#220: Piscicultura impacta negativamente as espécies exóticas no Lago de Furnas
Neste episódio do programa Ambiente é o Meio, o entrevistado é o biólogo Paulo dos Santos Pompeu, professor titular da Universidade Federal de Lavras, no Sul de Minas Gerais, falando sobre seu estudo acerca do impacto da piscicultura no Lago de Furnas, conhecido como o Mar de Minas, e os desafios para a saúde e conservação de seu ecossistema.
O objetivo da pesquisa do professor é entender os principais impactos humanos e seus efeitos sobre os rios do Brasil, com foco na ecologia de peixes. Ele busca identificar as ameaças e desenvolver estratégias para a conservação de longo prazo das espécies, como a manutenção de trechos de rios sem barramentos e a integridade dos ecossistemas fluviais.
O biólogo ressalta a urgência de repensar a relação com nossos rios e reservatórios. A preservação do Lago de Furnas e de outros ecossistemas aquáticos depende de um esforço conjunto que envolva políticas públicas eficazes, fiscalização rigorosa, pesquisa científica e, acima de tudo, uma mudança de mentalidade em relação à conservação e ao uso sustentável dos recursos hídricos.
Ouça o episódio completo no player acima.
José Marcelino
Paulo dos Santos Pompeu
- Impacto da pisciculturaEspécies exóticas no Lago de Furnas · Competição com espécies nativas · Tilápia e Tucunaré · Risco para espécies migradoras
- Ecossistema do Lago de FurnasDimensões e importância do reservatório · Bacia do Rio Grande e Paraná · Impacto de barramentos e reservatórios · Espécies nativas e não nativas registradas
- Conservação de rios e espécies nativasManutenção de rios sem barramentos · Tratamento de esgoto e mata ciliar · Estratégias para conservação de longo prazo · Rios de preservação em Minas Gerais
- Gestão de reservatórios e nível da águaFlutuação do nível da água e demanda energética · Pressão turística e demanda por nível estável · Regulação hídrica em cascata de reservatórios
- Peixamentos e educação ambientalEficácia dos peixamentos para conservação · Risco de introdução de espécies não nativas · Educação ambiental sobre soltura de peixes
- Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs)Fragmentação de rios e barreira para migração · Impacto acumulativo das PCHs
- Qualidade Ambiental e ÁguaTratamento secundário de esgoto · Nitrogênio e fósforo como poluentes · Monitoramento da qualidade da água
Está no ar, Ambiente é o Meio. Uma conversa sobre as questões do nosso dia a dia. Ambiente é o Meio. Olá, ouvintes da Rádio USP.
O programa Ambiente é o Meio de hoje, conversa com o biólogo Paulo dos Santos Pompeu, que é professor titular da Universidade Federal de Lavras, no sul de Minas Gerais. E o tema da nossa entrevista é o impacto da piscicultura com espécies exóticas no Lago de Furnas. Boa tarde, Paulo. Uma alegria muito grande tê-lo com a gente aqui. E comece falando um pouquinho da sua formação e da sua trajetória.
Boa tarde, José Marcelino. Muito obrigado pelo convite. É um prazer estar aqui falando um pouquinho de assuntos relacionados à minha linha de pesquisa. E eu sou biólogo, formado pela UFMG. Logo depois de formado, eu fiz o meu mestrado em ecologia, também pela UFMG.
E logo depois entrei no mercado de trabalho. Trabalhei como consultor, trabalhando para companhias hidrelétricas, mineração. E em determinado momento eu percebi que boa parte do impacto ambiental que meus peixes estavam sujeitos, minha linha de pesquisa sempre foi com ecologia de peixe, que estavam ligadas de alguma maneira a questões de engenharia relacionadas à hidráulica e à hidrologia dos rios. E eu fui fazer meu doutorado em engenharia.
em hidráulico e recursos hídricos, também pelo FMG, e isso foi algo um pouquinho diferente da trajetória da maioria dos biólogos, mas não que eu tenha deixado de trabalhar com ecologia de peixe. Então, minha linha de pesquisa desde sempre é essa, entrei aqui na Universidade Federal de Lavras no final de 2005, e desde então eu trabalho tentando entender os principais impactos humanos e seus efeitos sobre os rios do Brasil. Muito bem, e hoje vamos falar sobre o Lago de Furnas, também conhecido como o Mar de Minas, quem disse que Minas não tem mar?
Então, para começar, Paulo, eu pediria que você desse um pouco noção, para quem não conhece, das dimensões do lago de Fornas, da sua riqueza. E se é quase o mar mesmo, é conversa de pescador. Pois é. Essa história de Mar de Minas, é claro que tem um marketing associado a todo o turismo, né? É um lago que tem locais muito visitados, Capitólio, por exemplo, é muito famoso. Mas o nome também tem a ver com a proporção.
É o maior reservatório de Minas Gerais, um dos maiores reservatórios brasileiros, tem cerca de 1.500 quilômetros quadrados, é um reservatório de porte muito grande e abastecido por rios também muito importantes. O Rio Grande, que é o principal formador do braço do Lago de Furnas, ele é, na verdade, o Rio Paraná, é o principal formador do Rio Paraná. Ele vai ter o nome de Rio Paraná quando o Rio Grande junta com o Rio Paranaíba na pontinha do nariz de Minas.
Então, a parte de baixo do nariz de Minas é o Rio Grande, a parte de cima é o Paranaíba.
e a partir dali, então, do encontro dos dois, chama Rio Paraná. Ele tem suas nascentes perto de Barbacena, aqui na região das vertentes, aqui em Minas Gerais, drenando todo o sul de Minas. Além do Rio Grande, existem também os rios Verde e Sapucaí, que também são muito importantes e que drenam para o Lago de Furnas.
Então, é um lago de grande dimensão e que drena uma região que sempre foi muito interessante por diversos aspectos. O Rio Grande é um dos principais em termos de geração de energia elétrica do Brasil. Obviamente, a Bacia do Paraná é extremamente importante como um todo, mas o Rio Grande se destaca. São 11 hidrelétricas, desde a cabeceira até o encontro com o Paranaíba, sendo que Furnas é a que tem a maior capacidade de geração, tem o maior lago, na verdade.
Então é uma região muito interessante e que já foi muito rica em grandes cachoeiras. Esses barramentos são muito antigos e existiam grandes quedas d'água na região, era um rio muito correntoso, muito rápido, o rio grande, e foi transformado hoje quase que numa sequência de barramentos. O primeiro é Camargos, depois vem Tutinga, Funil, e Furnas é o quarto deles e é o de maior dimensão.
Muito bem. E agora, então, vamos falar da saúde desse lago, que parece que não vai muito bem, né, Paulo? A primeira coisa importante que pontuar é que os reservatórios não são ambientes naturais. Então, a gente sempre tem que tomar um pouquinho de cuidado, dependendo do que a gente encontra no reservatório, porque o ambiente mais saudável é o rio.
especialmente um rio sem barramentos, um rio que ainda corre livre, esse sim, a gente consegue bater o olho e falar assim, olha, ele está numa condição boa ou ruim, porque a gente sabe exatamente o que esperar de um rio. Então, a primeira coisa a pontuar, que é muito importante, é que, por sua natureza, o reservatório já é um ambiente artificial, não era um ambiente que estava ali anteriormente. Mas existem algumas coisas que preocupam, não só no caso do Lago de Furnas, mas no caso da Bacia do Paraná como um todo, que é a questão das espécies não nativas.
A gente poderia chamar de espécies exóticas também, mas a melhor terminologia é espécie não nativa. Espécie que originalmente não ocorria naquele trecho de rio. Só para ter uma ideia, na bacia do rio Paraná, existem registradas um pouco menos de 350 espécies de peixe nativas, além de 128 espécies não nativas. Então, praticamente um terço, se somar o conjunto das espécies, um quarto das espécies são espécies hoje não nativas, espécies que não deveriam estar lá.
E no caso do Lago de Furnas, a situação não é muito diferente. A gente tem cerca de 65 espécies já registradas no Lago de Furnas, e dessas, 14 são não nativas. Também é um número expressivo. O problema dos reservatórios é que, em geral, por ser um ambiente modificado, as espécies nativas levam menos vantagem na competição. Porque as nossas espécies nativas, em geral...
são espécies adaptadas à condição de rio, à condição de água corrente. E quando você vê uma espécie não nativa, típica de água parada, como a tilápia, por exemplo, a chance dela prevalecer sobre as espécies nativas acaba ficando muito mal. E um ponto também que eu me lembro, eu sou dessa região, em Furnas é muito antiga, então eu me lembro quando chegaram as tilápias, você pegava cada tilápia gigantesca e depois elas foram...
diminuindo, mas a pergunta era mais em cima da questão das escadas de peixe também, porque muitos desses reservatórios não tem essas escadas que para algumas espécies são fundamentais. Você pode explicar um pouco esse fenômeno também? Posso, posso. Isso é um aspecto muito interessante, porque...
Em um contexto como o da Bacia do Rio Grande, onde a gente tem uma sequência de reservatórios, a escada para peixe faz muito pouca diferença, porque ela faz sentido se ela estivesse ligando um reservatório ou um trecho barrado a um grande remanescente de Rio Livre.
onde as espécies pudessem completar o seu ciclo de vida. Então, infelizmente, na maior parte dos casos, o mecanismo de transposição de peixe, seja uma escada para peixe, seja um elevador para peixe, ele faz muito pouco efeito. Primeiro, porque você não tem um rio livre para ser conectado. Segundo, porque o reservatório também é uma barreira. Então, vamos imaginar que tivesse uma escada na barragem de furnas. O peixe teria muita dificuldade em atravessar um reservatório tão grande para encontrar um trecho de rio, e precisaria ter esse trecho de rio livre.
Então a escada resolve muito pouco, mas em alguns casos ela é importante sim, principalmente pequenos barramentos, onde você não tem a formação de um grande reservatório, mas a gente tem que compreender que num lago dessa extensão, como o Lago de Furnas, a quantidade de rio livre que foi perdida para a transformação em reservatório é muito grande.
Então, o impacto está muito ligado a esse ambiente transformado. Isso salienta também a importância de a gente manter os rios que sobraram, no caso de Furnas, por exemplo, o verde, o sapucaí, manter eles como rios livres. São eles que possibilitam que algumas espécies migradoras, algumas espécies de pia, o dourado, de vez em quando sejam até encontradas dentro do lago de Furnas.
Elas não estão completando o ciclo de vida no lago de Furnas, elas estão completando nesses rios que ainda estão livres, alguns deles, no caso do verde até, já existem algumas barragens, isso é um problema, mas essas espécies migradoras que se encontram em Furnas é porque ainda existem rios livres que fluem para o reservatório, e esses permitem que essas espécies continuem lá. E só uma pergunta antes de entrar nas exóticas também, quer dizer...
E essas espécies nativas hoje, então, também existem criadores das próprias usinas? Quer dizer, como é que se garante a multiplicação dessas espécies nativas? Basicamente, onde existem espécies nativas é porque ainda existem rios livres que permitem que essas espécies se mantenham.
No passado, era relativamente comum as grandes concessionárias de energia terem estação de piscicultura para fazerem peixamentos. E hoje, é um consenso na comunidade científica, não é entre a população, ainda existe uma grande demanda por peixamentos, mas há um consenso na comunidade científica que na maior parte das vezes o peixamento não serve pelo menos para a conservação.
Ele pode ter algum papel na pesca, em alguns pontos, mas é importante a gente entender que a quantidade de peixes que tem num rio ou num reservatório, mas especialmente num rio, é a quantidade de peixes que o rio suporta. O peixe tem uma capacidade reprodutiva muito grande. Então, se a gente melhorar a condição do rio, por exemplo, tratando esgoto, removendo barragens antigas, melhorando a mata ciliar, isso vai ter uma resposta em termos de quantidade de peixe infinitamente maior do que o peixamento, porque o peixe se recupera sozinho.
Melhora o rio que vai ter mais peixe. Parece uma frase meio estúpida, mas a quantidade de peixes em um rio é a quantidade que o peixe suporta. Então, se você quer ter mais peixe, muda o rio, porque vai ter mais peixe. Sem mudar o rio, não existe mágica. Não é tacando peixe no rio que vai ter mais peixe. E aí, já fazendo um gancho para a questão das espécies não nativas...
Um grande problema dos peixamentos, na hora que, no dia da árvore, do índio, da floresta, da árvore, a gente leva aquele monte de sacola de peixe e solta no rio, a gente está fazendo um desserviço do ponto de vista de educação ambiental, porque a gente está passando essa imagem, que julgar peixe no rio resolve, quando, na verdade, a gente deveria estar...
mudando o rio. Não só, a gente está fazendo um esforço, que se não for muito bem estudado, pode estar sendo inócuo, pode não estar servindo para nada, mas a gente está passando uma imagem para uma criança, por exemplo, que aquilo é correto, e boa parte dessas 128 espécies não nativas do Paraná, são espécies que vieram da aquariofilia. Então, a criança tem um aquário, ela viu na televisão que tinha gente no dia do meio ambiente jogando o peixe no rio para melhorar o rio, e vai falar assim, nossa, coitado, meu peixe está no aquário, eu vou soltar ele, porque eu estou fazendo uma coisa boa.
quando, na verdade, isso é um dos principais vetores de novas espécies não-nativas. Então, além do peixamento ser um problema por si só, muitas vezes ele não ser importante, para a pesca é uma outra questão, ele pode eventualmente complementar a pesca, ele ainda passa a imagem que aquilo é uma ação boa para o meio ambiente, quando traz uma série de riscos.
A coisa não é fácil, não. Ou seja, vamos deixar os rios livres, os rios precisam correr. Vamos deixar nossos rios, vamos investir em tratamento de esgoto, vamos plantar mata ciliar, que certamente esse é um caminho mais correto e com menos riscos para a recuperação dos nossos peixes. É, e isso aí me trouxe ainda o outro elemento, que hoje nós estamos muito com essas PCHs, as pequenas centrais hidrelétricas. Eu moro aqui na divisa São Paulo e Minas, que é algo também que está se espalhando muito, né, Paulo? E eu acho que gera esse problema também.
Era o mesmo problema do ponto de vista de fragmentação dos rios, de barreira para a migração. Não é muito diferente uma PCH de uma grande usina. É claro que o trecho de rio perdido de uma grande usina pela criação de um grande reservatório é muito maior, mas a PCH tem que ser vista no seu contexto. Então, dependendo do número de PCHs, o impacto é acumulativo. E o mais importante é, se a gente vai querer...
manter populações de espécies migradoras em longo prazo, a gente precisa manter, pelo menos em cada bacia, alguns longos de rios sem barramento. Vão ser os rios que vão permitir a manutenção dessas espécies que a gente tanto gosta. E eu estou falando aqui das espécies migradoras. Geralmente, os bichos de maior porte e de maior abundância que são preferidos para pesca são bichos migradores. É o dourado, é o surubim, é o pintado, é a matrinchã, são os piaus de maior porte.
Então, são bichos que desproporcionalmente são mais importantes para a pesca. Claro que tem espécies não migradoras que são alvos da pesca também. É o tucunaré, que é até um problema, porque o pessoal gosta tanto de pescar que traz da Amazônia e solta nos nossos rios, um dos principais peixes não nativos causando problema. Mas, de forma geral, aquilo que mais tradicionalmente sustentava a pesca nos nossos rios da América do Sul inteira, eram espécies migradoras.
Bom, agora então vamos falar dessas espécies não nativas, mas que vivem criadouros, quer dizer, numa perspectiva comercial. Então explica um pouco como é que surgiu isso, a gente ouve muito falar lá dos problemas no Chile, quer dizer, explica um pouquinho como é que é isso, como é que isso surgiu como alternativa econômica.
Pois é, isso surgiu já faz bastante tempo, e uma coisa que entristece é que a gente tenha seguido o mesmo modelo, por exemplo, de países como o Chile, que hoje produzem uma quantidade muito grande de salmão e truta, que são espécies que não são nativas do Chile, a gente seguiu um caminho muito parecido em fazer uma piscicultura.
baseada em espécies que não são brasileiras. Começou, inclusive, com a carpa, logo depois veio a tilápia. Tentou se fazer com o bagro africano, que não foi para frente por falta de aceitação do mercado. Mas o bagro africano já é encontrado numa série de bacias brasileiras, porque escapou de criadores. E o que entristece é que o Brasil é o país com a maior biodiversidade de peixes do planeta. Então, do ponto de vista de biodiversidade, isso não se justifica.
Não há dúvidas que certamente existem uma série de espécies brasileiras que teriam potencial para aqui...
de agricultura não foram trabalhados então para um produtor é muito mais fácil pegar uma espécie que já tem um pacote tecnológico bem estabelecido que é o caso típico da cidade lá onde é completamente dominado a tecnologia toda é muito bem conhecida do que começa
o trabalho com uma espécie nativa que pode não dar tanto retorno. Existem grupos trabalhando com piscicultura de espécies nativas, por exemplo, o próprio surubim ou pintado hoje já tem um pacote tecnológico mais estabelecido, no caso da Amazônia, o tambaqui também já tem um pacote tecnológico mais avançado, mas a gente ainda é baseado em espécies que não são brasileiras. E o caso mais concreto e que domina a piscicultura nacional é da tilápia.
E o grande problema é que é muito difícil controlar os escapes. Então, basicamente, quase todas as bacias, pelo menos do sudeste brasileiro, já possuem a tilápia. E a tilápia é um problema não só quando ela alcança o rio, mas principalmente quando esse rio está degradado. Um dos motivos de ser uma espécie usada na arquicultura é que ela cresce rápido, ela cresce sobre diferentes condições, é uma espécie tolerante.
Então, ela acaba dominando sobre as espécies nativas, especialmente quando o rio está degradado. E o reservatório, ele é um ambiente alterado por natureza, então a chance da tilápia se dar bem e avançar sobre a fauna nativa dentro dos reservatórios também é muito grande.
E a sistemática de criação são aquelas gaiolas que a gente vê meio que flutuando, como é que é um pouco isso? E aí como é o manejo? Em que momentos ocorre esse processo? Parece que a tilápia deu uma questão de sexagem também, porque parece que reproduz muito. Tem, tem.
ela reproduz tanto que para o produtor não é vantagem manter os indivíduos reproduzindo dentro do tanque, já que você pode ter uma super densidade, o tamanho vai diminuir. Eu tenho que tomar um pouco de cuidado na hora de falar de piscicultura, que minha área é o peixe na natureza, então eu vou até determinado ponto que eu tenho certeza, já que eu entendo do peixe na natureza e entendo o impacto do não nativo. Mas a tilapia...
Por conta dessa questão reprodutiva, eles vendem a tilápia revertida. Na hora que nascem os filhotes, existe um banho de hormônios, acabam que predominantemente viram todas macho. Peixe tem essa história. O peixe, boa parte das espécies, nasce com os dois sexos e, dependendo do estímulo hormonal, vira macho ou fêmea. Então, você consegue reverter a maior parte dos indivíduos para macho, no caso de hormônio masculino, ou para fêmeas, se fosse o caso.
No caso da tilápia, é predominantemente macho. Mas sempre escapa. Dá 99, alguma coisa, sempre vai ter indivíduos fêmeas também.
Mas o cultivo da tilápia pode ser feito de várias formas. Ele pode ser feito nos tanques rede, que são aquelas gaiolas que no reservatório de furnos tem muito, mas não só no reservatório de furnos, em boa parte dos grandes reservatórios do sudeste brasileiro, hoje a gente tem esse tipo de cultivo. Ele pode ser feito em ambiente completamente isolado.
em pequenas propriedades, com circulação fechada, por exemplo. Esse é, inclusive, uma forma de cultivo, com menos chances de escape para a natureza. Então, do ponto de vista ecológico, é um tipo bastante seguro. É muito comum que pequenos fazendeiros tenham antilápio, por exemplo, no seu açude. Muitas vezes, nem para uso comercial, mas para a sua pesca ali, esses açudes, eles são uma das fontes.
de introdução de espécies não nativas, porque é muito comum ter um episódio de uma chuva muito intensa e o açude rompe. Então, toda estação chuvosa, existem vários açudes em todas as bacias que são rompidos. E é muito curioso, porque hoje você pode comprar peixe pela internet. Você tem peixe sendo anunciado, você consegue mandar pelos correios peixe sem muito problema, você coloca oxigênio no saco plástico, o peixe consegue viajar grandes distâncias.
Então, qualquer dono de uma pequena propriedade rural com açude pode colocar os mais diversos peixes. Então, não é incomum, para quem estuda o peixe na natureza, toda estação chuvosa com grandes volumes de chuva, por conta dos rompimentos de açude, é muito comum que você descubra uma nova espécie no ambiente. É uma espécie que estava, provavelmente, num desses açudes menores, construído de uma forma um pouquinho mais rudimentar, que aí, pela intensidade de chuva, aquilo se rompe e novas espécies acabam atingindo o ambiente.
Então, é uma dinâmica que, infelizmente, continua de ano após ano, a gente tem mais espécies sendo detectadas. No caso de Furnas, por exemplo, a última detecção foi do Pirarucu, que é a maior espécie de água doce brasileira, foi detectada em Furnas recentemente, teve um vídeo que viralizou aí na internet, então foi uma espécie que chegou, a gente não sabe.
Se foi um açude que rompeu, ou um pesqueiro que rompeu, ou se foi uma introdução deliberada. Isso a gente, infelizmente, não consegue saber, mas pode ter acontecido também. Bom, e aí, para entender, quer dizer, eu percebi que uma parte tem a ver com essa competição mesmo dos que escapam, né? E passa a competir por alimento, a multiplicar.
E o próprio processo em si do criador, com alimentação, com aplicação de remédios, eu me lembro que parece que o salmão, eles dizem que tem muita essa coisa, se joga muito veneno, remédio, entre aspas. Quais são, quer dizer, o efeito mais negativo tem a ver com o escape, tem a ver com a própria forma de cultivo?
No caso do tanque rede, esse é um problema adicional, porque você tem o animal criado no próprio ambiente natural, no próprio reservatório. E aí você tem um problema muito relacionado a questões de qualidade da água. Mesmo que você não use hormônios ou antibióticos, e principalmente antibióticos são relativamente comuns.
A própria ração, você tem escape de ração, você não consegue, ao julgar no tanque rede, fazer com que os peixes consumam 100% da ração. E existem também as excretas do peixe, que são muito ricas em nitrogênio. Então, alguns reservatórios brasileiros já foram inclusive mapeados para a instalação do que a gente chama de parques aquícolas. Precisa ter um limite, um número máximo de gaiolas ou de tanques rede.
em cada reservatório, respeitando as vazões locais, a capacidade de renovação da água, para evitar o processo que a gente chama de eutrofização, que é quando a água fica enriquecida em nutrientes, isso pode dar bluns de algas, a alga fica verde, o próprio contato primário, dependendo desse nível de eutrofização, ele pode ser prejudicado, pode não ser saudável nadar naquela água.
Então, tudo precisa ser feito com controle. Então, em alguns reservatórios, chegou-se a fazer esse tipo de mapeamento, qual seria o limite máximo, mas o que a gente sabe é que em alguns locais não foi respeitado, você tem muito mais gente cultivando do que seria a capacidade do ambiente, e em alguns locais não foi feito sequer o estudo, a gente não sabe qual é a capacidade de suporte, mesmo assim, alguns produtores rurais começaram a criar tilapia.
Mas isso é caso a caso e depende de questões de licenciamento, mas existe sempre o risco, e isso é fato.
Braços de reservatório, que é onde você tem uma grande densidade de tanques-redes, a chance de você ter uma piora detectável na qualidade da água é muito grande. É, e você estava levantando aí, eu me lembrei também, assim, que é uma bacia muito populosa, né? Então, quer dizer...
Até onde eu sei, a Copasa até que é uma empresa razoável do ponto de vista de qualidade, mas ainda tem muito esgoto também no lago. Tem muito esgoto no lago. No Brasil, a maior parte das cidades que tem tratamento de esgoto, uma parte grande ainda não tem, mas uma parte grande das cidades que tem tratamento de esgoto, quase todas elas, ela só faz até o que a gente chama de tratamento secundário, que é remover a matéria orgânica. O nitrogênio e o fósforo, eles continuam como influentes.
Você tira a maior parte da matéria orgânica, que já é um processo que melhora muito, mas o nitrogênio e fósforo, principalmente quando ele cai em reservatórios, ele tem uma chance grande em causar essa eutrofização, que pode se dar tanto pela água ficar mais verde, pelo crescimento de algas, ou pelo crescimento de macrófitas. Isso acontece em alguns reservatórios do sudeste. Macrófitas são, por exemplo, os aguapés, que são flutuantes, que chegam a tomar o espelho d'água.
Quando isso acontece, você prejudica a própria atividade de aquicultura, já que fica muito mais difícil colocar o tanque rede, prejudica a pesca porque você não... ...
dependendo dos reservatórios, especial de menor porte, você não consegue navegar. Então, esse nitrogênio fóssil também é fonte de problema. E ele pode sair do esgoto tratado até tratamento secundário. Para remover o nitrogênio fóssil, a gente precisa do que a gente chama de tratamento terciário. E isso pouquíssimas cidades hoje no Brasil têm.
O outro ponto também que a gente observa muito em Furnas, no lago, é essa coisa da queda do nível muito acentuado no período da seca, está relacionado com a questão às vezes de demanda energética. Isso também complica o problema, Paulo? Complica porque você muda o volume do reservatório.
Então, é como se você tivesse menos água, mas a mesma quantidade de esgoto chegando e a mesma quantidade de peixe sendo criado, por exemplo. Então, você concentra, você diminui a capacidade de iluição e você tende a ter mais problemas quando o nível do reservatório está baixo. Uma coisa muito importante da gente entender é que, principalmente no Lago de Fura, existe uma pressão muito grande da população para não reduzir muito o nível da água, até por atividades turísticas.
Mas não é uma questão muito simples. É claro que isso é negociado com o setor elétrico, mas toda bacia que possui uma série de reservatórios em sequência, a lógica é, o reservatório mais de cima, ele tem essa capacidade de segurar a água na cheia para soltar na seca, e os reservatórios de baixo se beneficiam dessa regulação feita pelo primeiro reservatório.
Então, aqui no Bacia do Rio Grande, o reservatório mais de montante, mais perto da cabeceira é de Camargos, que também flutua muito. Então, Camargos segura a água na cheia para soltar na seca, e os dois reservatórios seguintes, que é o reservatório de Tuting e de Funil, quase não muda o nível da água. O que Camargos solta...
eles geram. E como Camargos tem essa capacidade de armazenar, os outros dois só seguem juntos sem problema nenhum e não precisam de flutuar. Logo depois vem Furnas. E Furnas precisa repetir, porque chegaram novos rios. Então Furnas agora é quem segura esse volume na cheia para soltar na seca e vários outros reservatórios abaixo de Furnas não precisam fazer isso. E aí é muito comum que o morador, por exemplo, na beira de um reservatório que não flutua, fale assim, não, aqui o reservatório não flutua, por que Furnas tem que flutuar? Mas o de baixo não flutua porque Furnas assumiu esse papel.
Furna segurou as águas na cheia para soltar na seca. E isso aumenta a capacidade de geração. Então, para o setor elétrico, é muito difícil conciliar com essa demanda que também é altamente legítima, tanto para a criação de peixe, quanto para o turismo na região, que prefere que o nível do lado seja mais estável. Bom, e voltando aos peixes, que é o seu tema de paixão, quais as espécies nativas em maior risco? Dá para mapear?
No caso de reservatórios, quando a gente pensa, por exemplo, em espécies como a tilápia e o tucunaré, no caso da tilápia, ela compete com peixes relativamente parecidos com ela que a gente tem, como os carás, por exemplo, que são peixes nativos, mas o cará tem menos problema do ponto de vista de conservação, que é uma espécie que é encontrada em todo o local. Já o tucunaré, ele preda inúmeras espécies de menor porte, então ele afeta um número bem maior de espécies, principalmente as que são presas para ele.
Mas, como está no reservatório, o dano é relativamente local. O problema é que essas espécies podem eventualmente invadir rios, elas podem invadir lagoas marginais que estão do lado de rios, que são berçários para as espécies migradoras, que hoje estão entre as mais ameaçadas. Então, o problema é muito difícil da gente identificar, a priori, quais vão ser as espécies mais afetadas. Cada sistema vai funcionar de um jeito, mas o que é fato é, quanto mais espécies não nativas tiverem no reservatório, menos espaço vai sobrar para as espécies nativas.
ou elas vão ser eliminadas, ou no mínimo vão reduzir a sua abundância. Seja por predação, no caso típico, no caso do Tucunaré, seja por competição, no caso da tilapia. Que pode ser competição por espaço, a tilapia constrói ninhos, então outras espécies que constroem ninhos, ela tem mais dificuldade de encontrar locais adequados. Pode ser competição por alimento, a tilapia come de tudo que está no fundo do rio.
Então, outras espécies nativas que já estão em um ambiente menos favorável, que é o reservatório, vão ter menos capacidade de encontrar comida. Então, o fato é que dificilmente uma espécie não nativa vai proliferar em um ambiente sem causar dano às espécies nativas. Basta estudar que algum dano a gente sempre encontra.
Agora estamos indo para a reta final da nossa conversa e vamos falar um pouquinho das políticas públicas. Quer dizer, como é que é a atividade? A gente tem uma atividade que é bem monitorada, o lago é bem monitorado, eu tenho uma fiscalização adequada desses criadouros.
Isso foge um pouquinho da minha área, a área de fiscalização principalmente dos criadores, mas existe um monitoramento no Lago de Furnas, que é feito de tempos em tempos. Recentemente eu tive a oportunidade de participar de um projeto onde a gente monitorou o Lago de Furnas, principalmente na sua questão espacial.
como que essas espécies estão distribuídas ao longo do lago de Furnas. E aí é interessante que quanto mais próximo da barragem, menos espécies nativas a gente tem e maior é a predominância das espécies não nativas. Quanto mais a gente vai para as regiões superiores do lago, mais próximas do rio que chegam no lago de Furnas, maior a quantidade de espécies nativas e menor esse avanço das não nativas, mostrando que as não nativas se beneficiam muito das alterações ambientais.
Então, tirando o caso dos reservatórios, que não tem muito o que fazer, porque o reservatório está lá, o reservatório de furnas, um rio, se eu melhorar a qualidade da água desse rio, provavelmente isso vai ajudar a controlar as espécies não nativas, vai dar uma chance, um respiro para as espécies nativas voltar às suas populações mais próximas à situação original. Com relação à fiscalização de qualidade de água, são órgãos próprios ligados à qualidade de água.
A gente tem o IGAM, aqui em Minas Gerais, que tem um projeto grande que chama Águas de Minas, que monitora os rios mineiros.
Mas eu sei que as concessionárias de energia, em geral, também são obrigadas a monitorar a qualidade de água. Foge um pouquinho da minha área, eu não lido diretamente com qualidade de água, mas esse monitoramento é feito com frequência. Principalmente para orientar coisas do tipo, relacionadas, no caso de furnas, a bauneabilidade, já que tem um turismo muito importante. Então existe esse acompanhamento, principalmente para avaliar se alguma região tem risco. Mas não me parece ser o caso de furnas hoje, ter o risco de bauneabilidade.
Do ponto de vista da pesquisa, vocês têm um planejamento aí, com certeza, de médio e longo prazo? Tem indicadores do ponto de vista de uma preservação, pelo menos, da diversidade das espécies nativas? Como é que está o horizonte aí no campo da pesquisa?
Isso é uma linha de pesquisa importante não só no meu laboratório, mas em vários grupos do Brasil, que são as ações prioritárias para garantir uma maior probabilidade de manter as nossas espécies de peixe em longo prazo. No meu laboratório, diante de tudo que a gente já fez, a gente tem mapeado as principais ameaças, e as espécies não nativas estão entre as principais ameaças, mas como estratégia para a conservação em longo prazo, a gente conseguir manter trechos de rios sem embarramentos, especialmente íntegros.
tratando dos esgotos, mantendo o mato ciliar, essa parece ser, sem dúvida, a melhor estratégia para a gente ter chance de manter os nossos peixes em longo prazo. Então, em Minas Gerais, a gente já tem mapeado alguns rios muito importantes. Existe um rio aqui nas cabeceiras do Rio Grande, que chama Rio Aruoca, que é um rio muito conhecido até do ponto de vista turístico, que é um rio super importante, que mantém muita espécie importante ainda.
Então manter aquele rio íntegro, regionalmente ele é muito importante, mas na Bacia do Paraná tem vários rios nessa situação, e existe uma legislação mineira que seleciona trechos de rios, que a gente chama de rios de preservação, onde vai ser proibida a construção de barragens, vai se dar uma atenção especial para a qualidade de água. Então essa parece ser a principal estratégia e a mais urgente. Já que tem muita hidrelétrica nova sendo planejada, a gente precisa de antemão estabelecer quais locais merecem ser preservados.
Sabendo que não dá para preservar tudo, a gente ainda precisa expandir o parque gerador de energia, apesar de novas alternativas como energia solar e eólica, mas alguns trechos de rios, sem dúvidas, merecem ser preservados já. São eles que vão garantir a manutenção das nossas espécies. Muito bem, hoje nós conversamos com o biólogo Paulo dos Santos Pompeu, professor titular da Universidade Federal de Lá...
que deu essa verdadeira aula muito didática, que nos abriu os horizontes, a importância de deixar alguns rios intocados, um elemento central. Eu quero dar aqui sempre os créditos, então, inicialmente, ao também biólogo e graduando em pedagogia, a Alain Barbosa, na produção, os trabalhos técnicos de Luiz Fontana e Mario Brother, com a coordenação de Gabriel Soares.
E a coordenação do projeto, que é feita por mim, Zé Marcelino, Marcelo Marino Pereira de Souza e Débora Piotto. Ambiente ao meio, 20 anos em defesa de um planeta mais saudável e mais justo. E volto para você, para a sua despedida, Paulo, e muito obrigado. Zé Marcelino, muito obrigado pela oportunidade. É um prazer contribuir sobre um assunto que é fascinante e que atrai muita gente. Muita gente tem memórias afetivas da infância.
vivendo ao longo de rios, pescando com seus pais, e não só do ponto de vista de biodiversidade, a gente tem todo esse aspecto também da nossa relação com o rio que merece ser preservado. Muito obrigado pela oportunidade.
Você acabou de ouvir Ambiente é o Meio. Produção e apresentação José Marcelino e Marcelo Pereira. Música tema Evandro Navarro. Sonoplastia Mário Valdo Avelino. Ouça também este e outros programas em www.ribeirão.usp.br.