Episódios de Inteligência Ltda.

1869 - DIEGO ALVES

16 de junho de 20261h42min
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DIEGO ALVES é ex-jogador e o goleiro que mais tomou gols do Messi. Ele vai bater um papo sobre sua carreira, os anos na Europa, o Flamengo de Jorge Jesus e muito mais. O Vilela nunca gostou de jogar no gol, mas era sempre obrigado por sua ruindade na linha.

Participantes neste episódio3
R

Rogério Vilela

HostApresentador
J

JP Castilhos

Co-host
D

DIEGO ALVES

ConvidadoEx-goleiro
Assuntos8
  • Auge no Valencia e RecordesConquista do Campeonato Mineiro e Carioca · Transferência para o Almería · O apelido 'El para penaltis' · Defesa de pênaltis contra Cristiano Ronaldo e Messi · Recorde de defesas de pênalti na La Liga · Lesões graves e recuperação
  • Missão de JesusObjetivo de ganhar a Libertadores contra o Liverpool · Virada contra o Emelec e classificação · Conquista da Libertadores 2019 · Final do Mundial de Clubes contra o Liverpool · Desgaste físico da equipe
  • Carreira ProfissionalConvite para o Botafogo de Ribeirão · Treinador rude e crítica inicial · Mudança de treinador e nova oportunidade · Competição na Irlanda do Norte · Primeiro contrato profissional
  • Retorno de Lucas Paquetá ao BrasilNegociação com o Flamengo e pressão da torcida · Adaptação ao futebol brasileiro · Problema de comunicação e afastamento · Permanência com Abel Braga e Marcos Braz · Campeonato Carioca e chegada de Jorge Jesus
  • Atletico MineiroConvocação para a Seleção Sub-18 · Destaque na Copa São Paulo · Primeiro jogo no Campeonato Brasileiro e vaias · Rebaixamento do Atlético Mineiro · Período de treinamento e espera pela oportunidade
  • Legado e InfluênciaImpacto e legado para futuros atletas · Importância do planejamento pós-carreira · Empreendedorismo e transição de carreira · Projeto Nexus · Despedida emocionante no Maracanã
  • Infância de GisèleParalisia facial e corticoide · Apelido X-Tudo · Preconceito pelo porte físico · Decisão de ser goleiro · Treinamento físico e alimentar
  • Conflito com Hulk e CeraAcusação de cera em jogo contra o Atlético Mineiro · Reação de Hulk e outros jogadores · Diferença entre quem apanha e quem bate
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Rogério Vilela:Olá, terráqueos, como é que vocês estão? Eu sou o Rogério Vilela e tá começando mais um Inteligência Limitada, o programa onde a limitação da inteligência acontece somente por parte do apresentador que vos fala. Sempre trago pessoas mais inteligentes, mais interessantes em mais pegaduras de pênalti do que eu e você que tá aí. Quem que tá aí comigo no controle, na operação? Quem vai falar comigo hoje?

JP Castilhos:Fala, Vilela, JP Castilhos da Nexus aqui, tudo bem?

Rogério Vilela:Tudo bem, cara. Estamos falando de onde? Fala pro pessoal aí onde a gente tá.

JP Castilhos:Estamos falando diretamente de New Jersey com uma vista incrível para Manhattan. E hoje temos simplesmente o jogo entre Brasil e Marrocos na estreia da Seleção Brasileira.

Rogério Vilela:Tensão total. Então, para aliviar a tensão, a gente vai gravar esse podcast que vai ser muito divertido, muito legal, aqui com o X. Já viram o nome dele, mas não sabia que ele chama X também. Ó, mostra, tá mostrando o visual. Quando eu abrir na câmera geral, vocês vão ver, não é chroma key, não é uma pintura aqui atrás, estamos realmente com essa vista maravilhosa, skyline de Nova York. E é o seguinte, cara, qual que é o seu placar aí? Vou chamar de diretor, posso chamar diretor?

JP Castilhos:Fica à vontade.

Rogério Vilela:Diretor, qual o placar para hoje?

JP Castilhos:Hoje é 3x1 Brasil.

Rogério Vilela:Eu 2x0.

DIEGO ALVES:Diego, 1 a 0.

Rogério Vilela:1 a 0. Já se apresenta para tua câmera, fala para o pessoal que não te conhece. Como você se apresentaria para quem não te conhece?

DIEGO ALVES:Bom, eu sou o Diego Alves, ex-goleiro do Flamengo. Joguei pouco tempo, quase 25 anos profissional. Tive diversos enfrentamentos com grandes jogadores.

Rogério Vilela:Tem um cara, tem um que é conhecido aí, um, é, alguns Messi.

DIEGO ALVES:Exato. Meus amigos lá em Ribeirão Preto me chamam de X, como você me apresentou. X porque eu tive uma infância fisicamente, vamos dizer, um pouco diferente dos meus amigos. Eu sempre fui apaixonado por futebol, mas devido a uma paralisia facial, eu tive que fazer um tratamento à base de corticoide durante muitos meses.

Rogério Vilela:Aí incha pra caramba.

DIEGO ALVES:Fiquei muito inchado. E o apelido vem daí, esse apelido carinhoso dos amigos de X Tudo.

Rogério Vilela:Ah, por quê? Comia o que viesse.

DIEGO ALVES:É o lanche maior, né?

Rogério Vilela:É o lanche maior.

DIEGO ALVES:Eu era muito grande na época.

Rogério Vilela:Sabe que uma vez eu pedi um x-tudo, veio um cabelo, veio um fio de cabelo. Eu reclamei, ele falou: "Você não pediu um x-tudo? Você não pode reclamar." É tudo que vem, né? Mas é o seguinte, então, da paralisia não ficou nenhuma sequela, né, cara? Você não ficou com nada no rosto?

DIEGO ALVES:Não, na verdade eu tive uma infecção no ouvido, que transmitiu para uma paralisia facial devido ao tratamento que eu tava fazendo. E na época eu assustei muito, porque eu acordei, olhei no espelho, quando eu olhei eu vi que tava já um pouco torto, assim, puxado a cara. Quando eu dei a risada, eu fiquei tipo igual o Rambo, sabe? Quando ele sai atirando com a boca torta. Exatamente. No momento eu comecei a rir, mas depois eu comecei a chorar, porque eu vi que não voltava. Cara, depois que eu vi que era uma coisa muito séria, eu era muito pequeno na época, tinha 8, 9 anos ali.

Rogério Vilela:E a molecada não perdoa, né?

DIEGO ALVES:Não perdoa. Mas eu continuei jogando futebol mesmo assim. Eu lembro que os meus amigos, quando me viram depois do tratamento, eles se assustaram um pouco, porque foi um tratamento que eu tinha que tomar corticoide todos os dias, cara, e foi assim que surgiu o X, né? O X de X Tudo.

Rogério Vilela:Vamos falar da sua infância. Antes de mais nada, você que tá no chat aí pode mandar seu Super Chat, mas a gente não vai ler porque isso é um programa gravado, como a gente disse aqui durante o— que dia que é hoje? Hoje é dia Dia 14, né? Dia 14, primeiro jogo. Dia 13, primeiro jogo do Brasil aí, no dia 13, para dar sorte, né? Vamos falar da sua infância, cara. Sério, desde criança, como toda criança, falava que queria ser jogador de futebol ou pensava em ser outra coisa também?

DIEGO ALVES:Não, eu sempre gostei do futebol, né? Meu pai quase se tornou um jogador de futebol, mas eu também nunca fui forçado a jogar.

Rogério Vilela:Quase se tornou.

DIEGO ALVES:Na época era uma época muito difícil, época que ele vivia, e teve que escolher entre futebol e o trabalho que ele sustentava a casa dele.

Rogério Vilela:Cara, mesma coisa com meu pai. Eu perguntei por que meu pai jogou no Pennapolense e eu falei: por que que você parou de jogar futebol? Ele falou: porque você nasceu.

DIEGO ALVES:Exatamente. Naquela época era mais difícil, né? Pessoal tinha que trabalhar e colocar dinheiro em casa, uma família muito grande.

Rogério Vilela:E o pessoal não sabe, né? É uma pirâmide que poucos jogadores ganham bem, né? A maioria ganha pouco, é difícil.

DIEGO ALVES:É um percentual muito pequeno dos jogadores que chegam.

Rogério Vilela:Então assim, De quem esse sonho então que ele passou para você?

DIEGO ALVES:Eu tive, mas não foi uma coisa muito forçada do meu pai. Eu já nasci gostando. Então meu pai, como ele sempre gostou de futebol, já passado alguns anos, ele, eu ia com ele, acompanhava ele jogar e sempre brincava.

Rogério Vilela:Você nasceu onde?

DIEGO ALVES:Eu nasci no Rio de Janeiro, mas tive a minha infância toda em Maceió. Meu pai foi transferido de trabalho e a gente teve 6 anos que a gente morou em Maceió e foi ali que eu comecei a entender um pouco mais, a gostar de futebol. E eu acompanhei meu pai em todos os lugares. E meu pai, uma pessoa muito tranquila com respeito a isso. E ali começou a nascer essa paixão pelo futebol. Logo de Maceió, a gente mudou para Belém do Pará, e depois a gente foi para São José dos Campos. Em São José dos Campos foi onde eu comecei, vamos dizer assim, oficialmente a jogar de goleiro.

Rogério Vilela:Com que idade?

DIEGO ALVES:Eu tinha ali meus 7, 8 anos.

Rogério Vilela:Você era ruim de bola? Não, porque normalmente quem vai para o gol é o cara que é ruim de bola na linha. Tipo, vai, fica no gol. Não era isso.

JP Castilhos:Porque, cara, quando a gente é moleque, não sei se é na sua época, Jogar na linha?

Rogério Vilela:Ninguém queria ser goleiro.

DIEGO ALVES:Ninguém queria, mas eu queria.

Rogério Vilela:Por quê?

DIEGO ALVES:Porque eu gostava.

Rogério Vilela:Mas você tinha ídolos de goleiro?

DIEGO ALVES:Tafarel foi uma referência minha. Eu sempre observava muito o Zete naquela época.

Rogério Vilela:E tinha altura também, né?

DIEGO ALVES:Veloso. Uma época do futebol raiz, né? Aquele futebol que quem acompanha tem até saudade.

Rogério Vilela:Ronaldo, Vitor Hugo. Aqueles uniformes largos, né? Os caras ficavam pequenininhos, que nem o calção.

DIEGO ALVES:Uma delícia, né? Eu gostei. Eu sempre acompanhei, eu sempre gostava. Mas eu brincava de futebol na linha com os meus amigos. Em São José dos Campos, quando eu comecei a jogar no futebol de salão, foi quando eu fui pra goleiro. O gol era menor, eu me sentia bem ali. Então aquela bolinha coquinho, né? Aquela bolinha coquinho dura, machuca, velho. Mas ali eu comecei a tomar gosto por ser goleiro. Eu sempre montava um colchão dentro de casa, num armário que tinha. O armário era o gol. E eu colocava dois colchões assim, meu irmão jogava a bola e eu pulava e gritava o nome dos goleiros, pegava e caía. Que legal! Então eu sempre tive essa paixão por ser goleiro, mas no futebol de salão foi onde eu comecei a ver que a realidade era um pouquinho diferente, era difícil. Sim. E ali foi onde eu tive os primeiros contatos ali como goleiro.

Rogério Vilela:E aí, para o campo, como foi essa passagem?

DIEGO ALVES:São José dos Campos, depois eu vou para Ribeirão Preto. Ribeirão Preto, meu pai se aposenta, nós vamos para Ribeirão Preto. Em Ribeirão Preto eu começo a jogar no campo em frente à minha casa, que era o time do bairro, eu jogava na linha. Mas num clube amador que tinha, que meu pai ia todo final de semana, eu jogava no gol. Então eu sempre jogava na linha, jogava no gol, jogava na linha, jogava no gol. Eu gostava. Então terça e quinta brincava com meus amigos e sábado jogava as competições regionais ali de goleiro. E ali eu comecei a entender que o goleiro era uma situação bem mais difícil porque o gol era maior, eu era pequeno. E entra a paralisia facial também, o porte físico meu era um porte físico gordo, mais forte.

Rogério Vilela:Ainda não tava magro.

DIEGO ALVES:Não, ali é onde eu tenho o ápice, vamos dizer assim, que eu era que eu era bem gordo, né, por causa da paralisia facial. Mas mesmo assim eu continuei jogando como goleiro, mas eu sempre sobressaí nessas situações. Eu sempre fui um bom goleiro, é mesmo, sempre foi um bom goleiro, mesmo pelo meu porte físico eu sempre me destacava nos meus amigos.

Rogério Vilela:Que você conseguiu entrar em forma e tal?

DIEGO ALVES:E treinando muito, treinando. Eu tenho até uma história que eu conto na minha palestra, que eu, como eu jogava de terça e quinta no campo de frente da minha casa, Eu sabia que eu tinha que perder peso.

Rogério Vilela:Quanto você tinha que perder nessa época?

DIEGO ALVES:Olha, eu não lembro muito bem o peso, mas ali eu tava uns 10, 15 quilos aí, no máximo. Uma criança era muito, né?

Rogério Vilela:Era muito.

DIEGO ALVES:Tava bem inchado na época. E eu começava a falar para minha mãe, eu falava: mãe, eu vou ali na praça jogar com os meus amigos. E eu não ia na praça, eu ia correr. Tinha um lugar em cima ali onde as pessoas faziam uma corridinha, caminhada, e E eu com 12 anos ali eu já comecei a correr, começava a me preparar porque eu sabia o que eu tinha que enfrentar. Mas dentro disso também eu sofri alguns preconceitos, vamos dizer assim. Imagino. No meu primeiro jogo ali com os meus amigos, um pai se levantou e falou pra mim, falou: "Quem é o goleiro?" Ele sabia quem era o goleiro, né? Mas ele falou: "Quem é o goleiro daqui?" Eu levantei a mão e falei: "Sou eu." E naquele momento, naquele exato momento, eu percebi, ele começou a rir na frente dos meus amigos, na frente dos pais. E ali eu tive a decisão, eu tomei uma decisão naquele momento que era: "Agora que eu quero." "Agora eu vou ser jogador, agora eu vou ser goleiro." Então, nesse mesmo jogo, quando eu termino o jogo, eu saio no portão e esqueço meus pais.

Rogério Vilela:Mas isso vem de vencedor, né, cara? De você falar: "Quanto mais coisa ao contrário eu tenho, quanto mais difícil, parece que dá mais gosto, né?" São obstáculos, né?

DIEGO ALVES:Na infância você quer provar. Hoje a gente já tá numa situação que a gente não precisa mais provar nada pra ninguém. Mas ali você quer provar que você tem condições.

Rogério Vilela:Você quer pertencer a um grupo, né?

DIEGO ALVES:Um momento bacana, porque depois desse jogo, que esse pai antes do jogo ele levanta e fala: "Quem é o goleiro?" E começa a dar risada. No pós-jogo, esse mesmo pai estava fora do portão e ele me para e fala: "Poxa, parabéns pelo jogo, defendi um pênalti, fui bem." Ele falou: "Você vai ser um grande goleiro, desculpa pela brincadeira." Então assim, desde o começo eu tive essa, não sei se preconceito não, não é preconceito, mas essa resistência pelo meu porte físico e tudo mais. E isso eu acho que me deu um motivo a mais para eu poder seguir na minha carreira.

Rogério Vilela:E aí, quando você viu que tinha jeito, o que você falou? Preciso treinar mais, preciso me alimentar melhor.

DIEGO ALVES:Aí você tem que pagar o preço, né? O preço para você se tornar um jogador, eu sabia que eu tinha que melhorar fisicamente. Isso era uma prioridade minha.

Rogério Vilela:A condição física de correr estava boa? Como que estava?

DIEGO ALVES:Não, eu corria 3 vezes na semana, meia horinha, 40 minutos. Falava com a minha mãe que eu ia brincar na praça, jogar bola com meus amigos e ia correr. Então assim, eu sabia que eu tinha que melhorar fisicamente. Mas passando o tempo, eu comecei a crescer, peguei aquela fase do estirão que todo mundo fala, e eu comecei a emagrecer, comecei a me destacar mais nesses torneios amadores que tinha em Ribeirão Preto, e fui chamado para o Botafogo de Ribeirão. No Botafogo de Ribeirão, que era o clube profissional da cidade.

Rogério Vilela:Alguém te descobriu? Tinha olheiro?

DIEGO ALVES:Como foi? Então, no meio desses jogos amadores que tinham entre clubes amadores, o Botafogo sempre jogava com a categoria de base. Botafogo e Comercial eram os dois times profissionais da cidade. Então, como eu me destacava, eu recebi o convite para ir lá treinar. Então, no primeiro treinamento que eu vou lá fazer, eu vou todo animado, pego a identidade. Na época, a gente tinha que se federar. Então, o pai, meu pai, pega minha identidade, vai na secretaria, dá a identidade para ser federado. Quando meu pai sai da secretaria, eu dou de frente com treinador de goleiro. E na época, um treinador de goleiro um pouco rude assim, um pouco grosseiro, né? Eu já conhecia ele porque eu tinha escutado dos outros goleiros. Quando eu dou de frente com esse treinador de goleiro, ele olha para mim e fala: "O Diego, tudo bom?" Eu falo: "Tudo bem." Meu pai do lado, ele fala: "Eu já percebi que você tem um grande problema e a gente vai ter que trabalhar muito aqui porque você tá muito fora de forma." Assim, desse jeito, na cara, na primeira. Falou: "Então aqui não é o clube que você jogava antes, aqui você vai ter que se dedicar muito, tal." Pô, eu me senti ali um pouco aquado, né? Eu senti ali um pouco indefeso naquele momento. E na hora que ele vira as costas e sai, eu viro pro meu pai e falo: "Pai, pode pegar a identidade, vambora pra casa." "Ô, louco, meu pai, não, mas..." Eu falei: "Pode pegar a identidade que eu não treino." Então assim, eu me senti mal naquele momento, por mais que eu tinha tomado a decisão de ser goleiro, mas eu preferi voltar pra minha zona de conforto, que era meu time que jogava aqueles campeonatos regionais. E eu pude ali voltar pra minha zona de conforto com os meus amigos, que mesmo me chamavam de X ali, mas eu me sentia bem, me sentia livre naquele momento. Eu volto para esse clube e continuo jogando da mesma forma, me destacando nos torneios e tudo mais. E passado alguns, sei lá, 6, 7 meses, eu recebo outro convite do Botafogo para eu voltar a treinar lá. E eu vou dar uma olhada para ver o que que tava acontecendo, e eu vejo que já tem um treinador de goleiro novo, que é o Leandro Franco, que hoje é treinador de goleiro do Vasco da Gama. Ele é treinador do time principal do Vasco da Gama. E já com uma abordagem completamente diferente, o Leandro, já do campo, me viu, falou— ele já me conhecia como X, né, na cidade me conhecia como X. E ele do campo falou: X, vem para cá, vem para cá, vem treinar. Eu já todo feliz fiz o mesmo trajeto. Meu pai foi lá, entregou a identidade na secretaria e eu desci para o campo para treinar. E ali foi onde eu comecei a treinar num, vamos dizer, num clube maior, né, nas categorias de base de um clube maior.

Rogério Vilela:E como que é? Como funciona isso? Você entra como reserva ou nem como reserva?

DIEGO ALVES:Então, ali naquele exato momento eu queria treinar, eu queria melhorar tecnicamente. Eu sabia que eu era um bom goleiro porque eu tinha personalidade, eu sabia jogar, mas tecnicamente eu ainda era muito verde, né, nesse sentido. Eu não conseguia ainda fazer coisas que os goleiros que estavam ali conseguiam, até mesmo levantar e ir para o outro lado. Existe uma técnica para você fazer isso e eu tinha essa dificuldade. E ali foi onde eu comecei a aperfeiçoar tecnicamente. Mas chegou o grande momento de começar a disputar a posição com o goleiro que era o titular. E essa posição de titular, ela é querida por todos ali. Todos os goleiros estão querendo jogar. Você está brigando ali com 5, 6, 7 goleiros. E eu sempre me destacava nos treinos, mas eu nunca tinha oportunidade de jogar.

JP Castilhos:Nunca.

DIEGO ALVES:Nunca tive a oportunidade de jogar assim na categoria de base, na escolinha do Botafogo de Ribeirão. E nesse ponto foi onde o Leandro Franco é uma pessoa muito importante na minha vida, porque foi onde ele direcionou para que eu treinasse sempre, não desistisse. Então eu sempre continuei treinando, treinando, mesmo sabendo que eu era melhor, que os pais também sabiam que eu era melhor que o outro goleiro que estava lá.

Rogério Vilela:É porque não é só ser melhor, né?

DIEGO ALVES:Tem que ganhar confiança, existem muitas coisas, tem preferências, tem tudo.

Rogério Vilela:Infelizmente Você tem que estar melhor e tá bem para quando surgir uma oportunidade você entrar e fazer o teu.

DIEGO ALVES:Porque eu vejo que talvez muitos jogadores que têm condição de chegar longe fica pelo meio do caminho nesse momento. E aí é uma situação que você talvez está perdendo uma grande oportunidade, ou talvez até mesmo o clube tá perdendo uma grande oportunidade de revelar o jogador. Pois é. Mas eu segui trabalhando, segui trabalhando.

Rogério Vilela:Ganhava alguma coisa?

DIEGO ALVES:Não, nada. Na época era escolinha ainda, né? 15 anos eu tinha. Eu tinha 14 para 15 anos, já tava numa fase já mais adolescente.

Rogério Vilela:Não tinha ajuda de custo, nada?

DIEGO ALVES:Não, nada. Só tinha ajuda de custo quando você subia pro Botafogo mesmo, né, que a escolinha era uma, era como se fosse terceirizado, vamos dizer assim. Você subia pro Botafogo e ali se você assinasse um contrato profissional você começava a ganhar já um salário.

Rogério Vilela:Entendi.

DIEGO ALVES:Era baixo na época, em torno aí de R$300. Mas eu por não ter essa oportunidade de jogar E aí eu acho que entra muitas pessoas que entraram na minha vida nesse sentido, me ajudaram muito, né, na direção. Eu fui jogar uma competição fora do Botafogo, um quadrangular lá dentro de Ribeirão Preto mesmo. Eu fui jogar por outro time, por um ex-treinador meu do clube amador. Fez um quadrangular e jogou, e nós fomos campeões desse quadrangular. Nesse quadrangular eu fui o melhor goleiro e o nosso time foi campeão, eu defendendo pênalti.. E na entrega de medalhas eu encontrei um ex-goleiro, foi entregar, que era o treinador do time que jogou contra na final. Ele chegou em mim e falou: pô, parabéns pelo grande jogo que você fez, você vai ser um ótimo goleiro. E aí ele perguntou para o meu pai: onde que ele tá jogando? Meu pai falou: pô, ele tá no Botafogo, na Escolinha, mas ele não tá jogando, ele tá um pouco triste hoje porque ele não joga. E ele treina, tem condições, mas não joga. E ele tá querendo buscar outro lugar. E esse cara falou: não, não faça isso, não faça. Ele ano que vem vai estar na idade de juvenil e eu estarei lá porque eu vou ser o treinador do juvenil do Botafogo. Ele falou: não, não, eu quero ele no meu time. Meu pai falou: que tá acontecendo? Pô, beleza, a gente já tinha decidido ali, pô, vamos para outro lugar para jogar, porque a gente quer jogar. Então, passando alguns meses, Esse treinador foi contratado pelo Botafogo e no outro ano eu já era parte, eu era o goleiro do time dele do Sub-16 do Botafogo.

Rogério Vilela:E aí?

DIEGO ALVES:Primeira competição na Irlanda do Norte. Por quê? Porque foi uma competição que o Botafogo foi convidado. Cara, que louco isso! Contra Manchester, contra times assim da Europa toda, né? E a gente jogou esse campeonato e eu fui um dos melhores goleiros do campeonato. A gente ficou em terceiro lugar.

Rogério Vilela:Olha!

DIEGO ALVES:E dali, quando eu volto, foi assim, meu primeiro jogo como titular, vamos dizer. Joguei alguns jogos no infantil com outro treinador, mas não era frequente, eu não tinha uma sequência de jogos. Só que o Celso Cajuru, que é o ex-treinador, ele chegou, me colocou para jogar, e eu joguei essa competição. Quando eu volto, eu já volto com Botafogo querendo fazer um contrato profissional comigo. E é quando eu faço meu primeiro contrato com 16 anos, meu contrato profissional. E aí eu começo a minha trajetória dentro do clube.

Rogério Vilela:E aí, como foi para você nessa hora? Meio que falou: consegui, é isso que eu quero para vida, ou você ainda tinha dúvidas? Como que é?

DIEGO ALVES:Não, eu tava muito feliz porque era um objetivo, foi cumprido uma meta. Até você chegar ao Botafogo de Ribeirão, que era o clube, você tinha que passar por algumas fases. E eu, quando eu chego na escolinha, eu tô um passo atrás dos outros.

Rogério Vilela:Pois é.

DIEGO ALVES:Então eu consegui cumprir uma meta curto prazo. Só que quando você se profissionaliza, você já tá sabendo que o clube tá com interesse em você, quer que você tem que seguir progredindo, não adianta. E eu continuei. Quando eu volto com 16 anos, já começa a treinar com profissional, e eu treinava com profissional e jogava para o juvenil e para os juniores. Que louco isso! Que idade eu tinha ali? Já 16 anos.

Rogério Vilela:Então ali foi muito rápido, já tava, já tava magro, já tava, já tava magro.

DIEGO ALVES:E depois, quando eu Então, quando eu vou para um campeonato na Alemanha depois, com juvenil, quando eu já tinha 17 anos, eu sou o melhor goleiro nas 3 competições que a gente jogou lá. Foi 20 dias de competições, jogou 3 competições em cidades perto. Eu fui eleito melhor goleiro nas 3. Quando eu volto, eu sou convocado para seleção sub-18, cara. E aí, goleiro, primeiro goleiro convocado para seleção brasileira sendo jogador do Botafogo de Ribeirão Preto. E aí muda tudo, né? Aí muda o status. Mas aí dentro da seleção eu começo a ver que eu tô disputando com os melhores goleiros do Brasil. E eu sendo goleiro do Botafogo de Ribeirão, com todo respeito e carinho, existe um peso grande. E ali eu comecei a perceber que eu tinha que dar um passo a mais.

Rogério Vilela:Você tinha um sonho? Você tinha um time que você queria chegar ou não?

DIEGO ALVES:Não, eu não tinha um time. Eu queria dar um passo maior, sabia que para dar um passo maior eu não podia escolher qualquer Eu não podia falar: "Eu quero ir para o São Paulo." Eu não podia fazer isso. E nessa época a gente tinha a Copa São Paulo, que era a competição mais importante.

Rogério Vilela:Que revela a galera.

DIEGO ALVES:Hoje já existe Libertadores, Campeonato Brasileiro. Hoje é uma delícia jogar Sub-20, Sub-17. Então eu vou para a Copa São Paulo, eu sou um dos destaques, e no último jogo um dirigente do Atlético Mineiro estava no estádio vendo, para ver outros jogadores. Como eu me destaquei, ele falou: "Poxa, eu vou contratar esse goleiro." Passados alguns meses, eu vou para o Atlético Mineiro. Pô, com 18 anos. Só que eu vou para a categoria de base do Atlético Mineiro, para o Sub-20. Então eu já tinha uma bagagem de profissional, já tinha sido convocado.

Rogério Vilela:Mas é assim o caminho mesmo? É esse o caminho normalmente que faz?

DIEGO ALVES:É esse o caminho. É esse caminho. Muitos pais hoje perguntam para mim: pô, Diego, eu quero levar meu filho com 11, 12 anos lá para um time grande. Assim, sinceramente, eu acho isso uma loucura. Alguns fazem isso, alguns fazem, mas no meu caso eu acho que O jogador, ele tem que jogar para aparecer. E se ele for bom mesmo, provavelmente vai ter uma pessoa olhando e vai ter uma pessoa que vai levar para um time melhor. Alguns não acertam de ir para um time grande logo no início.

Rogério Vilela:E talvez fica mais escondido no time grande, é muita gente.

DIEGO ALVES:Eu tenho filho de 12 anos e eu não vejo hoje meu filho indo sozinho para um lugar ficar em um alojamento. Eu acho que você acaba até perdendo parte da criação do teu filho. Você não sabe o que pode acontecer. Mas no meu caso, eu procurei jogar. Ao invés de sair por um desespero, eu procurei jogar. E dentro do que tanto eu confiava na minha capacidade de jogar, eu sabia que alguém uma hora ia olhar para mim e ia falar: "Pô, esse goleiro é bom." Tanto que eu conquistei a seleção brasileira jogando pelo Botafogo de Ribeirão Preto. Então quando eu chego no Atlético, eu já chego no Atlético nos juniores, no sub-20, vamos dizer, conhecido, porque eu já era convocado, já tinha uma fama, um status. Mas não foi fácil não, lá também tive que passar por vários obstáculos.

Rogério Vilela:E lá como foi?

DIEGO ALVES:Lá já fora da casa dos meus pais, né, cama diferente, comida da mãe não existia mais. E quando eu chego no Atlético Mineiro, eu me deparo com uma situação real de que era completamente diferente do que eu tinha vivido. Saudades da família, noites chorando com saudades e tudo mais. Mas ali é aquele momento, eu começo a me dedicar mais ainda. Eu começo a me dedicar muito mais, começo a treinar, começo a entender, a tentar fazer um ciclo de amizade novamente, porque eu não conhecia, o time já estava formado. Então quando você chega num lugar que já tem um time formado, é difícil para você entrar, você tem que se adaptar, se acostumar, conhecer os novos amigos. Então passei ali por um período de adaptação de uns meses, mas já jogando como titular na equipe de juniores e sendo convocado pela Seleção Brasileira. Então isso me ajudou muito a ganhar um pouco mais de força dentro do clube. Então foi assim o meu começo nas categorias de base. E já no final desse ano eu já fazia parte do time principal do Atlético Mineiro. Poxa, terminei o ano na reserva do Darley, que era o goleiro, em 2004.

Rogério Vilela:Eu tô falando, e goleiro é uma posição difícil, né, de entrar, porque é uma coisa de confiança. E goleiro fica muito tempo num time. E eu vejo que o reserva, cara, eu lembro do Walter, que era um goleiro fantástico, ele ficou muito tempo no Cássio, ele, cara, quando que eu vou?

DIEGO ALVES:E quando ele saiu para jogar, olha o sucesso que ele teve.

Rogério Vilela:Exato, porque é isso, né? Você fica num grande clube esperando sua chance e entra muito pouco, né? Porque goleiro joga muito, né? É diferente do pessoal de linha. Então eu acho que passa sempre na sua cabeça isso, né? Espero a minha chance. E quando, quando que vem chance? É quando você menos espera, por exemplo, ou às vezes é por algum tipo de descanso ou várias competições.

DIEGO ALVES:No meu caso, quando eu começo a a integrar o time profissional do Atlético Mineiro, para eu me tornar reserva, teve que acontecer vários fatores ali. Por exemplo, eu era o 5º goleiro do profissional.

Rogério Vilela:Ih!

DIEGO ALVES:Eu era o 5º goleiro do Atlético. Um machuca, aí o outro que era o titular no Campeonato Mineiro brigou na final, pegou uma suspensão de não sei quantos dias.

Rogério Vilela:Aí vai para o segundo.

DIEGO ALVES:O outro machucou, Diego vai para segundo. Subi para segundo.

Rogério Vilela:Você foi para segundo?

DIEGO ALVES:Fui para segundo. Terminei o ano no banco em 2004. E ali eu já comecei, foi quando eu ganhei meu primeiro bicho, vamos dizer assim, de primeiro bicho do jogador mesmo assim, que foi uma premiação pelo Atlético ter ficado na primeira divisão. Naquela época o Atlético tava numa situação bem difícil, então foi ali que eu comecei a entender o quão grande era o Atlético também, torcida, massa, cidade, paixão, completamente diferente. Sai de Ribeirão Preto, cidade do interior, de um clube que eu tenho um carinho, mas não é do tamanho do Atlético. Então foi, foi bem, bem diferente, mas um aprendizado maravilhoso. Maravilhosa.

Rogério Vilela:E lá dentro, chegou nesse começo, é no treino, faz diferença mesmo para goleiro também você ser muito bem no treino?

DIEGO ALVES:O treino é tudo.

Rogério Vilela:Então, mas mesmo sendo bem no treino, é diferente, tem que ter oportunidade. E quando que surgiu essa oportunidade?

DIEGO ALVES:Mas você, vamos lá, você indo bem no treino, você talvez vai fazer o treinador gostar de você, ter confiança em você. Então, por exemplo, quando tinha os jogos do time principal com time sub-20, para mim era o jogo da minha vida.

Rogério Vilela:Tem que mostrar.

DIEGO ALVES:Eu sempre me destacava nesses jogos. Então quando eu me destacava, no outro dia o treinador já me puxava para treinar junto. Entendi. Então você vai ganhando uma confiança até o momento que você começa a ir bem nos treinos e os próprios jogadores falam: pô, aquele goleiro ali interessante, ele é bom, hein? E chegando até o treinador. E aí a partir do momento você já tá integrado ao time profissional. E a partir dali É cada um brigando para a sua posição, esperar a chance. Mas na minha época existia muito aquela, vamos dizer, aquela lenda, né, de que o goleiro tinha que ser experiente, que o goleiro mais velho, goleiro. E eu tinha 18 anos, cara, eu tava com goleiros ali consagrados já. Então eu tinha que treinar, o que eu podia fazer era tudo baseado no meu treino. E aí, entre 2005, entre 2005, depois de 2004 terminar esse ano no Atlético Mineiro, em 2005 eu começo já pretemporada já junto do time profissional, que aí eu já é, você já viaja, já fica com o time profissional, concentração. E naquele, naquele ano a gente tem um Campeonato Mineiro difícil ali, não conseguimos ser campeões, e entra o Campeonato Brasileiro. No Campeonato Brasileiro eu tenho a minha primeira oportunidade de jogar, que era uma situação bem complicada, era um jogo contra o Fortaleza E o Fortaleza brigava com o Atlético para entrar na zona de rebaixamento. O Atlético tava ali bem baixo na tabela e o Darley, ele é suspenso e surge a oportunidade de jogar nesse jogo, vamos dizer, mais difícil da temporada. Pedrada! Eu batei no peito, falei: vou para dentro! Tava bem, me sentia bem, treinei bem. Só que lógico, a gente é novo, a gente não tem a dimensão do tamanho do jogo, né? Para os torcedores era jogo de vida ou morte. E naquele jogo ali a gente começa 2x0 o jogo e eu já pensando: nossa, ganhamos 2x0, que maravilha, vou dar entrevista, vai sair minha cara no jornal. E no segundo tempo o Fortaleza em 5 minutos vira para 3x2. E naquele jogo ali eu não vou tão bem, talvez pelo momento do time, né, não foram falhas grotescas, mas alguns erros técnicos, e a gente perde por 3x2. E aquele jogo ali eu saio vaiado de campo da torcida. Meu primeiro jogo no Campeonato Brasileiro, saio vaiado da torcida do Atlético Mineiro. Eu que era considerado o goleiro, um deu prodígio da base, seleção brasileira, surge a maior oportunidade da minha vida, que é jogar um jogo no Campeonato Brasileiro, que é o sonho, e eu saio vaiado de campo. E ali é um momento, acho que um dos momentos que eu mais aprendi dentro do profissional, porque a minha carreira Começou ao revés, né? Começou o inverso. Todo mundo pensa em começar ganhando bem, títulos, mas ali eu já comecei sendo vaiado pelo estádio, pela própria torcida. E ali, quando eu saio de campo, então quando eu saio de campo, a primeira pessoa que eu ligo é o Leandro Franco. Leandro Franco é o treinador de goleiro que tava lá na base, que eu falo: Leandro, e agora? Acabou, cara.

Rogério Vilela:Ah, você falou isso?

DIEGO ALVES:Acabou. Pensei na hora assim rápido, tinha acabado de sair do vestiário, falei: não jogo mais. Pô, eu tinha 19 anos ali, eu tava numa fase que eu não entendia muito bem aquilo ali. Eu falei: "O que aconteceu comigo?" Então, com 19 anos, eu tenho essa situação onde eu, quando eu chego no ônibus, eu ligo pro Leandro, a primeira pessoa que vem na minha cabeça. Só que quando eu cheguei em casa, ali o meu pai, eu ligo pra minha família, né, eu falo: "Pai." E aí ele falou: "Filho." Eu lembro até hoje dessa frase porque é uma frase que pode ter mudado também a minha vida. Ele falou: "Filho, eu..." "Olha, nossa casa aqui tá de portas abertas para receber você, independente do que aconteça. Você tem a tua casa, você tem teu pai, tua mãe." Só que ali naquele momento eu falei: "Não, eu vou ficar." Falei: "Não, eu vou ficar e vou jogar. Eu vou continuar aqui." Falei: "Não, não tem outra opção. Eu vou voltar, vou treinar." Passados alguns minutos de chegar do estádio em casa, eu já virei a chave, falei: Eu vou continuar. E ali foi onde eu tive que dar a volta nessa situação. E você imagina você sair de casa e você ser xingado, ser perseguido. Eu morava, já não morava mais no alojamento, morava sozinho. Quando eu ia almoçar, tinha uma banca na frente do restaurante. Depois desse jogo, eu passava na banca, o moleque falava: você não tem vergonha de estar aqui? Não, o que você tá fazendo aqui? 'Olha o que que você fez, você tem que ir embora daqui.' Uma senhora, caramba, que era simpática até antes do jogo, era simpática, né? Depois não é. Então eu comecei a entender que ali eu tava vendo um caos mesmo ali, era um momento muito difícil. Os torcedores, eu não podia— a gente não terminou a temporada no jogo do Fortaleza, teve mais alguns jogos, mas o final da história é que o Atlético acaba sendo rebaixado. E a cara do rebaixamento Foi eu, tipo, o Diego é o culpado pelo rebaixamento. Uma pessoa jogou um jogo, um jogador jogou um jogo de 38 rodadas. Então assim, é normal, é talvez a cultura nossa de querer culpar, encontrar algum culpado, e naquela ocasião eu fui o escolhido. Então eu sabia que eu tinha que passar por esse grande obstáculo novamente. Então se você olhar para minha vida atrás, eu sempre fui tendo obstáculos que eu tive que superar E toda vez que eu superava, eu vinha mais forte. Então termina o ano de 2004 com Atlético rebaixado e começa o ano de 2005 com Atlético na Série B e com um novo treinador. E aí eu começo a entender o tamanho da situação que era o Atlético na segunda divisão.

Rogério Vilela:E aí, o que que passa pela tua cabeça? Vou voltar a treinar, só treinar, não pensou em sair do clube para outro?

DIEGO ALVES:Eu tive algumas resistências dentro do clube É, inclusive tentando tirar você, pessoas que de dentro do clube que chegava em mim falava: Diego, você não vai embora, cara? Você tem que ir embora aqui, você não aguenta muita pressão, você não vai jogar aqui, eu acho que não tem mais conexão com a torcida. Isso que eu só tinha jogado um jogo. E eu falava: não, eu vou continuar, eu vou continuar. E continuei treinando, passou o Campeonato Mineiro, entra a Série B. E eu, olha, eu tô falando Joguei em outubro de 2005 o jogo contra Fortaleza. Em agosto de 2006 eu volto a jogar novamente pela 13. Quase um ano que eu fiquei treinando, escutando, treinando, treinando.

Rogério Vilela:Um ano só depois. E como foi essa volta?

DIEGO ALVES:Então, o goleiro titular ele é vendido na época, e eu lembro muito bem que o treinador era o Leverkupp. O Levi, um cara que eu tenho muito carinho, mas na época muito turrão também, muito, né? E ele cobrava muito os jogadores. E quando ele chega, a gente faz uma pré-temporada num lugar afastado em São Paulo, acho que era em Atibaia, se não me engano. E a gente treina muito, faz, eu faço uma pré-temporada muito boa lá com ele. Quando eu volto, passa uma semana, o goleiro é vendido. Só que na mesma hora que ele é vendido, já começa a sair na imprensa que o goleiro tinha que ser contratado, tinha que ser contratado um novo goleiro, achar alguém para. E aquilo mexeu comigo porque era minha oportunidade, a minha oportunidade única ali de poder reverter isso na minha vida. Então, em determinado momento, quando saem as notícias, acaba um treinamento. Eu com 19 anos, novo, né, vou lá na sala do treinador, bato na porta, ele fala: "Entra aí." Quando eu entro, na frente eu e Levi, e eu falo: "Professor, tudo bem?" Ele fala: "Opa, tudo bom?" O que você quer? Eu falei, olha, eu preciso de 5 jogos. Eu preciso de 5 jogos na minha vida para te provar, para eu provar que eu tenho condições de ser titular. Não é 1, 2, 3, 5, porque eu sou goleiro, é consistência, né? Não, e o goleiro ele não consegue provar 1, 2 jogos que ele tem. Com 5 você consegue analisar muito melhor o goleiro. Foi, eu preciso de 5 jogos. E se você depois de 5 jogos quiser me dispensar, me mandar embora, 'Fica à vontade.' Eu tenho certeza que depois de 5 jogos eu vou jogar com você. Ele olhou para mim assim, deve ter pensado: 'Esse moleque atrevido veio fazer aqui, né?' Ou não, né?

Rogério Vilela:Os caras acho que gostam.

DIEGO ALVES:Ele olhou para mim, ele falou: 'Tá bom, você vai ter seus 5 jogos.' Eu falei: 'Pô, obrigado.' Virei as costas, saí. Quando eu fechei a porta, eu falei: 'Meu Deus, o que que eu vou fazer?' Falei: o que que eu fiz? Mas não tinha volta, já tinha perdido, já tinha, né, demonstrado essa confiança. Volta a treinar. E ali eu tenho meus 5 jogos. Nesses 5 jogos eu sou um dos melhores em campo. Eu faço uma estreia lá em Belém.

Rogério Vilela:E a estreia, como foi? Já foi boa?

DIEGO ALVES:Foi 2x2, mas eu fui muito bem no jogo. Então a gente joga 5 jogos, dos 5 a gente ganha 3, empata 1 e perde 1. Mas eu bem. E a partir dali, dentro desses 5 jogos, eu tenho a volta no Mineirão. E aí? Esse dia foi tenso. Imagina! Porque assim, eu sabia que a torcida não ia me vaiar novamente. No começo ainda tinha um burburinho, porque assim, você sente na época, na nossa época raiz lá, vamos dizer, lá atrás, a gente só sabia o termômetro da torcida quando entrava em campo. Então não tinha aquele "Uau, uau, uau" no estádio, você falava: o negócio não tá legal." Ou você errava o primeiro passe: agora você já sabe na rede social que no domingo que vem eles vão xingar. Então assim, já tá preparado. Mas nesse jogo, foi um jogo contra Curitiba, eu vou muito bem no jogo também, a gente ganha esse jogo por 2 a 1. E ali eu vejo que a torcida tava legal comigo, tava bem, não vaiar. Eu saí, eu saí de campo com a torcida aplaudindo. Só que era um processo, né? Eu tava no meu 5 primeiros jogos ali depois daquela tragédia lá em 2005. E eu começo jogando, começo bem, começo a me tornar um dos destaques da equipe, foi eleito o melhor jogador, e eu termino campeão da Série B, melhor goleiro da competição. Foi ali que eu me torno goleiro, e ali eu já consigo ganhar o respeito, confiança. E também eu acho que essa história de você dar a volta por cima de uma situação ruim, eu acho que isso também traz muito torcedor, porque a gente "Mas a gente foi mal com ele lá atrás, a gente foi mal, então eu termino o ano." Cria uma casca também, né?

Rogério Vilela:Você já fica mais forte para o que vem. E a transferência para a Espanha acontece no final do ano?

DIEGO ALVES:Então, não, aí eu sou campeão brasileiro da Série B em 2006. No começo de 2007 nós nos tornamos campeões mineiros, faziam 7 anos que o Atlético não era campeão mineiro, e eu sou eleito melhor goleiro também. E aí já entra uma fase diferente, que era a fase que eu não conhecia, que era a fase do desfrutar dos jogos. Entendi, jogava com alegria. Entra o Campeonato Brasileiro novamente da Série A, depois de, tô falando, 2 anos quase. Começa a me destacar. E o Almería, depois veio o Betis, veio o Lásio, mas o Almería na época fez a melhor proposta para o Atlético. E eu lembro que o presidente me chamou na sala, falou: olha, da nossa parte tá tudo ok, acerta tua parte, porque teu sonho é jogar na Europa. Eu falei: é. Ele falou: então você "Tem o seu sonho aí para ser realizado." E eu aceitei a proposta e fui para o Almeria no começo, no meio de 2007, junho. Junho de 2007 começa a negociação, julho apresento no Almeria.

Rogério Vilela:E como foi chegar num país novo? Imagino que não, você jovem, cultura diferente, língua diferente, alimentação, como que foi esse começo lá?

DIEGO ALVES:Meu sonho era, naquela época quando eu vou para a Irlanda do Norte, lá atrás, que eu falei que foi minha primeira competição. Quando eu volto, eu falo para minha mãe: mãe, um dia— não, eu falei: eu vou cedo para a Europa. Ela falou: você tá louco, menino? Falei: eu vou cedo, mãe. Ela falou— e aí, quando eu tenho essa oportunidade, 2007, eu já tinha o passaporte italiano, e isso me ajudou muito também a poder ir cedo para a Europa, porque você, antes, para ser goleiro contratado, os times preferiam contratar talvez um atacante, que tinha limite, né, de estrangeiro. Então eu com passaporte facilitou essa minha ida para Europa. E chegando lá, um novo mundo, novo cenário, um time. Eu saí do Atlético Mineiro com 75 mil pessoas para um estádio de 15, 20 mil jogando a primeira divisão espanhola. Então assim, eu fui para um time modesto lá da Europa. Inclusive o Felipe Melo tava lá nesse time, ele que me liga, fala: pô, vem, o time é bom. E eu tenho um carinho especial porque o Felipe foi muito importante nessa transição lá para Europa, né? Imagina, ele foi um cara muito me transmitia muita confiança. Então eu saio do Brasil e vou para Europa, vou com essa— eu acho que a porta inicial para entrada na Europa foi o Almería na época. O que que acontece? Os jogadores de hoje, eles acham que é normal você sair de um time grande e você já chegar num time grande na Europa. Muitos vão para time grande direto e tem que bater e voltar, ou bater e ser emprestado. Por quê? Porque ainda não tá adaptado. Então, o normal é você ir para um time menor, se fazer ali como um grande jogador internacional, dali você ir para um time grande. Então, muitos que chegaram nos times grandes lá, jogadores, eles passaram por esse processo de time pequeno. Então, antes era normal você ir para um time menor para você progredir. Isso eu posso falar, pô, tô falando do Felipe Melo, depois Felipe Melo foi para Fiorentina, Juventus, Felipe Luiz, Alguns já vão direto para time grande, vão, dão certo, dão, mas é um percentual muito baixo. Então Almería para mim foi uma porta de entrada onde eu ia jogar a primeira divisão contra Barcelona e Real Madrid, que eu jogava só no PlayStation. Eu jogava só no PlayStation, quer dizer, nem PlayStation era na época, né? Era outro, não tinha PlayStation, jogava no— mas era a oportunidade que eu tinha.

Rogério Vilela:Como que era, cara, enfrentar esses times num estádio lotado?

DIEGO ALVES:Aí eu tinha É assim, eu tinha uma personalidade muito forte, uma confiança em mim. Isso não quer dizer que eu não tinha medo. O medo, ele anda, você tem que saber controlar o seu medo.

Rogério Vilela:Se você não tiver medo, você é um psicopata, né?

DIEGO ALVES:Se você deixar o medo te controlar— Então, quando eu fui fazer meu primeiro jogo contra o Barcelona, um treinador brasileiro, lá no campo deles, lotado, 90 mil, 95 mil.

Rogério Vilela:Sua sensação de entrar no campo e ver aquela—

DIEGO ALVES:Então, no meio do jogo, Para mim era tranquilo, porque eles não gritam como a torcida do Brasil.

Rogério Vilela:Ah, não é assim?

DIEGO ALVES:Eu saí de 75 no Mineirão gritando o jogo inteiro, foguete, você falava, nossa, gramado tremia.

Rogério Vilela:Saiu os cara, os cara vira teu carro aqui no Brasil.

DIEGO ALVES:Lá é uma torcida, é um evento lá, a torcida vai aplaudir, o protesto maior deles, eles tiram um lencinho branco e eu falei, caramba, esse que é o meu mesmo. Então assim, eu tava numa situação, mas mesmo assim existia o nervosismo profissional, porque ali era o que era Barcelona. E o templo do futebol lá, um lugar que eu, quando eu chego, meu treinador de goleiro fala uma simples frase, ele fala: Diego, não faz merda. Não, ele falou assim: Diego, isso aí eu já sabia, né? Ele falou: Diego, você saiu de campo de terra, cara, você saiu do interior do Brasil, do Brasil, de uma cidade, de um time pequeno, e você tá aqui hoje jogando contra o Barcelona.

Rogério Vilela:Eu, você passou dificuldade muito maior, né?

DIEGO ALVES:Você tem que desfrutar desse momento. Falou: isso aqui é para você jogar com alegria, você tá jogando contra os melhores jogadores do mundo aqui, você vai ter Barcelona, vai ter Messi, vai ter Ronaldinho, vai ter— eu falei, eu não sei se eu ficava feliz ou ficava nervoso, porque ele falava o nome, eu ficava mais nervoso ainda.

Rogério Vilela:Pera aí, você tá tentando me acalmar?

DIEGO ALVES:Mas essa frase, ela mudou a minha vida.

Rogério Vilela:É mesmo?

DIEGO ALVES:Porque Lógico, eu com Almería eu não tinha a obrigação de ganhar do Barcelona, porque é muito difícil Almería ganhar do Barcelona, mas endureceu o jogo e tirou um peso de mim quando ele falou isso. E os meus melhores jogos lá em 10 anos foi contra Madrid e Barcelona, tanto no Almería como depois no próximo time que foi o Valencia. Mas assim, no Almería essa frase ela muda minha vida. Porque quando eu ia jogar contra esses times, eu jogava tranquilo. Então eu tive esse treinador de goleiro, chamava Miquel, que até hoje tenho amizade com ele.

Rogério Vilela:Ele me ajudou muito. Ele tá onde?

DIEGO ALVES:Ele tá hoje nos Aragostes.

Rogério Vilela:Mas ele é de que nacionalidade?

DIEGO ALVES:Espanhol.

Rogério Vilela:Ah, espanhol mesmo?

DIEGO ALVES:Espanhol. Então eu passei por esse processo e comecei a me destacar. E ali em Almería foi onde começou a surgir a lenda do "él para penaltis", que é o goleiro que defende pênaltis. Lá eles chamam de "para penaltis".

Rogério Vilela:Para penaltis.

DIEGO ALVES:No primeiro jogo da Almeria que eu fiz na pré-temporada, quando eu cheguei, a gente foi para uma decisão de pênaltis, eu peguei 4 pênaltis. E na portada do jornal, que chamava As, né, que chama As, o jornal.

Rogério Vilela:Portada é capa.

DIEGO ALVES:Portada é a capa, exato, a capa do jornal. Tava escrito: chegou el para penaltis de Rio de Janeiro. Eles falavam assim.

JP Castilhos:Que legal.

DIEGO ALVES:Então, na primeira, no primeiro jogo, joguei meio tempo, foi para os pênaltis, eu acabei pegando 4 pênaltis. Então já existia uma imagem de que eu era pegador de pênalti.

Rogério Vilela:Você treinava muito pênalti?

DIEGO ALVES:Olha, não, não é que eu treinava, eu sempre tive uma característica para isso. Eu sempre consegui ter uma intuição diferente dos outros goleiros. Eu acho que isso diferencia um pouco do— não é só chegar lá e pular para o lado e falar.

Rogério Vilela:Fazer uma pausa agora, cara. Como que é esse lance de pegar pênalti? Se para goleiro é o lance de você arriscar, esperar até o último momento, cada goleiro tem sua Ou existe um—

DIEGO ALVES:eu monto uma história, porque o que que acontece, eu estudava o batedor, agora já tinha, mas mesmo quando eu não estudava eu já tinha uma intuição muito grande, porque até o jogador chegar na bola ele te dá, ele te dá movimentos, sinais, né, e te dá sinais ali da onde ele vai chutar.

Rogério Vilela:O fato dele olhar para você ou não olhar faz diferença? Que eu vejo que tem treinador que olha para o chão, faz, e tem Tem cobrador que fica olhando pro goleiro.

DIEGO ALVES:Faz diferença, porque o que olha pro goleiro até o final, se ele ver você saindo antes, ele vai chutar no outro lado, ponto. Agora, o que abaixa a cabeça, ele te dá a possibilidade de você adiantar um pouco mais pro lado e ganhar um espaço.

Rogério Vilela:O cara que não olha pro goleiro, ele já decidiu o lado?

DIEGO ALVES:Já decidiu o lado. Ele pode fazer um movimento pra tentar te enganar com o corpo, mas o lado que ele vai bater já tá escolhido, já tá definido.

Rogério Vilela:Olha só, isso eu já não tinha pensado nisso.

DIEGO ALVES:Tá definido. Cristiano Ronaldo fazia assim.

Rogério Vilela:E o Messi, como que era?

DIEGO ALVES:O Messi, ele olha, ele olha, não, ele olha, mas ele abaixava a cabeça, mas ele mudava muito a forma de bater. Então até comigo ali tem um vídeo que eles fizeram lá, que eles gravam todos os jogos, né, assim, e depois no dia seguinte, para vocês verem, não, eu falo os jornais, televisões, eles passavam um programa que chamava El Día Después, E ele sempre fazia um vídeo que era o Messi falando com o Suárez, o Messi falando e tal. E num jogo tem um pênalti que é contra o meu time. E o Messi no túnel fala: "Caramba, ele ficou se mexendo, ele, pô, tava difícil, esse goleiro é difícil de bater." Então assim...

Rogério Vilela:Olha que legal! Então ele tinha preocupação.

DIEGO ALVES:Claro que tinha, todos têm, todos têm, né?

Rogério Vilela:Os caras quando sabem que é pegador de pênalti, acho que o atacante já chega com peso maior, né, cara?

DIEGO ALVES:Você usa... Eu usava essa fama para tentar intimidar o cara que ia chutar. "Ah, tá." Então chegou um momento que eu vi que a fama fazia muita pressão nos batedores de pênalti. Então eu sempre estudava e eu direcionava o batedor aonde eu queria que ele chutasse.

Rogério Vilela:Como assim? Dá um exemplo.

DIEGO ALVES:Por exemplo, eu sabia que seu lado de confiança era o lado direito.

Rogério Vilela:O lado de confiança é onde eu mais bato pênalti e acerto.

DIEGO ALVES:Exato, é um percentual.

Rogério Vilela:Eu mudo de vez em quando para variar, mas quando eu tô—

DIEGO ALVES:Dependendo do resultado, dependendo do tempo.

Rogério Vilela:Se eu tô ganhando, eu posso variar. Se eu tô perdendo, eu preciso daquele jogador.

DIEGO ALVES:Então eu primeiro vejo isso, tá? Me aproximava, via se o jogador tava nervoso ou não, e eu falava com ele: pô, te conheço, eu sei onde você bate.

Rogério Vilela:Você falava?

DIEGO ALVES:Seu lado de confiança é aqui na minha direita, não muda. Se você mudar, você vai errar. E aí eu passava um nervosismo, jogava Eu falava para ele toda a pressão. E eu fazia isso com Cristiano, fazia com Messi.

Rogério Vilela:Mas você falava isso na boa ou você falava meio intimidando?

DIEGO ALVES:Depende. Depende do jogo, do jogador. O Cristiano, várias vezes, tem várias fotos minhas eu na frente do Cristiano, eu falando com ele assim: "Eu sei onde você vai bater." E dava resultado. Então assim, era uma situação que eu comecei a entender que era um duelo psicológico. Mas é.

Rogério Vilela:E isso acaba com você mais leve do que o cara que vai bater. A obrigação é dele de fazer, né?

DIEGO ALVES:Mas eu tinha que montar um cenário Então, como eu me aproximava muito dos jogadores, chegou uma época que tinha pênaltis e os próprios jogadores da equipe adversária vinham para que eu não chegasse perto do cara que estava.

Rogério Vilela:Ah, para evitar.

DIEGO ALVES:Não, você não vai lá, você não vai lá, me segura. Pô, o Marcelo fez isso lá no Bernabéu comigo, cara. Puxou minha camisa. Não, deixa ele e tal. Então assim, criou uma mística. E era uma coisa assim de louco, porque saía pênalti, o pessoal do estádio levantava para esperar eu defender no Mestalla, que é um grande estádio lá. O ícone lá da Espanha. Então foi um momento bem legal, mas tudo isso começou aonde? No Almería.

Rogério Vilela:Foram 13 pênaltis na Liga, incluindo o Cristiano Ronaldo?

DIEGO ALVES:Não, 22. O recorde é meu, cara. 22 pênaltis, recorde da história da La Liga é meu. Eu chego no 22 na última temporada minha, onde eu defendo 6 pênaltis na mesma temporada.

Rogério Vilela:Mano, isso é muita coisa, cara.

DIEGO ALVES:6 pênaltis na mesma temporada. E ali eu quebro o recorde do Zubizarreta. Você lembra dele?

Rogério Vilela:Sim, sim, sim.

DIEGO ALVES:Ele era o recordista com 16 defesas de pênalti, cara.

Rogério Vilela:17 defesas em 39 cobranças, né?

DIEGO ALVES:Essa foi uma época que eu tava assim próximo, e teve 2 ou 3 erros aí que no caso chutaram para fora, que não conta, que não conta. Chegou uma época que eu tava 70% de acerto.

Rogério Vilela:Você deveria contar, porque se o cara chutar para fora, é pela pressão do goleiro também. O cara quer tirar tanto do goleiro.

DIEGO ALVES:É o nervosismo.

Rogério Vilela:É o nervosismo.

DIEGO ALVES:Você falar para mim: pô, o jogador quer acertar na gaveta, quer jogar.

Rogério Vilela:Não, não, cara, ele quer tirar do goleiro o máximo. Ele não sente confiança no goleiro, ele bate aquela segurança, a minha altura e tal. Agora, se o goleiro é bom, você não pode bater meia altura, cara, não tem como. É, e aí chegou o momento do Cristiano Ronaldo, por exemplo, que você pegou, como Ele chutou como?

DIEGO ALVES:Olha, de 4 pênaltis que o Cristiano chutou em mim, 3 ele bateu do lado direito.

JP Castilhos:Bem?

DIEGO ALVES:Ele bateu, eu peguei 2 do meu lado direito e peguei 1 do meu lado esquerdo. Só que veja bem, no último ano meu, no 4º pênalti que ele bateu, 3 desses pênaltis, no meu primeiro ano eu peguei com o Almería, eu peguei um pênalti no Bernabéu. Depois ele fez no Mestalla, quando eu já tava no Valência, ele fez o gol. No terceiro pênalti eu peguei no Bernabéu. E no quarto, que que acontece? Agora vou te contar a história para você ver como é que é a historinha do pênalti. Ele já tinha batido 3 pênaltis do meu lado direito, correto? Certo. No meio de semana ele tinha jogado, se eu não me engano, contra Juventus pela Champions League. Era minuto 90, saiu um pênalti no Bernabéu. Se ele fizesse, o Real Madrid passava. Ele bateu no meio e fez, fez, tá?

Rogério Vilela:Buffon, tá?

DIEGO ALVES:No final de semana, no final de semana, ele ia bater, ele ia jogar, ia ser Real Madrid e Valência. Sai um pênalti. Quando sai o pênalti, eu um dia, eu falo que eu defendi os pênaltis do Cristiano, eu defendi um dia antes, 2 dias antes, porque eu montava na minha cabeça, eu vivia, eu materializava a visualização.

Rogério Vilela:No direito, nesse daqui foi no meio, e aí?

DIEGO ALVES:O que que você faria? O que que você falaria para ele?

Rogério Vilela:Que falaria para ele?

DIEGO ALVES:É, vamos lá.

Rogério Vilela:Cara, nem pense bater no meio, porque eu vou esperar você bater. Eu tenho certeza que você bateu no lado esquerdo, que eu peguei vários no direito. Você falou isso?

DIEGO ALVES:Eu falei.

Rogério Vilela:E aí ele bateu no direito?

DIEGO ALVES:Ele bateu na esquerda.

Rogério Vilela:Ele achou que você tava só blefando.

DIEGO ALVES:Tá vendo? Você pensou, mas então assim, eu achei que ele ia bater 3 pênaltis na minha direita, certo? Eu sabia que ele não ia bater na minha direita, porque ele já tinha batido 3. E nesse terceiro que eu peguei, eu cheguei nele e falei: "Bate aqui na direita que eu vou pegar. Bate aqui na minha direita que eu vou pegar." Tem um vídeo eu falando: "Bate aqui na minha direita que eu vou pegar." E o Cristiano é um cara que ele afronta, ele vai no desafio, ele vai.

Rogério Vilela:Diretor, vê aí se você consegue esse vídeo e coloca pra gente na edição.

DIEGO ALVES:Pode pegar. E ele bate na minha direita e eu pego. Então eu falei: "Poxa, no quarto, o que eu falar pra ele, ele vai falar: 'Pô, esse cara vai fazer de novo'." Então, como ele já tinha batido 3 pênaltis do meu lado direito, eu precisava levar informação para ele que eu ia ficar no meio. Entendi. Só que vem o Modric, vem Marcelo, vem Carvajal, vem os cara tudo me puxando.

Rogério Vilela:Mas você consegue falar?

DIEGO ALVES:Aí tem a hora que o juiz chega, libera, e eu fico de frente com ele. Aí tem uma foto que eu tô de frente para ele assim, eu falando para ele: eu vou ficar no meio, eu não vou sair do meio. E ele com a cabeça baixa. Eu vou ficar, eu vou ficar no meio, eu vou te esperar até o final. A informação já tinha sido dada. Aí eu volto para o meio do pênalti.

Rogério Vilela:Mas na tua cabeça, na sua cabeça, ia pular na esquerda?

DIEGO ALVES:Claro. Então voltei. E aí eu pensei, pô, eu falei na passada que eu ia para direita e fui. Provavelmente ele vai falar que vai ficar no meio, ele vai ficar, vai ficar. Então veio o Cristiano, veio para bola. Na hora que ele veio para bola, ele veio para bola, ele ameaçou o corpo, que eu vi que ele ia bater chapado, que era no meu canto esquerdo. Eu já tô, já indo, eu já tô indo. Quando eu tô indo, a minha feição até muda, tipo Peguei. Toma aí, eu pego. Então essa foi a história do quarto pênalti que eu peguei dele. E aí eu, pô, eu—

Rogério Vilela:Você zoou ele depois ou não?

DIEGO ALVES:Não, não tem como zoar porque, pô—

Rogério Vilela:É, depois você pode tomar com ele.

DIEGO ALVES:Vamos lá, eu peguei pênalti, mas eu sofri também com ele em campo. É, ele é um cara—

Rogério Vilela:Quem sofreu mais com ele ou com o Messi? Com o Messi, né?

DIEGO ALVES:Olha, o Messi eu sofri bastante. Eu sou o goleiro com maior número de gols recebidos.

Rogério Vilela:O lance da Budweiser, ela fez umas garrafas comemorativas, como foi?

DIEGO ALVES:Da Bud foi. Antes da Bud, eu vou contar. Esses 4 pênaltis do Cristiano, eu tenho as 4 camisas dele. Tá brincando? Eu tenho. Eu tenho a CR9, que foi o primeiro jogo que ele jogou com a 9. Eu tenho a última, que ele achou ruim.

Rogério Vilela:Mas como que você consegue pegar o pênalti depois do cara ficar puto contigo?

DIEGO ALVES:Mas tem que tratar com carinho. Na última eu falei: "Ô Cris, eu quero tua camisa." Ele falou: "De novo?" Aí ele falou: "Pô, você cabeu meu pênalti." Eu falei: "Pô, Cris, mas é o meu trabalho." Ele falou: "Ah, tá bom." Tirou a camisa e me deu. Agora, voltando nessa da Budweiser, tem as coisas boas e as coisas ruins, né? E transformar as coisas ruins—

Rogério Vilela:a gente quer falar, às vezes as coisas ruins você transforma em coisas boas.

DIEGO ALVES:Foi uma ação espetacular da Budweiser, porque o Messi tinha completado, tinha feito os 400 gols na liga, e a Bud quis presentear todos os goleiros que recebeu o gol do Messi com o número em gols, o número de gols em garrafa. Então, por exemplo, você tomou 3 gols do Messi, você vai receber 3 garrafas. Eu só fiquei sabendo depois, né? Só que eu tava no Brasil, já tava no Flamengo. Então, o que aconteceu? Quando saiu isso, eu falei: pô, eles não vão mandar aqui no Brasil, é só para o pessoal da Europa. Eu vi Não era só da La Liga, se eu não me engano era da Europa, tá? Então chegou para nós, chegou para Buffon, chegou para os goleiros, que, poxa, uma galera lá. Falei, pô, beleza, vou ficar quietinho aqui na minha. De repente recebo uma mensagem passando uns dias, e o Diego, tudo bem? Preciso do teu endereço que a gente quer mandar umas garrafas aí para você. Eu falei, putz, vai chegar, né? Chegou 21 garrafas da Budweiser, que não é garrafinha não, é garrafa grande. E todas as garrafas têm a foto do Messi assim, comemorando o gol, e tem o número do gol dele. Por exemplo, 400, sei lá, 370. Aí vem 370 na garrafa. Então eu tenho 21 garrafas assim. Fizeram uma ação espetacular, né? Ao mesmo tempo foi uma— porque eu tomei os gols, eu recebi, eu sou o maior goleiro com maior número de gols do Messi, mas ao mesmo tempo fizeram uma ação maravilhosa onde eles me presentearam. Eu guardo isso como troféu, tá? Claro que tem, cara. Mais do que muito pessoal.

Rogério Vilela:O cara tomou o milésimo gol do Pelé, você acha que ele não foi imortalizado também?

DIEGO ALVES:Exatamente. Aí virou uma brincadeira.

Rogério Vilela:Quem que você falou que você ia abrir um bar?

DIEGO ALVES:Pô, Felipe Luiz. Felipe Luiz. Aquela época era o Felipe, eu falo, Felipe, você era impossível. Viralizou também por isso, porque o Felipe, pô, se você jogasse mais tempo lá, você ia montar um bar. Falei, cara, eu já consigo montar um bar com o que eu tenho aqui. Mas foi uma época bacana, deu pra gente aproveitar.

Rogério Vilela:E você curtiu a Espanha, cara? Muito. Por todo o país?

DIEGO ALVES:Muito, morei 10 anos.

Rogério Vilela:A comida lá é muito boa, né, cara?

DIEGO ALVES:Minária, Mediterrânea, é incrível. E assim, sinto saudade de algumas coisas, gosto também da cultura nossa do Brasil. Acho que só que depois, quando eu termino toda minha, vamos dizer, quando eu termino essa temporada, depois do pênalti do Cristiano, foi meu último jogo com Valência, tá? Depois dali eu vou para o Flamengo.

Rogério Vilela:Então você ficou quanto tempo?

DIEGO ALVES:10 anos. Quanto? 10 anos.

Rogério Vilela:10 anos na Espanha?

DIEGO ALVES:10 anos.

Rogério Vilela:E como que é esse convite para o Flamengo, essa negociação?

DIEGO ALVES:Então, negociação com Flamengo surgiu porque eu me sentia no momento que eu precisava mudar algo na minha vida. Eu tava com 32.

Rogério Vilela:Para goleiro, como que é?

DIEGO ALVES:Não, para goleiro é uma idade boa, uma idade tranquila. Mas eu já tava no Valência durante 6 anos. Eu já, a gente já, diferente do Brasil, na Espanha a gente já começa o ano sabendo quem vai ser campeão, quem vai para Champions, quem vai para Europa League, e os problemas ali pela montagem dos times, é pela montagem dos times. Eu já tava já no mesma coisa sempre, mesma coisa sempre. Eu via Valência tava passando por um momento de transição. No final dessa temporada eu sou convocado para Seleção Brasileira em 2017 com Tite. A gente vai para Austrália, tem um jogo com Argentina lá e depois contra Austrália. E quando eu volto eu recebo a informação que o Valência queria me negociar, até mesmo porque eu participei de vários anos e 3 gestões diferentes, né? Então a última eu já sabia que era uma mudança 100% interna, reestruturar internamente. Então chega o momento de voltar para o Brasil. Eu volto para o Brasil, só que eu não sabia que eu ia voltar para o Brasil até então. Eu tinha a intenção, falei, pô, Valência quer me negociar, vamos ver o que que pode acontecer. Só que quando eu vou para o Brasil de férias, eu faço uma rodada de entrevistas em São Paulo e no Rio de Janeiro. E até hoje eu não entendi, a torcida do Flamengo ela invadiu minhas redes sociais com hashtag falando vem ser feliz no Mengão, vem ser feliz no Mengão. E nisso o Valencia tava me negociando com Deportivo La Coruña para jogar a primeira divisão e tudo mais. Eu não queria ir para o Deportivo La Coruña porque, pô, eu saí do Valencia para Deportivo La Coruña, com todo respeito a La Coruña, mas eu ia brigar para não cair, situação chata. Eu falei, ó, então eu vou para o Brasil. Começa a torcida invadir minha rede social. Eu falo, pô, o que que tem de verdade nisso? Pensei, já tava chegando o dia para eu poder voltar para Espanha. Eu falei, peraí, deixa eu pegar o telefone. Que na época era o Rodrigo Caetano, que tá aqui na seleção hoje. O Rodrigo Caetano era o diretor do Flamengo. Eu pego o telefone, ligo para o Rodrigo Caetano. Fala, Rodrigo, tudo bem? Aqui é o Diego, como é que tá? Pô, o que que tem de verdade nisso aí? Falou, olha, Diego, não tem nada, mas já que você me ligou, vamos conversar.

JP Castilhos:Eu falei, vamos.

DIEGO ALVES:E eu começo a conversar com o Rodrigo, ele se interessa e fala, pô, acho que dá negócio.

Rogério Vilela:Foi eu. Foi espontâneo?

DIEGO ALVES:A princípio foi direcionado para alguns da torcida, influencers e tudo mais, mas acabou sendo uma coisa muito gigante, né? Eu não tinha nem rede social na época, eu tinha, sei lá, 30 mil, 40 mil. Do nada já foi para 180, sabe? A torcida invadindo, coisa assim. E eu falei, caramba, acho que tem alguma coisa aí, mas não tinha. Mas depois Teve. Então assim, a negociação com o Flamengo acontece desse jeito, dessa forma. Eu ligo pro Rodrigo Caetano e começa uma negociação nesse sentido. Só que depois eu tinha que trazer o Valencia pra negociação, porque o Valencia queria me emprestar na época. Ah. E o meu empresário, ele era espanhol, ele não acreditava que estava tendo essa negociação. Ele falava: "Não, o Flamengo não quer contratar goleiro." Eu falava: "Não, ele quer." "Não, não quer." Eu falava: "Sou eu que estou negociando." Então ele não acreditava que estava tendo uma negociação entre o Flamengo e o Diego Alves. E aí acontece toda, pô, acordava, colocava o telefone em cima da mesa já esperando mensagem, Valência, Flamengo, Valência, Flamengo, até que o meu empresário fala: tá bom, Flamengo te quer, então conversa com eles aí, pergunta se eles não querem definitivo em você, você ficar aí mais alguns anos. Eu falei: tá bom. Cheguei com o Rodrigo Caetano, falei: Rodrigo, situação é essa, você consegue 3 anos de contrato, 3 anos e meio? Ele falou: consigo, vamos ver. Começou a ver, falou: Diego, ok, nós temos ok do nosso lado. Levei para o Valência, o negócio saiu. Então foi desse jeito que eu comecei.

Rogério Vilela:300 mil euros.

DIEGO ALVES:300 mil euros.

Rogério Vilela:E aí, qual a tua expectativa voltando para o Brasil?

DIEGO ALVES:Então, aí é ao contrário, né? Na mesma adaptação que eu tive que ter na Europa, eu tive que depois ter ao Brasil novamente.

Rogério Vilela:Cara, sempre tem que se provar, não adianta a história, não adianta o histórico, você sempre começa meio que do zero, né?

DIEGO ALVES:Eu tive que começar e para mim assim, vou ser bem sincero, sabe, Lela? Foi bem difícil porque durante 6 meses Campo era diferente, bola diferente, no sentido, lá a gente jogava com uma marca o ano todo, tinha algumas peculiaridades assim diferentes. Mas eu chegava em casa e falava para minha esposa: eu acho que eu não vou me adaptar, pô, eu acho que eu não vou me adaptar porque tá muito diferente o campo, a velocidade do jogo, é diferente o futebol.

Rogério Vilela:Sério mesmo?

DIEGO ALVES:É diferente. Então passados 6 meses eu começo a me adaptar, começo já a ter mais resultado, começo a treinar melhor, começo a jogar melhor, Jogador. E aí em 2018 eu tenho um problema interno lá com Flamengo e eu sou afastado. E eu sou afastado.

Rogério Vilela:O que que foi? Pode falar?

DIEGO ALVES:Não, pode. Foi um problema de comunicação entre o treinador, diretoria na época, onde eu, na época, o treinador, aliás, o treinador Dorival, né? E enfim, houve uma troca de informações erradas lá no sentido do que o treinador tinha passado para mim, eu tinha passado para o treinador, e a direção entendeu de uma forma errada e levou para imprensa e para os jogadores de uma forma completamente errada do que tinha acontecido. E ali naquele momento—

Rogério Vilela:Mas qual foi a verdade então? O que que aconteceu?

DIEGO ALVES:Na verdade, houve uma conversa entre eu e Dorival. Naquele momento, o Dorival tinha optado para um outro goleiro, certo? E eu conversando com Dorival, Dorival tinha falado: pô, Diego, tranquilo, pode descansar. E a gente depois foi levar de uma forma diferente, onde o Flamengo E quem estava lá naquele momento levou de uma forma diferente para fora, não sei por qual motivo.

Rogério Vilela:Mas entenderam o quê? Que você tava—

DIEGO ALVES:falaram como se eu não quisesse mais jogar pelo Flamengo.

Rogério Vilela:Ah, ali tanto faz.

DIEGO ALVES:Não, ele não quer viajar, ele não quer, como se eu fosse a pessoa. Mas houve uma conversa, houve um acordo verbal com Dorival, e depois quando repassaram, a direção naquela época optou por fazer de uma forma completamente diferente. Não sei por qual motivo, talvez Eles queriam me negociar, eu não sei, mas ele foi um momento muito difícil porque eu fiquei afastado durante 3 meses e eu não podia, eu tinha que treinar em horários diferentes e enfim, foi um momento de aprendizado. Então o que que a gente leva com isso? Mesmo tudo que a gente fez lá atrás passa por um momento de dificuldade, momento que às vezes não é esperado, mas eu tive assim, depois tem uma troca de diretoria, né, de 2019 vem a nova diretoria com Landinho, com todos, eles conversam comigo, o Abel também pede a minha permanência, em 2019 a gente consegue caminhar da nova era do Flamengo.

Rogério Vilela:Mas com Jorge Jesus? Com Jorge Jesus ainda?

DIEGO ALVES:O Jorge chega no meio do ano.

Rogério Vilela:Ah, você já começa então antes do Jorge Jesus?

DIEGO ALVES:A gente é campeão, começa com Abel Braga. O Abel é um dos grandes responsáveis por eu ter ficado no Flamengo.

Rogério Vilela:É ele que bateu o pé lá?

DIEGO ALVES:Ele ligou umas 5 vezes nas minhas férias falando: Diego, eu preciso de você, eu preciso de você. O Marcos Braz também.

Rogério Vilela:Com o Dorival você tem alguma mágoa?

DIEGO ALVES:Não, a gente se encontrou depois.

Rogério Vilela:Ah, depois resolveram isso? Mesmo depois da discussão no treino?

DIEGO ALVES:Não, sem problema nenhum.

JP Castilhos:Isso é bom, né?

DIEGO ALVES:Não, foi zerado e sem problema nenhum. Acontece isso no meio do futebol, às vezes algumas circunstâncias saem do controle por outros motivos.

Rogério Vilela:Porque quer ganhar, só não quer ganhar.

DIEGO ALVES:Por outros motivos. Mas ali aquela situação, quem saiu mais prejudicado foi o Diego Alves. Claro. Porque teve uma mentira criada, um monte de coisa, e isso, enfim, influenciou para que terminasse mal aquele ano. Entendi. Então quando muda a diretoria, o Marcos começa a me ligar, o Marcos Braz, e o Abel Braga também, foram duas pessoas responsáveis por eu permanecer no Flamengo. A gente é campeão mineiro, é campeão mineiro, campeão carioca com...

Rogério Vilela:Isso ia ser complicado, né? Difícil, né? O Flamengo ser campeão mineiro... Pô, imagina, cara. Já pensou?

DIEGO ALVES:Pela primeira vez... E aí eu sou campeão carioca, campeão carioca, o Abel é demitido no meio do ano e vem o Jorge Jesus. E aí a gente entra na era vencedora de 2019, que também não foi fácil, tá?

Rogério Vilela:Então, isso que eu falo, cara, pessoal acreditava já que vem o Jorge Jesus, ia ser o que foi, que foi um absurdo, né, cara? Acho que não tem na história assim algo parecido.

DIEGO ALVES:O que acontece, o Jorge, eu já conhecia ele da Europa, já tinha jogado contra o Jorge na Europa. É, eu sabia como que ele trabalhava porque eu joguei com jogadores que tiveram com ele muitos anos.

Rogério Vilela:Que que vinha para você sobre ele?

DIEGO ALVES:Que era um treinador muito rígido, é um treinador de não muita comunicação com os jogadores. Gostava de se comunicar, mas era difícil às vezes com alguns jogadores. E a gente já tinha preparado vestiário, né? O Diego também já conhecia o Diego Ribas, o Felipe Luiz, então quem jogou na Europa já conhecia muito mais o Jorge do que as pessoas daqui. Então criou um certo nervosismo assim para entender como que o Jorge funcionaria no Brasil. Então quando o Jorge chega, a gente tem uma reunião, e nessa reunião ele deixa bem claro que o objetivo era ser campeão da Libertadores e jogar contra o Liverpool, que o Liverpool era o campeão da Champions. Olha que loucura, né? Assim, assim. E eu falo que essa reunião, louco, né, cara? Eu acredito muito nisso, sabe, de você visualizar e materializar.

Rogério Vilela:Não acredito, cara, porque sonhar baixo, sonhar alto é o mesmo trabalho que você tem, né?

DIEGO ALVES:Na minha vida foi comprovado isso em tudo que eu fiz. Eu sempre sonhei em ser jogador, eu sempre sonhei, e muitas coisas que eu visualizei aconteceu comigo durante o jogo e depois. Então assim, quando o Jorge chega, ele faz essa reunião que ele coloca no telão os troféus, que é, você tem ideia, ele falou brasileiro, não, brasileiro a gente já vai ganhar, tipo assim O negócio é a Libertadores e eu quero o Liverpool na final. Então, isso já transmitiu uma confiança tão grande para os jogadores. E aí depois a gente vai para o campo trabalhar. E nesse trabalho, que a gente teve umas 2 semanas de folga entre o Jorge chegar e a gente estrear com o Jorge. Então, durante esse trabalho tem um período de adaptação que é difícil.

Rogério Vilela:Imagino.

DIEGO ALVES:Jogar um treinador diferente. E ele tratava o medalhão igual o menino da base. Entendeu? Se tivesse que dar esporro ali, ele dava esporro. Então a gente começa esse trajeto com Jorge e a gente perde o jogo contra o Emelec lá, que era o jogo da Libertadores das oitavas, o primeiro jogo das oitavas. Então ele já chega perdendo do Emelec 2 a 0 lá no Equador. Se ele chega, Flamengo eliminado da Libertadores, a gente foi eliminado da Copa do Brasil pelo Atlético Paranaense nos pênaltis, tá? Antes disso, antes dele chegar, não, com ele chega A gente é eliminado da Copa do Brasil, já emendamos o jogo da Libertadores e perdemos de 2 a 0 para o Emelec lá, o primeiro jogo. Situação assim, para tudo errado, torcida reclamando, protesto no hotel. Falou, caramba, a gente pensou, nossa, acho que é, putz, cara. E Flamengo assim é 10 vezes maior do que todos, né, a repercussão e tudo. Então Jorge chega e eu lembro que o Diego, ele tem uma fratura no pé. E quando o Jorge chega, que a gente perde 2 a 0 para o Emelec lá, quando a gente entra no vestiário Eu sou uma das primeiras pessoas que tá ali com Jorge, eu e o Jorge. E a primeira coisa que o Jorge falava era: "Fica tranquilo, a gente vai virar esse jogo lá no Maracanã, a gente vira. Tô mais preocupado com o Diego, quebrou o pé, tô triste, mas a gente vai virar, fica tranquilo, lá a gente vai ganhar." Sendo uma tranquilidade que eu falava: "Pô, ele tava tranquilo mesmo?" Ele tava.

Rogério Vilela:Que doideira!

DIEGO ALVES:Tava bem tranquilo. Só que eu pensava ao mesmo tempo: "Pô, ele não conhece o Flamengo." Ele não sabe onde se meteu, né? Durante os dias foi criando uma situação muito especial para esse jogo do Melec. Então a torcida que foi no Maracanã, ela foi sabendo que ela tinha que apoiar, porque a gente tinha que fazer 2x0 mínimo para levar para os pênaltis.

Rogério Vilela:E ali é onde, aí com o jogo perdendo 2x0, já é complicado na Libertadores.

DIEGO ALVES:E é engraçado porque a gente sente, né, a gente sai do ônibus, entra no estádio, e aí você já vai vendo o ambiente, clima todo, sai para aquecer a O Cid já te recebe bem, você fala, pô, é hoje. Então a gente começa o jogo, a gente já faz 2x0 assim, 15 minutos, pau, 2x0. E aí a gente falou, vai 5. Nada, ficou 2x0 até o final, cara. O Emelec tem uma bola no final que ele chuta, ela raspa na trave assim, se faz ali, acaba o jogo. É, o Emelec passa, né? Então a gente vai para os pênaltis, e nos pênaltis eu defendo um pênalti, a gente converte todas as cobranças e a gente passa para as quartas de final.

Rogério Vilela:E aí tudo muda.

DIEGO ALVES:E aí é incrível, é o divisor de águas, muda tudo, né, cara? E ali a gente já começa a ganhar uma confiança enorme, a gente já começa a assimilar muito mais o que o míster queria na época, e foi uma coisa muito natural, mas uma conexão muito forte. Time todo se uniu, time todo se uniu, não tinha ego, os que não jogavam estavam felizes, enfim, aconteceu uma situação ali que a gente é amigo até hoje. E aquela final, cara, da Libertadores, aquilo ali foi uma das emoções mais fortes que eu tive.

Rogério Vilela:Não acreditava naquilo, né, que tava, que rolou.

DIEGO ALVES:Eu acho que aquele jogo, ele escreveu o antes do jogo, como que foi antes. Enfim, a gente foi criando uma confiança tão grande nos jogos anteriores, né, quartas, semi, que foi, a gente chegou com muita confiança na final. Só que todos os entendedores de futebol davam o River como o favorito, que era o que era copeiro. River tinha ganhado a Libertadores no ano anterior. Então o River chegava na sua segunda final consecutiva, o Flamengo não é um time copeiro, não é um time que sabe jogar uma final e não sei o quê e tal. Então a gente chega com uma— a gente não chega como favorito, mas nós por dentro nós sabemos que a gente ia ganhar, não tinha outra coisa acontecer, a gente já tava já com aquilo. E é verdade que durante o jogo, quando o jogo começa, Onde foi mesmo? Foi em Lima. Quando o jogo começa, a gente encontra muita dificuldade porque o River é um time que ele é muito físico, é chato, né? E o nosso time era muito rápido, muito técnico. Então a gente chega, o gramado tá seco porque tem show antes, eles não podem molhar e tal, aquela coisa toda. E o River faz um primeiro tempo que ele não deixa a gente chegar no gol. Porrada, Gabi tomando porrada, Bruno, enfim. Quando a gente vai para o vestiário, a gente sabe que o River não ia aguentar fazer isso o jogo inteiro porque tava muito quente, tava muito calor. E o Jorge, ele fala isso, ele fala: olha, eu duvido que o River vai conseguir manter esses 90 minutos desse jeito, impossível.

Rogério Vilela:E aí, qual que é então a estratégia?

DIEGO ALVES:Vamos confiar até o final. E aí, no segundo tempo, o River começa a dar um pouco mais de espaço para gente jogar. Aí tem um lance ali que a gente quase empata no meio do segundo tempo. E no final do jogo, o Bruno, a gente rouba a bola, né, do Lucas Prato, tenta fazer uma jogada, a gente rouba a bola, a bola cai no pé do Bruno Henrique, o Arrasca rouba, cai no pé do Bruno Henrique, que leva, faz uma jogada individual, o Arrasca acompanha, leva, entra na jogada e toca para o Gabi.

JP Castilhos:1x1.

DIEGO ALVES:Aquele 1x1 ali Eu lembro, fecho o olho, eu lembro, escuto aqui a torcida gritando atrás do meu gol, porque a torcida do Flamengo tá atrás do meu gol. Isso é bom, né? É bom ou não? Se tiver ganhando, é ótimo. Faz sentido. Então, quando sai o gol do empate, nossa, aquilo ali a gente vê que o River sentiu. É igual boxeador, né? Você sabe quando o cara tá ali, você acertou, o cara sentiu, você sente no campo isso. Então sai a bola, o River tenta chegar mais uma vez, aí sai um impedimento. Quando eu vou cobrar o impedimento, a gente já tá falando ali do minuto 92, eu acho, 92, tá 1x1.

Rogério Vilela:O Everton chega em mim, já tava, já ia levar para os pênaltis na cabeça deles, né?

DIEGO ALVES:Não é? E se bobear, até alguns ali de nós já falavam, vamos para prorrogação, que ali na prorrogação a gente ganha. O Everton chega em mim e fala: Diego, segura a bola, segura um pouco aí.

Rogério Vilela:Tem prorrogação, né? A verdade, afinal tem, né?

DIEGO ALVES:Então Everton chega fala: vamos para prorrogação, segura um pouquinho, tal. Falei: pô, beleza. Pego a bola, sai jogando em curto ali com o Rafinha. O Rafinha para o Rodrigo, Rodrigo para o Rafinha, para o Diego Ribas. O Diego Ribas, pum, lança a bola, lança a bola. O Bruno, o Gabi disputa com o zagueiro que tinha sido melhor em campo. Pois é, o zagueiro comete o único erro do jogo, 2 a 1 Flamengo. Eu, lógico, fiquei emocionado também, eu chorava. E eu rezava para que o River não atacasse, porque eu tava em condições emocionais ali. Não chuta, né? Nossa, eu tava muito, mas muito emocionado. E o River ainda chega mais uma vez, eu pego a bola.

Rogério Vilela:Ainda tem mais uma chegada do River?

DIEGO ALVES:Uma chegada do River no alto.

Rogério Vilela:Foi tranquilo ou não? Não, foi tranquilo.

DIEGO ALVES:E eu lembro que eu pego a bola e eu olho assim para o banco, eu vejo o Jorge Jesus, chuta lá mais longe, chuta mais longe possível. Estádio, né? Eu só sei que eu chutei a bola, ela caiu lá perto do escanteio do outro lado. E nisso, Bruno Henrique, eu acho que o Bruno Henrique pega a bola, o River faz a falta, e o cara do River pisa num jogador nosso.

Rogério Vilela:Aí sai uma confusão, a gente dá o jogo, acabou o jogo, acabou o jogo.

DIEGO ALVES:E ali volta, o juiz apita, final do jogo, a gente campeão, cara. Mas assim, que foi uma emoção, uma emoção.

Rogério Vilela:Eu lembro que todo mundo tá assistindo, fala: não, é prorrogação, esquece.

DIEGO ALVES:E olha que engraçado, né, galera, Passa os anos e eu entendo que o Flamengo depois começou, ganhou novamente a Libertadores, mas o torcedor ele tem uma identificação tão grande com 2019, daquele título. Eu não sei se foi porque foi tão sofrido.

Rogério Vilela:Foi por causa disso, cara.

DIEGO ALVES:Eu acho que juntou todo o passado do Flamengo de sair de tudo e chega naquele jogo, ganhar nos últimos segundos ali, a gente poder ganhar aquele jogo, acho que marcou uma geração, marcou uma geração. Muitos flamenguistas nasceram dali. E os que é o Jorge, pós-jogo, ali ele já tava pensando no Liverpool. Ele se emocionou, comemorou, mas no dia seguinte já era o Liverpool.

Rogério Vilela:Sério?

DIEGO ALVES:Já era o Liverpool. E ele, você vê que ele conseguiu chegar para jogar com o Liverpool.

Rogério Vilela:Ele é muito focado. O que que é?

DIEGO ALVES:Ele é muito, ele acredita muito no que ele faz, ele tem muita confiança, ele é um líder, da forma dele de ser, de sempre responder às objeções dos jogadores.

Rogério Vilela:De sempre depois era o jogo com Liverpool, não foi muito espaço de tempo, né?

DIEGO ALVES:A gente jogou em novembro a final da Libertadores, a gente jogou com Liverpool em dezembro.

Rogério Vilela:E aí, como mudou alguma coisa, preparação?

DIEGO ALVES:Não, não mudou. A única coisa, teve mais alguns jogos ali, né? Porque quando a gente tava comemorando o campeonato, campeão da Libertadores, né, campeonato da Libertadores, em cima do trio elétrico. A gente foi campeão brasileiro porque o Grêmio ganhou do Palmeiras, e o Palmeiras era o time que disputava com a gente. Então a gente ganhou o brasileiro em cima do trio elétrico. Fala, pessoal, nunca vi isso na minha vida. Jogamos mais alguns jogos depois e a gente foi para o Catar. No Catar, o foco era o Hilal, que era o time que a gente ia jogar a semifinal.

Rogério Vilela:É, não adianta pensar, Jorge deu muita atenção para esse jogo.

DIEGO ALVES:Inclusive o Jorge falou, olha, esse jogo vai ser mais difícil que o Liverpool, porque eu treinava, ele era treinador do Real na época, ele que criou aquele time, ele que fez aquele time. Então ele falava, cuidado com o time do Real, vamos levar todo, toda a importância para esse jogo, aí tem atenção para esse jogo do Real. E o Real começa ganhando de 1 a 0, cara, é mesmo? A gente vira o jogo no segundo tempo. Então assim, depois vem o Liverpool, aí quando a gente termina o Real, aí o Jorge fala, pô, agora o Liverpool, agora a gente vai Vai para cima. E o Liverpool é aquela sensação de que, pô, faltou pouco.

Rogério Vilela:E por que que não ganhou?

DIEGO ALVES:Eu acho que porque a gente enfrentou assim um Liverpool muito poderoso, cara.

Rogério Vilela:Mas aquela velha, aquela velha pergunta: se você pudesse voltar no tempo nessa final de Mundial, acha que daria para o Flamengo ter feito alguma coisa diferente? Ou é aquilo mesmo? O que que faltou? Porque não existe se no futebol, né? Mas vamos no se, vai.

DIEGO ALVES:Então eu até conversei com Jorge agora. O Jorge Jesus veio no Rio de Janeiro para passar férias. Fala para ele dar uma entrevista para a gente, cara.

Rogério Vilela:Não toque. Agora ele tá em Portugal, mas dá para a gente ir até lá, não tem problema. Não vamos aí, ô diretor? A gente vai até lá, não vai, diretor?

DIEGO ALVES:Ó lá, ó, dá para combinar isso. Mas o Jorge, eu falei para ele, falei: pô, Mister, e aquele jogo do Liverpool? Eu vou te contar só um número para você entender. A gente chega no jogo contra o Liverpool, e não é uma desculpa, tá? Mas a gente chega no jogo do Liverpool com um jogo número 82 do ano, e o Liverpool 24.

Rogério Vilela:Você tá brincando, cara?

DIEGO ALVES:Diferença, quando eu falo ano, o pessoal vai falar, mas o Liverpool jogou o ano todo. Não, mas o Liverpool teve umas férias no meio, e aí ele começa a temporada em agosto, tá? Então de agosto até, porque lá temporada é de no meio do ano, né? Então de agosto até dezembro ele tinha feito 24 jogos. O Flamengo começou a temporada em janeiro e não parou, e foi até, então eram 82 jogos. A gente chegou assim no limite físico, tanto que no jogo O próprio Gabi, Carrasca, todo mundo com cãibra. Eu acho que a gente chegou no limite ali, o que a gente pôs. E o Liverpool tava, era o melhor Liverpool de todos os tempos, era o melhor Liverpool, ganhou de todos na Europa, enfim. Mas a questão é que poderia chegar nos pênaltis.

Rogério Vilela:Eu fiquei aquela, aquele gostinho, porque já pensou, cara?

DIEGO ALVES:Eu acho que os pênaltis seria uma situação muito legal ali para mim.

Rogério Vilela:O goleiro deles era pegador também de pênalti?

DIEGO ALVES:Era o Alisson. Era o Alisson.

Rogério Vilela:Ah, então você tinha uma vantagem aí.

DIEGO ALVES:Não, vantagem não. Mas eu conheci os jogadores da Europa.

Rogério Vilela:Mas se você é pegador de pênalti, o Alisson não é a especialidade dele, né? Claro que tudo pode acontecer, mas...

DIEGO ALVES:Mas já pegou alguns pênaltis lá na Europa, né? Mas assim, como eu falei, é um quesito, uma característica. A minha era maior naquele sentido.

Rogério Vilela:Exato, exato. O jogador já ia para o pênalti com outra...

DIEGO ALVES:Eu queria levar, eu tinha essa vontade. Falei: "Pô, pelo menos um empate aqui." E o gol que a gente toma Não é que o Liverpool é uma máscara, pela tua visão. Vamos lá, não, é um passe, né? A gente sabia que sempre que o Firmino sempre faz o movimento entre as águas, Firmino é um jogador muito inteligente, então ele sempre fazia o movimento contrário para que os zagueiros ficassem em dificuldade.

Rogério Vilela:O que que é o movimento?

DIEGO ALVES:Por exemplo, o Firmino era um número 9, certo? Então determinado momento do jogo o Firmino tava lá no meio-campo pegava a bola, tal. Então como é que o zagueiro vai lá marcar ele?

Rogério Vilela:Não vai.

DIEGO ALVES:Isso é para atrapalhar mesmo. Ele bagunçava o jogo, ele era um jogador assim, é jogador bagunçado, ele bagunçava o jogo taticamente porque ele era muito inteligente. Só que nessa hora do gol, o Firmino tá fazendo movimento para receber a bola. Eu não lembro quem é o jogador que faz, não sei se é o lateral que dá o passe entre os zagueiros. O Rodrigo Caio depois tenta acompanhar. E eu falo que se fosse qualquer outro jogador chutaria a bola da forma que o Firmino tava. Então o Firmino vai, na hora que ele ameaça chutar, eu vou caindo para tentar tampar o lado e o Firmino corta. Tipo um jogo de pelada, sabe? Aquele joguinho: "Ah, não tá valendo nada, vou brincar aqui." Ele era o único jogador capaz de fazer aquilo ali naquele momento.

Rogério Vilela:Não era o certo, né?

DIEGO ALVES:Na hora que ele dribla, pô, passa eu e Rodrigo Caio, caímos juntos. E aí ele tem o gol todo para poder, para fazer o gol, né? Então assim, foi uma única jogada que a gente provavelmente deu esse—

Rogério Vilela:e vocês sentem, demora um tempo para voltar para o jogo, como que é ali?

DIEGO ALVES:A gente já tava na prorrogação. Ah, fui, a gente já tava na prorrogação ali, cara. Faltava quanto? A gente tava, pô, a gente foi no começo da— eu não sei se foi, eu não lembro se foi no primeiro, no segundo tempo.

Rogério Vilela:Abate daquilo, sente um pouco, tipo 'Ah, ainda tem tempo de empatar.' O que que passa pela cabeça de vocês?

DIEGO ALVES:Pouco tempo, ainda mais tratando do Liverpool, que tinha uma defesa—

Rogério Vilela:não, e a final, né, cara, é um jogo só.

DIEGO ALVES:E ali a gente já não tinha, não tinha tanta força.

Rogério Vilela:Tinha retrospecto do jogo com o River, né?

DIEGO ALVES:Não é? Tinha, mas ali a gente chegou até mais desgastado. Então assim, a gente já tinha— o adversário tinha uma característica diferente, já tinha saído alguns jogadores importantes também sair do time.

Rogério Vilela:Então quem que tinha saído?

DIEGO ALVES:O Arrasca já tinha saído, Gabi já tinha saído, jogadores estavam desgastados fisicamente. E a gente tem uma oportunidade que é no segundo tempo da prorrogação, que eu não lembro, Vitinho acho que faz a jogada e joga para trás, e o Lincoln chuta para cima, que era uma jogada difícil de finalizar porque era uma bola difícil, sai rápida. Mas assim, foi a única oportunidade que a gente teve de empatar o jogo, vamos dizer assim, empatar na prorrogação. A gente ali, quando toma o gol, a gente falou: tá difícil, ficou difícil ali. Mas a gente tentou e não conseguiu, e tava tudo bem assim. A gente ficou triste porque era uma possibilidade a gente poder levar esse jogo para os pênaltis e ganhar nos pênaltis, como aconteceu agora com o Flamengo contra o PSG, foi para os pênaltis, mas não ganhou. Então assim, a gente não sabe o que poderia acontecer nos pênaltis também, mas o único gostinho amargo que ficou foi isso.

Rogério Vilela:Me dá uma sensação de que dava, né? Isso aqui é pior, porque se você joga e o outro time destrói, você não tem muito o que fazer, tá? Agora, quando é pelo detalhe, cara, eu acho que dói.

DIEGO ALVES:A gente assim também não teve no jogo, não teve muitas chances claras para fazer gol. O Liverpool defendeu muito bem, mas também o Liverpool não teve assim, não atropelou a gente, não foi aquele jogo que você fala caramba, o Liverpool passou por cima.

Rogério Vilela:Qual que é a previsão? Como que é a pré-eleção para um jogo de Mundial? Vocês estão no vestiário, o que que acontece lá, cara? É, não é muito tática, é mais o mental, ou é um pouco de cada coisa?

DIEGO ALVES:A parte tática, eu acho que são retoques no vestiário, porque também o jogador ali já tá pensando no jogo. A parte tática, ela é definida dias antes do jogo, quando você prepara no campo.

Rogério Vilela:Vocês sabem quanto tempo, quem vai jogar antes do jogo nesse caso?

DIEGO ALVES:Não, com Jorge a gente já sabia quem ia jogar no treino anterior, já ele montou o time, ele treinou Líverpool. Então assim, foi um treino fechado. A gente também, o Jorge tomava muito cuidado para não dar informação antes.

Rogério Vilela:Treina alguma coisa específica para o Liverpool?

DIEGO ALVES:Treina como o Liverpool joga, os movimentos que os zagueiros iam fazer. Enfim, é uma parte tática detalhada.

Rogério Vilela:Até isso não chega ao ponto de escolher batedor já, não, né?

DIEGO ALVES:De pênalti. Não, tem o treino de pênalti também, mas saber a ordem, tem o treino, ele vai, ele vê lá quem tá batendo.

Rogério Vilela:Mas na hora também decide quem tá bem, né? Se um cara fala "não quero"...

DIEGO ALVES:É porque também se o cara que treinou bem depois sai no meio do jogo, vai ter que mudar tudo. Então todo mundo treina, todo mundo treina uma pênalti.

Rogério Vilela:E como que é aumentar o do Jorge Jesus para esse jogo? Também era confiança?

DIEGO ALVES:Confiança. Eu lembro de uma frase que ele falou no final, ele falou... Você falou antes? Antes do jogo? Não, depois do jogo.

Rogério Vilela:Não, mas antes. Depois você fala isso, mas antes. Você lembra de alguma coisa assim que ele falou?

DIEGO ALVES:Não, antes ele...

Rogério Vilela:Mas ele lembrou que falou lá atrás que ia jogar com o Liverpool? Deve ter lembrado, né?

DIEGO ALVES:Não falei que a gente tinha muito claro isso? É, né? Ele tinha muito claro. Como entrevista que ele dá na final da Champions, que ele fala, ele já tava acertado com Flamengo, e ele fala: nós vamos se preparar para enfrentar um dos dois que estão aqui na final da Champions. Então assim, ele já tinha muito claro isso. E o Jorge, ele acreditava muito no que ele fazia. Ele era um cara que era detalhista, era por centímetros.

Rogério Vilela:Ele, mas ele chegou a falar assim: 'Vamos ganhar fazendo isso, qual a estratégia para ganhar do Liverpool?' Qualquer, falou: 'Olha, nós vamos jogar desse jeito, na parte defensiva vai ser assim.' Tá, mas alguma coisa específica você lembra que ele falou?

DIEGO ALVES:É porque aquele time, o nosso time, ele já era um time, já era um time, era um time muito aleatório nas jogadas. A gente tinha 4 jogadores na frente que eles criavam jogadas de todos os tipos. Você tinha o Everton Ribeiro, você tinha o Arrascaeta, você tinha Bruno Henrique, você entendeu? Você tinha o Gabi, que era o cara que finalizava.

Rogério Vilela:Você tem essa noção, né, que esse time vai ficar para história, né, cara? É muito legal isso, né? Não é?

DIEGO ALVES:Hoje eu sou, o que eu mais escuto é obrigado, obrigado por 2019, obrigado. É bem legal esse carinho que a torcida criou juntamente com os jogadores daquela geração.

Rogério Vilela:E o pós que você falou que ele, o Jorge Jesus, falou depois?

DIEGO ALVES:Não, ele falou uma, ele falou, ele tava triste, né? Tudo bem, não, não, ele não é do muito falar, mas a gente vai voltar aqui, eu prometo que a gente vai voltar aqui ano que vem, tipo, se a gente voltaria ano que vem. Só que depois ele saiu e aí não conseguiu cumprir, mas eu não tenho dúvida nenhuma que se ele continuasse mais um ano ali, a gente poderia chegar novamente.

Rogério Vilela:E pós-mundial, o que que acontece?

DIEGO ALVES:Bom, pós-mundial, depois de Jorginho Foi para Portugal, né? Decidiu depois da COVID, aquela situação incontrolável que a gente tinha.

Rogério Vilela:Como bateu para vocês isso?

DIEGO ALVES:Foi diferente.

Rogério Vilela:Foi um áudio agafado.

DIEGO ALVES:Foi diferente. A saída dele impactou muito porque a gente já sabia que a partir da saída dele já não seria a mesma coisa. Até mesmo a nível de convivência no CT. O Jorge, ele blindou muito o CT do Flamengo. Blindou no sentido de Era treinador, jogador, esquece, poucas pessoas. Então isso é bom, né? A gente naquele momento sabia que tava blindado, mas quando ele saiu gerou um pouco de tristeza no vestiário porque ele era muito querido, né? Eu falo que ele chegou com aquela história de personalidade dura, durão, cara que gosta de corrigir, bate de frente com os jogadores, mas saiu falando eu te amo para os jogadores, beijando, falando que era da família.

Rogério Vilela:Então assim, ele virou carioca.

DIEGO ALVES:Moleceu, o coração dele amoleceu bastante no Rio de Janeiro. E ele é um cara que a gente tem muito carinho. A gente viu agora ele esses dias e a sensação era igual de antes, sabe?

Rogério Vilela:Ele, mas a sensação que ele vai voltar, né?

DIEGO ALVES:Não sei, não sei. O objetivo dele é, acho que agora é outro. É mesmo? Acho que ele pensa agora em seleção, ele não pensa muito em voltar. Eu acho que a história dele tá feita, tá feita, né? Acho que ele não deveria voltar.

Rogério Vilela:Se eu fosse ele, eu não voltaria.

DIEGO ALVES:Acho que ele não deveria. Ele tem mais títulos do que derrotas. Então assim, ele é um treinador que marcou uma era. E enfim, a gente torce para que ele consiga atingir esse objetivo dele. Mas ele sempre fala: vocês foram os melhores jogadores que eu treinei.

Rogério Vilela:É mesmo? E se ele falar isso para todo time, hein? Ô Jorge Jesus, e aí? E de x-tudo para paredão, o que que passa pela tua cabeça? Toda essa trajetória de x-tudo lá no começo da carreira até ser chamado de Paredão?

DIEGO ALVES:Eu olho com muito orgulho. Foi um dever cumprido, foi um ciclo da minha vida que eu pude cumprir ele com perfeição. Da onde eu saí, de todos os obstáculos que eu passei, eu poder me tornar hoje uma referência para muitos goleiros que estão começando, eu acho que isso não tem preço. Então eu dou muito valor em tudo que eu fiz, eu dou muito valor também das pessoas que foram importantes na minha vida. Em todos os sentidos, na forma de me direção, de direção, né, de me direcionar para os lugares certos. Mas eu também tive muito de mim ali que eu tive que batalhar e correr atrás e me dedicar. Então me doei, me doei muito na minha vida para ter esse, vamos dizer, essa fama aí de paredão.

Rogério Vilela:E Flamengo, como que termina a história com Flamengo?

DIEGO ALVES:Flamengo termina da melhor maneira. Infelizmente, o atleta chega um momento que ele Tem que saber que o ciclo acabou. E isso não é—

Rogério Vilela:então, isso que eu— como que é? Só um sentimento? É as pessoas te falam? Tem gente que você confia que te fala? Ou é você que sente?

DIEGO ALVES:Não acaba. É o jogador aceitar.

Rogério Vilela:Aceitar.

DIEGO ALVES:O mais difícil é o jogador aceitar.

Rogério Vilela:É mesmo?

DIEGO ALVES:É que o momento que ele vive com uma idade não vai ser igual a outra no final. O atleta hoje, por mais que você treine Não tem como, não tem como. Cristiano Ronaldo até hoje ele tá rendendo, tá, mas o Cristiano Ronaldo já não é aquele Cristiano Ronaldo do Real Madrid que eu enfrentei lá.

Rogério Vilela:Tem que mudar o estilo de jogo até, exato, a equipe mudar.

DIEGO ALVES:Ele vai se adaptando conforme o corpo dele vai direcionando ele, porque é o corpo que manda. Então eu tive lesões graves na minha carreira de joelho, principalmente eu quebrei a clavícula também, mas eu comecei a entender. Eu fiz 2 LCA. Puts, no mesmo? Primeiro, no mesmo. Só que a primeira, o cara caiu em cima do meu joelho, eu rompi o menisco e rompi o colateral total. Mano! É, meu joelho ele ficou bambu, né? E foi uma lesão muito grave na época.

Rogério Vilela:Recuperação de quanto tempo cada uma dessas?

DIEGO ALVES:Era 12 meses, mas eu em 9 meses recuperei, eu já tava jogando em 9 meses. Mas se fosse hoje eu não jogaria.

Rogério Vilela:É?

DIEGO ALVES:Não jogaria, não jogaria. Eu joguei porque na época o Valencia tava numa situação complicada E o treinador me pediu para eu fazer esse esforço. Eu fiz.

Rogério Vilela:Mas hoje como que tá teu joelho?

DIEGO ALVES:Não, desgastado. Mas não, eu faço, eu dou uma corridinha, minha academia, jogo meu futebol.

Rogério Vilela:E tranquilo?

DIEGO ALVES:Jogo futebol, mas também não posso jogar com excesso, sabe?

Rogério Vilela:Então assim, clavícula tranquilo?

DIEGO ALVES:Não, clavícula tranquila, mas as lesões elas vão cobrando ali, claro, né, irmão? Então chega um determinado momento um momento na vida do atleta que ele começa a perceber que ele talvez já não é tão rápido como ele era, ou que ele não tem a mesma força, você entendeu? A recuperação já não é a mesma, por mais que você se dedique. Então eu comecei a entender que tava chegando mesmo o final do meu ciclo. E o final foi uma despedida no Maracanã, no meu último jogo, com um bandeirão meu. Foi junto também com Diego Ribas na época, e fui ovacionado no Maracanã lotado, a minha família, com os meus filhos, com todo mundo ali presente. Então foi um momento muito emocionante porque poucos conseguiram essa despedida dessa maneira.

Rogério Vilela:Olhar para torcida, passar um filme na cabeça mesmo.

DIEGO ALVES:Olha, é um dia completamente diferente, porque você fala, pô, eu não vou chorar, eu vou chorar, você chora já dentro do ônibus, você chora porque você começa a fazer o mesmo trajeto que você fazia, você fala, não vou fazer mais.

Rogério Vilela:E a galera já te olha diferente, né?

DIEGO ALVES:Já me olha diferente. E assim, depois eu até falei com Felipe Luiz quando o Felipe foi aposentar, tá na mesma situação. Fizeram uma homenagem para ele no Maracanã, e eu falava para ele: Felipe, esse dia vai ser tão diferente que você não vai conseguir segurar sua emoção, viu? Felipe: Não, eu vou, não sei o quê. Na hora, quando ele acordou no dia, ele falou: caramba, Diegão, eu tô chorando com tudo aqui, tô chorando dentro de casa, tô chorando. Eu falei: exatamente essa sensação. Porque passa um filme, não é só aquele momento, a vida toda do atleta ali, que ele se doou, jogou, machucou, tocado, esse do olho, literalmente, pai, mãe. Então assim, meu, na minha situação foi, eu olho para aquilo lá, falo dever cumprido, dever cumprido. Eu falo, foi o meu melhor jogo com Flamengo, foi aquele, porque provavelmente se eu não tivesse feito a minha carreira toda no Flamengo, eu não ia ter aquele jogo.

Rogério Vilela:Verdade.

DIEGO ALVES:E aquele jogo ele demonstra tudo que foi feito na minha vida dentro do clube. Então foi muito emocionante.

Rogério Vilela:Antes da gente ir para as perguntas, então quero saber a treta com o Hulk aí, foi Cacera? O que foi? Você é amigo dele hoje em dia?

DIEGO ALVES:Amigo do Hulk, joguei com ele na seleção. Hulk é um querido. Mas nesse dia foi, nesse dia não, na verdade a gente foi jogar um jogo, Atlético Mineiro e Flamengo, Atlético Mineiro Maracanã. E o goleiro do Atlético é o Everson, conheço ele também. Ele gasta muito tempo, muito tempo.

Rogério Vilela:Mas você falar assim, gastar o tempo, né?

DIEGO ALVES:Eu nunca fiz isso, né?

Rogério Vilela:Não gosto disso não, né? O time pede, né, às vezes. Que cai, cai, não precisa levantar.

DIEGO ALVES:Eu lembro que tinha hora que era verdade, o pessoal achava que era mentira. Isso é problema de goleiro, né?

Rogério Vilela:É verdade, uma hora tá doendo mesmo.

DIEGO ALVES:Mas o Hulk, ele ficou bravo comigo no jogo porque o goleiro tava fazendo, gastando tempo fazendo cera e eles estavam ganhando de, e eles estavam 0x0 o jogo. E no final do jogo a gente faz 1x0.

Rogério Vilela:Aí vira, né?

DIEGO ALVES:Aí eu comecei a ter umas dores, cara.

Rogério Vilela:Claro, clavícula começa a...

DIEGO ALVES:Deu quebra na panturrilha. E o Hulk ficou bravo, ficou bravo no final do jogo, mas nada contra, não foi, não faz parte, depois me abraçou, não tem. Mas isso não só foi com ele não, foi com vários, tá?

Rogério Vilela:Ah é?

DIEGO ALVES:É, porque quem faz ele não se lembra, né?

Rogério Vilela:Quem sofreu ali, quem bate não esquece, quem apanha não esquece.

DIEGO ALVES:Exatamente isso.

Rogério Vilela:É, ele falou que, ó, falta de respeito e cuspiu na cara de todo mundo, ele falou isso.

DIEGO ALVES:Olha só, cara, ele quis dizer assim que Foi uma forma que ele entendeu, falou: pô, Diego, passou tanto tempo que olha—

Rogério Vilela:se tivesse cuspido na cara de todo mundo, porra.

DIEGO ALVES:Eu falava para ele, eu falava: o Hulk, imagina o seu goleiro lá, você não vai reclamar com ele, não?

Rogério Vilela:Faz parte. Faz parte. Vamos para pergunta então, diretor. Tem perguntas aí do pessoal que tá assistindo aqui?

JP Castilhos:Vila, ela tá chovendo perguntas, toda Nova York mandando perguntas aqui, mas escolheu a dedo as 5 perguntas principais. Do Rodrigo Pinho, que tá aqui com a gente, pergunta o seguinte para o Diego: Diego, você viveu muitos momentos importantes na carreira. Dos momentos que você mais destaca, qual foi o mais marcante de todos?

Rogério Vilela:Se fosse separar um só, aquele momento.

DIEGO ALVES:Da minha carreira? É. Olha, um dos momentos mais importantes da minha vida, com certeza, foi o momento que eu entro na sala do Lévy e peço 5 jogos.

Rogério Vilela:É mesmo?

DIEGO ALVES:Porque ali é onde e muda toda a minha vida. Que provavelmente se eu não tivesse esses 5 jogos, eu não me tornaria titular, campeão no Atlético Mineiro, e depois iria para Europa. Então ali eu acho que foi uma disrupção que fez eu me tornar o que eu sou hoje.

Rogério Vilela:Tem outra pergunta?

JP Castilhos:Temos sim. O Léo manda aqui para gente o seguinte: Diego, qual foi o momento em que você começou a pensar seriamente na vida depois do futebol? Isso veio ainda jogando ou só depois de parar?

DIEGO ALVES:Não, veio jogando, jogando, porque a gente sabe que a vida de atleta é uma vida curta.

Rogério Vilela:Pois é.

DIEGO ALVES:E o atleta, ele não ganha dinheiro 20 anos da carreira, 30, ele ganha ali os seus 8, 6, 5, 10 anos, 15 anos. Isso aos que ganham, né? Tem uns que não ganham também. Mas eu sempre, na minha infância, eu convivi com amigos amigos perto que tinham pais jogadores, e eu vi a dificuldade deles. E eu sempre dentro de casa tive um pai também que me orientou muito nesse sentido. Então eu sempre, a partir dos meus 28, 29 anos, por mais que a gente se sinta um super-herói sendo jogador, jogando na Europa, Champions, você tem que lidar com esse tipo de situação, né? Porque tá logo ali na frente e passa tão rápido. Quando você vê, você já tá no jogo de despedida, e aí o que que eu vou fazer da minha vida? Então foi durante a minha carreira assim, meus 27, 28 anos, foi quando eu comecei a dar mais importância a esse período de transição de carreira.

Rogério Vilela:Mais uma pergunta, diretor?

JP Castilhos:Sim, vamos lá. O Luiz manda aqui para gente: o que o torcedor não vê sobre os bastidores de um clube gigante como Flamengo, especialmente em momentos de muita pressão final e cobranças absurdas?

DIEGO ALVES:O que o torcedor não vê?

Rogério Vilela:É, exato, ele vê o que tá dentro de campo e o que vocês não vê.

DIEGO ALVES:O dia a dia é um filme. É porque existem jogadores que sofrem tanto para poder jogar um jogo e às vezes ser vaiado por às vezes não ter feito nada. Então os treinos, a dedicação de lesão, jogar com dor, superação. Eu acho que o torcedor, lógico, ele vai ao campo para enxergar o time ganhar, ter o resultado, mas o trabalho do bastidor ali, o dia a dia, os treinamentos, o sofrimento, É difícil porque não junta somente isso, junta também a parte familiar. Você não sabe como é que o cara tá na vida pessoal dele. Às vezes tem gente que não tem uma base familiar. Então, um vestiário, ele é repleto de situações que no decorrer do dia a dia ali fica, fica bem complicado. Mas você tendo um grupo bom de jogadores importantes, líderes, isso ajuda bastante você a controlar esse tipo de situação.

JP Castilhos:Próxima pergunta: A Malu pergunta o seguinte: agora que você parou de jogar, você se vê mais próximo do futebol em gestão, projetos de bastidores, ou quer construir uma carreira também fora do esporte?

DIEGO ALVES:Eu acho que o esporte ele nunca vai sair da minha vida. O esporte ele tá conectado, futebol em si. Só que quando eu paro de jogar, que eu vejo que meu ciclo no futebol acabou, eu começo a entrar em uma nova área da minha vida, um novo ciclo. Que eu queria conhecer como funcionava a parte empresarial, empreendedorismo. Eu sempre me interessei muito por isso. Então quando eu paro de jogar, eu dou um tempo no futebol, falo não, vou deixar o futebol de lado, mesmo sabendo que não vai sair nunca do meu sangue o futebol. Mas tudo que é importante hoje eu conectar o esporte relacionado à parte do empreendedorismo, eu acho que é importante na minha vida. Eu tô Tô agora com a Nexus, que é uma empresa que a gente faz para transição de carreira para atletas. E a gente também agora tá fazendo as conexões de esporte com o lado empresarial, que eu acho que tem tudo a ver.

Rogério Vilela:Claro que tem tudo a ver, tudo a ver. Próxima pergunta, temos mais duas, é isso? Última pergunta. Então, ó, peraí, peraí, tem que ser boa essa pergunta. De quem que é? Essa é minha. Ih, cara, nepotismo aí. Manda, manda lá, manda lá.

JP Castilhos:Diego, quando você pensa nos próximos 10 anos, qual é o tipo de impacto ou legado que você quer deixar?

DIEGO ALVES:Essa é uma pergunta boa, porque quando um atleta para de jogar, ele nunca pensa nos próximos 10 anos.

Rogério Vilela:Você tá com quantos anos?

DIEGO ALVES:Tô com 40.

Rogério Vilela:Até os 50?

DIEGO ALVES:Até os 50. E aí? Eu quero melhorar como pessoa, melhorar como pai, melhorar como marido. Eu acho que a melhora, ela é sempre importante em todos os sentidos da vida. Mas na parte profissional, eu acho que impactar os atletas, de fazer eles entenderem da importância que é o pós-carreira, porque o rendimento dentro de campo, isso com trabalho a pessoa vai conseguir, mas o pós-carreira, eu acho que o impacto mais importante na vida do atleta é você dar direção para eles, caminho, visão, entender. E tudo isso que está sendo criado nesse pouco tempo no meu pós-carreira É direcionado para isso, para a gente poder impactar esses atletas, essas pessoas, e entenderem que eles vão ter muito mais tempo de vida fora do esporte do que dentro do esporte. Profissionalmente, eles vão ter seus 15, 20 anos com muita sorte, mas que eles vão ter mais 40, 50 de vida fora disso. Então eles precisam se preparar para esse período da vida, que é o período mais importante. Então hoje eu procuro curtir os meus filhos, Fiquei 25 anos da minha carreira praticamente viajando, jogando e dando atenção repartida ali com futebol, mas ser uma pessoa melhor. 10 anos eu quero atingir esses objetivos.

Rogério Vilela:Obrigado demais, Diego. Como foi participar da tua vida como um espectador? Porque aqui você contou tua vida e você tava vendo ela como um filme. Como foi participar da tua vida de novo, lembrando de momentos deve ter sido legal, né?

DIEGO ALVES:Eu fico muito feliz, obrigado pela oportunidade. E eu sei que essa história ela é contada para poder impactar outras pessoas, outros atletas, outros goleiros, talvez alguns goleiros. Não, mas eu falo assim, os goleiros gordinhos que também, né, que muitos vêm atrás perguntando. Mas é uma história de vida onde que a gente pode levar para todas as áreas. Eu acho que na minha palestra, eu tenho uma palestra que eu falo dos 9 D's. 9 D's do sucesso.

Rogério Vilela:Quais são?

DIEGO ALVES:Você quer que eu fale? Claro! Vai ter que contratar minha palestra então, né?

Rogério Vilela:Adoro explicar, cara, só qual que é o...

DIEGO ALVES:Não, eu falo: decisão, direção, dedicação, dificuldade, disrupção, desfrute, diamante, domínio, difamação, e uma que faz parte de tudo isso.

Rogério Vilela:Que é?

DIEGO ALVES:Deus.

Rogério Vilela:Deus, e eu tenho outro D agora, do caralho. Obrigado demais. Você não tá livre porque eu sempre termino o podcast com 3 perguntas finais contigo, não vai ser diferente. Obrigado, todo mundo teve aqui. Já deixa o like, compartilha esse vídeo, porque a gente tá aqui no meio da Copa do Mundo e eu tô trabalhando para vocês, que eu queria estar aqui, não queria estar bebendo, mas aí tá o Diego aqui, como que eu vou falar, não vou aproveitar o cara? Então já mete o dedo do like. Primeira pergunta é o seguinte, eu Não sei se você já respondeu isso, mas qual foi o momento mais difícil da tua vida ou da tua carreira?

DIEGO ALVES:O momento mais difícil da minha carreira profissionalmente foi naquele momento pós-jogo do Atlético. Eu acho que ali, se talvez eu não tivesse uma consciência e uma personalidade forte, tinha desistido. Eu tinha desistido. E da tua vida? Olha, da minha vida, eu sempre encarei tudo com muita coragem, mas na minha vida, quando eu decidi me tornar jogador de futebol, e você, você tem que deixar muita coisa de lado, né? Então eu acho que eu, quando eu tomo a decisão, quando o pai levanta a mão e fala Quem é o goleiro? Aquela decisão ali, ela é difícil porque ela vem carregada com muitas coisas que eu não sabia o que viria. Mas hoje eu entendo que eu tive que pagar o preço para conquistar tudo. Então, decisão ali, ela é um momento que você escolhe para tua vida.

Rogério Vilela:Pois é. Segunda pergunta é o seguinte: não sei se sou eu que vou te dar essa notícia, se for, desculpa, mas a gente vai morrer um dia. Não sei se você já tava sabendo dessa parada aí. Tá sabendo disso? Claro. Vai demorar muito tempo, você tem muito tempo de vida, relaxa, mas esse programa aqui vai ficar um pouco mais de tempo do que a gente na Terra. Então manda um recado para 200 anos no futuro, 300 anos no futuro, quais seriam suas últimas palavras, teu epitáfio, Diego?

DIEGO ALVES:Poxa, essa pergunta aí... Acho que é só pergunta fácil. Deixar aquele legado assim para todo mundo?

Rogério Vilela:Isso, é, colocar na lápide assim.

DIEGO ALVES:Vocês estão dispostos a pagar o preço? Se estão, conheça a história do Diego Alves.

Rogério Vilela:Aí já, já manda um teaser aí para o pessoal. E a terceira pergunta é: qual a tua dúvida atual? No que que você se pega pensando antes de dormir? Qual a pergunta que você se faz?

DIEGO ALVES:Pergunta que eu me faço? Eu agradeço somente.

Rogério Vilela:Mas não tem uma dúvida? Não existe mais dúvida?

DIEGO ALVES:Eu agradeço, agradeço todas as oportunidades que eu tive na minha vida, que Deus—

Rogério Vilela:Você é grato à sua—

DIEGO ALVES:Sou grato, cara, grato. O que eu consegui na minha vida, depois de tudo o que eu tive de desconfiança, de pessoas que— Eu sou grato. Eu quero que me dê saúde só, só que Deus me dê saúde, aos meus filhos, minha família, e que me dê aí essa oportunidade de prosperar mais.

Rogério Vilela:Amém, obrigado demais. Então muita sorte, muita luz na sua vida. E você agora segue aí ele nas redes sociais. Qual que é? Redes sociais?

DIEGO ALVES:@Diego Alves em tudo. Diego Alves, fechou.

Rogério Vilela:E é o seguinte, aí você chegou até agora, você tem que provar que chegou até o final desse papo. E como você prova que chegou até o final desse papo? Escreve nos comentários X tudo. Só quem assistiu o papo vai saber disso. Então coloca X tudo nos comentários. Valeu, que bom que vocês vieram, fiquem com Deus, beijo no cotovelo e tchau!

DIEGO ALVES:As opiniões e declarações feitas pelos entrevistados do Inteligência Limitada são de exclusiva responsabilidade deles e não refletem necessariamente a posição do apresentador, da produção ou do canal. O conteúdo aqui exibido tem caráter informativo e opinativo, não sendo vinculado a qualquer compromisso com a veracidade ou exatidão das falas dos participantes. Caso você se sinta ofendido ou tenha qualquer questionamento sobre as declarações feitas neste vídeo, por favor, entre em contato conosco para esclarecimentos. Estamos abertos a avaliar e, se necessário, editar o conteúdo para garantir a precisão e o respeito a todos.