, né? Se eu fizesse, por exemplo, um programa, um documentário, o que é uma mesa, não tem interesse.

Agora, se eu fizer um vídeo sobre como uma tora de madeira vira uma mesa, nossa, talvez seja muito mais interessante. Então, gente, categorias inteiras de conteúdo cresceram, estão crescendo simultaneamente em diferentes plataformas, TikTok, YouTube, Instagram. Então não é um modismo de uma plataforma só, é uma mudança que as pessoas estão observando aí. Então isso eu já ouvi no YouTube Culture and Trends Report, no TikTok Next 2026 Trend Forecast, na WGSN falando de economia do criador, no Deloitte Digital Trend Trends.

Então tem muita coisa falando, tá, gente? O cérebro gosta, nosso cérebro gosta de processo. Tá, aí eu vou trazer aqui para você um conceito que é o Curiosity Gap ou Information Gap Theory, que foi formulado pelo economista comportamental George Loewenstein, que a tese é direta: a curiosidade nasce de uma lacuna percebida entre o que já sabemos e o que ainda não sabemos. Então quando a gente conhece parte de uma história Vemos o começo de um processo, por exemplo, essa lacuna se abre e o cérebro entra num estado de um leve desconforto até que ela seja fechada, preenchida com aquela informação.

Então é um alívio cognitivo que a gente vai sentindo à medida que a gente vai, que o vídeo, que o material vai nos, vai desenvolvendo esse processo, a gente vai entendendo melhor, tá? Esse é um primeiro conceito. Um outro conceito que é bem mais antigo, que vem de uma pesquisadora soviética, sim, da União Soviética, 1920, que é a Bluma Zeigarnik, não sei se é assim que fala. Então ela reparou em algo bem banal, que os garçons se lembravam muito mais dos pedidos que ainda não tinham sido pagos do que dos pedidos já encerrados.

Isso tem um nome, tá? É o efeito com o sobrenome dela, Zeigarnik, ou seja, tarefas inacabadas ocupam memória e atenção de um jeito que tarefas concluídas não. Então é por isso que quando você tem um vídeo de processo, mesmo sem chegar no clímax, ele prende, né? Enquanto a transformação não terminou, o degrau, né, o gap da curiosidade não foi preenchido, fica uma aba aberta para o cérebro e ele fica atento, mais atento, né? Legal isso.

Mas tem mais um conceito que vocês já devem ter ouvido falar mais do que eu, por muito mais tempo, que é o IKEA Effect. IKEA, aquela loja sueca, Vocês conhecem? Então vamos lá, veio de Michael Norton da Harvard Business School ao lado de Daniel Moccon e Don Ariely, o famoso Don Ariely, num estudo de 2011 que eles denominaram IKEA Effect. O que que eles perceberam? As pessoas valorizam despro— só para contextualizar melhor, deixa eu abrir um parênteses aqui.

IKEA no Brasil é como o Tokstok, que você compra o móvel e você tem a opção de você mesmo montar. Beleza? Então as pessoas valorizam desproporcionalmente mais aquilo que ajudaram a montar ou cujo processo conhecem. Então no estudo original desses autores, as pessoas pagavam até 63% mais por móveis que elas mesmas haviam montado comparado a peças idênticas já prontas. A gente valoriza mais o que é nosso e o que a gente trabalha.

E por fim, a gente tem a narrative transportation, o fenômeno de nos sentirmos emocionalmente dentro de uma história. Ah, isso é muito delicioso, né? Então, a ponto de reagir como se ela fosse uma experiência própria, tá? Então, um vídeo de um processo bem contado não é simplesmente uma informação sendo repassada, mas é uma narrativa que a gente entra lá, a gente se sente fazendo parte dessa história. Então, quando eu junto os 4 conceitos, fica claro o seguinte: o bastidor não vende informação.

O bastidor não vende informação, não vende só informação. O que ele vende? Ele vende envolvimento. E envolvimento, diferente de informação, não se esgota quando termina, quando aquela curiosidade é saciada. Envolvimento gera vínculo. Bom, né? Eu acho demais. Bom, e aí a gente vai para a questão das marcas, né? Quando que esse fenômeno cultural então encontra a decisão de um negócio? Por exemplo, por que que as marcas começaram a abrir as suas portas para isso?

A gente sabe que a confiança, que é tão relevante para branding, mudou de lugar. Então, durante muitas décadas, as marcas, as empresas falavam e a premissa era simples: acredita em mim, eu tô falando isso, acredita em mim. Então eu afirmava que eu tinha qualidade, que a origem do meu produto é essa, que eu tinha compromisso, e implicitamente o consumidor escolhia acreditar. Essa lógica a gente sabe que tá completamente esgotada.

A gente não compra como consumidor afirmações simplesmente, a gente quer provas. Eu falo isso tanto, se tiver aluno meu ouvindo agora, vai falar: ai não, de novo, segue. Sim, Promessas é o que a gente faz para atrair atenção, né? Mas a gente tem que ter evidência e prova, entregar aquilo que a gente tá prometendo, tá? Então a gente passou do acredite em mim, né, do processo das marcas anterior, para o venha ver aqui, vem ver aqui que eu te mostro tudo que eu tô fazendo de fato.

Bom, a Edelman é muito forte nisso, eu também uso muito os relatórios da Edelman, Trust Barometer. Que falam sobre isso, tá, que é o seguinte: as marcas e as pessoas, as pessoas estão exigindo, entre aspas, estão pedindo, estão querendo muito que as marcas abram a cortina e mostrem processos de bastidor para justamente construir credibilidade. Eu esqueci de desligar aqui o meu som do WhatsApp. É isso, transparência, e mostrem processos, né, de bastidor que pratiquem a transparência radical, ou seja, que assumam erros, atrasos, mudanças de política antes de serem cobradas.

Então façam isso de uma forma proativa e não reativa. Depois que alguém percebeu, eu vou lá, pois é verdade, desculpa aí. Não, mostra antes, tá? Então as empresas que fazem isso, segundo a Edelman, registram até 34% de aumento na confiança do cliente. E 28% de redução em reclamações comparadas a marcas que só reagem quando pressionadas. 34% e 28% é coisa abessa, concorda comigo? Então reconfigura o que prova significa em branding.

Não é aquele selinho que você coloca, não é o laboratório, não é o certificado, mas sim, e agora que é bem importante, é você mostrar também a tua cadeia produtiva com nome, rosto e local. Esse desejo vem crescendo muito. As pessoas querem saber desses processos, a origem das coisas que elas estão comprando, tá? E aqui eu vou de novo abrir o parênteses, sou a louca de abrir os parênteses, que acho que é uma linha importante desse episódio, né?

Menos tudo isso que eu tô falando, menos depende de interpretação e depende muito mais de dado direto. Então o consumidor não quer saber que o processo existe, ele quer saber especificamente de onde vêm os produtos, as matérias-primas foram usadas, como que fisicamente aquilo foi fabricado. Não é uma curiosidade abstrata de fofoca de bastidor em sentido amplo, é uma exigência de verdade pontual, tá? Então em pesquisa de comportamento do consumidor 72% dos consumidores dizem que transparência é um fator extremamente importante na hora de escolher qual alimento eles vão comprar. 6 em cada 10 consumidores globais afirmam ter interesse genuíno em saber de onde vem o que comem, e 80% dizem que ficam mais propensos a comprar de marcas que divulgam abertamente a origem dos ingredientes e as práticas de sourcing.

Só sintético, lógico, né? Então no Brasil o padrão se repete, gente. 44% dos consumidores querem um aplicativo que traga informação completa do produto, por exemplo, pelo código de barras ou pelo QR code. E 33% esperam terminais inteligentes que informem origem, rastreabilidade, até descarte correto. Então esse apetite, né, já que a gente tá falando de alimento, por origem, já tem uma infraestrutura própria, né? Por exemplo, o uso de QR code em embalagem cresceu 44% em um ano só. 60% dos consumidores em nível global escaneiam o código antes de decidir a compra, tá?

Procurando especificamente origem, certificação, cadeia. Então não é mais um recurso de nicho. Exemplo: a partir de agosto de 2026, agora, Semana que vem. O novo Regulamento Europeu de Embalagens, PPWR, torna obrigatório o passaporte digital de produto para alimentos e bebidas vendidos na União Europeia. Então, rastreabilidade deixou de ser um diferencial de marca preocupada e é uma exigência regulatória, tá? O efeito comercial disso já é mensurável, né?

Então, produtos posicionados como sustentáveis, com origem e processo declarados, respondem, né, por cerca de 25% das vendas do bem de consumo nos Estados Unidos e geraram mais do que isso, né, quase metade de todo o crescimento da categoria desde 2013, tá? E o consumidor disposto a pagar até 9% a mais por isso. No mercado de beleza a gente tem o clean beauty, né, esse movimento que já tá forte aqui no Brasil, que cresce mais que os demais itens que não estão inclusos nessa categoria, ou seja, O desejo de conhecer origem, matéria-prima e modo de produção não é um subproduto do bastidor, tá?

É que com esse dado na mão, é uma das mais frentes e mais fortes, mais fortes, mais mensuráveis desse fenômeno interno, é que é o caminho direto, né, do comportamento do consumidor e o resultado do negócio. Você já deve ter ouvido falar numa empresa chamada Everlane. A identidade inteira dessa empresa foi em torno de um conceito que ela mesma registrou, que é Radical Transparency, ou seja, transparência radical. Ela detalhou item por item o custo do material, mão de obra, transporte de cada peça, com honestidade assim minuciosa, né?

E a marca também enfrentou até problemas, né, de questionamentos em várias, até sobre práticas trabalhistas. Então, aqui é um lembrete importante: transparência declarada não substitui transparência verificada, tá? A Tonis, a Chocolândia ali, fez algo ainda mais ousado: transformou a falha da própria cadeia produtiva de cacau, né, que tem um problema histórico, né, de mão de obra, de trabalho infantil, distribuição desigual de lucro, em ativo central de comunicação.

Então, as barras da marca têm pedaços desiguais de propósito, um lembrete físico e literal de que o setor não distribui o valor de forma justa. Louco, né? Muito interessante. Bom, no Brasil, né, a Natura é um exemplo forte disso. Constrói há mais de 20 anos uma cadeia produtiva baseada na sociobiodiversidade amazônica brasileira de forma geral. Então ela tem, ela conserva milhões de hectares, impacta na cadeia uma quantidade grande de pessoas.

A Dengo Chocolates, que eu já volto e meio eu falo dela aqui, né, que alguém que veio da Natura inclusive também trabalha fortemente esse processo de resgatar toda a cadeia produtiva que a gente chama de bean to bar, né, que vai dar desde o fruto até o código de barras lá. Então essa construção não é um acaso, é um processo, é um posicionamento, é um conceito, é isso que a gente tá, é onde a gente está chegando, né. Bom, e existe um salto de maturidade grande, né?

Às vezes esse backstage aí tá virando produto. A série documental da Netflix sobre a Fórmula 1, por exemplo, Drive to Survive. O esporte já tem mais de 70 anos e a série vendeu o que acontece por trás, né? A tensão entre as equipes, a a pressão de patrocínio, decisões de pit stop. O resultado é que mais de 360 mil espectadores que não assistiam Fórmula 1 passaram a assistir depois da série, né? Então a receita do esporte passou de 1,83 bilhão de dólares para 2,14 bilhões em 2021.

Então o engajamento cresceu um monte, blá blá blá blá blá. Então o bastidor se transformou no produto, né, o documentário. A LEGO, ela também transformou o bastidor do desenvolvimento na plataforma pública, que é o LEGO Ideas. Qualquer pessoa pode propor um novo produto, né, aquele set de peças. Então, se o projeto recebe 10 mil apoios, ele entra em avaliação oficial da empresa. E hoje a plataforma tem 3 milhões de usuários, mais de 135 mil propostas ideias propostas, tá?

Então ajudou o desenvolvimento de produto, na validação das ideias, né? E assim o valor, né, o lifetime value do cliente só aumenta porque as pessoas ficam muito ativas. Gente, outros setores também, cozinhas abertas em restaurante onde você vê o prato sendo bem feito, sendo feito vídeos de desenvolvedor da Apple, Chef's Table and The Bear, que trata a questão da cozinha profissional como uma narrativa dramática. Gente, tem muita coisa acontecendo, né?

Porque é uma maneira das marcas, startups usam isso também, publicando abertamente receita, número de usuários, até salário de colaboradores. Várias startups estão usando isso porque você atrai uma comunidade, e comunidade a gente sabe que é o futuro do relacionamento das marcas com seus públicos. Então é o seguinte, gente, o bastidor tem uma audiência própria, não é um complemento, né? Às vezes é a maneira com que as pessoas se atraem e queiram participar daquela marca, tá bom?

Nem todo bastidor é de verdade, daí começa a surgir aquele bastidor encenado, aquele vlog espontâneo roteirizado, o making of que na verdade não é um making of como deve ser, mas é uma produção disfarçada de espontaneidade, o erro calculado para parecer autêntico, a imperfeição que foi desenhada. Então isso aí é complicado. A gente chama isso de autenticidade performática. O problema é sutil, mas é sério. Quando você dá a entender, você cria uma linguagem visual que sugere transparência, tipo câmera não perfeita, a luz não é maravilhosa, o corte é menos sutil, Essa estética não tem o compromisso do bastidor, tá?

Então, cuidado. Mas assim, o próprio algoritmo de recomendação, ele favorece conteúdos que parecem não editados porque performa melhor, cria um incentivo interessante. A gente precisa planejar e entender o que que é autêntico, o que tem controle editorial. Tá? Então cuidado, porque o consumidor percebe. Então você não queira deliberadamente parecer espontâneo, não queira deliberadamente criar um bastidor com toda a produção por trás.

As pessoas percebem e daí elas desengajam. Então o efeito é o contrário. Então cuidado, tá? Não é forçar uma espontaneidade, ela for percebida como não autêntica, é uma corda bamba danada. Ele percebe, o consumidor percebe, a gente tem uma— compromete a reputação específica da marca, tá? Então cuidado, autenticidade sempre, tá bom, gente? O bastidor só funciona como prova de confiança se ele de fato for um bastidor, tá? Tem vários que dizem isso.

O que que muda, né, para quem decide? Quem decide posicionamento de marcas? O que que a gente faz sobre isso? A gente sabe que o consumidor compra produto, compra significado do produto, emoção, tudo que a gente sabe, mas ele também queria vínculo com as histórias, tá? E isso não é força de expressão não, né? A gente constrói confiança, segurança psicológica. Então quando a gente mostra um bastidor e esse bastidor é real, a gente gera 5 ativos que uma comunicação sozinha tem dificuldade de construir: confiança, né, porque a gente tá mostrando como é feito; humanização, porque mostra dúvida, mostra decisões que são tomadas em tempo real; Mostra esforço.

Então o produto acabado tá pronto, né? E quando você mostra que durante o processo teve ali um empenho, a gente dá mais valor. Pertencimento, porque a gente assistindo o processo, a gente se sente fazendo parte dele. Então tem pertencimento. A gente não consome só o resultado, a gente de alguma forma a gente testemunha do processo. Prova. Ai, o Teodoro tinha aquela, né? Téo, documenta, né? Prova, porque documenta em vez de declarar.

E memória, né? Porque quando a gente tá no processo em andamento, ele ocupa mais um espaço cognitivo, né? Então lembra que eu falei no começo? Tudo que tá em desenvolvimento gera um processo um envolvimento cognitivo maior do que quando um produto tá acabado. A gente gera um vínculo mais real, tá? Então é o seguinte, gente, estratégia não pode ser modismo. A gente tem que ser verdadeiro. Então não basta abrir a fábrica, fábrica entre aspas, eu preciso mostrar a cultura.

E se não tiver cultura, se não tiver autenticidade, é só É um simples cenário, não tem realidade, tá? Então, se você não tem honestidade, não gera vínculo real, tá? Isso tem uma explicação operacional bem que vale a gente registrar aqui, sem rodeio, tá? Porque separa, né, um branding bem feito de um risco reputacional que a gente não precisa ter. Tá, então quando eu quero entrar nessa cultura real de bastidor, que é o tema desse episódio, eu preciso realmente ter um alto grau de transparência no processo, não uma versão editada, não mais ou menos, tem que ser realidade nua e crua.

Então toda promessa, todo discurso de marca precisa vir acompanhado de evidência e prova, prova correspondente, tá, gente. Prova correspondente. Então não é suficiente afirmar, falar origem, ingrediente, compromisso. Preciso mostrar, documentar, permitir que o stakeholder, que seja ele um parceiro, seja ele um consumidor, um cliente, um terceiro, que ele consiga verificar. Então marca que abre o discurso do bastidor sem abrir o lastro do bastidor.

Está na prática criando um risco reputacional muito claro, porque essa autenticidade performática ela pode causar um dano muito maior do que se a marca não tivesse tentado mostrar nada, certo? Então assim, importantíssimo, a decisão de mostrar o bastidor é a decisão também de ser auditada por ele. Tá? Então não vá achando que ninguém vai perguntar, gente. Então a gente precisa transformar isso em forma real, como a Natura faz isso por décadas.

A Apple, que usa vídeo desenvolvedor e evento técnico como prova de rigor de engenharia, não como publicidade, alega que, né, que envolve as pessoas de fato na construção, né? Nubank, que busca trazer a transparência como valor declarado na sua relação, não como tática de campanha e tudo mais. Então é isso, né? Então o critério prático para qualquer marca que for pensar em abrir seu próprio bastidor é simples de enunciar e difícil de cumprir.

Então mostrar o processo só compensa quando o processo de fato sustenta o que a marca diz ser. Eu vou repetir: você quer abrir o teu bastidor? Falar é fácil, mas você tem que ter certeza que só vai valer a pena, e tenha noção, só vale a pena você abrir o processo se ele aberto, integralmente aberto, super transparente, ele realmente reproduz o que a sua marca diz que ela é. Se tiver alguma maquiagem ali, meu amigo, não faça isso.

Tá? Então, gente, fica atento a isso. E agora, né, para já encaminhando para o final, é, né, a gente pode usar inovação aberta, cocriação, fazer testes beta abertos a público, envolver as pessoas, né? Isso aí não é tão novo, mas declarar participações externas Eventualmente inteligência artificial desenvolvendo em conjunto com o usuário, não apenas para o usuário, mas com ele. Crowdsourcing é quando você tem a inteligência coletiva criando algo.

Então abra isso. Quando você desloca isso, você muda a natureza da relação e você mostrar esse bastidor e incluir as pessoas nele cria um vínculo. As pessoas, então abra o bastidor para as pessoas serem coautoras. Então além de você mostrar como você faz os processos, convide elas a participarem de alguma maneira, né? Porque se ela participar, ela vai sentir que tem um pouco dela ali, tem o DNA dela. Então o envolvimento é muito maior, tá?

Isso quando você faz parte de algo, o teu envolvimento é outro, tá? Óbvio, gente, que o que eu tô falando aqui, a cultura do bastidor, não é ponto final. É o estágio intermediário de uma transação muito maior, que é do bastidor, onde a gente é espectador, para a cultura da transformação, onde a gente de fato participa. Bom, espero ter conseguido passar para vocês o que eu acho sensacional e o que eu vi, que eu tenho observado, e que é muito interessante para as marcas, e tem tudo a ver com as tendências que a gente vê para o branding, as tendências de comportamento e as expectativas das pessoas em relação às marcas.

A gente acreditou muito tempo que o valor do produto era o próprio produto em si, o que tava dentro da embalagem. E nos últimos anos a gente vem percebendo, com o crescimento de preocupações ambientais e sociais, ESG, ODS, e consciência mesmo da população, das pessoas, a gente quer, a gente percebe como consumidor que o valor Não tá só ali, valor com V maiúsculo, ele tá no processo, nas decisões desse processo, nos erros, nos acertos, nos consertos, né?

Todas as pessoas dessa cadeia têm história ali, tem muita história. A gente ama história, tem muita narrativa. Então talvez seja por isso que a gente gosta tanto de acompanhar esses caminhos, né? As pessoas não são de comparar apenas resultados, mas a gente se apaixona pelas histórias. E o bastidor, de certa forma, é isso: histórias das marcas, das empresas, que nunca ninguém tinha nos contado ainda, e a gente tá fazendo parte.

Então é sobre isso que eu queria falar para vocês, na cultura do bastidor. Deixa seu bastidor bonito, verdadeiro, autêntico, mas não perfeito. Que ele seja como ele é, que ele traduza, que você não tenha vergonha de mostrar. É a sua casa, é sua empresa, né, sua marca como ela é. Muito obrigado se você chegou até aqui. Espero que você tenha curtido esse tema, que eu acho assim bem atual, bem relevante. Não importa o tamanho da sua empresa.

Aliás, quanto menor for a sua empresa, quanto mais bastidor você mostrar, esse bastidor for autêntico, Não perfeito. Perfeição não é perfeição nossa. Filosófico isso. Perfeição não é perfeição, sabe? Agora um desabafo: como harmonização facial não é necessariamente beleza. Eu acho que beleza tá nas imperfeições que dão originalidade, autenticidade. Essa sou eu. Obrigada e até o próximo episódio.

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