Ana Luísa Amaral e Roberto Bolaño, mundos literários.
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Luís Caetano
Diogo Madre Deus
- Obra de Roberto BolañoContos Completos · Um Pequeno Romance Lumpan
- Poesia de Ana Luísa Amaral
- Publicação e Edição de LivrosCavalo de Ferro
- Literatura
A Ronda da Noite Com Luís Caetano
Boa noite. A ronda atravessada hoje pela poesia. Na semibreve, Andréa Lupi traz-nos dois poemas de Ana Luísa Amaral, com música da escocesa Thea Musgrave e da francesa Camille Pepin, palavra e música a rimar com o divino o que puder. Depois, na vida breve, ouvimos sentidos.
Também poesia de Ana Luísa Amaral, em voz própria. E na última edição poderá escutar o louvor da poesia por Roberto Bolanho. Também em voz própria, num certo de uma entrevista à televisão chilena. Bolanho, que sublimava a poesia, mas agia na prosa. E a obra de Roberto Bolanho. Esse imenso mundo. Esse monumental jogo.
acaba de regressar às livrarias portuguesas em nova edição, agora com a chancela Cavalo de Ferro, que vai apostar nela ao longo dos próximos anos, com muitos inéditos no nosso país. Nas livrarias estão já um pequeno romance Lumpan e contos completos. Todos os contos num só volume. Roberto Bolanho com a chancela Cavalo de Ferro na conversa com o editor Diogo Madredeus.
Vai ser assim a roda.
Gig, Cheri Diorois, de Francesco Corbetta. Compositor italiano, nascido em 1615, um virtuoso da guitarra, interpretações de Borzulian, Simone Valerotonda e o agrupamento Ibasifondi.
Semibreve Uma rubrica de Andrea Lupi
cria um poema de apopeia e luz. Escrito às duas da tarde e num café, um espelho à minha esquerda, o café amarelo, que é cor de que não gosto, mas que brilha na tarde adolescente.
Se eu não tivesse a olhar, mas só o ouvido atento a pequenos ruídos, como uma voz e coisas indistintas, o café a sair para lá do balcão, uma cadeira de ferro pintado a arrastar-se de subito. Incongruências de quem tem a olhar. Que no poema de apopeia e luxo eu falo do que é táctil, mas se vê. Há linha que seduz, mas que a contém.
Atirar a palavra pelo chão com o abandono todo da adolescência em tarde. Tantas horas de sol à minha frente. Deixá-la navegar como se fosse gente quinhentista ao longo do desejo para a vida.
À minha esquerda, o espelho que a reflita, o multiplica em sons e em sentidos, lhe evite idade adulta e aguarde finalmente, adolescente e nua como a tarde.
Até que dela nasça, navegando, poema de apopeia sem o ser, mas corpo todo em luz e boa esperança, como um adamastor, uma criança, uma sereia abandonada e livre.
Mas o Adamastor era uma rocha e as sereias não há. Que as provas mais? Minha pobre palavra que traí. Antes de tê-la deixado contida nessa linha a seduzir, antes de tê-la guardada no centro do olhar, não lhe permitir ver espelhos de sol, não lhe falar da adolescência e luz, navegações e sonhos quinhentistas, que depois a conquista, o coração pesado de ambições, tortura de poderes.
Minha pobre palavra que se julgou por culpa minha e grande e que às duas da tarde e num café se confundiu no espelho, tomou por ouro o amarelo em cor e se perdeu de amores por réplicas de amor.
E por que não agora, às quatro da manhã? Assim, eu do naufrágio a salvaria. Não tarde, adolescente, mas madrugada, arrebentando águas, o fim do surtelegio.
Criança então hoje, as 24 horas quase lá e o remorso ausente do pensar. Um poema que fosse de apopeia e luz, mas desta vez na cama e devagar. Deixá-la resvalar pelos lençóis. E como o tempo é indeciso e nu, ela sem perigo de se comover, ela sem perigo de se seduzir no que seduzem réplica de tudo.
Como posso dizer que teu corpo é divino?
Nele eu faria o pino até em sensatez. Romperia as comportas até tocar em sinos que num touro muito fino te cantassem os pés. Falei agora em pés-vos por causa de aqui estar com dor em pé direito e tom quase de orfilo. Mas deixa-me falar. Permite-me voltar a falar do teu corpo como a fingir de céu. Como posso dizer que o teu corpo é divino sem cair no lugar do mais comum mortal?
que eu queria fazer pino para além de escorial, no sítio do teu corpo mais fundamental, ou seja, o teu tendão onde se assenta o pé, onde se assenta a mão, e o sítio mais central, ou seja, o teu olhar, ou seja, o outro qualquer, divino por divino, permite-me dizer-te que tanto vale pino, como vale destino ou outro desatino conjugado a viver.
Deixe-me então falar do teu corpo, num hino, de ser-lhe algumas glosas em tom de mal me quer, dizer-lhe que assim tanto por êxtase divino, é difícil manter-me rimada e sem herder em chamas muito altas, pouco celestiais, mais perto de outros cantos que não sejam o céu, mas que o sejam também, porque entre inferno e céu a diferença não há.
Descerre-se-lhe o véu e o que sobra por ser até um excesso de amor que não está muito longe do divino robô que habita no teu corpo e que divino faz. Como posso dizer que o teu corpo é divino se o divino é sem nome e se o nome lhe é fugaz?
Rimarei com divino que puder. E então, sino, menino, tino, desatino, ou até, ainda que mais rindo, a planta do teu pé, a mais leve tremura que habita a tua mão. E o tom que iniciou sobre o teu corpo o hino, desviou-se, subiu ao lugar de outra cor. Romantizou-se o tom, entreneceu-se o amor.
E já não me apetece falar de que não seja de uma forma macia, redonda de cereja e doce como néspera em um humano fulgur. Preparou-se o poema para assim, meu amor.
E um beijo muito impuro. E tão encastamente que se rasga o divino até o manifesta. Forma de aqui te ter. Porque ter-te presente. Maneira de dizer-te que o que resta é tu seres. Flecha. Onde o arco mora.
E as coisas se demoram na palavra mais longa, diluviane tudo. Um sítio de veludo bordado a horizontes de corpóreos limites, de sonhos consistentes, de uma matéria igual à matéria em que o tempo faz lentamente, opina e aleja ao fazê-lo um lugar não divino. Esse teu tornozelo, onde se encostam calmas as matérias que digo.
Ouvimos dois poemas de Ana Luísa Amaral, Epopeias de Luz e Ode ao Divino que aí mora. Ao som de Phoenix Rising, da escocesa Thea Musgrave, pela Orquestra Nacional da BBC do País de Gales, e de O Confon de Lourage, da francesa Camille Pepin, pela Orquestra Nacional de Lyon.
A poesia de Ana Luísa Amaral na semibreve de André Lupe também na vida breve depois da música
A CIDADE NO BRASIL
A primeira das canções escocesas de Beethoven Nas interpretações de Benjamin Grovena Nicola Benedetti e Sheku Kanemason A vida breve
Poesia por quem escreve
Sentidos Um poema de Ana Luísa Amaral
De vez em quando, uma emoção em falso, a ferida abre-se e eles entram solenes, os meus mortos.
Migram dos sítios quentes onde os tenho de cor E as folhas do arbusto na varanda em frente à minha cama Trazem as suas vozes E quanto mais a luz é sobre a ferida Mais eles aí estão Cobre-as às folhas O cortinado da janela larga E o que é visto daqui é só um gume a verde Estreita faixa de verde De nem fotografia, porque em dança
Não me assustam nem gritam os meus mortos. Só me lembram que a chuva que agora se insinua devagar lhes foi tempo e morada, e eles, a mim. Que alguns deles olharam nesta mesma varanda as mesmas folhas, mais jovens e mais verdes. Ou que outros deles viram outras folhas, mais jovens, mas sem cor.
Neste tempo e agora que os não têm, aos meus mortos, cresceram pouco as folhas e a emoção em que os tropeço e a mim não os fazem nascer. Tomar o lume que as mantém em vida fosse o gume na ferida de os não ter.
A Vida Breve. Um programa de Luís Caetano.
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A próxima vez que eu sei Eu estou a ser um batido em Spade A lifelong holiday Oh, como eu ligo para a vaca A lifelong Saturday close by the shore
Música
A Lifelong Saturday. Canção de Christoph Kaiser e Julian Maas para o filme Três Dias em Quiberon, de Emilia Teff. Última edição.
Um programa de Luís Caetano.
Ao menos quando comecei a escrever em sério, quando a aposta era a vida ou morte, que é uma forma um pouco exagerada de dizer, mas se parece, o que escrevi era poesia e leí muitas poesias. E sempre admirado as vidas dos poetas, essas vidas tão desmesuradas.
tão arriesgadas. E nesse sentido, talvez, talvez, esse amor meu por a poesia e por os poetas se reflete de alguma maneira em alguns dos meus livros. Eu não acho que em todos. Eu como poeta não sou nada lírico. Sou totalmente prosaico, cotidiano.
Meu poeta favorito é o Nicanor Parra. O Nicanor Parra já diz que ele não fala de crepúsculos, nem de damas recortadas sobre o horizonte, mas de comida e de ataúdes. E ataúdes e ataúdes.
Roberto Bolanho, numa entrevista à televisão chilena em 1999, falando da poesia, de como sempre admirou a vida dos poetas, ele vendo Nicanor Parra e essa força das coisas do cotidiano, dirá mais à frente, quase que como uma definição?
vai dizer, Roberto Bolanha, a poesia, mais do que um ato, é um gesto de adolescente. Ele que escreveu poesia, que a levou para a prosa, faz poesia com a prosa, muitas vezes, mas que acima de tudo é um mundo por descobrir. E esse mundo por descobrir
Tem de novo portas abertas e convidativas porque Roberto Balanho acaba de chegar às livrarias em nova edição, nova chancela em Portugal, a Cavalo de Ferro, que nos propõe, desde logo, e nada menos que os contos completos. É um monumental livro que nos dá, na tradução de Vasco Gato,
os diferentes volumes de contos do chileno Roberto Bolanho, que viveu entre 28 de abril de 1953, nasceu em Santiago, morreu a 15 de julho de 2003 em Barcelona, uma morte precoce, uma doença que poderia ter tido uma resolução, um transplante que acabou por não acontecer a tempo.
E, de alguma forma, também a vida curta, como acontece muito nas artes, tornou de alguma maneira mito, um mito muito recente e que conquistou leitores um pouco por todo o mundo, com as suas diferentes obras. Em Portugal, publicado desde há muito, pela Gótica, pela Teorema, pela Quezão, agora na Cavalo de Ferro, uma proposta que nos vai dar...
Muito de Roberto Bolanho e, desde logo, estes contos completos. E também a novela Um Pequeno Romance, Lumpan. Estão nas livrarias. Sobre eles vou conversar com o editor da Cavalo de Ferro, Diogo Madre de Deus, para já ler um conto inteiro. Felizmente, tem duas páginas apenas.
É extraído do livro O Gaúcho Insuportável e tem por título Jim. Há muitos anos tive um amigo chamado Jim e desde então nunca mais voltei a ver um norte-americano tão triste. Desesperados, vi muitos. Tristes como Jim, nenhum. Uma vez arrancou para o Peru numa viagem que deveria durar mais de seis meses, mas voltei a vê-lo ao fim de pouco tempo.
Em que consiste a poesia, Jim? Perguntavam-lhe as crianças mendigas do México. Jim ouvia-as, olhando para as nuvens, e depois começava a vomitar. Léxico, eloquência, procura da verdade, epifania. Como quando nos aparece a Virgem.
Na América Central foi assaltado várias vezes, o que se revelava extraordinário para alguém que tinha sido fuzileiro naval e antigo combatente no Vietnã. Acabaram-se as lutas, dizia Jim. Agora sou poeta e procuro o extraordinário para o dizer com palavras banais. Achas que existem palavras comuns e correntes? Eu acho que sim, dizia Jim.
A sua mulher era uma poeta chicana que ameaçava, de tempos a tempos, abandoná-lo. Mostrou-me uma fotografia dela. Não era particularmente bonita. O seu rosto exprimia sofrimento e, por baixo do sofrimento, surgia a raiva. Imaginei-a num apartamento de São Francisco ou numa casa de Los Angeles com as janelas fechadas e as cortinas abertas, sentada à mesa a comer pedacinhos de pão de forma e um prato de sopa verde.
Pelos vistos, Jim apreciava as morenas, as mulheres secretas da história, dizia sem dar mais explicações. Já eu apreciava as louras. Uma vez viu a contemplar os engolidores de fogo das ruas da cidade do México. Viu de costas e não o cumprimentei.
Mas era evidentemente Jim. O cabelo mal cortado, a camisa branca e suja, as costas sobrecarregadas, como se ainda sentisse o peso da mochila. O pescoço vermelho, um pescoço que evocava, de certa forma, um linchamento no campo, um campo a preto e branco, sem anúncios nem luzes de estações de serviço.
Um campo tal como é ou como deveria ser o campo. Baldios, sem soluções de continuidade. Habitações de tijolo ou blindadas das quais fugimos e que aguardam o nosso regresso. Jim estava de mãos nas algebeiras.
O engolidor de fogo ia agitando a sua tocha e ria-se de forma feroz. O seu rosto, enagrecido, denunciava que podia ter 35 anos, ou 15. Não usava camisa e uma cicatriz vertical subia-lhe do umbigo até ao peito.
De tempos a tempos enchia a boca de líquido inflamável e depois cuspia uma longa cobra de fogo. As pessoas observavam-no, apreciavam a sua arte e seguiam o caminho. Cheto Jim, que se mantinha na beira do passeio. Imóvel, como se esperasse algo mais do engolidor de fogo. Um décimo sinal depois de ter decifrado os nove da praxe. Ou como se no rosto tijinado tivesse descoberto a cara de um antigo amigo ou de alguém que matara.
Durante um bom pecado, fiquei a olhar para ele. Eu tinha então 18 ou 19 anos e julgava-me imortal. Se tivesse sabido que não o era, teria dado meia volta e ter-me-ia afastado dali. Passado um tempo, cansei-me de olhar para as costas de Jim e para os esgaros do engolidor de fogo. A verdade é que me aproximei e chamei por ele. Jim pareceu não me ouvir.
Ao virar-se, reparei que tinha a cara molhada de suor. Parecia febril e teve dificuldade em reconhecerme. Cumprimentou-me com um movimento de cabeça e depois continuou a olhar para o engolidor de fogo. Quando me pus ao seu lado, apercebi-me de que estava a chorar. Provavelmente também estaria com febre.
Além disso, descobri com menos espanto do que aquele com que escrevo agora que o engolidor de fogo estava a trabalhar exclusivamente para ele, como se todos os outros transiuntes daquela esquina da cidade do México não existissem. As labaredas, por vezes, iam morrer a menos de um metro de onde estávamos.
Qual é a tua ideia? Disse-lhe eu. Queres que te assem na rua? Uma piada parva, dita sem pensar, mas percebi de repente que isso era precisamente o que Jim esperava. Lixado, enfeitiçado. Lixado, enfeitiçado. Era o refrão, julgo recordar, de uma canção da moda, nesse ano, nalgum dos buracos funkis. Lixado e enfeitiçado. Parecia Jim.
O feitiço do México apanharam-o e fitava agora diretamente a cara dos seus fantasmas. Vamos-nos embora, disse-lhe eu. Também lhe perguntei se estava drogado, se se sentia mal. Disse que não com a cabeça. O engolidor de fogo olhou para nós. Depois, com as bochechas inchadas.
Como Éolo, o deus do vento, veio ter connosco. Percebi numa fração de segundo que não era precisamente o vento aquilo que se ia bater sobre nós. Vamos embora, disse eu, e descolei-o de sopetão da beira funesta do passeio. Perdemo-nos, rua abaixo, em direção à reforma, e pouco depois separámo-nos. Jim não abriu a boca durante todo esse tempo. Nunca mais voltei a vê-lo. Jim.
É um conto de 2003 de Roberto Bolanho, que está no livro O Gaúcho Insuportável, que é um dos livros nunca antes publicados no nosso país. Está neste Contos Completos de Roberto Bolanho, agora publicado pela Cavalo de Ferro.
que nos dá telefonemas, detetives, vida de Anne Moore, putas assassinas, o gaúcho insuportável, o segredo do mal e o contorno do olho. Diário do oficial chinês Chenguodeng, 1980. São estes os livros reunidos agora num só volume pela Cavalo de Ferro.
Diogo Madradeus, o editor, bem-vindo uma vez mais à Antena 2. Obrigado. Agora, também editor de Roberto Bolanho. É longa a lista, muito extensa. De autores da Iberoamérica, aqueles que estão no catálogo da Cavalo de Ferro. E muitos deles marcantes na história da literatura. Também o é. Roberto Bolanho chega também às livrarias. Um pequeno romance, Lumpan. Já vamos falar dele.
Para já, este homem de vida curta, enfim, 50 anos, que marcou leitor já de diferentes gerações, que foi sendo dado a conhecer em Portugal, tem agora este, como que um relançamento, como que um novo convite.
Roberto Bolanho, que viveu em vários países, no Chile, no México, em El Salvador, mas também em França e em Espanha, tem livros que, de alguma forma, conquistaram uma aura maior do que outros, nomeadamente esse monumental.
2666, ou Os Detetives Selvagens, mas ele era um mestre na forma curta, mesmo que a fama tenha sido conquistada, muito com as novelas, com os romances, veio para Barcelona, perto do mar, trabalhou e fez de tudo, porque ele, de alguma forma, um escritor tardio, antes de publicar, escreveu durante muitos anos, e por isso...
Teve vários trabalhos, trabalhou em funções básicas em Espanha, antes de conquistar essa fama e esse público leitor. Escreve a poesia, depois disse que passou para a prosa, porque queria também sustentar a família, cuidar do seu futuro, e a prosa dava-lhe mais garantias. Há 50 anos, quando estava no México, criou algo a que chamou de infrarrealismo, uma espécie de movimento, fez parte.
desse movimento poético que refutava todos os cánones, que procurava a antipalavra. Mas é pela palavra que Roberto Bolanho conquistou a eternidade com livros que nos dão...
contos maiores ou menores, novelas mais ou menos extensas. Tem muitas vezes uma ironia fina, tem também muitas vezes este quase surrealismo. Diogo Madre Deus, responsabilidade de voltar a propor Roberto Bolanho de uma forma que nos dá muito do que ainda não foi publicado no nosso país. Por que é que aceitou fazê-lo? Responsabilidade.
Também, sobretudo um enorme prazer e um divertimento também publicar este enorme autor e publicá-lo assim, como se está a fazer, que é o que faz, na minha opinião, sentido. Ou seja, a ideia é apresentar um programa muito extenso, republicar e publicar toda a obra do Baudanho.
Em vários anos. Em novas traduções. Em novas traduções, sim. Há muito material que estava inédito. Apresentá-la como um todo, que na verdade é o que ela é, a obra do Bolanho. Com diferentes facetas, mas é um todo. Sim, o Bolanho é...
Aliás, é curioso, podemos compará-lo a outros autores, como também são americanos, grandes autores como... Cortázar. Como Cortázar, por exemplo, como Borges, até, no sentido em que encaravam a literatura como um jogo. Ou seja, eram autores que dão à literatura material novo, autores que retiram da literatura. É o caso destes três, retirar no sentido em que a própria literatura... Transformá-la.
Sim, mas a própria literatura torna-se matéria literária, matéria da sua obra. E é proposta como jogo. É o caso do Baudanho que praticamente reescreve, estava sempre a reescrever as suas obras. A obra dele é quase uma constelação onde se podem fazer vários desenhos. Há personagens...
que transitam de obra para obra. Há alter egos. Há ações narrativas que são retomadas e ampliadas de livro para livro. Há casos muito famosos, por exemplo, o último fragmento da literatura nas Américas deu origem à Astral e Distante. Um episódio dos Estativos Salvagens vai dar origem ao Amuleto.
Mas, por exemplo, nestes contos completos, há um prazer também de descobrir coisas como o primeiro texto que aparece aí, incluído no livro do Fenemas, do Sensini, que, na verdade, é uma matéria ficcional de um outro texto, que é o último, que é o primeiro texto publicado por Bolanho em vida, que é o Contorno do Olho.
e que, na altura, o Bolanho, isto em 80's, apresentou-o a um concurso literário, onde ficou com o terceiro lugar. O segundo lugar foi outro grande monstro sagrado da literatura sul-americana, o António Di Benedetto. E o primeiro, ninguém já se recorda quem é.
esse terceiro lugar deu-lhe direito a ser publicado numa antologia num volume antológico e foi a primeira vez que o Olenho publicou muitos anos depois ele conta este episódio de maneira ficcional nesse conto chamado Sensini, incluído nos trofonemas portanto há este jogo também literário entre ficção e realidade que ele usa
Falámos aí da pequena novela do Dumpan, quem ler o conto Músculos, nestes contos completos, vai descobrir, não é exatamente coincidente, mas reconhece, reconhecerá o embrião de um pequeno romance do Dumpan. E os exemplos são múltiplos, há personagens dos tetos salvagens que aparecem recorrentemente em alguns destes contos, etc.
há essa forma de encarar Boulanho como uma obra que se reescreve e que não acaba um mundo Boulanho e é interessante portanto achei também interessante coligir
num único volume todos os contos para impedir essa fragmentação de leitura de tantos volumes que estavam dispersos e por outro lado também dar essa visão conjunta e apresentar inéditos com outras obras traduzidas o objetivo aqui é obviamente chegar a um novo público, o Balanho foi apresentado em Portugal e também mas
No mundo inteiro, há 20 anos, já decorreram... Há novos leitores, não é? À época, foi... Há 20 anos, venceu o título posto no National Book Awards com o 2666. Temos já livros publicados antes disso? Sim, mas... Mas sim de forma consistente.
Na verdade, a sua biografia prestou-se muito a tornar-se depois esse objeto de culto. De interesse. Sim, ou seja, um escritor que era conhecido, mas algo marginal, no sentido em que era conhecido por um público muito fechado, de intelectuais e de poucos leitores.
Alguém que sempre batalhou para... Sempre se considerou um escritor e queria se sustentar com a escrita, mas mal, não é? Ou seja, alguém que viveu à margem, quase. Aliás, muitos dos seus personagens são escritores ou poetas, marginais. E, portanto, ele sempre recratou numa linguagem muito cheia de ironia e desencanto também.
Uma linguagem muito simples e direta, poética do cotidiano, esses personagens errantes, como ele foi, intelectuais, com vidas algumas muito estranhas. Como o conto que se deu aqui, desse Jim, que há alusões a passados, não esclarecidos, que se projetam e que o leitor adivinha, mas que não é completamente esclarecedor. Há sempre muita interrogação.
E, portanto, o Balen foi transformado nesse ícone, desse escritor marginalizado e maldito, que, de repente, se tornou um representante de uma inteira geração, que abriu as portas à nova literatura sul-americana.
e fez-lo numa forma muito diferente, apresentou uma forma muito diferente de escrever, de escrita, uma escrita, como disse, muito crua, muito direta, que fala com... Eu penso que fala, que é capaz de dialogar muito bem com o público jovem. Mais jovem. Mais jovem.
Por isso, esta iniciativa editorial de reapresentá-lo, não já com esse marketing de autor... Nova estrela do firmamento. Sim, não já com esse recorso geográfico, quase, mas com os pés no chão de apresentá-lo como o que penso que... Até porque o tempo é sempre aquele que consagra.
Sim, exato, e eu penso que ele ficará E o tempo já passou, ele morrer a 2013 Ou seja, da literatura E por isso é essa a iniciativa Ou seja, dá-lo a conhecer Inserido num contexto literário E com este convite desde logo Dos contos, porque A forma curta, enfim, é sempre
na vida do cotidiano agitado e então nas premissas que hoje em dia se utilizam das atenções e do tempo que há atenção espero que isso tudo se mantenha ainda à margem desse ato de abrir um livro e acho que sim, que remédio, porque não é compatível com regras de 30 segundos, mas os contos permitem em pouco tempo entrar dentro deste espírito dentro deste mundo bolanho
E são todos os contos que estão aqui reunidos. Alguns destes volumes estavam já publicados, digamos que metade. Agora, essa metade e a outra aqui reunidos, incluindo algumas variantes de um boleño mais observador e crítico, irónico, com uma grande capacidade de desnudar aquilo que é também o seu material, o mundo literário. Não a literatura, mas o mundo literário.
estava aqui, enfim, neste Os mitos de Cotulho em que ele começa por dizer permitam-me que nesta época sombria comece com uma afirmação cheia de esperança, o atual estado da literatura em língua espanhola é muito bom, insuperável ótimo, se fosse melhor até me daria medo
A ironia está afirmada desde logo e depois aqui andam peras reverte. É sempre conveniente declará-lo ao adentrarmos nesta espécie de clube mediterrané, habitualmente camuflado de pântano, de deserto, de subúrbio operário, de romance espelho, que se olha ali mesmo, Munhoz Molina, Vasquez Figueroa, por exemplo, aqui ele a dizer-nos que a melhor lição de literatura que Vargas Lhosa deu foi sair para fazer jogging aos primeiros raios da madrugada.
A melhor lição de Garcia Marques foi receber o Papa de Roma em Havana, calçado com botinhos de verniz. Garcia não o Papa. Enfim, mas esta é uma variante. Há muito aqui a Bolanho poliédrico, mas dentro deste mundo os contos completos de Roberto Bolanho. Então agora com a chancela Cavalo de Ferro.
E vem acompanhada por aquilo que poderia ser um longo conto, mas é uma pequena, enfim, é uma novela, um pequeno romance lumpen, também publicado pela primeira vez no nosso país. Uma leitura que é de um prazer, no pouco tempo que demora, duas horas, o livro está lido e é um Roberto Abolanho, com tudo isso que já dissemos, é uma história intrigante, mas também sensual, mas também melancólica e muito livre.
Uma novelita lumpan, no original, um pequeno romance lumpan, tem a tradução de Rita Granha, como disse, os contos completos foram entregues a Vasco Gato. Leio aqui um pouco deste pequeno romance lumpan.
Agora sou mãe e também uma mulher casada. Mas não há muito tempo fui uma delinquente. Eu e o meu irmão tínhamos ficado órfãos. Isso, de certa forma, justificava tudo. Não tínhamos ninguém. E tudo acontecer de um dia para o outro.
Os nossos pais morreram num acidente de automóvel, durante as primeiras férias que fizeram sozinhos, numa estrada perto de Nápoles, creio eu, ou noutra estrada horrível do sul. O nosso carro era um Fiat amarelo, em segunda mão, mas que parecia novo.
Dele só restou um amontoado de ferros retorcidos, cinzentos. Quando o vi no parque de sucata da polícia, onde estavam outros carros acidentados, perguntei ao meu irmão pela cor. Não era amarelo? O meu irmão disse que sim. Claro que era amarelo. Mas isso era antes. Antes do acidente. As colisões deformam a cor. Ou deformam a nossa maneira de apreender a cor.
Não sei o que quis dizer com isso. Perguntei-lhe. Respondeu. A luz, a cor, tudo.
Pensei que o coitado estava mais afetado do que eu. Nessa noite dormimos num hotel e no dia seguinte voltámos a Roma, de comboio, com o que restava dos nossos pais e acompanhados por uma assistente social, ou educadora, ou psicóloga, não sei bem. O meu irmão perguntou-lhe o que fazia, mas eu não ouvi a resposta, pois ia a observar a paisagem pela janela. No funeral apareceu apenas uma tia, irmã da minha mãe, e atrás da minha tia vinham as suas filhas atrozes. Fiquei a olhar para a minha tia o tempo todo, que também não foi assim tanto.
e por mais de uma vez julguei ver um esboço de sorriso nos lábios dela ou até um sorriso completo. E então soube, embora na verdade já soubesse desde sempre, que eu e o meu irmão estávamos sozinhos neste mundo. O funeral foi breve. À saída do cemitério beijámos a nossa tia e as nossas primas e nunca mais voltámos a vê-las. Enquanto caminhávamos até à estação de metro mais próxima,
Disse ao meu irmão que a nossa tia tinha sorrido, para não dizer que se tinha rido às gargalhadas, enquanto os caixões eram introduzidos nos respectivos nichos. Ele respondeu que também tinha reparado. A partir desse momento, os dias mudaram.
E é esta mudança de vida de dois jovens, dois adolescentes, que vamos conhecer ao longo desta novela. Começam depois a enfrentar-se com a nova vida, a vida sem os pais, a vida que é preciso ser ganha. Algum tempo depois, ela e ele, ele faz entrar em casa dois amigos.
que conheceu num ginásio um bolonhas e um líbio. E eles instalam-se nessa casa, também se instalam na cama da irmã. E depois vão pensar num golpe. E esse golpe envolve uma velha estrela de cinema, Massiste, que é um antigo campeão de culturismo.
Um homem que foi famoso numa certa época de 50, inícios de 60, no cinema, naquele cinema italiano da Cinecità, mas que agora está gordo e cego. Depois ele vai também conhecer esta irmã no golpe que eles arquitetam.
que acaba por nos dar uma história onde há uma grande tensão psicológica, ao mesmo tempo uma espécie de liberdade de permitir que tudo aconteça com naturalidade, mesmo coisas que até podem causar alguma repulsa ou alguma estranheza. É um livro que foi adaptado para o cinema, não foi um filme muito conhecido, mas teve uma estrela.
de cinema, literalmente, a assumir o papel da estrela de cinema, o ator Rutger Auer, a adaptação para o cinema pela realizadora Alicia Skerson. É um filme de 2013 que se chama O Futuro e é como falávamos a propósito destes contos, Diogo Madre Deus.
Gente à margem. Pelas circunstâncias da vida, naturalmente, mas personagens à margem, de alguma maneira, perderam a esperança, perderam o futuro. E estão a tentar, de alguma maneira, que isso exista. Depois veremos se sim ou se não. Porque a escolha de um pequeno romance lumpen para acompanhar esta nova entrada de Roberto Bolenho nas livrarias com a nova chancela, Cavalo de Ferro. Muito primeiro porque...
É uma delícia ler este pequeno livro do Baudanho. Depois porque estava inédito, surpreendentemente, na minha opinião. Depois é um objeto um pouco particular na obra do autor. Ao contrário do que aqui falámos, em que muitos livros são extensões de outros livros, de outras histórias, ou continuação de personagens em outros ambientes.
Este aqui foi escrito sob encomenda, o que é muito interessante. Na altura, a Mondadori, que estava a entrar em Espanha, o editor da Mondadori espanhola.
convidou um conjunto de escritores de língua espanhola a escolherem uma cidade europeia e a falarem e a escreverem sobre ela. Por exemplo, o Ravelas Marias... O Veneza. É um livro espantoso. Sim. O Bolanho escolhe Roma e é extremamente interessante como ele retrata Roma. Eu que vivi em Roma durante muito tempo.
Eu percebo algumas... Espantou-me a forma como ele retratou-a, porque a Roma quase que não aparece... A Roma que nós conhecemos em termos turísticos não aparece a Roma do Colosseu, não aparece a Roma dos grandes monumentos, não aparece a Roma histórica.
É uma Roma da periferia, mas é uma Roma cheia do imaginário romano contemporâneo. Ou seja, esta cultura da Tchinetità, dos colossais históricos, do refazimento de grandes lendas através do cinema da Antiguidade Clássica está no livro.
o ambiente, as pequenas ruas, mesmo as ruas que ele nomeia são todas ruas não centrais, não é? E depois é um romance, quer dizer, é um pequeno romance, não é? Um termo que encontramos para traduzir novelita.
Lumpen, os ouvintes sabem, na Antena 2, faz parte daquele português que está abaixo da condição que Marx designou como abaixo da condição do português que pode ter consciência de si mesmo, não é? É um estátulo ainda mais baixo, aliado do mundo.
E é um romance sobre deformação, no sentido em que temos aqui uma personagem que curiosamente reconta a vida passada e que fala sobre ela, mas é um romance de crescimento, não é? Eu achei-o profundamente triste em que há uma sensação de vazio essencial.
França de sentido. Aliás, a maior parte das descrições quase que se aplicam à adolescência. Eles perdem os dias, abandonam a escola e perdem os dias de frente à televisão. Começam a ir à escola, começam a ir ao videoclube, alugar cassetes, contém a ninguém. A televisão é omnipresente. Eles são sempre... E tudo é... Tudo que é muito italiano também. E tudo o que entra na vida destes dois jovens é aceito, sem critério. Ou seja, há aqui obviamente um...
estado emocional de quem está a passar por um trauma por um trauma da perda indiferença e depois disso há um enredo completamente rocambolesco que é irónico
Quase fantasioso É preciso encontrar um cofre Então anda-se por uma casa enorme à procura do cofre Mas não se encontra o cofre Ela na verdade prostitui-se, ou dá-se Mas sem nunca assumi-lo Sem sentir esse tipo de juízes críticos E portanto é um...
Apesar de ser um livro que foge um pouco da constelação Bolanho, é um livro onde o universo dele está lá, ou seja, estas personagens marginais, aqui muito pouco literárias, não há poetas, não há intelectuais, pelo contrário, há uma banalização quase do cotidiano, dos pequenos gestos sem interesse, e há muito desta visão desencantada sobre tudo isso.
do mundo e portanto é um e depois há outra coisa que eu estava a notar ao ouvir ao ouvir esse excerto é a rapidez da cadência e a rapidez com que o bolanho entra, faz-nos entrar no enredo é dificilíssimo conseguir conseguir isto é umas coisas colpidas, sem excessos
parece simples, mas é o mais difícil que existe quando a minha é escrita, não é? Essa escrita tão essencial, ou tornada essencial, não há excesso de palavras, não há descrições, há frases curtas e, de repente, estamos a viver a vida destes dois jovens. De repente, em três frases, descreveu-se todo o ambiente que...
que depois leva à ação. É impressionante. E apesar de haver uma tragédia na raiz desta vida, destas duas vidas, destes dois irmãos, a verdade é que este sentimento de vazio, de falta de perspectivas de futuro, isto não só é de muitos tempos, como é verdadeiramente muito do tempo de hoje.
E há uma ideia de decadência, essa observação da cidade de Roma, a cidade imperial aqui vista de um ponto que, como disse Diogo Madradeus, é perfeitamente inesperado quando a proposta era escrever sobre Roma. Falávamos da história de Massista, dos seus filmes que tinham tido tanto sucesso de bilheteira.
O meu irmão chegou a procurar durante semanas, primeiro nos clubes de vídeo do bairro e depois nos do centro, um que se chamava Massista contra os Tartaros, que segundo o bolonhês era o melhor, mas não o encontrou. Fiquei contente por ele não o ter encontrado, porque me dava pena, uma pena antecipada, ver Massista na juventude, quando ainda não era cego, tinha cabelo e era magro e musculado.
Não o queria ver porque já sabia o que ia acontecer 20 anos depois. Mas uma vez sonhei com o filme. Primeiro, dois exércitos enfrentavam-se numa planície ressequida. Depois, Massista lutava contra 20 guerreiros no interior de um palácio e vencia-os a todos. A certa altura aparecia uma mulher vestida com uma túnica de seda transparente e beijava Massista.
Estavam os dois no alto de um promontório. A seus pés abria-se um abismo e no horizonte elevavam-se finas colunas de fumo. Depois via massista a dormir num quarto com chão e paredes de mármore.
E no sonho eu pensava, é só um filme, ele não está mesmo a dormir, está a fingir, mas na verdade está acordado. E só então me dava conta de que Massista, ao rodar aquele filme, estava no presente. E eu que o via, ou sonhava que o via, estava no futuro, no futuro de Massista. Ou seja, no nada. E então acordei.
Um pequeno romance lumpen de Roberto Bolanho. É a primeira edição no nosso país. Um pequeno romance lumpen e um grande volume de contos. São ambos uma bela porta de entrada, de facto, para a escrita de um homem singular, de um notável escritor que volta agora com uma cadência que será...
Anual? Mais do que isso? Sim, a ideia vai ser publicar já este ano quatro livros. Saíram outros dois em novembro. E nos próximos anos uma cadência de três, quatro. E estes dois que ainda virão em 2026.
Bom, serão para já os tetivos. Os tetivos selvagens. E o estudo distante. Muito bem. Então, há aqui uma caminhada a fazer no regresso de Roberto Bolaño às livrarias e aos leitores, que é o essencial, porque a grande literatura tem que estar disponível e tem que receber novos convites de tempos a tempos. E assim acontece agora com o chileno Roberto Bolaño.
Contos completos e um pequeno romance Lumpan, livros com a chancela Cavalo de Ferro que nos foram apresentados pelo editor Diogo Madre Deus.
Última edição. Está feita a ronda. Assim, obrigado por estar com a rádio. Boa noite.
A Ronda da Noite Com Luís Caetano