Episódios de A Ronda da Noite

Saber ou não não saber onde estamos e para onde vamos, eis a questão.

04 de maio de 20261h
0:00 / 1:00:17
Correntes d'Escritas 2026: Itamar Vieira Júnior, Miqui Otero e Onésimo Teotónio Almeida nas intervenções da mesa final, na Póvoa de Varzim, a partir do mote 'Saber onde estamos e para onde vamos continua a ser essencial.'

See omnystudio.com/listener for privacy information.

Assuntos8
  • Onde estamos hojeO mito de Sísifo e a condição humana · A evolução da sociedade ocidental e o desmoronamento de crenças · Thomas Hobbes e a lei da selva · Filhos da Luz e Filhos da Escuridão · Donald Trump e a política contemporânea · A importância da memória e da imaginação · A crise da narrativa e a tecnologia · A natureza e a comunidade · Perspectivismo ameríndio e direitos da natureza
  • A intervenção de Itamar Vieira JúniorVencer o medo e a incerteza · A epopeia humana e a busca pela verdade · Crise da narrativa e a tecnologia · A comunidade global e a desconexão com a natureza · A selva como mundo da vida · Perspectivismo ameríndio e direitos da natureza · O Rio Lage como sujeito de direito
  • Análise de figura política: Trump e suas açõesDonald Trump como protótipo psicológico de Zequinha · A falta de moralidade e o egoísmo na política · Processo contra o IRS e a fuga ao fisco · A diferença entre Trump e a Groenlândia · A violação das regras gramaticais e da linguagem
  • A intervenção de Onésimo Teutónio AlmeidaO mito de Sísifo · Crítica a Donald Trump · A democracia ocidental em desmoronamento · A importância da esperança
  • A obra de Álvaro Labrinho LúcioA vida na selva · Homenagem a Álvaro Labrinho Lúcio · Literatura açoriana
  • A intervenção de Miki OteroOliver Cromwell e a valentia · A história de um antepassado na máfia · Memória e imaginação · A crise da inteligência artificial · Desorientação espacial e agnosia topográfica
  • Criatividade e Pensamento ImaginárioMemória e imaginação como ferramentas para entender o presente e projetar o futuro · A delegação da memória e imaginação para Google e ChatGPT · A conexão entre memória episódica e imaginação · A história como mãe da verdade
  • Vida na selva
Transcrição159 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

A Ronda da Noite Com Luís Caetano

Boa noite. A Ronda regressa hoje à 27ª edição das Correntes de Escritas. O principal encontro à volta dos livros no nosso país para levar mais longe três das intervenções da Mesa 10, a Mesa de Encerramento na Póvoa de Varzim, que tinha por proposta temática uma frase do livro A Vida na Selva, de Álvaro Lobrinho Lúcio, como todas as mesas deste ano.

A frase extraída desse livro era Saber onde estamos e por onde vamos continua a ser essencial.

A começar a intervenção de Onésimo Teutónio Almeida, que evocou o mito de Sísifo, que trouxe humor, erudição e homenagem a Álvaro Labrinho Lúcio e, claro, a óbvia ridicularização e o claro lamento de tudo o que significa Donald Trump e aqueles que o apoiam. E terminou, como sempre nas correntes, com a leitura de um poeta açoriano, no caso Santos Barros.

Onésimo Teutónio Almeida tem como livro mais recente José Enes, filósofo, pedagogo e mestre. Uma homenagem. A edição Letras Lavadas. Depois, convido-o também a ficar com a intervenção do espanhol de Barcelona, Mickey Otero, e do brasileiro de Salvador da Bahia, Itamar Vieira Júnior. Mas para já, Onésimo Teutónio Almeida. Os encontros à volta dos livros vão mais longe através da rádio, neste programa.

Vai ser assim a ronda. Albert Camus trouxe para a conversação do seu século o suplício de Sísifo, o castigo que Zeus lhe impôs de empurrar um enorme pedregulho por uma montanha acima.

Quase a lá chegar, o pedregulho escapava-se-lhe e rolava a montanha abaixo. Sísifo teria que, eternamente, o recuperar e voltar a rolá-lo montanha assim. Pois cá estou eu, condenado como Sísifo, na minha insana tarefa de mais uma vez encerrar as correntes.

Ao menos tem uma vantagem sobre ele. No seu caso, o suplício era interminável. O meu está a acabar. Este ano vou completar 80 anos. Vocês façam as contas. Não estou a fazer humor. No ano passado, tínhamos aqui connosco o excelente escritor, grande ator e companheiro destas lides, Álvaro Labrinho Lúcio, e ele foi-se do nosso convívio. A si mesmo, sem se despedir.

Vai daqui o meu abraço a ele, pedindo-lhe que me inspire a glosar decentemente, como ele merece, o tema desta mesa, retirado de um dos seus belos livros, Saber onde estamos e para onde vamos, continua a ser essencial. O que posso eu sobre tal tema dizer de interesse? Houve uma altura na minha vida em que sabia...

com um saber sem qualquer experiência feito, onde estava e para onde ia. Era jovem, naquela idade da omnisciência. Hoje direi como aquele velhote, desculpem, mas não sou jovem bastante para saber tudo.

Já Bocage parece não ter hesitado quando numa noite em Lisboa, ao sair do café Nicola, foi confrontado por um indivíduo de pistola em punho que lhe perguntou Quem és? De onde vens? E para onde vais? O nosso poeta teve a presença de espírito para responder em verso Sou Bocage, venho do Nicola e vou para o outro mundo se disparas a pistola.

Claro que o último verso tem duas sílabas a mais, todavia aposto que nenhum dos presentes, com uma pistola apontada, conseguiria sequer rimar. Mas creio que no meu tempo de jovem não era eu só a saber quem era e para onde ia. Marx ensinou à minha geração que o céu ia acontecer na Terra.

Talhar de Chardin, criticado embora pela Igreja naquele tempo, era outra luz nesses anos. A evolução, entrevista por Darwin, na verdade Darwin nunca indicou nenhum caminho para a evolução, apenas afirmou que evoluiríamos, sem apontar para onde, precisava de transcendência e foi Talhar que anuladeu. Respondendo às perguntas atribuídas aos irmãs Karamazov por Dostoyevsky. Onde estou? De onde venho? Para onde vou?

Lembro-me a propósito daquele padre chegado de muito longe a uma aldeia para onde fora convidado a fazer o sermão da festa do Urago. Montado na sua bicicleta, parou e perguntou a um transeunte onde era a igreja.

O bom homem indicou-lhe o caminho. Grato, o padre aproveitou para lhe dizer. Amanhã vou pregar um sermão sobre o caminho para o céu. Não se esqueça de aparecer. Quando Gedei, o local respondeu. O seu padre nem se quer saber o caminho para a igreja e quer ensinar-me o caminho para o céu.

Voltando ao mote de Laborinho Lúcio. É estranho que um homem tão culto e vernáculo escritor tenha toda a vida solterado mal o seu sobrenome. Aposto que o fez por modéstia. Não vejo outra explicação para aquela óbvia falta de um D. Laborinho em Laborinho Lúcido. Mas deixemos esse pormenor para os seus biógrafos e lancemos-nos na glosa do tema a fim de cumprir os preceitos e instruções da organização das correntes. Saber onde estamos eu ainda consigo.

É a parte mais fácil. Estamos no desmoronamento de crenças básicas que sustentam o edifício da democracia ocidental. Construída peça a peça ao longo de um quarto de milênio. A pouco e pouco, lá se nos escapa rocha abaixo.

mais uma pedra das paredes ou mais um grande pedregulho que vai exigir muitos sícifos unidos para conseguirem empurrá-lo até ao devido lugar. Se os blocos continuarem a desabar e o edifício do Estado de Direito, tão arduamente construído por completo desmoronar, regressaremos à lei da selva.

eu sei que o Itamar desconstruiu essa ideia com uma nova visão, regressaremos à lei da selva, tão argutamente identificada por Thomas Hobbes.

Mas não se preocupem, não vou prelecionar sobre um autor do século XVII que nos seus dias irritou muita gente ao chamar a atenção para a vida solitária, pobre, dura, brutal e curta que era a sua e a dos seus contemporâneos nos difíceis tempos das guerras religiosas em Inglaterra. Lembrando aos seus compatriotas que, deixado à solta, o homem era um animal na selva e o homem era um animal na selva.

e eu estou aqui a citar a selva por causa do livro que é, dá o tema para esta, era um animal na selva tentando sobreviver entre o medo de morrer e a vontade de matar. Daí a importância de se criar um contrato social imposto por um Estado forte, o Leviatão, democraticamente sustentado, que assegurasse a sobrevivência de todos.

Temos experimentado como, apesar de todas as deficiências constantemente apontadas, o Estado moderno nos tem permitido uma qualidade de vida antes nunca experimentada sob nenhum outro regime. Thomas Hobbes continua a ser chave para entendermos onde estamos. Dois anos antes de eu nascer...

Reynald Niebuhr, pensador lúcido, se calhar primo, pelo menos da equipa do nosso homenageado, escreveu um livro intitulado Filhos da Luz, Filhos da Escuridão. Em inglês, sou o melhor. Children of Light, Children of Darkness. Estes últimos, à Thomas Hobbes, são cínicos que acreditam que tudo se resume a lutas de poder.

Enquanto os outros, reconhecendo embora essa marca humana sagazmente identificada por Darwin, preferem congregar-se em torno de um punhado de ideias adaptáveis à construção de uma sociedade, baseada em regras que permitam a todos não apenas sobreviver, mas viver a sua liberdade sem aniquilar os outros.

Estou a dar uma nota demasiado tétrica a este encerramento de um encontro que anualmente nos anima, aquecendo em nós a convicção de que a convivência humana pode ser melhor. E ainda nem falei em Donald Trump.

Dê-me ao menos esse crédito. Mas não garanto conter-me por muito mais tempo. Thomas Hobbes sabia que os seres humanos são animais selvagens. No entanto, não sonhou nunca que quase meio milênio depois da sua era, um país líder dos ideais dos Filhos da Luz pudesse ter como seu presidente uma criança pérfida que não conseguiu assimilar os princípios básicos que controlam as leis da selva.

Alguém que nada absorveu da educação moderna, que procura estimular à maneira ensinada por Aristóteles uma segunda natureza. Por isso Trump acha-se no direito de dizer, por exemplo, ao primeiro-ministro da Noruega Ah, o teu país não me deu o prémio Nobel da Paz, então agora eu estou livre para declarar guerra a quem eu quiser. Estou a citar.

Como o Zequinha, o Zequinha, o Traquinas, de quem se contavam muitas histórias nos anos 60, aprenderam na rua a ser desbocado e os pais não conseguiam controlá-lo. Portava-se sempre soltando da boca inconveniências toda a ordem, diante de fosse quem fosse. Um dia a família foi convidada para uma festa. A mãe do Zequinha, muito receosa, decidiu fazer um contrato com o filho. Se te portares bem no jantar, em casa dos amigos, os pais compram-te uma bicicleta.

Promessa feita, lá seguiu a família, muito embora a mãe se tivesse mantido receosa e sempre de olho em cima do garoto. A meio de jantar, por pouca sorte nos pais, que nem repararam no pormenor, um par de moscas poisou sobre a mesa, precisamente ao lado do prato de Zequinha. Uma em cima da outra, na satisfação do mais natural ato de reprodução de qualquer ser vivo. O Zequinha reporou na cena e sentiu logo o impulso de intervir.

A ideia da bicicleta, porém, conteve-o. No entanto, as moscas persistiam no ato e ele perdeu o autodomínio. Num gesto brusco, fez desabar uma palmada em cima delas, dizendo alto e bom som, a modos de toda a mesa ouvir. Eu perco a bicicleta, mas vocês não é fém aqui.

Pois é, precisamente, o protótipo psicológico de Zequinha que havia de liderar este Ocidente em tristes tempos de ocaso se as Children of Light não reagirem a tempo. Reinald Niebuhr lembrava-nos que os filhos da escuridão não conhecem nenhuma lei para além do seu ego.

Não me acusem de inventar. Está disponível na internet o clipe de Trump sentado no Oval Office, há poucas semanas. Respondendo à pergunta se havia limites no seu poder global, declarou Sim, só há um limite. A minha própria moralidade. A minha própria mente. É a única coisa que me pode parar.

Pobres de nós. Hoje, Richard Nixon seria um herói. Cometeu uma gaffe, foi apanhado e aceitou a humilhação de ser forçado a abandonar o poder. No mundo selvático de Trump, essa hombridade, o sentido de Estado, desapareceu. Enquanto Nixon tentava justificar-se dizendo que não era um bandido, Trump diz, sim, sou um bandido, mas isso que interessa.

Uma das suas últimas, e todos os dias há pelo menos uma nova, como hoje viram, foi processar o IRS. Atreve-se a processar uma instituição do seu próprio governo. Processar pessoas e instituições foi sempre uma constante na vida dele, exigindo somas fabulosas em compensação. Neste caso do IRS, porquê um processo de 10 mil milhões de dólares?

porque um funcionário anónimo destruiu a reputação de Trump ao passar para a comunicação social as suas declarações anuais do IRS. Ora, vejam lá, os presidentes dos Estados Unidos são obrigados a publicitar as suas declarações de impostos e há décadas que todos cumprem. Trump recusou-se. Na campanha eleitoral, mentiu. Dizendo que só não o fazia por o caso estar no tribunal, quando nada o impedia porque eram documentos que lhe pertenciam.

Tornadas públicas as declarações, ficou a saber-se que durante anos Trump não pagou impostos nenhum ou pagou pouquíssimo, tornando-o óbvio que, para além de mentiroso, fugia ao fisco em grande escala. Tudo claro para qualquer cidadão minimamente inteligente. Mas não para Trump. Processa o IRS por lhe ter estragado a reputação.

Isto tudo público está, é o ofício demonstrado, mais que demonstrado, está acessível a toda a gente. Eu mato alguém e levanto um processo no tribunal a quem for denunciar-me, estragando a minha reputação de cidadão honesto e cumpridor das leis.

Chegamos a isto. A moralidade que conta é a sua. Moralidade? A sério? Faz lembrar aquele que se conta de um seu médico ter comentado em segredo para um colega. Trump está doente. Um dia destes o coração vai falhar-lhe. O colega responde. Não, nada. Não morre disso. O coração dele está impecável. Eu nunca uso. Faz lembrar uma história antiga. Um dia em Atenas correram rumores de que Alexandre Magno tinha morrido.

De Mades, um político da cidade, argumentou que não poderia ser verdade porque se fosse, o mundo inteiro se abria por causa do fedor exalado do seu cadáver.

quando o líder que deveria segurar este barco da humanidade, inspirando-nos a esperança de que vamos debelar as incontornáveis tempestades, a mensagem é salve-se quem puder. Estou a tratar de mim e que se lixem os outros. Há poucas semanas, a revista New Yorker noticiou, sem ainda ter sido processada por Trump, que ele já ganhou 4 mil milhões de dólares em negociatas diversas. Sabem qual é a diferença entre Trump e a Grunelândia?

A Groenlândia não está à venda. Faz lembrar a história de um turista em Israel a admirar o Mann Auditorium em Tel Aviv. Quando perguntou a um local se aquele Mann, M-A-N-N, era uma homenagem ao escritor Thomas Mann, ouviu em resposta que não era. Era um tal Frederick Mann de Filadélfia. Surpreendido, o turista inquiriu ainda. E o que foi que ele escreveu? A resposta veio pronta. Um cheque.

O New York Times revelou também informações seguras sobre o preço dos perdões acriminosos que, ao abrigo da legislação, o Presidente pode conceder. O preço médio é, neste momento, um milhão de dólares. Aos custos que a inflação tem provocado, convenhamos que está um bocadinho baixo.

Voltamos à lei da selva. Na plateia, já não haverá muita gente a lembrar-se daquela canção do Cat Stevens, nos anos 70. Lembram-se? Oh, baby, baby, it's a wild world. Agora é mesmo um mundo selvagem.

Já viram alguém civilizado auto-elogiar-se como Trump faz? Há tempos alardeava o fato de ter passado brilhantemente nos três testes que tomou, gabando-se de ter obtido 156 pontos. Nem Thomas Jefferson chegaria a ele. Alguém lembrou que se fez três testes, deveria dividir o total por três para obter a média.

Em inglês, a palavra menos pode ser less or fewer. Fewer usa-se para quantidades físicas, less para quantidades abstratas. Trump acha que as regras gramaticais do inglês também podem ser violadas por ele. Referindo-se aos imigrantes, que ele abomina, muito embora tivesse casado com uma, disse... Eu já expliquei que foi ela, porque foi a única pessoa... Não havia um americano que quisesse aguentá-la, então tiveram que importar alguma.

referindo-se aos imigrantes que ele abomina muito embora tivesse casado com uma, disse temos de ter menos imigrantes no país, mas saí-lhe we have to have less imigrants uma pessoa presente na sala usou corrigi-lo dizendo em alta voz, fewer Trump reagiu brutalmente don't call me that

Não estou a insultar a pessoa dele. Apenas conto verdades. E algumas piadas que refletem a realidade a que ele nos habituou. Insultar alguém é não ter classe. Não saber usar ironia. Como aquela mulher que entrou na sala da sua casa e deu com o marido a ver um filme pornográfico na televisão. Todo atrapalhado, ela pressou-se a mudar para um canal de pesca. Com desdém, ela acalmou.

Podes continuar no canal onde estavas, já sabes pescar.

O insulto mais doce que Trump conseguiu foi aquele à jornalista do Bloomberg News, Cala-te porquinha, Quiet Piggy, lembram-se. Thomas Hobbes e Darwin sabiam que o mundo era uma selva. Marx, influenciado por Rousseau, pendia para o outro extremo. O ser humano é bom, a selva foi criada pelo capitalismo. E se destruirmos o capitalismo, voltaremos ao paraíso terreal.

Naive, no mínimo, mas ao menos fez-nos acreditar na ética, aliás cristã, de que é possível criarmos um mundo melhor. Hoje estamos invadidos por imagens de todo o lado a demonstrarmos que a selva de Hobbes e Darwin é real. Não escapa ninguém.

Se não vejamos, uma mãe vampira disse um dia ao seu filhinho, já estás crescido, é a altura de começares a procurar a tua alimentação. E como faço? Voas por aí e quando vires um humano saltas em cima, picas-lhe um braço e chupas-lhe 10 centilitros de sangue. E se eu tiver mais fome? Voltas a voar, agarras outro humano e fazes o mesmo. Mas quando for maior e vou ter necessidade de me alimentar mais, pois apanhas outro humano e fazes o mesmo.

Mas por que razão não posso eu chupar o sangue todo que me apesseça só de um humano? Meu filho, nós somos vampiros, não somos advogados. Quer dizer, se excetuarmos os vampiros, parece que ninguém escapa. Não apenas os políticos, em quem se surze a toda hora.

Mas toda a gente, um dia um grande humorista brasileiro, toda a gente que é o Milor Fernandes, lançou um desafio com a pergunta, qual a diferença entre um político e um ladrão? Um leitor submeteu a seguinte resposta, caro Milor, após longa pesquisa, eu cheguei a esta conclusão, a diferença entre político e ladrão é que um eu escolho, o outro escolhe a mim.

Estou certo? E assinava Fábio Viltrakis Santos São Paulo. A réplica de Milor foi, poxa Viltrakis, você é um gênio, foi a única pessoa que conseguia achar uma diferença. Nesse constante mergulharmos no que somos e nas misérias do mundo de hoje, esquecemos, por exemplo, dos horrores da primeira metade do século XX.

E é só rolar para trás o filme da história. Ainda há um mês, ouvi na Academia das Ciências um altamente cotado historiador português, muito sólido nas suas investigações, citar documento ou pós-documento, deixando-a nu uma evidência inequívoca. Padres e bispos mantiveram escravos e justificaram-se com razões

para eles óbvias, e mesmo alguns mais conscienciosos que se insurgiam contra os maus tratos infligidos por muitos donos aos seres escravos, apelavam simplesmente ao não uso da violência, não se opunham à instituição da escravatura em si.

Hoje, mais do que nunca, estamos expostos às desgraças do mundo inteiro e às que ocorrem à nossa volta. Tudo está mau, tudo é mau. Nos meus anos de juventude, quando os meus açores, sobretudo algumas ilhas, viviam fora do mundo, numa pacífica fejante São Jorge, uma miudita agarrada a um transistor ouvia atentamente as notícias no rato do Langra.

Eram mortes em Israel, mais mortes no Vietnam, revoluções na América Latina. A terrorizada não se conteve. Ai, o mundo vai muito mal. A mãe, atarafada nas suas linhas da cozinha, ouviu e atalhou. Oh, rapariga, está calada, o mundo não é aqui.

E não era. O Regino Salazar deixava os jornais e a rádio darem más notícias do que se passava no mundo, mas não em Portugal. E, ao isolamento de São Jorge, quase nem as do mundo chegavam. Para quem não conhece a Ilha São Jorge,

que já não é nada do que foi em matéria de isolamento, vai este pequeno flash. Numa praça dorme um lheu estirado num banco. Chega um forasteiro e senta-se na ponta. O banco vibra um pouco, o homem acorda, algo atordoado, erga a cabeça e pergunta. Sabe dizer-me que horas são? Desculpe-me, não tenho horas. E o jorgenso voltando a deitar-se. Então ainda é cedo.

Estraguei o tempo todo a falar só da primeira parte do tema desta mesa. Nada disso sobre para onde vamos. Na verdade, não sei. Todavia sei para onde devemos ir. Temos de continuar a lutar para que não nos destruam o trabalho dos nossos predecessores, que nos legaram a instituições carregadas de deficiências, lacunas e defeitos, mas que nos têm assegurado anos de paz. A continuar a luta...

por aperfeiçoar uma cada vez mais sólida institucionalização dos ideais da modernidade, que aliás são antiquíssimos, só que durante séculos foram acessíveis a apenas uma minoria. O Estado moderno é a única maneira de que dispomos capaz de suster valores essenciais como a liberdade, a justiça, a igualdade, mas também a verdade. Não podemos deixar que alguém destrua o que foi tão arduamente construído.

Temos de manter acesa a esperança e não desistir da luta. Estou quase a acabar. O nosso saudoso Álvaro Labrinho Lúcio pensava certamente assim quando escreveu a frase tema desta mesa. E aliás, toda a sua obra. E porque sei que ele gostava muito dos Açores, onde foi Ministro da República durante vários anos, antes disso, ele foi Ministro da República nos Açores, nós fomos eleitos na mesma altura para a Academia Internacional de Cultura Portuguesa. E fomos...

tomámos posse no mesmo dia e achei uma coisa muitíssimo curiosa. Eu achava uma academia entre as águas da cultura portuguesa e eu decidi...

Escolhei o tema de A Ciência no Perito e Descobrimentos, um texto que depois entrou no meu Século de Desprodígios. O Álvaro Labrinho Lúcio escolheu para tema falar da literatura açoriana, ou se não quiserem, literatura dos Açores. Toda a hora ele falou de autores açorianos, escritores açorianos, citando constantemente obras deles. Ele tinha lido todos, conhecia-os imensamente. E foi de tal ordem que...

Depois, quando lancei o meu mínimo, a Azórica, que é um livro sobre questões açorianas e escritores açorianos, vocês sabem, nos Açores há mais poetas de que vacas, eu convidei-o para Sarela a apresentar o livro, e ele apresentou o livro, e o livro cheio de notas, cheio de notas e notas, e de fato lia, lia muito e lia cuidadosamente.

Foi nesse dia da tomada de posse na Academia, o presidente era o Adriano Moreira e fomos jantar e nesse jantar o Adriano Moreira contou-nos uma história que quando era ministro do Ultramar, em São Tomé, inauguraram uma avenida, uma rua, a rua da Dra. Adriano Moreira. Passado depois do 25 de Abril, um dia aconteceu, Adriano Moreira...

até São Tomé e teve curiosidade de ir ver a rua, como é que estava ele. E ele foi e ele disse que na placa estava assim, a rua és doutor Adriano Moreira. Bom, e porque sei que...

porque sei que Labrinho Lúcio Gustavo dos Açores, eu vou terminar com um poema açoriano do meu amigo J.H. Santos Barros, tragicamente falecido num aparatoso desastre numa estrada de Espanha, perto de Mérida, há mais de 40 anos, três anos depois de a sua cidade natal, Angra do Heroísmo, ter sido totalmente destruída por um sismo, em 1900.

no 1 de janeiro. O poema de Santos Barros dirige-se à cidade onde Laborinho Lúcio viveu. Vou lê-lo porque, se Santos Barros fosse vivo, escreveria um igual sobre a democracia e os valores que ela propõe assegurar. E também, se Laborinho fosse vivo, eu pediria que fosse ele a declarar o poema na sua bela voz.

E naquele seu estilo de senhor do verbo, o poema dirigido à cidade de Angra, então em ruínas, intitula-se Pranto por Angra do Heroísmo. Mas é tudo menos um pranto. Então, por favor, esqueçam a minha voz e procurem recordar a de Laburinho Lúcio. E também esqueçam a cidade de Angra e pensem na democracia e nos seus, nossos valores.

Então, o poema. Não perecerás, ó destruída. Cada rua do teu corpo é onde pelos séculos vai, do corvo a Santa Maria, o homem em ti dignificado, no mais alto esplendor da alma coletiva. Não perecerás, ó destruída.

Avemos de rir, guerte, casa a casa te devolveremos o rosto perfeito. Ai, cidade linda, por onde o sangue português corre, ali irá a saudade tirana. Voltarás a sorrir na alvura do casario, nas festas do povo, no jardim público, nas tardes astouradas, na segurança das novas construções, voltarás a ser...

capital da cultura, guardiã da arte, porque haveremos todos de querer que vivas para que a esperança seja viva e seja nossa. Não presserás ao heroica. Nossas lágrimas, experiência longa do sofrimento, serão mais poderosas que os elementos, que as ilusões e realidades imigrantes. Não te voltaremos às costas. Viverás a cidade. Assim o quer a vontade de um povo.

Vocês viram as notícias de hoje, eu recebi minutos, antes de vir para aqui um e-mail, e vi esta frase. Vivemos tempos sombrios em que os piores perderam o medo e os melhores perderam a esperança. Mas nós não podemos perder a esperança. Muito obrigado.

Unésimo Teutónio Almeida, na mesa de encerramento das correntes descritas deste ano, que tinha por proposta temática, como todas as mesas desta 27ª edição, uma frase do livro A Vida na Selva, de Álvaro Labrinho Lúcio, saber onde estamos e para onde vamos, continua a ser essencial.

Agora, proponho-me escutar o escritor espanhol Miki Otero, catalão, de Barcelona, já convidado deste programa a propósito do romance que lançou nas correntes, orquestra, ele evocou na sua intervenção Oliver Cromwell.

Quis desmentir a frase tema, não saber onde estamos e para onde vamos é importante, diz ele, e para o justificar contou histórias de um seu antepassado, e ele é um excelente contador de histórias, um seu antepassado que, sem saber como, foi parar aos Estados Unidos e acabou a trabalhar para o mafioso Luque Luciano. Também nos conta como já se perdeu dentro da casa de um amigo, Mickey Otero.

tal como foi escutado no Cine Teatro Garrete da Pove de Varzim no último 28 de fevereiro. Eu falo um bocadinho de português, mas dizia antes que eu sou mais parvo ainda em português que em espanhol, assim que eu prefiro ler em espanhol. Saber onde estamos e a onde vamos segue sendo essencial.

Hum. É tão certa a frase que dá título a esta mesa que só posso dissertar sobre ela a partir de uma cita que diga exatamente o contrário. Aí vai. O homem nunca avança tão seguro, nem chega tão longe como quando não sabe aonde vai, disse Oliver Cromwell no século XVII.

Cromwell poderia estar criticando a aventura temerária ou invitando a valentia frente à página em blanco da história, ou poderia estar prefigurando o nosso mundo com uns dirigentes e políticos que, protegidos por o escudo de força de sua ignorância, nos levam a lugares onde viven dragões. Mas eu sou escritor, e portanto, um pouco egomaníaco,

Então prefiro pensar que Cromwell estava falando de um antepasado meu, da aldeia galega, que precisamente por não saber onde estava nem a onde ia, chegou muito longe. Esta é sua história que podeis tomar como parábola. Em as festas de seu povo, meu antepasado, se apostou quatro vacas a as cartas. Como acabou a aposta, a timba? Perdiu. O conto não teria sentido se não as perdesse.

Como não queria voltar a casa por medo da regaña, foi fechado para Coruña, onde saíram os transatlânticos, onde se embarcavam os Emirantes a América. Dois dias de caminhada ininterrumpida, com breves paradas para reponerse com aguardiente entre Foz e esse puerto. Tenia familiares na Havana.

Então pensou que esse seria um bom destino. Se colou de polizão na bodega de um barco e se passou o viagem bebendo e cantando com essa felicidade insensata de quem não tem outra que confiar tudo a sua viz. No último dia, quando pensou que atracavam em Cuba, não pensou nada raro quando se assomou à cubierta e viu a Estatua da Libertade.

E quando Nélis Island teve que passar o chequeo médico dos imigrantes, onde exploravam os olhos em busca de tracoma, ele falaram em inglês e ele respondeu em galego. Estou usando como um carvalho, gritou. Obviamente, pensava que se falava sua língua tanto em Cuba como em Nova York. O caso é que ele voltou anos depois à aldeia com uma cicatriz e com muito dinheiro e falando um galego com acento italiano. Por quê?

Por quê? Ninguém o entendia. Se supo tempo depois que havia trabalhado nas atarazanas para a mafia de Luqui Luceano. Assim que meu antipasado foi um cara que fez fortuna por não ter nem ideia de onde estava. Nem a onde ia.

Aunque é certo que perdeu tudo o que ganhou ao pouco de voltar à sua terra. 3. Mas Cromwell também poderia estar dando o pé para o que eu queria plantear hoje. Algo que parta dessa peripecia narrativa, mas que acaba dizendo algo mínimamente valioso. E o que eu queria exponer é o seguinte. Para entender a história, para orientar-nos em um território, e por suposto para escrever novelas, um precisa de duas coisas. Memória e imaginação.

Primeiro de tudo, a memória. Debemos reconhecer os lugares que temos pisado antes, onde se esconden os atajos e onde acechan os perigos. Mas, também, nos será útil a imaginação. Tramar novos planos entre encrucijadas desconocidas. Memória e imaginação. Tradição e risco. Ordem e aventura, como disse Borges.

É a dizer, a memória serve para entender o presente à luz do passado pior e, à sua vez, a imaginação serve para projetar o presente para um futuro melhor. Em definitiva, o presente é tanto consequência do passado como promessa de futuro. Não é estranho que o mundo atual, uma cepa de amnesia e ignorância, esteja como esteja. Al fim e ao cabo, há tempo que delegamos nossa memória colectiva e personal em Google.

E desde há pouco menos, temos colocado nossa imaginação, a capacidade humana para fabular, para entendermos, para asociar ideias, para encontrar soluções a o desconocido, na inteligência artificial do Chad GPT. Agora me gostaria de sacar a colación um estudo de uma universidade. Não importa o nome da universidade. Todo mundo sabe que esse tipo de estudo só servem para dar a razão a quem fala, a mim, neste caso.

Os estudiosos desta universidade quisiam analizar a atividade neuronal de uma pessoa que tentava recordar um episódio de sua vida e a de essa mesma pessoa tentando inventar uma história. O gráfico clínico...

a cordilheira de Picos e de Valles era exatamente o mesmo. É a dizer, se demonstrou a conexão entre a memória episódica e a imaginação com a que escrevemos ficções. Pensadlo agora. Se um dia despertáis, tras uma noite de festa, e vocês se perdem as gafas, primeiro buscaréis a lo louco.

Mas se quer encontrar as gafas, os remontaréis à noite anterior e iréis gerando um relato sobre o que fizesteis e quando. Uma narração de seus passos para entender em que momento desapareceram essas gafas. Talvez tivésseis ganas de orinar e os aguardem na cisterna do váter, do baño. Talvez os entrou o fome e as encontráis agora na nevera.

Fijaos, para entender onde estão as gafas, mas também onde estamos nós, nossa vida ou nosso país, o que fazemos é explicarnos a nós mesmos uma história, uma história com maiúscula ou com minúscula. Escribiu Cervantes, no Quixote, e também Permanard, no seu, que a história é a mãe da verdade.

Isto pode dizer que a história recolhe a realidade, nos diz o que verdadeiramente aconteceu, mas também que a gera. É o relato que nos deu por escrever o que permaneceu como verdade, aunque não o fosse. Em qualquer caso, tudo isso serve quando o extraviado não são umas gafas, mas a capacidade de reflexão,

de empatia ou a própria humanidade. É difícil, não o niego, é difícil tomar um respiro para recordar e imaginar, porque vivemos em um presente estrechíssimo e veloz, em um mundo hiperacelerado, cheio de estímulos, que nos impede tanto repescar o passado como proyectar o futuro, que premia, portanto, ao que não duda. Porque a dúvida...

que é um agente do bem e um atributo da inteligência, requer tempo. E quem não se despega, chega antes. E, portanto, ganha. E, portanto, manda. E, de aí, que, em menudo, ganem e mandem os peores.

Eu, na verdade, tenho memória, como para citar meus livros favoritos e telefones de amigos antigos, alguns que não estão, e também tenho imaginação, se não, não seria escritor, e, sem embargo, não me oriento. Desde muito pequeno não sei ler os mapas. Me perdo em meu próprio barrio. Um dia me perdi em casa de um amigo, dentro da casa.

Me he informado e visto cientificos falar de agnosia topográfica, um transtorno neuropsicológico caracterizado por uma desorientação espacial muito severa, por incapacidade de reconhecer lugares, edificios, entornos. Acontece que não tenho uma conexão fiava entre o hipocampo onde formamos os mapas e o córtex prefrontal onde se formam planos e se toman decisões. Inclusive tenho uma novela, Rayos, que vai precisamente desta desorientação.

que padece Fidel Centella, seu protagonista, mas também toda a sua geração. Talvez possa ler alguns párrafos. Não há vontade de vendê-los. Porque, aunque Don Quixote publicou primoramente minhas duas últimas novelas, esta, que é anterior, não se traduziu. Não estou vendendo a novela. E arranca assim. Se me movo, estou perdido.

Por aqui não, mas por aqui não. Quero entrar, mas sei que vai ser complicado. Quando enfilo a esquerda, sei ao cabo de uns passos que me he equivocado. Se, com a vaga superstição de quem lança uma moneda ou uma fonte para pedir um desejo opto por a direita, caigo na conta de que caminho em direção oposta a meu destino quando apenas passaram alguns instantes. Se eu faço o contrário do que a minha intuição anêmica ordena, se meus passos contradicem o impulso tarado de meu cérebro, não vou escolher bem. A direita será a esquerda, a esquerda se convertirá na direita.

se invertirá o curso dos rios e o sentido rotatório da Terra só para que eu tome consciência de que nunca, nunca, nunca, elegiré o caminho adequado.

Não nos gosta da cobertura, nos gosta da valentia dos que aceitam sua cobertura. Queremos escutar histórias de tipos que se perdem porque seus descarridos são muito parecidos a chuva que repiquetea na ventana. Foram os raios, os relâmpagos, o trueno, a cidade charolada por a tormenta, passamos página do livro, parpadea a luz de outros telediarios, silva a cafetera, ropamos com a manta a pessoa querida, a nós mesmos, e pensamos que em todo momento, sempre, mas sempre, sempre...

Há alguém pior lá fora, eu rascando a coroninha em algum lugar. Porque estou harto de confesar. Sou incapaz de conectar distâncias, direções e pontos de referência. Os passos de um hotel são tão indesférables como a estepa siberiana. E os mapas são quadros de expressão abstrato. As pessoas como eu...

Suelen replegarse, sumergirse em seus livros e discos, limitarse a pisar os escasos metros de sua habitação, onde passa tudo e onde nada acontece. E, sem embargo, me muevo. E, sem embargo, estou aqui, nas correntes, e vou ler o ponto 5, que é muito breve e acabo. 5.

Saber onde estamos ou não saber, mas, sem embargo, movermos. Sim, movermos. Isso me lembra uma escena cómica de um livro dos irmãos Marx. Um chiste que, precisamente por seu humor absurdo, define bem nosso absurdo mundo atual. Um mundo sem memória nem imaginação, em perpétua huida para frente. Diz Groucho. Vamos, Rabeli, ande um pouco mais rápido. E para que tanta prisa, jefe, se não sabemos onde vamos.

Contesta o chico. E então Groucho lhe suelta. Nesse caso, corramos. Corramos ainda mais. E aceleremos para que isto acabe de uma vez. Mejor, paremos, escrevamos, falamos, leamos, miremos, escutemos, entendamos onde estamos, acordemos com um consenso virtuoso onde queremos ir. Muito obrigado.

Miki Otero, que já escutámos neste programa em entrevista sobre o romance que apresentou nas correntes descritas, a orquestra tem a chancela de Dom Quixote, ele que participou nesta mesa de encerramento na Pove de Varzim e que tinha por proposta temática a frase de Álvaro Labrinho Lúcio, saber onde estamos e para onde vamos, continua a ser essencial.

Miki Otero quis contrariá-la. E para terminar, não há tempo para mais, convido a ficar com a intervenção de Itamar Vieira Jr., com o exercício de vencer o medo. É um escritor tímido, também o ouvimos já várias vezes neste programa, incluindo sobre o livro Os Livros, que apresentou na Póvoa este ano.

Ele de regresso a um evento onde há sete anos começou as suas andanças de escritor em circunstâncias públicas. Ele, entretanto, é celebrado, mundo fora, um dos maiores casos de popularidade nos últimos anos de literatura em língua portuguesa.

Fala-nos de um mundo de distrações e tecnologias que simulam uma comunidade, mas Itamar Vieira Júnior traz-nos a reflexão sobre a comunidade que formamos como tudo no planeta. Fala-nos sobre a vida literalmente na selva.

O título do livro de Álvaro Labrinho Lúcio, de onde a frase tema é retirada e sobre a vida em sociedade. Itamar Vieira Júnior, que apresentou então Coração Sem Medo, é o final da trilogia da terra do chão em terra. Uma trilogia que começou com o prémio Leia há sete anos, com Torto Arado, que é um romance traduzido hoje em mais de...

30 idiomas. Itamar Vieira Júnior, nas correntes descritas a 28 de fevereiro.

Foi inevitável lembrar que há sete anos eu estive aqui nas Correntes, na vigésima edição das Correntes, para lançar Torto Arado. E talvez, eu já havia publicado dois livros antes de contos, mas ali estava nascendo o meu primeiro romance. Talvez este tenha sido o meu primeiro compromisso público com leitores, com uma audiência tão grande.

E eu estava aqui deste lado muito apreensivo, nervoso. Tenho certeza que minha voz saiu gaguejando durante aquele momento. E pensei que hoje, depois de passar por tanta coisa durante esses anos, ter uma vida intensa em relação aos livros, à leitura.

que estaria aqui muito tranquilo, mas fui assomado outra vez por aquele sentimento de incerteza. Talvez seja a memória daquele dia, de ver uma audiência tão bonita, tão completa, que isso nos intimida. A vida nos intimida muitas vezes. E daí é preciso vencer alguns medos.

E é esse exercício que eu faço, pensando no mote desta mesa.

Olhar para o mundo à nossa volta, surpreender-se, horrorizar-se, consternar-se com a experiência dos seres. Identificar caminhos a trilhar, conflitos, avanços, mudanças, contar o tempo, antes, depois, durante um evento e outro. Inventariar os atos das espécies, da nossa em particular. Projetar o acúmulo, desejar equidade, destruir, aniquilar.

Iludir-se com a falsa certeza de que podemos ter o domínio sobre tudo, sobre tudo o que vive, sobre a nossa própria vida. Esta tem sido a epopeia humana, perguntar-se onde estamos, tentar prever para onde vamos. Por vezes, recontamos a história das nossas origens no intuito de compreender o presente.

Mas é próprio do humano criar terceiras ilusões, buscar a verdade absoluta, autoritária, que contemple os próprios anseios que, inevitavelmente, encontrará eco nos desejos alheios.

Vivemos tempos de grandes alienações. Imagino que todos os períodos da história tiveram suas cotas de desvios do que interessava de fato à humanidade. Desvios além da necessidade de sobrevivência, os mitos, as crenças, as religiões, a sanha das conquistas, o domínio sobre os que nomearam como outros.

o acúmulo do que resolveram chamar de riqueza.

os Estados-nações e suas fronteiras, a ênfase nas nossas diferenças. Mas talvez em nenhum período tenha existido tantas distrações como o nosso. O fardo da sobrecarga de informação, a intenção imperiosa de gerir o tempo, a sedutora e nebulosa tecnologia que promete nos unir a todos, em toda parte, forjando a ilusão de comunidade.

Aliás, estar conectado às pessoas no mundo tem nos feito esquecer o chão que pisamos, os humanos que ainda não foram alcançados pelo simulacro de comunidade global, dos seres não humanos que cooperam e sustentam a possibilidade de vida neste planeta.

Vivemos uma crise da narrativa que passa necessariamente pela redução da nossa linguagem a imagens, comunicações breves, aceleradas para caber em vídeos de 90 segundos, por textos superficiais, pela falsa interlocução estabelecida com o artifício humano, artifício que agora nomeamos de inteligência.

Talvez esta seja a primeira vez na nossa história que atribuímos a máquinas inanimadas, desprovidas de um fluxo vital, aquilo que durante muito tempo julgamos ser capacidade exclusiva da nossa espécie, ou pelo menos da elite exploradora dela, a inteligência.

Essa desconexão com a vida à nossa volta cria miragens sobre onde estamos, distraindo-nos dos reais desafios que nos cercam. Faz-nos acreditar que sabemos para onde caminhamos, ou, para ser mais preciso, para onde achamos que vamos, para onde desejamos ir.

Antes de contemplar o futuro, é preciso retornar ao passado, redescobrir veredas e histórias que nos permitam compreender o agora. Saber onde nosso corpo se ancora é o primeiro passo para corrigir a rota e desbravar novas trilhas que nos levem ao tempo seguinte.

Por mais que queiram nos fazer acreditar, a Terra, o planeta, não é uma nave à deriva sobre a qual não temos nenhum controle. É possível, sim, que não tenhamos o domínio absoluto sobre o chão que habitamos. Afinal, o planeta é regido também pelas leis do cosmo, por seus próprios mecanismos.

Mas há uma fração inextrincável que nos une a este planeta. Somos parte do todo. Compartilhamos material genético com outros seres não humanos. 50% com as plantas, por exemplo. Compartilhamos minerais com a Terra e matéria-prima da vida, com a atmosfera, os rios e os oceanos.

Nesta jornada, é preciso que retomemos a narrativa do mundo e da nossa história, olhando com atenção para o presente. Saber onde estamos depende de compreender de onde viemos. A história desigual do mundo nos legou condições díspares de memória e de vida.

Conhecer o movimento de nossas origens, reconectar-se com saberes desprezados e modos de vida inferiorizados, pode nos apontar para o lugar que queremos ocupar neste espaço-tempo. Isso demanda entender sobre quais bases a história de determinadas sociedades se estabeleceu.

como foi experimentá-la na irreproduzível unicidade da vida. É preciso contrapor a objetividade do sistema à subjetividade que nos compõe. A afirmativa já não é onde estamos, mas onde sinto que estou. Como me percebo neste mundo? E se me importa como o semelhante se percebe nele também?

Assim como o passado foi escrito pela humanidade, o futuro será imaginado e criado por nós, se não perdermos a capacidade de sermos plenamente humanos, com sonhos, vontades e a vibrante faculdade de se interessar pela alma de tudo que vive. Para intuir aonde vamos, mais do que saber, é preciso sentir onde estamos.

Sentir vem do latim sentire, perceber através dos sentidos, escutar, degustar, sentir o cheiro. E para tanto é preciso dispor de um corpo livre e vivo, pronto para interagir com o que pulsa ao seu lado.

Não há consensos sobre o estado do mundo, mas é possível especular que chegamos aqui sustentados por estruturas de exploração do passado, do mundo, dos humanos, dos não humanos, da terra, da atmosfera, dos rios e dos mares. Chegamos aqui pela desconexão com a diversidade do planeta, a partir da morte da alteridade, da incapacidade de coexistir com o diferente.

Acredito que a metáfora do belíssimo título do livro do Laborinho Lúcio faz alusão à selva como o lugar do desconhecido, do que se designa como selvagem, do que pode nos suscitar medo e incerteza.

A selva, muitas vezes pela narrativa do mundo mercantil, foi nos apresentada como um ambiente que nos sufoca e fagocita em um emaranhado de leis que, se protegem os humanos e suas propriedades, podem também desumanizar pessoas.

A selva, nesta definição, se opõe à civilização. Mas é preciso recordar que foi a civilização ocidental que nos trouxe tal e qual até aqui. A provável intenção de Laborinho Lúcio era refletir sobre o resgate do sentido ético, da nossa coexistência, o direito ao pensamento crítico e as subjetividades que nos distinguem.

Se a ideia de selva, para uma parte expressiva da humanidade, continua a ser a do lugar perigoso, indomado, onde o homem descobre não ter controle sobre o mundo, eu vos convoco a refletir sobre outro caminho, e dele certamente depende o nosso futuro, compreender a selva como o mundo da vida.

Se retomarmos o sentido original da palavra selva, que vem de silva, floresta, bosque, mata, onde muitos enxergam o caos, veremos uma sofisticada ordem, complexa, múltipla e profundamente solidária.

Se a experiência do mundo moderno reduziu o mundo à matéria, à predação, à riqueza e aos recursos que se esgotam, e essa redução nos trouxe a este tempo em que estamos em risco, precisamos restaurar a experiência da coexistência.

É preciso contemplar as florestas além da madeira para enxergá-las como comunidades vitais. São as árvores tidas por nossos mais remotos ancestrais como sagradas que, junto com a vida vegetal dos oceanos, fazem o delicado trabalho de converter gás carbônico em oxigênio.

A floresta é uma comunidade de seres que compartilham conosco a graça da vida. A ciência nos informa da complexa trama de comunicação que estabeleceram sob o solo e através da atmosfera, num surpreendente mecanismo vital. Para muitas sociedades indígenas de onde eu venho, a separação entre humano e natureza simplesmente inexiste. O humano é a natureza.

Elas preservam o sentido de comunidade com outras espécies, onde árvores, seres humanos e rios são sujeitos e parentes.

No conceito do perspectivismo ameríndio, que tem como expoente o antropólogo Eduardo Viveiro de Castro, toda forma de vida compartilha uma única cultura, ou, para ser mais exato, a mesma alma. O que nos distingue é o invólucro, o corpo, não a essência, o paradigma vigente entre nós...

É o de que a cultura, a alma, é múltipla e o corpo nos aprisiona em hierarquias rígidas, onde o que pertence à nossa espécie vale mais.

Para as sociedades indígenas, o paradigma é o da coexistência, que em grande parte da história humana foi negociada de forma diplomática, muito diferente do extermínio e da extinção acelerada do nosso tempo. Para o direito humano, para nós, o humano, a essência da vida é exclusividade do humano.

Para os humanos e indígenas, a humanidade, a experiência vital, é compartilhada por todos os seres. Uma árvore ou um rio não são recursos, são sujeitos de direitos, são parentes, elos importantes para a trama da vida.

O ser humano acredita ser superior às outras espécies, por acreditar ser o único dotado de inteligência, por dominar certa linguagem. Para a cosmovisão de muitas sociedades indígenas, o que nos distingue é a forma, as vestes, não a essência. Em A Queda do Céu, livro de Davi Kopenawa...

Ele nos alerta sobre a ilusão que nos tornou em povo da mercadoria. Reduzimos toda a vida, além da nossa espécie, à definição de recurso econômico. Para o povo da mercadoria, a floresta é a madeira, o animal a sua carne.

penas e pele. A água, a irrigação da fazenda para alimentar seu negócio. Para os Yanomami, a etnia à qual pertence Davi Kopenawa, a floresta é a morada dos chapiris, dos espíritos. Uma árvore é uma pessoa com quem se pode conversar e estabelecer alianças. Um animal é parte inseparável da sua compreensão da vida. Nessa perspectiva...

Parece que os saberes dos que sobreviveram à atrocidade do capitalismo vêm passando a orientar decisões judiciais em diferentes países, Equador, Nova Zelândia e Brasil, estimulando uma nova visão do direito que deixa a esfera do homem para contemplar a natureza como um todo.

Um dos casos mais emblemáticos no Brasil é o do Rio Lage, no estado de Rondônia, no norte do Brasil, reconhecido por um tribunal em 2023 como um sujeito de direito. Este reconhecimento passa pela garantia de que o rio manterá seu curso natural, de que terá o direito de não ser poluído, que terá preservada a mata à sua volta.

Para tanto, o Rio contará com guardiões no seu curso, a colaboração dos humanos que podem nos salvar, que poderão acionar a justiça para que seu direito seja preservado. Mais importante do que saber para onde vamos, o que seria um ato passivo de espera, é saber como chegaremos lá.

É preciso questionar quais princípios nos guiarão nesta jornada, se este futuro inclui a todos, os humanos e a vasta comunidade não humana, se de fato seremos capazes de habitar o amanhã. Muito obrigado.

Itamar Figueira Júnior, na mesa de encerramento das correntes descritas deste ano, escutámos três das intervenções, para além do escritor brasileiro, também o espanhol de Barcelona, Miki Otero, e essa intervenção, que é sempre a de encerramento, na povo de Varzim, a de Onésimo Teutónio Almeida.

Os três, a propósito de uma frase extraída do livro A Vida na Selva de Álvaro Labrinho Lúcio, saber onde estamos e para onde vamos, continua a ser essencial. Os grandes encontros à volta dos livros no nosso país vão mais longe, através da rádio, neste programa. Está feita a ronda. Assim, obrigado por estar com a rádio. Boa noite.

A Ronda da Noite Com Luís Caetano