#219: Bitucas de cigarro são o lixo mais comum do planeta
Neste episódio do programa Ambiente é o Meio, os entrevistados são os pesquisadores Victor Vasques Ribeiro, engenheiro Ambiental pelo Centro Universitário São Judas Tadeu, e André Salem Szklo, graduado em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os engenheiros alertam sobre as consequências alarmantes do descarte inadequado de bitucas de cigarro; comentam as estratégias da indústria do tabaco e as possíveis soluções para mitigar o problema.
Segundo os pesquisadores, essas bitucas de cigarro, também conhecidas como guimbas, representam o lixo mais comum no planeta. Afirmam que a estimativa é de que 4,5 trilhões de bitucas sejam descartadas em ambientes naturais anualmente em todo o mundo. No Brasil, informam que, embora não haja uma estimativa exata, o número é astronômico, pois existem cerca de 20 milhões de fumantes adultos consumindo em média dez cigarros por dia.
Lembram que uma única bituca na natureza pode levar de um ano e meio a dez anos para se decompor, dependendo das condições ambientais, situação que é dificultada pela indústria do tabaco, que se recusa a divulgar a composição química de seus produtos, tornando a identificação e o tratamento dos poluentes ainda mais desafiadores.
Ouça o episódio completo no player acima.
- Bitucas de cigarro como lixoComposição química das bitucas · Filtro de acetato de celulose · Contaminação química e microplásticos
- Estratégias da indústria do tabacoHistórico de mortes atribuíveis ao tabaco · Estratégias de marketing e recrutamento de novos consumidores · Bitucas filtradas como estratégia de redução de danos · Cigarros ultra light e flavorizados · Vapes como nova tecnologia da indústria
- Estimativa de descarte de bitucasEstimativa global de bitucas descartadas · Estimativa de fumantes e consumo no Brasil · Aumento da produção de cigarros no Brasil
- Fatores que contribuem para o descarte de bitucasInfraestrutura urbana e falta de lixeiras · Dependência da nicotina e manipulação da indústria · Relação entre tabagismo, pobreza e vulnerabilidade socioeconômica
Está no ar. Ambiente é o meio. Uma conversa sobre as questões do nosso dia a dia. Ambiente é o meio.
Boa tarde, ouvintes da Rádio USP. Estamos iniciando mais um programa Ambiente é o Meio. Hoje, com uma alegria dupla, teremos dois pesquisadores que conversarão conosco a respeito de bitucas e cigarro, como um lixo mais comum do planeta. Vamos ver as consequências disso, enfim, todos os problemas e, eventualmente, soluções decorrentes.
Como um dos nossos entrevistados é do Rio, também preciso dizer que o Rio chama de guimba, não é isso, André? E, portanto, seja bituca, seja guimba, é aquela bituquinha de cigarro que a gente joga onde não devia. Pois bem, vou falar, portanto, com os pesquisadores André Salenço.
Clô e Vitor Vasques Ribeiro, a quem eu agradeço antecipadamente a disponibilidade de conversar conosco e eu solicitaria a ambos um muito sucinto sobre a sua trajetória profissional. André e Vitor, vocês ficam à vontade, por ordem alfabética, né Vitor? A gente começa com o André, então.
Boa tarde, um prazer enorme estar conversando hoje com vocês. Eu tenho uma formação bem eclética, tenho a graduação em engenharia química, ministro de engenharia de produção, mas depois eu fiz doutorado em saúde pública, com uma experiência de muitos anos de trabalho na Itália, também na Holanda, já trabalho há mais de 20 anos com o tema do controle do tabagismo.
Bom, eu sou engenheiro ambiental, tenho especialização em direito ambiental e fui para oceonografia, né? Fiz mestrado em biodiversidade e ecologia e agora estou no doutorado em bioprocessos e bioprodutos na Unifesp, aqui em Santos. Todo o pessoal praiando, muito bom. Bom, nosso assunto vai ser aquele toquinho de cigarro, né? Que a gente comumente chama de bituca.
Para a gente começar, todo mundo sabe a origem, o pessoal fuma e joga, no fundo, em qualquer lugar. Mas, afinal de contas, quais os problemas decorrentes dessas bitucas de cigarro, desses toquinhos, guimbas, enfim? E como é que ela se tornou um objeto de pesquisa para vocês?
Bom, já que você começou falando dos problemas, tem muita coisa que acontece antes da bituca chegar no meio ambiente, né? Mas depois que ela chega, vou começar falando dos problemas ambientais, né? O tabaco, ele é um produto natural, né? É uma folha. Só que ele tem alguns componentes químicos já na composição dele, como a nicotina, que são prejudiciais quando estão no ambiente, né?
E ainda além disso, a gente coloca alguns componentes químicos na composição dele para o tabaco durar mais, né? Alguns aditivos, alguns conservantes. Então, quando a bituca está no meio ambiente, todos esses componentes químicos, que alguns deles são tóxicos, são lixiviados, que a gente chama, né? Então, esses componentes químicos vazam da bituca para o ambiente. E tem o próprio filtro, né? Que muita gente pensa que a bituca é biodegradável, né?
Mas, na verdade, o filtro é feito de plástico também, né? É feito do polímero da celulose, que também é natural, mas a gente passa a celulose por um procedimento industrial também, que aí vira acetato de celulose, então é um plástico. Então, além dos componentes químicos, que alguns são tóxicos, tem o próprio plástico, que pode virar muitos microplásticos a partir dali no meio ambiente. Então, a contaminação química das bitucas, quando chega na praia, no rio, no mangue...
é muito, muito alta mesmo. Então, isso é um problema que foi isso que atraiu a minha atenção para essa problemática. Quanto de bituca tem no mundo, ou se vocês têm essa estimativa do Brasil? É uma quantidade, deve ser absurda, né? É realmente muito grande. Tem uma estimativa global que, por ano, 4 trilhões e meio de bituca são descartadas aos ambientes naturais, por ano, no mundo inteiro. No Brasil ainda não tem essa estimativa exata, mas também deve ser bastante astronômica. Sim.
Só para ter uma ideia, a última estimativa nacional que a gente tem, o número de fumantes adultos no Brasil é cerca de 20 milhões de fumantes. E o consumo médio de cigarro convencional, que é aquele onde se vai encontrar a bituca, na ordem de mais ou menos 10 cigarros por dia.
Se as pessoas podem fazer essa multiplicação, 20 milhões, vezes 10, vezes 365, a gente pode ter uma ideia do consumo de bituca. E a produção de cigarros convencionais no Brasil, desde 2017, a cada ano que passa, aumenta essa produção.
em função principalmente do enfraquecimento de uma medida muito importante, que é a medida de preços e impostos que a gente vem enfrentando no Brasil. Então, se você tem esse aumento da produção para consumo doméstico, significa que a gente está cada vez com mais bitucas circulando no país. Bom, o Vitor comentou conosco, André, a respeito do panorâmico dos problemas ambientais diretos.
mas ele nos deixou com um sabor, dizendo que tem coisas antes dessa bituca, na própria fabricação e etc. Vamos explorar um pouquinho isso, então. O nosso ouvinte é muito atento, certamente ele disse, o que será que esse Vitor não disse antes? Então, por favor, comentem esse antes.
Esse antes é muito importante, porque a gente está falando de uma indústria, que a gente chama hoje em dia da indústria da nicotina, que é originalmente a indústria dos produtos derivados do tabaco. E essa indústria, na verdade, ela é muito vitoriosa. Se você pensar que no século XX nós tivemos 100 milhões de mortes atribuíveis ao consumo dos derivados do tabaco.
Só no primeiro quarto do século XX, já temos 160 milhões de mortes que vão ser atribuíveis a esse comportamento de risco. Então tem que ter uma estratégia de marketing poderosa para você continuar por gerações e por gerações recrutando novos consumidores para substituir, infelizmente, aqueles que virão adoecer e falecer.
No Brasil, cada três fumantes virão a falecer em decorrência desse comportamento de risco. E eles são vítimas, eles não são os culpados. Então, eu estou falando isso tudo, porque quando a gente fala de desenvolvimento sustentável, a gente tem que falar necessariamente por enfrentar a indústria do tabaco, a indústria da nicotina. Para você atingir cada um daqueles objetivos de desenvolvimento sustentável, a proteção do meio ambiente para as gerações atuais, gerações futuras.
a gente tem que passar necessariamente pela redução da proporção de fumantes. E é interessante porque quando a gente pensa na origem da bituca, ela está inserida exatamente nisso que eu estou falando. Ela foi uma estratégia desenvolvida na década de 50, 60, com a lógica da redução de danos. Essas bitucas filtrariam os compostos que agridem a saúde e com isso os fumantes estariam mais motivados, ficariam mais tranquilos para fumar.
E o que se revelou é que isso era um argumento falacioso. Na verdade, ela não filtra de fato, ela potencializou problemas de saúde, como por exemplo, determinados tipos de câncer de pulmão, principalmente nas mulheres. O fumante acaba compensando, ele muda o comportamento.
dele, ele for mais intensamente, for mais quantidade para também enfrentar eventualmente uma ou outra barreira que essa guima possa oferecer. E depois disso, já na década de 60, a indústria do tabaco veio com aquela ideia dos cigarros ultra light, que também era na mesma lógica da redução dos danos.
Então, ela acompanha a mesma lógica da bituca. E também se revelou um engordo, uma estratégia falaciosa, porque também não tem nada de light, etc. Inclusive, hoje em dia, no Brasil, esses descritores, como a gente fala, são proibidos pela legislação. E a gente pode chegar até os dias de hoje. A indústria vai se reinventando.
Não é o tema de hoje, das bitucas, o que a gente pensa hoje em dia dos tais vapes, é a mesma lógica. É um outro produto, uma outra tecnologia, assim como foi a bituca, para reduzir danos e estimular, então, os jovens e adolescentes a começarem esse comportamento rítmico.
É importante mesmo essa descrição inicial, André, porque nós estamos falando de um descarte, mas tem todo um consumo absolutamente nefasto que vai chegar a esse descarte. Eu agradeço muito a participação. Diga e Vitor.
É, só para complementar o que o André falou, ele falou das estratégias que a indústria da nicotina usa hoje em dia ainda, e é bem espalhada ainda, é aqueles cigarros flavorizados, com sabor. Então a gente vê hoje uns cigarros por aí de cravo, tem até uns que você aperta a bolinha e muda o sabor, tem uma bolinha dentro do filtro de plástico com sabor, então todas essas são estratégias que ainda hoje em dia no Brasil também estão por aí. E elas são designadas para cadastrar novos fumantes. Então...
esses favorizados, quando a gente vê a grande maioria das pessoas que começam com pouca idade a fumar, muitos vão por sabor, porque não gostam muito do gosto no começo. Então tem toda essa estratégia que a indústria usa para ganhar novos clientes para a vida inteira. Então quando a gente culpa só os fumantes por jogar a bituca, a gente tem que saber que tem toda uma coisa por trás para isso já funcionar, para ter lucro. Então a gente tem que pensar nesse sentido também.
Então, eu resumiria essa primeira parte como, sim, as bitucas causam problemas ambientais, mas antes das bitucas, o cigarro causa um enorme problema de saúde, saúde pública, saúde individual e um problema social.
uma quantidade enorme de pessoas enfermas em função desse vício que é cigarro. Eu não estudo cigarro, nada disso, André e Vitor, mas eu pergunto a respeito disso para alguns fumantes, etc. É muito difícil parar de fumar, então isso deve ser altamente vicente. É mais um problema adicional.
Eu acho que a gente tem que pensar também do porquê que as pessoas jogam fora, né? Tem muito a ver com a estrutura das cidades também, porque quando a gente pensa quando um fumante acaba de fumar, a bituca não é um produto que fica muito cheiroso, né? Na verdade é bem fedido, então a pessoa quer se livrar logo depois que fuma da bituca, né? Então se a gente pensa numa cidade que não tem muita lixeira...
A pessoa não vai colocar no bolso, a grande maioria das pessoas não vai colocar no bolso, não vai levar até achar uma lixeira e acaba descartando. Então a própria estrutura, a infraestrutura de uma cidade pode contribuir para esse problema. Então não é só o fumante que é o culpado. É bom, ele é o culpado primário, eu diria assim. Diga, André.
Primeiro, reforçar que o controle do tabaco, quando a gente trata esse tema, realmente a nicotina causa uma dependência muito forte. Eu já escutei dizer que a dependência, por exemplo, é superior à dependência da cocaína. Então, reforçando que este fumante, esse consumidor, ele é uma vítima. Atribuir a essa pessoa.
culpa, na verdade, ele foi manipulado, a estratégia de marketing desse trabalho, brilhante, fez com que ele começasse, iniciasse nesse comportamento, e uma vez estabelecida a independência, é realmente um desafio ele caminhar para a cessação. E a indústria, então, ela vai de novo recrutar outros, e esse ciclo vai se perpetuando.
Então, isso é algo que é importante. Outra coisa que eu queria reforçar um pouco, na linha do que o Vitor estava falando, é que o tabagismo é alimentado, por exemplo, da pobreza, e ele, por sua vez, vai alimentar a pobreza. Então, a gente percebe, ou outros estudos que a gente conduziu aqui conjuntamente, que essa contaminação por bituca fica mais acentuada em áreas de maior deprivação socioeconômica.
Então, esses indivíduos que já estão numa situação que vão adoecer, vão ter mais dificuldade para procurar o tratamento, para acessarem os serviços de saúde, eles não vão ter um impacto ambiental que também vai ser algo a mais que vai se voltar contra eles. Então, como eu falei, quando você pensa em desenvolvimento sustentável, pensando em todas as suas dimensões, como eliminação da pobreza, erradicação da fome e assim por diante, a gente também passa pela questão do controle do tanto da gente.
Eu fico imaginando como agora tudo é bete, né? Bete e um problema de saúde pública, a bete. Nós temos agora a bete da nicotina, né? Que é um vício a partir da nicotina e que estraga toda uma camada. Como sempre, aquele que é mais pobre, enfim, socialmente mais vulnerável, acaba pagando mais o pato. Vamos seguir um pouco. Vocês criaram um índice de contaminação por bituca?
ou por guimba de cigarro, enfim, aquele resíduo que a gente, que a gente não, os fumantes jogam, o Vitor já mencionou, que é em qualquer local, etc. Como é que funciona isso? E para que serve esse índice de contaminação por bituca de cigarro?
Bom, quando a gente pensa na limpeza dos ambientes, a gente tem umas iniciativas de educação ambiental que a gente sempre vê por aí repercutindo, por exemplo, a limpeza de praia, que é bastante comum. As pessoas vão lá, se voluntariam para ir limpar a praia, e aí depois elas reportam quanto elas acharam. Então, tiramos tantos quilos de lixo da praia, tantos por cento desse peso era bituca.
Mas o monitoramento ambiental, na ciência mesmo, não é assim que a gente faz, a gente não leva em consideração muito o peso. Então, como que a gente precisa monitorar o ambiente? A gente vai lá e vê quantas bitucas tinha por metro quadrado numa praia, na beira de um rio. Então, essa é a medida, bitucas por metro quadrado. E aí, quando a gente estava fazendo a nossa pesquisa, a gente olhou para o mundo inteiro. Então, a gente fez uma revisão da literatura, olhando para os valores de bituca por metro quadrado do mundo inteiro.
E a gente percebeu que nem a gente, que tinha todos os dados do mundo na mão, sabia muito bem classificar como que era isso, né? O quanto que é alto, o quanto que é baixo. A partir de quantas bitucas por metro quadrado é alto, é baixo. Então a gente, a partir daí, a gente criou um índice para dar nome às bois, né? Como a gente fala aqui. Então a gente falou, a partir desse valor é muito alto e tem, nesses lugares do mundo, tem esses hotspots que a gente chama, né? Que é os lugares mais contaminados do mundo.
a partir do nosso índice. Então, a gente criou um índice para olhar para trás para todas as pesquisas que já tiveram no mundo e classificar elas, e não só isso. Para deixar um índice daqui para frente também, para os estudos futuros puderem classificar o quanto eles vão achar. Então, acho que esse índice é um dos principais ganhos da nossa pesquisa, porque a gente consegue classificar quanto que tem em cada lugar.
Ô, Vitor, comente conosco, André, a respeito desse índice, como é que o Brasil se encontra nesse índice criado, as regiões do Brasil, certamente são índices que mostram números heterogêneos, suponho eu, e o mundo, como é que ele está diante desse índice, comente um pouco conosco.
Então, a gente, na nossa pesquisa, eu acho bom destacar que a gente não fez filtro nenhum quanto ao ambiente que era monitorado. Então, a gente monitorou desde praia, desde estudo de praia, estudo de rio, de mangue, estudo urbano, nas calçadas, nas rodovias. A gente não fez nenhuma distinção, a gente pegou tudo realmente que tinha na literatura.
Só que a gente percebeu que os estudos que tem em ambientes aquáticos, principalmente nas praias, eles dominam. Então tem muito, muito mais estudo na praia do que qualquer outro ambiente. E aí quando a gente olha para o Brasil, a costa do Brasil é gigante, quase 9 mil quilômetros.
Então, realmente, como você falou, é bastante distribuído isso, esses valores e o quanto é classificado aqui, mas a gente tem o Brasil entre os 17 países mais contaminados do mundo em alguns locais, sim. Por exemplo, algumas praias do Recife, alguns ambientes urbanos aqui do Guarujá, aqui em São Paulo, no próprio Niterói, no Rio de Janeiro. Então, em alguns locais do Brasil, a gente tem uma contaminação realmente bem alta comparado com o mundo.
Pois não, André. Esse índice tem um poder de, a gente chama de advocacy, de você poder pegar essa informação e sensibilizar, principalmente, tanto a sociedade de uma maneira geral, mas também os formuladores de legislativos, assim por diante, porque a gente coloca claramente, com números, mostrando que o Brasil, muitos países onde você tem praias, principalmente com esse índice de contaminação,
extremamente elevado, é você traz essa informação e reforça
lei, reduzir a proporção de fumantes, em última análise, reduzir a interferência da indústria do tabaco na política nacional de controle do tabaco. E não por acaso, essas informações todas, elas auxiliam o país a ser um dos protagonistas na implementação de um dos artigos da política nacional de controle do tabaco, que é baseada em uma...
a Convenção 4 do Controle do Tabagismo, que é o artigo 18, seria a proteção ao meio ambiente e a saúde das pessoas. Então, incluir, por exemplo, a redução da proporção de fumantes contra o tabagismo em todos esses tratados de negociação da redução de poluição por plástico, na Estratégia Nacional de Oceano Sem Plástico e assim por diante.
Então, é um número, esse índice é fundamental para a gente poder avançar nas medidas voltadas para a redução da iniciação e estimula a sensação. O índice é bem intuitivo, a gente dá uma corzinha, do verde é o menos contaminado, até o vermelho que é o mais contaminado. Então, a gente consegue olhar o mapa mundo e ver pela cor, é muito visual, muito intuitivo. Então, a gente conseguiu classificar o mundo inteiro e isso é muito importante para as políticas públicas.
Ô, Vitor, o que seria a quantidade por metro quadrado, vocês já disseram, o que seria pouco contaminado e o que seria muito contaminado? Quantas bituquinhas são encontradas, Arisson?
Então, baseado no que a gente fez olhando para o mundo inteiro, a gente viu que os mais contaminados é quando tem um número quebrado, então essa parte não é tão intuitiva assim. Mas quando tem mais de 0,84 bitucas a cada metro quadrado, é classificado como muito alto, extremamente alto, então é a classificação maior do índice. E pode parecer pouco, mas um metro quadrado também é pequeno.
É quase uma bituca por metro quadrado. Você dá poucos passos, você com certeza vai ver uma bituca ali em qualquer ambiente que você ande. Então, é muito espalhado no mundo esse valor, né? Sim, ótimo. Bom, vamos comentar um pouco, eu fico imaginando. Bom, a população mundial, brasileira em específico, é cada vez mais urbana. Chegamos a um índice de 85%. E aí
Essa bituca, posto que essa vítima da indústria do tabaco não tem local adequado para expor essa bituca, ela vai acabar numa sarjeta de rua, chove, vai para o bueiro, o bueiro vai para as galerias, as galerias vão para o rio, o rio vai para o mar.
Tanto existe um ambiente diretamente pressionado, que é o ambiente aquático. Vamos comentar um pouquinho sobre os malefícios dessa química toda que é depositada ali, despejada ali também, vocês já mencionaram.
a respeito da introdução nesses ambientes de uma quantidade adicional de plástico e tal. Conta um pouco para o nosso ouvinte a respeito dessa não biodegradabilidade e quanto tempo, portanto, ela resiste no ambiente.
Então, a gente precisa falar das praias, né, que você comentou. Realmente, como eu falei, tem mais estudos em praias, monitorando praias, e a gente encontrou uma maior contaminação na praia. Mas isso não quer dizer que é só, como você falou exatamente, não é só o descarte direto na praia, por banhistas, assim, né. Tem toda uma cadeia de processamento que, desde a bituca, desde terrestre lá, vai acabar chegando na praia, né. Então, a praia, a gente conhece ela como um sumidouro, é onde vai acumular o final, né.
E aí, por que isso é prejudicial? A gente tem muitas espécies importantes costeiras, e tem estudos experimentais de laboratório que simulam esse ambiente costeiro e eles veem quanto é prejudicial para as espécies marinhas.
Então a gente faz esse ambiente no laboratório e introduz um pouquinho de bituca, mais bituca na outra e compara. E os efeitos são enormes para muitas e muitas espécies que já foram testadas. A gente coloca um pouquinho da bituca lá na água dessas espécies.
Elas já sofrem muitos efeitos reprodutivos do sistema nervoso, algumas até letais para muitas espécies. Então, muitas e muitas espécies estão sofrendo com isso. E aí, o principal problema também é que isso pode voltar para a gente. Por exemplo, aqui em São Paulo, a gente tem bastante fazendas de agricultura, por exemplo.
que a gente come esses bichos, que a gente consome esses bichos que estão ali. Então, a gente pode estar voltando para o nosso prato, essa contaminação, né? Então, isso é muito importante também para a gente monitorar, né? E tentar evitar, né? Eu acho interessante, Marcelo, que a gente podia pensar numa analogia, tipo assim, você está numa piscina, num ponto na piscina, e você no outro ponto, lá longe, você coloca veneno. De alguma forma, você vai ser atingido, né? Você não vai conseguir escapar.
Então, é a mesma coisa, por exemplo, quando a gente pensa nesses ambientes coletivos fechados, que foram criados para você não ter a exposição passiva à fumaça do trabalho. Antigamente, quando você tinha aqui no Brasil, por exemplo, os chamados fumódromos, você não conseguia, de fato, proteger todas as pessoas, porque você não conseguia, de fato, evitar essa separação.
Então, mesmo quando o Vitor está falando, você descarta num ponto e vai chegar no outro. Mesmo áreas protegidas acabam recebendo proteção ambiental, acabam de alguma forma tendo um tipo de contaminação por rimas também, por petugas. Então, voltando àquele ponto de que a solução é realmente você não ter esse chamado filtro que a indústria do trabalho criou e que não filtra nada.
Você falou também de quanto tempo demora, isso é muito difícil de a gente estimar, quanto tempo demora para decompor. Tem algumas estimativas que falam que leva de um ano e meio até dez anos para decompor uma única bituca. Mas isso varia muito, porque, por exemplo, na praia a gente sabe que a água é mais salina, então tem mais sal.
As condições ambientais de hidrodinâmica, né? A corrente é mais forte do que um rio, por exemplo. Então, a gente precisa, no laboratório, simular um monte de ambientes diferentes para ver quanto tempo a bituca demora para se decompor nesse ambiente, nesse ambiente, e depois comparar, né? Então, a gente sabe que pode levar muitos anos. E sobre essa biodegradabilidade que você falou, e essa contaminação também, a própria indústria não ajuda muito nesse sentido. Então...
A gente descobrir o que tem dentro do tabaco, de componente químico, assim, levou muito tempo, porque a indústria se recusa a falar muitas vezes sobre os componentes que tem lá. Então, a gente tem que testar sem saber o que é. Isso é muito difícil para a gente. Para a gente pegar uma bituca e fazer uma logística reversa do que tem ali. Era mais fácil a gente ter um indicativo do que tem ali dentro para poder procurar no ambiente.
A gente procurar no ambiente cegamente um componente que a gente nem sabe se tem lá dentro, é muito difícil, é muito complicado.
É uma maluquice, né? Como é que alguém consome um produto que o fabricante não diz o que tem lá dentro? É muito maluco isso tudo. Bom, indo já para o finalzinho, eu fico imaginando, vou provocar um pouco o André e o Vitor, como é que eu posso minimizar esse problema? O ideal seria acabar com esse problema, mas talvez seja um percurso, né? Então, redução do tabagismo, claro, reduz o tabagismo, reduz... E aí E aí E aí E aí
Eliminar a bituca. Não tem mais bituca. Outro que é extremamente importante, não apenas para a bituca, tratamento das águas pluviais, essa água de chuva, etc., elas despejam no corpo d'água, nos córregos, nos rios, uma quantidade de bobagem, de poluentes, enorme. Os rios ficam repletos de coisas que não deveriam. Portanto, é uma água a ser tratada, é um efluente a ser tratado.
O que mais? E se vocês querem, por favor, deveriam, o André já mencionou da eliminação do filtro, comente conosco um pouco sobre perspectivas, possibilidades desse processo minimizar ao menos. A eliminação da bituca?
No caso, lembrando o que eu falei, que foi uma estratégia de marketing do Instituto de Tabaco, ela, nesse sentido, é contra, porque seria expor justamente a estratégia dela, a estratégia que tem por trás de marketing dela para recrutar os jovens, adolescentes. No Brasil, 160 bilhões de reais em recursos diretos e indiretos são atribuíbles.
ao comportamento de fundo, a essa indústria. E a arrecadação, por exemplo, de impostos federais, não chega a cobrir nem 5% disso. Então, falar de arrecadação desses dispersos custos para a sociedade é quase ridículo. A gente está sempre no prejuízo.
Agora, nesses custos não está, por exemplo, o custo ambiental, não estão os custos ambientais. Então, pensando, e eu não gosto de falar de mitigação, porque na verdade a gente gostaria de eliminar, mas a responsabilização dessa indústria com a agressão que ela representa para o meio ambiente é muito importante. E esse nosso estudo, ele é um passo para que a gente possa ter elementos para avançar nessa...
do custo dessa responsabilização, porque a gente tem a dimensão da contaminação no ambiente, a gente pode avançar para essas ações que são fundamentais, porque é um dinheiro que um país como o Brasil...
dificuldades, recursos, necessidade de uma população tão grande, a gente precisa desse ressarcimento, com certeza. Já temos iniciativas, tem uma ação do Brasil, movida pela Advocacia Geral da União contra as multinacionais, principalmente para a responsabilização dos danos na saúde, mas a gente pode avançar também para essa questão ambiental.
Numa perspectiva mais ambiental, eu acho que realmente a gente tem que tratar as águas pluviais, mas numa cidade que nem Santos, por exemplo, a gente tem os canais de drenagem da água pluvial, que é encaminhado para o tratamento antes de ir para o mar, mas nem sempre vai para lá. Por exemplo, aqui quando chove muito, é uma cidade muito plana, então essas galerias são fechadas e a água da chuva vai direto para o mar. Então nem sempre, nem passa perto da estação de tratamento de esgoto.
de água pluvial. E, por exemplo, também quando a gente pensa na bituca, não é só nenhum problema de tratar, tirar a bituca da água quando chega na estação de tratamento, porque, como eu falei, tem todos esses componentes químicos. E se já vazou esses componentes químicos antes de chegar ali? Você vai tirar a bituca ali e não vai adiantar nada. A gente não faz um tratamento das moléculas químicas que já vazaram ali. Então pode estar cheio de nicotina, cheio de metal.
cheio de conservante, aditivo, que já vazou ali e você vai tirar a bituca achando que fez alguma diferença. Na verdade, não. A gente tem que pensar no filtro também. O filtro, como é de plástico, antes de chegar na estação de tratamento, ele é composto de várias fibras de plástico. Então, um filtro de bituca pode gerar no meio ambiente entre 12 e 15 mil fibras de microplástico. Só um filtro.
Sendo que tem 4,5 trilhões de bitucas por ano no ambiente. Então, a gente faz essa conta, é astronômico o número de microplásticos que as bitucas contribuem também. Porque se a gente retirar ali, na estação de tratamento, já pode ter vazado um monte de microplásticos antes dele chegar ali. Então, é uma questão muito mais delicada do que só tratar essa água que já pode estar contaminada.
É um problemão que vocês trouxeram hoje para o programa. Um problemão. As bitucas, as guimbas, enfim, aquele resíduo do cigarro, segundo o André, das vítimas da indústria do tabaco, que são apreendidos por esse vício de fumar. Muito bom. Infelizmente, o nosso tempo se esgotou, então quero agradecer imensamente a participação do Vitor Vasques Ribeiro, do André Salen Sklo, do Vitor Vasques Ribeiro.
discursaram, conversaram conosco, fizeram esclarecimentos essenciais sobre a disposição final, altamente prejudicial à saúde dos seres vivos e também do ambiente de uma maneira geral, dessas pitucas do cigarro.
no mundo todo, em particular no Brasil. Muito obrigado por vocês terem participado conosco, quero agradecer imensamente também os trabalhos técnicos de toda a equipe da Rádio USP, do Gabriel Soares e toda a turma, o nosso queridíssimo estagiário, o Alan Barbosa, muito obrigado.
E esse programa é coordenado pelos professores a Débora Pioto, o Zé Marcelinho e eu, Marcelo Pereira. Vitor e André, superobrigado pela participação de vocês, por esse esclarecimento tão necessário e instigante que vocês trouxeram. Obrigado. Eu que agradeço. Uma boa tarde aos ouvintes.
Você acabou de ouvir Ambiente é o Meio. Produção e apresentação José Marcelino e Marcelo Pereira. Música tema Evandro Navarro. Sonoplastia Mário Valdo Avelino. Ouça também este e outros programas em www.ribeirão.usp.br.