014 - MARK WAHLBERG: DE PRESIDIÁRIO A ASTRO DE HOLLYWOOD
Hollywood ama uma história de superação, mas alguns passados são sombrios demais para apagar. Neste episódio de “Arquivos Proibidos”, a ANITA BORGES e o FABIO JACQUES do Muita Brisa vão abrir a ficha criminal e revelar a verdadeira história de Mark Wahlberg: de presidiário a astro de Hollywood. O que o tapete vermelho tenta esconder a todo custo? Será que o Vilela não colou na bancada hoje por puro medo do Marky Mark invadir aqui e quebrar as nossas FX3?
Anita Borges
- O passado sombrio e perturbador de Mark Wahlberg antes da fama em HollywoodMark Wahlberg·Hollywood·História de superação
- Os crimes de ódio e agressões de Mark Wahlberg contra vietnamitas e crianças negrasMark Wahlberg·Thanh Lam·Hoatrin·Crimes de ódio·Agressão
- A infância e adolescência de Mark Wahlberg em Boston e o divórcio dos paisMark Wahlberg·Dorchester·Boston·Divórcio
- A ascensão de Mark Wahlberg à fama como Marky Mark e modelo da Calvin KleinMark Wahlberg·Donnie Wahlberg·New Kids on the Block·Marky Mark and the Funky Bunch·Calvin Klein
- O pedido de indulto de Mark Wahlberg e a reação das vítimas e da sociedadeMark Wahlberg·Indulto·Massachusetts·Christine Edward·Mary Belmont
- A tensão racial em Boston nos anos 70 e 80 e a influência na vida de WahlbergBoston·Tensão racial·Integração escolar·Mark Wahlberg
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Um adolescente de 16 anos quebra um pedaço de pau de quase 1,5 m na cabeça de um imigrante vietnamita e o homem desmaia na calçada. Minutos depois, na mesma noite, ele acerta um soco no rosto de outro vietnamita, um veterano de guerra que não tinha nada a ver com aquilo. Ele é acusado de tentativa de homicídio e cumpre apenas 45 dias de prisão. 2 anos antes, ele já tinha perseguido crianças negras numa praia de Boston atirando pedras. 4 anos depois, já famoso e com bastante grana, ele quebra a mandíbula de um vizinho a chutes.
E 30 anos depois, entregaria prêmios em Hollywood e pediria ao estado de Massachusetts que apagasse todo o passado da ficha dele. No vídeo de hoje nós vamos relatar um dos arquivos que Hollywood não quer que você saiba: o passado sombrio e perturbador de Mark Wahlberg. Eu sou Anitta Borges e seja muito bem-vindo aos Arquivos Proibidos. Mark Robert Michael Wahlberg nasceu no dia 5 de junho de 1971 em Dorchester, num bairro operário no sul de Boston.
Ele era o caçula de 9 irmãos. O pai, o Donald, era caminhoneiro sindicalizado. A mãe, Alma, era enfermeira. Só que depois do divórcio em 1982, os filhos foram espremidos num apartamento de 3 quartos. E aqui eu preciso te dar um contexto, porque sem ele nada disso faz sentido. Boston, nos anos 70 e 80, era uma das cidades mais racialmente tensas dos Estados Unidos. A cidade estava sob ordem judicial de integração escolar, que obrigava o transporte de crianças negras para escolas de bairros brancos e vice-versa.
E a reação da população foi muito violenta. Tiveram vários tumultos, apedrejamentos de ônibus escolares, escoltas policiais. E é nesse cenário que o caçula dos Wahlberg cresce. A própria mãe dele, Alma, admitiu publicamente que depois do divórcio ficou absorvida pelos próprios problemas e que se culpa pelo que aconteceu com o seu filho. Mas com 9 filhos nas costas pra cuidar e um divórcio pra lidar no meio dos anos, entre os anos 70 e 80 se pinta, como que faz?
Numa entrevista à revista Forbes, republicada em 2008, Wahlberg descreveu aquele período com uma frase que resume tudo. Abre aspas: os pais até se importavam, mas as crianças foram deixadas por conta própria e se meteram em encrenca. Fecha aspas. Segundo a própria Forbes, ele roubava carros, assaltava garotos de bairros ricos e já usava cocaína aos 13 anos de idade. Aos 14 anos, ele abandonou a escola no 9º ano e nunca mais voltou.
Ele só iria tirar o diploma décadas depois, já adulto e com bastante grana. Por um breve período, quando ele tinha 12 anos, o Mark chegou a fazer parte da formação original da banda New Kids on the Block. A boy band que o irmão mais velho dele, o Donnie, transformaria depois num fenômeno mundial. Só que o Mark saiu, ele não aguentou as aulas de canto, a coreografia, a imagem de menino bonzinho ali. Enquanto o irmão tava ensaiando o passinho pra vender disco no mundo inteiro, o Mark estava na rua.
E segundo levantamentos da imprensa americana, entre os 13 e os 17 anos, ele teve algo entre 20 a 25 passagens pela polícia de Boston. Em junho de 1986, Mark Wahlberg tinha 15 anos. E num dia, um grupo de alunos do 4º ano fez uma excursão escolar até Salven Hill Beach, uma praia em Dorchester. Quem levou a turma foi a professora Mary Belmont. E é importante falar aqui, porque depois ela mesmo dá o depoimento do que aconteceu. E assim, o que aconteceu com essas crianças quando elas estavam indo embora da praia foi algo perturbador e tá descrito em documentos judiciais.
Inclusive, foi reconstituído pela Associated Press numa reportagem de janeiro de 2015. Um grupo de meninos brancos começou a perseguir as crianças na rua de baixo. Eles atiravam pedras e gritavam repetidamente o insulto racial mais grave que existe na língua inglesa contra pessoas negras. A perseguição só parou porque o motorista de uma ambulância interveio. E um dos meninos identificados nos documentos judiciais era Mark Wahlberg, de 15 anos.
Uma das crianças perseguidas se chamava Christine Atwood. Ela tinha 9 anos, foi atingida por uma pedra e carrega a cicatriz até hoje. Numa entrevista à Associated Press, quase 3 décadas depois, a professora Mary Belmont descreveu o que sentiu naquele dia. O coração disparado, o pavor, as pedras voando e as crianças correndo com medo. E é aqui que a justiça entra pela primeira vez. O Ministério Público de Massachusetts entrou com uma ação cível de direitos civis contra Wahlberg e outros dois adolescentes brancos.
E o resultado foi uma ordem judicial formal proibindo aqueles meninos de agredir, ameaçar ou intimidar qualquer pessoa por motivo de raça ou origem nacional. Também teve um aviso, mas só um aviso, tá? Um aviso de que se acontecer de novo, eles seriam presos. E a vida seguiu. Segundo o site Pet de Massachusetts, essa ação civil específica acabou sendo arquivada em 1987. Mas a ordem estava lá no papel com o nome dele. E 22 meses depois Mark violaria essa ordem da forma mais brutal possível.
Em 1988, era uma noite comum. 9 horas da noite, na Dorchester Avenue, Thanh Lam, um imigrante vietnamita, estacionou o carro na frente de uma loja de conveniência. Ele desceu carregando duas caixas de cerveja. E passando ali estava Mark Wahlberg, de 17 anos. Segundo o memorando de sentença do processo, o Mark partiu pra cima do Lam com um pedaço de madeira. A NBC News e o portal Jezebel descreveram a arma como um bastão de mais ou menos 1,5 metro.
Ele acerta a cabeça do homem e Tam Lam cai desacordado na calçada. Testemunhas relatam que durante o ataque, Mark gritava um xingamento racial contra vietnamitas. A polícia chegou. Mark e dois outros adolescentes correram pela Dorchester Avenue em direção à Pearl Street. E é aí que a noite fica muito pior, porque a poucos quarteirões dali, um outro homem vietnamita tava parado na esquina, o Hoatrin. E ele não faz a menor ideia do que acabou de acontecer.
Ele não viu nada, ele não tem absolutamente nenhuma relação com aquilo. O Mark então se em cima e soca o rosto dele. Segundo os documentos do caso citados pela NBC News, ele deu um soco e ainda xingou o cara com insultos raciais. Hoatrinh é veterano, ele serviu o exército do Vietnã do Sul. E o Mark Wahlberg é preso naquela mesma noite. Com ele, a polícia encontra uma pequena quantidade de maconha. A acusação inicial dele foi de tentativa de homicídio.
E aos 17 anos, o Mark é processado como adulto. Ele acaba se declarando culpado de agressão com arma perigosa, mais posse de maconha. E também, somado a isso, com os insultos raciais, tem o desacato judicial por causa da violação da injunção de 1986. A sentença dele foi de 2 anos de detenção, com a maior parte suspensa. Só que ele acabou ficando apenas 45 dias na prisão. Sim, esse foi o tempo que ele efetivamente ficou preso. Um mês e meio por dois ataques violentos que quase mataram um homem.
Mark Wahlberg contaria depois numa entrevista que foi republicada pelo Daily Beast o que passou na cabeça dele lá dentro da prisão. Três dos irmãos dele já tinham cumprido pena. A irmã tinha ido presa tantas vezes que ele até tinha perdido a conta. E ali finalmente ele tava trancado um tipo de cara que ele sempre quis ser. Só que foi ali também que ele percebeu que não era nada daquilo que ele queria. Então agora entra um personagem muito importante na vida do Mark.
O seu irmão Donnie. O Donnie Wahlberg é o irmão mais velho, membro do New Kids on the Block, sabe? A boyband lá de Boston, que foi um dos maiores fenômenos pop do final dos anos 80. E lembra que a gente falou daquela boyband que o Mark largou aos 12 anos porque ele não aguentava mais as aulas de canto e a imagem de menino comportado? Então essa mesma, essa banda. Enquanto o irmão enchia estádio, o Mark tava em Dorchester cheirando cocaína e acumulando passagem na polícia.
E é justamente o Donnie, o irmão que ele deixou para trás, quem abre a porta de volta quando o Mark sai da prisão sem absolutamente nada, sem escola, sem profissão, com ficha criminal e 21 meses de pena suspensa pendurado no pescoço. O Don escreve, produz e empurra o Mark pra dentro da indústria. E aí nasce o grupo chamado Marky Mark and the Funky Bunch. Em 1991, a música Good Vibrations chega ao topo das paradas americanas. E aí vem o golpe de mestre.
O produtor David Geffen apresenta o garoto pra Calvin Klein. E de repente, o corpo do Mark, né, daquele mesmo garoto que quase matou um homem na calçada, 3 anos antes, estava ali nos outdoors gigantes da Times Square de cueca. Ele virou um ícone, virou capa, virou um produto. E é justamente aí que muita gente acha que a história de violência terminou. Só que ela não terminou. Em agosto de 1992, Mark tem 21 anos, é famoso, já tem bastante grana e é o rosto da campanha internacional.
Segundo documentos judiciais obtidos pelo site The Smoking Gun e reportados pelo Daily Beast, o Mark e um homem chamado Darryl Patrick McCall agrediram um cara chamado Robert D. Crehan, um vizinho de 20 anos, perto de uma quadra de tênis. Robert acabou com múltiplos cortes no rosto e uma mandíbula fraturada que precisou ser costurada com fio de aço. O documento afirma que o Crehan não fez nada para provocar o ataque. Já a defesa do Mark sustentou uma versão oposta, que a confusão começou porque o Crehan teria dirigido um insulto racial ao McCall, que é negro.
O Mark negou envolvimento direto e chegou a classificar essa ação como uma tentativa de extorquir o dinheiro dele. E o caso terminou como muitos casos envolvendo gente famosa, com um acordo financeiro fechado às vésperas do julgamento. E com esse acordo selado, o processo criminal foi arquivado. Sem julgamento, sem sentença, sem registro de condenação. Anos depois, no dia 26 de novembro de 2014, o Mark Wahlberg protocola um pedido formal de indulto junto ao Conselho de Liberdade Condicional de Massachusetts.
A informação foi revelada primeiro pela New England Cable News e repercutida pela CBS News e pela Associated Press. No documento, ele descreve que sente muito pelas ações da noite do dia 8 de abril de 1988 e por qualquer dano duradouro que possa ter causado às vítimas. Diz que se dedicou a se tornar uma pessoa melhor para servir de exemplo aos próprios filhos. E ele acrescentou uma frase que muita gente ficou com uma pulga atrás da orelha.
Ele disse que ele não fez trabalho filantrópico para que as pessoas esquecessem o passado dele. Pelo contrário, ele quer que as pessoas lembrem para servir de exemplo de que boas vidas podem ser recuperadas. É bonito no papel, só que o problema é que o indulto juridicamente faz exatamente o oposto disso. Ele apaga a condenação da ficha. E a repercussão disso foi devastadora. Repórteres foram atrás das vítimas e as respostas começaram a dividir o país.
Christine Edward, a menina de 9 anos atingida pela pedra em 86, agora com 38 e morando na Geórgia, falou à Associated Press que ela não acha que ele deveria ser perdoado. Ela disse que não importa quem ele é, isso não o torna exceção. Que se alguém é racista, vai ser sempre. E que tentar reverter aquilo e fazer parecer que nunca aconteceu não era justo. E tem um detalhe, porque durante quase 30 anos a Kristen não fazia ideia de que um dos meninos que a perseguiram na praia naquele dia tinha virado um astro de Hollywood.
Já a professora Mary Belmont, ela disse que acredita no perdão, que ele era só um moleque, um pivete das ruas duras de Boston. Os dois governadores de Massachusetts do período declararam publicamente que o Mark Wahlberg não deveria receber tratamento especial. E o pedido acabou morrendo do jeito mais banal possível. Segundo o Boston Globe e a Associated Press, em setembro de 2017, o conselho enviou cartas para todos os peticionários perguntando se queriam manter os pedidos abertos, com o prazo de 90 dias.
Mas o Mark Wahlberg nunca respondeu. Um porta-voz do órgão declarou que a ausência dessa resposta foi tratada na prática como uma existência. No Festival de Toronto, naquela mesma semana, ele disse a jornalistas que se arrependia de ter pedido o indulto, que aquilo tinha sido apresentado a ele e que se pudesse voltar atrás nunca teria feito. Mas ele acrescentou que alguma coisa boa saiu dali, porque o processo permitiu que ele finalmente encontrasse e pedisse desculpas a uma das vítimas.
Pode ser gestão de crise? Com certeza deve ser uma gestão de crise essa fala dele aí, né? A assessora dele deve ter falado, cara, fala isso, Isso, pra você não se queimar mais. Durante mais de 26 anos, uma informação circulou em praticamente toda reportagem sobre o Mark Wahlberg. Que ele teria deixado o Rothrin cego de um olho com aquele soco. Perfis de revista repetiram, enciclopédias online repetiram. Forbes repetiu em 2008.
Só que em dezembro de 2014, o jornal britânico Daily Mail localizou o Rothrin que hoje atende pelo nome de Johnny e mora no Texas. E o Johnny Trim acabou desmentindo. Ele disse que ele nunca ficou cego por causa do Mark. Ele já tinha perdido a visão daquele olho antes, num ferimento de guerra quando ele servia no Exército do Vietnã do Sul. Ele também revelou outra coisa: durante todos aqueles anos, ele não fazia a menor ideia de quem tinha sido o agressor.
Ele não sabia que o adolescente que o socou esquina da Dorchester tinha virado uma estrela de cinema, segundo a pessoa que falou que não sabia. E mesmo assim, o Johnny Trinh disse que perdoa, que o Mark era jovem e prudente, e que todo mundo merece uma segunda chance. E Tam Lam, o homem que caiu desacordado na calçada com a cabeça aberta, a vítima mais grave da noite inteira, nunca deu entrevista pública sobre o caso até hoje.
Mark levantou milhões de dólares para instituições de caridade. Ele financia clubes de jovens no bairro onde ele cresceu e encontrou uma das vítimas e pediu desculpas pessoalmente. Isso é redenção real ou é o privilégio mais caro que o dinheiro pode comprar? Me conta aqui embaixo a sua opinião e se você já sabia todo esse lado sombrio sobre o Mark Wahlberg. Muito obrigada por você ter ficado comigo aqui até o final e a gente se vê nos próximos Arquivos Proibidos.