Episódios de Inteligência Ltda.

#1900 NOLAN ESTRAGOU A ODISSEIA? THIAGO BRAGA

06 de agosto de 20263h2min
0:00 / 3:02:28

THIAGO BRAGA é historiador e especialista em história da guerra. Ele vai bater um papo histórico sobre o filme “A Odisséia”. O Vilela emprestou o estilingue pra Davi matar Golias.

Participantes neste episódio3
R

Rogério Vilela

HostApresentador
H

Homer

Co-host
T

THIAGO BRAGA

ConvidadoHistoriador
Assuntos11
  • Mitos gregos: Filomela e Tereu· CulturaHelena de Troia·Lupita Nyong'o·Nascimento de um ovo·Padrão de beleza grego·Arte grega antiga
  • Cinema e Arte· CulturaAdaptação cinematográfica·Acurácia histórica e cultural·Christopher Nolan·Odisseia de Homero·Ulisses de James Joyce
  • Odisseia: Origens e SignificadoJornada do herói·Resiliência e superação·Valor da família e do lar·Homero·Mitologia grega
  • Odisseu: Inteligência e AstúciaCavalo de Troia·Engano ao Ciclope·Odisseia e Ilíada·Arquétipo do herói grego
  • Mitologia de Ulisses e as SereiasChegada à terra dos Ciclopes·Scylla e Caribdis·Atena·Poseidon·Mitologia grega
  • Mulheres na História· CulturaRodrigo Pacheco·Calipso·Circe·Nausicaä·Patriarcado e misoginia
  • Legado e descobertas arqueológicas· CienciaJorginho Guilherme e Copacabana Palace·Palácios de Esparta, Pilos e Micenas·Troia·Cabo Súnion·Conexão com realidade material
  • A Ilíada e a Guerra de TroiaArmaduras gregas·Navios vikings na Grécia·Jimi Hendrix·Guerra de Troia·Panóplia de Dendra
  • Odisseia: Viagem e Locais GeográficosChegada à terra dos Ciclopes·Estreito de Caríbdis e Sicília·Ilha de Calipso·Ilha de Eia (Circe)·Cabo Súnion
  • Canais de Thiago BragaBrazão de Armas·Impérios AD·Conteúdo histórico e educativo
  • Epopeias Antigas e Influência CulturalEpopeia de Gilgamesh·Eneida de Virgílio·Cultura ocidental·Influência literária
Transcrição346 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
RVRogério Vilela

Olá, terráqueos, como é que vocês estão? Sou Rogério Vilela, tá começando mais um Inteligência Limitada, o programa onde a limitação da inteligência acontece somente por parte do apresentador que vos fala. Sempre trago pessoas mais inteligentes, mais interessantes E com a vida muito mais mitológica do que a minha, do que a sua.

HHomer

Com certeza, hein?

RVRogério Vilela

O que que sua vida tem de mitológica? O que que você já fez na vida de mitológico?

HHomer

Ah, tudo, né? Olha meu tamanho, parece um centauro, né, cara? Já começo por aí, né? Mais mitológica que isso é impossível.

RVRogério Vilela

Você, cara, eu lembrei de você no filme.

HHomer

É mesmo?

RVRogério Vilela

É, na hora que aparece o Ciclope. O Ciclope, Ciclope. Eu vou perguntar depois qual é a pronúncia do cara. Eu acho que era Ciclope.

HHomer

Pelo X-Men é Ciclope.

RVRogério Vilela

É Ciclope, né? Então beleza.

HHomer

Se o desenho tiver errado, então também tô.

RVRogério Vilela

Não confundir com ciclone.

HHomer

É verdade.

RVRogério Vilela

Ô Homer, você já viu o filme?

HHomer

Ainda não, cara.

RVRogério Vilela

Pô, você tá devendo, hein, cara.

HHomer

Tô marcando, tô marcando o toco aí.

RVRogério Vilela

Bigode aí do lado, viu o filme?

HHomer

O Bigode nem sabe o que que é isso.

RVRogério Vilela

Bigoda, a gente combinou, cara.

TBTHIAGO BRAGA

Tô esperando sair a vaga do IMAX lá para o cinema.

RVRogério Vilela

Ele tá esperando sair a vaga do IMAX, ele acha que é tipo vestibular o negócio. Ô Homer, a gente já falou muito de Odisseia. Mas tinha uma pessoa que o pessoal tava pedindo muito aqui, sim, que é esse cara. Ele tem um cara para falar sobre Odisseia, é Thiago.

HHomer

É verdade. E finalmente conseguimos, conseguimos, hein, cara.

RVRogério Vilela

E hoje eu vou tirar todas as dúvidas, falar com ele sobre o assunto que eu mais gosto. É verdade, que é cinema e literatura, cara.

HHomer

Rapaz, ele é o cara.

RVRogério Vilela

São dois, né? Eu falei, são dois, vou misturar as duas coisas. Ô, Homer, como o pessoal vai participar, já que é uma live totalmente especial?

HHomer

Bom, hoje é uma live especial que é dedicada para pessoas especiais que são os nossos membros. Eles têm acesso à nossa agenda com antecipação, eles furam a fila do chat, já envia a pergunta deles. Então envia aí a sua pergunta, as melhores irão para mesa. Também já deixa o like, se inscreva no canal e torne-se membro, né? Importante.

RVRogério Vilela

Tá certo. Então vamos ver, Thiago. Estamos com conexão com Thiago. Ele está aonde? Você tá falando de onde, Thiago?

TBTHIAGO BRAGA

Senhoras e senhores, muito obrigado por vocês estarem aqui. Valeu, Vilela, pelo convite, cara. Bom demais estar junto com você. Preferia estar aí pessoalmente olhando essa sua fuça linda, mitológica, Mas infelizmente não foi possível, mas tá valendo assim também. Tô aqui direto de Petrópolis, do meu lar doce lar.

RVRogério Vilela

A gente, vamos falar pro pessoal, a gente só tá fazendo remoto por causa da pressa, que o pessoal insistiu tanto, falou, vamos já fazer, depois a gente faz com calma outros assuntos. Eu vou aí, você vem aqui, porque eu tô devendo uma visita também. Mas já vamos matar esse assunto porque você é a pessoa certa. Eu queria falar contigo desde o começo, lembra? Desde que tá anunciado esse filme, eu falei, vamos falar sobre esse filme e tal.

E aí finalmente saiu. Então se apresenta para o povo, Thiago, para quem não te conhece.

TBTHIAGO BRAGA

Boa, Thiago Braga, galera do canal Brazão de Armas. Tem o meu outro canal também, Impérios AD, que foi o primeiro que eu comecei na internet, mas depois que eu criei o Brazão de Armas, o negócio explodiu. E como eu trabalho sozinho, eu não consigo, né, coordenar os dois ao mesmo tempo. Então dei uma pausa no Impérios AD, que tem 1 milhão e pouquinho de seguidores, e tô tentando chegar a 1 milhão agora no brasão de armas, né? Mas é isso, no canal eu falo sobre história, mitologia, né, sobre história do século 20, Idade Média, filmes, séries, jogos.

Então eu faço uma miscelânea para poder inspirar o público a amar história do jeito como eu amo. Então eu tenho conseguido fazer isso e para mim é um prazer poder compartilhar isso. A gente já tá tentando, como você falou, desde o início, quando, né, rolou a Odisseia Foi, né, estreou Odisseia, a gente já tava tentando marcar, mas eu com viagem, você com viagem, eu moro no Rio, Petrópolis, você em São Paulo, então a gente não conseguiu fazer acontecer pessoalmente.

Mas não tem, eu não tenho dúvida que a galera vai curtir demais. Claro, tem muito assunto também. Quando lança Odisseia, a galera sabe que tá aqui dentro de mim, né? Ó, tem inclusive o meu pratinho ali do Odisseu, ó, Odisseu e as Sereias, tá vendo? Olha só, trouxe de Atenas isso aí, Vilela. Cara, e sabe o que que é engraçado desse prato, cara? Só já que eu toquei no assunto dele, era o prato que eu mais queria, era o tipo de arte grega inspirada na época, né, da Grécia clássica, que eu mais queria, e foi o que eu encontrei. Pronto, agora fala aí.

RVRogério Vilela

O que eu queria falar é o seguinte, você já adiantou isso, mas, cara, dá para ver nos seus vídeos o amor que você tem, o estudo, o tempo que você perde Tempo que perde não, tempo que você ganha, né, cara? Sobre cada vídeo, o tempo que é despendido, cara. Explicação, eu acho a sua explicação extremamente fácil de entender, por isso que eu gosto de trazer você aqui para assuntos difíceis e fáceis. Então assim, eu acho que a galera percebe quando a pessoa é verdadeira e gosta do que tá fazendo.

Você não tá, você não podia ter uma produção muito maior, muito, muito mais vídeos, mas eu percebo que o vídeo sai quando ele tem que sair. Quando tá pronto para sair. E a mesma coisa sobre esse nosso encontro, cara. Ele aconteceu agora porque tinha que acontecer, assim como os deuses do Olimpo, ou sei lá da onde, fizeram acontecer. E esse encontro vai ser memorável porque, cara, eu saí do cinema louco com aquela história e me deu vontade realmente de ler tanto a Ilíada quanto Odisseu.

Quero saber primeiro qual foi seu primeiro contato né, com esses livros e a tua expectativa. E já falando do filme, onde você assistiu, como foi? Vamos lá, por onde a gente começa, cara?

TBTHIAGO BRAGA

É muita coisa, muita coisa, muita coisa. Assim, quando a gente fala de Odisseia, Vilela, a gente tá falando de muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, né? E eu acho que já tem uma qualidade, na minha opinião, uma coisa que precisa ser dita em relação ao filme, né? Independente do lance da acurácia histórica, né, da acurácia cultural, mitológica, dentro do ponto de vista dos gregos, eu acho que o filme já valeu pelo simples fato de acontecer o que aconteceu com você.

A galera sai do filme, quem nunca leu Odisseia, e quer ler Odisseia. É isso, cara, já é uma vitória, cara.

RVRogério Vilela

Não, e outra, e outra coisa, é o cinema no que a gente lembra do que era aquele cinema de sair impactado e falar, cara, o que que eu vi? Imagens grandiosas, aventura, é uma trajetória de um herói, uma coisa que você Você quer comentar, você quer falar sobre o filme, né? Bem ou mal, você quer falar. E isso, cara, hoje em dia é tão difícil, né? Você sair de um filme impactado sobre alguma coisa que, cara, eu fui mudado, eu quero saber mais, eu quero saber quem são esses caras, por que que eles pensam dessa forma.

Então só disso, cara, eu recomendo que todo mundo vá ao cinema, leia e, cara, se aprofunde, né? O mundo é muito mais do que o TikTok, é muito mais do que Virgínia e Vini Júnior, né?

TBTHIAGO BRAGA

Pode crer, meu amigo. Não, falou tudo agora. É porque assim, é o poder da mídia, né? Eu posso dizer por mim, e eu já falei isso tantas vezes para galera, e eu reafirmo, né? O meu primeiro contato com a mitologia grega foi Cavaleiros do Zodíaco, né? Eu tinha 7 anos de idade, tava na casa dos meus pais, tinha uma televisãozinha no quarto deles. Eu lembro que eu vi um golpe, foi o único episódio, primeiro que eu vi assim que eu me lembre claramente, que foi ali que começou.

Seiya dando um pulo, dando uma voadora em direção ao Shiryu, e ele protege com escudo. De repente, a tela fica vermelha de sangue. Eu, moleque, eu tinha 6 anos, 6 para 7 anos, era na antiga Manchete, né, cara? Mas eu fiquei tão vidrado com aquilo, porque tinha o Coliseu, né, que tudo bem, não tem nada a ver com a Grécia Antiga, mas tinha o Coliseu, e eu comecei a entender que tinha alguma, alguma coisa ali ligada com a realidade.

Eu tinha 6, 7 anos de idade. E aí, sabe, ao longo do tempo fui assistindo, aquilo foi me impactando, cara. Cavaleiros me marcou de uma maneira assim que eu acho que a galera que é da minha geração, da geração Z— eu nasci em 87, eu tenho 39 anos, então eu sei que a galera que é dessa geração foi muito marcada por Cavaleiros. Sabe Francisco Júnior, meu amigaço dublador Francisco Júnior? Ele já teve aí inclusive, se eu não me engano.

É um cara que, tipo assim, ele mesmo disse Tiago, para mim Cavaleiros é uma coisa que me inspirou demais, cara. Assim, eu passei a amar mitologia grega por causa de Cavaleiros. Então é uma mídia, né, uma mídia que abre os olhos de muita gente, por mais errado historicamente que seja, porque é uma adaptação que depois a gente vai entrar em detalhes sobre isso. Olha que coisa linda isso aí, meu Deus do céu! É como eu sempre digo, eu fico arrepiado igual um gato grego vendo Cão de Hades mesmo.

RVRogério Vilela

Eduardo, Eduardo também é muito influenciado Levou aí, parceirão meu, ele escreveu toda a saga dos anjos e demônios, né, cara?

TBTHIAGO BRAGA

Você vê, Eduardo é o nosso Bernard Cornwell da nossa literatura brasileira. O cara é um gênio em mesclar ficção histórica. Um abraço para você, Dudu, te respeito demais, é um grande escritor. Então é isso, Cavaleiros do Zodíaco, eu causei esse meme. Aí depois, em 97, Veio o filme em 99, na verdade, aqui no Brasil, que começou em 97 lá. Veio outro filme da Odisseia que, tipo, aí eu já tinha 99, eu tinha 12 para 13 anos por aí. E aí aqui também abriu os meus olhos, né?

Caramba, eu nem lembro qual era a minha idade exatamente. Eu nasci em 87, faz as contas aí, 99, né? Então 12 anos mais ou menos, aproximadamente.

HHomer

Qual filme?

TBTHIAGO BRAGA

Então aqui A Odisseia mesmo. A Odisseia, o nome do filme é Odisseia, de um ator chamado Armand Assante.

RVRogério Vilela

Cara, eu não vi esse filme.

TBTHIAGO BRAGA

Ah, Vilela, assiste esse filme. É claro que a gente tá falando de um filme de 97, né, com a limitação tecnológica. Aí, isso aí, um low cost, né, um baixo orçamento. Mas ele fez uma representação tão linda, cara. É um filme divertido, não é um filme pesado, ele é divertido, ele tem cenas tensas, é bagunçado em relação batalhas e tudo mais. Um dia eu quero ainda fazer uma análise desse filme no meu canal, né? Mas é um filme que abriu, sabe, os meus olhos mais ainda.

Aí eu já tinha mais idade, eu tinha 12 anos. Então, cara, isso é incrível. Eu tava, acho que passou na sessão, na sessão, na sessão da tarde, não, no, cara, em algum desses programas do SBT à tarde, eu esqueci o nome, o nome do do programa que chamava, né, que passava sempre filme à tarde no SBT. E aí pronto, eu lembro de ir no colégio perguntando para os meus professores e tal, de história, né, geografia, como é que era, da onde que vem essa história.

E aí em 2002 saiu o CD de uma banda que eu amo, que me inspirou basicamente a ser o que eu sou hoje, que é a banda Symphoniex, que eu inclusive citei no meu último vídeo. Eu conheci os caras pessoalmente no show, maravilhosos, super simpáticos e agradáveis. E nesse álbum, os caras fizeram uma música de 25 minutos só sobre Odisseia. E, Vilela, dá para sentir o cheiro, dá para sentir a brisa, porque eles colocam efeitos especiais, eles colocam sons do mar, de águias, sabe?

Eles fizeram um épico nesses 25 minutos que eu falei, pronto, é isso que eu quero para minha vida. Eu quero inspirar as pessoas a fazer isso, né? Então depois eu me tornei professor de literatura, né, história. Por isso, por causa dessa influência. Essa banda é maravilhosa, Symphonic. Eu tenho esse álbum aqui, o álbum é fantástico, tá vendo? Esse é The Odyssey, o nome do álbum. A faixa é de 25 minutos, ó, e aí é dividida em partes, sabe?

Nas partes mais fundamentais da Odisseia de Homero, né? Os caras fizeram esse resumo. Então é isso, o que que eu tô querendo dizer com isso? O filme, como no teu caso, eles impactam muito jovens, pessoas mais velhas, pessoas muito mais velhas como você, né?

RVRogério Vilela

Então, sabe, a gente tem Muita gente dizendo inclusive que eu ajudei a construir o Cavalo de Troia, né?

TBTHIAGO BRAGA

Você ajudou a construir, o Peter ajudou a empurrar.

RVRogério Vilela

Se o Peter tivesse aqui, ele falava: e tua mãe tava dentro dele.

TBTHIAGO BRAGA

Exatamente. Então é isso, o filme ele entrega nesse sentido muito. A Odisseia tá vendendo demais, cópias e traduções da Odisseia estão sendo esgotadas no mundo inteiro.

RVRogério Vilela

Então bom saber disso, cara.

TBTHIAGO BRAGA

É exatamente.

RVRogério Vilela

Qual que você recomenda? Por exemplo, eu vou comprar agora uma para ler. Qual que é a primeira? É a primeira coisa que a pessoa vai perguntar, né? O que ler? São tantas versões. Qual que você leu e qual que você recomenda?

TBTHIAGO BRAGA

Eu tenho duas. A primeira que eu li é de um tradutor chamado Manuel Odorico Mendes, que é hardcore, é sangue nos olhos para você conseguir ler aquele poema, porque o cara traduz quase que num português arcaico. Então é uma parada assim, é uma das primeiras traduções que a gente teve em língua portuguesa, se eu não me engano, do início do século 20, pesadíssima, muito, muito difícil, com vocabulário muito rebuscado. Então, galera, todo respeito ao professor Odorico Mendes, mas não dá, principalmente para um público mais jovem.

Eu lembro que eu li quando era adolescente, mas eu li na força do ódio, porque Eu amava aquela obra, eu queria ler porque eu queria ter aquela sensação de que eu li, mas sofri demais, hein, sofri. Então o que eu recomendo para a galera principalmente é essa aqui, ó, é uma das mais recentes do professor Frederico Lourenço. Eu acho que essa obra, eu vi alguns seguidores, alguns inscritos dizendo que não estão nem mais achando porque parece que esgotou, mas eu imagino que eles devem reimprimir com essa demanda toda que tá acontecendo.

Então Essa aqui, Frederico Lourenço, Odisseia. Essa capa azul bonitona aqui é uma leitura muito fluida, muito fácil, também respeitando o verso homérico. Então ele não é, não faz uma adaptação, não faz uma tradução simplificada, não. Ele respeita o, ele respeita. Eu falei que eu sou geração Z, não sou geração Z não, eu sou millennial. Minha esposa mandou uma mensagem aqui, geração Z nada. Só que isso fique corrigido aí. Eu sou millennial, tá?

Geração Z é a galera agora, de 90 e pouco para frente. Muito bem. Então essa tradução aqui é fantástica, é muito de uma leitura muito fluida. E tem uma outra que eu tenho um carinho especial. Ela é um pouquinho mais difícil, mas também é muito fluida, também é fácil, que é essa aqui do professor Carlos Alberto Nunes. Ó, essa edição aqui é lindíssima também, ó, tá vendo? Usa tipo os black figures, red figures gregos, né, um estilo de arte assim, ó.

E o bom dessa aqui é que tem grego aqui dentro também, então é uma tradução bilíngue, né. Então tem grego e a tradução para o português, então você pode conferir, por exemplo, palavras usadas no grego e tal. Então recomendo essas duas, Vilela. Acho que você vai começar muito bem. Se for escolher uma, Frederico Lourenço. Se quiser ter uma versão um pouquinho mais rebuscada, mas igualmente fácil de ler, do Carlos Alberto Nunes, né?

Então são, são, sabe, então tá vendendo muito, a galera tá comprando no mundo todo. Eu tenho visto isso em jornais, em revistas. Então assim, só por isso o filme do Nolan precisa ser louvado, independente de qualquer coisa de acuidade histórica, que a gente vai entrar em detalhes. Então por isso que na minha análise, e já entrando na análise, né, e aí você pode comentar a hora que você quiser também, No meu canal Brazão de Armas, eu dei a nota enquanto filme, eu dei uma nota 7 para o filme.

Por quê, né? Como eu falei, eu particularmente não achei um filmaço que me empolgou demais a ponto, cara, que coisa incrível esse filme e tal, né? Enquanto filme mesmo. Mas é um bom filme, isso é inegável, né? É um bom filme. Eu acho que enquanto produção, enquanto efeito sonoro, o lance do IMAX, eu assisti em IMAX, Realmente ficou muito bonito. Só isso também já merece elogio por parte do Nolan. As atuações foram muito boas, né?

Tiveram os pontos baixos ali, mais fracos em relação aos efeitos. Acho que o som foi fantástico, os efeitos nos navios ali, sabe? As tempestades e tudo mais. Então acho que como um filme foi—

RVRogério Vilela

o som do arco, né, do cordão sendo esticado, aquela coisa, aquela tensão. Crescente, né, cara? Tem momentos do filme, são angustiantes, né? Do Ciclope, aquele dentro da caverna, aquele berro dele, né, cara? Cara, muito bom trabalho. Trabalho de som provavelmente vai ganhar algum prêmio, né, cara? Porque tá muito boa. E outra coisa também que você falou, que eu acho importante a gente dizer, que, cara, é a visão de um diretor. Tá aberta essa obra para outro cara chegar lá e outros mostrar uma outra visão de Odisseia, para outra pessoa chegar e mostrar outra versão de Ilíada e Odisseia.

É uma obra que tá aí no tempo para a gente fuçar, né? Eu já queria começar falando sobre a importância dessa história. Por que que essa história ressoa até hoje? Por que buscar uma história tão antiga e como ela comunica tão bem para hoje, que o mundo é totalmente diferente, cara? A gente tá vivendo uma outra realidade. É que na verdade o ser humano não muda, a essência é a mesma? O que que você acha?

TBTHIAGO BRAGA

É 3000 anos, né, Vilela? Virtualmente 3000 anos nos separa da Odisseia de Homero, que tecnicamente a gente usa o termo Homero, né, usa o nome Homero por uma questão de tradição. Não tem como a gente saber se foi uma pessoa mesmo chamada Homero que escreveu essa obra, porque enfim, não existe uma biografia, não existe uma certidão de nascimento de uma pessoa chamada Homero, né, que que nos atrele à obra definitiva ali. Mas o que tem dentro da Odisseia é uma jornada épica que cada um de nós podemos nos ver lá dentro, né?

Os desafios, a resiliência, a resiliência que Odisseu demonstra diante dos desafios, o não desistir, o sofrer e chorar por uma causa maior, é não se deixar levar e ser dominado por desejos e tentações, porque tem um objetivo maior à frente. No caso dele, o objetivo maior é Ítaca. Existem as deusas, as ninfas gatas, que querem ficar com ele, querem fazer dele um marido, querem dar imortalidade para ele. Mas na cabeça de Odisseu só existe uma coisa: casa, Ítaca.

E é lá que ele quer chegar, para encontrar a esposa dele mortal, que já está envelhecendo, e seu filho amado. Então a gente tem um romance, a gente tem uma saga épica de luta e confronto o tempo todo acontecendo dentro do próprio herói, que quer derrubá-lo, mas ele não se deixa derrubar. A gente tem o orgulho, o chamado hybris em grego, que ele demonstra ao mesmo tempo em que ele é piedoso com os deuses, ele teme os deuses, respeita os deuses, ele demonstra orgulho em relação a outras facetas da vida dele, e ele sofre por esse orgulho.

Ele tem amigos que atrapalham a vida dele, impedem ele chegar em casa. Muitos desses amigos, assim, muitos desses amigos querem impedir que ele retorne para casa através das ações deles. Então a gente tem esse, pessoas próximas ligadas a ele traindo ele. Então a gente tem uma miscelânea de circunstâncias e situações acontecendo com Odisseu que a gente se vê nele. E ele é o arquétipo do herói que cada um de nós almeja ser na vida, porque nós não queremos ser pessoas ruins, nós queremos ser pessoas boas que inspiram e que melhorem a cada dia.

Odisseu, ele melhora a cada dia enquanto resiliente, em especial enquanto teimosia. Então, quando você enfrenta os seus desafios, seus problemas de vida adulta, de homem adulto, você quer fazer o melhor que você pode para você deixar um legado. O Odisseu quer deixar um legado, seja para o mundo, seja para sua família. Então ele vive nesse constante desejo de evolução e de melhora, entregar o que ele pode entregar de melhor. Então eu acho que essa é a mensagem principal do Odisseu.

Ele é muito humano, ele é muito falho, ele é muito imperfeito, mas ao mesmo tempo ele quer ser bom, ele quer melhorar e ele quer demonstrar as suas qualidades através das suas ações, não simplesmente falar. Ele quer demonstrar isso através das ações. E acima de tudo, ele quer proteger a sua família. Existe algo que tá inerente dentro da Odisseia, que é o valor da família, o valor da casa, seja ela onde ela estiver. Mas cada um de nós temos uma casa para onde retornar no final do dia e recomeçar a jornada no dia seguinte, exatamente como E o que que significa essa volta para casa, né?

RVRogério Vilela

Porque a história inteira é ele voltando para casa, mas isso, isso num primeiro plano, né? Essa volta para casa é espiritual, é mental. Ele, essa trajetória do herói, né, que passa por uma grande aventura, ele é chamado por uma aventura, ele passa por uma grande aventura tem mentores, tem desafios que ele tem, ele volta transformado para onde ele saiu e trazendo alguma coisa de volta. Ele nunca volta o mesmo, né? Ele volta, ele até nesse mito do herói, né, que a gente estuda tanto, que eu não sei se nasceu daí ou isso também é uma, é uma, é um recorte de várias outras histórias que formam esse mito desse herói, ele na verdade ele acaba morrendo para a vida antiga e nascendo para uma vida nova.

Da onde vem esse mito do herói, essa volta para casa com o tal do elixir, ou com essa, com esse novo ser que aconteceu? O que que, da onde vem isso? Vem do mito grego? É mais antigo do que isso? Tem relatos de histórias mais antigas e é um recorte? Homero é o autor dessa história? Ele só relatou? Ou na verdade é uma figura que não existe? Existem tantas dúvidas em relação a isso, né?

TBTHIAGO BRAGA

É, não, tem muitas camadas. Justamente esse é o lance da Odisseia, né, dos épicos gregos em especial, porque eles evocam muitas camadas de visões específicas, como você falou, até camadas espirituais, porque o espiritual tá envolvido dentro da Odisseia também, os deuses estão envolvidos. Só que o aspecto do retorno de Odisseu para casa, ele é real, ele é literal dentro da obra. Ele não quer retornar para o estado de paz de espírito ou algo do tipo, mental, né?

A casa é algo etéreo. Não, é algumas interpretações às vezes acabam extrapolando demais o que a obra também traz na sua essência. Existe um lar para Odisseu, o lar é Ítaca. Existe um palácio para onde ele tem que retornar, e o seu lar em especial, ele é representado pela sua família. Então é algo muito literal mesmo, é algo muito físico, é material. Não é, sabe, um plano espiritual onde Odisseu de alguma maneira precisa encontrar o seu refúgio ou seu lar, né?

Bom, as pessoas podem interpretar da maneira como quiser esse caso, mas quando entra esse lance da interpretação, se você quiser, você pode interpretar tudo de qualquer maneira que vem à sua cabeça. Você pode olhar um pedaço de pedra e achar que aquela pedra ali que tá no seu caminho é um presente de Deus para você. Então, sabe o que eu quero dizer? Quando a gente acessa a obra, a gente também precisa acessar a obra dentro de uma coerência e uma coesão dentro do que o próprio autor escreveu ali, né? Essa é uma das críticas que eu depois tenho inclusive a fazer sobre o filme.

RVRogério Vilela

Mas a gente tem essa figura do herói simbolizado nele, é uma figura que esses livros consolidam essa imagem para passar como alguma coisa moral? Ó, essa é uma figura de herói, esse é um modelo. Ou existiam vários tipos de heróis e esse acabou ficando como modelo grego? É isso que eu queria entender.

TBTHIAGO BRAGA

Sim, sim. Assim, a trajetória do herói, o herói enquanto um símbolo, um ícone único e universal, ele remete a múltiplas culturas, né? Talvez um dos mais antigos, até mais antigo do que a Odisseia, é o próprio Gilgamesh, né, da região da Mesopotâmia.

RVRogério Vilela

Então a gente tem até essa história, tem até trechos parecidos, né, ele desce ao inferno também.

TBTHIAGO BRAGA

Sim, sim. Então você, você vê interpolações acontecendo. Por isso que eu acho que é um argumento estúpido, infelizmente algumas pessoas tentam fazer isso ao longo do tempo, que é isolar as culturas e dizer cultura X copiou, copiou cultura Y.

RVRogério Vilela

Não, sabe, tá tudo. E tem a essência humana que se ela aparece em vários lugares do mundo, ela vai surgir naturalmente, né? O medo, o desconhecido, medo desconhecido, tentar explicar fenômenos naturais. As culturas vão meio que achando um caminho, cérebro é o mesmo, né? Muda, muda as regiões, mudam explicações, mas A essência é a mesma, né?

TBTHIAGO BRAGA

Exatamente, exato. Esse é o ponto. Então as necessidades humanas meio que se conectam nesse espectro, né, da jornada e do herói. Então esse lance da cópia, civilização X copiou ou roubou a civilização, isso é um dos argumentos mais estúpidos e simplistas que tem quando a gente entende que sociedades não viveram isoladas. Sociedades o tempo todo trocaram informações. Algumas sociedades se desenvolveram mais rápido ou primeiro do que outras, por circunstâncias específicas, não por uma questão de inteligência superior.

Por exemplo, o Egito é uma civilização mais antiga do que a Grécia, mas o Egito já vinha de séculos antes da Grécia como um reino unido, sob um imperador. As condições onde a ciência do Egito, por exemplo, se desenvolveu era uma condição unitária, todos estavam juntos e conectados dentro de uma civilização. A Grécia era um emaranhado de cidades-estados. Era uma cidade-estado independente da outra. Por isso que se chama cidade-estado, né?

Era como se fossem reinos independentes. Atenas era uma cidade, Esparta era outra, Micenas era outra, Pilos, sabe, Tebas, Macedônia. Então cada uma tinha o seu desenvolvimento tecnológico, de certa forma, a sua visão de lei, a sua visão de mundo. Só que elas estavam conectadas culturalmente dentro do espectro grego. Eles falavam a mesma língua, tinham os mesmos deuses, então eles se viam como sendo, de certa forma, um povo que estavam conectados historicamente pelos seus heróis, inclusive.

Aí a gente tem Odisseu, a gente tem Aquiles, a gente tem Heracles, que é um dos maiores heróis também da cultura grega, a gente tem Helen, que é uma das, sabe, um dos que fundaram o povo heleno, que é daí É daí que vem o termo helenos, né, no período helenístico de Alexandre o Grande. Então a gente tem, sabe, a Grécia é uma Grécia muito fragmentada. Então em que, como uma Grécia extremamente fragmentada de povos e cidades-estados pequeníssimas conseguiriam competir com o Egito unido sob um estandarte, sob um faraó que obviamente tinha do seu lado pessoas habilidosas que fariam a máquina funcionar.

RVRogério Vilela

Cara, que fantástico que você tá falando, porque as pessoas têm que entender que o que une as pessoas não é simplesmente ter um cara e falar, a partir de agora todo mundo é nós, nós é nós. Não é assim. Tem que ter alguma coisa maior que você se sinta impelido a ir para uma guerra. Por que eu vou para uma guerra Tem que ter um motivo, né, cara? E quando a gente lê Sapiens, né, que o ser humano começa a idealizar essas coisas, né, que são a ideologia, religião, essas coisas que levam as pessoas a se unirem por algum momento, por alguma razão, é uma coisa tão louca você pensar, né, cara, que as pessoas vão para guerra por uma ideia.

É uma ideia que alguém, que você acredita tanto que você é capaz de morrer por ela, é capaz de defender e capaz de se entender como um grupo. Ó, esse é meu grupo. Mas por quê? Porque hoje em dia, porque eu torço pelo mesmo time, porque a gente vai na mesma igreja, porque a gente gosta do mesmo, da mesma ideia. Cara, é engraçado como até hoje a gente, a gente, o ser humano não mudou, é o que você falou. O Egito tava consolidado.

Como você vai vencer o Egito? Tem que ter uma grande ideia, né, cara? E aí entra, entra uns mitos. Isso, cara, isso é de arrepiar, essa parada, cara, porque não é uma coisa pensada, é uma coisa natural que acontece. Se resetasse a humanidade, a gente provavelmente iria, seriam novos mitos, mas iria acontecer tudo de novo, concorda?

TBTHIAGO BRAGA

Exatamente, exatamente. São questões não só culturais, como você falou, de ideologia, né, de visão de mundo, de lutar por um como foi o caso da democracia na época das guerras greco-persas, né? Isso é uma realidade, embora tivesse muitos gregos que eram contra essa democracia também, que achavam ela muito solta, que envolvia muitas pessoas. E quando isso acontece, acaba se perdendo o controle e a sociedade colapsa. Platão era um grande crítico da democracia ateniense.

Mas então, sabe, essas comparações de isolar povos e, ah, o Egito era muito superior à Grécia Antiga, mas as circunstâncias do Egito favoreceram muito mais a produção de ciência do que aquela civilização fragmentada que era a Grécia. E Atenas, mesmo assim, foi um grande berço de muita— porque quando se fala que o Egito, por exemplo, criou a matemática, a geometria, quando se diz isso, o que muitas pessoas querem dizer é: está vendo?

Não foram os gregos que inventaram. E aí eles entram numa outra falácia. Logo, se não foram os gregos que inventaram, os próprios gregos reconhecem que os egípcios tinham a sua matemática e haviam criado, logo o que os gregos fizeram foi copiar ou roubar essa matemática. Mas não é esse o caso. Estudos acadêmicos dos mais variados, eles mostram pra gente que os gregos reconheciam que os egípcios, eles tinham a sua matemática desenvolvida primeiro do que eles próprios.

Só que a matemática do Egito era uma matemática prática. Era uma matemática que visava resolver problemas. Queremos construir essa pirâmide, o que nós fazemos? Usamos a matemática. Então, sabe, era muito prático, era material realmente a matemática egípcia. Já os gregos elevaram a matemática a um espectro que os egípcios nunca alcançaram antes. Então não é como se pegamos e copiamos, acabou. Não, caramba, os egípcios, eles, tá vendo, eles entendem da matemática, que legal.

Vamos pegar essa base dessa matemática e vamos levá-la a níveis não compreendidos pelos próprios egípcios. E aí entra Pitágoras, e aí entra outros grandes matemáticos, e isso entra na área da medicina também, do próprio Asclépio, né, que existe a lenda da criação da medicina a partir daí. Então as sociedades, elas vão se construindo dentro de pilares ou bases, e elas próprias vão desenvolvendo aquela arte, aquela ciência, a níveis que a outra civilização não alcançou.

Então é isso que eu quero dizer. Mesmo Atenas isolada, uma cidade-estado, conseguiu elevar o nível da matemática, da geometria, da astronomia, que os egípcios nunca alcançaram antes. Mas os egípcios eram bons matemáticos, eles tinham a prática da matemática. Então é isso, eu acho que a galera precisa entender isso. Isolar sociedades exclusivamente, querer trazê-las como única, exclusivamente o ápice, até por uma questão ideológica, acaba simplificando muito essa, essa conversa, né?

Então, dentro dessa perspectiva, os gregos foram olhando para os seus heróis, para os seus desenvolvimentos, né, as suas conquistas dessa maneira: caramba, nós, nós somos uma grande civilização, sim. Nós respeitamos os egípcios, eles respeitavam os egípcios, isso é indiscutível, mas nós somos uma grande civilização também. Olha o que nós conseguimos alcançar, inclusive uma união panehelênica uma união panehelênica de cidades-estados conseguiu repelir o maior império da época, o Império Persa.

Sabe, as guerras greco-persas serviram de um aspecto unificador para o povo grego que nunca eles tinham experimentado isso antes, desde a Guerra de Troia, que também de alguma maneira foi um aspecto unificador do povo grego. Depois eles se despedaçaram todos. De novo. É, Grécia é assim. O problema da Grécia, se a Grécia tivesse permanecido unida sob Alexandre, por exemplo, e não tivesse— é aí, eu acho que eu falei o ponto aqui que a galera vai conseguir entender.

Grécia é fragmento. A Grécia é uma civilização fragmentária na sua história inteira. Conseguiu-se uma união breve e temporária com Felipe, pai de Alexandre, e com Alexandre. Depois se fragmentou de novo. Os generais de Alexandre herdaram o Império Helênico, né, fragmentado também. Houve a fragmentação. Aí, meu amigo, chegou Roma. Aí Roma uniu todo mundo na base da porrada, mas uniu. Então é isso, o povo grego conseguiu conquistar tantas coisas incríveis mesmo sendo fragmentado.

Se eles fossem um povo unido, concentrado em um objetivo como era o Egito antigo, eles conseguiriam muito mais. Isso aí não há a menor dúvida.

RVRogério Vilela

Então vamos, vamos falar da história. Então, para quem não tem a menor ideia do que é Ilíada e Odisseia, estamos falando de que história a gente tá falando?

TBTHIAGO BRAGA

Então, nesse ponto, a gente está falando de basicamente século 9 e 8 antes de Cristo, né?

RVRogério Vilela

Mas são as duas obras, são histórias são histórias comprovadas, são lendas misturadas com histórias.

TBTHIAGO BRAGA

E Ilíada e a Odisseia, né, são duas obras atribuídas ao mesmo autor, Homero. E como eu falei, a gente não tem evidência de que— evidência real. Existe uma tradição milenar que atribui a Homero, né. Mas essas duas obras, elas— a gente precisa entender um aspecto fundamental dentro delas. Quando a gente acessa essas obras aqui A gente não acessa essas obras do ponto de vista de ficção. É incorreto a gente dizer que a Ilíada e a Odisseia são obras de ficção.

Por quê? Quando elas foram criadas e escritas, primeiro que a gente não pode dizer que Homero que inventou essa história. Não foi Homero que sentou e escreveu essa história. Na época de Homero, a escrita tava começando a recomeçar na Grécia. Olha que louco isso, Vilela. Nessa época de Homero, A escrita estava renascendo de novo, porque ela tinha sido perdida justamente por ocasião do colapso da civilização micênica, que é do período da Guerra de Troia.

Então, quando houve a Guerra de Troia, a civilização grega se fragmentou tanto, se quebrou tanto em guerras, catástrofes naturais, terremotos, que eram muito comuns naquela época, que as civilizações colapsaram. Então, muitos povos começaram a se dispersar, a sair das cidades, que existiam naquela época, indo para outras regiões, formando outras cidades e basicamente começando do zero de novo. Então, por isso que eu digo que o povo grego, apesar de todo esse atraso ao longo de tantos séculos, conseguiu criar coisas incríveis, né, que são lembradas até hoje com muita justiça.

Então, nessa época aqui da Ilíada e da Odisseia, em que Homero, onde se atribui essa essa tradição, de onde ela vem para o papel, basicamente, né? A gente tá falando de uma obra mitológica, a gente tá falando de um mito, em grego mythos, que não é ficção, não é uma história como a gente hoje encara a Marvel, por exemplo, a DC. A DC, os personagens super-heróis e tudo mais, eles foram criados com um propósito. Qual o propósito ali?

Basicamente entretenimento, não é? Por mais que tenha valores ali, né, o valor de justiça, de luta, ideal, beleza, mas a gente tá falando de personagens inventados, criados para entretenimento, ficção e fantasia. No caso do mito, não. O mito para os gregos, a própria palavra mitos representa palavra, discurso. Então para os gregos eles estavam aqui basicamente contando a história deles. A história que eles acreditavam que era real.

Isso não significa que a gente hoje, né, isso não significa que a gente hoje vai acessar essas obras aqui e vai acreditar. Não, então você tá querendo dizer, Thiago, que é para a gente acreditar no que tá escrito aqui? Então você acredita em ciclope? Eu já ouvi uns argumentos de 5ª série assim. Eu até entendo o aluninho meu de 5ª série fazer uma pergunta dessa, mas sei lá, passou de de 12 anos de idade já fica complicado ouvir isso.

Então quer dizer que, Thiago, você tá falando que é para a gente acreditar, ou você acredita que Ciclope existiu, que Zeus existiu, que Helena nasceu de um ovo? Ai, meu Deus do céu! O que eu explico para a galera é o seguinte: quando a gente acessa essa obra aqui do nosso ponto de vista hoje, a gente simplesmente tá fechando os olhos para uma perspectiva histórica de um povo. Que acreditava naquilo. E se você ler isso aqui como se você tivesse lendo um gibi da Marvel, você não vai entender nada, você não vai entender absolutamente nada.

Porque você precisa entender que tudo que é descrito aqui tinha uma razão para ser descrita. Por isso é um mito. Ou seja, os gregos não conseguiam entender por que que havia tempestades que acabavam com lavouras, por exemplo, porque que haviam terremotos que destruíam cidades. A gente tá falando de gregos de 1200 antes de Cristo, né, de 1000 antes de Cristo. Então eles tinham que dar uma explicação para aquilo. Qual é a explicação?

Os deuses. Ah, quem causa o terremoto e acaba com as cidades é Poseidon. E o que que a gente faz enquanto ser humano para evitar que isso aconteça? Apaziguar Poseidon. A gente tem que construir templos, a gente tem que construir, sabe, monumentos, fazer estátuas, a gente tem que cantar para Poseidon, tem que fazer sacrifícios para ele. Então é isso, quando a gente acessa essas obras, Zeus, por que que cai raio? Por que que as tempestades estão destruindo as nossas lavouras?

Ah não, é porque o deus das nuvens, que acumula nuvens, Zeus, ele tá com raiva da gente. A gente fez alguma coisa. Não, então vamos fazer sacrifício, vamos construir templo. Então é isso que a gente precisa fazer, a gente precisa acessar essas obras do ponto de vista de um mito, de que para os gregos antigos eles acreditavam naquilo. Por isso que a gente tem que respeitar essa obra enquanto um mito. É de respeito tratar essa obra como fantasia, porque para os gregos que escreveram não era fantasia, era real, era uma explicação que era dada por eles próprios histórias para o mundo que eles viviam.

Então esse é um aspecto fundamental que a galera precisa entender. É um mito isso aqui, e um mito deve ser encarado dessa maneira. Então quando os gregos começaram a escrever, e Homero a princípio cantava porque ele era um bardo, um aedo, ele começou a cantar e começaram a escrever, eles começaram a cristalizar algo que a princípio, é o que se acredita, já era cantado muito tempo antes. Existia uma Odisseia primitiva, uma Ilíada primitiva, que possivelmente deve ter vindo oralmente desde o período micênico da Guerra de Troia.

Mas isso são teorias, são especulações, não tem como provar que de fato aconteceu. Então essa Odisseia que nós temos, ao longo dos séculos, ela também foi sendo adaptada, ela foi de certa forma sendo adaptada ou foi sendo escrita dentro da perspectiva do que aquele povo estava entendendo da sua própria história ali, até que chegou-se uma versão definitiva dessa Odisseia, que a princípio, de acordo com fragmentos, teria sido concluída a partir do século III antes de Cristo.

Então, a nossa Odisseia, ela basicamente vem de muitos fragmentos encontrados do século III antes de Cristo até uma versão definitiva do período bizantino. Mais ou menos por volta do século 9 a 1000 dentro da Era Comum, né, da era cristã. A gente tá falando aproximadamente do século 10. Então a gente tem aí uma Odisseia sendo cristalizada ao longo de milênios, mas chegamos a uma Odisseia definitiva. Se ela foi alterada desde o início, a gente não tem como saber.

O que a gente tem é: existe já uma Odisseia pronta que chegou até nós no último milênio, pelo menos, né?

RVRogério Vilela

E em relação a provas arqueológicas, assim, tem muita gente fala: aconteceu a Guerra de Troia? O Cavalo de Troia é uma história real? É uma artimanha inventada? O que que a gente— não sei se a gente pode entrar nessa, nessa seara e tem a ver com a obra, ou não faz diferença.

TBTHIAGO BRAGA

Não, não, já é. Então, por isso que eu falei para galera, né? Tô comentando aqui inclusive e destacando isso. Não se trata de uma ficção porque ela é baseada em um período histórico, e esse período histórico ele é real. A gente não sabe se uma guerra, a Guerra de Troia, existiu. A Guerra de Troia, né, esta Guerra de Troia citada por Homero. Mas a gente sabe que existe uma Troia. Uma Troia já foi descoberta por um arqueólogo alemão chamado Heinrich Schliemann, no finalzinho do século 19, ele escavou na região do Helesponto, que era hoje no iniciozinho ali na ponte entre a Turquia e a Europa, né?

Então foi descoberto ali uma civilização, uma cidade que foi destruída por guerra no período que se passa a Guerra de Troia. Então a gente tá falando de eventos que remontam para materialização histórica, que são narrados aqui dentro. Então, como eu falei, embora a gente não tenha como comprovar, porque isso é basicamente impossível, né, dentro das limitações científicas hoje, de que existiu a Guerra de Troia, mas existiu uma civilização na mesma localização geográfica que no mesmo período passou por constantes guerras e destruição e que se desfragmentou ou deixou de existir naquele período.

Então, novamente, nós temos aí uma descrição dentro de uma obra mitológica que está ancorada em realidades materiais e históricas. Por isso que a Odisseia é muito mais do que um mero mito, nem mesmo um simples mito que explica a história dos gregos. Ele também está ancorado em realidade, ele está ancorado em em materialização histórica que já foi comprovado. Então sim, a gente pode dizer que existiu uma Troia, embora alguns também possam discordar dessa hipótese de que existiu uma Troia específica, uma, uma cidade.

Mas de acordo com todas as localizações, essa teoria ela é muito aceita pela academia também.

RVRogério Vilela

E Helena? E a figura de Helena, do rapto dela, onde ela tá localizada na história? É uma metáfora, a guerra foi por causa disso, foi uma desculpa. No filme, no filme inclusive eles dão uma outra conotação que é diferente do livro, né, pelo que me parece.

TBTHIAGO BRAGA

É, então esse é um dos pontos que já entrando no lance do filme, né, que eu acho que aí já a gente já começa a fazer umas pontes bem interessantes, né. Eu acho que o filme enquanto adapta, enquanto filme, né, como eu falei, ele é um bom filme. Filme. Eu dei uma nota até legal, na minha opinião, acho que foi uma nota justa, uma nota 7 para o filme. Mas enquanto adaptação histórica, enquanto adaptação literária dentro da Odisseia em especial, é um dos piores filmes que eu já vi na vida de adaptação.

RVRogério Vilela

O filme, ele tem muito, não é, não sou detalhes, então ele é a cerne da parada. Erra. Que eu lembro de você comentando no trailer já dos capas do Elmo, sim, da figura de Helena, né, e mais alguma coisa que você já tinha visto no trailer. Então tem mais coisa a partir do filme que você viu então de problemas.

TBTHIAGO BRAGA

Isso, eu já queria, sim, porque o assunto é extenso, a gente já vai fazendo a ponte histórica e literária o tempo todo aqui porque faz parte desse desse cerne que o filme tenta alcançar, né? É porque a galera precisa entender o seguinte: quando o argumento é, é um filme, tem discussão? Quando o assunto é, não, o cara simplesmente quis fazer um filme, acabou, é a visão dele, ele quis fazer o filme do jeito como ele quer, do jeito como ele quis fazer, contratar os atores, as atrizes que ele quis fazer, A visão do Nolan sobre alguma coisa, aí tudo bem.

Exato, ele e a equipe dele tem direito de fazer o que ele quiser. Uma empresa privada que tem os seus recursos privados investidos ali. Então se ele quiser colocar o que ele quiser, ele quiser colocar sabre de luz na Grécia Antiga, ele bota, meu amigo. Você vai fazer o quê, Vilela? Você vai fazer o quê? Claro, entendeu? Pode, vai dar ruim porque muita gente não vai assistir.

RVRogério Vilela

Os navios flutuando no mar, entendeu?

TBTHIAGO BRAGA

Colocar iate lá, entendeu? Odisseu vai pegar um iate e vai viajar pelo Mar Mediterrâneo de iate tomando whisky.

RVRogério Vilela

Não tem problema, patrocina aí, ele coloca os carros elétricos, aí tá certo.

TBTHIAGO BRAGA

Tá pegando um sol, tá com o olho ardendo, bota um Ray-Ban lá, entendeu? Pronto, cara, ele faz adaptação que ele quiser enquanto filme. Então eu não discuto filme, né?

RVRogério Vilela

Agora a galera tem que entender que vamos analisar o filme com acuidade. Então, partindo desse pressuposto, não fiquem ofendidos.

TBTHIAGO BRAGA

É isso aí. Se você não quer que o seu filme, que você é fanboy de Nolan, porque tem muita gente fanboy de Nolan, e outra, gente, relaxa, gente.

RVRogério Vilela

Você gosta, a opinião do Uma pessoa não tem que mudar o seu gosto sobre alguma coisa, não é?

TBTHIAGO BRAGA

Vilela, a gente tá batendo papo aqui, eu tô dando a minha visão para você. Os caras no chat vão piar porque eles não aceitam que ninguém tenha uma opinião. Não fala do meu Nolan, não fala do meu Nolan. Exato.

RVRogério Vilela

E olha que eu sou fã do Nolan e odiei Tenet, mas eu sou fã. Mas é um cara normal, normal. É que o que eu gosto do Nolan Eu acho que você vai concordar comigo, é que ele ama cinema e ele consegue fazer um evento para aquele filme. A galera se mobiliza para falar, cara, vamos ver o que esse cara vai fazer. Ele não é— ele tem esse lance, ele faz um marketing, ele cria todo um esquema que você fala, cara, eu tenho que ver, tá todo mundo comentando, eu tenho que ver Oppenheimer.

Eu tenho que— cara, o cara levou uma massa de galera para ver um filme de um personagem que muita gente nunca tinha ouvido falar, cara. Olha que doido. Então assim, ele tem os méritos dele, ele cria um evento realmente em volta do filme, como Spielberg fazia antigamente, né? Então ele tem um mérito. Agora vamos, eu quero mergulhar nessa parte histórica e na parte da coidade mesmo.

TBTHIAGO BRAGA

Vamos lá. Exatamente. Então, entendido isso, que o filme é dele, ele faz o que ele quiser, eu não estou criticando o filme. Fato é, qual é o nome do filme?

RVRogério Vilela

Odisseia. Podia ser, podia ser Nolanseia.

TBTHIAGO BRAGA

Exato, é o que eu falei para galera. Exatamente, A Odisseia de Nolan. Beleza, eu vou dar um exemplo que a galera, espero que a galera fanboy não vai entender, porque fanboy serve para espumar de raiva. Quando critica o filminho preferido deles. Mas vou dar um exemplo. Existe uma obra que é uma das obras mais famosas do século 20. Você já deve ter ouvido, se você nunca leu, mas eu acho que você já deve ter ouvido falar, Ulisses, de James Joyce.

Cara, essa obra ela é um dos pilares da literatura do século 20. Ela se inspira James Joyce se inspira, essa obra ela é inspirada na Odisseia, ela tem todo o arquétipo, o nome do cara é Ulisses inclusive, é um irlandês, se não me falha a memória, que mora em Dublin. Só que o que James Joyce faz é converter a Odisseia antiga numa Odisseia moderna, ou seja, não vai ter os deuses, não vai ter mitos, não vai ter os monstros, o que ela faz é transpor essa história para a nossa época.

Então, meu amigo, eu vou fazer agora uma análise do livro do James Joyce e vou dizer assim: cadê o Ciclope aqui com o olho na testa? Cadê Zeus aqui soltando raio? Cadê Atena? Não, cara, porque o objetivo genial do escritor foi transportar a Odisseia para uma realidade moderna. Então, a pessoa, o Odisseu ou Ulisses lá, ele está enfrentando os desafios dele no dia a dia dentro de Dublin, sabe? Enfim, tendo que retornar para casa, enfrentando os desafios ao lidar com as pessoas, ao lidar com o patrão, e é isso.

Então, outro exemplo para a galera entender: a série Sherlock Holmes, da BBC, com Benedict Cumberbatch. Não sei se você já viu, cara.

HHomer

Gosto.

TBTHIAGO BRAGA

Que série linda, cara! Maravilhosa aquela série. Se passa na Londres moderna. Pois é, é uma transposição do Sherlock Holmes do século 19, do período vitoriano. Então a proposta do Sherlock Holmes da BBC foi fazer uma transposição para era moderna de uma história. Então, se Nolan tivesse feito isso, um exemplo, ah, eu quero, eu quero colocar um fuzileiro americano para ser o Odisseu depois da guerra do Iraque, meu amigo, esquece história.

No máximo que você vai tentar entender ali são as conexões, né? Tá conectado como aqui? Foi conectado Odisseu nessa, nesse lance aqui dessa batalha? Foi conectado como? No máximo que você vai conseguir compreender isso. Mas você não vai exigir os deuses, você não vai exigir os heróis, você não vai exigir os mitos acontecendo enquanto mitos, né? Então esse é o ponto, é para a galera entender isso. Dito isso, o choro vai acontecer.

HHomer

Vamos lá.

TBTHIAGO BRAGA

Mas dito isso, vamos para o lance, vamos para o lance da, da acuidade histórica, né? Começando por Helena, né? Infelizmente, quando você tenta argumentar aqui Do ponto de vista histórico, e novamente para a galera entender, 99% das pessoas que estão falando sobre A Odisseia, o filme A Odisseia, eles estão tentando falar de algum ponto de vista literário ou histórico. Isso é um fato. Eu não tenho visto ninguém dizendo é só um filme, esquece tudo, ignora tudo e vai só pelo filme.

Não, a galera não tá fazendo isso. A galera tá tentando de alguma maneira ancorar a história, a Odisseia do Nolan, filme do Nolan, dentro desse aspecto literário. A galera tá tentando fazer isso, a galera tá tentando trazer explicações para validar as escolhas do Nolan. E aí que entra a história então, para tentar explicar melhor porque que Nolan fez determinadas escolhas e onde tá certo ou errado essas escolhas. Afinal de contas, como a gente disse, ele escolheu falar de uma obra chamado Odisseia.

Então é inevitável que quem conhece minimamente a obra vai encontrar ali incoerências ou coerências dentro do que tá sendo falado ali, certo? Então esse é o primeiro ponto que a galera precisa entender. O debate, né, as conversas têm sido sobre representação histórica literária, sobre Helena. A primeira polêmica, Lupita Nyong'o. Vilela, eu sou um cara muito autêntico, Eu não, eu não, eu não me furto de dizer o que eu penso, obviamente dentro de uma perspectiva de história, literatura.

Quando eu falo alguma coisa, eu falo baseado nisso aqui. Eu não dou minha opinião, eu não digo o que eu gostaria, o que eu acho que deveria ser feito. Não, se estamos falando sobre Odisseia e o meu público, que a esmagadora maioria dele, sabe, gostou demais dos meus vídeos, é o vídeo mais assistido da língua portuguesa sobre o filme, inclusive. Então fico assim honrado de saber que a galera gosta do que eu falo, porque sabe que eu falo baseado no máximo possível evidências, né?

Do ponto de vista literário, histórico e mitológico, dentro dessa concepção do mito, Helena de Troia era uma grega branca. Esse é o primeiro aspecto que eu deixo claro para galera: o Nolan tem o direito de colocar quem ele quiser no filme dele. Não estamos discutindo o direito dele escolher quem ele quiser. Ele poderia escolher um mongol, por exemplo, para representar Odisseu. Tá tudo certo, é liberdade artística. Não estou falando da Lupita Nyong'o enquanto atriz ter sido escolhida, não.

É porque quando você faz observação, galera, na história, na literatura grega e na cultura grega, Helena de Troia sempre foi representada como branca. Beleza, dito isso, Nolan faz a escolha que ele quiser. O problema é que a galera tá começando a tentar, ao longo desses meses, desde que começou a surgir o lance da Odisseia, a galera tá tentando usar a história para validar essa escolha. Então, quando a galera tenta fazer isso, isso já é prova em si de que não basta apenas dizer é só um filme.

A galera não tá satisfeita em é só um filme, não. Eles gostam de Nolan demais Porque eles, sabe, tanto que eles precisam ancorar isso dentro de uma lógica. E a escolha não foi em vão. Se o Nolan escolheu, é porque ele sabia o que ele tava fazendo, e isso tem precedente histórico. Muito bem. O que a galera tem dito, e para tentar minimizar essa questão da escolha histórica, que a Helena poderia ser quem ela quisesse, ou qualquer pessoa pode imaginar a Helena que a pessoa quisesse.

Um dos primeiros argumentos agora tão surgindo, tão pipocando na internet, é que Helena nasceu de um ovo, filha de Zeus e de Leda. Zeus se transformou num cisne, Helena nasceu de um ovo. Esse é o argumento. Logo, Helena nascendo de um ovo, que acuidade histórica nós queremos de uma Helena nascendo de um ovo? Mas a gente não tá querendo acuidade histórica dentro da Odisseia. A gente tá querendo uma acuidade cultural. Como que o povo grego que via aquela história e lia aquela história e se via naquela história entendia aquele personagem?

Helena nasceu de um cisne. Zeus gerou um bebê junto com Leda, uma grega, e nasceu Helena de um ovo. Se a gente seguir o argumento do cisne, Me mostra uma arte de Helena com pena e bico. Você não vai encontrar nenhuma arte que seja de uma Helena que nasceu de pena e bico. Então, para os gregos, eles tinham a inteligência suficiente para entender que aquele aspecto de nascer de um ovo era algo etéreo que divinava Helena ainda mais, transforma, tirava ela de um plano simplesmente humano de nascer de dois pais, né, de dois humanos em algo assim.

Você imagina a molecada na Grécia Antiga comentando: caraca, galera, não, Helena nasceu de um ovo! Que isso é farmar aura demais! Helena farmou, Helena nasceu farmando aura, meus amigos, nasceu de Zeus de um ovo! Ó, entendeu? A galera, eu fico imaginando os gregos farmando aura nascendo de um ovo lá, entendeu? Construindo um ovo e brotando assim. Brincadeiras à parte, o que eu tô querendo dizer com isso é: os gregos não entendiam esse lance de Helena de Troia nascer de um ovo como tendo impactado fenotipicamente Helena de qualquer maneira.

Helena nasceu de um ovo dentro dessa perspectiva, e vamos lembrar que não foi Homero que disse que Helena nasceu de um ovo, é uma tradição posterior, não tá dentro da Ilíada nem da Odisseia essa menção.

RVRogério Vilela

Ele cita alguma coisa sobre a origem?

TBTHIAGO BRAGA

Não, não, não. Não, ele simplesmente cita Helena. Não, essa tradição é posterior. O primeiro exemplo real, porque a gente tem um escritor chamado Próclus que fez uma referência no final do Império Romano, no final do século 5, antes, depois de Cristo. A gente tá falando em 470, 450 depois de Cristo. Esse tal de Próclus, um escritor romano, gregorromano, mas dentro do período do final do Império Romano, ele fez referência a uma obra que possivelmente existiu no século 7 ou 8, um pouco depois da obra de Homero.

Mas esse texto está perdido, ele basicamente só é representado nessa obra que é muito posterior, desse escritor chamado Próculos. O que a gente tem de mais recente basicamente é Eurípides. Eurípides, o grande dramaturgo grego, né, o pai basicamente do teatro grego, né, ateniense. Então ele faz, cerca de 400 anos depois de Homero, basicamente o que seria a primeira referência, se não me falha a memória, do que é Helena nascendo de um ovo, né.

Mas novamente, para os gregos, Helena nascer de um ovo em nenhuma medida tirava qualquer aspecto da beleza do que era ser uma grega para os gregos. Era só uma conexão com o divino que eles tinham dentro desse aspecto do ovo. Se você for levar em consideração a cultura grega, como que os gregos representavam Helena? Em toda a iconografia grega, não só em Homero, por exemplo, não só iconografia quanto textos e obras literárias. Em Homero a gente tem o epíteto o epíteto se referindo a Helena como Helena de braços brancos.

Isso é um epíteto definitivo que mostra para a gente como a tonalidade da cor da pele de Helena era algo que, para os gregos, era valorizado a ponto de ser mencionado. Mas a gente não pode entender a história grega, Vilela, isolando uma fonte. Não, deixa eu ver o que Homero, apenas Homero, diz sobre Helena. Esquece os gregos, esquece a evolução histórica diacrônica, e vamos focar só no que Homero diz. Se a gente fizer isso, a gente não vai saber nada da cultura grega, em hipótese nenhuma.

Primeiro que entender os textos homéricos é um grande desafio até para os tradutores. Então, o que a gente precisa fazer é: o que os gregos antigos entendiam sobre Homero? Aí a gente começa a ampliar um pouco mais a nossa visão, porque o lance da cor, e isso a galera precisa entender, para os gregos, novamente a gente está falando de história aqui, A gente está falando de literatura, a gente está falando de cultura. Esquece o filme, o Nolan bota quem ele quiser no filme dele.

Quando a gente passa a tentar compreender a cultura grega, a gente vai ver que a cor branca, a cor pálida, para as mulheres era algo importante, fazia parte da cultura grega. Os gregos viam mulheres brancas como sendo bonitas, era o ideal de beleza do povo grego mulheres serem brancas. Logo a gente consegue compreender por que que Houve uma união panehelênica de gregos lutando para resgatar uma grega que era tida como a grega mais bonita da história da Grécia, Helena.

Helena não era qualquer mulher, ela é simplesmente abaixo, acima dela só Afrodite, basicamente, e obviamente as deusas, Atena, enfim. Mas humana, porque Helena é considerada como sendo humana, ela tem um pai Deus, mas ela é humana. Para os gregos, ela era real, né? Isso é um aspecto interessante. Se a gente for para— quer ver? Tem uma obra aqui que eu acho que é fantástica, que a galera vai entender isso bem. A História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, foi escrita no século 5 antes de Cristo, séculos depois de Homero.

Esse cara aqui foi o primeiro historiador grego, e a gente pode dizer o primeiro historiador da história, a encarar a história com objetividade. Com método crítico. Ou seja, ele não coloca deuses aqui, ele não coloca eventos sobrenaturais nesse troço aqui, ó, grosso aqui, ó. Isso aqui tudo, em tudo isso aqui não tem nada de mito, não tem nada de deuses, não tem nada de lendas, nada. É história pura, analítica e crítica. Ele cita Helena como fazendo parte da história dos gregos, ele citou Homero como fazendo parte da história dos gregos.

Então você vê como a conversa é muito mais complexa do que a gente simplesmente: isso é só mitologia, isso aí é só ficção, isso aí é como a Marvel hoje, sabe? É um empobrecimento. Infelizmente, algumas galeras, algumas pessoas, para defender um filme, empobrecem a compreensão do que era. Aí tentam reduzir, né? Ela veio de um ovo, né? Se ela veio de um ovo, pode qualquer coisa. Mas não, para os gregos o lance do ovo novamente não tinha nada a ver com algo literal que eles acreditavam, não, é uma conexão com o divino apenas.

Então Helena era encarada como sendo parte da história. Tucídides cita Helena, cita a Guerra de Troia, cita Homero, todos autores que vêm, sabe, desde aquela época da Grécia mitológica, né. Então quando a gente sai de Homero e vai para as representações do que era Helena para o povo grego, A gente começa a entender. Ah, e em Homero, na Ilíada e na Odisseia, não é mencionado nenhuma vez que Helena era loira. Como se o ponto central fosse só esse cabelo, a cor do cabelo de Helena.

Esse não é o ponto central, é um dos pontos centrais, mas o ponto central basicamente, que era o padrão de beleza para os gregos antigos em relação às mulheres, era a cor branca. Aí, quando você sai de Homero, então beleza, Homero não cita a cor do cabelo de Helena, mas quando você vai para outros autores gregos, eles citam a cor do cabelo de Helena. Ou seja, eles, os próprios gregos antigos, quando a gente vai conectando as fontes, eles já vão ajudando a gente a entender como que era Helena e por que que eles foram para a guerra de Troia por causa dela.

Quando a gente vai para a poetisa Safo, uma mulher, uma poetisa ateniense, do século 6 antes de Cristo. Ela menciona Helena loira, Eline Xanthi. Então ela faz essa expressão, ela usa essa expressão, Helena loira. A gente sai de Safa, a gente avança aí quase 200 anos, a gente chega em Eurípides, o mesmo cara que diz que, né, que conta o lance de Helena nascendo do ovo, que perpetua essa pegada, né, mística de Helena. Ele declara que Helena era loira, tinha cachos de cabelo loiro.

Então, quando você começa a fazer essas conexões e você vai para Roma, você sai da Grécia, você vai para Roma, culturas conectadas, né? Tão conectadas que, sabe com qual obra a literatura romana é inaugurada?

HHomer

Cadê?

TBTHIAGO BRAGA

Odisseia.

RVRogério Vilela

É mesmo?

TBTHIAGO BRAGA

A literatura romana é inaugurada com a tradução da Odisseia para o latim. Que doideira! Lívio Andrônico. Lívio Andrônico, um grego nascido em Taranto, ou na época em que ele fez essa tradução ele morava em Taranto, uma cidade no sul da Itália, perto ali do biquíni da botinha.

RVRogério Vilela

Eu tô pedindo também, Thiago, para pro Homer dar uma procurada da pictografia, né, tanto da Guerra de Troia como Helena, como eles representavam isso. Boa! Você tem uma dica para onde ele procurar?

TBTHIAGO BRAGA

Como ele procurar isso? Por exemplo, você pode colocar assim, em inglês é muito mais fácil de você encontrar, né? Ancient Greek art. Aí bota Helen, né, de arte grega antiga, Helen. Que no caso vai aparecer algumas pinturas. Isso, eu tô curioso. Só que o lance dos gregos é o seguinte: as artes gregas não eram coloridas como a gente vê, né? Elas não tinham cores, ela não tinha cor loira, elas eram basicamente alto contraste, era o que se chama red figure, ou era preto ou era basicamente vermelho com tonalidade clara branca.

RVRogério Vilela

Você falou da Helena do ovo como uma coisa posterior à Odisseia, mas existe isso, deve existir imagem, uma pictografia. Até queria pedir para o Homer para procurar alguma coisa, né, cerâmica, desenho.

TBTHIAGO BRAGA

Se você colocar assim Helen Egg, né, ovo e Helena, só isso já é o suficiente para você encontrar aí na internet, né? Olha aí, tá vendo? Essa é uma representação, ó, essa é uma representação da Grécia antiga, século 5 antes de Cristo aproximadamente. Repara na Helena, né?

RVRogério Vilela

Ela nasce de um ovo, nasce, mas é um ser humano normal, cabelos negros, né?

TBTHIAGO BRAGA

Perfeito. Então, então assim, é estupidez a gente querer diminuir essa, essa inteligência do povo grego de que Helena nasceu de um ovo, logo eles não tinham uma representação coerente do que era ser uma Helena de Troia para eles, quando a gente pode ver aí claramente na imagem Helena com fenótipos claramente gregos, cabelo cacheado, encaracolado, os traços de grega. Então a gente tem as evidências sendo amplamente já fornecidas para a gente do próprio nascimento de Helena, né?

Além dessa aí, se a gente for avançar, aí a gente já vai para uma Helena adulta, por exemplo. Só para a galera entender, os gregos eles não tinham cores disponíveis para deixar tão claro assim para a gente detalhes, né? Detalhes, por exemplo, da cor do cabelo e tudo mais. Então, para os gregos, eles precisavam trabalhar com alto contraste, né? Aí, só para a gente avançar, olha, por exemplo, aí a Helena, ó. Tá vendo? Então a gente tem claramente uma Helena com fenótipo europeu.

Então os gregos, eles viam a sua Helena através das mulheres gregas. Então quando eles imaginavam uma mulher, quando eles imaginavam Helena, eles imaginavam Helena grega com fenótipo, né?

RVRogério Vilela

Você viu que é o estilo do nariz, o estilo do queixo, né, os cabelos, e até a limitação artística ou estilística de que nem como os egípcios, de colocar a figura de lado, mas o olho, por exemplo, de frente, né, que os egípcios também faziam isso, né. Era uma transposição, né. Não sei se era falta de entendimento, a qualidade artística, ou era simplesmente um estilo mesmo da época, né.

TBTHIAGO BRAGA

Perfeito, perfeito. Então, isso é um ponto interessante. A arte grega, ela foi muito influenciada pela arte egípcia também. Esse é um ponto interessante a gente destacar, tanto que a gente pode perceber que Esse perfil é um perfil clássico do Egito antigo, né? Então a gente vê sim essa influência de uma maneira bem interessante, inclusive, e em especial na arte. Nas ciências a gente tem um debate muito mais profundo, que inclusive eu fiz uma entrevista com uma especialista, é uma das mais conhecidas do mundo sobre a Grécia Antiga, a professora Mary Levkowitz.

Eu vou publicar lá no Brazão de Armas também, justamente falando sobre isso, essas acusações de que os gregos copiaram roubaram a cultura, a ciência egípcia, filosofia e tudo mais. Então a gente tem duas representações gregas aí, né? Uma Helena com fenótipos gregos, claramente, independente de ter nascido de um ovo ou não, né? Se a gente for para o Império Romano agora, a gente tem uma descrição ainda mais vívida, porque a arte romana avançou muito mais ao longo dos séculos, né?

Se você colocar aí, por exemplo, é Afresco Romano de Pompeia, Helena. Você vai encontrar aí na, o Rômulo.

RVRogério Vilela

Eu acho que eles acharam aqui. Achou, Rômulo?

TBTHIAGO BRAGA

Tá, isso, ó, na perspectiva dos romanos agora.

RVRogério Vilela

O que que é isso que a gente tá vendo?

TBTHIAGO BRAGA

Olha aí, essa Helena de Troia no Afresco Romano de Pompeia. Inclusive você teve em Pompeia, não foi, Vilela?

RVRogério Vilela

Sim, sim.

TBTHIAGO BRAGA

Então esse, esse afresco, ele tá dentro de uma das em uma das grandes casas que tem lá em Pompeia. Eu tive em Pompeia também, mas na época, se eu não me engano, esses afrescos ainda não tinham sido restaurados, né? Então olha a representação de Helena aí, claramente uma mulher branca. Então é essa da frente aí com os braços de fora, tá vendo? Por isso que nos epítetos homéricos menciona-se Helena de braços brancos, porque era comum as mulheres deixarem os braços à mostra.

RVRogério Vilela

E ela tinha cabelo curto ou tava preso?

TBTHIAGO BRAGA

Elas também tinham costume de andar com cabelo preso, né? Agora você perceba o seguinte: existe dentro da iconografia uma variação da cor do cabelo, né? Cravar exatamente todos os gregos antigos sempre representavam Helena como loira, não é esse o ponto. A discussão não é essa. O que eu tô querendo dizer para galera é A perspectiva de Helena de cabelo claro está dentro da literatura grega. Os gregos, eles deixaram, como eu te falei, a própria Safo, Eurípides, a gente tem a conexão com os braços brancos descritos por Homero, a gente tem a visão dos romanos em relação ao que era Helena de Troia, esse padrão de beleza de Helena.

Então, quando a gente faz essa conexão das diferentes fontes, E a gente entende um outro aspecto. Os pesquisadores deixam claro para gente que as mulheres valorizavam tanto a cor da pele branca que elas usavam um tipo de maquiagem à base de chumbo, algo tóxico, que era para deixar a pele delas ainda mais branca. Então, dentro do imaginário grego, é impossível imaginar qualquer outra Helena que fosse que não fosse uma Helena branca, de cabelos claros.

De qual tom de cabelo claro? Isso é impossível a gente saber. Helena é descrita como loira, como cabelo claro. Então, a própria tradução do termo xanthos, ele varia, sabe, entre perspectivas de eruditos. Alguns acreditam que é um castanho claro, outros acreditam que é um castanho mais escuro, outros loiro, outros amarelo, dourado. Mas o lance que a galera precisa entender, e aí a gente entra na lógica cultural dos gregos, tem um estudo muito interessante que é de uma autora chamada Nadezda, se chama Símile em Homero.

Depois a gente pode colocar esses estudos na descrição. Para os gregos, o loiro representava o divino, a cor do cabelo loiro representava o divino, representava a luz e representava o ouro, que era um metal precioso para os gregos antigos. Então nada mais natural do que a gente compreender que não só as fontes mencionam Helena loira, quanto para o imaginário grego esse loiro era algo que representava o divino. Se Helena era loira, ela era divina, e se Helena era divina, ela era loira.

Então uma coisa não exclui a outra. E quando a gente fala, galera, de Helena branca, a gente não tá falando de Helena de raça branca. Os gregos não entendiam esse conceito de raça. Eles não, eles não trabalhavam dentro desse lance de raça negra e raça branca. Para os gregos era tom de pele. Eles viam, por exemplo, eles entendiam a mulher, né, grega como sendo branca de tom, não que eles se viam como pertencentes a uma raça branca.

Os gregos, para os gregos não existia isso. Então trazer esse debate para raça É debater errado, é conversar errado. A gente está falando sobre tom, percepção estética, que para os gregos não era uma simples cor, era algo que evocava o divino, no caso das mulheres. Então esse ponto precisa ficar claro. Por exemplo, os homens brancos já era o oposto. Homens brancos demais era considerado afeminado para os gregos. Então para os gregos antigos, os homens tinham que ser queimados pelo sol, tinha que ter a pele Alguns textos referem até essa binaridade entre a brancura das mulheres e a cor escura dos homens, queimada pelo sol, né?

Então a gente tem as duas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Essa era a perspectiva dos gregos. Por isso que quando eu destaquei para a galera, não dá para usar a história grega para validar a escolha de uma atriz negra para representar Helena de Troia. O que a gente precisa trabalhar aqui é É um filme e o Nolan escolhe quem ele quiser. Se for usar a história e a cultura grega, a gente não vai encontrar nenhuma evidência, por mínima que seja, de que Helena, ou para os gregos Helena, pudesse ser qualquer coisa além de grega branca.

Esse é o ponto que a galera precisa entender. É a mesma coisa, Vilela, um exemplo para a galera entender o lance do ovo, tá? Vamos falar de ovo. Não que eu goste tanto de falar de ovo assim não, mas faz parte do da divulgação da história aqui. Na cultura congolesa existe um herói chamado Bokele. Bokele ou Mokele, depende da pronúncia e da maneira como ele é abordado, né? O cara nasceu de um ovo, esse Bokele aí, ele nasceu de um ovo também.

Essa deusa, uma deusa do rio, colocou ele dentro de um ovo na barriga da mãe dele, e o cara nasceu de um ovo. A mãe não conseguiu parir o ovo, Ovo. Quem tirou o ovo da barriga da mãe dele foi essa deusa. Então deixa que eu dou à luz ao menino aqui. E a própria deusa do rio deu à luz ao menino, e de um ovo nasceu Bokele. Pergunta para você, e aí você pode colocar na imagem aí: faria sentido a gente imaginar um Ryan Gosling representando o herói da mitologia congolesa Bokele?

RVRogério Vilela

Claro que não, claro que não.

TBTHIAGO BRAGA

Game over.

RVRogério Vilela

É a mesma, é a mesma linha de raciocínio.

TBTHIAGO BRAGA

Entendi. Game over, não tem mais o que discutir.

RVRogério Vilela

Se a gente tá falando, ou colocar uma história de vikings também, né, uma história entre os vikings e querer colocar um ator que não, que não tem a ver, né, porque, pô, é, você busca uma qualidade histórica e tudo mais.

TBTHIAGO BRAGA

É, eu não gosto de, por exemplo, citar, tem gente que que vai para exemplos que, na minha opinião, são imbecis também. Ah, Nelson Mandela, vou fazer um filme de Nelson Mandela e vou colocar um loiro para representar o Nelson Mandela. Não, galera, a gente tá falando de uma figura histórica moderna, não tem como você fazer essa comparação. Você tem que trabalhar dentro do aspecto do mito, né? Então você tem que encontrar equivalentes no mito para você compreender.

Exemplo, vamos fazer uma mitologia, um filme de mitologia angolana. O lance não é nacionalidade. Aí a galera já leva o debate para uma discussão que é estúpida, impossível de acontecer. Ah, deveria ser todos gregos então, todos falando a Grécia, o idioma grego antigo. Quem é que resiste a isso? Que filme pode ser produzido com atores única e exclusivamente gregos falando grego antigo?

RVRogério Vilela

Não, até citaram um filme do Mel Gibson que colocaram o cara falando aramaico e tal, mas é uma opção. E você sabe, quanto mais você vai reduzindo isso, você não pegar ator famoso, colocar numa língua morta ou colocar numa língua que não é a mais falada, você vai reduzindo cada vez seu público. Também tem a parte comercial do negócio, né?

TBTHIAGO BRAGA

Exatamente. Então assim, é você misturar demais e complicar demais e até ser desonesto, porque na minha opinião é isso. Você tem que ter um mínimo de coerência, não vamos ser desonestos. Agora é, não, se é para exigir história de Nolan, pera aí, é porque é basicamente a mesma coisa, Vilela. Na cabeça de muitas pessoas é basicamente a mesma coisa. Você trocar a etnia de um personagem é a mesma coisa você colocar todo mundo falando grego homérico antigo. É, mas não é esse o ponto, não é esse, por favor, não é, não faz sentido.

RVRogério Vilela

E pode ter um filme da Grécia que os caras façam uma opção estética assim e e veja o resultado, né? Vamos ver qual que é, né?

TBTHIAGO BRAGA

Sim, sim, exatamente. Então é essa analogia que eu faço com as outras mitologias africanas, por exemplo. Ah, então por que que não colocou atores exclusivamente gregos? Escolheu a Lupita, então seu problema é com a nacionalidade da Lupita? Se a gente vai fazer um filme sobre a mitologia angolana, o lance é nacionalidade, então é ter atores gregos? Então vamos supor que a equipe de Nolan lá escolhe o Idris Elba, que é um baita ator, um cara incrível.

Tenha duas opções: ou é o Idris Elba ou é o Chris Hemsworth, o Thor lá, para fazer o papel. O problema vai ser a nacionalidade dos atores? Esse vai ser o problema para representar uma mitologia angolana realmente? Porque o Idris Elba não nasceu na Angola e o Chris Hemsworth também não nasceu na Angola. Então, se eles escolhem o Chris, o Idris Elba, para fazer o personagem congolês ou angolano, africano, o problema vai ser a nacionalidade?

Claro que não. O cara se encaixa perfeitamente no papel, mesmo ele não sendo angolano. Então os gregos, por exemplo, se você pega Matt Damon, você pega Anne Hathaway, o próprio Tom Holland, todos eles têm uma ascendência europeia. Então o aspecto fenotípico deles ali estão misturados dentro desse aspecto fenotípico da Grécia Antiga. Então não se trata de nacionalidade, se trata de o Idris Elba tem o fenótipo que lembra muito os povos africanos e é super coerente com isso.

Então ninguém vai cobrar que o cara não era angolano para fazer o papel, né? Então basicamente a mesma coisa, se a Lupita Nyong'o fosse grega Suponhamos que a Lupita Nyong'o fosse grega, isso não a conectaria histórica e culturalmente a essa Helena de Troia também. Então, o que a gente tá falando é do ponto de vista grego, a gente precisa fazer essa conexão para conseguir compreender o que eles pensavam. Os gregos, por exemplo, saiu um estudo de DNA de 2017 agora, fez um maior mapeamento.

Esse estudo é incrível, ele fez o maior mapeamento sobre o DNA grego antigo. E aí muita gente mistura as coisas. Ah, os gregos tinham contato com os africanos, africanos estavam o tempo todo na Grécia, muitos africanos eram gregos. Não existe essa evidência, não existe, simplesmente não existe essa evidência na própria materialização do DNA grego. Não existe, só para você ter uma ideia, não existe nem mesmo influência africana no DNA dos gregos antigos.

Os gregos, eles são, sabe, eles têm na sua composição de DNA a Europa inteira, regiões da Pérsia e até Sibéria e leste europeu. Entendi. Então é isso que eu quero dizer para galera, não dá para a gente fazer essa conexão histórica e cultural mudando essa visão que para os gregos era algo valioso. Então esse ponto precisa ficar claro para galera entender, da mesma forma como colocar alguém branco, deuses do Egito, cara, tu viu aquele filme Deuses do Egito, lembra? Com Gerard Butler, o cara que fez o 300.

RVRogério Vilela

Sim, sim, sim, sim, sim, muito legal.

TBTHIAGO BRAGA

Isso, cara, é, o cara é um europeu fazendo Deus do Egito, velho.

RVRogério Vilela

É, ou então o pessoal sempre cita o Tom Cruise fazendo O Último Samurai, né?

TBTHIAGO BRAGA

É, tipo, embora O Último Samurai ele tem a ver com uma literatura, é de um cara de fora, ele era um francês, ele era um francês, então tá baseado em uma obra literária Que dá a opção disso acontecer. Olha isso aí, olha só, cara, que legal! Deuses do Egito, velho, tem cabimento um negócio desse?

RVRogério Vilela

Também teve essa discussão, Thiago, quando teve, né, não só do Ghost in the Shell, mas de várias obras japonesas, quando vem do anime e vai fazer adaptação live action, de escolher atorzinho e atrizes americanas. Colocaram, eu acho que a Charlize Theron, né? Se você tiver o pôster do Ghost in the Shell, que é uma obra até que inspirou muito o Matrix. O Matrix foi lá, chupou direto desse anime fantástico. E tem essa discussão, pô, por que que claramente é Tóquio, é um lugar, sei lá, não sei se é Tóquio, mas é Hong Kong, não sei, claramente tem que ser uma personagem oriental, né? Então tem essa discussão, é uma opção dos produtores e tudo mais, né?

TBTHIAGO BRAGA

É, exato. Eu particularmente, eu sou muito coerente nesse sentido. Ninguém pode—

RVRogério Vilela

você não assistiu isso não, né, Thiago?

TBTHIAGO BRAGA

Recomendo demais. Eu sei que tem um jogo chamado Ghost in the Shell. É, mas eu— é, tem jogo, tem jogo, mas o anime, cara, o anime eu não vi ainda.

RVRogério Vilela

A discussão, a discussão que tem nele é muito louca assim, cara, de lá de trás, inteligência artificial, de robô, dela discutindo o lance de se ela é humana, se não é, lembranças. E é muito legal assim.

TBTHIAGO BRAGA

Eu sou coerente em relação a isso, para mim Eu não, eu não é exigir nacionalidade. Eu acho que é tipo assim, o Vini Júnior, dando exemplo aqui, o Vini Júnior poderia fazer alguém da mitologia nigeriana, porque o cara tem ascendência, o cara tem ascendência africana evidente ali. Então, tipo, ah não, tem que ser, tem que ser um nigeriano para fazer. Não, galera, não vamos, né?

RVRogério Vilela

Eu acho muito louca também, né, para fazer um cadeirante, tem que ser um cadeirante para fazer. Um autista tem que ser um autista, porque o pessoal esquece também que a profissão do ator é ser alguém, né? É também, tem essa coisa de imaginar aquela pessoa como outra, né? Você não, claro que sempre quando é possível é legal. Seu cara é um puta ator e ainda ele tá naquele, naquele, porra, no que precisa, matou, né?

TBTHIAGO BRAGA

Perfeito.

RVRogério Vilela

Aí, ó, é a Scarlett Johansson. Obrigado. Ela tá.

TBTHIAGO BRAGA

Então é, a menina é uma japonesa, né? Então eu sou contra isso, eu particularmente acho que não tem cabimento colocar uma mexicana no filme.

RVRogério Vilela

Não é que eu sou contra, mas te tira um pouco do clima. O filme todo cria um clima e aí você vê isso meio que te tira daquele, sabe, daquele clima do filme um pouco. Porque exatamente fica lembrando que, pô, alguma coisa tá fora do lugar, sabe? Eu acho que a mesma sensação que você teve no Odisseia, como você conhece muita história, te incomodava porque te tirava do lugar. Para mim, para muita gente que não leu a história e que foi lá de cabeça aberta, eu não vi nem trailer direito, eu quero, queria, tava aberto, eu não me incomodei com muita coisa, simplesmente fui deixando no fluxo, fui indo, fui indo, entendeu?

Então eu consegui, mas eu entendo você quando eu vejo coisa adaptada de anime, de coisa de quadrinho que eu leio para caramba, ai, cara, não, esse personagem nunca faria isso, né? Assim, Não que me incomode, mas te tira um pouco daquela fantasia que você tá, né? E de novo, que a gente já falou, cara, é sempre uma opção do autor como um artista. Ele é artista, ele faz opções.

TBTHIAGO BRAGA

E, cara, tá tudo certo.

RVRogério Vilela

Se a discussão é só, cara, Thiago, é só um filme, cara, e tem gente que não gostei, não gostei, e isso é acurado, isso não é, pronto, pronto.

TBTHIAGO BRAGA

É isso que eu falo para galera. Então, mas o problema é que os argumentos não estão sendo colocados dessa maneira.

RVRogério Vilela

Os argumentos que a galera tá usando é: não, não, não, vídeo, um vídeo você refutando um cara que justificava a escolha da Helena baseado em livros, e você mostrou ponto a ponto que tava errado, né? Qual que era o ponto central que ele errou nessa análise?

TBTHIAGO BRAGA

É isso que eu tô falando, Vilela. A galera tá usando aí, e é isso que a galera não tá entendendo nesse debate. A galera não tá entendendo que o pessoal tá tentando usar a história para validar essas escolhas. E esse é o problema. Um dos— são muitos vídeos, a galera tá, tá tipo, esse lance do ovo agora tá pipocando na internet aí. Agora eu quero, eu gostaria de ver a resposta de fazer um Bocchelli como, como um Ryan Gosling, por exemplo, né?

Seria interessante, já que nasceu de um ovo, não existiu. Então imagino que para ele estaria tudo bem fazer um Ryan Gosling na no papel de Bocelli, né? Um dos argumentos é que os gregos antigos admiravam os etíopes, né? Existem passagens em algumas literaturas gregas onde os homens etíopes em especial, eles são bem descritos, né? Só que aí a galera novamente começa a interpolar as coisas e bagunçar os argumentos. A gente tá falando de homem ou de mulher em relação ao padrão de beleza?

Porque se a gente tá falando de Helena, a gente tá falando de um padrão de beleza. Porque para os gregos antigos existia um padrão de beleza para os homens e existia um padrão de beleza para as mulheres. O que esses caras fazem é, por exemplo, pegar Heródoto. Heródoto cita uma passagem no livro, não sei se é no livro 3 ou no livro 4, onde ele diz que dizem que os etíopes eram dos homens mais bonitos, mais altos, Só que o lance é, quem diz?

O próprio Heródoto diz, dizem. São os próprios etíopes que dizem isso? São os persas que dizem isso? São os gregos que dizem isso? São 5, 10, 15, 20 pessoas que dizem isso? Mil ou milhão? Então, Heródoto é completamente vago em relação a esse lance do dizem. A gente não pode pegar isso como sendo evidência de que os etíopes para os gregos eram realmente os povos mais lindos. Não, resumir um trecho para toda a cultura grega, isso é um erro, é uma falácia.

Principalmente, Vilela, quando a gente vai para a própria obra de Heródoto, ele faz comentários que hoje dava uma cadeia, meu amigo, para usar a expressão do nosso saudoso Gil Alwey, cara. Dava uma cadeia, tipo. Heródoto diz que os etíopes são como os indianos, que tem o sêmen preto, diferente das outras, das outras raças, dos outros povos. Ele não usa o termo raça, povos, né? Diferente dos outros povos que tem sêmen branco. E eles agem como animais selvagens, fazendo sexo ao ar livre.

E ele faz referência à cor da pele escura deles. Meu amigo, imagina se um autor diz isso hoje.

HHomer

Pois é.

TBTHIAGO BRAGA

Então o que eu quero dizer para galera é que muita gente quer usar a história de uma maneira romântica para validar determinadas escolhas modernas. Não, Lupita seria uma escolha perfeita porque a gente tá falando uma mulher, mas ela seria uma escolha perfeita para Helena de Troia porque os gregos antigos admiravam os etíopes. Quer ver? O próprio Heródoto diz isso. Mas quando você vai no Heródoto, ele mesmo faz citações que são consideradas preconceituosas por muitos especialistas.

Então, buscar validação dentro da história, uma validação romântica, como se os gregos fossem inclusivos, onde os negros, né, os africanos e os gregos estavam juntos, vivendo unidos na mesma sociedade, Não, os gregos eram extremamente exclusivos, cara. Eles viviam enquanto gregos. Nem mulheres gregas tinham direitos a várias coisas que os homens gregos tinham, muito menos cidadãos, pessoas estrangeiras. Quando os etíopes, os africanos, os asiáticos ou outros povos europeus estavam junto com os gregos, cara, eles estavam ali como estrangeiros, não como gregos.

Fazia um negócio, até participava em guerras, em batalhas. Acabou aquilo ali, beleza, retorna lá para tua terra, porque grego você não é. Não havia essa miscigenação com povos africanos. Africanos não se tornavam cidadãos gregos. Então esse apelo que a galera tem feito, a história da Grécia como uma história inclusiva, isso é romântico, cara. Isso é romantismo de algo que não existiu no passado. Existem referências de ator, de escritos gregos que são os mais preconceituosos possíveis, inclusive citando mulheres.

Depois a gente coloca na descrição para a galera entender. Existe um estudo, cara, do professor Dio. O nome do estudo é A Cor do Pecado. Nesse estudo, o professor mostra uma série de passagens e descrições preconceituosas contra os negros, inclusive contra as mulheres. Uma dessas passagens é o marido chegando em casa e não reconhecendo quem era a sua própria mulher, porque ela estava parecendo uma negra etíope e ela estava feia como uma negra etíope.

Isso dentro de textos que remetem, sabe, a autores gregos. Então é isso que eu tento passar para galera: não vamos nos apegar à história como uma maneira romântica de validar essa inclusão maravilhosa que não existia. Novamente, para os gregos, até esse autor, esse professor Gil, que é um grande classicista, ele diz: muitos pesquisadores não veem o lance do racismo acontecendo na Grécia, eles não veem isso acontecendo. Mas o professor fala que essa é uma espécie de protorracismo, é um racismo antes do racismo propriamente dito, porque o racismo é mais colonial, Vem depois da era colonial, século 16 e tudo mais.

Então não faltam exemplos de— mas a Grécia era uma sociedade ambígua, ela era complexa também. Ao mesmo tempo, é óbvio que havia elogios aos etíopes, havia elogios ao povo etíope, passagens que também elogiavam os etíopes. O que eu quero dizer é que é muito mais complexa do que a gente simplesmente dizer que não estavam todos conectados, alegres e felizes ali. Então o lance da Helena é a prova disso. Do ponto de vista histórico, não dá para a gente validar, né?

Não dá para a gente, do ponto de vista da Grécia Antiga, dos gregos antigos, entender que os gregos encarariam como sendo a mais perfeita naturalidade, assim como povos africanos não encarariam um loiro para representar sua mitologia.

RVRogério Vilela

Tá, entendi essa conexão com a pessoa e o local, que é muito importante, né?

TBTHIAGO BRAGA

É porque isso dá imersão, né? Isso ajuda a gente até entender, porque novamente, quando a gente diz que é só um filme também, a gente subestima demais o poder da mídia, né? Nada é só um filme, cara. Uma música não é só uma música, ou é só um livro. Eu acho que isso é empobrecer demais o poder que uma mídia pode ter até em transmitir cultura, né? Quer ver um exemplo? Que novamente, eu particularmente tenho uma opinião muito forte sobre isso.

O Jesus loiro de olhos azuis. Para mim não faz o menor sentido. Para mim, quem quer pensar de sua própria maneira fica à vontade, eu tô dando minha opinião aqui.

RVRogério Vilela

Não, não faz. Eu acho que a gente cresceu com essa imagem estampada em tudo quanto é lugar, né? E aí por isso que eu acho que uma das grandes, o grande trunfo, e porque tá fazendo tanto sucesso aquela série como chama, é The Chosen, que colocou um Jesus mais dentro dos padrões, né, do que seria na época, né.

TBTHIAGO BRAGA

Jesus é aquele cara ali, meu amigo, entendeu? É quando a gente pensa no povo judeu daquela época, daquela região ali do Mar Mediterrâneo, né, da região de Israel, a gente imagina aquilo ali. Então Jesus europeu é tudo bem, eu consigo compreender alguma coisa dessa essa lógica. Porque se você parar para pensar, a religião cristã, ela é uma religião essencialmente europeia. Ela foi rejeitada pelo, pelo seu próprio povo, pelos judeus, né?

E ela migra para Europa. Tanto que a maior parte das congregações que o apóstolo Paulo visita são congregações na Europa.

RVRogério Vilela

Olha essa imagem, olha essa imagem, essa pele branca naquele sol, naquela região com esse cabelo encaracolado? Não, cara, não é.

TBTHIAGO BRAGA

Exato, cara, exato. Não tem cabimento isso. Então, na minha visão, novamente, a gente tá aí, a gente tá falando de uma cultura também que já vem de séculos e séculos e séculos e séculos. É algo muito mais assim como Helena de Troia, né? Mas no caso da Helena de Troia, tem base cultural e tem base histórica, né? Porque um povo acreditava realmente que Helena era daquele jeito, porque ela era daquele povo.

RVRogério Vilela

E vamos lembrar também, Ricardo, que toda representação ela tem um cunho também político, social, ela demonstra alguma coisa. Quando um rei pede para ser representado, quando a igreja pede para representar Deus ou anjos ou Cristo, e ela encomenda um certo tipo tipo de visual, ela tá querendo passar uma mensagem. Assim como você vai ver Cristo em igrejas, em igrejas orientais, ele vai ter o olho puxado, né, no ortodoxas. Você vê que ele se adapta, né?

E tal que isso daí, tem sempre uma coisa da pessoa se sentir integrado naquela, naquele lugar, né?

TBTHIAGO BRAGA

Porque a gente tá falando de uma religião, né? Quando a gente fala de uma religião, a gente fala de algo muito mais profundo. Por isso que ao mesmo tempo eu não quero aqui minimizar quem acredita num Jesus loiro de olhos azuis, porque a gente fala de uma religião, tá tudo bem. A gente não tá falando de uma personagem, né? Um exemplo claro aqui: se a gente tá falando, por exemplo, de Jesus, eu acho que o Jesus correto dentro do ponto de vista bíblico e geográfico não é assim, né?

Para mim é como o Rommel do The Chosen, é aquilo, pronto. Só que eu te pergunto uma coisa, Vilela: qual é a aparência de Jesus?

RVRogério Vilela

Não temos, não temos foto, não temos.

TBTHIAGO BRAGA

A gente vai para o campo, os judeus representaram isso, os judeus representaram Jesus de alguma maneira? Não tem alguma pintura, tem alguma arte, tem alguma descrição da cor do cabelo, da pele de Jesus? Nada. Então, nesse sentido, é óbvio que a liberdade de imaginação de um povo pode flutuar muito mais.

RVRogério Vilela

Você sabe do que quando você sabe que eu entrevistei ele, teve aqui na minha frente, né? Teve aqui e eu falei para o ator, falei, cara, como você se sente hoje? As pessoas rezam e pensam em Jesus e vem a tua imagem na cabeça. Deve ser muito louco para ele, porque, cara, se aproxima o divino buscar imagens, né? E hoje a imagem dele como Jesus ficou muito forte. Então deve ser muito louco o pessoal encontrar ele na rua e meio confundir, né, cara?

TBTHIAGO BRAGA

Eu falei, cuidado com o que você faz na vida particular, né?

RVRogério Vilela

Porque você imagina a responsabilidade desse cara, velho.

TBTHIAGO BRAGA

Não, exato, você tocou no ponto muito interessante aí, cara. Então é para você ver o poder da mídia novamente. O poder da mídia é muito grande de influenciar realmente até a percepção fenotípica, étnica, de cor de cabelo. É isso. Então o lance do Jesus, novamente, eu acho que o Jesus loiro de olhos azuis não tem sentido quando a gente para para pensar minimamente coerentemente com aspecto geográfico. Não era daquele jeito. Mas nós não temos descrição, nós não temos a cor do cabelo, a cor da pele.

No caso de Helena, nós temos. O povo, se o povo judeu tivesse, e vamos imaginar se dentro da Bíblia, dos pergaminhos do Mar Morto que foram encontrados, tivesse uma pintura de Jesus Cristo, é, como poderia se pintar de maneira diferente?

RVRogério Vilela

A gente até teve uma tentativa e não foi comprovado que é o do Santo Sudário, né? Se fosse comprovado, isso daqui é uma prova, isso enrolou realmente o rosto, saberíamos mais ou menos como foi o rosto de Jesus Cristo. Mas não tem evidência nenhuma, né?

TBTHIAGO BRAGA

Isso aí, não tem evidência. Então é natural e até artisticamente permitido que se estique um pouco mais a imaginação nesse sentido. Então, mas quando você tem um povo explicitamente representando e desenhando determinada pessoa daquele jeito, e aquela pessoa faz parte daquela cultura. Logo, quando você muda isso, é algo muito mais complicado, né? Então essa ponte com Jesus Cristo eu só queria fazer para a galera entender que eu, da minha visão, eu acho que ter um Jesus Cristo como esse nos remete, nos conecta muito mais com o aspecto geográfico e até cultural e histórico do que era aquele povo, né?

RVRogério Vilela

Não, acho perfeito. A relação, porque tira também desse campo de, ah, cara, é racismo, é feminismo, por que que não escolhem esse personagem, é porque você não tem. A gente tá falando de, eu tô entendendo tecnicamente a coisa e historicamente. Outra também, eu queria até, a gente falou em feminismo, também queria entrar nessa questão do Homero, né? Acusam ele de maltratar as mulheres, de de colocar a mulher numa situação não tão legal nos livros. Da onde vem essa ideia, Vilela?

TBTHIAGO BRAGA

Eu vou te dizer uma coisa assim com muita tranquilidade, cara: Nolan maltratou mais as mulheres do que Homero na obra dele.

RVRogério Vilela

É mesmo?

TBTHIAGO BRAGA

É, você pode ter certeza disso. Novamente, vamos começar por Helena. Não deixou Helena em algum momento naquele, naquele filme minimamente bonita ou radiando beleza? Porque Lupita é uma atriz bonita, isso é inegável, mas eu particularmente não vi em nenhum momento ali a beleza da Lupita, nem mesmo a beleza da Lupita tendo sido destacada.

RVRogério Vilela

Você entendeu?

TBTHIAGO BRAGA

Ao contrário.

RVRogério Vilela

Mas você entendeu aquelas marcas de um lado do rosto dela como sendo maltratada pelo, pelo raptor, ou porque talvez ela tenha ido por vontade própria e foi maltratada na volta? Que que você entendeu daquilo?

TBTHIAGO BRAGA

Esse é o exemplo principal para mim de como o próprio Nolan tomou essa liberdade para maltratar Helena.

RVRogério Vilela

Entendi.

TBTHIAGO BRAGA

Porque na Odisseia, se você ler Odisseia, quando, quando naquele trecho inclusive, quando eles estão sentados na mesa jantando e Telêmaco chega na Telemáquia, nos 4 primeiros cantos da Ilíada. A gente vê uma Helena sendo bem tratada por Menelau, o rei de Esparta, o marido dela. A gente vê a Helena sendo tratada, ela chega no banquete, a gente consegue sentir um ar magistral ali, inclusive. Então, mesmo Helena se acusando de ter causado a própria guerra, de ser a responsável em causar a guerra, a gente vê que Homero trata Helena com divindade ali.

Ela tá arrependida, ela até inclusive se chama de cadela, né? Por causa da cadela que eu sou, eu fiz, né, com que os argivos eles fossem à guerra por minha causa e tudo mais. Então a gente não vê uma Helena sendo tratada como uma, uma, sabe, uma megera, uma adúltera, ou uma mulher que merecesse repreensão ali, não.

RVRogério Vilela

Não há nenhuma acusação moral, não tem nenhum espaço no texto para isso. É realmente uma opção estilística e artística dele.

TBTHIAGO BRAGA

Perfeito. Ele machucou Helena porque na visão dele ele achou coerente machucar Helena como uma maneira de mostrar como Menelau ficou chateado com aquilo. E logo ele fez, né, rasgou o rosto de Helena. Então você tá entendendo o que eu quero dizer? Então, do ponto de vista, primeiro, desse ponto de vista, o maltrato a Helena, quem causa é o próprio Nolan, não é Homero.

RVRogério Vilela

Qual é a visão de Homero?

TBTHIAGO BRAGA

A visão de Homero em relação às mulheres, quando a galera fala assim, Penélope, por exemplo, é quando eu disse, quando a galera fala assim, Vilela, Homero era machista, era misógino, ele apoiava o patriarcado, atacado. Eu fico pensando, eles estão falando de que Odisseia, cara? Porque assim, eu não consigo entender. Primeiro, eu acredito que muita gente que tá falando isso não deve ter lido Odisseia, não pode. Porque quando a gente vai no texto, a gente vê o oposto, cara.

Calipso, Charlize Theron, certo? Aí a gente sai de Helena. Você vê que Helena no filme, ela tá sempre carrancuda, ela tá gritando.

RVRogério Vilela

5 minutos de tela no máximo.

TBTHIAGO BRAGA

Ela tem 5 minutos de tela e 5 minutos de tela ela desesperada, ela com raiva, ou Helena ou a irmã dela que tem extra, né, fazendo expressão de para matar lá o cara. Então Nolan, na minha opinião, Nolan não ajudou em nada a imagem de Lupita, sabe, transparecer a beleza que ela tem. Então eu acho que o principal culpado em ter essa visão nesse momento foi o próprio Nolan em relação a essa visão do público, não, não, pelo menos Nolan, puxa, colocou uma baita Helena de Troia.

Olha como, como ele colocou a Lupita pelo menos como uma divindade ali, sabe, uma postura. Não, colocou ela das maneiras mais agressivas e desfiguradas possíveis. Quando a gente vai para Calipso, entrando então no lance dessa polêmica de Homero ser misógino ou ser apoiando patriarcado, Quando a gente vai para Calipso, já no canto 1, Vilela, o primeiro canto da Odisseia, nos primeiros versos, cara, Atena fala que Calipso tá fazendo Odisseu de refém na ilha. Odisseu, ele é refém de Calipso na ilha. E o que que Odisseu não dá?

RVRogério Vilela

Não fica muito claro quem é Calipso na ilha. Eu, eu tenho, eu tinha um entendimento diferente de Calipso Mas no filme, o que parece para mim é que uma pessoa boa e que tá ajudando ele a lembrar, mas não era o que eu tinha de ideia de Calipso, que prende ele lá e se apaixona e não quer largar o osso. É isso?

TBTHIAGO BRAGA

Primeiro que Odisseu não come a flor de lótus, né? Essa já é uma outra falsificação. É isso que eu falo para galera, o lance da adaptação, até que ponto vai adaptação, até que ponto vai interpretação? O que Calipso faz é usar mágica, só que ela usa mágica contra a vontade de Odisseu. Só que ali no filme tá deixando claro que é Odisseu que tá escolhendo comer a flor de lótus para esquecer os seus traumas, esquecer sua violência.

O que que é isso, meu Deus do céu? Que Odisseu é esse? Cadê a resiliência? Cadê a híbris do Odisseu? Cadê o Odisseu que é, que é guerreiro sabe, predestinado a vencer aquele desafio. Não, então tá um Odisseu com estresse pós-traumático ali. Então não consigo entender essa visão, né? Então novamente, o lance da interpretação é algo que tá indo muito além de uma interpretação e tá indo como uma, uma, um Nolan recontando a história, mudando a essência da história.

Então quando ele tá com Calipso ali, por exemplo, Calipso força ele a ficar na ilha por 7 anos, cara. Ela o enfeitiça.

RVRogério Vilela

E por quê?

TBTHIAGO BRAGA

No canto 5, Vilela, da Odisseia, no canto 5, quando Odisseu, né, tá na ilha de Calipso lá, Odisseu passa o tempo inteiro chorando. A única coisa que Odisseu faz na ilha de Calipso, de acordo com Homero, é chorar. Sabe por que que ele chora? Porque ele está impotente diante da deusa. Não tem nada que ele possa fazer ali. Ele quer ir para casa, ele quer ver Penélope, mas Calipso não deixa ele ir para casa. Então, que visão de patriarcado é essa, sendo que Calipso está controlando Odisseu?

E detalhe, não é só controlando não. Odisseu passa 7 anos dos 10 da Odisseia inteira, porque a Odisseia se passa em basicamente 10 anos, né? 10 em Troia e 10 para retornar para casa, na viagem, na própria Odisseia. Odisseu fica 7 anos aprisionado, encarcerado na ilha por uma deusa, e não tem nada que Odisseu possa fazer, meu amigo. São 7 anos nisso. Sabe quem que toma iniciativa para ajudar Odisseu? Não é o patriarca Zeus, não é Zeus.

Um homem está sendo maltratado ali por uma mulher. Isso está contra o nosso patriarcado. Libere agora Odisseu das garras desta mulher, porque um homem não pode ser dominado por uma deusa. Não. Quem toma iniciativa é Atena, cara. É Atena que chega para— é Atena que chega para Zeus e diz: Zeus, pai, olha o que que tá acontecendo. Calipso tá—

RVRogério Vilela

deixa eu entender, Thiago, fazer uma pausa para entender como é, cara. É uma bagunça essa coisa dos deuses, né? Porque ao mesmo tempo que eles são muito poderosos, eles são muito fracos mentalmente, né? Eles são muito cheios de jogos e ficam sentidos. É, então eles ficam sentidos e tal. É isso mesmo, cara? Eles ao mesmo tempo são muito poderosos e ficam um sacaneando o outro e um falando com outro. E, ó, aquele que tá fazendo tal coisa é uma fofoca lá, né?

TBTHIAGO BRAGA

O fascínio da mitologia grega é que os deuses são muito humanos, cara. Os deuses, eles estão muito conectados.

RVRogério Vilela

Parece que eles esquecem que são deuses às vezes, né?

TBTHIAGO BRAGA

É, eles têm inveja, cara. Eles, tipo assim, se um deus está sendo mais favorecido que outro, eles vão prejudicar porque estão sendo mais favorecidos.

RVRogério Vilela

Sabe, é pegar outro, é transar.

TBTHIAGO BRAGA

É, se uma mulher, por exemplo, mas os humanos são para eles o quê?

RVRogério Vilela

O que que os humanos são para eles? Brinquedos são importantes?

TBTHIAGO BRAGA

São o quê para eles? Os deuses precisam dos humanos, né? Os humanos sem os deuses na mitologia grega, sem os humanos não existem. Então, de certa forma, os deuses precisam trabalhar dentro desse jogo que os próprios gregos tentavam fazer para compreender. Então é uma maneira, você vê como os deuses estavam tão conectados na explicação dos deuses, né, da sua própria realidade pelos deuses, é que os próprios gregos tentavam dar soluções para os problemas que os deuses criavam.

Eles criavam os deuses, né, de certa forma, para entender sua realidade, mas ao mesmo tempo eles tinham que lidar com os problemas que essa, esse mito criava deles próprios dentro da sua visão humana. Por isso que os deuses são tão incríveis, né? Então, no caso de Atena, ela olha Odisseu naquela situação e diz assim: Zeus, por que que o senhor, né, pai, por que que o senhor está permitindo que Zeus fique dessa, Odisseu fique tantos anos preso, sabe, nessa situação, em cárcere, em cativeiro?

É usado inclusive essa expressão Então parte de Atena, uma deusa, liberar o Odisseu das mãos de outra deusa.

RVRogério Vilela

Pois é.

TBTHIAGO BRAGA

Então a gente não tem em nenhuma medida, já no início do poema homérico, o lance do patriarcado. Aí que Zeus pensa, não, realmente, olha, Zeus tava cagando para Odisseu. É isso que a gente consegue entender. Zeus tava cagando para Odisseu, tava nem aí para o sofrimento de Odisseu, tava pensando em outras coisas. Tinha mais o que fazer. Atena não, guardiã de Odisseu, tava atenta. Aí que Zeus permite que Atena faça a parte dela.

Aí ele manda Hermes lá soltar Zeus, soltar Odisseu, falar com Calipso e tal. Então você vê que é um embate entre duas mulheres que decidem o destino de um homem. Calipso detém o destino de Odisseu, e Atena detém o destino de Odisseu. Então é isso, a gente já começa por aí. E sabe outro detalhe, Vilela, incrível em relação ao lance de Calipso, cara? Muita gente não saca isso e não se atenta a isso. Odisseu, ele tá, ele tá em cárcere, e ao mesmo tempo ele tá sendo obrigado a se deitar com Calipso contra a vontade dele.

Bom, então Calipso obriga Odisseu. Em outras palavras, é um relacionamento forçado total. Não vou exagerar dizer que é um estupro ou qualquer coisa do tipo, mas existem alguns autores que falam de coerção, até de uma certa coerção ali acontecendo do ponto de vista sexual.

RVRogério Vilela

Porque, quer ver, se fosse uma mulher, né?

TBTHIAGO BRAGA

Sim, mas não há dúvida, essa relação inclusive acontece. Né, esse contraponto. Porque se um homem faz isso com uma mulher, obviamente isso é considerado um estupro, é considerado uma coerção sexual. Calipso tá fazendo a mesma coisa que Odisseu. Ele não quer se deitar com ela, por isso que ele chora o tempo todo na frente do mar, olhando para o mar, sentindo saudade de Penélope. Termina o dia, vem para cama, Odisseu. É isso, é, cara.

Olha, olha só essa passagem aqui, quer ver? Tá no Canto 5. Isso aqui é impressionante para a galera entender. Canto 5, tá no verso 140, quer ver, 149, aqui, ó, verso 149. Meu amigo, saca só isso aqui, o drama de Odisseu na mão de uma deusa. Para junto do magnânimo Odisseu se dirigiu a excelsa ninfa Calipso, depois que ouviu a mensagem de Zeus. Encontrou-o sentado na praia os olhos nunca enxutos de lágrimas, nunca secos de lágrimas, né?

Gastava-se-lhe a doçura de estar vivo chorando pelo regresso, e já nem a ninfa lhe agradava. Ou seja, ele não gostava nem mais de Calipso ali. Por obrigação, ele dormia de noite ao lado dela nas côncavas grutas. Era ela e não ele que assim o queria. Mas de dia ficava sentado nas rochas e nas dunas torturando o coração com lágrimas, tristezas e lamentos. O que que é isso que tá acontecendo aqui? É um cárcere e Odisseu não pode fazer nada.

Odisseu tá preso nas mãos de Calipso, sendo obrigado a dormir com ela. Esse é o primeiro ponto: onde tá o patriarcado aí? Onde tá o poder de Odisseu conseguir se livrar daquela situação, né? Pois é, primeiro ponto.

RVRogério Vilela

Isso agora, isso em relação, a gente ainda não chegou na Penélope. Depois eu quero também tua opinião sobre Penélope, tá?

TBTHIAGO BRAGA

Sim, sim, eu só tô dando um panorama para galera como que a Odisseia é muito complexa. Essas acusações de misoginia e patriarcado, cara, e anacrônico, né, tá?

RVRogério Vilela

Porque a gente tá colocando conceitos de hoje numa outra, numa outra sociedade, né? A mesma coisa que a gente falar de direitos de negros na época da escravatura. Era outra visão, né? Eles não tinham direitos porque, cara, existia a escravidão. E a mulher era vista como, no passado, como uma pessoa inferior, né, em várias sociedades, né? Então essa visão nem existia, esse conceito de machismo, de feminismo. Então é difícil a gente colocar, né, analisar isso.

É anacronismo. Não sei como a gente faz como historiador, como você faz como historiadora, para pegar momentos diferentes e a gente tem uma visão hoje e tentar analisar com aquela época. E a palavra certo, é certo, é errado, é difícil, né, cara, colocar. Tem sociedades que tem índios que matam crianças defeituosas. Acho que também Falam que em Esparta também tinha esse lance de matar bebês defeituosos. Aí você fala, é certo ou errado, cara?

A gente tá relatando o que acontecia. O certo e errado é nossa cabeça de agora, e o pessoal daquela época achava certo. É difícil, cara, isso é muito difícil, e a gente pode incorrer em muito, muito erro, né?

TBTHIAGO BRAGA

Você analisou perfeitamente, é isso, é anacrônico, é errado. A gente tá 3.000 anos de vantagem na frente dos gregos antigos para hoje, no Quer um exemplo?

RVRogério Vilela

Imagina daqui a 3.000 anos alguém analisando essa conversa que a gente tá tendo e falando: olha que absurdo como eles estão conversando numa mesa comendo, o Vilela tá com jujubas e não sei o quê. Olha que absurdo, os caras não sabem o contexto de hoje, que a gente ainda consumia açúcar, que a gente bebia água, que a gente ainda não tinha membros sei lá, eram carne ainda. Olha, os caras eram todos de carne, todos eles eram humanos ainda.

Então assim, cara, o cara daqui 3 mil anos tá falando, que absurdo, eles poderiam usar só computadores e estão falando. Então assim, a cabeça daqui 3 mil anos a gente não sabe como vai ser, mas com certeza vão achar muito estranho que a gente use objetos que pesam uma tonelada, que podem matar uma pessoa na rua, sendo que Não faz sentido, entendeu? É estranho, mas não tem como, não tem como.

TBTHIAGO BRAGA

Maravilhoso, cara, a sua análise tá perfeita. É isso, a gente tá 3.000 anos de vantagem na frente dos gregos. Então fazer essa leitura de misoginia, novamente, eu vi comentários inclusive da própria Lupita, eu vi o Nolan também, que não é raro.

RVRogério Vilela

O que que ela falou sobre isso?

TBTHIAGO BRAGA

Isso foi a própria Lupita. Eu vi um comentário do Nolan também falando, acusando Homero de ser misógino, né, e tal, que que ele tentou não ser misógino dentro do filme dele, porque Homero não era. Teve que ser no final.

RVRogério Vilela

Ele citou algum exemplo de Homero?

TBTHIAGO BRAGA

É basicamente no final da Odisseia, quando Odisseu mata as escravas também que estavam em conluio com os pretendentes, né? Depois a gente chega lá. Basicamente, na verdade, a gente já pode até concluir essa etapa aqui. Basicamente, o que a gente tem de agressividade brutal contra mulheres é quando Odisseu realmente chega em casa e manda todo mundo para vala, meu amigo. Ele manda os pretendentes, manda as escravas que estavam apoiando os pretendentes.

Então, Odisseu faz uma ruaça ali, realmente. Só que novamente a gente tá falando de um aspecto vingativo, de um Odisseu que passou 20 anos fora de casa de pessoas que estavam arruinando o reino dele, de pessoas que estavam ajudando outras pessoas arruinarem o reino dele. E ele quase perde a esposa, ele quase perde o filho. Vamos lembrar que os pretendentes tentaram matar o filho de Odisseu, Telêmaco. Então, dentro da narrativa, a gente vê um Odisseu, sim, descontrolado, matando todo mundo que ele acha que tem responsabilidade por aquela desgraça que aconteceu sobre o seu reino, sobre seu palácio, sobre a sua ilha.

Então, desse ponto de vista da vingança, é isso que a gente precisa entender. Odisseu simplesmente não matou mulheres porque eram mulheres, não. Na cabeça dele tinha uma validação, porque elas fizeram parte de um complô que quase destruiu a família dele. Então, o cara chega em casa, um cara da época da Era do Bronze, do período micênico e faz aquilo. Bom, julgar se é certo, se é errado nesse sentido é muito fácil para nós hoje.

Basicamente o que a gente precisa fazer é compreender que dentro da Odisseia, tirando esse aspecto final, a gente tem deusas participando e mulheres participando ativamente. A Lupita disse, zombando de Homero, meio que até sugerindo que Homero fosse gay, alguma coisa do tipo, porque Ela diz num dos cortes lá que, considerando tão pouco tempo que você passa com as mulheres, por que que você deu tanto, tão pouco espaço de tela para elas também?

Então ela meio que dá uma zombada assim de que as mulheres não tiveram espaço dentro, protagonismo dentro da Odisseia. Novamente, que Odisseia é essa? Primeiro que Lupita não leu Odisseia, ela própria admitiu que ela não leu Odisseia.

HHomer

Odisseia.

TBTHIAGO BRAGA

E eu tenho as minhas dúvidas se Nolan leu A Odisseia realmente.

RVRogério Vilela

Ah não, porque aí seria um absurdo, né?

TBTHIAGO BRAGA

Eu tenho, porque assim, você fazer uma acusação de patriarcalismo ou misoginia dentro da Odisseia, eu acho que é algo assim que tá fora do cerne da Odisseia. Vilela, só para você ter uma noção, cara, existem autores e tradutores feministas que acreditam que a Odisseia foi escrita por mulheres, foi uma mulher que escreveu a Odisseia, justamente pelo impacto que a Odisseia traz e o peso que ela dá a mulheres ali na trama. As mulheres, elas são maravilhosas, elas são colocadas como protagonistas ali.

Quer ver? Tem uma tradução aqui da Odisseia, essa do Carlos Alberto Nunes que eu falei para vocês, ó, essa aqui, essa aqui também é fantástica, né? Olha só o trechinho aqui inicial, na introdução. Olha o que que o professor Carlos Alberto Nunes, na introdução mesmo, ele já cita sobre esse lance do feminino na Odisseia. Ó o que que ele fala aqui, é que a Odisseia tem leitores, mais leitores do que a própria Ilíada. E ele diz assim, direi melhor, de leitoras, tendo Bentley, que é um classicista, um erudito britânico do século 17, muito respeitado, conhecido, tendo Bentley chegado mesmo a asseverar que Odisseia fora escrita para mulheres e a Ilíada para homens.

Samuel Butler, que é um outro tradutor também muito conhecido, foi além com sua teoria engenhosa de que Odisseia foi composta por Nausicaa, filha de Alcino, rei dos Feáceos. Então, que Odisseia é essa que essa galera tá lendo para achar que realmente está havendo ali um tempo de tela que não tá sendo dado, não tá sendo dado protagonismo às mulheres? Acabei de citar o exemplo de Calipso. O exemplo de Calipso é um dos mais impactantes.

Tem outro exemplo, cara, é justamente dessa Nausicaä, que não aparece no filme, tá? No canto 6 da Odisseia, quando Odisseu chega nessa ilha dos Feáceos, que é a última ilha antes dele chegar em Ítaca. É a última ilha. Ele chega nessa ilha, ele encontra naufragado, destruído, pelado, ele encontra essa Nausicaa. E ela é filha de um rei dessa ilha chamado Alcino, e a esposa dele é Arete. Ela trata Odisseu super bem. A gente sente carinho pelas mulheres na Odisseia, cara.

A gente sente carinho por Atena, até por Calipso. A gente sente carinho porque Calipso ama Odisseu, quer que ele fique com ele. Sabe, que ela quer casar com ele, ela quer viver com ele. Então, de certa forma, até as deusas que atrapalham a jornada de Odisseu, elas são legais, elas são, tem um protagonismo muito interessante. E aí essa Nausicaa diz: servas, deem um banho em Odisseu. E Odisseu, depois do banho, então diz: onde a gente, onde que eu tô?

Que reino é esse? E a quem eu posso me dirigir para me ajudar a chegar em casa? Ah, eu sou filha do rei Alcino, minha mãe é Arete, você faz o seguinte: você vai até o palácio e a primeira coisa que você faz é correr e abraçar os joelhos da minha mãe, implorando a ela para ela te mandar para sua casa, para ela te mandar a Ítaca. Você tá entendendo isso, Vilela? Ela não falou: vai até o meu pai e pede para o meu pai, o rei, mandar você de volta para casa, porque meu pai é o patriarca, é ele que manda na parada.

Então vai direto a ele. Não, ela fala, não, vai até minha mãe, se ajoelhe, abrace o joelho dela, implore com todas as suas forças para ela te mandar embora. É ela que vai conseguir te mandar embora. E é isso que o Edseu faz. Ele chega no palácio, primeira coisa que ele faz é correr e abraçar Arete. E aí, sabe, nesse momento é que Odisseu consegue criar o ambiente para conseguir retornar para casa.

RVRogério Vilela

Entendi.

TBTHIAGO BRAGA

Então cadê o patriarcado aí? Não existe. E mais um exemplo é esse evento de Nausicaä dos feaços, é a coisa mais linda. Arete, cara, ela é tratada como virtualmente uma deusa para os feaços. Todos respeitam ela, todos a admiram pela sabedoria, pela postura dela, como ela, ela cuida dos assuntos do povo. O Rei Alcino valoriza os conselhos dela, sabe? Uma coisa linda, um casal lindo, um casal exemplo para gente. Então, mais esse exemplo de Nausicaä.

E eu tô falando aqui, Vilela, eu não tô falando de personagens secundárias não, tá? Eu tô falando de personagens que têm um papel crucial na história. Outro exemplo, Circe, que eu não sei o que que o tio Nolan resolveu fazer com aquela Circe, meu Deus do céu.

RVRogério Vilela

Então, se Circe é uma feiticeira, ela é o quê? Porque lá ela era uma pessoa atormentada, uma pessoa sofrida, foi abusada provavelmente, né, pelo que ela deixa claro. Quem é Circe?

TBTHIAGO BRAGA

Não é nada disso que Nolan falou, nada. Por isso que eu tô falando, aonde vai o lance da interpretação, né? O que que é esse negócio de interpretação? Quando você olha para Odisseia e na Odisseia diz que que Circe morava em um palácio com colunas polidas, com servas maravilhosas cantando alegremente no palácio, que a Circe tinha cabelos divinais, que ela, sabe, era uma deusa admirada que atraía os homens justamente pela sua beleza.

Como que Homero faz isso? Ou como que Nolan faz isso? Né, isso é um, para mim, isso é tirar o protagonismo das mulheres, né? Porque ele poderia ter colocado uma, uma Circe não só bela e poderosa quanto com controle de si, sabendo exatamente como ela deve agir, com, mesmo que ela tem, mesmo que Nolan quisesse colocar esse lance do os homens são perigosos Mas sabe, colocar uma Cíce que tem controle das suas ações. Mas nesse caso aí, como você falou, ele colocou uma Cíce que, sei lá, que se já foi abusada.

A impressão que dá é essa, que os homens estão indo na ilha para abusá-la. Vai abusar de uma deusa? Um homem vai conseguir abusar de uma deusa? Em que mundo isso? Deuses e deusas é que abusam de homens e mulheres, não humanos abusando de deuses, em nenhuma hipótese. Então qual é a conexão que acontece aí, sabe? Como é que a interpretação acontece de uma Circe descrita em um palácio assim alegre, cintilante, com cabelos lindos, para uma Circe morando num galinheiro?

RVRogério Vilela

Me parece, viu, Thiago, que existe, existe um livro. Eu até comprei esse livro, não tive tempo de ler. É uma versão romanceada de Circe que o autor coloca essa visão de Mas aí, claro, é uma interpretação e tudo mais. E ele deve ter se baseado nesse livro. Não sei se você ouviu falar nesse livro.

TBTHIAGO BRAGA

Nunca ouvi, não, nunca ouvi.

RVRogério Vilela

Então quer dizer, ó, Feiticeira Bruxa: Entre o Castigo dos Deuses e o Amor dos Homens.

TBTHIAGO BRAGA

Então é tipo, deve ser um outro romance, né? Pois é. Então, mas aí ele se baseia na Odisseia ou ele se baseia em outras obras que releem a Odisseia?

RVRogério Vilela

Na verdade É uma releitura.

TBTHIAGO BRAGA

Se é uma releitura da Odisseia, isso precisa ficar claro, né? Porque uma coisa é, estamos nos baseando na Odisseia, outra coisa estamos nos baseando numa releitura da Odisseia para fazer esses personagens. Então, do ponto de vista histórico de Homero, porque eu não vi Nolan falando dessa mulher, quando eu ouço entrevistas eu ouço ele citando Homero, eu ouço ele citando Odisseia, e Odisseia de Homero, né?

RVRogério Vilela

Ele até fala, ele é claro, né? Não existia até hoje no cinema uma obra grandiosa, um épico sobre a obra de Homero. Ele é bem claro sobre isso.

TBTHIAGO BRAGA

Perfeito, perfeito, velho. E outra coisa, quando a galera fala, ah não, mas Nolan não tava preocupado em acuidade histórica, beleza. Por que que ele não quis colocar, por exemplo, orquestra no filme? Qual foi a razão que ele deu? Porque na Grécia Antiga não tinha orquestra. Então ele quis selecionar o que ele quis para representar ou não a acuidade histórica, né? Isso sem contar o barco viking, né? O barco viking na Grécia Antiga inclusive já foi confirmado, é uma empresa, isso já foi divulgado nas maiores, nos maiores jornais e revistas, né, sobre Hollywood, enfim.

Ele contratou uma empresa sueca que faz navios vikings. E a Universal ainda não pagou os danos que eles causaram nos navios vikings lá que eles usaram. Então por que que o cara mandou fazer um navio viking na Grécia Antiga? Qual é o propósito, né? Então assim, olha aí, isso é um navio viking feito por uma empresa sueca. Um cara que tem um orçamento de trilionário para fazer um filme não faz sentido, mas Tenta entrar na cabeça do Nolan.

RVRogério Vilela

Qual que é? É só criar mesmo uma discussão, um frisson para o filme, essa a gente perdendo tempo que nem a gente tá, e aumentar o hype? Ou realmente é estético só, ele achou bonito e beleza? Assim, eu não sei, porque ele é conhecido por ir mergulhar fundo e tentar ser o mais realista possível.

TBTHIAGO BRAGA

Então ele poderia, tem dinheiro, tem recurso, porque essa Então, exatamente, exatamente, é uma coisa que não dá para entender, né? Bom, pode ser que na cabeça dele ele quisesse causar hype, né, a galera comentando. Mas novamente, como eu falei, se for do ponto de vista de filme, um filme enquanto filme, ele poderia botar um iate se ele quisesse ali. Dane-se, o filme é dele, ele faz o que ele quiser, né? Mas se ele pretende contar uma história grega, tanto que ele colocou um Odisseu aonde?

Com armaduras ali gregas, né? Ele colocou o Ciclope. Então tá representando o que tá dentro da Odisseia, dentro de um contexto grego, né? Por que que ele colocou os lestrigões com armaduras de placa? Qual é o objetivo, né? Se é uma reinterpretação ou não.

RVRogério Vilela

Eu quero muito, eu quero muito para esse tópico aí de armadura e tudo mais, mas só vamos fechar a parte do, do, das mulheres, das mulheres, né? É que Penélope, porque no filme a Penélope tem até um discurso que ela fica que ela fica ofendida quando o filho fala que o trono tava vazio. Como tava vazio? Eu tive aqui todo esse tempo e tudo mais. Tem essa, você teve essa percepção também nos livros?

TBTHIAGO BRAGA

Então, outro exemplo claro, né? Olha quantos exemplos a gente tá falando de mulheres fortes.

RVRogério Vilela

Ela liderou todo esse tempo, né, o reino.

TBTHIAGO BRAGA

Meu amigo, Homero está dizendo para gente na Odisseia que todos os homens pretendentes são burros. Ele tá dizendo isso claramente para— porque eles não perceberam que durante todo esse tempo Penélope estava manipulando eles.

RVRogério Vilela

Exato, tecia e desfiava à noite, tecia e desfiava, enrolando os caras, entendeu?

TBTHIAGO BRAGA

E enrolando os caras, os caras simplesmente não percebendo isso. Só o Homero trata os pretendentes como os estúpidos burros que só querem saber de beber, fazer farra, que não tem inteligência nenhuma, que foram enganados por uma única mulher. Onde está novamente o patriarcado, a misoginia nesse caso? Simplesmente não existe. Então a Penélope é uma personagem fortíssima, super carismática, que sim consegue manter o reino, consegue manter o reino até os últimos momentos, até a chegada de Odisseu.

Então é uma baita de uma mulher que é representada com muito respeito na história, sabe? Inclusive pelos próprios pretendentes, né? Os próprios pretendentes tratam Penélope, com respeito. Então é uma baita de uma personagem. E não, não existe, do ponto de vista coerente, tentar dizer que a Odisseia de Homero trata as mulheres como inferiores, ou sabe, fortalece o patriarcado. Não, muito pelo contrário. A cultura grega até poderia fazer isso.

A cultura grega real, né, que eu quero dizer, até poderia fazer isso. Dá para a gente imaginar, do ponto de vista coerente dentro da literatura homérica, as personagens femininas, e a Penélope incluída, como tendo pouco espaço? Mesmo que a gente aceite, tá, quantitativamente elas podem ter menos espaço do que os homens, mas qualitativamente, meus amigos, a gente está diante de mulheres que estão brilhando nessa literatura. Não à toa muitos autores acreditam que a Odisseia foi escrita por e para mulheres. Falei bonito, hein?

RVRogério Vilela

Falou. Mas agora vamos para a parte que eu sei que você gosta, que você tem um canal também sobre isso, que é armaduras, armamentos, o próprio Cavalo de Troia. Eu achei a imagem bonita dele na praia, cara. Como que eram as guerras dessa época? Eu sei que muita gente criticou aquela armadura do Agamenon, se eu não me engano, né? Aquela preta é dele. Aquela toda.

TBTHIAGO BRAGA

Isso, tá. Isso.

RVRogério Vilela

E aí, e essa parte, qual preocupação que ele teve? As roupas também, né?

TBTHIAGO BRAGA

É, exato, exato. Por exemplo, calça, né? Botou calça nos gregos. Não existia isso, calças medievais, aquilo. Isso não, os gregos não usavam calça. Calça era coisa de bárbaro. Para um grego usar calça, Vilela, era uma parada assim, era inconcebível para cultura grega, né? Você imaginar gregos, os gregos usavam usavam as togas, né, usavam aquelas túnicas, eles usavam roupas típicas como a gente vê qualquer imagem da Grécia Antiga, saias, né, aquelas túnicas com saias e tudo mais.

Calça, olha aí, olha isso, calça é coisa de bárbaro para os gregos. Então, do ponto de vista histórico, eu te pergunto, por que será que o Nolan botou calça, né? Novamente, qual o trabalho? Porque eu fico pensando assim, Pô, não seria tão lindo, né, se Nolan tivesse tido atenção a esses detalhes? Será que ele foi mal assessorado? Porque imagina se ele coloca os gregos com roupa dos gregos. Vamos pensar no filme de Troias de 2004, né?

Você vê os gregos minimamente ali vestidos como gregos, né? Então o lance não é cobrar assim acurácia histórica em cada detalhe. Por exemplo, o lance do capacete que Odisseu usa, ele lembra muito os capacetes coríntios, que eram capacetes clássicos clássicos da Grécia Antiga, né? Eram os— quando a gente pensa em guerreiros gregos, a gente pensa nesses capacetes específicos, né? São os capacetes coríntios. Eles são do século 6, muito tempo depois.

Esse, esse, claro que os capacetes coríntios, eles eram mais fechados também. Então, porque é óbvio que o objetivo é mostrar o rosto do cara. Então esses detalhes assim, eles são muito pequenos. Na minha opinião, não vale nem a pena destacar muito isso nos meus vídeos. Até Galera, essa armadura não é do período micênico, da Era do Bronze, né? A armadura da Era do Bronze era chamada Panóplia de Dendra. Cara, era uma armadura bem esquisitona que a gente nem sabe direito como que ela funcionava.

Elas eram, circulava o corpo assim, sabe? Coloca aí só Panóplia de Dendra, vai achar logo de cara aí. É uma armadura esquisitona. Então, tipo, como que eles iam fazer aquele tipo de armadura? Então novamente, tudo é um lance da coerência histórica, né, de você ter o mínimo de coerência também. Se ele representa os gregos dentro de uma perspectiva grega clássica da época da guerra, né, contra os persas, pô, estaria maneiríssimo, porque é um período histórico, né.

Mas nesse caso, olha aí essa panópole de Dendra, né. Aí, olha isso, como é que sim? É, não dá para a gente entender muito bem pelos achados arqueológicos como que eles usavam. Deduz-se que era mais ou menos dessa maneira. Mas você tá vendo, é uma armadura. Eles usavam presas de javali. O capacete era esse aqui, ó, presas de javali, tá vendo? Então era muito esquisitona. Não dá para imaginar o Nolan tendo que fazer essa adaptação para ser fiel, histórica.

É, ia ser cômico, cara. Exatamente. Mas essa era armadura histórica. Então, se ele usa armadura da época lá dos persas, show de bola, que é mais ou menos, mais ou menos o que ele usa. Então deu para passar numa boa. Agora, novamente, o barco viking. Se Troia 2004 fez barcos minimamente, sabe, coerentes historicamente, por que que Nolan meteu realmente barcos vikings, cara, né? Como a gente tá falando, trabalho não é o mesmo, né?

Eles, ele não tem um orçamento gigantesco à sua disposição, né? Por que meteu barco viking? Quebra essa imersão para um cara do calibre que o Nolan é. Então a gente, porque justamente por ser o Nolan, eu acho que a gente até exige coisas que a gente sabe que o Nolan é capaz de entregar. Quando é um filme de baixo orçamento, pô, tipo teve o Odisseia, um filme da Odisseia, 2 anos antes, 1 ano antes, chamado O Retorno, não sei Se você viu, ele teve pouca circulação.

RVRogério Vilela

Ouvi falar, mas não vi ainda. Vale a pena?

TBTHIAGO BRAGA

Do Ralph Fiennes. Eu achei um filme legal também, não é um baita filme, mas achei ele um filme bom também. Então foi um filme de baixo orçamento e tal. Olha, isso é um navio viking, meu velho, entendeu? Não dá para você imaginar, né, colocando navio viking realmente na Grécia Antiga. Então quebra esse tipo de crítica, é inevitável surgir, né? Então o lance das armaduras é, eu diria que é basicamente isso. Quando a gente fala dos lestrigões lá das armaduras de placa medieval, a gente tá falando de armadura de aço.

São armaduras de aço que, primeiro, não existiam lá naquela época, e segundo, os lestrigões, eles são tratados na Odisseia como sendo bárbaros canibais gigantes que devoram os amigos de Odisseu. Odisseu, Vilela, perde mais amigos dele ali nessa ilha dos lestrigões do que na Guerra de Troia inteira. Ô louco! É, são mais de 500 amigos que são destruídos ali, meu amigo. É um dos eventos mais traumáticos da Odisseia. Então, tipo, pô, não seria maneiro se ele fizesse os bárbaros lá, os caras, sei lá, cabeludões assim, gigantões?

RVRogério Vilela

Eu não entendi aquela opção, cara. Ficou um negócio, sei lá, cara, uns gigantes galhos metalizados, né?

TBTHIAGO BRAGA

Não sei qual foi, dando umas espadinhas, né? Umas espadadinhas jogando os caras assim.

RVRogério Vilela

E as árvores se mexiam, era magia. Você entendeu aquela parada? Se fechavam, sabe, os galhos. Você viu essa parte?

TBTHIAGO BRAGA

Lembra? É assim, eu vi essa parte, mas não me chamou atenção para nada específico.

RVRogério Vilela

Elas estavam fechando eles em, em, como se eles fossem muito, muito grandes e o peso deles fizesse elas Não, é algum tipo de magia que as árvores tivessem vida ou elas fechassem em volta deles. Aí a imagem dos caras.

TBTHIAGO BRAGA

Ah, sim, eu lembrei. Sim, sim, sim. Como se— não, mas ali não eram armadilhas? Aquilo era uma armadilha, não era?

RVRogério Vilela

Não ficou claro para mim que era uma armadilha. Ah, então era isso.

TBTHIAGO BRAGA

Olha só, eu tive a impressão.

RVRogério Vilela

É bonito, tá, mas não tem nada a ver, né? Essa parte me tirou um pouco do filme assim, parecia parecia uma coisa meio um outro planeta, né?

TBTHIAGO BRAGA

Então, então, sabe, são essas adaptações que eu penso. Qual o lance da interpretação? Até onde vai a interpretação, né? Quando você olha e você tem uma descrição muito específica sobre um povo ou uma época, e você, sei lá, dá um salto de algo que parece que veio de milênios à frente. É como eu falei, se não metesse um sabre de luz ali, eu não ia nem estranhar, cara. Assim, por quê? Porque ele bagunçou mesmo com os períodos históricos.

Então eu imagino que não sabre de luz como do Star Wars, né, mas uma arma de luz assim, alguma coisa do tipo, que tirasse esse pé do chão. E outra coisa, Vilela, esse lance que a gente tá falando da interpretação, que entra dentro desse aspecto histórico e cultural, Ele cita Sila, ele cita Caríbdis, ele cita Circe, cita Calipso, ele cita os deuses, né, os monstros, bota Ciclope, bota os Lestrigões. Todos esses são monstros dentro desse mito, dentro da mitologia, certo?

RVRogério Vilela

Certo.

TBTHIAGO BRAGA

Muito bem. Por que que ele não colocou os deuses?

RVRogério Vilela

É, a gente teve, a gente teve a representação da Atena, que no final ele deixa dúbio se é uma figura que foi projetada da cabeça dele ou se era realmente a deusa. Como você entendeu isso?

TBTHIAGO BRAGA

Boa, cara! Essa é uma das partes para mim mais problemáticas também, por dois motivos. Primeiro, a gente não sabe se realmente ela é Atena, não dá para cravar como você falou. Não, não dá. Ao mesmo tempo, a gente não pode descartar que ela não seja Atena.

HHomer

Atena.

TBTHIAGO BRAGA

Então pode ou não pode ter sido Atena. Se não foi Atena, vamos trabalhar nessa hipótese, se não foi Atena, ela nada mais era do que a visão de um Odisseu com estresse pós-traumático e culpa. Seria a projeção de culpa, uma projeção de culpa, um Odisseu se sentindo culpado, o que novamente é inverter a Odisseia, que Odisseu era um conquistador de cidades Odisseu era um cara que usava violência porque ele achava que a violência— a gente tá falando do período novamente da Era do Bronze, do período micênico, mesmo que seja na época de Homero— a visão da violência era outra, era uma visão muito mais, sabe, validada do que a gente hoje pode conceber, né?

Então a gente tem o Odisseu predestinado a fazer aquilo. Então ele não se culpa em ter ido à Guerra de Troia e ter matado. Fez parte do dever dele. Primeiro ponto.

RVRogério Vilela

Então esse, eu disse, não tinha o certo ou errado nisso, era o que ele teria feito como líder.

TBTHIAGO BRAGA

Exatamente. Não, não tinha. Então isso já é uma incoerência histórica do ponto de vista do herói. Inclusive, Vilela, a própria tradutora que supostamente ajudou a equipe lá do Nolan, que foi autora, a tradutora escolhida para fazer parte, de ter a base textual, achou essa adaptação um absurdo, dessa inversão do herói do Odisseu que foi feito na Odisseia, porque o Odisseu não conecta, né? Eu particularmente não me senti nem um pouco conectado com o Odisseu.

Odisseu perturbadaço da cabeça. O Odisseu não sabe o que, por que que ele tá fazendo aquelas coisas. Ele tem dúvida, ele tem certeza, ele come a flor de lótus Ele acha que ele trapaceou quando ele, ele usou a artimanha do cavalo de Troia?

RVRogério Vilela

É isso? Ele sente arrependido?

TBTHIAGO BRAGA

Ou ele sente—

RVRogério Vilela

no filme, no filme, ou é por causa das mortes das crianças e das mulheres no final, quando ele vê que o que ele imaginava não é o que aconteceu?

TBTHIAGO BRAGA

Não, então esse tipo de— sim, sim, então esse é o tipo de visão que o Nolan coloca. Mas para o Odisseu, as ações dele foram totalmente justificadas. Então, para o herói, isso faz parte da narrativa. Odisseu, ele é um herói que ele vai fazer o que precisa ser feito, não só para vencer a Guerra de Troia, como no caso do cavalo, quanto para retornar para casa. Então, como eu falei, a própria tradutora Emily Wilson, ela achou, sabe, essa inversão do herói bizarra, ruim.

Então, se não for Atena, se for uma visão de um estresse pós-traumático de Odisseu. Isso já é um problema do ponto de vista literário. E se for, e se for Atena, nós temos um outro problema aí, porque Atena aparece em todo o filme na forma de uma menina que a princípio foi morta na frente de Odisseu e com as bênçãos dele. Ou seja, Atena aparece para perturbar Odisseu. Sendo que na Odisseia, como uma assombração, como uma assombração para sempre constantemente jogar o lance da culpa de Odisseu na cara dele.

RVRogério Vilela

Assim como, sendo que assim como a gente chega nesse ponto também, assim como os soldados que não foram enterrados e que cobram isso dele, né, depois.

TBTHIAGO BRAGA

Isso, isso. Só que Atena na Odisseia inteira só aparece para ajudar Odisseu. Só aparece para fortalecer Odisseu, só aparece para guiar Odisseu no caminho. Ela se transforma em mentora, ela se transforma em mendigo, ela se transforma em vários seres humanos. Tem uma ocasião que ela aparece como deusa na frente de Odisseu quando ele chega a Ítaca, mas em outras passagens ela assume formas humanas, né? Então é sempre para inflar Odisseu de coragem para ele retornar para casa.

Então, ao mesmo tempo que a gente tem o Odisseu com estresse pós-traumático, com a mente ferrada, a gente ainda tem uma aparição que possivelmente pode ser Atena também, para acusar Odisseu, para mostrar o quanto ele foi ruim. Ou não, ou é apenas uma aparição realmente de um Odisseu fraco que não encontrou esse seu papel de herói nas ações que ele mesmo achou que tinha que ser feito. Então eu acho que a parte da da Atena é uma das mais bizarras para mim, porque ela entra unicamente nessas duas hipóteses que eu acabei de dizer.

E nas duas hipóteses é uma inversão completa do que é o herói grego, como a própria tradutora assume, né?

RVRogério Vilela

E ele coloca os outros deuses como aspectos do tempo, né? O mar revolto é Poseidon, a falta de ventos— ele não mostra diretamente como outros filmes mostraram, e coloca uma visão. Não sei se foi ele que disse isso, alguém que analisou, que era uma visão dos gregos, que não viam exatamente os deuses, mas viam os efeitos dos deuses na natureza. É isso.

TBTHIAGO BRAGA

Beleza. Não viam os deuses, mas viram a Scylla. Não viam os deuses, mas aquele monstro dos tentáculos que começou a catar.

RVRogério Vilela

É verdade, verdade, ele aparece. É, você tá entendendo?

TBTHIAGO BRAGA

Por que escolher alguns e tirar outros, né? Porque uma coisa eu entendo, não, pera aí, vamos fazer o seguinte, vamos fazer uma Odisseia baseado muito na Odisseia, mas uma Odisseia pé no chão. Vamos tentar desconectar os deuses, mas vamos tentar desconectar tudo. Vamos fazer uma Odisseia humana. Eu até conseguiria compreender, pô, é uma jogada ambiciosa, mas tá, vamos tentar dar as explicações do sobrenatural de alguma outra maneira que não conecte com os deuses, mas vamos tirar tudo.

Mas não, ele colocou ciclopes, colocou as sereias, colocou Scylla, que é esse monstro que são tentáculos horrorosos, mas na história, na mitologia, ela tem corpo de mulher, cabeça de cachorro e tentáculos de serpente, algo desse tipo. Agora não me lembro exatamente a descrição, mas é uma representação, uma criatura muito— é, coloca aí, Sila, Sila, Odisseia. Tem várias artes, eu já vi várias artes que muda um pouco entre si, né?

Mas a essência basicamente é essa: Sila é uma mulher que foi amaldiçoada por algum deus e que ela acabou se transformando nisso, né? Ela ficou com corpo de mulher, com cabeças, com uma cabeça de cachorro e tentáculos de serpente. A descrição é mais ou menos semelhante a essa, né? Então colocou a Sila aí, tá vendo? É como eu falei, vai ter muitas representações artísticas, mas é muito mais assim do que a gente viu no filme. No filme a gente só viu os tentáculos aparecendo umas rochas lá.

Pegando os amigos de Odisseu. Então apareceu isso, apareceu Caríbdis, que é aquele rodamoinho que era considerado um monstro também. Aquilo é um monstro na mitologia. E a Sila e Caríbdis, geograficamente, muitos estudiosos entendem que Sila e Caríbdis fica no estreito da Sicília e a Itália. Então naquela passagemzinha bem estreita ali entre a Sicília e a Itália era onde Odisseu foi obrigado passar, e ali estavam os monstros, né, Sili Caribes.

Então tem esses monstros, ou seja, a mitologia existe, mas tirou os deuses fora. Aí, esse aí é da Odisseia de 97, cara. Pô, olha a sacada genial que ele fez! Eu achei isso aqui genial, cara, né? Como se fosse, como se fosse uma boca de um monstro assim com dentes, né?

RVRogério Vilela

Muito legal.

TBTHIAGO BRAGA

Então, o tipo de adaptação que, pô, você imagina e faz sentido, né? Então você vê isso, você vê uma, uma Odisseia do Nolan que ela ficou bagunçada nesse aspecto também. Pô, você imagina se aparece Poseidon, né, em pessoa ali, tipo naquele filme Imortais, né, que tem o Henry Cavill, que mostra vários deuses, mostra Zeus e tal. Pô, ia ter uma pegada muito maneira essa conexão, porque os deuses são fundamentais na história. Então deixa os monstros, mas tira os deuses?

Não faz sentido do ponto de vista nem coerente, né? Ou tira tudo, ou vamos colocar os outros personagens para preencher esse espaço também.

RVRogério Vilela

Tiago, vamos falar do— eu acho que é a cena principal do filme, né, em termos visuais, e que pelo menos me pegou desprevenido porque eu não tinha visto nada do filme, fiz questão, que é o Ciclope, né? Ciclope ou cíclope? É ciclo, ciclope, né?

TBTHIAGO BRAGA

Ciclope, ciclope.

RVRogério Vilela

É qual é o nome, qual o nome grego para isso?

TBTHIAGO BRAGA

Polifemo. O nome dele era Polifemo.

RVRogério Vilela

Isso significa Polifemo.

TBTHIAGO BRAGA

Polifemo, não sei, Vilela. Não, o nome dele, a tradução do nome dele eu não sei, não sei o significado do nome dele. Não, o nome dele era Polifemo.

RVRogério Vilela

Ah, o nome dele, mas a figura do ciclope, o que que significava? Porque, ah lá, cara, olha a visual dele. Maravilhoso, né?

TBTHIAGO BRAGA

Sim, todas as representações artísticas. Eu achei esse Ciclope muito interessante, por sinal. Eu achei que é distorcido, né? O nariz torto. Eu achei essa liberdade artística bem interessante. O olho dele, ele é um olho invertido, né?

HHomer

É.

RVRogério Vilela

Mas existe um conceito que o Ciclope, ele tem um olho só, ou é um tipo de representação?

TBTHIAGO BRAGA

Não, o Ciclope é basicamente— o Ciclope, ele é uma criatura de um olho só.

RVRogério Vilela

Porque isso dentro da mitologia é para olho redondo, né? Eu vi algum lugar falando que todo mundo representa com um olho só, mas isso, a tradução é basicamente o olho. Ah, tá, o olho é o olho que abre margem.

TBTHIAGO BRAGA

Isso, eu até onde eu sei, a única tradução etimológica para ciclope é o olho, algo no tipo assim, que reflete, que faz menção realmente ao fato dele ter apenas um olho.

RVRogério Vilela

E ele, e ele no livro é uma comunidade, não é um só, né? Aqui só mostra ele, mas é tipo uma— eles não vivem juntos numa ilha? Como que é isso?

TBTHIAGO BRAGA

Eles vivem juntos. Inclusive, geograficamente, a Ilha dos Ciclopes é a Sicília. Eu tive, pô, tive, é, eu tive prazer de, eu fui lá em cima, eu tive essa, teve também. Então ano passado eu estive na Sicília, cara. E tem um local na Sicília, a cidade de— ai, qual o nome da cidade? Ele pode lembrar o nome da cidade? Não, o nome da cidade dos ciclopes lá na Sicília. Poxa vida, uma cidade! Tenta pesquisar aí, né? Você fala, pesquisa e me fala.

É, existe uma cidade que o cruzeiro que eu né, fiz pelo Mediterrâneo ali, ele para, que seria a cidade do, do, cidade de Ate.

RVRogério Vilela

Ate é alguma coisa, de repente ele acha foto ou lugar.

TBTHIAGO BRAGA

Ate Castelo, Ate Castelo, tá? Ate Castelo é o nome da cidade. Pronto, ela lembrou aqui. E aí, geograficamente, quem conta para gente é Tucídides, aquele historiador que eu mostrei para você. Que ele faz essa conexão, sabe, de locais geográficos de onde possivelmente Odisseu passou e onde os monstros habitariam. E a Sicília é um dos lugares definidos que seria a ilha dos ciclopes, né? Olha que interessante. Inclusive tem duas pedras lá nessa cidade de Aci Castello que são as pedras, né, obviamente dentro de um contexto, né, fantasioso e cultural da ilha.

Que seriam as pedras que o Ciclope jogou no barco de Odisseu. E dá para ver, dá para ver dessa cidade. Eu vi pessoalmente, são dois rochedos enormes assim, sabe?

RVRogério Vilela

Você achar, hein? Eu fiquei curioso porque eu tive lá, não sabia dessa história, cara.

TBTHIAGO BRAGA

Então, cara, da próxima vez que você for nesses lugares aí, Vilela, fala comigo que eu te dou umas dicas, porque eu já fico antenado nisso tudo quando eu vou para esses lugares que eu sei que tem pegada histórica, eu já vou lá já antenado em tudo que você colocou lá.

RVRogério Vilela

A galera olhar para isso e ter uma história por trás que eles contam para os filhos, os filhos contam para os filhos. Olha lá, aí tá ele aí, Síria, tá vendo?

TBTHIAGO BRAGA

A ilha, o estreito.

RVRogério Vilela

Onde tá a cidade?

TBTHIAGO BRAGA

Vamos ver, será que consegue achar? É Ate Castelo.

RVRogério Vilela

De repente é mais fácil você ir no Google Maps.

TBTHIAGO BRAGA

Eu acho que Ate é A-T-H-I. Castelo.

RVRogério Vilela

Ele achou, ele achou, achou!

TBTHIAGO BRAGA

Pronto, que legal! Coloca aí Pedras do Ciclope, Pedra de Polifemo, alguma coisa assim, vai aparecer o Jochedo.

RVRogério Vilela

E é legal em Sicília que você acha uns teatros gregos, né, que você vê o Mediterrâneo, é um visual, cara, que é— você imaginar naquela época você naquele lugar vendo o teatro, aquela arena do teatro, é Você anda mais um pouco, tem um templo, tem uma construção que ainda tá praticamente em pé, cara. Você vê tudo Mediterrâneo, as montanhas, cara.

TBTHIAGO BRAGA

Você é lindo demais, cara.

RVRogério Vilela

É de arrepiar, velho.

TBTHIAGO BRAGA

É enriquecedor. É como eu te falei, ó, esse cara aqui, olha aí. Isso aí, pronto.

RVRogério Vilela

Essas seriam as pedras ou não?

TBTHIAGO BRAGA

Essas seriam as pedras que, de acordo com a mitologia e o imaginário popular dos sicilianos, Seriam as pedras que foram jogadas pelos ciclopes. E como eu te falei, isso não é algo que o povo foi criando ao longo do tempo, não. Era algo que eles acreditavam como sendo real, porque, ó, aqui na história da Guerra do Peloponeso, dito Sídides, ele próprio faz a referência a esses locais, por exemplo, a Sicília sendo a ilha dos ciclopes.

Então, na cabeça dos gregos, esses mitos estavam muito conectados à história deles. Os ciclopes já não existiam mais, foram mortos, deixaram de existir, faz parte de um passado mitológico, mas para eles fazia parte de um passado real, saca? Então, cara, isso é incrível. Então o Ciclope, ele tem uma existência, os ciclopes, né, porque como você falou, era uma comunidade que vivia ali naquela ilha, né? Aquele ciclope específico, a único que a gente sabe por nome, que é o Polifemo.

Então quando ele fecha a pedra come os amigos de Odisseu e tal, e Odisseu consegue escapar. E Odisseu inicialmente diz que o seu nome era Ninguém, já pensando, porque Odisseu era astuto, né? E ao mesmo tempo era uma piada. Odisseu tava sendo brincalhão ali também, tava zoando o Ciclope. E a gente na Odisseia de Nolan, a gente vê um Odisseu carrancudo, basicamente assim, o tempo todo. Então nem depois do Ciclope cego, ele ainda dá uma flechadinha no olho.

RVRogério Vilela

É, aquilo foi totalmente desnecessário, né, cara? Até os companheiros dele fala, velho, para quê, velho? Só vou me embora, cara.

TBTHIAGO BRAGA

Exatamente, cara.

RVRogério Vilela

Então, e aí quando ele consegue escapar, tocar a campainha e sair correndo, né, da casa.

TBTHIAGO BRAGA

Exato. E aí quando ele consegue escapar, então ele começa a gritar, ninguém me feriu, ninguém me feriu, ninguém me me feriu. Os ciclopes vêm e ele diz: ninguém me feriu. Então ninguém te feriu, então tá tudo certo. Então ninguém te feriu, beleza, tá bom, então é pronto, não dá em nada. Mas o ciclope Polifemo, ele começa a jogar pedras, cara. Ele joga, se eu não me engano, 3 ou 4 pedras que aterrorizam a tripulação de Odisseu, que joga o navio de volta para praia, que eles quase são pegos pelo ciclope novamente.

E no filme ele tá com uma pedrinha lá que Odisseu até ri da cara dele. Então tipo, não teve esse, esse— eu acho que a cena do Ciclope foi ok, eu não acho que foi uma cena ruim. Em especial o efeito sonoro ali na cena foi perturbador, né? Mas eu poderia ter sido muito mais bem aproveitado porque é uma cena muito épica que passou muito rápido assim. Mas essas escolhas do que entra, do que sai, né? Eu acho que isso faz parte da adaptação.

RVRogério Vilela

Até porque ele não tem como Cara, acontece muita coisa, né, para você colocar em quase 3 horas.

TBTHIAGO BRAGA

É isso que eu falo para a galera, adaptação é isso.

RVRogério Vilela

O que você sentiu mais falta assim? Putz, eu queria ter visto mais isso, que ia ser muito legal.

TBTHIAGO BRAGA

Aos deuses, cara, não há dúvida. Tirando os deuses, tirou os deuses da obra, tirou os deuses do filme, é tipo o King Kong.

RVRogério Vilela

Vou só tirar o macaco aqui. Vamos fazer um King Kong realista, o macaco é do tamanho normal, tá? Aí tipo é outro filme, né?

TBTHIAGO BRAGA

Exatamente. Ou então, ou então Atena, coloca Atena presente ali, sabe, com um papel mesmo de uma pessoa que está vivendo. Poxa, poderia ter explorado Hermes de uma maneira muito incrível ali no momento da Circe, sabe? Mas não, o Nolan tava querendo passar uma mensagem, na minha concepção, muito mais ideológica do peso que aquela história deveria ter representado para os gregos de alguma maneira, sabe? Quando os próprios gregos não viam daquela maneira.

Então acho que Nolan quis passar uma mensagem tão pesada, tão ruim, tão negativa, não só do próprio Odisseu quanto da própria história, que acabou deixando realmente essa história pesada. O lance dessa do dessa questão da adaptação, por exemplo, das armaduras. Muita gente diz assim, ah, mas o próprio Homero, quando se fizesse referência às armaduras, ele seria anacrônico. O próprio Alexandre, o lance do Agamêmnon, né, da armadura escura do Agamêmnon, né.

Ah, o próprio Alexandre, quando representava, eu já ouvi vários comentários assim, inclusive, o próprio Alexandre e escultores gregos, quando representavam um período histórico da Guerra de Troia colocavam armadura da sua própria época ao invés de colocar armadura daquela época. Cara, esse é um argumento tão fraco, tão fraco, por um motivo muito simples: a gente hoje sabe mais das armaduras do período micênico do que Alexandre sabia, por causa de escavações, porque existe uma coisa chamada arqueologia hoje.

Naquela época não. Período micênico tava literalmente enterrado sob metros e mais metros e mais metros de terra. Então as armaduras, as espadas, os gregos não tinham conhecimento daquilo. Então é óbvio que Alexandre, quando fosse representar uma armadura dos gregos, é mais do que óbvio que ele representaria dentro do que ele tinha de conhecimento, pronto, que era as armaduras dele. Porque se o lance do anacronismo não tem nenhuma relevância, porque a gente pode representar os personagens daquela época como a gente bem entende.

A gente poderia colocar Odisseu e os marinheiros dele com roupas de fuzileiros americanos. É do nosso período, não é? Eles são do nosso período. Então, sabe, é novamente esse lance das adaptações. Adaptação existe, escolha, tira uma coisa ou coloca outra, né? Encurta um pedaço, um trecho. Escolhe sobre o que fala, sobre o que não fala. Isso é adaptação. Agora, você virar de cabeça para baixo aspectos assim que são tão fundamentais e ainda atribuir falsamente questões ideológicas, né, a uma obra milenar que, sabe, tá tão longe da gente, eu acho que beira a desonestidade, para dizer o mínimo, sabe, Lela? Então eu teria muito cuidado em relação a isso mesmo.

RVRogério Vilela

Não, não, com certeza. Aliás, o Homer, fala comigo, que o pessoal quer saber, hein?

HHomer

Vamos lá, tem a pergunta aqui do Natan Rodrigues. Ele quer saber, Thiago, por que Odisseu é considerado um dos personagens mais inteligentes da literatura?

TBTHIAGO BRAGA

É tanto que ele é chamado de astucioso, né? O astucioso Odisseu. É justamente por essa sacada, não só do cavalo de Troia, né? Eu acho que a genialidade de ter pensado no cavalo Troia, porque ele sabia que os, os troianos iriam entender como sendo algo relacionado aos deuses, sabe? E todo o impacto que aquilo poderia ter, que eles levariam para dentro da cidade e tudo mais, e que eles poderiam saquear e tomar Troia a partir daquele cavalo ali, é um dos ápices, né?

Obviamente, quando a gente fala em inteligente e astucioso, a gente tá falando do— a gente novamente tem que levar em consideração pessoas de 3.000 anos atrás, né? De milênios atrás. Talvez para hoje a gente, pô, que que isso tem a ver um cavalinho de Troia, né? Se a gente quiser diminuir, infelizmente, esse papel, as pessoas podem diminuir da maneira como quiser. Mas naquele período, pensando naquele povo, foi uma artimanha e tanto.

O lance do Ciclope, ele conseguiu salvar, né, os amigos só naquela tramóia de enganar o Ciclope e se esconder embaixo das ovelhas. Que inclusive o filme, né, não mostrou eles se agarrando embaixo das ovelhas.

RVRogério Vilela

Eles colocam uns galhos, né? Na história original, como que é?

TBTHIAGO BRAGA

Eles vão por baixo, eles se agarram, eles se abraçam embaixo das ovelhas, que ovelha é um bicho bem grande, né? Ovelha é um bicho grande. Então eles conseguem se abraçar embaixo das ovelhas e eles passam, eles escapam justamente porque o Polifemo passa a mão por cima e percebe que eram só as ovelhas passando. Mas ali no filme eles colocaram uns galhozinhos, eu acho, eram os galhozinhos ali.

RVRogério Vilela

Aí o Ciclope fala: nossa, estou vendo uns galhozinhos, ah, deve ser ovelha, só pode ser minhas ovelhas.

TBTHIAGO BRAGA

Mais burro do que aquilo não tem como, né? Então essa artimanha, mas não só o lance do astucioso em relação à inteligência em si, mas em relação ao ser do Odisseu. Odisseu, né, de tantas qualidades ali, de ao mesmo tempo qualidades humanas, defeitos, ao mesmo tempo um cara temente aos deuses. Inclusive o filme até menciona que Odisseu lá, quando tá com Penélope, ele diz: ah, então eu vou desafiar os deuses. Meu amigo, Odisseu era o maior cagão dos deuses.

O cara venerava os deuses o tempo todo. O que ele fazia era chorar por causa dos deuses. Então todas essas características fazem ele ser um arquétipo do herói grego, e misturado com a inteligência, misturado com a teimosia, com a resiliência, força de vontade do cara, né, fez ele ser o que ele é realmente.

HHomer

É, Homer, e tem a pergunta também da Júlia Mantovani. Ela quer saber se existe alguma descoberta arqueológica que deixou a história da Odisseia mais plausível.

TBTHIAGO BRAGA

Cara, essa pergunta é muito boa, porque novamente a gente dentro da Odisseia faz uma conexão entre história e realidade, né? Então, por exemplo, quando a gente tem os palácios da Odisseia sendo descritos, Homero descreve basicamente 4 palácios: o palácio de Esparta, o palácio de Pilos, o palácio de Micenas e o palácio de Odisseu, que são os 4 palácios onde os heróis estão. Telêmaco, ele vai até o palácio de Pilos e o palácio de Esparta, só aí tem 2.

Agamêmnon retorna para o seu palácio em Micenas, né, e acaba sendo morto porque Têmistra até mostra a cena lá no filme, né. E o último, Palácio de Odisseu. Os 3 palácios de Homero foram descobertos na Grécia já há décadas, mas só faltava o Palácio de Odisseu. E na década de 90, o Palácio de Odisseu foi descoberto em Ítaca, na cidade de Ajos Atanásios, o vilarejo, né, chamado Ajos Atanásios, que hoje recebeu o nome carinhoso de Escola de Homero.

Então foi descoberto um palácio ali que tem várias camadas de vários períodos, com algumas delas, algumas dessas camadas e fontes de água construídas à mão, que vem do período micênico, da Guerra de Troia, meu amigo. Então a descoberta desses palácios Eles ajudam a gente a corroborar que na visão Homero estava ancorando, quem quer que tenha sido Homero, ou os escritores, ou os bardos aedos que cantavam aquelas histórias, eles ancoravam aquelas histórias baseados em uma realidade, além das descrições históricas também, das descrições dos locais, né?

A gente tem Esparta, a gente tem Pílulas, a gente tem Atenas, a gente tem Micenas, a gente tem, sabe, é Quefalônia, que é uma outra ilha do lado de Ítaca. A gente tem uma passagem muito bonita no canto 4 da Odisseia, que Menelau tá contornando o cabo, um cabo no sul de Atenas chamado Cabo Súnion. Homero cita isso. Eu tive lá no Cabo Súnion, também tive em Ítaca, inclusive duas vezes. Fui nesse palácio, a coisa mais linda. Você, poxa, a gente que ama Odisseia, eu chorei igual criança, meu amigo.

Todas as vezes que eu fui lá, eu chorei igual criança, porque é bonito você viver uma história, né, tão inspiradora. Esse lugar, sim, esse aí, o Palácio de Odisseu. Exatamente, tá vendo? Obviamente a ruína, né, o palácio está em ruínas. Não, o governo grego infelizmente não tem conseguido recursos para financiar reconstrução, né, novos estudos, mas esse palácio último a ser encontrado. Então tem esse Cabo Súnion em Atenas, que o piloto de Menelau inclusive perde a vida contornando.

Então a gente tem múltiplas localizações geográficas que ajuda a gente entender que para os gregos aquelas histórias estavam conectadas em uma realidade material, nas próprias cidades que eles viam e viviam, né? Então esses achados arqueológicos, tirando, claro, inclusive a própria descoberta de Troia, né? Ajuda a gente ver que a Odisseia é muito mais do que um simples mito, é uma conexão material dos gregos através de um conto que na visão deles era não só real quanto estava baseado nessa materialização histórica mesmo.

RVRogério Vilela

E eu pedi para o Homer, você achou um mapa da provável viagem de Homero assim, tipo por onde ele teria passado? Porque não sei se baseando aí pela pelas direções em relação a ilhas, a gente pode imaginar o que ele teria feito de caminho para chegar, esse atraso assim.

TBTHIAGO BRAGA

E, e, ó lá, perfeito.

RVRogério Vilela

Aí, o que que você acha desse?

TBTHIAGO BRAGA

Ele chega, não, fantástico. É isso aí. Os lotófagos, por exemplo, não só os lotófagos, que são os comedores de lótus, que eles esquecem do trajeto de casa, né? Odisseu, os amigos de Odisseu que comem dessa flor esquecem o trajeto. Os lestrigões também são no norte da Itália, no norte da África, essas duas localizações. A gente tem Odisseu chegando próximo à Espanha, tá vendo a ilha de Eia, que é a ilha de Calipso? A gente tem Circe, a gente tem Circe conecta a Ogigia.

Na verdade, pera aí, eu tô com— pera, deixa eu lembrar. Eia é a ilha de Calipso ou é de Circe? Ogigia é que a ilha de Calipso, vê se é porque eu não tô conseguindo enxergar. Eiaecice e Ogigia de Calipso, perfeito, uma próxima da outra. Aí a gente tem a Isquéria, tá vendo, que possivelmente era o reino dos Feáceos, que foi a última ilha onde Odisseu chegou, né. E aí dessa ilha, esses Feáceos eram um povo muito habilidoso com os remos, eles conseguiam remar com muita força, em altíssima velocidade, eram os maiores mestres dos da navegação daquela época, né?

Então eles que levam Odisseu de volta para Ítaca. A gente tem o Estreito de Caribe de Sicília, exatamente onde eu falei para você. A gente tem a Ilha dos Ciclópes aqui, que é Sicília, e contornando, ó, lá embaixo a gente tem Esparta, né? Lá em cima a gente tem Troia, tá vendo? Lá em cima na direita a gente tem Troia. Na verdade, eu fiz o trajeto de volta de Odisseia, né, já no final dele. E a gente tem Ítaca, tá vendo ali em cima, próximo a uma ilhazinha bem pequena, próximo ao Peloponeso aí, que essa região, esse pedaço grande de terra aí da Grécia.

Então é um mapa que historiadores e escritores antigos já ajudam a gente a traçar. Então é algo muito mais amplo do que simplesmente uma viagem, uma aventura. Eles conseguiam localizar essa aventura em regiões geográficas reais.

RVRogério Vilela

Cara, isso é fantástico, né? Você imaginar isso e percorrer. E cara, como que não fazem um passeio desse? Deve ter algum, algum tipo de excursão, alguma coisa para você, né? Ia ser louco isso, né?

TBTHIAGO BRAGA

Um cruzeiro, né? Imagina um cruzeiro, muito louco. É, o cruzeiro que eu fiz, eu passei pelos Passei pela Sicília, passei por esse estreito, né, entre a Sicília e a Itália, Caríbdis, estive em Olímpia e fui em Cefalônia e Ítaca também. Então, né, isso, eu já fui em Atenas em outras ocasiões, tem esse contorno do Cabo Súnion aí que Odisseu também passou. Então você consegue fazer com, em alguma medida, não todos, mas você consegue fazer pelo menos metade do percurso.

Eu acho que o mais complicado é você ir para o norte da África, conseguir um cruzeiro que vá para o norte da África ali nessa região dos Lestrigões e dos Lotófagos, e também lá para a Ilha de Ogigia, né, de Calipso e Circe. Ali já é um pouco mais afastado, mas como eu te falei, pelo menos metade do trajeto dá para fazer numa boa. E é divertidíssimo. É claro, a pessoa tem que amar a literatura, tem que amar a história e E tem que se divertir, né?

Afinal de contas, não obviamente acreditar que aquilo ali deve ter acontecido na realidade, mas quem sabe?

RVRogério Vilela

Pouco importa.

TBTHIAGO BRAGA

De qualquer forma, vale, vale.

RVRogério Vilela

Isso é muito além do aconteceu ou não aconteceu, né? É exatamente a mesma coisa de um ateu falar a Bíblia não tem importância, cara. Você pode não acreditar, você pode não falar, mas a importância que a Bíblia é que nem eu tenho um show de um comediante que eu gosto muito, que é Luiz Siquei, que ele fala, ele é ateu, né? Ele fala: você acha que a igreja não venceu? Os cristãos não venceram? Ele fala: que ano que a gente tá? Não é depois de Cristo?

Então assim, tem importância, tem o antes e o depois. É a mesma coisa de Odisseia, mesma coisa também. Você acha que o outro livro que você citou, que também é uma epopeia, né, Gilgamesh também, ele, ele estaria onde nesse histórico assim da gente? Ele é tão importante quanto Odisseia? Ele é um outro tipo de importância?

TBTHIAGO BRAGA

É, para assim, não, não, obviamente não, não, para cultura ocidental dessa maneira como a gente, a gente, eu particularmente não conheço quase nada de Gilgamesh. Quem sou eu para tentar destrinchar a história? Eu realmente nunca li. Óbvio que ela tem uma importância cultural para o povo mesopotâmio, aquela região ali mais próxima do Irã, né, aquela região que foram meio que os antecessores do Império Persa, Babilônio. Então aquela região ali do Médio Oriente é uma região que de certa forma valoriza essa cultura muito mais e E tem razão para isso, né?

Porque sim, é uma história respeitada, é uma história respeitada dentro do cânone mundial. Agora, claro, temos que ser honestos, para a gente enquanto ocidentais não é uma literatura que impactou a gente em qualquer medida do ponto de vista de conhecê-la. Agora, não há dúvida que ela influenciou outras literaturas também ali. Ela pode ter exercido influência na própria Odisseia, por exemplo, em alguns aspectos é do próprio herói, né, o lance do heroísmo, do arquétipo do herói.

Então sabe, Lela, é como a gente tá falando, é na natureza, na história, na natureza que seja, as coisas se complementam, né. Então assim como Odisseu e a Odisseia serviu de base para os romanos escreverem a Eneida de Virgílio, que é a epopeia máxima de um dos maiores impérios da história, que realizou as coisas mais impressionantes do ponto de vista científico, arquitetônico, jurídico, sabe, cultural. Por que não a Epopeia de Gilgamesh não possa ter influenciado também a Odisseia?

Eu não tenho autoridade para falar sobre isso, mas eu não acho que seja impossível e nem improvável que isso tenha acontecido. Embora também com isso não se pode descartar a originalidade também do conto grego, né? Então, dentro da sua zona de influência, cada cultura pode ter pegado emprestado elementos e, a partir deles, criado novos elementos, novas histórias, e atingido auges ainda maiores, como eu acredito claramente que a Odisseia representa.

RVRogério Vilela

Enquanto a gente tá fazendo essa live, o filme tá se aproximando de 1 bilhão, né? Elon Musk revoltado falou, você viu isso, vai fazer uma Odisseia em Inteligência artificial, quero ver também o que vai sair disso. Me dá um pouco de medo, mas pode ser, pelo menos que surpreenda, né? E agradecer demais então, Thiago. Eu acho que agora é a hora de a gente finalizar. Ficou alguma ponta solta, recomendações, bibliografia, tudo é contigo.

E eu recomendo demais que vocês saiam daqui. Quem não assina os dois canais dele, façam agora. A gente vai deixar tanto no comentário fixado conta na descrição. É contigo, Thiago. Obrigado demais. Você sabe que além de eu admirar demais, te considero um amigo, cara. E a gente sempre só se encontra todo ano no Prêmio IBEST e a gente fala, precisamos conversar mais. E essa promessa sempre fica em dívida. Vamos resolver isso daí então.

TBTHIAGO BRAGA

É, não, Vilela, você é meu parceiro, cara. Você sabe que assim, pelo trabalho dia a dia, né, eu sou professor universitário aqui também, né, na faculdade, que eu— então assim, eu não consigo me ausentar tanto, tem meu trabalho mesmo. Mas você sabe que você mora no meu coração, cara, já te disse na primeira vez que eu tive aí. Essa já é a quinta vez que a gente tá junto, né? 4 vezes eu tive aí pessoalmente, dessa vez não rolou, mas todas as vezes eu digo, você é o cara que eu vou ser.

RVRogério Vilela

O Peter, né, a gente sempre fala, vamos encontrar mais, vou encontrar mais, né? São caras que têm o mesmo pensamento assim, gosta de trabalhar. Aí são 3 que trabalha para caramba, né? Aqui você vê, saiu um podcast de 3 horas, 4 horas. Essa daqui já tá dando 3 horas, olha só. E parece que foram 20 minutos, né?

TBTHIAGO BRAGA

A gente fez, a gente fez uma Odisseia do Nolan aqui, cara. Olha só aí, tá vendo só? Exatamente, é isso aí. Não, quando a gente tá junto, cara, o primeiro que eu participei foi 5 horas, pode crer.

RVRogério Vilela

Exatamente.

TBTHIAGO BRAGA

Eu sozinho, cara, eu sozinho, se você deixar, porque a gente tem uma sinergia, né, gente? Eu acho muito maneiro isso, a gente consegue se conectar, a gente fala a mesma língua. E é um papo muito gostoso. Eu queria muito ter ido aí pessoalmente, você pode ter certeza que relaxa. Quando eu vou para São Paulo, meu amigo, você é minha prioridade, porque eu curto muito você mesmo. Somos amigos, né?

RVRogério Vilela

O que eu vejo em você, vejo no Lito, vejo no Peter, no Pirula, Sacane, é a paixão pelo que faz, cara. E aí você não vê a hora passar, você faz realmente o produto. Porque, cara, entregar qualquer coisa já tá cheio de gente, né? Internet, né, cara? Eu acho que quem fica, e a gente tem passado por gerações, é isso. É o trabalho, fica é aquele que você vê, esse cara é verdadeiro, ele acredita no que ele tá falando, ele pode errar, ele pode acertar, mas, cara, ele tá fazendo o que ele acha que deve ser feito e com uma qualidade, né?

Porque não é, tá muito, tá cheio de gente com opinião no mundo, tá gente com certezas, e o que a gente tem que colocar é Tá, você tem certeza, mas esse, vê esse lado aqui, ó, vê isso. Colocar bastante outra opinião, outra forma de pensar. E aí, se tiver certo ou errado, aí o tempo vai provar, não é? Como a história.

TBTHIAGO BRAGA

Claro, claro. Não, eu fico feliz. Obrigado aí pelos comentários. Eu fico honrado vindo de você, um cara que eu respeito, e ainda mais ser comparado a essas lendas aí da internet. Mas eu fico muito feliz e eu acredito nisso mesmo. O público, o público sente isso, porque é o que eu faço. Eu tento fazer o meu melhor mesmo. Eu não tenho pressa em produzir conteúdo, eu só entrego quando eu concluo mesmo, sabe? E eu tive certeza, não, isso aqui é o melhor que eu pude entregar nesse vídeo aqui para o meu público.

Então eles sentem isso, e eu acho que o reconhecimento tem vindo, né? Como você falou, a gente se encontra no IBAC e tudo mais. Então a gente tem que ser leal ao que a gente acredita, né? A gente tem que ser, a gente tem que ter a nossa personalidade, A gente não pode se furtar de dizer ou pensar ou de se expressar dentro de uma aceitabilidade social, mas a gente precisa ser honesto. Se você quiser agradar todo mundo, né, você não vai acabar no final não sendo verdadeiro com você mesmo, e o público vai perceber isso.

Então fico feliz demais, meu amigo, obrigado aí de coração. E eu acho que esse papo é mais uma evidência disso, né, de como a gente se apega aquilo que a gente acredita e tenta fazer o nosso melhor para o público, né?

RVRogério Vilela

Então tá certo. Então sigam os canais do Thiago, a gente vai deixar aí no comentário fixado, né, Homer?

TBTHIAGO BRAGA

Brasão de Armas e Impérios AD.

RVRogério Vilela

A diferença dos dois, o que que o pessoal vai encontrar em um e o outro?

TBTHIAGO BRAGA

Isso, no Impérios AD, devido ao trabalho, né, eu faço animações nele, eu tenho vídeos ali de história mundo mundial, né, Segunda Guerra Mundial, enfim, história dos países, né, história do Brasil, história dos Estados Unidos e tudo mais. Então são animações assim muito maneiras, divertidíssimas, que eu faço dublagens ali. Então uma parada muito dinâmica, principalmente é muito usado nas escolas, sabe, meus vídeos são muito usados nas escolas, inclusive isso é uma coisa que eu me orgulho muito.

Então é mais essa pegada lúdica de história geral divertida. Já no Brasão de Armas é um conteúdo mais mais denso assim, dentro de fontes, estudos especializados, sabe, fontes primárias, estudos historiográficos. Então eu faço análises de filmes, séries e música, sabe, sempre dentro dessa pegada assim mais especializada para entregar para galera um conteúdo onde eles podem acessar as fontes e checar por si próprios que, sabe, o que a gente vê em filmes, séries e jogos a gente consegue trazer para dentro de uma realidade histórica e aprender muito com eles.

Então é uma abordagem muito nova aqui no Brasil, inclusive acho que é por isso que o Brasão de Armas acabou crescendo tanto e alcançando tanta gente. E eu tenho poucos vídeos, eu tenho 4 anos, quase 5 anos de canal, Vilela, e eu tenho 100 e acho que é 130 vídeos, eu acho que não cheguei nem a 130 vídeos por isso, porque eu faço mesmo É tudo muito bem detalhado assim, tento entregar a melhor qualidade possível. Então vocês vão encontrar nos dois canais o melhor dos dois mundos aí: diversão, entretenimento e bastante estudo e muita história, tá?

RVRogério Vilela

Aí o pessoal vai sair daqui, vai se inscrever nos dois canais. Mas além disso, que eles vão fazer aqui nesse canal?

HHomer

Bom, se você chegou no final desse papo épico e ainda não deixou seu like, cara, tá panguando. Então deixa aí seu like.

RVRogério Vilela

Você tá usando a linguagem dos gregos, cara. Panguano, você fala quanto tempo, cara?

HHomer

Pois é, linguagem, linguagem dos gregos etíopes, hein?

RVRogério Vilela

Se inscrever no canal, dá like. E o que o pessoal escreve nos comentários para provar que chegou até o final desse vídeo?

HHomer

Para provar que você chegou no final desse vídeo, coloca aí: fuça mitológica.

TBTHIAGO BRAGA

O quê?

RVRogério Vilela

Fuça mitológica.

TBTHIAGO BRAGA

Pô, pegou essa lá do início, hein?

RVRogério Vilela

Lá no início, com cedilha, né?

HHomer

Com sensibilidade.

RVRogério Vilela

Obrigado demais, Thiago. Obrigado, valeu demais, irmão.

TBTHIAGO BRAGA

Valeu vocês, meu irmão.

RVRogério Vilela

Valeu vocês que estiveram aqui com a gente também. Valeu todo mundo, fiquem com Deus. Beijo no cotovelo de Thiago, que bom que vocês vieram. Escreva nos comentários: Força Mitológica! As opiniões e declarações feitas pelos entrevistados do Inteligência Limitada são de exclusiva responsabilidade deles e não refletem necessariamente a posição do apresentador, da produção ou do canal. O conteúdo aqui exibido tem caráter informativo e opinativo, não sendo vinculado a qualquer compromisso com a veracidade ou exatidão das falas dos participantes.

Caso você se sinta ofendido ou tenha qualquer questionamento sobre as declarações feitas neste vídeo, por favor entre em contato conosco para esclarecimentos. Estamos abertos a avaliar e, se necessário, editar o conteúdo para garantir a precisão e o respeito a todos.