Episódios de Inteligência Ltda.

1943 - AMYR KLINK (+ FILIPE BRAGANÇA)

26 de setembro de 20263h15min
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AMYR KLINK é navegador, explorador e escritor, e FILIPE BRAGANÇA é ator. Eles vão bater um papo sobre o filme “100 Dias”, dirigido por Carlos Saldanha e baseado no livro “Cem Dias Entre o Céu e o Mar”, escrito por Klink. O Vilela diz que o seu navegador favorito é o Google Chrome.

Participantes neste episódio4
R

Rogério Vilela

HostApresentador
H

Homer

Co-host
A

Amy Klink

ConvidadoNavegador, explorador e escritor
F

Filipe Bragança

ConvidadoAtor
Assuntos6
  • A preparação e os desafios da primeira travessia do Atlântico a remoestudo de erros de outros navegadores·projeto do barco para capotar·dieta balanceada com água do mar·navegação por astronomia
  • A produção do filme '100 Dias' e a interpretação de Filipe Bragançalongo processo de produção·preparação do ator·cenas em estúdio e no mar·impacto da história em novas gerações
  • A chegada inesperada no Brasil e o impacto do livro '100 Dias'chegada sem aviso·encontro com pescadores·sucesso editorial do livro·influência em outras pessoas
  • As expedições polares e a invernagem na Antárticaconstrução do veleiro Paraty·autonomia de 3 anos·isolamento e rotina·viagem ao Círculo Polar Ártico
  • A infância de Amyr Klink e a paixão por canoas em Paratycompra da primeira canoa·canoa Mané Santos·canoa maluca·emancipação do moleque
  • A filosofia de vida de Amyr Klink e a busca pela simplicidadegosto pelo isolamento·desenho de projetos técnicos·construção de geodésicas·uso de ideias brutalmente simples
Transcrição1021 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
RVRogério Vilela

Olá, terráqueos, como é que vocês estão? Sou Rogério Vilela, tá começando mais um Inteligência Limitada, o programa onde a limitação da inteligência acontece somente por parte do anfitrião que vos fala. Sempre será com pessoas mais inteligentes, mais interessantes E com a vida muito mais entre o céu e a terra do que a minha e do que a sua, entre o céu e o mar, né? Na verdade, você já atravessou o Atlântico a nado, barco, alguma coisa?

HHomer

Não, não tenho essa coragem não.

RVRogério Vilela

Avião? Nem avião?

HHomer

É, mas não, não.

RVRogério Vilela

É, então eu já atravessei de avião, já é difícil. Eu imagino que remando deve ser mais difícil ainda.

HHomer

Rapaz, eu não vou na represa aqui, na represa do Guarapiranga fazer isso. Imagina no oceano.

RVRogério Vilela

Não aguenta.

HHomer

Exato.

RVRogério Vilela

Hoje é um episódio especial, não é, Rômulo?

HHomer

É verdade.

RVRogério Vilela

E como que vai funcionar?

HHomer

Bom, hoje é um episódio que é especial e é dedicado para pessoas especiais, que são os nossos membros, né? Eles têm uma regalia que eles passam na frente do chat e enviam a pergunta deles com antecipação.

RVRogério Vilela

Por que que eles sabem?

HHomer

Porque eles têm essa regalia, né, de ser inscritos, de ser membros, né? Eles recebem a nossa agenda com antecipação e já enviam lá as perguntas.

RVRogério Vilela

Por que você tá falando com essa voz mais fina hoje assim?

HHomer

Acho que é o frio, né? Tô com frio, né?

RVRogério Vilela

Tá estranha sua voz, cara.

HHomer

É, pois é.

RVRogério Vilela

Então deixa eu falar da voz do Homer tem um problema. Eu tenho que falar também com o pessoal que é os terracos e terracas que estão em casa. Pode falar?

HHomer

Pode falar.

RVRogério Vilela

Ó, vocês aí de casa, responde uma coisa: faz quanto tempo que vocês não desligam de verdade? Porque parar de trabalhar não é a mesma coisa que parar de pensar no trabalho, né? Às vezes a gente precisa mudar de cenário, respirar um pouco e aproveitar mais tempo com quem a gente gosta. E o próximo feriado prolongado tá chegando. Ou seja, vou dar um recado aí. Opa, você tá incluso nessa! Opa, temos 3 dias perfeitos para dar uma pausa na correria do dia a dia.

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Então entra no site ou no aplicativo do Airbnb e comece a planejar. Feriado liberado é onde?

HHomer

É no Airbnb.

RVRogério Vilela

É isso aí, vamos para o papo. Está aqui uma pessoa, é, Homer, que eu tento trazer desde o dia 1 do podcast e a gente tá fazendo em novembro 6 anos e finalmente ele veio.

HHomer

Você viu, rapaz?

RVRogério Vilela

Amir Klink, seja muito bem-vindo aqui. Tá faltando só quem agora? Já trouxe Maurício Souza. Olha, tá faltando agora só o Humberto Gessinger.

HHomer

Já pensou?

RVRogério Vilela

E eu era fã da banda quando era criança. E tá difícil fazer o Humberto Gessinger. Amir Klink, sua câmera é essa daqui. Se apresenta para quem nunca ouviu falar de você. Como você se apresentaria para quem não te conhece?

?Voz 1

Puxa vida, eu me considero um inventor. Meu nome é Amir Klink.

RVRogério Vilela

Inventor?

?Voz 1

É, eu gosto de juntar coisas e aqui eu fiquei um pouco com ciúmes.

RVRogério Vilela

É, aqui o que não falta são coisas para juntar, né?

?Voz 1

Eu achei que meu escritório era muito louco, mas eu perdi.

RVRogério Vilela

Então você se coloca como inventor no final das contas.

?Voz 1

Mas eu fiquei conhecido no nosso bairro como o navegador e eu navego em barcos que a gente projeta e constrói. São barcos muito diferentes do convencional, são barcos que podem encalhar, que tem autonomia para fazer viagens malucas para lugares remotos. E cada barco é como se fosse um filho que a gente põe no mundo, e esses filhos andam por aí. Hoje tem filhos em todos os continentes.

RVRogério Vilela

Nesse momento eles estão por aí circulando?

?Voz 1

A gente fez muitos barcos, eram sempre one-off, né, projetos especiais. Eu tenho um escritório de projetos especiais e muitos foram para fora. Então tem barco na Ásia, no Oceano Índico, no Mediterrâneo, na Groenlândia. E agora tem um barquinho da nossa filha que tá no Alasca.

RVRogério Vilela

Que coisa! E você trouxe o meu presente inútil para deixar no cenário? O que que você trouxe de presente?

?Voz 1

Eu não trouxe um presente inútil, eu trouxe um presente muito útil.

RVRogério Vilela

É útil?

?Voz 1

É útil. É um canivete que eu tenho desde os 16 anos.

RVRogério Vilela

Deixa eu ver.

?Voz 1

E é um canivete que serve para matar, para abrir ostra.

RVRogério Vilela

Até hoje ele funciona, então?

?Voz 1

É, ele salvou a minha pele muitas vezes.

RVRogério Vilela

Sério? Então tem história esse canivete aqui. Olha só.

?Voz 1

É um canivete desenhado na Suécia há uns 80 anos atrás.

RVRogério Vilela

Cara, é bonito, hein? E acompanhou você nas viagens então?

?Voz 1

É, desde qual? Eu tive um acidente aeronáutico. Eu tenho um amigo, Luiz Faveiro, que fabrica aquelas minúsculas aeronaves que a gente chama de trike, é uma asa delta pendurada num— e é tudo ao contrário de um avião para pilotar. E eu viajei, a gente viajou juntos o litoral brasileiro.

RVRogério Vilela

Como que chama esse?

?Voz 1

Chama trike, é uma aeronave barata, preço de uma bicicleta.

RVRogério Vilela

Ah, é?

?Voz 1

Tem um motor Rotax 505 de 2 tempos. E eu tive uma pane entre Guaratinguetá e Paraty, no alto da serra, Travou o motor porque o cabo do acelerador enrolou na hélice. E eu usei esse canivete para cortar a calça para fazer uma emenda, para tentar emendar e conseguir ligar o motor de novo, caindo em parafuso. A sorte é que eu tava, acho que é uns 10, 12 mil pés, e nos últimos 100 metros Não deu tempo de fazer uma tira com a calça.

E aí nos últimos 100 metros eu lembrei do meu chaveiro, esse aqui. E aí eu consegui fazer a emenda no carburador com esse.

RVRogério Vilela

Deixa eu ver, deixa eu mostrar aqui.

?Voz 1

Botei as chaves na boca e aí nos últimos 100 metros eu lembrei do meu chaveiro, esse aqui. E aí eu consegui fazer a emenda no carburador com esse. Deixa eu ver, deixa eu mostrar aqui.

RVRogério Vilela

Botei as chaves na boca e com avião caindo, caindo.

?Voz 1

Aí eu tentei, calma essa, eu tentei pousar em esse, isso tá aí, um trike. Esse é bonitinho, caindo em parafuso assim, em parafuso. O parafuso no trike não é fatal, não, você consegue sair dele, só que cai rápido, né? Daí eu tive que dar a partida, pegou, e aí eu vim acelerando com a boca. Aí eu tentei pousar no estacionamento da Basílica de Aparecida do Norte.

RVRogério Vilela

É sério?

?Voz 1

É, quando eu tava quase quase tocando o chão, apareceu um ônibus de Romeiro e parou bem no meio do estacionamento. Eu tive que arremeter. Depois que eu fui pousar numa fábrica abandonada da Vilares em Pindamonhangaba, e mas aí não tinha ônibus para ir embora, não tinha nada, não tinha celular naquela época. Eu falei, vou ficar perdido.

RVRogério Vilela

Falando de que ano mais ou menos?

?Voz 1

Isso deve ter sido nos anos, final dos anos 80, por aí. E aí no final eu achei uma pista em Pindamonhangaba, tinha uma turma fazendo churrasco, e aí eu pousei em cima do churrasco. E aí eles acharam estranho, por que que está molhado do lado direito? É a baba.

RVRogério Vilela

Mas era mesmo?

?Voz 1

Era mesmo, uma hora babando com a boca aberta. Ah, é, era baba e a calça rasgada. Aberta assim com a coxa de fora. Eles não entenderam nada, mas me convidaram para o churrasco. Foi muito legal.

RVRogério Vilela

Que história! Já começa com história maravilhosa, né, cara?

HHomer

Meu, penetra no churrasco, né, cara?

RVRogério Vilela

Mas, Amir, esse episódio me faz perguntar sobre o medo da morte. Assim, você tem esse medo ou ele vem depois só?

?Voz 1

Na hora você tá tão preocupado em resolver o problema, mas na hora não dá medo, né? Não dá tempo de Você tá focado em resolver esse problema. Eu não queria cair no meio do mato, na Serra da Quebra-Cangalha, entre Cunha e Paraty. Ia ser, ia ser muito perto da morte, né? Mas a sorte é que eu tinha tanto medo, quando eu decolei de Paraty, decolei da rua, né, da Rua Fresca, onde tem a Flip agora.

RVRogério Vilela

O caminho era Paraty até—

?Voz 1

eu queria ir até Atibaia. É, e aconteceu essa falha no cabo do acelerador. E eu fui rápido, eu perdi tempo cortando a calça. Se já tivesse tido essa ideia do chaveiro, é, foi na hora de guardar o canivete que eu lembrei do meu chaveiro tem um mosquetão. Eu faço assim, eu faço assim, eu faço e dou de presente para os amigos. Mas também não é um presente inútil, é um presente total útil, né?

RVRogério Vilela

Caramba, deixa eu deixar aqui no meio. Mas vamos voltar então à tua infância, amigo. Como foi a sua infância? Você nasceu onde?

?Voz 1

Eu nasci em São Paulo, mas a gente passou a frequentar a cidade de Paraty. E foi aí que surgiu a passeio. Fiziam a partir, meu pai tinha muitos negócios lá, né? Comprou muita terra. Aí é sempre Em Paraty. Paraty tava vivendo um período de depressão econômica profundo, né? Eu tenho amigos que compraram um sobrado inteiro em Paraty pelo preço de um pneu.

RVRogério Vilela

É mesmo?

?Voz 1

É. As pessoas, muita gente tava saindo de lá, tava saindo de lá. A cidade, a estrada, o acesso era muito ruim. Meu pai foi um dos 3 primeiros carros da história que entraram em Paraty. E era uma viagem dura para caramba, eram 14, 15 horas de viagem da Dutra até Paraty, era tudo terra. E eu me apaixonei pela cidade. E aí eu descobri o universo das canoinhas e comprei minha primeira canoa com 9 anos de idade e descobri que essa canoa era um—

RVRogério Vilela

mas não é uma coisa da família então, que você que desenvolveu esse gosto? Seus pais, seus avós não tinham esse?

?Voz 1

Não. Mas essa canoa foi muito importante na minha vida futura.

RVRogério Vilela

Por quê?

?Voz 1

Porque eu namorava essa canoa, era do Iraci, que era um pescador, tinha uma balieira chamada Janaína, e eu ficava no mole, na barra do rio, perto da praia em Paraty. Ele usava canoa para ir da praia até a poita onde ficava o barco dele, deixava canoa na poita. Às vezes eu ia nadando lá só para, que era bonita a canoinha. E depois, um dia eu consegui comprar a canoa dele. Eu emprestei e não paguei dinheiro de um tio, né, que é caro, um jornalista muito porra louca que morava em Estocolmo, famoso na Suécia porque ele era um jornalista de náutica e automobilismo.

Ele sabia que eu gostava da canoinha, ele me emprestou o dinheiro. E aí eu ia passear e descobri que era muito dinheiro, pouco Não era baratinho, é um triciclo de criança. O Iracy vendeu a canoa para mim de tanto que eu enchi a paciência dele. E aí eu descobri que onde eu parava a canoinha vinha aqueles pescadores velhos, mestres canoeiros, não sei o quê. Ele falou, nossa, uma canoa do Mané Santos! Essa é do Mané Santos, filho?

Onde você arrumou uma canoa de Mané Santos? Porque ela era como se fosse um Bentley. Ela era bem feita, de estilo. E aí eu fui percebendo que essa canoa aí era uma canoa de cedro rosa, que é uma madeira super nobre. Hoje o corte do cedro rosa é proibido. E foi assim que eu fui descobrindo que cada canoinha em cada prainha sem acesso era, tinha um estilo diferente, tinha uma história diferente. E a canoa na época era emancipação do moleque.

Primeira namorada, saía na canoa. Eu ia para aqueles lugares onde você só chega por mar ou por rio.

RVRogério Vilela

E seus pais de boa com isso?

?Voz 1

Não, eu ia escondida lá para cachoeira, no fundo do saco de uma manguá, para Baía dos Méros. Então, falando de distâncias longas assim, mais ou menos era um dia e meio, 2 dias. Uma canoa, como dizem os canoeiros experientes, uma canoa maluca.

RVRogério Vilela

Por quê?

?Voz 1

Porque ela era muito rápida e muito pouco estável. Então é raríssimo as pessoas conseguem uma canoa maluca como a Max, conseguem remar em pé. E eu conseguia remar em pé. É, eu era um, eu sou um bom remador e eu aprendi. Aí os pescadores ficavam orgulhosos.

RVRogério Vilela

Mas até aprender virava muito, caía muito?

?Voz 1

Muitas vezes.

RVRogério Vilela

Porque você tem que fazer remar de um lado, de outro, e pode virar.

?Voz 1

Ela balança muito porque ela tem um casco estreito, só que é rápida.

RVRogério Vilela

E Cedro Rosa fazia stand-up naquela época já, então?

?Voz 1

É, era antecessor do stand-up.

RVRogério Vilela

E era muito rápida comparada?

?Voz 1

Muito rápida. Eu tenho essa canoa Até hoje tenho guardado, ela tá lá no Museu do Mar, lá em São Paulo, tá perfeita. É essa aí, é essa. E ali é uma das minhas irmãs. E esse é um dia de maré cheia em Paraty, a água entrou na matriz.

RVRogério Vilela

Que legal!

?Voz 1

E fica bem na frente de casa até hoje, né, de alagar. Acontece nas marés de sisija, como a gente fala, nas marés mais fortes.

RVRogério Vilela

E é uma canoa baixinha assim, ela é baixinha. Isso é bom, é ruim, é mais difícil por ser assim, né?

?Voz 1

Se pegar um mar ruim— e uma vez eu fui com meu irmão e um amigo para uma ilha na Baía de Paraty, entrou um sudoeste, eu resolvi salvar a vida deles e fui pedir socorro da ilha, fui remando com as canoinhas até a cidade, e aí a canoa virou. E aí eu tinha aprendido com esses velhos caiçaras a tirar água da canoa sem ter uma cuia. Como que faz? Você dentro d'água nadando, você puxa ela para frente, puxa para trás, e a água vai saindo pelas pontas da canoa.

Aí você tem que ser muito esperto para apoiar as duas mãos, uma em cada bordo, e pular para dentro da canoa.

RVRogério Vilela

Que não é fácil.

?Voz 1

Que não é fácil. No final demorei acho que 5 horas, e no final eu fui socorrido.

RVRogério Vilela

A ideia era ajudar os caras.

?Voz 1

Eles organizaram uma busca para mim, porque eu não conseguia romper o sudoeste. Então fiquei muitas horas no, muita onda no mar, onda, onda, sudoeste é um vento, vento forte, duro.

RVRogério Vilela

É, caramba. Então a sua paixão então começa com essa canoa, mas você imaginava, imaginava um dia vou viver com, viver disso, vou atravessar o oceano? Não, era só uma diversão. Mas aí eu fui descobrindo esses Você tinha alguma, mas nessa época você tinha alguma, alguma, mirava alguma coisa de profissão, alguma coisa, ou ainda não? Não, não, só vivia essa vida.

?Voz 1

Eu entrei no mundo náutico muito tempo mais tarde, eu acabei fazendo economia.

RVRogério Vilela

É mesmo?

?Voz 1

Não serviu para nada.

RVRogério Vilela

E por que economia?

?Voz 1

Não sei por quê, porque eu briguei com professor de ciências que era um coreano muito chato na escola onde eu estudava. E aí economia era da área de humanas, e aí eu mudei do científico para humanas e acabei fazendo economia.

RVRogério Vilela

E não curtiu?

?Voz 1

Trabalhei 2 anos num banco, sério, mercantil, Finasa. E aí eu falei, não, prefiro cortar os pulsos com este mesmo canivete.

RVRogério Vilela

Eu imagino você fechado, né?

?Voz 1

Meu chefe no banco, ele tava 22 anos na mesma cadeira. Eu falei, por nenhum dinheiro do mundo eu quero ser presidente desse banco. E aí eu resolvi, com quantos anos? Eu tava me formando, né, tava fazendo economia, devia ter uns 18, 19 anos.

RVRogério Vilela

Mas continuava remando, continuava com barco?

?Voz 1

Não, eu comecei a remar de verdade tirando as canoinhas de Paraty na raia olímpica da USP, que tem uma raia aqui na beira do Rio Pinheiros, que é paralela à Marginal, né? Isso, que eram os poços de ar, os portos de areia que foram usados para construir a cidade universitária. E aí alguém teve a ideia genial de emendar eles e surgiu uma raia.

RVRogério Vilela

É assim que surgiu? Não sabia.

?Voz 1

É uma água do lado do Pinheiros. A água é limpa porque é água de nascente da própria USP. E aí me apaixonei pelo remo olímpico, que eu não conhecia, que é um esporte bonito porque você não vence com a força nem com talento, você vence com o treino, com engajamento, com a capacidade de bater 8 remos juntos na água no mesmo milésimo de segundo. E a gente treina, treinava das 4 às 7:30 da manhã todo dia. Aí os filhinhos de papai da USP com chofer, não sei o quê, reclamando do preço do do almoço na CPU, porque era centavos.

E o pessoal do Remo era um pessoal diferente, era um pessoal raiz, pessoal que vinha de ônibus para a cidade universitária, todo mundo trabalhava. E foi uma convivência muito importante. E aí eu resolvi.

RVRogério Vilela

E fisicamente você era preparado já para isso? Você tinha força?

?Voz 1

A gente tinha um técnico que vocês tiveram que se preparar. Eu entrei pelo Clube Espéria, que era um dos clubes fortes do Remo. Tinha o Espéria, tinha o Corinthians, Tinha o Paulistano, tinha o Tietê, que era talvez o mais forte, e os mais fortes do Brasil era o pessoal do Flamengo no Rio. E esse técnico judiava da gente, ele obrigava a gente a correr no escuro todo dia às 4 horas da manhã, começava com uma corrida de 11 km só para aquecer, só para judiar, não era só para judiar, é para ver até que ponto a gente tava determinado a ser um remador Confederado, né?

E é, o pesadelo era subida da biologia na USP, que aí ele ficava escondido no meio do mato com cronômetro, e ele queria que a gente acelerasse na subida. Então a gente chegava na porta da biologia, quase primeira semana, achei que eu ia morrer.

RVRogério Vilela

Então começava com 11 km no escuro só para ficar esperto.

?Voz 1

Mas é um esporte que ensina muito. Você tem que limpar o seu barco, tirar a vaselina que você passa nas forquetas, enxugar o barco. Porque tem onde encaixa o remo de palameta. Então o remo encaixa, é um U de metal, e você encaixa o remo e faz este movimento. E eu fiz grandes amigos no remo. E aí não sei como surgiu a ideia da da travessia remando.

RVRogério Vilela

Então, mas daí você pegou algum, algum, alguma embarcação para ir treinando sozinho?

?Voz 1

Não, a gente tinha todo um calendário, né? Troféu Bandeirantes, Campeonato Paulista, tudo, Campeonato Brasileiro. Tinha uma regata de remo muito famosa lá em Itajaí que ia até Blumenau, uma regata longa, na regata na raia são 2.000 metros que matam a gente. Essa regata em Santa Catarina eram 17 km no rio, então os caras tinham que ser bons. Tinha as competições em Santos também. O Santos tinha o Clube Santos, tinha um outro clube que remava no Canal de Santos, mas ali é perigoso porque ali tem as ondas dos barcos, né, dos navios, dos navios e dos barcos de praticagem, né, que fazem uma ondulação E aí eu acompanhei dois americanos que tentaram atravessar o Atlântico Norte, morreram.

RVRogério Vilela

Sério?

?Voz 1

E aí eles queriam atravessar a remo. Eu falei, esses caras vão morrer. E eles morreram.

RVRogério Vilela

Dois caras saindo de Nova York para ir para Inglaterra, cada um com uma embarcação?

?Voz 1

Não, os dois no mesmo barco. E por que você acha que teve dois caras, Harbaugh e Samuelson, que atravessaram no final do século retrasado?

RVRogério Vilela

E por que que esses não conseguiram? Qual foi o erro deles?

?Voz 1

O barco capotou e eles morreram, sumiram. Só que o barquinho deles, capotado à deriva, não afundou e chegou sozinho na Inglaterra. E aí eu achei aquilo tão interessante, eu comecei a estudar por que que deu, o que que deu errado no projeto deles.

RVRogério Vilela

E o que que foi?

?Voz 1

Foram vários erros: não ter uma dieta balanceada, a escolha dos materiais, não ter um cálculo de estabilidade dinâmica, não tem um medidor de consumo de água doce, não tinha osmose reversa naquela época.

RVRogério Vilela

A gente acabou a comida, a água, aconteceu isso?

?Voz 1

Você estudou? Não, foi isso que eles morreram logo no começo, na Gulf Stream, na corrente do Golfo ali perto de Cape Cod, ainda perto da—

RVRogério Vilela

virou o barco, eles não conseguiram desvirar, é isso?

?Voz 1

Não, e morreram. Mas o barco chegou sozinho na praia onde eles queriam, por causa das correntes, por causa das correntes. E aí eu comecei a escrever Eu gosto de escrever, comecei a escrever os pontos, as falhas dos americanos. E de repente eu tinha um projeto na mão, eu falei, vou fazer, mas não no norte, aqui no sul, pelo sul. Ninguém tinha atravessado o Atlântico Sul remando, eu fui o primeiro.

RVRogério Vilela

Algum motivo?

?Voz 1

Não, a distância é grande. O fato é que eu fui o primeiro.

RVRogério Vilela

Pelo norte é mais perto do que pelo sul?

?Voz 1

Pelo norte é bem mais perto.

RVRogério Vilela

Qual que é a distância de um e de outro?

?Voz 1

É, o norte é 2.800 milhas, 2.700. No sul, a rota que eu escolhi deu 3.700 milhas, quer dizer, quase 40%.

RVRogério Vilela

Vê se acha essa rota no mapa para eu entender. E essa rota foi escolhida como? Em cima de maré?

?Voz 1

Eu tinha uma obsessão acadêmica, eu queria ser fluente em francês e em inglês.

RVRogério Vilela

E aí, mas normalmente as pessoas quando querem ser fluente numa língua, eles simplesmente vão estudar numa escola, eles não atravessam o oceano, né?

?Voz 1

Então, mas eu comecei a estudar muito. Eu sempre fui melhor, segundo melhor aluno da classe. E quando eu fiz o curso da Universidade Nancy aqui no Brasil, na Aliança Francesa, eu fui um dos melhores alunos até fazer o encerramento, os 3 anos superiores em francês, eu tomei pau 3 vezes. Fiquei com tanta raiva, tomei pau. Não gostava de ler os clássicos, literatura francesa, embora conhecesse todos. E aí eu descobri uma coleção de livros de navegadores na Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, e me apaixonei.

Fiquei amigo da gerente, era uma senhorinha muito simpática. Ela falou, olha, você gosta de ler, cansou de ler os clássicos franceses, mas tem essa coleção aqui que se chama Mer et Aventures, Mar e Aventuras, e são livros de relatos de navegadores, mas ao contrário dos nossos, é super bem escritos, assim, caras que dominam a língua francesa, e eram relatos sensacionais, não eram só pelos feitos, Mas pela literatura, era uma literatura gostosa, é que nem o Bernard Moitessier, o Jérôme Poncet, todos esses mega.

RVRogério Vilela

E aí você mergulhou nisso daí?

?Voz 1

Mergulhei através dos livros, e através dos livros nasce o desejo de fazer a minha travessia no sul.

RVRogério Vilela

Mas até então você se achava capaz assim fisicamente?

?Voz 1

Eu não parei para pensar, eu falei, bom, porque os caras cometeram erros muito infantis.

RVRogério Vilela

Por exemplo, então você tava vendo gente fazendo engano errado.

?Voz 1

O Geraldo Bouville fez uma travessia espetacular em 77 dias. Ele saiu de Cape Cod, do lado de Nova York, e foi para Bretanha, para Brest. Só que quando ele cruzou o meridiano do farol de Ouessant, em Brest, na Bretanha Francesa, Foram lá e rebocaram ele, não deixaram ele, ele não chegou por conta própria. E aquilo para mim foi uma frustração.

RVRogério Vilela

Por que aconteceu isso?

?Voz 1

Sei lá, ele pediu o reboque.

RVRogério Vilela

Ah, ele pediu, não foi?

?Voz 1

Não sei, não sei. Mas é frustrante o livro dele, porque no final ele não vê a França, atravessa o Atlântico com os braços, depois é rebocado e chega rebocado. O último centímetro ele não fez da travessia. E aquilo me chocou.

RVRogério Vilela

Falei, para a Lua e não pisar na Lua, né?

?Voz 1

É que nem o coitado que ficou lá, coitado que ficou dentro do módulo lunar sem descer.

RVRogério Vilela

Esse cara, cara, ele vai ficar a vida inteira pensando nisso. E aí você tava com medo desse tipo de coisa, era de não conseguir fazer.

?Voz 1

Eu reparei que nenhum teve vários remadores que atravessaram o Atlântico Norte nenhum Atlântico Sul, e ninguém nunca conseguiu dizer o ponto de chegada.

RVRogério Vilela

Esse primeiro, como chamava então?

?Voz 1

Esse francês era Gérard de Beauville, acabou virando meu amigo.

RVRogério Vilela

Sério?

?Voz 1

É, hoje ele é uma super personalidade na França, acabou fazendo uma travessia.

RVRogério Vilela

Você chegou a falar com ele antes da sua travessia para perguntar alguma coisa?

?Voz 1

Eu fiz uma loucura sem ligar para ele porque era caro ligar para aquela época na França. Eu consegui o endereço dele da mãe dele em Paris e fui para lá sem avisar.

RVRogério Vilela

Ah não, é, bateu na porta assim?

?Voz 1

Bati na porta, a mãe dele me atendeu, falou: olha, que sorte que você teve, porque o Gérard não mora mais aqui, mora na Bretanha, mas ele tá aqui essa semana. Olha, e ele me hospedou na casa dele, me levou para conhecer o barquinho dele. Eu olhei o barquinho, eu falei: caramba, mas no remo olímpico a gente usa 60% da força Vem das pernas. É porque você senta num carrinho, então você puxa o remo com a força das pernas e termina com a força dos braços.

E o dele, ele não tinha o carrinho. Eu falei, mas, Gérard, por que que você não tem? Por que que você não tem um carrinho? Ele falou, por que que você não me procurou antes, seu cretino?

RVRogério Vilela

Agora é tarde demais.

?Voz 1

É francês, super sarrista, né? Ácido para caramba.

RVRogério Vilela

Cara, então ele tinha um projeto que já que era errado, né?

?Voz 1

E aí eu tinha o livro dele, ele assinou o livro e escreveu: por Amir que rei será, para o Amir que vencerá. Eu tinha um baita, tem um baita orgulho desse livro.

RVRogério Vilela

Poxa vida! Aí você estudou o caso dele, qual outro caso que você estudou nos livros?

?Voz 1

Eu estudei um caso bem chato do John Fairfaxson, um idiota inglês que ficava matando tubarão, mostrando os bíceps, Como se fosse um influencer hoje mostrando os peitos.

RVRogério Vilela

Mas conseguiu pelo menos ou não?

?Voz 1

Ele fez uma travessia do Atlântico em solitário que foi bem-sucedida, mas ele ficava fazendo exibição dos músculos dele, um perfeito idiota.

RVRogério Vilela

Foto tradicional e tal.

?Voz 1

Aí ele conheceu uma menina chamada Sylvia Cook e resolveu atravessar o Pacífico com ela. E a travessia deles levou 362 dias, só que eles brigaram no quarto dia no meio do Pacífico, no meio, não, no começo, no começo do Pacífico, é, e ficaram 358 dias sem se falar.

RVRogério Vilela

Ô inferno, meu Deus!

?Voz 1

Dentro do mesmo barco. Eu falei, não, não, não, não, não, não, não, sem.

RVRogério Vilela

Imagina isso, cara, chegar uma mandurinha, fala assim, fala para ele que hoje ele que vai preparar o café da manhã. É, chegava um peixe, fala assim, fala para ela que—

?Voz 1

Mas eu li o livro dele, que é engraçado, e eu falei, não, sabe? Ele conseguiu, conseguiu, conseguiu. Mas chegaram na Austrália, erraram também, saíram da Califórnia e foram parar na Austrália, desceram do barco, cada um foi para um lado. Nunca tinha GPS, esse pessoal não tinha.

RVRogério Vilela

Como que fazia?

?Voz 1

Astronomia, trigonometria esférica, tábua de logaritmos. Eu que eu tive que aprender, caramba, é muito complicado, é bem complicado. A precisão é muito baixa.

RVRogério Vilela

Ah é, tem essa ainda?

?Voz 1

É. Então normalmente você erra com 40, 50 km, né, 20, 25 milhas.

RVRogério Vilela

E aí tem que ficar ajustando toda hora, você não sabe.

?Voz 1

Mas tem o benefício da ignorância, que muitas vezes a corrente te puxa para trás. E antes do GPS, você não ia remando em direção ao Brasil. E eu não sabia que várias vezes durante a minha travessia, que levou 100 dias, exatamente 100 dias, várias vezes eu devo ter voltado para trás.

RVRogério Vilela

É mesmo? É, cara. Mas antes de falar da sua travessia, então, você estudou isso, pessoal? E aí eu comecei mais para ver os erros, né?

?Voz 1

É, tira uma licença de Rádio Amadora Internacional.

RVRogério Vilela

Desse casal era boa? Você estudou?

?Voz 1

Era feia de morrer, era muito feia.

RVRogério Vilela

Como que chama? Será que você acha a foto?

?Voz 1

Acho que chama Britânia John Fairfax. E todo esse barquinho que eu fiz era um barco fortemente inspirado no barquinho do francês, do Gérard. Da Boville, que eu gostei porque era um barco bonito, era um barco clássico que nem as Bianas do Maranhão, que nem os Bastardos do Ceará lá de Camusim. Era um barco de dupla proa.

RVRogério Vilela

Esse é do casal, né?

?Voz 1

Ah, esse é a Silvia Cook aí, ó, a cara dele. Olha a cara dele, não rolou nada entre eles, nada.

RVRogério Vilela

Eu falei assim, o que que eu fui arranjar?

HHomer

Não tinha Tinder nessa época, né?

?Voz 1

Nossa, como que vocês acharam isso? Aí você vê que barco feio, né? Ele tem um volume para descapotar quando ele, quando ele capotava. O meu barco não tinha esse volume, mas meu barco era baixinho, elegante.

RVRogério Vilela

Começou o barco do zero, vou fazer um barco, ou pegou algum e adaptou?

?Voz 1

Eu peguei um engenheiro, peguei um engenheiro naval argentino que era louco e alcoólatra. Ele morava na Represa, eu morava em Paraty. Toda semana ele pedia um garrafão de cachaça da cabeça, da cabeça da cachaça, que tem, sei lá, 60, 70 de graduação. E toda semana acabava um galão de 5 litros. E eu vivi aquela esperança, ou ele vai fazer o projeto do meu barco.

RVRogério Vilela

Ele não fez o projeto, não fez, não me enrolou durante um ano e não fez nada.

?Voz 1

E aí eu acabei conhecendo um engenheiro aqui, José Carlos Faria.

RVRogério Vilela

Depois não quer que a gente odeie os argentinos, tá vendo?

?Voz 1

E aí, e esse José Carlos Faria é um cara, cara de cientista maluco, óculos grau 12, calculadora HP. Ele ia no banheiro com a calculadora, calculava o raio do xixi. Mas o cara é um gênio e ele me deu uma bruta lição. Eu pedi para ele fazer um barco que não capotasse porque eu não queria morrer que nem os americanos, nem brigar com a Sylvia Cook. E ele falou, tá errado, amigo, você tá fugindo do problema. Eu quero desenhar para você um barco feito para capotar. Você tem que transformar o risco no seu objetivo.

RVRogério Vilela

Mas por que feito para capotar? Qual é a vantagem?

?Voz 1

Porque não tem como não capotar um barco de 5 metros quando você tem onda de 15.

RVRogério Vilela

Aí ele vai capotar.

?Voz 1

Ele vai capotar. Então você— e ele tava certo. Esse foi o conceito filosófico do meu barco, é que ao invés de fazer um barco que evitasse as capotagens, esse barquinho foi projetado para poder capotar.

RVRogério Vilela

Por que que é vantagem? Porque sendo feito para capotar, ele descapotar, porque ele tinha um sistema de descapotar. Como que funciona esse sistema?

?Voz 1

Num veleiro a gente faz uma bolinha, uma quilha de chumbo. Eu não vou remar chumbo. Então a gente desenvolveu com o Furia um sistema de lá, que ele é que nem prancha, aquela coisa que vai embaixo, que é para dar direção. Tem quilha e tem bolina, é para fazer com que o barco orce, que com que ele ande contra o vento. E esse foi um conselho do francês, ele falou, faz um sistema de lastro líquido. E aí você estiver perguntando coisa básica, tá, amigo?

RVRogério Vilela

Que que é um lastro líquido?

?Voz 1

É, em vez de pôr chumbo no fundo do barco para ele não capotar, ou para ele descapotar mais facilmente, quando o barco capotava eu bombeava 200 litros de água do mar para uns caixões com aquelas bolsas de tanque de corrida de Fórmula 1, de Stock Car, que é Hypalon. É um, parece um vinil assim misturado com tecido, e esse tinha as bolsas de água doce E tinha as bolsas conectadas na água do mar, que eu enchia quando o mar ou tava muito ruim ou quando eu já tinha capotado.

RVRogério Vilela

Em vez de ter um material pesado, você tinha que ter chumbo, não vou remar chumbo, né, para ser mais leve.

?Voz 1

Então o barco tinha diversas astúcias.

RVRogério Vilela

O fato de ser água doce, água salgada, fazer alguma diferença?

?Voz 1

Não faz. Sem água doce você morre, né, porque não tinha dessalinizador.

RVRogério Vilela

Ah, não tinha?

?Voz 1

Não existia dessalinizador na época. Tinha um dessalinizador químico.

RVRogério Vilela

Não, então essa água doce era para ser consumida?

?Voz 1

Água doce era para o meu consumo e a rede de bolsas de água salgada era para descapotar o barco.

RVRogério Vilela

Ficava embaixo? Ficava embaixo e criava um peso.

?Voz 1

A bolsa de água salgada ficava sempre vazia. Eu só enchia ela quando, ou quando as ondas estavam muito altas, ou quando o barco já tinha capotado.

RVRogério Vilela

Tá, na prática, quando você enche O barco ele vira e faz isso?

?Voz 1

Depois que ele capota, aí as bolsas que estavam no fundo estão no alto agora, tá? E aí o peso de 200 kg é suficiente para desvirar. Por isso que nem um jombo, é um jogo, só que o jombo, em vez de ter chumbo, era um jombo que tinha—

RVRogério Vilela

conseguiu testar antes aí para travessia?

?Voz 1

Você conseguiu testar? Eu deveria ter testado. Não testei.

RVRogério Vilela

Ah, não? Não faz sentido. Pois é, o cara que bebe lá é mais, tem mais sabedoria que você lá, o argentino. Mas não, mas acreditou que ia funcionar?

?Voz 1

Eu tava tão comprometido com o projeto, eu falei, se não desvirar o barco, se não funcionar, eu vou do mesmo jeito. Então é melhor não estragar minha viagem.

RVRogério Vilela

Mas só com medo de testar não dá.

?Voz 1

E aí, aí eu ia sabendo que ia morrer em algum momento.

RVRogério Vilela

Qual outra coisa que era Comida para todo o percurso, como você calculou?

?Voz 1

O que que era o tipo de comida? Eu tenho um amigo chamado Rob, que acho que a família dele tinha, era lá de São Vicente, e em São Vicente tinha uma menina muito simpática, bonita, que era Flora Liz Spolidoro, que trabalhava, era uma nutricionista que trabalhava com uma empresa no Paraná, São José dos Pinhais. E ele contou para ela, e ela contou para os chefes dela no Paraná. E aí ela resolveu fazer um projeto especial para mim com 7, 8 tipos de dietas diferentes, muita coisa desidratada.

E ela resolveu fazer um negócio que ninguém no mundo tinha feito: fazer uma dieta completa à base de água do mar. Não adianta você levar desidratado para economizar peso se você tem que levar do lado a água. E só que o mar tem sal em excesso, então não é qualquer produto. Arroz cru não dá para fazer porque fica muito salgado. Então arroz tinha que ser pré-cozido sem sal para ser hidratado com a água do mar.

RVRogério Vilela

Cara, que legal!

?Voz 1

Um projeto interessantíssimo que no final deu origem a outras empresas.

RVRogério Vilela

De espaço, quanto ocupava isso?

?Voz 1

Toda comida, isso ocupava toda a proa do barco. Proa é a parte da frente do barco.

RVRogério Vilela

Em quilos era muita coisa?

?Voz 1

Eu não lembro, mas devia ser uns 120 a 150 quilos. E funcionou, era tudo muito simples, só que todas as astúcias.

RVRogério Vilela

Mas era em excesso, era, era pensando em dar errado e ter mais dias.

?Voz 1

Eu tinha comida e água para 109 dias, que era o prazo estimado. E no final eu consegui fazer a viagem em 100 dias e 6 horas.

RVRogério Vilela

Sobrou então comida?

?Voz 1

Comida sobrou, água não. Não, não, porque eu cheguei com 1,5 litro de água só, porque eu fui acelerando o consumo para chegar com zero, tá? Então esse litro e meio, muita gente fala, poxa, por que você não levou 100 litros de reserva? 100 quilos, remassa 100 quilos.

RVRogério Vilela

É verdade.

?Voz 1

Então, mas foi um projeto muito, muito feliz. Aí eu conheci um cara muito legal que morava aqui na Vargem Grande, aqui perto de São Paulo. Ele vendeu a empresa dele, montou uma indústria de painéis fotovoltaicos. Bruno Topel, um gênio o cara. E aí começaram os palpiteiros encher a paciência, né? Tinha um cara, um um velhinho pentelho chamado Ivan Halas, que era um gênio na área de eletrônica, e ele escrevia cartas no Estadão, escrevia cartas: o remador brasileiro é um ignorante, está mal orientado, este negócio de energia fotovoltaica é bruxaria, nunca vai funcionar.

Imagina, o Brasil tinha a única fábrica que fazia painéis solares fotovoltaicos no hemisfério sul da Terra.

RVRogério Vilela

Estamos falando de que ano?

?Voz 1

Isso, começo dos anos 80, chamava Heliodinâmica.

RVRogério Vilela

Deviam ser uns painéis bem grandes na época, né? Não eram grossos para caramba?

?Voz 1

Eram uns painéis de vidro super pesados, e as células de silício monocristalino não eram quadradas, tinha um espaço entre elas, elas eram cilindros de silício redondos, emendados um com soldinha um no outro. Evoluiu muito, né, a tecnologia. Então foi um barquinho super inovador, nunca entrou água salgada dentro, nunca, não, nunca nenhuma gotinha. Capotei várias vezes no começo da viagem e foi uma iniciação para mim no mundo náutico.

Aí todos os amigos, qual é a próxima? Vai atravessar o Pacífico agora com a Silvia? Eu falei, tá louco, filho, remei bastante, chega de remar agora, eu quero evoluir, quero fazer um veleiro para fazer uma volta ao mundo, alguma coisa.

RVRogério Vilela

Mas a escolha do local de saída, do trecho, como foi?

?Voz 1

Eu comecei a estudar correntes e ventos. Tem umas cartas do Almirantado Britânico e também do Departamento de Marinha de Washington, chama Pilot Charts, são cartas piloto que tem as médias estatísticas da ocorrência de ventos, tempestades, calmarias e direção das correntes. São médias estatísticas para cada, exatamente, para cada mês do ano. Então eu comprei um conjunto de pilot charts para 12 meses para o Atlântico Sul. Depois eu descobri que a O pessoal de hidrografia da Marinha Brasileira tinha essas cartas também para o Atlântico Sul.

E aí eu ia no Rio de Janeiro, em Niterói, Diretoria de Hidrografia e Navegação. Eu ia lá para— eram cartas caras, né, eram cadernos, né. Eu ia lá e ficava estudando. E aí eu concluí que a cidade certa para começar era Lüderitz. E depois que eu fiz essa travessia Houve uma meia dúzia de tentativas, poucas deram certo.

RVRogério Vilela

Então a gente tá vendo lá Lüderitz na Namíbia.

?Voz 1

Esse era o segredo da viagem, era uma curva mais acentuada do que essa aí. Ainda tá meio—

RVRogério Vilela

é, por quê? Porque não é linha reta.

?Voz 1

Porque o Atlântico Sul é um sistema circular anticiclônico, tá? E aí eu sempre gostei de estudar história e comecei a ficar encantado com as navegações dos chineses, dos fenícios e dos portugueses. E os portugueses foram— Portugal foi a primeira nação que descobriu que os oceanos viram como engrenagens gigantescas cujos dentes se encaixam no Equador. O Atlântico Norte vira com os ponteiros do relógio, o Atlântico Sul ao contrário.

O mesmo fenômeno ocorre no Pacífico e não ocorre no Índico, porque não tem um Índico Norte, só tem um Índico no hemisfério sul. E aí era genial ficar estudando os relatos dos portugueses. Portugal era uma nação minúscula, pobre e ignorante, que em poucos anos, com o movimento de Sagres, em poucos anos impõe um pedágio no Oceano Índico. Imagina, em 1490 eles dominam o Oceano Índico, abrem a rota para navegando contra o vento. As caravelas tinham velas triangulares, eram embarcações menores do que as naus holandesas, suecas, escandinavas, britânicas.

E aí eu fui ficando fascinado porque era uma mistura de ciência com história, com relato dos comandantes brasileiros que iam buscar petróleo no Oriente Médio, que conheciam essas pilot charts. Então foi um processo muito rico de aprendizado.

RVRogério Vilela

A escolha da época do ano, como foi?

?Voz 1

Então aí eu errei, errou, errei. Eu queria sair em janeiro, no verão, porque é um mês que tem menos tempestade, e no final atrasou. Meu barco foi preso na África do Sul, era, ainda tinha o regime do apartheid, a África do Sul, a Namíbia era ocupada pela África do Sul.

RVRogério Vilela

Você tinha que ir pela África do Sul para ir para Namíbia, é isso?

?Voz 1

Sim. E todo o litoral da Namíbia era soberania da África do Sul. Primeiro teve ocupação alemã no século anterior e depois teve ocupação sul-africana na Namíbia. E eu acabei saindo no inverno, no mês pior, de mais tempestades, porque eu pensei, caramba, não tem como ser oportunista, não dá para eu contar com a sorte. Se eu tô calculando 109 dias, É claro que eu vou pegar tempestade muitas vezes. É, então se é para pegar, vamos pegar de uma vez. Foi a minha decisão, que foi uma decisão no final das contas correta.

RVRogério Vilela

Por quê?

?Voz 1

Porque eu tive ventos muito fortes, é bom a favor, a favor, é, teve remar contra as ondas. Aí entra o sistema de lastro líquido. Eu aprendi a fazer o barco não ficar de lado para as ondas para não capotar. Então eu botava, eu bombeava uns 150 kg de água salgada numa das pontas do barco, e aí o barco ficava de frente para as ondas sem ter que usar um drogue. Drogue é um pequeno paraquedas assim, que é uma espécie de âncora de mar, que é para alinhar o barco.

RVRogério Vilela

E chega de falar de barco, porque não tá interessante para caramba, né, né, Homer?

HHomer

Puxa, com certeza, tô aprendendo bastante aqui.

RVRogério Vilela

Então, então saiu no momento errado, mas acabou sendo melhor.

?Voz 1

Acabou sendo melhor porque eu tive tempestades muito fortes, só que favoráveis para mim. Então, por exemplo, tive 3 dias de tempestade já passando.

RVRogério Vilela

Vamos fazer uma linha do tempo.

?Voz 1

Santa Helena e a Saint John Island, dia 1, dia 2, dia 3 calmo.

RVRogério Vilela

Quando que começa?

?Voz 1

Não, eu já saí, já saiu com tempestade, mau tempo. Eu tomei a decisão, caramba, eu me preparei para o mau tempo, para descapotar o barco. Eu vou capotar querendo ou não. E aí eu resolvi sair com mal tempo. Eu queria sair da Namíbia porque o risco de o barco ser preso pelas autoridades era muito grande. O barco ficou preso durante algumas semanas, eu não tive acesso ao barco.

RVRogério Vilela

Mas qual é a ligação?

?Voz 1

2 militares sul-africanos tentaram atravessar o Atlântico para o Brasil, morreram, e o custo das buscas foi muito alto. Então as autoridades portuárias da África do Sul falaram: não queremos nenhum mais um problema maluco aqui se matando.

RVRogério Vilela

Aí você sai de dia, e como que a primeira noite no mar foi?

?Voz 1

Um caos, porque no final da primeira noite eu capotei. Na primeira, capotar a primeira noite já, e dava para enxergar alguma coisa? Em pânico, não dava para enxergar nada, mas eu fiquei muito feliz porque o sistema de lastro funcionou.

RVRogério Vilela

Então já te deu uma segurança.

?Voz 1

Na primeira semana eu capotei acho que umas 3 vezes, mas capotava e descapotava, capotava, aí acionava o sisteminha, descapotava. Se eu capotasse do lado de fora do barco, aí eu descapotava com meu peso, fazendo uma alavanca com um dos remos. O problema era se eu, quando eu tava dentro dormindo, porque aí não dá para abrir a escotilha para sair, que o barco afunda.

RVRogério Vilela

E aí, o que você fazia?

?Voz 1

Bombeava água.

RVRogério Vilela

Só isso?

?Voz 1

E já não tinha como sair, tá?

RVRogério Vilela

Que ele era totalmente fechado, selado.

?Voz 1

Tinha a porta que abria, tinha que se concentrar, nunca esquecer ela mal fechada ou meio aberta, porque aí tchau, entrava.

RVRogério Vilela

E funcionou então perfeito.

?Voz 1

Eu fui aprendendo a domesticar o barco, fui aumentando o ritmo das remadas, e no final eu consegui fazer 62 milhas náuticas por dia.

RVRogério Vilela

E era meta, era quanto?

?Voz 1

A minha meta era 33,7 milhas por dia. No começo eu tava pesado. Eu tava meio gordo, o barco tava gordo, mais comida, comida, toda água. Com o desenrolar da viagem, o barco foi perdendo peso. No começo eu não passava de 23, 24 milhas por dia, e no final eu cheguei com 34, 35, porque eu fui percebendo que a cada dia eu conseguia fazer um incremento de desempenho para ir aumentando. Por isso que eu cheguei 9 dias antes da data prevista.

RVRogério Vilela

E em algum ponto chegou a ficar desanimado? Fala, putz, eu não vou conseguir.

?Voz 1

Pelo contrário, cada vez mais, cada vez mais animado, cada vez mais animado, mais perto do Brasil.

RVRogério Vilela

E não tinha comunicação nenhuma, né, nessa época?

?Voz 1

Tinha, eu falava duas vezes por semana com rádio amador, tinha uma rede de rádio amadores. Eu era Papa Yankee 2 Kilo Alfa Quebec Mickey Mouse, móvel marítimo.

RVRogério Vilela

Mas era para navegação ou só simplesmente para navegação?

?Voz 1

Zero sinal, não ajuda. Tinha que usar um Um sextante.

RVRogério Vilela

O sextante, coloca o sextante aqui dentro lá, né? Deixa eu entender.

?Voz 1

Isso aqui é o rádio, é o rádio, uma calculadora, aquele na caixinha preto é um rádio de VHF curta distância, e dentro da caixinha onde tem os dois relógios é a estação radioamadora. E eu falava com 7, 8 radioamadores, a maioria no Brasil, mas era só para bater papo. Só para dizer que tava tudo bem, para mandar a posição, porque ninguém tinha como monitorar a minha posição.

RVRogério Vilela

E essa posição, como que você sabia?

?Voz 1

Por astronomia, com sextante, 6 horas.

RVRogério Vilela

Tinha uma precisão legal assim?

?Voz 1

Não, eu falei, né, 50 km de erro.

RVRogério Vilela

50 km de erro. E esse sextante, como funciona? Mostra o sextante aí, o aparelho. Como que ele funciona?

?Voz 1

Você mede a altura do sol ou de uma das 51 estrelas estrelas selecionadas em efemérides. E aí você calcula uma reta que chama reta de altura, que contorna o planeta Terra. Naquela época a Terra ainda era redonda.

RVRogério Vilela

Era mais fácil, mais difícil antes que era agora?

?Voz 1

É mais fácil, né? Eu não saberia fazer astronomia numa Terra plana.

RVRogério Vilela

Era bem mais fácil depois que mudaram para plana, né? Não sei como que você pode cair na borda também, né?

?Voz 1

Eu já fui na borda.

RVRogério Vilela

E aí, como que é a borda? Eu quero saber como Tem um muro na borda.

?Voz 1

Sonho era sentar na borda, balançar os pezinhos admirando o universo, e não rolou, não rolou.

RVRogério Vilela

É que você não foi tão longe então.

?Voz 1

Eu fui mais longe que é possível aí, né?

RVRogério Vilela

Mas esse é o sextante.

?Voz 1

Então você aponta para o sol, por exemplo, e esse é um C-plate, é um bom sextante esse aí.

RVRogério Vilela

E ele te dá uma, ele te dá, eu gosto mais navegar gostava, né?

?Voz 1

Agora nem sei mais usar isso aí, mas eu gostava mais de navegar pelo sol. E aí o sol tem uma característica: ao meio-dia, a reta de altura, que de manhã ela é assim inclinada, à tarde ela é assim, ao meio-dia ela fica horizontal. Portanto, ao meio-dia, na passagem meridiana, meio-dia verdadeiro, que você tem que calcular por astronomia, ao meio-dia verdadeiro Essa reta de altura é a latitude. Você não precisa de cronômetro. Eu trabalhei para Rolex durante 2 anos num programa de filantropia bem merreca assim, e no final eu ganhei um Rolex.

Mas ajudando eles com, fazendo seleção de projetos de filantropia do mundo, ganhei um Rolex. Quando perguntei a precisão do Rolex Eles me deram, não vou nem falar qual é a precisão, baixo ou alto. Eu falei, vai para o lixo.

RVRogério Vilela

Ah tá, não dá, não serve, né?

?Voz 1

Não, um Casio de $30, tem mais, é muito mais preciso que um Rolex Seamaster. Não, Seamaster é Omega, sei lá.

RVRogério Vilela

É Omega Seamaster. Que maravilha, não sabia isso. Então você tava com relógio que tipo?

?Voz 1

Esse é o grande mérito dos portugueses. Portugueses aprenderam a fazer o cálculo da latitude com precisão. Eles não sabiam calcular a longitude, porque a longitude é uma equação apoiada no tempo, e o relógio não pode atrasar mais do que 4, 5 segundos por mês. Você tem que atualizar a posição no rádio, nas frequências múltiplas de 1000.

RVRogério Vilela

Os caras eram heróis então, hein?

?Voz 1

Eles aprenderam isso, não sei aonde eles aprenderam, mas esse é o mérito que explica por que que Portugal tão pequena e de repente domina os oceanos do planeta. E sabendo a latitude te ajudava para saber a latitude, mas eu não sabia longe, quer dizer, eles não sabiam porque a longitude é a vertical, né? Por exemplo, ele sabia exatamente onde era São Vicente, Morro de São Paulo.

RVRogério Vilela

Você ia chegar onde? Coloca o mapa lá.

?Voz 1

A ideia era subir, fazer aquela curva, né, e chegar no litoral norte de Salvador, no Farol Garcia Dávila. Tem um rio que chama Pojuca. Tinha o pai de um amigo meu da faculdade, comprou uma fazenda gigantesca na Bahia, e ele acabou virando um super amigo. E ele falou, amigo, você vai chegar na divisa das minhas terras na Bahia, e foi exatamente onde eu cheguei.

RVRogério Vilela

Praia da Espera, 6.800 km. Você fez o trajeto que você queria fazer exatamente?

?Voz 1

Trajeto reto, né? Mas o real deve ter sido uns 7.500 por aí. Isso é a linha esticada, né?

RVRogério Vilela

E o começo então foi mais lento e depois foi acelerando?

?Voz 1

Muito lento no começo, 20 e poucas milhas por dia. Mas no dia número 88 eu alcancei a minha meta de 33,7 milhas. E aí eu sabia que eu ia chegar em menos de 109 dias, e foi o que aconteceu. É um número legal, monossilábico, né?

RVRogério Vilela

100 dias é um nome, um número redondo, é muito legal. E o que que você fazia para passar o tempo? Remava sempre, remava e dormia.

?Voz 1

Eu gastava 6 horas por dia trabalhando com sextante, fazendo conta para conseguir aperfeiçoar minha posição.

RVRogério Vilela

E o barco ficava parado, ele era levado, ele ficava à deriva, ele saía da rota às vezes, deve ter saído inúmeras vezes. Tinha uma âncora?

?Voz 1

Eu tinha uma âncora de 10 kg que era para o dia em que eu chegasse no Brasil só para isso, só para isso. Eu não queria largar, não ia largar o barco numa praia lá em Arembepe, deixar o barco capotar nas pedras. Não, eu queria fazer uma chegada profissional, chegar num porto, um portinho de verdade onde tivessem outros barcos também ancorados, e eu descobrir essa Praia da Espera, que aliás é um nome lindo de praia, né?

RVRogério Vilela

Qual que era a tua rotina? Tinha uma rotina certinha.

?Voz 1

Eu mantive sempre a Greenwich Mean Time, a hora média de Greenwich. E o que aconteceu foi, à medida em que eu fui avançando em longitude, me afastando da África e me aproximando do Brasil, todos os eventos do dia foram ficando cada vez mais cedo. Então, quando eu tava na metade da viagem, eu almoçava já às 8 horas da manhã.

RVRogério Vilela

Nossa!

?Voz 1

E jantava, sei lá, 11:30, meio-dia. No final da viagem tava com horário. Eu não quis atualizar a hora para hora verdadeira, você continuou no mesmo ritmo. Eu mantive o mesmo horário que eu usei para dormir.

RVRogério Vilela

Você dormia à noite ou não?

?Voz 1

Eu passei a dormir, arremar cada vez mais à noite do que de dia, para ter uma mudança na paisagem.

RVRogério Vilela

Ah, é?

?Voz 1

E porque no escuro você não vê as ondas que vão te pegar daqui. Isso é ruim? Não, é melhor não saber. É a história do ditado árabe: é melhor não saber do que ver. Uma das fontes da felicidade é a ignorância. E é por isso que eu não dou tanta risada de graça assim. Nossa, mas foi uma experiência muito bonita.

RVRogério Vilela

E qual foi o dia mais assustador? Ou não teve esse dia?

?Voz 1

O primeiro, o primeiro, primeiro foi muito assustador porque houve uma colisão. As autoridades sul-africanas exigiram que um veleiro me acompanhasse, e porque eu saí de uma área que é uma das maiores zonas de produção de diamantes do mundo, chama Diamond Coast. Eu tive agora com as meninas recentemente lá, e eles queriam ter certeza de que eu não ia voltar para zona proibida dos diamantes. Então eles exigiram que um barco me acompanhasse e acharam que era um truque e fizesse um relatório. Olha, realmente o brasileiro foi para oeste, não voltou mais.

RVRogério Vilela

Mas foi muito intenso de eles fazerem uma coisa contigo.

?Voz 1

De não, se eu entro na zona dos diamantes, eles apreendem nenhum veículo no mundo, avião, carro, caminhão, trator, barco, sai da Diamond Coast.

RVRogério Vilela

Ah, é?

?Voz 1

Entra, é destruído. A tua roupa do corpo é destruída.

RVRogério Vilela

Por quê?

?Voz 1

Para você não pegar diamante. A primeira máquina de raio-X da África foi, foi em Lüderitz, perto de Lüderitz, uns 30 km. Porto de onde eu saí, porque os namáquas e hereros, as duas etnias negras que eram os ocupantes originais da Namíbia, eles foram literalmente escravizados e trabalhavam nas minas de diamante, porque o diamante dá na superfície, na praia, e eles passavam pelo raio-x para que eles não engolissem. Os diamantes para não tirar.

RVRogério Vilela

Que doideira!

?Voz 1

Hoje o diamante é explorado lá por plataformas, então que nem tem aqui no Brasil na Bacia de Santos, por exemplo, tem petróleo, de petróleo, lá são plataformas de diamante. Todo dia sai um helicóptero da plataforma de alto mar e ele vai levar os diamantes para CDM, Consolidated Diamond Mining. Mas é uma região muito, muito bonita. É deserto mais quente da África e o mar mais gelado. Então eu saí de um deserto com mar gelado, aonde tem focas e pinguins, mar totalmente gelado.

E agora eu descobri que Lüderitz virou principal polo na África de criação de ostras, lagostas e marisco branco, white clam. E como eu tenho um problema de dependência química com ostras, você é viciado em ostras? É, eu adoro ostras, fizeram uma surpresa, eu não sabia, a gente foi para Luderitz e a menina que organizou a nossa viagem, é casada com um namíbio. A família dele tem uma bruta fazenda de ostras, é muito bonito, um trabalho duríssimo.

E o Brasil hoje é um grande produtor de ostra, principalmente o estado de Santa Catarina, Ribeirão da Ilha. Só que a ostra do Ribeirão da Ilha é a Cassostraea giga, ou ostra do Pacífico, oustra japonesa. Que não é muito saborosa. Eu não gosto muito. Eu gosto mais da ostra nativa que tem no Nordeste, alguns lugares, e tem muito em Paranaguá e Cananéia, nesses manguezais, que é a ostra de mangue. Ela é muitas vezes mais saborosa.

Esses restaurantes chiques de São Paulo servem a ostra japonesa. É bonitinho, fácil de abrir, mas a melhor mesmo, a melhor é a nativa brasileira.

RVRogério Vilela

Experimentar.

?Voz 1

Tem um boteco em São Paulo chamado Jabuti que eles só servem ostra de Cananéia.

RVRogério Vilela

Pô, já vou nesse lugar experimentar.

?Voz 1

Jabuti, Jabuti, na frente do Instituto Biológico. É um boteco bem raiz assim, meio sujinho, mas as coisas do mar lá são maravilhosas.

RVRogério Vilela

Você falou de água fria, como que você tava preparado para o frio?

?Voz 1

Eu passei muito frio no começo. Eu levei casacos que a gente usa para velejar, por exemplo, só que não funcionou porque o casaco tem costura. Usava um casaco vermelho e passava quando eu remava, na devolução da remada, os polegares raspavam no velcro do casaco, no zíper. E aí no começo eu sangrava horrendamente, as mãos sangravam o tempo inteiro. E aí o sangue escorrega na palameta, né, no punho do remo. E finalmente eu descobri que eu tinha uma roupa de borracha da Mormai.

A Mormai tava começando no Brasil, aquelas roupas para surfar, roupa de surf, bermuda, manga curta. E aí foi uma maravilha. Cada vez que eu tomava uma onda não sentia frio, mas no começo eu senti muito frio.

RVRogério Vilela

E você tava preparado com remédios, alguma, o básico?

?Voz 1

Não levei nenhum remédio.

RVRogério Vilela

Na sorte de não vou ficar doente.

?Voz 1

Não, ele veio o canivete.

RVRogério Vilela

Claro, aqui o canivete. E não ficou resfriado? Não teve nada assim durante?

?Voz 1

Eu saí de lá resfriado, com o nariz fungando. E é impressionante quando você tem uma dieta organizada, programada, balanceada, assim, não tive uma dor de barriga. E isso foi outra coisa que eu ganhei de presente da Bouvilles, do francês. É porque o francês foi patrocinado por uma empresa que existe até hoje na Bretanha, chama Capitaine Cook, que é uma empresa de sardinha em lata. E para agradar o patrocinador, ele só levou sardinha em lata.

Então, quando eu conversei com ele, ele me contou lá na casa dele, no sítio onde ficava o barco dele. Quando ele tava lá pelo dia 70 de 77, não aguentava mais, não. Ele teve uma constipação por causa da sardinha, só comeu sardinha. O intestino dele travou. E eu tive a sorte, um dia andando de canoa em Paraty, encontrei um veleiro francês que eram amigos do radioamador que atendeu ele. Ele teve que pedir socorro. Pelo rádio. E esse radioamador me contou em francês o processo todo que ele pelo rádio passou para o geral da Bovil, o Gerard.

E ele falou, e a informação que ele me deu é de morrer de rir, porque ele falou: agora, Gerard, você vai desmontar a bomba de porão de 1,5 polegada, faça uma redução para meia, de meia você faça uma redução para 1/8 de polegada, agora você pega uma caneta Bic e tira a carga Põe na ponta da mangueira, introduz no reto e bombeia 99.

RVRogério Vilela

Não, não, não, não, não.

?Voz 1

E agora jogue mais uma sessão agora. Eu falei não, não, não, não.

RVRogério Vilela

E deu certo.

?Voz 1

Essa foi uma preocupação das meninas da Flora. Ela tinha 7 nutricionistas, todas top, e montaram certinho o cardápio. Então é, eu comia melhor do que na maioria dos restaurantes em São Paulo.

RVRogério Vilela

E agora a pergunta base, né? Fazer o cocôzinho, xixizinho, como fazia?

?Voz 1

Colocava na borda?

HHomer

Na borda?

?Voz 1

Na borda.

RVRogério Vilela

Sentava mesmo?

?Voz 1

E aí os ecologistas vão me atacar agora. Por quê?

RVRogério Vilela

Vai fazer como? Mas não tem jeito, né?

?Voz 1

Todos os barcos de pesca no Brasil, os navios fazem também. Outro dia a gente fez uma palestra num desses navios de sei lá, 5, 6 mil passageiros entre aqui e o Espírito Santo. A partir de uma certa distância da costa, eles descarregam o esgoto no mar. É uma coisa horrorosa. Era um dia de mar calmo, eu tava com a Marina quando a gente tava tomando café num terraço. É um troço altamente preocupante, claro, altamente.

RVRogério Vilela

E a sensação de chegada, como que é?

?Voz 1

Eu tive uma chegada, pô, você gostou da história, hein?

RVRogério Vilela

Claro, é como você participou da história, dá impressão que não é nada. Quem tá de fora acha um absurdo isso tudo.

?Voz 1

Isso é uma coisa, quando eu tava chegando, eu tava preocupado porque a chegada é tensa. E tinha tensa porque você não sabe exatamente se tem uma praia abrigada ou não. E eu queria chegar num lugar abrigado, numa região que eu não conhecia.

RVRogério Vilela

O que que é?

?Voz 1

Que fosse um porto.

RVRogério Vilela

Ah, tá.

?Voz 1

Não adianta chegar no Guarujá e parar no meio das ondas, e o barco faz isso, e você morre afogado na praia, que nem aconteceu com outros remadores no Norte. E aí, de repente, aparece um barquinho de pesca sem vela, com motorzinho, com dois pescadores que gritaram: aí, como foi a pescaria? Eu falei: não peguei nada, não. Avisa o Doró que o dinheiro tá embaixo da toalha na mesa. Aviso. Quando eu cheguei na praia, ancorei e a viagem terminou perfeitamente.

RVRogério Vilela

Onde era a praia? Você foi?

?Voz 1

Eles apontaram para mim, que me ajudou bastante esse apontamento. E quando eu cheguei, 2, 3 horas depois, eu já tá ancorado, de ter passado minha precária posição.

RVRogério Vilela

Alguém te esperando?

?Voz 1

Não tinha ninguém esperando. Eu não quis avisar.

RVRogério Vilela

Ah, não quis? Por quê?

?Voz 1

Porque não, eu não queria coletiva de imprensa, paspalhada toda de jornalista.

RVRogério Vilela

Chegar tranquilo?

?Voz 1

Não, queria chegar em paz, curtir.

RVRogério Vilela

E deu certo, né? Então não tinha.

?Voz 1

Então eu fiquei 5, 6 horas sem descer do barco. Ué, é, você chegou. Tinha um jornalista da Veja que falou que eu perdi um parafuso, que eu era um idiota. Jornalista bem famoso e bem ignorante também.

RVRogério Vilela

Chegou perto então da praia e ficou esperando?

?Voz 1

Fiquei a 30 metros da praia, ancorei do lado dos outros barcos. E de repente aparece um cara que por coincidência era o Doró. E aí ele encosta, muito pobre, muito pobre, ele encosta o barquinho dele no meu, todo remendado com Durepoxi. E ele falou, como é que foi a pescaria? Eu falei, não peguei nada não. Ele falou, a vida é assim, tem dias que não dá nada, tem dias que dá tudo. E da onde você vem vindo? Aí eu falei, caramba, o que que eu digo para o cara?

Eu falei, olha, meu senhor, eu venho da África. Ah, não sei onde é essa praia não, mas deve ser por aqui. Aí ele foi embora. Ele voltou uma hora depois. Você vê como o cara era pobre. Toda comida, eu só fiquei sabendo depois, que existia na casa dele eram duas sardinhas. Duas. Ele veio remando de novo, o botinho dele. E me deu as duas sardinhas. Falou, desculpa, moço, mas o único peixe que eu tenho para te oferecer. Ele me deu toda a comida.

Ele podia ter dado uma sardinha e ficado com a outra, mas ele me deu as duas únicas sardinhas que tinham na casa dele. E ele era casado com uma mulher chamada Rosa, que é um nome que eu gosto porque foi o nome da primeira canoa grande que eu tive. Chamava Rosa também. E assim foi. E daí para frente eu comecei a fazer barcos.

RVRogério Vilela

Isso que eu ia falar, isso para tua vida, o que que mudou na tua cabeça? É isso que eu quero para vida? E daqui para frente eu vou fazer projetos maiores?

?Voz 1

Mudou tudo. E quando eu resolvi, imediatamente monetizou isso.

RVRogério Vilela

Como que isso virou negócio? Porque até então era uma aventura, um projeto seu, né? Como que você fala, vou ganhar?

?Voz 1

Como que eu consigo viver isso? Com o livro. Eu gosto de escrever. E eu tinha pensado em escrever um livro sobre, não, não, volta e meia aparece no meu escritório algum cara que fala, ô, Amir, eu li o seu livro 100 Dias, adorei a experiência, eu vou fazer, refazer a sua viagem. E aí eu falo, filho, você já tem o barco? Ele falou, não, não, tô com preparador físico, tô com assessor de imprensa. Eu tô com treinador, já tô com livro, já tem editora.

RVRogério Vilela

Nossa!

?Voz 1

E aí eu falo, filho, você nunca vai fazer, você nunca vai fazer, você não tem competência. Eu dei essa frase outro dia, saiu maliciosamente no jornal Estado de São Paulo. Se você não tem competência para fazer um barco de 5 metros de comprimento, o mar não é para você. E o cara na manchete, né, para sensacionalista, ele tirou 5 metros. Quer dizer, se você não tem competência de fazer um barco, sacanagem, totalmente o sentido, é uma omissão de uma palavra, às vezes inverte o sentido, claro, da frase.

E muita gente, mas aí teve uma história engraçada, porque há 4 anos atrás um moleque aqui da—

RVRogério Vilela

mas depois eu quero saber então a ideia do livro quando veio, se ela não Não veio antes do projeto?

?Voz 1

Não veio. Eu não queria escrever livro nenhum, não, mas o cara que me ajudou quando eu tava preparando a viagem no Brasil era o Roberto Mulleretti, um super comunicador, super jornalista. Ele escreveu um livro que chama China, Chá e Xangue, que fez muito sucesso. E ele tava, ele que tava agendando as entrevistas fazer palestra, não sei o quê. E ele veio nadando até o meu barco, botou a mão na borda, falou: Amir, parabéns, você fez um negócio único que ninguém fez. Enquanto você não escrever o livro, isso que você fez não serve para nada.

RVRogério Vilela

Ele falou isso?

?Voz 1

Ele é um cara duro para caramba. E como que a filha dele é uma das, a Ana, mulher cineasta.

RVRogério Vilela

Como que te bateu isso?

?Voz 1

Mas ele foi no hotel onde eu tava, no Meridian de Salvador, que acho que tá abandonado hoje, uma coisa triste. E começou a ligar para editoras e fechou um contrato com a José Olímpico. Foi o maior contrato editorial do Brasil na época, nem Jorge Amado. Eram $50 mil de luva, não era, não era, não, não era adiantamento, não era Não, não era de uma, era uma luva, porque a José Olímpico, que era uma super editora do José Olímpico, ela tava quebrando.

E tinha Raquel de Queiroz, os grandes autores brasileiros, Campos de Carvalho, todos. E a Xerox do Brasil, a família Gregory, donos da Xerox, resolveram mais mais ou menos patrocinar a editora. E o primeiro contrato que eles queriam fazer, na época fez muito barulho na imprensa, foi o contrato do meu livro. O Roberto Muller, muito assim, muito inteligente, ele sabia que eu não tinha escrito uma frase. Eu tinha um diário de 100 páginas, 101 páginas.

RVRogério Vilela

Ele, ainda bem que você tinha esse diário, hein?

?Voz 1

Ele agendou a reunião com os diretores daqueles UPs da Barra da Tijuca, todos meio meio inúteis, né? Você gosta de coisas inúteis. Nós fomos na sede da Xerox no Rio de Janeiro e eles assinaram um cheque. Para você ter uma ideia, por $30.000 você comprava uma mansão nos Jardins.

RVRogério Vilela

Para ter uma ideia de valores, de valores.

?Voz 1

Eu dei a comissão de 20% para o Roberto. Fiquei com, botei o cheque no bolso e eles falaram, agora dá os diários. E aí o Roberto Lamy não entrega os diários. Eu falei, não, eu vou escrever. Não, você não vai escrever. Nós não podemos, ninguém sabe quem é você. Daqui uma semana ninguém sabe. Nós queremos publicar o seu diário do jeito que tá. Quando eu abri o diário para eles, só tinha números de astronomia, fórmulas, anotações para eu não esquecer o que tava acontecendo.

RVRogério Vilela

Eu levei um ano, acharam que era um diário de hoje eu acordei, comi no seu quarto. E aí, como foi esse processo de lembrar a viagem?

?Voz 1

Eu tinha tudo anotado, mas com códigos numéricos ou alfanuméricos. Então tinha o código Q, o código L, e eu ia marcando baleia de 14,5 metros.

RVRogério Vilela

Que legal!

?Voz 1

E aí a Xerox ficou tão pistola da vida que eles contrataram um advogado chamado Doutor Tupinambá. E durante 10 meses e meio, Doutor Tupi todos os dias tocava campainha na porta de casa.

RVRogério Vilela

Acharam que vocês estavam dando golpe neles.

?Voz 1

Bom dia, senhor Amir, quantas páginas o senhor escreveu ontem?

RVRogério Vilela

É uma pressão maior do que atravessar o Atlântico.

?Voz 1

Muito pior. Quase um ano.

RVRogério Vilela

Acabei ficando amigo do Aí um dia depois de 10, virar a canoa dele, né, todo dia lá.

?Voz 1

Aí naquela época ninguém fazia palestra, esportista fazer palestra, não existia esses coach, influencer, não tinha essas porcarias todas. E depois de 10 meses a Xerox falou, pô, o remador deu calote na Xerox, não vai escrever porcaria nenhuma, vamos tirar um sangue dele, manda ele fazer uma palestra no Recife. Aí eu fui.

RVRogério Vilela

Por isso, tipo, já que ele não vai escrever, vamos ganhar em cima.

?Voz 1

Eu fiz uma palestra, os funcionários adoraram a palestra. Aí o pessoal da Bahia falou, pô, nós também queremos um remador. E aí começaram a me mandar toda. Eu fui em todas as capitais do Brasil, todas as palestras, fazendo palestra para Xerox e escrevendo ao mesmo tempo.

RVRogério Vilela

Tava devagar.

?Voz 1

Aí aparecia, quando eu voltava, apareceu o Dr. Tupi e falou, ô, quantas páginas escreveu essa semana?

RVRogério Vilela

Eu falei, vocês ficam mandando fazer palestra agora que eu não tô conseguindo na Amazônia.

?Voz 1

No Rio Grande do Sul, né, não escrevi nada. Ficaram muito bravos porque eles queriam aproveitar, foi capa da Veja. Claro, na época a Veja era um veículo significativo.

RVRogério Vilela

Como que era a Veja? Sair na capa da Veja era—

?Voz 1

e um ano depois eu descobri que livro é um bicho diferente, não funciona com marketing, com capa de revista.

RVRogério Vilela

Funciona como? No boca a boca?

?Voz 1

É uma coisa, pessoas recomendarem, é quem leu que recomenda. E um ano depois, quem editou o livro foi a menina que foi minha secretária por 30 anos, eu acho, a Ana Maria.

RVRogério Vilela

Como você fez o livro?

?Voz 1

Eu fiz, ela entendia muito de edição gráfica, né? Eu gosto de trabalhar texto, eu sou bom para fazer texto, porque quando você escreve na primeira pessoa é muito fácil virar I, me, myself, eu mesmo. E daí então, esses cara que não sabe escrever. E o livro foi um sucesso.

RVRogério Vilela

Não, pô, como foi?

?Voz 1

Saiu com 20 mil exemplares na primeira edição, no dia seguinte já rodaram mais 20 mil e nunca mais parou, tá até hoje.

RVRogério Vilela

Mas o escrever demorou muito?

?Voz 1

Um ano, um ano, um ano.

RVRogério Vilela

É para desespero da Xerox, os cara devia estar desesperado.

?Voz 1

É, depois todo mundo foi demitido. Um dos controladores da Xerox morreu com a mulher num acidente aeronáutico. E a Xerox era uma empresa meio suspeita, porque a máquina de Xerox era um produto que não era um leasing, não era uma venda, não era uma locação. Você fazia um contrato tríplice com a Xerox e você não conseguia se livrar das Então quem queria parar de usar uma máquina Xerox e usar uma da Canon, por exemplo, não conseguia.

E aí, preso pelo contrato, é um contrato muito, sabe, contrato com mais entrelinhas do que linhas.

RVRogério Vilela

Cadê a capa da Veja? Você coloca e tira aí, o diretor. Cadê?

?Voz 1

Ah, durante 40 50 semanas foi a capa que gerou o maior número de cartas na Veja.

RVRogério Vilela

Então era, e um ano depois então o livro. Coloca depois a capa do livro. E ele até hoje vendeu quanto, tem ideia?

?Voz 1

Eu já passei de milhão faz tempo, mas é que houve várias edições. Então tem umas 150 reedições do livro, mas teve o período em que era, tinha o Clube do Livro, né? Foi, fez muito sucesso pela José Olímpio durante duas, essa é uma versão mais nova, essa é uma versão novinha de pocket, mas é o mesmo texto, é o mesmo texto. Depois de 10 anos eu mudei de editora para a Companhia das Letras e recentemente a Companhia das Letras resolveu revisar totalmente o texto original, botar fotos novas, desenhos, e fizeram uma edição extremamente bonita.

RVRogério Vilela

Existe essa edição ainda?

?Voz 1

Eu não tenho ainda, acho que tem um exemplar em casa, mas tá aí.

RVRogério Vilela

E deu para ganhar um dinheiro com livro? Porque o pessoal fala que livro dá tão pouco dinheiro.

?Voz 1

Não, não, eu no começo eu preferia abrir mão dos direitos autorais porque eu preferia que o livro fosse adotado nas escolas do que receber um 14%. Não, eu hoje tenho um contrato de 14%, que é raro, mas na média um autor tem 10% só, porque é difícil explicar isso para um autor. Ah, mas é muito pouco, a editora fica com tudo. Não, é que todo livro, 50% do valor de capa é do livreiro. Então a editora recebe só 50%, dos 50 ela paga 10, fica com 40, aí ela tem uns 25, 30% de custo, ela ganha mesma coisa que o autor.

Por isso que as editoras gostam de livros best-seller. E eu tenho sido feliz, né, tem saído edições. Mas não é isso que me deu autonomia econômica, foram as palestras que começaram a fazer muito sucesso, né. Hoje eu vou para 4 mil palestras, muito desse uma palestra sua.

RVRogério Vilela

E aí o próximo projeto na tua cabeça ficou qual?

?Voz 1

Aí foi parar, teve uma ideia, foi parar aqui. Eu já sabia o que eu queria, o que você queria. Eu queria fazer um barco para ir para Antártica.

RVRogério Vilela

E por quê? É uma coisa de criança, é uma coisa, Antártica era uma coisa que eu tinha lido muitos livros do Adrien de Gerlache, do Nansen, do Scott, do Amundsen.

?Voz 1

Do Shackleton. Eu tinha todos esses livros, eu sempre tive. Nunca colecionei relógio, eu tudo que eu podia ganhar eu gastava em livros sobre o Estreito de Magalhães, sobre tudo, tudo da fase heroica da exploração antártica. Mas o projeto era caro, eu decidi fazer um barco de 50 pés, era muito dinheiro para mim, levou 5 anos até o tamanho.

RVRogério Vilela

O tamanho tem a ver com o quê? Para suportar melhor autonomia.

?Voz 1

Autonomia, eu queria um barco que tivesse autonomia de pelo menos 2 anos. E eu fui um dos primeiros barcos do mundo com 3 anos de autonomia, o Paraty. E eu tenho esse veleiro até hoje.

RVRogério Vilela

Como que calcula uma autonomia de um barco?

?Voz 1

É quanto você consegue botar de peças de reposição, comida, água, assim, para não precisar reabastecer. 3 anos sem precisar ir para E aí surgiu, quase que de brincadeira, a ideia de, ao invés de fazer uma viagem de ida e volta, fazer uma viagem só de ida para ficar preso, fazer uma que a gente chama tecnicamente de uma invernagem.

RVRogério Vilela

Alguém já tinha feito isso?

?Voz 1

Ninguém no mundo.

RVRogério Vilela

E por quê?

?Voz 1

Eu fui o primeiro.

RVRogério Vilela

Quais são as dificuldades?

?Voz 1

Mais a solidão? Navegar? Não, não é questão de solidão, é administrar um barco, um veleiro. Você nunca pode dormir mais do que 40 minutos. Por quê? Porque o barco não para. Ele é que nem você dirigir um caminhão sem poder parar para dormir. Nossa! Então você pode dormir 5 vezes por dia, 40, 45 minutos é difícil porque ele tá em movimento. E 40 minutos em movimento, você não consegue parar um barco.

RVRogério Vilela

Mesmo 40 minutos ainda é arriscado você dormir, é isso mesmo?

?Voz 1

Tem rotas de trânsito, tem icebergs. E a decisão, frotas de hoje, tem as frotas pesqueiras da China, que é uma desgraça global, né, no Pacífico, no limiar da Zona de Exclusividade Econômica, né, nas 200 milhas de vários países. Aqui nas Falklands, né, é um inferno. Você passa nas—

RVRogério Vilela

eu já passei mais de 80 vezes ali, Perto das Malvinas, Falklands, lá é perigoso.

?Voz 1

Tem frotas chinesas que não, eles desconectam o AIS, o sistema de rastreamento. Então você não enxerga na tela do seu plotter, você não enxerga os barcos chineses, mas você tá vendo as luzes. Então o horizonte tá cheio de, todo claro. Passa meia-noite nas Falklands indo para Port Stanley, por exemplo, é um mar de pesqueiros.

RVRogério Vilela

Chineses. E essa aventura você planejou como?

?Voz 1

Então, é, eu levei 5 anos entre construir o barco, planejar. Ainda era pouco experiente, zero experiência de vela.

RVRogério Vilela

Então, mas você sugeria as coisas e tinha uma pessoa que entendia e falava se era possível ou não?

?Voz 1

Eu conheci um casal que já tinha invernado na Antártica, um casal incrível que viraram uma espécie de ícone literário na França hoje. Que é o Jérôme e a Sally Poncet. E eles tiveram uma experiência muito bonita e depois de um ano acabaram tendo um filho dentro do barco deles. E a Sally escreveu um livro belíssimo que se chama Le Grand Hiver, O Grande Inverno. E eu acabei ficando muito amigo deles no Rio de Janeiro. E aí, conversando com os dois em separado, Os dois falaram que eu perguntei se vocês fariam de novo, cada um respondeu a mesma coisa: a próxima vez eu faria sozinho, porque é uma experiência muito intensa.

RVRogério Vilela

Então essa decisão de ir sozinho, eu adorei, mas era mais arriscado ir sozinho. É com medo de ter um problema de, como você falou, de ter briga no meio, de ter um—

?Voz 1

acho que é mais arriscado ir com um cara chato, com uma mulher chata.

RVRogério Vilela

Por causa disso você pensou Pra não sozinho, não tem como brigar comigo.

?Voz 1

É mais arriscado ir com um cara que entra em pânico. Ó meu Deus, me acuda! Eu me tornei um especialista de fazer navegações difíceis, de alto risco, em solitário. E eu fui muito feliz.

RVRogério Vilela

Não tinha nada que precisava ao mesmo tempo duas pessoas, um fazer uma coisa e outra outra?

?Voz 1

Não, tudo é difícil, você não pode errar, não pode resolver. Nada no heroísmo, na força bruta. Você tem que pensar antes.

RVRogério Vilela

O que que você chama de heroísmo?

?Voz 1

É uma vela tá batendo, deixa eu segurar aqui, quebra o braço. É uma escota desse, da grossura do dedo, uma escota de 14mm. Quando ela tá molhada, batendo com 70 nós de vento, 130 km/h, ela quebra o braço como se fosse um biscoito, galho.

RVRogério Vilela

É mesmo. Então, teu, tua maior preocupação era não sofrer nenhum acidente e não morrer, né?

?Voz 1

Mérito que eu tive, eu acho, é que tem muita chance. Eu fiz o barco, e o fato de você construir o barco, fazer, você acompanhou cada etapa, tudo, tudo.

RVRogério Vilela

Então você sabia exatamente.

?Voz 1

Aí, com os anos depois e o sucesso das viagens, eu tenho um amigo que mora na Ilhabela, o Thierry Stumpf, que fez barcos icônicos no Brasil, mas sempre em aço. Ele tinha o sonho de começar a usar o alumínio, ele tinha o sonho de ter um estaleiro, e eu tinha o sonho de não ter que pagar um estaleiro, porque é caro. É, no mínimo ele cobra 15% do tudo que você gasta para fazer o barco. E aí a gente fez um acordo no fio do bigode.

Eu ia ajudar ele a construir o estaleiro, conseguia as parcerias, apoiadores técnicos, as matérias-primas. E no dia que o meu barco passasse pela porta do estaleiro, tudo que tava dentro ia ser dele, tudo. A escritura, terreno, tudo, as máquinas. Então a gente andou durante vários anos pegando sucata de empresas que fechavam, né? A Vilares tinha vendido uma unidade que fazia motores de navio no Brasil. Era uma fábrica gigantesca onde trabalhou o Lula, trabalhou nessa fábrica.

E eles tinham um prazo para entregar, e aí eles abriam as fábricas para sucateiros. E eu fui um dos sucateiros. Sucateiros queriam as máquinas grandes, eu queria as máquinas menores, porque não ia construir um navio, né, ia construir um veleiro. E assim nasceu o nosso estaleiro, e que fez barcos. Todos os barcos são icônicos.

RVRogério Vilela

E qual que era o pensamento diferente, a pegada diferente desses barcos?

?Voz 1

Já que a gente ia fazer do zero, vamos fazer coisas que os americanos não fazem, que os franceses— vamos fazer a estrutura extrudada e não laminada.

RVRogério Vilela

Que que significa?

?Voz 1

Que eu, quando eu faço uma extrusão, que nessa pecinha aqui eu posso fazer com canto arredondado. E aí não machuca o soldador. E aí a gente consegue certificar solda todos os dias. Soldar aço, qualquer um sabe soldar. Soldar alumínio é um processo muito mais técnico, exige conhecimento do inglês, porque as máquinas hoje têm painéis ultra complexos. É, o arco é de argônio, tem Se você olhar um décimo de segundo para um arco de argônio ativado, você fica cego, cara.

Então, e aí no final nasce o meu maior barco, no final das contas, que foi o Paraty 2.

RVRogério Vilela

De quantos pés?

?Voz 1

Quase 100 pés. Ele foi esticado, tinha 96 e chegou a 99 ponto alguma coisa.

RVRogério Vilela

A gente vai falar daqui a pouco do filme. Baby, né, que tô louco para ver esse filme aí. Já viu?

?Voz 1

Não, não viu o filme? Eu vi uma pré, quando não é o final, é aquele, aquela montagem. Entendi, não tá totalmente pronto, mas eu fiquei muito—

RVRogério Vilela

é, o Saldanha teve aqui e já falou desse filme. É, já entrevistei ele e ele já falou do filme. Eu já fiquei, já fiquei curioso.

?Voz 1

Agora, filme foi uma bruta novela porque Porque quando eu namorava a Marina, 30 anos atrás, ela já queria, ela sempre mexeu com eventos corporativos. Eu falei, Miriam, esse livro tem que virar um filme.

RVRogério Vilela

Tinha uma cara de filme mesmo.

?Voz 1

E nunca deu certo, porque a história é feliz, até o título, 100 Dias, né?

RVRogério Vilela

Não tem tragédia.

?Voz 1

Ela queria fazer. Aí a gente vendeu os direitos para o Breno Silveira da Conspiração. E aí eles tinham como sócios os Moreira Salles também, mas não dava certo. Aí de repente botaram uma roteirista que ficou anos me entrevistando e no final não gostaram do roteiro dela. Depois botaram dois roteiristas, aí um casal aqui que trabalhava na Folha de São Paulo, os dois brigaram. E o roteiro desandou. Aí botaram uma outra roteirista, que era filha do Ricardo Cocho, também jornalista, que não gostaram do roteiro.

Aí morreu a mulher do Breno, aí ele entrou em depressão. Aí um dia o Breno me liga e fala, Amira, agora já temos o roteirista. O Breno ficou viúvo, né, e casou e arrumou uma namorada. Ah, minha namorada vai fazer o roteiro. Aí eu falei, ô Breno, sabe de uma coisa? Quando começa minha cunhada, a minha namorada, meu namorado, não sei o quê, esse troço não é sério. E aí eu cancelei a história. Aí o Breno morreu de repente, subitamente, jovem.

E aí uma menina de uma editora que esqueci o nome agora, Bossa Nova, Ficou encantada e acabou assumindo os direitos, que a Paula Cossenza. E aí assinamos um contrato, não sei o quê, bruta produtora de cinema, não sei o quê, quebrou. Aí eu falei, não é para ser essa. E no final a Paula foi morar fora do Brasil, e aí ela contratou o Saldanha, e aí a história andou. Mas eu levei 2 anos para fazer a viagem, 1 para fazer o livro, 100 dias para fazer a travessia. O Carlos Saldanha levou 8 anos para tirar o filme do papel.

RVRogério Vilela

Do papel, 8 anos.

?Voz 1

8 anos.

RVRogério Vilela

A gente vai falar, o Felipe, o ator tá aqui, a gente vai falar mais. Mas eu quero terminar essa tua história antes da gente falar só sobre o filme. Depois separa, tem trailer aí também para a gente mostrar e tudo mais.

?Voz 1

Essas, eu falei ontem num evento, um troço engraçado, me perguntaram se não foi muito mais fácil para o Felipe. Aí acharam o Felipe, imagina, o Felipe. Eu quando vejo as fotos dele, eu me vejo nele, eu me sinto muito feliz. É, nossa, como estou bem!

RVRogério Vilela

Podiam ter escolhido um ator ruim, né, feio. Escolheram certo aí, que bom.

?Voz 1

É, eu até fiz uma brincadeira junto com ele, né, que a minha mulher falou, ah, Miro, o Felipe fez o Sidney Magal. Eu falei, Sidney Magal não é possível, não vai dar certo esse filme. Aí ela me obrigou a assistir o filme que ele fez com Sidney Magal, que é sensacional, é bom para caramba. Eu nem sou tão fã assim do Sidney, ela é super fã.

RVRogério Vilela

Já teve aqui também, tem o histórico. Quem não teve aqui, né?

?Voz 1

Aí eu falei, não, o cara é muito fera, né? E aí ontem me perguntaram lá, o diretor da empresa que convidou, Pô, mas eu acho que ele viu um making of do filme. Nossa, mas para o Felipe foi muito mais fácil. Tá louco, o Felipe tomou mais caldo do que você, do que eu tomei em 100 dias.

RVRogério Vilela

Pior que é, né?

?Voz 1

Eu não tomei as baldadas que ele tomou. Baldada mal intencionada, sabe? É para engasgar mesmo.

RVRogério Vilela

Diretor já tem a cena, ele faz só de sacanagem.

?Voz 1

Não é mais uma aqui para As meninas que trabalharam, sei lá como é que chama, contra a regra, não sei, produtor na fábrica de ondas, fizeram uma fábrica de ondas com uma piscina de não sei quantos milhões de litros. Eu falei, essas meninas, elas estão hipotérmicas, elas tinham que sair de vez em quando porque elas estavam quase adquirindo hipotermia de tanto tempo na água.

RVRogério Vilela

E mas vamos falar do filme, eu só queria terminar então essas expedições para rápida. A primeira, então, qual que era a tua ideia?

?Voz 1

Ficar lá, o plano total, ficar lá um ano. Aí no final de um ano eu consegui tirar, porque tinha o risco de ficar um segundo ou um terceiro ano se você não, por causa do tempo, porque tem anos que o gelo não desmancha.

RVRogério Vilela

E você sabia disso e tava preparado para isso?

?Voz 1

Eu tava, eu levei 40 meses de suprimentos, 3 anos, 36 mais 4, mesmo pensamento também, com desidratado, aí já tinha comprado melhor? Eu já tinha e não tinha problema da água porque eu derretia gelo e neve para fazer água doce. Então não gastava energia do barco para—

RVRogério Vilela

desculpa a ignorância, mas como coletava o gelo?

?Voz 1

O gelo marinho não serve para beber porque ele nos 2 primeiros anos ele é salgado.

RVRogério Vilela

Como que pegava então?

?Voz 1

Eu tinha que pegar um iceberg que tava fraturando.

RVRogério Vilela

É muito louco isso. Pô, atrás do iceberg, o bebê.

?Voz 1

O problema é que como que pega de um iceberg? Você vai de botinho com uma piqueta e vai quebrando os pedaços.

RVRogério Vilela

Assim mesmo? É tipo desenho do Pica-Pau?

?Voz 1

É Pica-Pau mesmo, é chique de tudo. Você pode pegar neve. Eu fiz muita água com neve, mas a neve tem um pepino.

RVRogério Vilela

O quê?

?Voz 1

Você de repente tá derretendo, sei lá, para fazer 2, 3 litros de água, você precisa 15 litros de neve e de repente você tá lá no aquecedorzinho derretendo a neve e começa a aparecer os cocô de pinguim.

RVRogério Vilela

Ah, para! É, aí não, né? E aconteceu isso mesmo?

?Voz 1

Cocô de foca, pior ainda, né? Os cara cagam no meio da neve, então some na neve, que o cocô sai quentinho e ele afunda, então você não vê. Aí neva de novo outro dia e fica limpinho, tudo branquinho. De novo, né? O fim do inverno é um horror, porque tem aquelas aves branquinhas, que é uma ave, é uma ave que nem urubu, só que na Antártica o urubu é branco. E shitbill, essa vizinha, e ela caga o barco inteiro.

RVRogério Vilela

É mesmo?

?Voz 1

É. Quando acaba o inverno e a neve começa a derreter, o barco fica todo cor de laranja. É, putz, é um inferno.

RVRogério Vilela

E a tua rotina era como aí? Você tinha que dormir de 40?

?Voz 1

O barco funcionava como se fosse uma casa, tinha que fazer água, comida todos os dias, manutenção do motor, da máquina de detergente, de fazer água, sistema hidráulico. É, duas vezes por mês eu tinha comunicado.

RVRogério Vilela

Redundância das coisas lá?

?Voz 1

Tinha, no veleiro tinha mais redundância do que no barquinho a remo.

RVRogério Vilela

E aí deu problema no caminho?

?Voz 1

Não, nada. No final da invernagem, quando o barco voltou a navegar, escapou do gelo, eu fiz uma auditoria, né, contábil no barco. E aí descobri que tinha 20 e poucos meses de autonomia. E aí foi que eu resolvi, em vez de voltar para o Brasil, resolvi ir para o polo oposto da Terra, ir para o Círculo Polar Ártico. E também na época ninguém tinha cruzado o Círculo Polar Antártico, nenhum velejador tinha cruzado o Círculo Polar Antártico. Eu falei, eu vou descer até onde eu consigo, vou para o sertão da Antártica.

RVRogério Vilela

Onde você fica preso não é no Círculo Polar Antártico?

?Voz 1

Eu tô dentro da Convergência Antártica, mas o Círculo Polar fica mais para dentro, é mais ao sul ainda. E nem é terra lá, tem água para lá, tem água, mas normalmente tá o mar tá congelado. Então é uma navegação muito aleatória, tem barcos que conseguem chegar, tem barcos que não conseguem. E nenhum navegador em solitário tinha feito isso. Eu falei, quer saber, vou fazer. Agora eu tenho um ano de experiência a bordo e eu fiz sem nenhum problema.

E do Círculo Antártico eu resolvi ir para o Círculo Ártico, e aí eu passei muito acima do círculo, porque o Ártico ele quase toca o norte da Islândia.

RVRogério Vilela

Ah, é?

?Voz 1

E eu fui para o Spitsbergen, cheguei em 82 graus de latitude norte. Hoje, com aquecimento global e tudo mais, ainda assim é uma região não mais navegável de tanto gelo.

RVRogério Vilela

Por causa de gelo?

?Voz 1

Por causa do gelo, é. E eu fui feliz naquele ano porque É o finzinho da Gulf Stream, da corrente do Golfo. Sai mais ou menos do Newfoundland, perto de Nova York, passa ao sul da Terra Nova, ao sul da Groenlândia, ao sul da Islândia, e ela vai morrer lá no norte dos Pittsburgh. E eu consegui naquele ano chegar muito, muito ao norte. Fiquei bem feliz. E aí eu voltei para Paraty.

RVRogério Vilela

Qual dessas expedições vira livro depois?

?Voz 1

Essa virou livro, que chama Paraty Entre Dois Polos. Depois, a primeira circunnavegação que eu fiz também em alta latitude virou O Mar Sem Fim.

RVRogério Vilela

Mas aí, sabendo que poderia virar livro, você já leva, já começa a fazer uma?

?Voz 1

Não, eu acabo produzindo o livro por ameaça dos editores, que tem bons canivetes.

RVRogério Vilela

Aí você já começava a notar mais coisas para virar livro.

?Voz 1

Me judia bem, entendeu? Eles premiam. E a lição do Roberto Muylaerdes, falou, filho, muito bem, parabéns. Enquanto você não fizer o livro, não tem o menor valor que você fez.

RVRogério Vilela

Pior que é, chamar o Felipe para vir aqui.

?Voz 1

Putz, Felipe, acho que dormiu já.

RVRogério Vilela

Cadê? Tá acordado aí? Não tem como dormir com essas histórias aqui, né, Felipe? E depois você vai fazer também com tripulação. Qual que é a decisão de aí fazer com tripulação? Se apresenta aqui para o povo, sua câmera aquela ali tava prestando atenção no papo, né?

FBFilipe Bragança

Tava, lógico, mas muita coisa aí eu já ouvi.

RVRogério Vilela

Então tinha coisa nova aqui?

FBFilipe Bragança

Eu tinha, sempre tem. Isso aí é uma enciclopédia viva, esse cara.

RVRogério Vilela

Se apresenta para o povo.

FBFilipe Bragança

É, meu povo, primeiro eu tô muito feliz de estar aqui.

HHomer

Obrigado.

FBFilipe Bragança

Eu acompanho o podcast com frequência. Meu nome é Felipe, eu sou filho do João e da Carla, irmão da Luísa. Sou nascido e criado em Goiânia, Goiás. Sou ator desde os meus 5 anos de idade. Acho que eu sempre quis ser ator, eu acho que é um defeito de fábrica mesmo.

RVRogério Vilela

Fazendo o quê?

FBFilipe Bragança

Fazendo em Goiânia publicidade, teatro, essas coisas. Mas sempre muito convicto assim.

RVRogério Vilela

Aquilo que falando com a mãe, ah, ele tem que fazer alguma coisa.

FBFilipe Bragança

Minha mãe é atriz. Então na época ela trabalhava com teatro, publicidade também em Goiânia, e sempre que precisava de um molequinho com a minha cara, ela falava, ah, tem meu filho. E aí eu comecei e não parei mais. Então hoje já trabalhei com cinema, teatro, teatro musical, novelas, séries, enfim. E agora eu tô tendo a honra de interpretar esse jovem aqui diante de nós.

RVRogério Vilela

Não minta, você já tinha lido o livro antes ou leu por causa do Não, não, não, eu li por causa do filme.

FBFilipe Bragança

Assim, inclusive durante o processo de testes, né, eu pensei em comprar o livro porque poderia me ajudar, né, mas eu falei não, não vou comprar ainda porque senão eu vou me apegar e eu não sei se eu vou ser aprovado para o papel, podem escolher um outro ator. E aí assim que eu tive a resposta eu falei vou comprar, mas ironicamente eu tava lendo 100 Anos de Solidão Que é o livro que você levou durante a travessia, o único livro que ele levou durante a viagem.

RVRogério Vilela

Molhou o livro?

?Voz 1

Não molhou, esmagou. Porque depois de um tempo eu sabia que ia ter tubarões quase todos os dias.

RVRogério Vilela

Ah, que bacana!

?Voz 1

Se esfregando no barco, eles querem saber se você é comestível.

RVRogério Vilela

Você já sabia disso?

?Voz 1

Isso os franceses tinham me explicado já. Só que no meio da viagem os tubarões tubarões começaram a bater no barco em vez de se esfregar. E aí eu tive um dia que mergulhar para descobrir o que aconteceu. E a pele áspera do tubarão no começo raspava a tinta venenosa, que é para não crescer craca. Começou a crescer uma craca que tem em Portugal, que é o percebes. E aí os tubarões começaram a bater nas cracas para soltar, para atacar os dourados que me acompanhavam.

No fim das contas, todo mundo quer comer todo mundo. É uma grande cadeia, dourados querem comer comer os voadores que batem no casco do barco. Os tubarões querem comer os dourados e você no meio lá de tudo isso. E as gaivotas querem comer os voadores. E um tubarão um dia bateu no leme com tanta força que a cana do leme, o 100 Dias, o 100 Anos de Solidão do Garcia, tava do lado da haste e o livro fez assim, sanfonou, cara.

FBFilipe Bragança

E tudo está no filme, tem exatamente essa Não lembro agora.

RVRogério Vilela

E você lia quando?

?Voz 1

Antes de dormir? Não li, não dava tempo de ler, eu tava exausto.

RVRogério Vilela

Ficou 100 dias de solidão. Leu depois ou não?

?Voz 1

Eu já tinha lido, mas eu tinha lido em espanhol, tá, e em português. E os 100 anos de solidão que eu tinha no barco eu ganhei de uma amiga Namíbia, e tava em inglês.

FBFilipe Bragança

Então é interessante porque você falou, né, que ganhou da amiga, mas no filme, e obviamente, né, tem liberdades artísticas, criativas, é um outro personagem que dá esse livro, tá?

RVRogério Vilela

E você falou que você tinha lido Os Cem Anos de Solidão.

FBFilipe Bragança

E aí tinha lido Cem Anos de Solidão, e enfim, é um livro espetacular, claro, eu sou apaixonado É um dos meus livros preferidos. Gabriel García Márquez é um grande autor. Amor nos Tempos do Cólera também é dele, é o meu livro preferido. Já leu?

?Voz 1

Não, eu li um outro livro que me marcou muito. Quando ele, ele é um, ele era um jornalista, né, antes de ser um super autor, e ele fez uma reportagem sobre um naufrágio no Mar do Caribe. Se chama O Náufrago, o livro, que é um cara que fica à deriva sozinho numa balsa de sobrevivência. E o grande, o grande drama desse cara é o relógio. Ele luta contra o relógio porque o relógio marcaria a hora que ele ia morrer.

FBFilipe Bragança

Uau!

?Voz 1

E o Gabriel fez de uma reportagem muito bem feita, ele transformou num livro. Esse livro É sensacional, não é muito grossão.

FBFilipe Bragança

Não, eu quero, vou pegar, vou pegar. E aí, assim que eu terminar de ler o livro, e aí aconteceu uma coisa meio triste, porque esse cara sobreviveu no final, que deu origem à reportagem.

?Voz 1

E aí uma fábrica de relógio, acho que a Tissot, resolveu fazer uma campanha publicitária em cima do relógio que ia marcar a hora da morte do cara. Ele fez isso para ganhar, coitadinho, algum dinheiro. E não sei o quê, uma campanha de péssimo gosto, esses publicitários alucinados aí. Mas o livro eu adorei.

FBFilipe Bragança

É, aí depois, legal que você leu 100 anos. Eu tava, eu achei uma coincidência interessante. Aí assim que eu fui aprovado para o papel, e foram vários testes, né, várias fases de teste, O que que é um teste? Uma entrevista de elenco?

?Voz 1

Não, a gente faz representação.

FBFilipe Bragança

É, exatamente. A gente recebe o texto, né? Aí, no meu caso, a primeira etapa foi uma self-tape. Então eu tinha que, né, pegava o meu celular em casa mesmo, recebia uma cena interpretando a Mir Klink, e aí fazia essa cena, mandava para produção. E aí, depois disso, foram outras, outros testes presenciais. Porque, cara, o negócio é que esse mercado tem hoje em dia, principalmente, tem muitas, muitas camadas e hierarquias que tem que aprovar o ator para interpretar, entendeu?

Então não basta o diretor querer, a produtora também tem que querer, tem um monte de gente que tem que dar opinião. Mas eu fiquei obviamente lisonjeado, né? Porque até porque antes de receber o convite para testar para esse papel, eu tive um sonho. Eu acho que eu já te contei isso.

?Voz 1

Ah, eu esqueci.

FBFilipe Bragança

Com as baleias, eu tive um sonho. Isso era janeiro de 2024. Eu não sabia que o filme ia acontecer, não sabia que essa produção tava acontecendo, não sabia que eu ia abrir testes, não sabia de nada disso. Aí eu tive um sonho que eu tava no mar, no oceano, sozinho, nadando em direção a uma ilha. E aí várias baleias começavam a nadar junto comigo, baleias de espécies diferentes, assim, é, todas as espécies de baleia possível. E aí nadava junto com elas, começava a afundar, acordei.

Eu me lembro vividamente desse sonho. E aí, antes dos testes, dos testes, foi antes dos testes, não sabia nada que aconteceu, filho, não sabia nada. Por isso que eu acordei, eu fiquei intrigado. Acho que tem sonhos que a gente tem, né? Eu particularmente tenho alguns sonhos que eu tenho que eu acordo, pode ser, ou pelo menos alguma coisa que a gente pode tirar algum significado daquilo. E aí tive esse sonho. Uma semana depois eu recebo o convite para testar para você, meu personagem, você, Amir Klik.

E aí eu leio o roteiro pela primeira vez e tem uma cena que é inclusive baseada num dos capítulos do livro, né, 100 Dias Entre Céu e Mar, que é a cena da creche das baleias.

?Voz 1

Nossa, mãe!

FBFilipe Bragança

E aí, sem nada, não vou dar nenhum spoiler quem não viu o filme ainda, mas é uma cena muito bonita e me remeteu imediatamente ao sonho que eu tive. Eu falei, bom, não sei se eu vou ser aprovado para esse personagem, mas pelo menos isso aqui vai ser importante para mim de alguma maneira, assim, vai ser importante para minha vida.

RVRogério Vilela

Trouxe presente para mim?

FBFilipe Bragança

Trouxe presente para você, sim senhor. Bom, já que estamos falando de cinema aqui, eu trouxe algo que em algum momento vai virar uma relíquia da civilização, né?

RVRogério Vilela

Já é. Eu não tenho nem aparelho para isso. Eu tenho um monte de DVD e não tenho mais o aparelho DVD.

FBFilipe Bragança

Isso aí é 2001: Odisseia no Espaço. Já que a gente tá falando de uma odisseia no oceano, eu trouxe uma Odisseia no Espaço pra você. Eu sou apaixonado por esse filme, é um clássico dirigido pelo Stanley Kubrick, filme de 68, é uma ficção científica super importante pra história do cinema. E eu tenho uma coleção de todos os filmes do Kubrick em DVD. Só que por algum motivo eu tinha um a mais desse aqui, que eu não sei como é que foi parar lá em casa.

E eu falei, bom, eu já tenho um, né? Então em algum momento vou presentear isso aqui para alguém. E é bonito, é legal, é um baita filme. Vocês já assistiram?

RVRogério Vilela

Já, claro, pô. Clássico.

FBFilipe Bragança

Isso aqui é inacreditável, é bom demais. Uma trilha sonora espetacular.

?Voz 1

A trilha sonora é um show.

FBFilipe Bragança

Então tá aí, tá aí a sua relíquia. Isso aqui em algum momento vai valer muito dinheiro.

RVRogério Vilela

Enquanto tiver falando aí, deixa o trailer sem áudio aí para não dar problema de direito autoral. Deixa ele sem áudio de fundo. Mas me ajuda então, Felipe, a entrevistar e terminar essa aventura aqui com o Amir, né? Dessas aventuras então solo, depois qual é a ordem então? Essa que você vai, Polo Sul, Polo Norte?

?Voz 1

Aí eu faço a invernagem Que levou quase 2 anos.

RVRogério Vilela

Depois faço a primeira e fica parado na Antártida. Que que faz nesse tempo?

?Voz 1

Fica aí, tudo que não pode.

RVRogério Vilela

Não, aí você levou livro, eu levei, mas deu muito pouco tempo. Tem muito trabalho para fazer nesse?

?Voz 1

Tem mesmo, isso é raro. Funcionar sempre demarcando gelo, podia. Eu me diverti para caramba porque eu me senti quase Jesus Cristo, né? Porque eu saí andando pelo mar nas baías onde no verão não podia ir porque não tem atracadouro, mas só que no inverno tá congelado, então você anda sobre o mar. Aí pelo rádio descobri que 3 ingleses da base de Faraday, que era antiga, hoje chama Vernadsky, da Ucrânia, 3 ingleses saíram passear em cima do gelo também como se fossem Jesus Cristo andando sobre o mar.

E os três morreram. Ô louco! O gelo quebrou, o barquinho ficou para lá, eles ficaram para cá. Devem ter tentado. Aí eu falei, vamos mandar.

RVRogério Vilela

Vamos falar a verdade, você podia ter morrido em muitas situações.

FBFilipe Bragança

Ele pediu para morrer várias vezes.

?Voz 1

O primeiro veleiro que me encontrou um ano depois, eu já tava flutuando. E de repente aparece um veleiro holandês, de um cara que aliás é um baita projetista, muito legal, e um veleirinho bonito, um veleirinho clássico, chegando na Antártida. Só um casal a bordo. Eu fiquei tão feliz, vai ser o primeiro contato humano depois de tanto tempo, depois de tanto tempo. Eu vi que eles iam entrar na baiazinha onde eu tava, eu peguei meu botinho, não tem um água para fazer um café.

Aquele dia eu tava meio com preguiça, eu falei, não vai dar tempo de derreter neve, eu vou naquele iceberg ali, tem uma piscininha, eu vou lá na piscininha, pego uma panela de água e ofereço um café. E aí eu fui com tanta pressa no gelo pegar que eu subi com botinho, encostei no gelo, fui lá, peguei. Quando eu peguei a panela O botinho foi embora.

RVRogério Vilela

Ah, você desceu do bote?

?Voz 1

Eu desci do bote no gelo.

RVRogério Vilela

Que maravilha! E você viu o bote indo embora?

?Voz 1

E o bote escorregou e foi embora. E aí eu falei, vou morrer, caramba, vou morrer com a panela na mão, uma situação ridícula dessa para fazer um café. Imagina, cara, por sorte os holandeses fizeram a volta da baía, que tem uma entrada que é bem capciosa ali para entrar, você tem que passar colado na pedra. E aí eles viram o iceberg com um cara, um pinguim enorme, com uma panela na mão. Eu comecei a gritar para eles, e aí eles ficaram em dúvida porque eles não viram o bote, o bote já tava longe.

E aí finalmente eles foram até o gelo e eles falaram, mas como você veio parar aqui? Eu falei, não, eu perdi meu, meu bote, o bote escapou. Há quanto tempo você tá aqui, filho? Eu falei, eu tô desde o ano passado. Ele falou, mas se a gente não chegasse, você ia morrer. Eu falei, se vocês não chegassem, eu não teria vindo aqui buscar água para fazer café.

RVRogério Vilela

A culpa é de vocês. Fez o café, pelo menos?

FBFilipe Bragança

Ou seja, já tem material para outros filmes, muito material.

RVRogério Vilela

E o bote tava longe já?

?Voz 1

Ali tem correnteza, né? O Canal de Neumayer tem uma corrente.

RVRogério Vilela

Não é aquela coisa, eu vou nadar um pouco no mar gelado.

?Voz 1

E não, e não é que é mar gelado, é o mar cheio de pedaços de gelos menores, porque tem muita geleira ali, elas vão soltando aquela.

RVRogério Vilela

Era real, você ia morrer real mesmo.

?Voz 1

Eu ia morrer.

FBFilipe Bragança

Então você acha que a travessia mais difícil que você fez, de todas as expedições que você fez, não é a travessia do Atlântico, ou é a mais difícil? Que você fez? Não, né?

?Voz 1

Não, não, eu adorei a travessia, porque talvez fisicamente, mas começou ruim e com o tempo foi melhorando.

RVRogério Vilela

Qual foi a mais difícil?

?Voz 1

Eu acho que foi a primeira circunnavegação da Antártica. Eu apanhei bastante, é porque o frio também é difícil, né? O aquecedor parou de funcionar quando entrei no Oceano Índico, e aí as primeiras semanas sem aquecedor Primeiro foi, foi duro, mas depois eu só posso dizer que fui feliz nas viagens, né? Os noruegueses têm essa expressão de navios felizes e navios infelizes, né?

RVRogério Vilela

Felizes são os que voltam. Como que eles usam?

?Voz 1

Felizes são os que não dão problema, que voltam. E os infelizes são aqueles que só dão bucha, pepino, perrengue.

RVRogério Vilela

Conseguiu fazer voltar conseguiu usar aquecedora ou foi sem aquecedora até o final?

?Voz 1

Eu consegui. Eu não conseguia porque quando eu entrei no Índico tinha ondas muito grandes. Eu fui numa latitude muito alta onde não tem nada que impeça o mar de correr. Então é comum no Índico e Pacífico Sul ter ondas com 12, 15, 18 metros de altura. É muito comum. Eu peguei uma semana, 8 dias de ondas acima de 20 metros, que foi uma tempestade do século.

RVRogério Vilela

E aí, como faz o barco? Ele vai acompanhando? Como você tem que apontar?

?Voz 1

Eu vou seguindo a onda, eu não quero nem saber mais se eu tô indo para o Japão, você bate a onda, Osasco.

RVRogério Vilela

Como você faz? Você vai em direção à onda?

?Voz 1

Eu tento surfar a onda.

RVRogério Vilela

É mesmo?

?Voz 1

Mas aí entra assim a qualidade das pessoas com quem eu trabalhei nos O Paratinho é um veleiro incrível, é um veleiro que tem um leme tão preciso que ele não atravessa quando desce uma onda. 100% dos veleiros, quando você desce uma onda gigante, a tendência do barco é perder, porque as moléculas de água vão para frente, anula o efeito corretivo do leme e o barco atravessa. Esse é o perigo.

RVRogério Vilela

Atravessa como?

?Voz 1

Ele fica de lado.

RVRogério Vilela

E aí é ruim.

?Voz 1

Aí de lado, se a onda estourar, capota. E esse não, esse barco ele não sai um grau. Você escolhe um rumo determinado e ele mesmo em diagonal na onda, ele mantém o veleiro, né?

FBFilipe Bragança

É um veleiro, sim.

?Voz 1

Tá lá zerinho em Paraty, de vez em quando a gente fica lá. E eu fui muito feliz nesse. Eu, foi uma briga danada, porque quem projetou o barco era um cara incrível do Rio de Janeiro, o Cabinho, Roberto Mesquita Barros. Mas para o leme eu contratei um projetista separado, o cara que desenhou o barquinho que você usou, o Fúria.

RVRogério Vilela

Por quê? O que que ele tinha de diferente?

?Voz 1

Porque um dia eu comparei o projeto do meu barco com o projeto de um barco francês que era muito famoso, E eu botei as duas plantas na janela de casa, e eram barcos do mesmo tamanho, de 15 metros. E eu percebi que o outro barco, que eu já conhecia, tinha um leme maior ainda do que o meu, e o barco velejava muito mal. Eu falei, quer saber, eu vou me dedicar ao leme. E o Fúria fez um baita de um daquele jeito todo dele, da calculadora, o óculos, tudo cálculo, isso muito cálculo.

Os projetos dele são muito bonitos porque ele fazia dossiês assim com desenhos, e isso tem no filme, ficou muito emocionante.

FBFilipe Bragança

E não sei como acharam, né, esse cara, o Duda Manberti, é o ator que interpreta, porque parece é o Duda Manberti, filho do Manberti.

?Voz 1

Que isso, não sabia disso não.

FBFilipe Bragança

Nossa, o cara é muito parecido, né?

?Voz 1

É a réplica, é uma réplica perfeita.

FBFilipe Bragança

Porque tem todos, até você falou da nutricionista, né, que, né, a Flora, a Flora também é a Marta Novil, que interpreta, também tá no filme, né? O filme consegue capturar todo esse momento também. Ele conta todo esse momento, processo.

?Voz 1

E a atriz que faz a minha mãe também é a réplica exata da minha mãe, a réplica. E ela é uma francesa que fala português. E a minha mãe morou na França muitos anos, e até o sotaque dela é parecido, é igual sotaque igual da minha mãe. Então achei que foi uma produção assim Emocionante, porque houve um preciosismo, né? Houve a felicidade de juntar um elenco extremamente competente. Teve o desafio que eu sei que foi levantar os recursos, e aí entrou a Disney também, produtoras muito talentosas aqui brasileiras e não brasileiras.

Eu acho que o Felipe bateu no Sidney Magal em termos de competência, porque é impressionante, é muito impressionante.

RVRogério Vilela

Tô louco para ver isso.

FBFilipe Bragança

É, mas você já viu o filme? Eu já vi o filme. É, o Amir falou que viu uma versão que ainda não tava finalizada, o filme já tava finalizado, óbvio. Estreia dia 29 de outubro, inclusive a primeira, a estreia do filme no Brasil Brasil vai ser no Festival do Rio. A gente vai encerrar o Festival do Rio, que não é no dia 29, não, acho que é dia 10 ou 11, dia 11, tá? Dia 11.

?Voz 1

Mas eu tô bem curioso, né?

FBFilipe Bragança

Mas o filme é espetacular, a trilha sonora é tudo muito bonito. Eu acho que o Carlos Saldanha é um diretor muito habilidoso, ele é muito acima da média, é um E eu acho que esse tipo de filme, né, porque é um filme muito particular assim, não é o tipo de filme, primeiro, não é o tipo de filme que a gente costuma assistir sendo produzido no Brasil, porque é uma grande aventura, é uma grande odisseia, mas é também um drama pessoal de um personagem que faz uma travessia, faz uma viagem sozinho.

Então a gente acompanha as memórias desse cara, a gente acompanha o que que tava em jogo emocionalmente para ele. Como é que foi também toda a engenharia do barco. E ao longo do filme a gente vai entendendo isso. Então acho que é um filme muito especial assim.

RVRogério Vilela

Olha lá a comparação.

FBFilipe Bragança

Olha lá, eu emagreci bastante.

?Voz 1

Eu olhei e falei, nossa, mas eu não lembro. Não sou eu. Cara, onde arrumaram essa foto? Eu não lembro de tirar o remo fora do barco.

FBFilipe Bragança

Não, essa foto não, esse momento nem existe, né? É só uma foto, né? Isso não é, não é uma, nem é uma cena do filme exatamente, mas é isso. E a gente conseguiu até ficar bem parecido, né?

RVRogério Vilela

A caracterização da Patrícia Martinelli era espetacular, porque o cabelo, quantos anos de diferença entre o feito e o filme?

FBFilipe Bragança

Então o filme foi, o feito foi 84, né? A viagem foi em 84, filme foi feito Aí vai ser lançado agora? Final de 24.

RVRogério Vilela

É?

FBFilipe Bragança

É. E vai ser lançado— é, pois é, a gente fez em 24.

RVRogério Vilela

Termina em 24?

FBFilipe Bragança

Olha, a gente faz em 24. E enfim, cinema, principalmente no Brasil, a pós-produção demora. Mas esse é um filme muito específico porque, né, como o Amir falou um pouco, a gente fez grande parte do filme em estúdio. A gente fez cenas no mar também, no oceano. Eu fui lá, remei no oceano de verdade. Mas a gente fez grande parte do filme com fundo azul, dentro de um aquário, dentro de uma piscina gigantesca com máquina de vento, máquina de onda.

Exatamente isso aí. Olha lá, o making of. E aí, dessa maneira, a gente conseguia manipular, por exemplo, o vento, a força das ondas. E é isso, né? As cenas, enfim, cenas de tempestade, cenas pôr do sol, e a gente precisava ter a liberdade também para poder contar essa história. Então não dava para fazer tudo no oceano de verdade, dependendo, né, do clima. Exatamente.

?Voz 1

Uma sorte também porque tinha a réplica do barco.

FBFilipe Bragança

É, o barco é exatamente igual, não é?

?Voz 1

É exatamente. Eu já botei os dois barcos juntos e assim, eu fiquei na dúvida, será? Porque o cara que fez essa réplica é um professor de jipeto assim. É um perfeccionista que dá aula de marcenaria fina, e ele fez até os arranhões do barco, desgaste.

FBFilipe Bragança

É, a gente usou essa réplica para fazer as cenas em que eu tava remando, mas a gente tinha também um cenário que era usado para fazer o interior da cabine, porque a cabine era muito apertada, né, era tamanho real, não cabia uma outra pessoa ali dentro com uma câmera. Então a gente tinha um outro cenário separado para fazer a cabine, que também foi o cenário que a gente usou para fazer a capotagem. É porque a gente tem essa cena, o Amir falou, né, o barco capotou, principalmente no início, porque, né, ele atravessou tempestades e ondas gigantescas e tal.

Então o barco capotava comigo lá dentro, e a gente fez, a gente reproduziu essa cena com a cabine virando e eu solto lá dentro e objetos soltos. E foi uma das experiências mais divertidas da minha vida, exatamente como aconteceu.

?Voz 1

É impressionante. É, para mim foi emocionante não só a história acontecer, mas foi o envolvimento do pessoal da produção. Assim, primeiro a dedicação do Felipe, o preciosismo do Carlos, e todo mundo, até contra regras, ao longo do processo foram lendo o livro e fizeram camisetas especiais. Foi muito bonito.

FBFilipe Bragança

Eu tenho a camiseta que eu vesti em cena de Lüderitz, que é aquela camiseta pretinha.

?Voz 1

Onde acharam essa? Não sei se foi uma foto. Eu não tenho essa camiseta mais.

FBFilipe Bragança

Pois é, mas eu tenho.

?Voz 1

Que legal, hein?

FBFilipe Bragança

E assim, o barco, né, a gente teve essa réplica que a gente usou para fazer essas cenas. E foi nesse barco, né, nessa réplica, que eu quis passar, antes da gente começar as filmagens, eu quis passar uma noite no barco.

?Voz 1

Ah, ele dormiu no barco aqui na Raia Olímpica da USP?

FBFilipe Bragança

Eu queria ter feito isso no oceano, mas a produção falou, bom, a gente, melhor não, né? A gente se preocupa com a sua integridade.

?Voz 1

Mas eu achei isso um troço incrível. Falei, esse cara vai muito longe, né?

FBFilipe Bragança

Porque é porque assim, eu tava muito envolvido. E eu acho que a graça da minha profissão também é isso, né? Se eu vou interpretar um personagem, quero mergulhar naquele universo. Eu falei, cara, eu vou de cabeça nisso aqui. E durante o processo de preparação Então, além, né, das aulas de remo, eu tive que fazer aula de remo, eu tive que aprender a remar, tive que emagrecer um pouco, porque você tava, né, emagreceu bastante durante a viagem.

?Voz 1

Emagreceu bastante, é mais de 10 kg, né?

FBFilipe Bragança

Não, é, eu perdi uns 10 kg.

RVRogério Vilela

Você perdeu durante a viagem também?

FBFilipe Bragança

Perdeu bastante.

?Voz 1

Eu perdi 22.

HHomer

O quê?

?Voz 1

Porque eu tava meio pesadinho antes.

RVRogério Vilela

Quer perder peso? Atravessa o Atlântico remando. Tranquilo, não é um toque para você não, homem.

?Voz 1

Agora, uma das coisas emocionantes assim é o quanto uma obra influencia outras pessoas, impacta. Então tem tanta gente hoje que eu encontro em Paraty e fala, pô, eu li o seu livro e vim morar em Paraty. E é engraçado isso. E para mim, o ápice desse negócio de influenciar aconteceu com a história do Rafael, né? Sim, tem um rapaz, um cara aqui da da Moca, que mora na Nova Zelândia. Ele leu o livro há 4 anos atrás, ficou impressionado com o livro, e sem procurar patrocínio nem fazer barulho na imprensa, não sei o quê, ele construiu uma réplica modernizada do—

FBFilipe Bragança

é bem parecido, né?

?Voz 1

É muito parecida.

FBFilipe Bragança

Até a janelinha ali.

?Voz 1

Eu acho mais bonito o meu porque ele é mais baixinho também, acho.

FBFilipe Bragança

E o seu é vintage.

RVRogério Vilela

Ele também fez a travessia, a mesma travessia.

?Voz 1

Ele saiu do mesmo cais da onde eu saí na Namíbia, em Lüderitz, e chegou em Salvador. E aí, por sorte, essa semana, isso faz uma semana e meia atrás, e aí eu falei, putz, eu esse ano tô com agenda diabólica aí de viagem, não sei o quê. Eu falei, Laura, nós temos 4 dias só, eu vou arriscar de ir nesses 4 dias Mas na pior das hipóteses, se eu não assistir ele chegando, eu vou comer lambreta, que eu sou viciado em lambreta também, aquele marisco.

É bom para caramba, é, só tem na Bahia também, um troço incrível aquilo. E aí a gente foi lá e calhou da gente tá lá no dia que ele chega. Ele ficou super emocionado, deu um gozo, velho.

FBFilipe Bragança

E ele fez quantos dias que era?

?Voz 1

Pois é, essa é a pergunta polêmica. Eu fiz em 100 dias e ele levou 136 dias. Ele demorou 36 dias a mais. Eu acho que foi uma falha dele no projeto de não ter pintado várias demãos de tinta anti-incrustante, e ele nunca quis mergulhar. E então os tubarões se esfregaram muito no barco dele e Cresceu muita craca e ele não tirou as cracas.

RVRogério Vilela

Você tirava?

?Voz 1

Oi?

RVRogério Vilela

Você tirava?

?Voz 1

Eu tirava, mergulhava para tirar, mergulhava para tirar, mergulhava cada 2 dias. É tudo isso durante um mês e não sabia nadar, né? É, não sei nadar.

RVRogério Vilela

Ele, você?

?Voz 1

Ele, eu.

RVRogério Vilela

Como assim?

?Voz 1

Não sei.

RVRogério Vilela

Não, não, não, não, não, não, não, não, essa informação eu não consigo não.

FBFilipe Bragança

É isso aí.

RVRogério Vilela

Você atravessou o Atlântico sem saber nadar?

?Voz 1

Sim, que que adianta saber nadar no meio do Atlântico?

RVRogério Vilela

É verdade, temos um ponto, tem um ponto, é verdade, é verdade.

FBFilipe Bragança

Não, e se arriscava, porque aí tem isso no filme também, mergulha para limpar as cracas. Ah, tem, com uma Tupperware cortada, ele nem tinha, você não tinha espátula?

?Voz 1

Eu tinha uma espátula, uma espátula de metal, era ruim. A espátula de metal ia tirar mais tinta e ia crescer mais craca. Então eu tive que inventar com uma tampa de Tupperware uma espécie de espátula redonda que derrubava os mariscos sem raspar a tinta. Isso demorou muitos dias para aperfeiçoar.

RVRogério Vilela

Se não fizesse isso, ia atrasar.

?Voz 1

Ah, eu não ia chegar em 100 dias.

FBFilipe Bragança

E sem saber nadar e com tubarão rondando o barco também.

RVRogério Vilela

Algum tubarão chegou a aproximar de você quando você tava mergulhando?

?Voz 1

Eu fazia umas brincadeiras que eu seria severamente punido hoje, mas eles passavam, eu tava centímetros do lado, eu gostava de pegar na barbatana do desgraçado.

RVRogério Vilela

Ah, que legal, que legal! Mas aí um dele leva para longe, ele não sabe nadar, e o tubarão assim, ó.

FBFilipe Bragança

Mas e aí os cara lá em Luda, ele disputa porque vão ter que gastar uma grana para resgatar. Não era para deixar isso aí.

?Voz 1

Mas é muito legal pertencer a um contexto ambiental assim, é muito rico. Porque, por exemplo, depois eu fui aprendendo quando eu tinha que mergulhar, quando estavam os dourados. Eu tive quase 14 dourados que fizeram 90% da viagem junto comigo, pô, acompanhando, acompanhando. Eu parava de remar, eles ficavam dando voltas. Inclusive Alcebiades, é, inclusive o Alcebiades.

FBFilipe Bragança

Nossa, é o nome que ele deu para um dos peixes.

?Voz 1

É, outro dia eu falei errado o nome. Eu vi essa caveira aqui e aí eu lembrei que eu tinha um amigo que tinha um Fusca, e o sonho dele era tirar todos os botões do Fusca e colocar falangetas, falangetas de um cadáver qualquer. E aí um dia ligaram para a gente, caiu o muro do Cemitério da Consolação e apareceram ossos. Aí ele foi lá às 3 da manhã na chuva Chegou lá, não achou nenhuma mão humana com falangetas, ficou com vergonha de voltar para casa sem nada.

E ele achou um crânio, mas não era que nem o crânio de Hamlet, branco, limpinho, bonitinho, com os dentes. Não, era um crânio podre, né? Já é verde, marrom, assim, com alguns pedaços de cabelo ainda colado. Aí foi uma briga na casa dele. No final, a menina que trabalhava lá pediu as contas, ele deu para outro amigo. No final, eu ganhei esse crânio de presente, batizei ele de Abdias. Eu morei com Abdias, limpou, né, o crânio, tirou o cabelo, tudo.

Não, eu guardava ele numa bolsinha meio militar assim, uma bolsinha verde militar. E aí um dia jogar futebol com ele. Aí um dia eu trouxe o Ken para o Abdias para São Paulo e a minha mãe tinha saído, foi na feira comprar alguma coisa e esqueceu os óculos. Ela esqueceu os óculos. Falei, putz, a mãe foi na feira sem os óculos, ela precisava usar óculos. E eu tava com a bolsinha, com a casinha do Abdias. E aí eu botei o Abdias bem no meio da mesa assim, fiquei com os óculos da minha mãe, vesti os óculos na caveira, no Abdias.

É um óculos, aliás, parecido com o seu. E aí eu fiquei sentado na mesa olhando, achando graça do Abdias. Aí minha mãe abre a porta, entra e fala, ah, Mir, puxa vida, você viu onde ficaram meus óculos? Eu falei, aqui, mãe. Ela fez assim.

RVRogério Vilela

Caraca, cara, não confundir com Alcê, Alcê Bias.

FBFilipe Bragança

Alcê Bias é a caveira.

?Voz 1

É a bieza. Eu confundo. Ela caiu no chão, bateu a cabeça no chão, fez tuc.

FBFilipe Bragança

É porque não é uma coisa que você vê todo dia, ainda mais que você não teve nem a delicadeza de limpar a lavar o abdômen, dá um banho no abdômen.

?Voz 1

Era, era um, eu acostumei com ele.

FBFilipe Bragança

É, não, a gente se acostuma com tudo da vida.

?Voz 1

Depois eu descobri um amigo médico também, falou, mira, isso aí, o crânio é de mulher e o maxilar é de homem. Nossa, o teu amigo lá pegou aleatoriamente e encaixou, e encaixou, e encaixou. O abdômen era prognata, né? Ele tinha um queixo muito grande.

FBFilipe Bragança

Meu Deus, agora eu já quero fazer o filme desse negócio. Quero fazer a história do Abdias.

RVRogério Vilela

A gente tava falando dos peixes, do dourado, tubarão.

FBFilipe Bragança

É, sim, temos tubarões, temos peixes, temos baleias, temos tempestades.

RVRogério Vilela

Tem tubarão no peixe?

FBFilipe Bragança

Tem tubarão no peixe no filme.

?Voz 1

Cara, o filme é uma... São cenas muito bem construídas.

FBFilipe Bragança

E é uma adaptação muito completa da viagem. E assim, o livro, Os 100 Dias Entre Céu e Mar, ele é sobretudo focado na viagem, como se fosse um diário de bordo. Mas o filme traz também memórias de outros momentos da vida. Do Amir para construir o personagem, construir o personagem, para construir a relação dele com a mãe, com o pai, com o irmão. Então o filme ele consegue explorar mais do que só o que o livro traz assim.

?Voz 1

Como é que chama o Fúria?

FBFilipe Bragança

O Fúria é o Duda Manberti.

?Voz 1

Duda Manberti, mas eu conheço Duda Manberti, ele, esse cabelo dele careca foi feito Não, mas ele tava careca já, não é? Nossa, que coisa incrível!

FBFilipe Bragança

Aí tem a Marta Novil, que faz a Flora, João Vitor Silva, que faz o Timur, Felipe Camargo faz o Felipe Camargo.

?Voz 1

Assim, é um cara que eu conheço assim há décadas, né? E eu não reconheci ele como Felipe Camargo no filme, mas vejo nele o meu pai, né?

FBFilipe Bragança

Que também era uma figura, né? Porque a barba e tudo, a roupa. E realmente Felipe Camargo ficou igualzinho assim. Você vê fotos, né, dos dois juntos lado a lado assim, é exatamente igual a caracterização também.

?Voz 1

Tem o Fusca, é, os carros, a moto atrás, sem capacete, sem capacete, mas na época era normal, né?

RVRogério Vilela

Não usava cinto também no carro.

?Voz 1

Que meu pai a vida inteira andou com carrões quando era solteiro.

RVRogério Vilela

Que Kombi que era? Que cor que era?

?Voz 1

Era branca. Branca. E aparece a Kombi também. A gente viajou o Brasil inteiro de Kombi, meu pai arrastando a gente.

FBFilipe Bragança

Não, e isso é interessante também porque eu lembrei agora que eu tive que ir para o filme, eu tinha, então justamente para o filme eu tive tive que tirar a CNH de moto também. Ah, você teve que aprender a remar? Tive que, já sabia pilotar moto, mas tirando, teve que desaprender a nadar. Ele já sabia nadar, eu sabia nadar, ele não sabia remar.

RVRogério Vilela

Aprendeu a nadar, ao contrário.

FBFilipe Bragança

Mas é, não, o filme é uma superprodução assim, cara, realmente muito, muito impressionante. E ver isso sendo feito no Brasil dá muito orgulho assim.

?Voz 1

Que você tem, cara, porque voltar, ver o filme pronto, a qualidade da equipe de produção também, assim, imagina a emoção para você, né, tipo, voltar a essa época, relembrar, né, através de atores. Que eu achei mais bacana mesmo foi o que eu falei assim, eu acho que dá um resultado muito diferente quando o pessoal emocionalmente tá envolvido. Então eu achei engraçado, né, o cara da da van, por exemplo, contando que leu o livro, que não conhecia a história. Tem uma geração ou duas no meio desse período que não sabe.

FBFilipe Bragança

É isso que eu ia dizer. Eu acho que o filme também tem um pouco esse propósito de passar a história adiante, né? Porque, por exemplo, a minha geração, muitas pessoas que eu conheço, né, amigos, uma galera mais jovem, cara, nem sabe que o Amir fez isso, nem sabe contar essa história. E para mim é uma história extraordinária, assim, eu acho que é folclórico, entendeu?

RVRogério Vilela

Sabem que ele formou aura, né?

FBFilipe Bragança

Bastante aura no oceano, entendeu?

?Voz 1

Como é que chama a rua onde a gente tá aqui? Ou não pode falar?

RVRogério Vilela

Não pode falar.

?Voz 1

Mas você sabe que você tem um vizinho aqui que a gente fez até um filme sobre ele, é que a gente fez, gravou um desses videozinhos sobre madeiras. Eu sempre gosto, eu faço barcos em alumínio, mas eu gosto dentro de pôr muita madeira. E que é o Hélio Olga, que é um arquiteto que tem um processo de construção de madeira. Ele tem uma casa aqui que tem acho que 6 andares, sei, sei, de madeira, tudo em balanço, bonita para caramba.

Que era uma pirambeira, era um terreno onde jogava um túnel. Sim, sim, comprou por nada, ninguém queria o terreno. E ele fez só 4 sapatas embaixo e a casa cresce para o céu. Aquele arquiteto Marcos Acaiaba, que é um projeto lindo, de Moer.

RVRogério Vilela

Ele mora ainda na casa ou ele só construiu?

?Voz 1

Não, ele mora na casa. Eu vim visitar ele aqui, demais.

RVRogério Vilela

Eu queria conhecer essa casa por dentro, que ela é tão bonita por fora.

?Voz 1

Vale a pena. E esse Marcos Acaiaba, por causa desse projeto que já tem quase 40 anos, ele se especializou em fazer casas em pirambeiras sem tocar no terreno, ou em lugares de mata onde não pode cortar nada, nem palmito. E ele faz as casas todas em balanço assim, é uma coisa, cada casa é como se fosse uma árvore, zero de desperdício. Ele tem uma fábrica de madeira hoje, então ele pega um projeto de um, sei lá, de um Isaiah Weinfeld, e ele transforma o projeto para linguagem industrial da fábrica dele, manda a casa em pedaços sequenciados já numerados.

É um troço maravilhoso. Não tem nada em construção que iguala um impacto em carbono do que essa técnica. É o futuro, talvez.

RVRogério Vilela

É muito alumínio no barco, né?

?Voz 1

É, eu aprendi com os franceses. Então eles usaram antes que os americanos, porque o alumínio em baixa temperatura ele é mais fluido. Então você bate numa pedra e ele amassa, mas não rasga. O aço rasga. E aí eu contei, é mais leve, não é mais leve, porque você pode trabalhar com uma espessura maior. Então se eu fosse fazer um casco de 4mm em aço, em alumínio faria com 12. E aí fica mecanicamente mais forte do que o aço.

RVRogério Vilela

E peso 12 para 4.

?Voz 1

Eu falei do Breno Silveira, ele fez um documentário sobre uma das viagens que eu fiz, chama, muito bonito aliás, chama Mar Sem Fim. E a Marina conseguiu botar ele num navio norueguês para filmar o final da minha viagem, porque no começo eu não rolou a grana para fazer.

FBFilipe Bragança

Aliás, é interessante porque eu assisti esse documentário entre várias outras coisas, entrevistas e enfim, todo o material para poder estudar o universo e estudar o próprio Amir. E eu trabalhei com o Breno Silveira, a gente fez uma série juntos, né, uma série chamada Dom. Ele dirigiu essa série, eu tinha 18 anos de idade quando eu trabalhei com ele, e eu achei muito engraçado, né, porque era um grande amigo, né, se foi, nos deixou um tempo atrás.

E eu achei curioso, né, porque trabalhei com ele, ele fez esse documentário sobre você, em algum momento ia dirigir o filme também. Mas é curioso como o universo às vezes faz as coisas se juntarem assim, né?

?Voz 1

E aí o Breno tava em Paraty e ele tava entrevistando um cara que dá um depoimento no Mar Sem Fim. Tem o Thierry, que foi o cara que construiu os meus barcos. Tem o Fábio Tosi, que é um médico totalmente doido e o ser humano mais engraçado que eu conheço. E tinha um editor de uma revista americana chamada Sail, é o Bill Williamson, que é um jornalista super famoso nos Estados Unidos, não sei o quê. E eles dão, ele dá um depoimento.

E aí o Breno levou esse americano para lá e o americano pediu se podia voltar. A gente foi até Ponta da Joatinga, o americano pediu para vir no meu barco porque eu tava sozinho com o veleiro. E aí eu botei o americano sentado na proa do Paraty, com os pezinhos dele na âncora. Quer dizer, ele tava sentado na proa com o braço no guarda-mancebo, no guarda-corpo, bem como se fosse uma carranca do São Francisco. Barco assim, ele tava na ponta máxima do barco.

E aí ele tava dando risada. O Amir é meio louco, ele fica tirando finas quando tem duas pedras. Eu gosto de passar no meio das pedras, todo mundo acha que vai bater, que vai bater, que vai bater. E eu tava cansado porque o Breno levou horas para fazer uma ceninha, e eu tava voltando para Paraty, tava quase escurecendo. E aí eu resolvi fazer um café. Esses cafés meus são muito perigosos, eu imagino. Eu resolvi fazer um café para o americano e ele tava todo feliz assim na ponta extrema do barco.

E aí deu um problema na cafeteira, sabe aquelas cafeteiras italianas de rosca, não sei o quê? Deu um problema na cafeteira. Eu gosto de consertar, só que eu fiquei mexendo, esqueci que eu tinha botado o barco no piloto Automático na entrada de Paraty, entre a Ponta Grossa e a Ilha do Mantimento. De repente, um monte de folhas caindo, e o americano bateu numa árvore. Eu bati nas pedras, o barco subiu nas pedras e entrou na floresta.

HHomer

O quê?

?Voz 1

Quebrou uma árvore onde tava o americano, e o americano tava em cima da árvore em pânico. Tremendo, cara.

RVRogério Vilela

Não faz mais café não, cara.

?Voz 1

Ele achou que ia morrer, coitado. Ele tava todo cheio de folha, galho. Eu muito preocupado, se machucou. E aí eu contei para Laura, me deu uma calma, né? Falei, putz, tudo tem um fim um dia, né? Aí eu fui lá, puxei o americano para dentro do barco, deixei ele deitado no convés porque ele não parava de E aí entrei no barco, sentei no chão, abri o paineiro e cruzei as pernas e falei, bom, agora eu vou assistir o meu barco afundar.

Nossa, é, nas horas de pânico eu fico, não sei por quê, extremamente calmo. E o americano gemeu e não tinha o que fazer, amassou o casco. Bem, mas não rasgou nenhum barco que eu colei.

FBFilipe Bragança

Não rasgou.

?Voz 1

Então assim foi a história.

RVRogério Vilela

Ia afundar mesmo assim? Ia afundar mesmo assim sem rasgar?

FBFilipe Bragança

Não, não afundou, né?

?Voz 1

Mas eu achei que fosse afundar o barco. Então eu acalmei, falei: bom, adorei esse barco, deixa eu me despedir dele. Me proporcionou nada. E o americano falou: esse cara é louco.

FBFilipe Bragança

Não, mas você é Você é meio doidinho mesmo.

?Voz 1

E outra história que eu contei para Laura nessa série que ela faz dos objetos, os objetos contam. Eu encontrei um vizinho de Paraty que é bem chatinho, né? Ele morreu num acidente de avião e ele era amigo do— ele é casado com uma mulher muito rica e ele era amigo do Rei Carlos da Suécia e da Rainha Silvia, que é brasileira. E ele tava com eles em Comandatuba, e eu tinha uma palestra em Comandatuba. E ele me encontra no café da manhã, e ele gosta de contar vantagem.

Olha, o Rei, meu amigo aqui, e me apresentou para o Rei, falou, amigo, você vai ser o meu maninheiro agora. Eu falei, bom, só os dois 2 casais, ele e a mulher, e o rei e a mulher. Tudo bem, tá bom. Ele é chato para caramba, para falar a verdade. E aí eu falei, tá bom, eu vou ser o seu marinheiro. E aí eu saí numa lancha levando eles para passear. O rei é muito engraçado porque eu tinha uma máquina à prova d'água que chama Nikonos, que foi um ícone em fotografia.

FBFilipe Bragança

Era aquela que você usava durante a A viagem? Não, do Atlântico não. Você usava uma câmera? Eu usei uma Ricoh meio vagabunda assim, mas essa é uma das boas fotos, deu boas fotos.

?Voz 1

É, mas eu tô meio fora de foco. E aí o cara todo peito estufado com o rei, não sei o quê, e o rei tinha uma máquina dessas e ele sabia que tem um botão que você aciona e o filme não muda. Ele não queria ficar tirando foto lá, então ele acionou esse botãozinho na Nikon e ficou fingindo, ficou dando risada. Aí a mulher, a rainha, dando risada, sabendo que o Fernando Botelho lá, ele, as fotos dele não iam bater, ia ficar todas no mesmo, no mesmo frame lá, no mesmo frame.

É, e eu tava achando aquilo muito engraçado, não sei o quê. Eu faço uma uma curva naquele canal do mangue que tem entre a Una e a Ilha de Comandatua. Eu errei a curva em alta velocidade, a lancha subiu no mangue e ficou presa em cima de uma árvore a 5 metros do nível da água. O Rei todo cheio de folhas e o Fernando contando vantagem: não, porque o meu amigo é um super navegador. Aí o Rei olhava para mim e falou, Super Navigator?

HHomer

Acho que não.

?Voz 1

Eu destruí a minha reputação. Não, totalmente não.

FBFilipe Bragança

Como navegador, falou da câmera. Eu tenho que te lembrar que você inventou a selfie. Foi você que inventou?

HHomer

Pode ser.

FBFilipe Bragança

Por quê? Porque durante a travessia do Atlântico tem fotos dele, 1984, Segurando aqui para vocês, fazendo. Não sei se alguém fazia, talvez fizesse, mas ele fazendo no meio do oceano.

?Voz 1

Marina fala isso também.

RVRogério Vilela

Que câmera que era?

?Voz 1

Eu acho que era uma F2, uma Nikon F2, que foi a máquina com a qual eu conheci. Eu levei, pô, eu levei 5 rolos de filme só, só. E eu usei no livro, tem, eu usei só 3, sobraram 2 rolos de filme.

RVRogério Vilela

Não tinha tempo para tirar foto.

?Voz 1

É, não sei.

FBFilipe Bragança

E era à prova d'água, né? Porque tem fotos à prova d'água. Ele maluco tirou foto do tubarão debaixo d'água.

RVRogério Vilela

Ah, é?

FBFilipe Bragança

Tirou foto de tartaruga debaixo d'água também.

?Voz 1

Teve uma tartaruga que me acompanhou.

FBFilipe Bragança

Foto de peixe, tá tudo no livro, no 100 Dias Entre Céu e Mar. Eu não sei, tem várias edições, mas a edição que eu tenho tem várias fotos. E a edição mais recente também tem Tem outras fotos.

?Voz 1

Mas é isso, será que não tá muito comprido o nosso programa ainda?

RVRogério Vilela

A ideia é essa, contar toda a história. É, só tem uma hora de programa só. Olha lá, isso aí que eu tô falando, a primeira selfie da história da humanidade. Ó, você viu que legal? Não tá com uma cara muito boa também aí não, hein?

FBFilipe Bragança

Tá meio bravo.

?Voz 1

Consigo rir para máquina fotográfica? Não, todo mundo fala, é, ri!

RVRogério Vilela

Essa é a risada dele.

?Voz 1

Fizeram uma foto, eu tô rindo. Aí recebi um monte de mensagem: ah, finalmente riu!

FBFilipe Bragança

Mas ele é simpático no fundo, Leão.

RVRogério Vilela

Ele é só quando vai tirar foto que ele fica com essa cara aí.

?Voz 1

Até nisso acho que o Felipe foi perfeccionista, porque ele não dá risada muito fácil no filme.

FBFilipe Bragança

Eu sou um cara simpático, sou um cara sorridente, mas no filme eu sou carrancudo igual você.

RVRogério Vilela

Carrancudo!

FBFilipe Bragança

Mas na intimidade ele não é. Ele é um cara simpático.

RVRogério Vilela

Não, estamos vendo aqui, né? Não tem nada de cara antipático, nada de nada.

FBFilipe Bragança

É até engraçado, porque você falou do Magal e tudo mais, são pessoas completamente diferentes, né? Um é um cara extrovertido, Magal é um cara...

RVRogério Vilela

E também tem histórias fantásticas, hein?

FBFilipe Bragança

Tem histórias maravilhosas e o Amir é mais introvertido.

RVRogério Vilela

Só que o Magal é enorme de tamanho, não é? Pelo que eu lembro.

FBFilipe Bragança

É, mas o Amir também é alto. Você tem quanto?

?Voz 1

Eu tinha 1,89m, né?

RVRogério Vilela

Eu tinha. Eu tenho 1,80, o Magalu deve ter mais ou menos por aí, é verdade, porque ele é grande também.

FBFilipe Bragança

Mas a câmera engana, tá tudo certo, ninguém percebe.

?Voz 1

Mas é muito, parabéns, viu, muito talento.

FBFilipe Bragança

Muito obrigado, muito obrigado. Mas é isso, eu acho que o mais legal é, para mim, é estudar as coisas assim, eu sou muito curioso, eu gostei de mergulhar na história do do Amir na história do livro. Eu li o livro e ficava carregando o livro junto comigo no set.

?Voz 1

Ele dança, canta, toca, né, durante o filme.

FBFilipe Bragança

Não, tá atravessando, eu danço, eu danço, tem uma dancinha no filme, tem um momento de dança. Ele tava sozinho no meio do oceano, ele podia fazer o que quisesse. Acho que ele não ia dançar.

RVRogério Vilela

O famoso dançar como se ninguém tá te olhando.

FBFilipe Bragança

Exatamente, exatamente.

RVRogério Vilela

Aos olhos dos tubarões.

FBFilipe Bragança

Mas foi, mas foi muito legal assim, cara, mergulhar assim na história, porque é uma história fascinante. Vocês falaram do sextante, por exemplo, aprender a usar o sextante. Isso foi muito legal também.

?Voz 1

Eu tenho sextante lá em casa também, a sua atitude com sextante, que é, mas eu precisava, sabe?

FBFilipe Bragança

Então, pois é, mas eu pesquisei tudo, eu pesquisei até como é que você segurava o remo, cara, que você tava com a mão machucada, você não segurava o remo com o dedo assim. O que que aconteceu com Tava com a mão machucada.

?Voz 1

Eu tive um acidente, a mão direita durante, não, antes, uns 3 anos antes da viagem, eu tive que fazer um implante da mão, cara.

FBFilipe Bragança

Ou seja, ele não sabia nadar, ele tinha um implante da mão e quis remar o oceano tranquilo.

?Voz 1

Eu perdi a oponência do polegar, era fraca. Eu tenho uma mão de macaco, os dedos não mexem separadamente. O único membro do corpo humano que você não usa para remar é o polegar. É porque você pode puxar, você pode puxar assim, você puxa que nem mão de macaco, que também não tem.

FBFilipe Bragança

Mas você segurava o remo assim, né? Ele segurava com, ele segurava assim, tá vendo?

?Voz 1

Exatamente.

FBFilipe Bragança

Enfim, esses detalhes assim, essas coisinhas que eu ficava pesquisando, esses detalhes eu achei absolutamente, os detalhes eu acho que fazem o filme crescer ainda mais assim, ganhar ainda mais corpo, sabe?

RVRogério Vilela

Ainda tem espaço para aventura na tua vida? Algum desafio?

?Voz 1

Tem, né? Com 3 mulheres em volta o tempo inteiro.

RVRogério Vilela

Esse é o desafio atual.

?Voz 1

É 3, não, 5, né? Tem a sogra, tem a mulher, tem um exército de marinas, né?

RVRogério Vilela

Você esperava que a filha ia seguir o teu caminho ou não?

?Voz 1

Não, não, mas a gente sabia que a Tamara sempre foi atrevida assim. Você dá uma bobeada, ela sobe na rede de alta tensão e tá lá pendurada assim, 13.800 volts.

FBFilipe Bragança

Eu tô agora lendo o Bom Dia Inverno, né? Te mostrei o livro da Tamara, que ela praticamente hiberna no meio do gelo. E fica 8 meses.

?Voz 1

Ela deu muito susto na gente. Por exemplo, quando eu saí do estaleiro, quer dizer, quando meu barco saiu, o Thierry assumiu sozinho o estaleiro. Tinha um terreno, eu tinha um terreno lá em Itapevi que valorizou nesses anos todos. Não valia nada, asfaltaram. Hoje é um lugar extremamente bonito, limpo, organizado. E eu queria vender esse terreno. E aí apareceu uma oferta de um cara, falou, olha, não tem dinheiro, mas eu tenho um apartamento no Guarujá.

Nós fomos no apartamento do Guarujá, era um prédio onde todos os apartamentos eram duplex. E aí o cara fez uma proposta de trocar terreno pelo apartamento, e eu fui com as meninas. E aí a Marina subiu no andar de cima para ver como era o quarto, não sei o quê, e eu fiquei no andar de baixo. Tinha um bruto da terraço E eu não prestei atenção onde tava a Tamara. De repente, o zelador tava assim paralisado, completamente branco. Eu falei, o senhor tá passando bem?

E ele não olhava para mim, ele olhava para trás. E aí eu virei para trás para ver o que tava acontecendo. No terraço do apartamento tinha uma cadeirinha, um degrau. A Tamara subiu no degrau Era sétimo andar, mas na verdade era o 14º andar. Ela tava na mureta, uma mureta desse tamanhinho assim, meio tijolo, mas nem uma mureta de tijolo inteiro, é uma mureta de meio tijolo. Se bobear, de tijolinho em pé ainda. Ela tava em cima da mureta assim, 14 andares. Ela queria fazer a volta no terraço.

FBFilipe Bragança

É, mas não foi por falta de exemplo também, né? Você fazia maluquice, ela cresceu vendo você fazer maluquice, ela quis fazer maluquice, cara.

?Voz 1

Aí, se a Marina tivesse visto, a Tamara teria caído, porque ela ia dar um grito. E aí eu falei para o cara assim, silêncio, e fui andando de costas, fui andando de costas bem devagarinho, bem devagarinho. Quando eu tava a 1 metro de distância, catei ela, botei ela no chão.

FBFilipe Bragança

Meu, ela é doidinha também, ela é doidinha.

?Voz 1

Aí é uma vez, a primeira viagem que a gente foi para Antártica, também tinha crianças de terceiros no meu barco. Eu tava super preocupado porque as crianças histéricas. Tempestade em alta latitude é dia de céu azul, sol limpo, só que pauleira de vento. É, não é, não é mar, não é céu encoberto. E eu não conseguia fazer as crianças entrarem dentro do do barco. Falei, vai cair alguma criança aqui no mar. E aí não sei por que eu catei um menino lá, falei, tá vendo aquela menininha lourinha lá?

Olha, sua filha mais nova. Eu falei, é, eu queria que você soubesse que se ela cair no mar agora, eu não volto para buscar. Você não volta para buscar sua própria filha? Eu falei, claro que não. Mas por quê? Aí as crianças todas arregalaram os olhos assim. Mas por quê? Eu falei, porque eu tenho outras duas, eu não vou sacrificar as que sobraram para salvar uma que morre. Ela morre em 3 minutos na água, tá subzero. Se ela cair na água até eu chegar, até inverter o barco, ligar os motores, vai levar 1 hora e 40 Ela já tá morta há 1 hora e 15, 1 hora e 35 minutos.

As crianças assim não falaram nada, entraram assim imóveis, nunca mais saíram do barco e provavelmente nunca mais entraram na água, né?

FBFilipe Bragança

Ficaram traumatizadas para sempre.

?Voz 1

6 anos depois a gente volta para Antártica com um amigo nosso e a gente tá voltando dessa base que eu mencionei da Ucrânia onde morreram os 3 caras. A gente tá voltando para o barco às 2:30 da noite, todo mundo tomou vinho e não sei o quê. E de repente, antes de chegar no barco, a Tamara levanta, vai se apoiando na cabeça das pessoas no botinho, e ela vai andando, vai andando, e tibum, se atira no meio do gelo. O mar tava coberto de raspadinha de gelo.

Ela desaparece embaixo do gelo. É, ela se atirou de pé no gelo. E aí eu catei ela com tanta força pelo pescoço. Quando ela boiou, o casaco dela tava cheio de gelo, cabelo tava para frente, tudo cheio de gelo. E aí eu sacudi ela no ar, não sei onde eu arrumei força, eu sacudi ela no ar e gritava: você ficou louca, minha filha? Você ficou louca? O que que é isso? Ela falou: pai, eu só queria saber se você ia voltar. Para me buscar. Nossa, era um teste!

FBFilipe Bragança

Olha só, e voltou, passou no teste.

?Voz 1

Ela foi esperta porque a gente tava no botinho, o barco tava parado.

FBFilipe Bragança

Mas também tem uma coisa de vocês dois, vocês gostam do gelo, né? Vocês gostam do frio.

?Voz 1

Ela pulou de propósito, você acredita?

FBFilipe Bragança

Não, claro. Mas então, mas você também fez expedições em lugares muito gelados, com neve, com tudo, né? Água gelada. Vento gelado, tudo.

?Voz 1

Ela também fez os momentos mais perigosos. Eu ainda acho que foram os de café, os cafés, para parar para fazer café.

RVRogério Vilela

Tem um outro momento que você achou que ia morrer, além disso que você falou, que ficou o bote fora?

?Voz 1

Quando eu voltei da circunnavegação, peguei uma tempestade ainda lá no sul, na Convergência Antártica. Soltou a âncora da proa.

RVRogério Vilela

Soltar o quê? Perdeu?

?Voz 1

O mar tava tão ruim E era um mar contrário que o impacto do barco nas ondas afrouxou a corrente que prende a âncora, onde eu quase matei o americano. E a âncora soltou uns 2 metros e ela começou a surfar com a velocidade do barco e batia na água, depois ela subia no ar e caía no convés. E eu não tinha força física para domesticar, e o medo de que a corrente continuasse soltando. Então eu fiquei lutando para tentar agarrar a âncora, e quando ela ia me espetar, eu virava de lado para escapar.

RVRogério Vilela

Mas, ô, amigo, quanto pesa uma âncora dessa?

?Voz 1

É 50 kg, mas tem ponta para tudo que é lado.

FBFilipe Bragança

No filme, enfim, tem uma— não é exatamente uma âncora, mas é como se fosse, parece um saco assim É um, chama drogue. Então é como se fosse uma âncora.

?Voz 1

Isso chama âncora de mar.

FBFilipe Bragança

Isso, exatamente. Que tem uma cena que tem esse negócio. Você falou que só tinha, só tinha, eu lembro de tudo, pode deixar, tá comigo. Mas é porque você falou que tinha âncora que você usou quando chegasse em Salvador, né, na Bahia.

?Voz 1

Enfim, e eu achei que fosse usar muito essas âncoras, mas eu usei muito pouco esses drogues, até porque arrebentou, né? É, eu perdi um drone.

RVRogério Vilela

Mas só para entender, como que terminou essa história? Que a âncora tava indo, batia.

?Voz 1

Eu tive que pensar muito. Eu peguei um pedacinho de corda, passei na corrente e fui trazendo metro a metro para trás até chegar no corpo da âncora. Mas levou isso, levou quase 50 minutos de luta livre mergulhando na onda, um Frio do capeta.

RVRogério Vilela

Ainda não sabia nadar?

?Voz 1

Ainda não sabia nadar.

RVRogério Vilela

Então, e aí?

?Voz 1

E continua não sabendo nadar até hoje. É verdade.

RVRogério Vilela

Tudo bem, ele é o cara dos barcos, é o cara dos barcos, o cara dos barcos.

?Voz 1

É, e não pretendo ter nada a ver com o cara piloto avião.

RVRogério Vilela

Não precisa saber voar também, né?

FBFilipe Bragança

Entendeu?

RVRogério Vilela

Ele bater, tem um aparelho que voa para ele, tá?

FBFilipe Bragança

A ideia é essa.

RVRogério Vilela

É só barco tua paixão ou também tem avião, carro?

?Voz 1

Não, não, eu não ligo para carro, essas coisas. Mas durante um bom tempo minha paixão foram as geodésicas, estruturas geodésicas, que eu acabei construindo várias geodésicas grandes.

RVRogério Vilela

Onde?

?Voz 1

A gente acabou arrumando um terreno vizinho de casa que é quadrado. E lá eu consegui fazer geodésicas com até 18 metros de diâmetro.

RVRogério Vilela

Que material?

?Voz 1

Tubos de alumínio. Eu tenho um amigo que faz parafusos especiais, e aí a gente pega as horas ociosas dele e usinamos os terminais. E eu aprendi a estudar a matemática do Fuller.

RVRogério Vilela

Será que acha essas estruturas para ver? Elas são de vidro por fora? Como que são?

?Voz 1

Eu nunca cobri elas.

RVRogério Vilela

Não?

?Voz 1

Eu tenho uma grande agora de 15 metros lá em Paraty, que a gente pôs só uma cobertura plástica, né, uma lona, que é para poder usar com chuva, fazer churrasco dentro.

RVRogério Vilela

Quando não tem chuva, então fica tudo aberto.

?Voz 1

Só que eu faço geodésicas em alta frequência, onde os triângulos são menores, tá bem pequenos, e aí dá para escalar. Dá para escalar essas geodésicas, e eu fiz várias geodésicas.

RVRogério Vilela

Várias. Será que tem alguma para a gente mostrar isso? Tem, tem. Ah tá, a gente vai pegar foto.

?Voz 1

Tem aquela que tá com barco, uma delas eu pendurei o barquinho a remo quando ele tava em São Paulo uma vez.

FBFilipe Bragança

Ah sim, tô ligado.

?Voz 1

Eu acho que eu pendurei o seu barco, eu pendurei ela, deve ser a 12 metros de altura, deve ser porque o barco original tá lá em Paraty, né, desde sempre. E aí os vizinhos ficavam Mas o que que é isto? Aquelas vizinhas chatas, sabe? Mas isso é um bairro residencial, não pode uma estrutura alienígena dessa. O que vai ser? Vai ser uma coisa.

FBFilipe Bragança

Esse é o seu?

?Voz 1

É, aqui tem duas geodésicas, uma dentro da outra. A de cima é uma de frequência, acho que 8, é frequência 8, e a de baixo é de frequência 3.

RVRogério Vilela

3, 3 o quê?

?Voz 1

É uma subdivisão do tetraedro, que é uma maneira de se identificar o tipo de—

RVRogério Vilela

entendi.

?Voz 1

E sempre, eu não é barato fazer isso, eu faço meio no ímpeto, e sempre aparece um louco que compra e eu consigo ganhar uma graninha. Hotel assim, mas ele era, será Aquela de vidro, tem tipo Airbnb que os cara faz geodésica.

FBFilipe Bragança

Caraca, maneiro!

?Voz 1

Mas normalmente eles fazem frequência 3 ou 4, que é super. De frequência 8 é mais raro, é porque tem 3.500 peças de tamanhos diferentes, diferenças de milímetros.

RVRogério Vilela

Ah, não é?

?Voz 1

Não são as peças todas iguais. Então é um desafio matemático de cálculo. E técnico de montar. E aí a gente montou uma geodésica dessas na OCA no Ibirapuera. Aquele Marcelo Dantas, que é um super brasileiro, curador de mega exposições pelo mundo, né? Ele falou, pô, amigo, vamos montar uma geodésica do Buckminster Fuller. Você faz a geodésica em homenagem à obra na OCA. Aí eu fui lá com uma trena eletrônica, falei, desgraçado Niemeyer, encheu de colunas, não pode ter colunas numa estrutura geodésica que é a oca.

E aí eu falei, vai cabeça geodésica por 3 centímetros, não mais que entre as colunas, entre as colunas. É, o espaço parece amplo, mas com as colunas mata. E eu não queria interromper a geodésica. E a gente montou a geodésica, que foi um sucesso. Foram acho que 4 meses de exposição e entraram dentro da geodésica acho que 3 mil— não, esqueci agora. Entraram acho que 140 mil pessoas. Que isso, cara! É, eu fiz uma geodésica, como chama, que você pode tocar nela.

Porque eu tinha ido naquela exposição da Arte Basel lá na Suíça, e o motorista convidou a gente para ir conhecer. Eu botei a mão numa escultura de arte moderna e tomei um tapa da pentelha suíça lá de malcriado. Não podia encostar. E aí eu fiz uma foto da plaquinha, porque ela me arrastou até a placa e falou, você sabe ler? Can you read? E aí eu fotografei a placa, do not touch or step the installation, sabe? Dura. E quando eu montei na Oca, fez questão de uma que pudesse tocar.

Linda que é, é linda. Quando eu montei na Oca, eu mandei fazer uma plaquinha de acrílico e coloquei na entrada. Falei, por favor, toque e escale. E aí meu advogado foi no dia da inauguração da exposição, falou, você ficou louco, vai cair alguém aqui, vai ser processado, o cara vai cair no concreto do Niemeyer.

RVRogério Vilela

Olha que linda, é muito maneira, cara. A gente só tinha 2 dias para montar, aí essas colunas matam mesmo a Toda, olha que legal.

?Voz 1

É claro, o legal é justamente, eu coloquei uma balança que fez muito sucesso, porque quando você balança pendurado a 14 metros de altura, 15 metros de altura, é uma sensação diferente. Parece o pêndulo de Foucault, você sente o vento. E no dia da inauguração tinha uma artista maluca lá que implorou para a gente balançar ela. E ela era muito bonita, com vestido super transparente, não sei o quê. E eu comecei a balançar ela com violência, fazendo um raio cada vez maior, amplitude do balanço.

E ela ficou louca porque ela virava para trás, a saia dela subia, todo mundo dava risada, calcinha roxa.

RVRogério Vilela

Mas não caiu de lá?

?Voz 1

Não. Não, mas ela ficou quase uma hora balançando. Depois eu balancei o Rui, o Ricardo Ohtake, o irmão do Rui Ohtake. Imagina, um cara de 90 anos, ele ficou meia hora. E aí o Corpo de Bombeiros exigiu que a gente colocasse um contador para contar todas as pessoas que iam balançar, mas que entrassem dentro da Geodésia, porque eles tinham medo que ou que a pessoa que balançasse caísse ou que batesse em alguém que entrasse. E entraram 140 mil pessoas em 4 meses, que foi bem divertido. E aí apareceu um cara louco e aí comprou.

FBFilipe Bragança

Então não tem mais, não tem, porque eu fiquei louco para balançar também.

?Voz 1

Comprei, tá aqui no meu quintal aí, tá em Vespasiano, lá entre o aeroporto e a cidade de BH. Tem um parque industrial lá de um cara, Pardini, eu acho. Tem um mega laboratório, ele tem uma coleção de arte contemporânea.

FBFilipe Bragança

Eu acho impressionante como você lembra o nome das pessoas, cara. Eu não lembro o nome de ninguém.

?Voz 1

É gigantesco. E hoje eu vejo ela no Google. Na foto do Google, você vai aproximando o endereço dela, aí eu falo, ela tá lá ainda. E às vezes eu tenho que ir para lá para trocar a fixação do balanço.

FBFilipe Bragança

Você tem que fazer isso?

?Voz 1

Eu gosto de fazer.

FBFilipe Bragança

Ah, você gosta de fazer? Você tem carinho pela—

?Voz 1

é, o pessoal de segurança deles, meu Deus, né?

FBFilipe Bragança

Você fez o negócio?

?Voz 1

Porque eu subo sem cinto de segurança. E cair de 14 metros de altura não é agradável.

FBFilipe Bragança

Ele é imprudente.

RVRogério Vilela

Você tem necessidade ainda hoje de fazer algumas coisas, de ficar um tempo solitário, assim, quieto, ou não passou já? Eu gostaria, mas não tem mais.

?Voz 1

Não, não tenho necessidade, mas às vezes é bom ficar.

RVRogério Vilela

Vai para um canto e fica sozinho para pensar, ter ideia.

?Voz 1

É, eu gosto, eu gosto de desenhar às vezes.

RVRogério Vilela

Desenhar projetos? Ainda faz?

?Voz 1

Eu comecei a desenhar projetos técnicos, né, com esses programas SketchUp, AutoCAD, não sei o quê. Agora eu tô destreinado.

RVRogério Vilela

Mas não só de barcos, de estruturas?

?Voz 1

É mesmo? Então, por exemplo, tem uma casa, uma escada bem complexa.

RVRogério Vilela

É um foguete que vai projetar?

?Voz 1

Não, mas quem fez o projeto da escada, um projeto super que mistura vidro, madeira. Eu fiz, e aí um croqui, e a partir daí fiz um croqui hiper preciso. E o marceneiro que ajudou a montar ela ficou impressionado porque as peças encaixavam milimetricamente assim, sabe? Ele não teve que serrar nada, cortar nada. É linda demais essa.

RVRogério Vilela

Já tá pronta ela?

?Voz 1

Já tá. Há anos.

RVRogério Vilela

Amigo, vou ver a pergunta do pessoal, né, que o povo quer saber aí.

HHomer

Então vamos lá, a primeira pergunta aqui fizeram para o Amir, foi a Lucimara Ferraz. Ela perguntou o seguinte: você já enfrentou tempestade, barco virando, meses preso no gelo, mas parece que seu maior medo nunca foi exatamente morrer. O que realmente te assusta quando você você tá numa situação em que sua vida depende de uma decisão sua.

?Voz 1

O que mais me assusta é não fazer, é o não acontecer. É muito triste quando você tem um projeto que não se concretiza, né? É muito triste. Eu acho que isso na sua seara aí no cinema é muito comum, é muito comum.

RVRogério Vilela

Coloca todo esforço e o negócio não vai para frente.

FBFilipe Bragança

E às vezes demora muito, né? O barco mesmo, né? Enfim, todos os barcos que você fez é um processo muito longo de construir o barco, trabalhoso. A gente também, você viu, a ideia desde a concepção do filme até a realização, até o lançamento, são anos, bicho.

?Voz 1

É, são anos. O cinema é uma indústria lenta, de um processo lento que exige muita paciência, tem muita angústia. Eu até brinquei em casa um dia desse, falei, pô, Eu tô com vontade de escrever um livro. Tinha tudo para dar errado, só que deu certo.

RVRogério Vilela

É muito bom, muito bom.

?Voz 1

Então eu tive na África, tive problemas horrendos, né, horrendos.

RVRogério Vilela

Meu, tinha muita coisa para dar errado, né?

?Voz 1

Burocracia.

FBFilipe Bragança

Eu queria que tivesse essa parte no filme. Só acho que falta, só acho que falta isso, que é a burocracia chatice de antes de fazer a viagem.

?Voz 1

E eu fiquei, acabei ficando amigo, era um navio argentino que levou o meu container para África, e eu acabei ficando amigo não dos oficiais. Eu dormia no andar dos oficiais, na cabine do prático, mas eu almoçava e jantava com o pessoal de convés, pessoal mais simplão assim, que era um pessoal muito carinhoso assim, e Quando eu cheguei em Cape Town, eu descobri que a empresa que ia fazer os trâmites aduaneiros não fez nada e eu não tinha um documento do barco.

E aí a tripulação do navio ficou sabendo e eles falaram, brasileiro, você vai perder o barco se passar daquele portão, você tá na área alfandegada, você vai perder o barco. E aí eles me ajudaram de um jeito que não dá para acreditar, porque eu não tinha dinheiro para pagar um hotel e eu tava dormindo no navio. O navio ia ficar 7, 8 dias em Cape Town. E aí os tripulantes mais básicos de convés descobriram que tinha um navio sul-africano chamado Oranje Mundo que ia para a cidade de Lüderitz, onde ia começar a travessia.

Ele falou: Amir, nós vamos conversar com os estivadores aqui para não colocarem o seu barco na área alfandegada. Se entrar, não sai sem documento, não sai. Porque aí você tem que negociar com o comandante desse navio, um naviozinho menorzinho, e pôr o container em cima do naviozinho. E eles me apresentaram o comandante. O comandante foi tão solícito que não é, não era para ser uma coisa barata isso. Ele não cobrou para levar o container.

Eles botaram o container e eu cheguei com esse container em Lüderitz, que era 3, 4 dias de viagem, porque esse navio vai, faz cabotagem de curta e média distância, né? E foi muito emocionante a despedida, porque os cara, quando eu finalmente botei o container em cima do naviozinho menor, os cara choravam, eles ficaram emocionados. Força, você vai conseguir, você vai acontecer, vai acontecer. Aí cheguei em Lúderitz, Saipumba, o container foi apreendido pelo capitão dos portos e ele falou explicitamente: do meu porto você não sai.

E aí criou um movimento das pessoas da cidade que foram ficando amigas, né, que a maioria deles está vivo, né, O Rafael conheceu vários deles.

FBFilipe Bragança

Ah, que legal! É porque ele fez exatamente igual, né?

?Voz 1

Os mesmos caras, tudo velhinho, né? E aí essas pessoas, o Gunter, o Guerra, Marion, o Crispin Clay, eles começaram a convencer o capitão dos portos a liberar o barco no container. E eles, para dar uma certa autoridade, eu tinha carteirinha vagabunda de capitão amador. E eu mostrei essa carteirinha um dia no porto, e aí eles me chamavam só de Capitão Klink, Capitão Klink. E até hoje eu sou conhecido lá como o Capitão Klink.

FBFilipe Bragança

Você foi para lá agora, não foi?

?Voz 1

Fui, fui, foi muito divertido. É muito vontade, é um lindíssimo país.

FBFilipe Bragança

Lá a gente não filmou, infelizmente.

?Voz 1

Se quiser pegar umas dicas com a marina, ela tá super craque, porque tem lugares lá impressionantes.

FBFilipe Bragança

Eu tenho vontade de ir para África, é um outro mundo.

?Voz 1

A Namíbia hoje vira um país super próspero e eu adorei retornar para lá.

FBFilipe Bragança

Que legal, cara.

HHomer

A Bruna Sales fez uma pergunta para o Felipe. Ela perguntou o seguinte: você perdeu mais de 10 kg, treinou remo, estudou navegação, mudou alimentação e passou por períodos de isolamento. Depois que as filmagens acabaram, quanto tempo seu corpo e sua cabeça levaram para voltar ao normal?

FBFilipe Bragança

Boa pergunta, porque o corpo, não, o corpo realmente demorou um pouco para voltar ao normal, cara. É doido, né? Porque eu tive que perder muito peso muito rápido, então eu fiz uma dieta muito restritiva e tal. Eu não sei se vocês já fizeram dieta, já, para perder peso. Ou para ganhar?

RVRogério Vilela

Para perder.

FBFilipe Bragança

Para perder. Porque fazer uma dieta é uma chatice, é difícil. Seu corpo não entende exatamente o que que tá acontecendo, ainda mais dependendo do quão restritiva é a dieta, né? E no meu caso foi uma dieta bem restritiva, algo com que eu não tava acostumado. Já tinha feito o contrário, já tinha feito dieta para ganhar massa muscular, inclusive para um outro personagem também. E aí eu acho que o meu corpo é meio que deu uma pane assim em algum momento, porque é isso, você não pode comer o que você quer.

E eu tava ainda fazendo atividade, tava correndo, não sei o quê, para poder perder peso. Eu acho que meu corpo meio que entrou no modo meio sobrevivência assim, sabe? Tipo, esse cara deve estar passando fome, ele deve estar numa situação de risco assim, sei lá. Então quando o filme acabou, que eu voltei ao normal, Eu tava até com meus hormônios meio desregulados assim, sabe?

?Voz 1

Quer dizer, você perdeu muito peso em muito pouco tempo.

FBFilipe Bragança

Então eu acho que meu corpo não entendeu. Assim, tudo certo, nada grave, sabe? Mas eu acho que meu corpo demorou um pouco para poder voltar ao normal, os hormônios até regular de novo assim. Acho que demorou um pouco para voltar ao normal. E eu acho que é o tipo de experiência, na verdade, fazer um filme como esse é o tipo de experiência que fica pro resto da vida. Então eu não consigo dizer assim emocionalmente, psicologicamente, se demorou muito tempo, sabe, pra voltar, porque eu sinto que a experiência ainda tá comigo, sabe?

Eu ainda tô refletindo sobre tudo assim, e ainda é uma experiência que me atravessa assim. Então fisicamente demorou um pouco, hoje eu já voltei ao normal. Deve ter demorado uns 3, 4 meses, vai, para voltar totalmente ao normal assim, do jeito que eu me sinto bem. Mas a experiência emocionalmente ainda me atravessa, ainda mais agora, né, que a gente tá lançando o filme. Aí volta tudo e a gente revisita as memórias e as emoções.

?Voz 1

Você vai no lançamento lá do Rio?

FBFilipe Bragança

Vou, vou, vou, vou, claro, com certeza. Com certeza. Tô louco para, tô louco para, porque as pessoas vejam o filme, porque as pessoas vivam essa experiência também.

RVRogério Vilela

Vou ver no cinema e vou contar aqui depois. Fala, Romer.

HHomer

Vamos lá, pergunta do PH Santana para o Amir. Ele perguntou o seguinte: você passou muito tempo procurando lugares onde quase ninguém conseguia viver e ao mesmo tempo construir uma família, filhos, trabalho. O isolamento virou uma necessidade para você ou ele servia justamente para você voltar para a vida normal?

?Voz 1

O isolamento era uma espécie de alívio. Você soubesse a quantidade de amigo chato que eu tinha. Então, mas eu gosto de ficar isolado. Eu acho que a Tamara herdou isso também. Ela também gosta de ficar quietinha num canto.

FBFilipe Bragança

Cara, eu gosto também, sabia? Eu acho que isso contribuiu muito muito para experiência que eu tive fazendo filme assim, porque eu gosto de ficar sozinho também, sempre gostei. E até para preparação do filme, né, como eu tava fazendo dieta, estudando, não sei o quê, pô, não podia sair para comer, não podia sair para beber uma cerveja, não podia fazer nada. Então eu acabei ficando muito em casa. Não me isolei durante 100 dias e fiquei 100 dias sem ver ninguém, mas eu acabei ficando muito em casa. Quem já fez esse É, já foi, é, foi um test drive ali, mas eu gosto.

RVRogério Vilela

A pandemia, ele falou o quê? Ficar isolado? Tranquilo.

?Voz 1

Nossa, para! Quanta gente me perguntou isso, não é?

RVRogério Vilela

Como que é? Fala, cara, vem comigo aqui, eu vou te contar como que é.

?Voz 1

Eu tenho até hoje a carta náutica que eu usei.

RVRogério Vilela

Você tava onde na pandemia?

?Voz 1

Eu tava em São Paulo.

RVRogério Vilela

Aqui?

?Voz 1

Fiquei em São Paulo. E quando eu comprei essa carta na África Eu olhava para carta, tive que dobrar ela, e dobrei a dobra exatamente na metade do Atlântico. E aí eu ficava me perguntando, meu Deus, e quando eu passar da dobra aqui? Esse vai ser o dia mais isolado da minha vida, sozinho geograficamente, bem no meio do Atlântico. E quando eu cruzei de verdade a dobra, eu pensava, era Santa Helena.

FBFilipe Bragança

Era, devia passar bem em cima, um pouquinho para frente de Santa Helena.

?Voz 1

E no dia em que eu tava navegando na dobra de verdade, eu falei, nossa, eu nunca tive tão perto dos amigos que eu tenho dos dois lados do Atlântico, porque eu tava no meio, exatamente, distante deles.

RVRogério Vilela

Que legal, incrível!

?Voz 1

Porque se eu tivesse no Brasil, estaria longe dos amigos que eu deixei na África.

FBFilipe Bragança

Aliás, eu tenho essa, eu tenho a carta em casa, a carta que a gente usou no filme. É, eu peguei para mim e moldurei, tá lá.

RVRogério Vilela

Ah, é?

?Voz 1

Tá com você a carta?

FBFilipe Bragança

É comigo, é que a gente usou no filme, né? Nossa, é muito legal.

RVRogério Vilela

Que legal, amigo. Queria agradecer demais o papo, cara. A gente falou pouquinho aqui, uma hora, né? Deu uma hora e dois, né?

HHomer

Você viu?

RVRogério Vilela

Não fala para ele quanto é o tempo. É praticamente uma travessia de Atlântica.

?Voz 1

Tá doendo a bunda aqui.

RVRogério Vilela

100 dias no Inteligência, né? Mas a gente sempre termina o papo com 3 perguntas para todos os convidados. Contigo não vai ser diferente. Então agradecer demais. Era uma conversa que eu tava querendo ter desde o primeiro dia do Inteligência, porque eu conheço a tua história, o teu livro. E cara, ver você contando as histórias aqui é muito diferente, né? Ele contando os detalhes e com humor, com ironia, é muito legal. Então agradecer demais.

?Voz 1

Eu que agradeço.

RVRogério Vilela

Muito bacana o seu programa A primeira pergunta, Mira, é o seguinte: qual foi o momento mais difícil da tua vida ou da tua carreira? Não sei se já contou aqui esse momento ou se foi outro. Qual foi o momento mais difícil para você?

?Voz 1

Eu nunca falei sobre isso para ninguém, mas um momento difícil foi quando eu tava entusiasmado com o processo de fazer o barco. Eu tava de carona como tripulante de um veleiro francês saindo da Antártica, que era o veleiro que eu estava construindo. Depois eu vi que não, o projeto não era bom, resolvi trocar. Mas eu tava no auge do entusiasmo, o projeto começando a querer andar, e eu fui tripulante de um veleiro que era um casal francês, o Patrick e a Gabi, chama Rapanui, esse veleiro, e E eu tive um acidente exatamente nesse lugar onde eu lutei com a âncora entre as Falklands e a Geórgia do Sul.

RVRogério Vilela

É um lugar mais perigoso assim mesmo?

?Voz 1

Ali sempre é perigoso, tem as frotas de pesqueiros chineses, né, que é um negócio horroroso também. E a gente tava manobrando uma vela, só estávamos 3 no barco, eu e o casal francês, e manobrando uma vela, e de repente uma onda passa por cima do barco e eu caio de costas no mar.

RVRogério Vilela

No mar?

?Voz 1

No mar. A gente tava andando rápido.

RVRogério Vilela

E de que altura?

?Voz 1

Ah, isso bem lá para o sul, né? Não, não, a altura da queda não era muito grande, porque a onda subiu, né?

RVRogério Vilela

Ah, tá, tá.

?Voz 1

Só que o barco deu uma sacudida tão violenta que eu saí voando, caí de costas. E aí, dentro da água, eu mergulhei, mas caindo eu vi a cara de pavor do francês que tava no leme.

RVRogério Vilela

Você conseguiu ver?

?Voz 1

Ele tava com um olhar de pavor. E eu virei embaixo d'água, encostei a mão, as mãos no casco, não tinha onde pegar, era liso. Não tinha, não, ele tava andando. Ah tá, o casco tava escorregando nas minhas mãos. Eu falei, que droga, eu morri, eu morri, não tem como sair daqui. E de repente a mesma onda que passou por cima do barco acabou ultrapassando o barco. E não é que eu alcancei o barco, o barco afundou do lado da onda e você levantou.

E eu de repente senti na minha mão, nessa mão que eu não sinto, o último guarda-mancebo do barco, e o barco me arrastou. Cara, e as botas ficaram no mar quando o barco me tracionou. Eram botas de borracha, né? Ela enche d'água, as botas saíram e eu voltei para o barco. E o francês era a única chance.

RVRogério Vilela

Até hoje não acredita como é que esse brasileiro não dava para dar a volta e te pegar.

?Voz 1

Não tinha uma tempestade, não tem bruta tempestade.

FBFilipe Bragança

Esse foi o momento mais difícil.

?Voz 1

Foi a tristeza, porque aí eu pensei no barco que eu tava fazendo, nas viagens que eu não ia fazer, em tudo que não ia na cabeça, passou tudo, tudo que não ia acontecer explodiu ali naquele instante.

RVRogério Vilela

E foi muito rápido, né?

?Voz 1

Muito rápido.

RVRogério Vilela

Segunda pergunta é o seguinte: não sei se te avisaram, se for eu a dar essa notícia, desculpa, mas a gente vai morrer um dia. Você tava sabendo disso já?

?Voz 1

Como é que é?

RVRogério Vilela

A gente vai morrer um dia.

?Voz 1

É, eu espero que sim, né?

RVRogério Vilela

Não, não quero ficar, mas não, mas tem muito tempo, tem muita, tem muitas aventuras ainda. E esse programa aqui vai ficar muito tempo no ar. Dá um recado para 200 anos no futuro, quem tá assistindo esse podcast. Quais seriam suas últimas palavras, teu epitáfio, amigo?

?Voz 1

Ah, simplificar a vida. Eu me tornei conhecido no mundo náutico porque, não porque a gente fez coisas espetaculares ou usou tecnologias inovadoras, mas porque a gente aproveitou esse universo que a gente tem de conhecimento hoje para pôr em prática ideias brutalmente simples. Então eu já falei sobre isso, não canso de falar, a ideia de fazer um barco sem nenhum lastro não veio de um escritório famoso da Inglaterra, veio de um jangadeiro de jangada de piúba jangada do Ceará.

Aquilo, a ideia de fazer as estruturas com canto arredondado, em plabudant se fala em francês, veio, veio do conhecimento desses caras que fazem barcos incríveis no Brasil. A ideia de fazer o Paraty 2 com 2 mastros veio de uma, de um outro tipo de jangada brasileira, que não é nem a de piúba nem a de tábua do Mas é uma jangada de Pitimbu, na Paraíba, que é a única jangada no mundo que tem duas velas. Então, o que que a gente foi fazendo?

A ideia de fazer um barco que encalhasse veio das jangadas e dos bastardos do Ceará, que são barcos que encalham, são feitos para encalhar. Então eu acho que assim, esse processo de usar ideias brutalmente simples com os recursos técnicos que a gente tem hoje, eu acho delicioso. E eu acho que cada vez mais no futuro a gente vai poder trazer mais emoção para as coisas que a gente faz.

RVRogério Vilela

Simplifique.

?Voz 1

É, essa semana não sei por que participei de um monte de eventos de inteligência artificial, e eu não tenho medo nenhum da inteligência artificial porque ela ela nunca vai, ela nunca vai produzir emoção, valores. E é uma ferramenta que permite potencializar as atividades humanas. Isso vai acontecer cada vez mais. Então eu acho que daqui a 200 anos não—

RVRogério Vilela

e você sempre foi absorvendo a tecnologia, né?

?Voz 1

É, tem muita gente fala: nossa, mas da onde veio a ideia de fazer um mastro totalmente autoportante? Falei: claro que é um mastro autoportante. Que não tem cabo de aço. Aí eu pensei, caramba, o Santos Dumont em 1900 e não sei, 10, 12, 14, já fazia os aviões em bambu flexível sem estanhamento. Para que que hoje eu vou usar titânio, fibra de carbono, para usar um conceito totalmente ultrapassado? Nossa, um amigo nosso que infelizmente morreu, Luiz Felipe Andrés, Eu ajudei a montar com ele aquele estaleiro, o Sítio do Tamancão, que fica em São Luís do Maranhão.

E ele organizou uma semana de eventos porque uma universidade inglesa falou, coitadinho dos maranhenses, né, tão ignorantes sobre o mundo da vela, eles não sabem que tem Vectran, tem Mylar, tem Kevlar. Eles não entendem nada de vela, com aqueles barcos toscos. E aí eles compraram uma biana maranhense e pegaram uma biana com a vela vagabunda. E na biana que eles compraram, eles botaram a bruta de uma vela high-tech impressionante e fizeram uma semana de corridas entre São Luís e Alcântara.

E a Biana com a vela vagabunda ganhou 6 das corridas. E esse Luiz Felipe é um cara engraçado, e ele falava: o problema é que o conceito tecnológico dos ingleses é burro, porque eles usam para adaptar a vela à força do vento, eles usam a superfície da vela em metros quadrados. E o cara que faz a vela vagabunda, que não tem nem dente na boca, usa um conceito absolutamente genial. Ele não tem dinheiro para comprar um ilhós de latão e prender na vela porque é muito caro, custa R$8, R$9 um ilhós.

Então, o que que ele usa como conceito? Ele muda a permeabilidade do tecido. Quem na NASA consegue mudar a permeabilidade de um tecido em uso dinamicamente? Não consegue. Como é que eles mudam a permeabilidade do tecido? E por isso que a vela é de saquinho de algodão vagabundo, com água. Ele tem uma cuia, joga água, aí a vela fica mais impermeável, o vento não passa pela vela e a biela acelera. Olha só, então é esse tipo de astúcia que eu gosto de colecionar nos projetos que a gente faz.

E eu acho que daqui um ou dois séculos a gente vai poder fazer muito mais, com certeza.

RVRogério Vilela

E a inteligência artificial vai ajudar isso também, né?

?Voz 1

Eu acho que sim, também acho.

RVRogério Vilela

Terceira pergunta é qual a tua dúvida atual, amigo? No que que você se pega pensando antes de dormir?

?Voz 1

Como é que é?

RVRogério Vilela

Qual a pergunta que você se faz? Qual sua dúvida atual? Tem alguma dúvida?

?Voz 1

Eu não tenho muitas dúvidas não. Eu gostaria de saber quando eu vou morrer.

FBFilipe Bragança

Você quer saber quando você vai morrer?

?Voz 1

É para não ir naquele endereço, tá? Entendi, para evitar, evitar, para evitar. Ok. Aí eu lembro do Náufrago do Gabriel García Márquez, né, da história do relógio dele que ia marcar a hora da morte dele.

FBFilipe Bragança

E que é um texto maravilhoso.

?Voz 1

Eu acho que chama O Náufrago.

FBFilipe Bragança

Eu vou ver.

?Voz 1

Mas é isso, não tem muitas Vontade de fazer uma pergunta hoje em dia?

RVRogério Vilela

Não tem uma dúvida?

?Voz 1

Não, não, eu gosto de aprender. Eu tenho aprendido cada vez mais, mas eu gosto de aprender desse jeito, misturando formas diferentes, fontes diferentes de conhecimento.

RVRogério Vilela

Entendi.

?Voz 1

E eu acho que a gente fez, botou na prática muita coisa interessante que eu nunca falei muito sobre sobre esse lado técnico e estético, né? Mas até no barco que você remou tem essa, o fato de ser um barco, a gente fala doble proa, né, em espanhol, né, de proa dupla, um desenho clássico que os noruegueses usam muito, os escandinavos, os cearenses, o pessoal na Amazônia também. É, eu adoro assim essa história do design, do feitio, como eles falam, de cada objeto.

Não só o barco, mas remo, veículo, coisas em geral, né? O design desse canivete, por exemplo, acho lindo de morrer.

RVRogério Vilela

Assistiu Odisseia, o filme Odisseia? Você assistiu?

?Voz 1

Não assisti ainda.

FBFilipe Bragança

Acho que eu vou ver essa semana, tava tentando assistir na Netflix, não consegui.

RVRogério Vilela

Eu não assisti vários deles que também fizeram várias críticas, né, não sei, da época e tal. Mas obrigado demais, obrigado Felipe. Obrigado, prazer. O que que vocês quiserem divulgar, agora é a hora.

FBFilipe Bragança

Felipe, eu tenho meu Instagram, Felipe_Braganca, Felipe com FI, F-I-L-I-P-E. E é isso, é basicamente a rede social que eu tenho, porque nesse mundo.

RVRogério Vilela

E o filme, né?

FBFilipe Bragança

Filme, claro, 100 Dias Antes do Céu. É o livro, 100 Dias, dia 29 de outubro nos cinemas.

RVRogério Vilela

Tá certo.

?Voz 1

Espero que se alguém assistir, que goste do filme como eu gostei. E eu senti que quem participou da produção gostou também. Isso achei muito bacana. Tem filme, se eu vi um filme muito chato outro dia, falei, como é que alguém pode ter orgulho de ter trabalhado?

RVRogério Vilela

É, eu já vi vários filmes dele, cara, tão chato, tão monótono. Tô muito ansioso para ver esse filme aí. Obrigado demais, amigo.

?Voz 1

Prazer estar no seu programa aqui.

RVRogério Vilela

Muito legal.

?Voz 1

Tá louco, Deus abençoe.

FBFilipe Bragança

Nossa Senhora!

?Voz 1

Tchau, tchau, tchau, tchau, gente!

RVRogério Vilela

Ô, Homer, é contigo, é odisseia, cara.

HHomer

Agradecer demais para você que chegou no final desse papo. Se você ainda não deixou seu like, tá pangando, então deixa aí o like, se inscreva no canal, torne-se membro, compartilha esse vídeo com todo que você puder, né, com todo mundo que você puder. Agradecer também a Airbnb que tá patrocinando o episódio de hoje. E para você provar que você chegou no final desse papo maravilhoso, que o pessoal escreve nos comentários para provar que chegou até o final, muita coisa, mas coloca aí: não faça café.

RVRogério Vilela

Não faça café. Quer ficar vivo? Não faça café. Valeu, gente. Beijo no cotovelo, tchau. Que bom que vocês vieram. Fiquem com Deus. Valeu. A gente já tava levantando aqui. As opiniões e declarações feitas pelos entrevistados do Inteligência Limitada são de exclusiva responsabilidade deles e não refletem necessariamente a posição do apresentador, da produção ou do O conteúdo aqui exibido tem caráter informativo e opinativo, não sendo vinculado a qualquer compromisso com a veracidade ou exatidão das falas dos participantes.

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