1899 - A ESQUERDA AINDA NOS REPRESENTA? SAVIO DI MAIO E BEATRIZ BUENO
SÁVIO DI MAIO é cientista político e cantor, e BEATRIZ BUENO é pesquisadora e escritora. Eles vão analisar se a esquerda ainda representa o povo. Já o Vilela não escreve com esquerda e nem chuta com a direita.
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Olá, terráqueos, como é que vocês estão? Sou o Rogério Vileira, tá começando mais um Inteligência Limitada, o programa onde a limitação da inteligência acontece somente por parte do apresentador que vos fala. Sempre trago pessoas mais inteligentes, mais interessantes e com a vida muito mais É como poderia dizer, a esquerda do que a minha, do que a sua. Você é o cara à esquerda ou à direita?
Às vezes sim, às vezes não.
Tem partes do meu corpo que são à esquerda e tem parte dos meus corpos são à direita.
O meu também.
Não vou descrever quais são.
Bom, eu tenho um braço direito, eu tenho um braço esquerdo.
Ah, você falou disso?
Ah, cara, tá. Você achou que era o quê?
Não sei, você tem dois, um é para esquerda, o outro para direita. Não vamos entrar em detalhe, mas é para esquerda.
É, pode ser.
Não, é, o meu é à esquerda.
É, o meu nariz é um pouco para direita.
O meu é à direita também.
O meu nariz é quebrado.
Por que que ele não é centralizado? Ele fica—
o meu nariz ele é quebrado, né?
Então você quebrou como, cara?
Quando eu lutava boxe, né?
Ah, tá brincando, cara? Cada vez, cada dia a gente descobre uma coisa sobre você.
Você viu? Piloto helicóptero, eu sou uma caixinha de surpresa.
Mas você se colocaria mais à esquerda ou mais à direita no espectro político? Centrão, né?
Eu fico mais no centro. Às vezes eu sou um pouco isentão.
A Andrea não tá concordando.
Eu tenho um lado um pouco anarquista, é mesmo? Às vezes nenhum nem outro.
Então mostra seu lado anárquico falando como que o pessoal em casa vai participar.
Bom, já começa aí deixando o seu like, se inscrevendo no canal, tornando-se membro. Importante lembrar que hoje é uma live especial dedicada para pessoas especiais, que são os nossos membros. Exato. Se você ainda não é membro, torne-se membro que você vai ter umas regalias, né? Acesso a nossa agenda com antecipação e mandar sua pergunta.
Vídeos que são só para membros aqui, a gente grava com os convidados a mais aqui, vocês não veem, é só os membros que veem.
Só os membros.
Acesso ao nosso banheiro, câmera do banheiro. Os convidados não sabem, mas tem câmera no banheiro.
E o banheiro é chique, hein?
Banheiro que espeitei. Tô brincando, gente. Já pensou? É porque o pessoal não sabe, a privada aqui esquenta, levanta a tampa sozinha, esguicha, dá descarga sozinha, faz café. Então vamos ao papo. Como é a primeira vez que vocês vêm aqui, vocês têm a obrigação de me dar presente para eu colocar no cenário. Então sejam bem-vindos, se apresente para o povo e eu quero meu presente inútil. Quem quer começar? Então vai lá, sua câmera é essa daqui, ó.
Oi, olá, Vilela, olá, pessoal. Eu sou o Sávio de Maio. Eu sou Sávio de Maio, eu sou de novembro, estamos em março, estamos em fevereiro ainda. E eu sou doutorando em ciência política na USP e mestre em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais. E eu pesquiso para tudo isso, hein?
Quantos anos você tem? Chuta. Ah, você falou tudo isso, fala 20, 27, mas eu falaria 22, 23.
Mas é 30.
Velho, cara, minha idade, eu tenho 30 também.
Ai, pois é, já menti agora. E eu pesquiso despolarização, crise brasileira, evangélicos na academia.
E a gente vai falar sobre isso também, tudo, tudo misturado.
E o meu problema, o meu problema não, o meu presente inútil para você é fechar aqui, hein? É uma planta plantada num potinho de medicamento de HIV.
Ah, você tá brincando?
Foi muito útil, foi muito útil para mim, mas o potinho se tornou inútil depois que o remédio acabou. Aí eu Plantei essa plantinha para você. Eu espero que sim. Falaram, falaram que essa luz ela é tão especial que ela consegue até ativar.
Vamos deixar aqui, vamos deixar aqui. E você, Beatriz?
Oi, gente, tudo bem? Essa é essa aqui, né? Tô muito feliz de estar aqui hoje, quero agradecer pela oportunidade. Quantos anos agora?
Com essa voz eu vou te falar que é 14 anos, né? Pela voz, mas é só o dobro de 14. É mesmo? Poxa, tão bem aí!
28 anos.
Nossa, nunca que eu ia falar 28.
Sim. Então, eu sou pesquisadora de temas multirraciais, né? Eu pesquiso os pardos no Brasil e a experiência específica que nós vivemos por ser mestiços. Eu trouxe o meu livro para você. Esse aqui é o presente útil.
Deixa eu ver, já vou colocar na fila de leitura aqui, ó.
Acabei de lançar E fala a importância da gente reconhecer os pardos enquanto mestiços na sociedade brasileira.
E o meu pai, polêmico isso, não é? Esse tema é polêmico atualmente, né?
Tanto que eu fui expulsa da universidade pública, né? Ele falou, eu estou estudando, eu ia, eu não posso passar.
Eu tava mostrando aqui para câmera, pegou, eu mostrando para câmera, ela pegou de volta o livro. Olha aqui, eu mostrando aqui, ela já pegou de volta assim. Não, isso aqui é meu.
É que às vezes eu mostro coisa falando, mas esse é seu.
E o Inútil?
O Inútil, eu fui fuçar uma caixinha de recordações E eu encontrei um presente que eu ganhei na festa da Universidade de Calorada em 2017, que foi quando eu entrei na graduação. E tinha um apadrinhamento que acontecia, né? Um veterano escolhia um calouro para dar um presente, para cuidar daquela pessoa, ou enfim, foi uma festa super legal. E que eu não imaginava que a minha experiência de graduação ela não ia ser tão boa, né? Naquele momento eu não imaginava que eu ia sofrer tanta exclusão.
E enfim, perseguições dentro da universidade no momento dessa calorada, né? A própria pessoa que me apadrinhou, a menina que me apadrinhou, participou depois de ataques que eu sofri dentro da universidade. E virou um presente completamente inútil, né? Ela não era mais uma madrinha e eu não vivi a experiência que aquelas pessoas ali viveram, né? De ter uma paz, de você poder estudar, de você poder ter um grupo. Então por isso que eu trouxe aqui, porque lá em casa não serve mais para nada.
Vai ficar bom aqui no cenário. E vamos falar de, vamos falar de tudo isso então. Por onde a gente começa? Eu sei que o tema é falar sobre a esquerda e onde a esquerda entra em tudo isso. Até eu abri falando sobre isso, né, sobre a esquerda, esquerda e direita num mundo tão polarizado, e principalmente o Brasil, né, ano de eleição. O que que vocês têm para dizer sobre a esquerda, né? São várias esquerdas, tem esquerda identitária, tem esquerda raiz.
Como que é a esquerda hoje em dia? E vocês são esquerda? São progressistas? Como que a gente define tudo isso?
A esquerda está um pouco perdida no personagem hoje porque ela não consegue entender o seu papel na sociedade. A esquerda nasce para representar a classe trabalhadora. A esquerda é a classe trabalhadora. De repente, com o passar do tempo e disputas de todas as formas, chegamos enfim em 2025 e a esquerda ela se divide em pautas que nem sempre vão de encontro à classe trabalhadora. Importante lembrar que o trabalhador brasileiro tem um perfil conservador, é alguém que acorda de manhã, que assiste futebol, que vai na igreja e que não tá preocupado com diversas pautas que ocupam agora a centralidade da discussão dentro da esquerda.
São pautas identitárias.
Não que a direita também não seja identitária, tão identitária quanto, mas centraliza certas identidades e torna elas o centro da luta política, como as pautas raciais, as pautas de gênero. E isso não dialoga mais com quem precisa resolver questões urgentes do seu dia a dia, e que são moradia, transporte, segurança, saúde, educação. E questões materiais, como a gente bem coloca. E é importante dizer que as pautas identitárias, tanto de gênero quanto pautas raciais, elas não devem necessariamente serem suprimidas ou excluídas.
Elas precisam entrar dentro de um projeto onde a classe social, as questões materiais são o fio condutor da elaboração do projeto político. Se eu entro primeiro com a categoria racial, primeiro com a categoria de gênero, ou primeiro com qualquer outra categoria periférica, aí eu centralizo, eu essencializo aquela identidade, eu impeço a universalidade de um projeto político, porque é como se todo mundo tivesse que se submeter ali a partir daquele critério, e não é bem assim.
Então a esquerda, ela tá meio perdida nesse personagem. E então tem uma grande discussão dentro da esquerda, tem uma esquerda mais radical, de base mais comunista, que faz essa crítica identitária, mas que acredita que precisa superar o capitalismo. Não vejo horizonte para isso acontecer no Brasil. E existe uma esquerda que é mais voltada para um trabalhismo desenvolvimentista, pessoal já veio aqui, é algo mais clássico, é que é um projeto mais possível para o Brasil.
Me identifiquei muito com eles aqui, inclusive.
Mas, e existe a esquerda identitária, aquela que tá muito focada em pautas raciais, mais elitista talvez, mais elitista, e que exportam essas pautas de fora do Brasil. Isso não é natural nosso. Woke, né, o movimento totalmente woke, identitarismo, que acabam virando palavras de acusação moral, elas acabam significando também essas pessoas que têm esse perfil mais militante, intransigente, com pautas identitárias. Tá certo.
Eu vejo que o Sávio, ele deu uma introdução importante do que que tá acontecendo contemporaneamente, né. Eu acho importante trazer um contexto de como eu comecei o Pareditude, como que eu acabei nessa discussão né, do que que seria uma militância que é mais aberta à diversidade de pensamento, que eu não imaginava que eu ia encontrar uma esquerda, uma militância tão fechada.
Mas eu participei, fui de universidade e tal, e eu não sentia o que eu vejo hoje. Era muito mais aberto a discussão. Você tinha reuniões onde, cara, quebrava o pau, mas todo mundo era amigo, todo mundo conversava, e não tinha um cancelamento, não tinha uma morte a quem pensava diferente. Hoje em dia parece que É impossível, é, piorou muito.
E isso inclusive afasta as pessoas de pautas que são importantes, como empurra a pessoa para o outro lado, né, para outro extremo.
A esquerda não entende isso, né, essa esquerda pelo menos. Exatamente. Mas vocês, vocês entram, vocês pegam esse outro cenário ou já entram dentro desse cenário já novo? Vocês têm essa lembrança de um cenário?
Eu não tenho, porque eu já entro na universidade 2017.
Ah, então já tava assim, o movimento negro principalmente tava daquele jeito bem agressivo.
Sim, e quando eu começo a pesquisar isso, eu jamais imagino que iam ficar me associando, falando que eu não era de esquerda, me jogando para o outro lado, porque eu sempre me identifiquei com as pautas progressistas, com universalização dos direitos, né, com o fim de toda opressão. Então eu sempre me vi desse lado do espectro, e as pessoas começaram a me empurrar para o outro lado, falando de que se eu estava dizendo que o Brasil é um país mestiço, que e que a sociedade brasileira majoritariamente é mestiça e que a gente não precisa de um modelo binário para falar de raça no Brasil, então eu só poderia ser de extrema-direita, eu só poderia estar atrapalhando.
E aí me incluem nessa narrativa da gente lutar por liberdade acadêmica, para a gente poder estudar o que a gente quiser, porque nos cursos de humanidade são essas narrativas que dominam, né, é essa esquerda. Que é identitária, que é punitivista, que é moralista, que não aceita o debate. Eles interditam os debates, eles interditam o pensamento diferente. E tem gente que fala, ah, mas sempre foi assim, a academia sempre foi um nicho.
Mas está muito pior. E sinto também que está mais imaturo, né, a discussão. Por vezes, estudos que têm uma metodologia muito robusta, mas que não estão falando aquilo que o identitarismo está repetindo, não ganham atenção e podem ter represálias, né, igual o meu trabalho. E aí a gente entrou meio que junto, né, nesse, nessa briga na internet. O meu objetivo era divulgar o meu trabalho, divulgar minha pesquisa, sempre foi esse, para ajudar as pessoas pardas.
Porém eu comecei a sofrer muitos, muitos ataques, né, porque as pessoas me acusam de estar atrapalhando, de não poder falar disso. O tema, ele, as pessoas acusam de tanta coisa que ele é interditado. E você não consegue falar sobre o tema. Eu sempre reforço, meus objetivos é acolher a população parda, lutar contra o racismo.
Mas qual que é o argumento deles?
O argumento deles tem vários. Tem que tá dividindo, né, os negros. Você tá dividindo os negros. Porém, para você unir, para lutar contra o racismo ou pelas políticas públicas, não é necessário que uma pessoa parda, uma pessoa mestiça diga que ela é negra para se unir.
E eles querem forçar isso?
Sim, eles querem forçar isso e dizem que inclusive isso é a única forma de fazer a militância, né? E quando eu, por exemplo, denuncio o que acontece nas bancas de heteroidentificação de cotas raciais, que eu acredito que é um tema que precisa de aprimoramento, a gente precisa melhorar as bancas porque muitos pardos são rejeitados injustamente, né? Pessoas para vagas de vestibular, vagas de concurso, que é a vida delas, né? Elas são negadas.
E quando eu denuncio, eles falam que eu posso estar atrapalhando as políticas públicas. Eles não percebem que essa uma tradição que está atrapalhando. Eu só tô mostrando e que a gente precisa resolver isso, né, para não fragilizar as políticas que a gente tem de igualdade racial. Então é sempre feito os argumentos que eu trago no meu trabalho. Um deles, o Sávio até falou dessa questão da importação das militâncias dos Estados Unidos, né.
A gente tem o movimento negro, se inspira nos Estados Unidos porque nos Estados Unidos teve a lei de uma gota de sangue na época da segregação racial lá. Né, até os anos 60, quando eles conseguiram direitos civis, e aí acabam essas leis. E por essa lei, toda pessoa mestiça que tivesse um ancestral negro, ela era considerada negra, para eles poderem segregar, para eles poderem dividir. Só que essa divisão, ela gerou também união entre essas pessoas, né.
Então os mestiços, no caso os mulatos, né, que são mestiços de branco e negro principalmente, eles se uniam para combater o racismo e conseguiram seus direitos civis. E aí, a partir dos anos 70, o movimento negro começa a se inspirar nisso e fala, então, a identidade mestiça está atrapalhando a unidade da luta mestiça, da luta antirracista brasileira. Esse é o argumento. Então, o mestiço tem que passar a ter uma categoria negra.
E eles começam a tentar forçar isso, porém, na prática, isso não funciona. As pessoas pardas e as pessoas pretas são vistas de forma diferente. A cultura brasileira sempre interpretou de uma forma diferente. As nossas famílias são diferentes, né? Quem é mestiço tem uma família branca, uma família preta, ou uma família branca, uma família indígena, né? Então tem que complexificar. Você tem ascendência indígena? A maioria dos brasileiros tem, né, alguma ascendência. E na prática não funciona, principalmente porque esse agrupamento—
mas isso vem dessa coisa de importar dos Estados Unidos, né?
Tá no livro do Kabengere Munanga, a gente discutindo a mestiçagem no Brasil, ele cita lá que a partir dos anos 70 o movimento negro começa a se inspirar no binarismo racial em que é branco ou negro.
Porque a realidade nos Estados Unidos é totalmente diferente da realidade. É isso, lá eles tiveram uma segregação muito mais visível, né, com banheiro separado, ônibus, contrato de aluguel, tudo era diferente. Você vê lá placas, né, para pessoas, para pessoas negras, e o lugar que os caras Aqui, claro que tinha, tem ainda o preconceito, mas não era tão visível assim. A luta é diferente, né?
Sim, é uma outra forma que o racismo opera na miscigenação.
Os indígenas lá, eles entram no movimento negro? É uma luta separada? Como que é lá?
Lá é tudo separado, cada um tem a sua classe ali, né? Tem os latinos hoje em dia, contemporaneamente tem os nativos, só que lá tem muito menos nativos do que na América Latina toda. Sim, porque eles passaram Eles passaram um rodo assim matando os nativos para poder ocupar aquele lugar. Então tem muito poucos descendentes de indígenas naquela região. Já no Brasil tem muito mais, e muitos pardos são de ascendência indígena, e hoje estão sendo usados em manipulações estatísticas falando que a maioria do Brasil é negra, por exemplo, aí 50 e tanto por cento do Brasil é negro, ignorando que a maioria é mestiça e muitos desses mestiços nem têm ascendência negra.
Esse ascendência indígena, né? Então é essa tentativa de trazer um modelo para cá que atrapalha a gente na prática. E de forma subjetiva, para as pessoas pardas, a gente fica sendo feito de bolinha de ping-pong, porque se alguém preto chama a gente de branco, alguém branco chama a gente de preto, já que o pardo não existe, não pode existir. A gente é jogado para lá e para cá de acordo com a conveniência do momento, de acordo com o interesse daquele que tá fazendo a avaliação da nossa racialidade.
Isso traz problemas não só psicológicos, mas problemas institucionais também, na hora das políticas de cota, na hora de ocupar vagas, que hoje em dia, né, tem vários processos de diversidade acontecendo. E que essa questão tenta se abafar, mas quem é pardo sabe o que tá acontecendo e vive isso, né, no dia a dia. Isso de ser jogado para lá e para cá, de você não ter pertencimento, de você querer se posicionar contra o racismo, mas você saber que sempre vão questionar a sua identidade.
Ah, mas por que você tá falando isso? Até porque Tem essa questão também, né, do lugar de fala. Se você não é daquela identidade, você não pode falar. Que também é uma coisa que eu e o Sávio criticamos bastante. E nós pardos somos questionados o tempo inteiro por todo lado. Ah, você não é isso, mas por que você tá falando isso? Se a gente é pardo e se assume negro—
Mas o lugar de fala, ele é usado quando convém também, né?
Também.
Você não tem lugar de fala. Aí alguém de Cuba vem aqui no programa e fala sobre a realidade de Cuba, fala: não, mas essa cubana não é Pô, mas ela não tem lugar de fala, então não tem experiência. Então assim, é uma, é uma lugar de fala também seletivo, né? Quando um negro virou um conceito totalmente impreciso, que não convém, ele é capitão do mato, sim, ele é não sei o quê, sabe? Aí ele, o racismo é usado contra ele, como racismo é usado contra vocês, contra mim, é usado outros termos mais para inviabilizar o debate, né?
Sim, e esse tema da mestiçagem, ele é central no trabalho da Beatriz e do movimento negro, mas ele é central para pensar a própria constituição da sociedade brasileira. Autores lá na década de 30 começaram a pensar a mestiçagem, como Gilberto Freyre, e ele pensava para ter— como que era a ideia dele para pensar o Brasil? Ele dizia: o Brasil é encontro de raças, do europeu, do indígena e do africano, imigrante. Depois, em Casa Grande e Senzala, ele não tinha uma visão tão rígida e tão binária.
Ele dizia que o Brasil nasceu na interseção entre a senzala e a casa grande. Ele tinha um certo determinismo geográfico para tratar das questões, inclusive para dizer que porque somos um país mais quente somos mais sensuais e não sei o quê. Aí ele já descambou para uma ideia mais que já tá superada. Mas o que, o que ele não afirmou, mas o que foi feito da obra dele, é a ideia de que ele tava romantizando as relações de subjugação de negros e indígenas da parte dos europeus.
E aí surgiu, a partir daquele movimento, a ideia da democracia racial, que no Brasil não existe racismo, que todo mundo vive em paz. E aí o Florestan Fernandes, uns anos depois, escreveu A Inserção do Negro na Sociedade de Classes e disse, olha, com o fim da escravidão, o negro ele não teve a vida fácil, foi muito mais difícil para ele se inserir no mercado de trabalho.
Total, né? Não teve nenhum trabalho, nenhuma função.
E é com Florestan Fernandes e outros autores.
E leis que prendiam, leis da vadiagem, várias leis que prendiam.
Exatamente.
No primeiro capítulo eu falo disso, você vai gostar.
E aí com Florestan Fernandes se fortalece—
Deixa eu avisar o Rômulo, olha lá.
Com Florestan Fernandes se fortalece o movimento negro e aí se faz uma opção política do movimento negro de dizer que a mestiçagem, ela deve, ela deve ser meio que apagada e deve se unificar pretos e pardos para fazer uma luta antirracista. Só que nesse momento os pardos têm que se assumir como negros. Só que o pardo também tem um pai branco ou uma mãe branca e um pai indígena e uma mãe negra.
Ou seja, a situação de forçar o latino a se colocar como negro, por exemplo, nos Estados Unidos também.
Então Aí, ao mesmo tempo em que dá para entender o motivo naquele momento, que era para superar a ideia da democracia racial e parar de fingir que somos um país maravilhoso em termos raciais, mas aí criou um outro problema, que é a invisibilização do pardo. E aí chegou até no problema das cotas raciais, em que todo mundo é negro, mas na hora de passar na cota só passa se tiver a pele mais escura. Aí fica lá o tribunal racial, as bancas de heteroidentificação, que viraram a portaria de Wakanda. Passa uma lupa na sua cara. Ai, você não é negro o suficiente.
Olha a nariz, olha a boca.
E a gente entende as bancas, porque existiam fraude, né? Porque antigamente, quando surgiu as cotas, era meio frágil. Qualquer pessoa passava, bastava autodeclaração. E aí surgiu a banca, muito importante. Mas aí essas bancas são muito, tão muito voltadas para o preto e não tanto para o pardo.
O problema das bancas é que elas têm a visão binária. Elas não levam em consideração que o pardo é o mestiço, que tem traços mestiços. Elas não levam em consideração que muitos pardos que apareciam nas estatísticas de vulnerabilidade, que tornaram a política possível, eram descendentes de indígenas. Não passam. As regras são ter traços negros, e é muito subjetivo, né? Você depende da subjetividade da banca. Por isso que eu falo que a gente precisa falar dos pardos para a gente saber reconhecer os pardos e quanto diferentes dos negros.
Isso resolveria o problema, porque para uma pessoa preta a banca é só um cara crachá, é você mesmo que prestou, essa é sua aparência e tchau. Agora, para pessoa parda é um festival de humilhação. Você não sabe se você vai passar, se você não vai, você não sabe quem vai estar ali do outro lado.
Você descobre que você não é negro o suficiente, sim, porque talvez nunca precisava ter se assumido negro, você é uma pessoa mestiça.
Exatamente. E os pardos têm direito à lei de cotas, né, de 2012. Ela não, ela não agrupa como Ela coloca aqui pardos e pretos, porque o IBGE não usa o termo negros, né? Não, não, esse é uma mentira, né? Fake news que é espalhada de que o IBGE agrupa pardos e pretos. O IBGE não faz esse agrupamento. O IBGE sofreu muita pressão das militâncias para fazer isso, mas não fez, porque é muito difícil você mudar um instituto como o IBGE.
Tudo muito rígido. E como já tem muitos registros da palavra pardo aparecendo no censo, se você tira, se você muda, eu nasci em 70, eu lembro que o termo era totalmente usado para qualquer pesquisa, para qualquer—
você colocar pardo, branco, negro, e tinha mais algum?
Pardo, branco, preto, amarelo e indígena. Sim. E aí você mudar isso, você não consegue comparar dados do passado se você tira, né? Mas teve muita pressão do movimento negro, porque o objetivo deles era realmente acabar com o termo pardo e voltar para as classificações matrizes: indígena, preto e branco.
E a gente volta para a declaração do Mano Brown, Não sei se foi no podcast dele mesmo, né, falando sobre pardo, e ele foi atacado pra caramba. Dá o contexto do que aconteceu. Ele até citou o seu livro, foi isso?
Sim, o Brown, ele se coloca como um homem mulato, né? A partir disso ele já sofre muitos ataques.
Então, a gente quer falar, o termo mulato caiu em desuso? É um termo preconceituoso? Porque era usado muito na literatura, né?
Então, é bem complicada essa questão. O termo mulato, usam uma desculpa epistemológica pra falar pra não usar, porque falam que advém de mula. Porém, tem novos estudos que aprofundaram mais sobre isso que mostram que ele vem na verdade da palavra mulad, que é uma palavra de origem árabe que significa mestiço de árabe com quem não é árabe. Muito mais sentido, inclusive, porque na Península Ibérica tinham muitos árabes, né, que eles viveram na Península Ibérica.
Não entendo, né?
Mula também descende desse mesmo termo por causa da mistura, entendeu?
É porque mula é uma mistura, é um híbrido, tá certo?
Sim. Só que a palavra negro também tem origens epistemológicas que associam a necro, que seria morto. Então usar uma origem epistemológica para proibir uma palavra é uma coisa que não faz sentido. E no caso, se você tira a palavra mulato, você não tem definição para o mestiço de branco e preto, uma palavra objetiva que é conhecida, né? É que querem substituir por negro, mas não é a mesma coisa, porque mulato é o mestiço de negro e branco, não é o negro.
E o Brown bate nessa tecla, mesmo as pessoas falando, criticando, né? Ele bate nessa tecla. E com meu estudo eu fui percebendo que na verdade não é por causa da origem epistemológica que não fala esse termo, é porque querem realmente abafar todos os termos que se referem ao mestiço. O termo pardo teve a tentativa de apagamento, aquela história de pardo é papel, né? Que agora já caiu desse rosto. Eu também, logo que eu entendo, eu tenho uma história que quando eu comecei a lutar contra o racismo, eu me dizia negra, né?
Eu passei por essa fase, eu tive que passar por essa fase para ver que isso não funciona na prática, por alguns anos. E nisso eu também falava pardo é papel e tal. E aí depois, quando eu decidi estudar os mestiços, porque eu vi que não tava funcionando na prática, não só minha, mas de colegas, bancas de heteroidentificação, enfim, nos estudos eu fui vendo que precisava ser aprofundada a experiência do pardo como diferente. Do negro, eu percebi que é só uma forma de proibir o mulato de falar de si a partir da mestiçagem, né?
Então proíbe mulato, caboclo também não pode falar, e mameluco não pode falar, e pardo não pode falar, mestiço não pode falar. É uma forma de tentar cristalizar isso de branco ou negro, né? Por isso que eu uso o termo, e o Brown também usa, como uma forma de resistir a isso, de que nós somos mulatos e podemos lutar contra o racismo. O Brown é um dos homens mais expoentes contra o racismo. Ele não precisa falar que ele é negro, ele se posiciona como mulato e faz a luta Mas o que que ele falou sobre pardo que deu tanto, tanto problema?
Ele falou, ele se colocou como pardo também.
Ele falou que a experiência dele como pardo é diferente. Ele falou, a sociedade, as pessoas me veem como pardo, não adianta eu querer ser como o Blue, que é o outro do Racionais, que é preto, né, retinto. Não, as pessoas vão me ver como brown.
E é verdade, é que é o que eu falo no meu trabalho, inclusive.
Aí as pessoas falam, ah, você devia estar cantando porque você não você não é intelectual, você é cantor, para, né, de falar, para de falar, usar a palavra mulato, tentando desqualificar ele que tem uma luta, né, desde os anos 90 aí, enfim, contra o racismo. E no meu livro tem algumas citações dele relatar em 2010 de que as pessoas faziam muito mais racismo recreativo com ele do que com o Blue.
Sério?
Sim, porque o racismo contra a pessoa parda quando recreativo não é levado a sério, porque, ah, você nem é negro, então tudo bem.
Eu suavo assim, não vai ficar ofendido porque você não é, você nem é negro, é só uma brincadeira.
Ele fala, né, que sempre foi, é o Blue, esse é o Blue. E ele fala dessa comparação, ele conta a história de que uma vez uma fã viu ele no palco e achou que ele era branco e foi no camarim procurando o branco que tava cantando. E ele viveu essa ambiguidade assim, tem essa história. E nesse relato que ele deu em 2010, uma entrevista para Rolling Stone, ele fala que ele sofria é muito mais injúrias do que o Blue, até porque as pessoas tinham medo de atacar o Blue porque tem a lei antirracista, né, tem a lei que criminaliza o racismo.
E por vezes as pessoas acreditam que a lei só vale para pretos, e aí não falam nada para pretos, mas para os pardos esculacham, né. Isso aconteceu comigo também. No caso dos homens é muito associado a ladrões, bandidos, e no caso das mulheres, empregada doméstica, né? Essas são as ofensas que chegam para as mulheres mestiças, né?
Dito tudo isso, então, é porque o tema é a representatividade da esquerda. O próprio Brown falou que o problema do PT, né, é voltar para base, porque ela— e eu percebi isso na última eleição que teve aqui para Prefeitura de São Paulo, quando você vê um discurso do Boulos mudando para empreendedorismo, para outras coisas, porque ele percebeu até posições bem, bem que a gente sabe que ele tem sobre aborto, sobre maconha, você vê que começaram a mudar, ou pelo menos não bater tanto nessa tecla e começar mais a falar sobre segurança.
E eu tenho certeza que essa eleição agora No final do ano, grande parte vai ser sobre segurança e sobre economia, né? Coisas reais, coisas que o pessoal tá sentindo na pele. Exatamente, escala 6 por 1, essas coisas. Porque essas discussões de banheiros, né, e, cara, são super necessárias, mas, cara, tem um monte. O Brasil, a gente tá tão atrás de tanta coisa, cara, para precisa resolver, né? E parece que a esquerda tá acordando para isso.
Vocês acham que é só um papo eleitoral, que no fim das contas elas ainda têm esse problema de identificar essa base periférica que é evangélica, o que é católica, que acorda cedo, que vê a família, né? Você vê no Carnaval a chacota com a família tradicional. E os caras não entenderam que a maior parte do eleitorado deles tem a família como uma coisa super importante. Então parece que tem essa distopia, né, na cabeça dele. O que que acontece? Vocês acham que eles estão acordando para isso ou não?
Eu acho que parte tá acordando para isso. Eu converso com algumas lideranças de esquerda.
A esquerda radical, a gente já sabe que a trabalhista já estão alertando sobre isso, né?
Mas essa Essa ala mais identitária da universidade.
Por que que ele virou o PT?
O PT continua assim. Isso que eu tenho conversado com algumas lideranças, inclusive do PT, um pessoal mais velho, eles enxergam isso, essa divisão clara. Eles falam, claro, do nada, quando a gente foi perceber, você já viu o José Dirceu, total, a Marilena Shaw e o pessoal das antigas, eles reconhecem isso, só que não sabe Porque, por exemplo, recentemente, aí esqueci o nome da Maria, que é aquela lá psicanalista, que ela foi criticar o conceito de lugar de fala porque virou um lugar de cala-se, ela foi completamente rechaçada pela militância.
Então essas próprias lideranças não sabem o que fazer. Eu vi umas entrevistas do Boulos recentemente criticando, por exemplo, pessoas que ficam achando que ele tinha que ser mais radical e que ele tá sendo mais pragmático, e o pessoal caiu de pau em cima dele. Então, é um— para as lideranças políticas é muito mais difícil para elas bater de frente com esses movimentos sociais. Resta a gente, os intelectuais públicos, os estudantes que estão se formando, para ir na frente e dizer: gente, isso não tá dando certo.
As pessoas que acordam cedo para trabalhar— eu vi uma notícia ontem, antes de eu chegar aqui, de que o maior sonho de quem mora na periferia é empreender.
Então E aí, gente, mas isso ficou claro com o Marçal, como ele tava, quando ele cresceu na pesquisa com esse discurso, entendeu?
Então assim, e aí como que a esquerda vai administrar esse sonho desse novo trabalhador sem abrir mão de algo?
Porque o Estado não tá chegando e ele fala, cara, eu por mim mesmo, eu não posso depender do Estado.
Mas essa pessoa ela aprendeu, está internalizando que o problema é o Estado, que o Estado atrapalha a vida dela. Como que a esquerda vai se colocar nesse lugar? Já sei, vamos lutar pelo banheiro trans, pelas prootas trans para pagar o parque, sabe?
Eu quero que meu filho— eu quero deixar meu filho na creche e não ter medo de acontecer alguma coisa. Eu quero ir para o trabalho e não ter medo de ser assaltado. Eu quero meu celular, que eu tô pagando em 36 vezes, não ser assaltado, não ser levado.
A esquerda precisa parar com moralismo na hora de se tratar da segurança pública. Por exemplo, na hora de, por exemplo, que acontece um assassinato, uma chacina, uma coisa terrível, É hora de condenar e falar: nossa, nós sentimos muito pelas famílias, mas os bandidos também têm que ser responsabilizados, nós vamos endurecer as penas. Só que a esquerda, ela tende a aparecer com aquelas variáveis que vão interpretar, que vão dar condição para aquela pessoa ter escolhido o caminho do crime.
Isso é importante na hora de elaborar políticas públicas, não é importante na hora de se comunicar com o trabalhador. Você não pode chegar para o pai que acabou, que a filha dele acabou de levar um tiro na cabeça e falar: Então, mas é porque ele não teve oportunidades na vida e aí foi chegando o tráfico. Cara, não é isso que pode ser, isso não pode ser, isso tem que aparecer na hora que você for elaborar uma política pública e pensar, é, tem que ter educação integral para que as crianças fiquem na escola, não tem contato com o tráfico, não sei o quê, não sei o que lá.
Agora, na hora do que o crime aconteceu, é falar, esse vagabundo vai pagar na cadeia, nunca vai pôr o pé para fora, nós vamos endurecer as leis, não tem progressão de pena. Não tem esse discurso. Aí abre o caminho para direita, aí direita nada de braçada mesmo. E aí o problema da direita é que eles não têm a visão das variáveis nem na hora de elaborar políticas públicas. É corta do Estado e dá tiro, vai matando, matando, matando para ver se dá conta, e não dá, porque você mata 30, amanhã você precisa de 100.
Tira do Estado, aí você vai privatizar coisa que não pode privatizar, coisa de, né? E aí a gente vê outros problemas. E é, esse é um problema, tá aí solução então.
Essa questão que você falou da esquerda, se você acha que tem gente que tá se tocando, eu vejo que ainda não. Eu vejo que tá começando um terremoto, uma crise em que tem as pessoas que, como eu e o Sávio, que estão querendo ter conversas que universalizam os direitos das pessoas, né, e as pessoas totalmente resistentes. É uma guerra interna assim que eu vejo que tem acontecido. E um dos motivos, principalmente na universidade pública, de você ver que os estudos eles estão voltados para questões que não são tão urgentes, né?
Isso que você citou da questão de banheiros, questão de linguagem, né? De você policiar a linguagem. Não pode falar tal palavra, não pode falar outra palavra, linguagem neutra e tudo mais. É porque muitas dessas teorias vêm dos Estados Unidos, em universidades que eles produzem conhecimento, e aquelas pessoas ali não têm os problemas do Brasil. Eles não têm problemas de fome do Brasil. Eles falam muito de violência simbólica, por exemplo, Porque eles não têm a violência real ali, entendeu?
São as microagressões, se sentir ofendido, é microagressões, é um termo que é muito estudado dentro da universidade pública.
Isso é para uma sociedade que já tá tão avançada, que aí vamos conversar sobre isso especificamente.
Mas na Suécia pode se falar de violência simbólica, mas aqui me deram um tapa ali, gente, para roubar meu celular.
Calma, já estão matando travestis na rua, estão matando O tráfico tá pegando criança e estuprando e falando, essa é minha mulher e pronto. Tem essas coisas. E aí, o que que a gente vai fazer? Aí tem uma mega operação no Rio violenta, com todos os problemas que a gente sabe, todo mundo aplaudindo porque fala, alguma coisa tem que ser feita. É isso, não sei, mas alguma coisa foi feita. Porque vem esquerda, fala, não, veja bem, precisamos de inteligência na polícia, precisamos melhorar a educação.
Tá, beleza, mas e agora? E amanhã, como que eu faço para minha pra minha filha não ser pega pelo tráfico, o que a gente faz? Entendeu?
Então, esse problema sério... E as travestis que você citou, que estão morrendo na rua, precisam de trabalho, precisam de dignidade. Elas, a maioria delas, não estão preocupadas em frequentar o banheiro. Isso não é nem importante. O todes, né?
Onde usar o termo todes, feminino, masculino.
É, não é nem importante. Elas não querem, essas que estão trabalhando na rua.
Por que elas não são ouvidas?
Porque, na verdade, elas são aparelhadas.
O que que é aparelhada?
É certa militância. São usadas? É elite do transativismo, pega essas histórias e vai transformando elas. Aí, porque o mais importante é ela ser reconhecida plenamente como mulheres e não sei o quê. E aí, tipo assim, aí você cria um outro problema, porque uma travesti de 1,80m que não fez uma transição, ela não, ela vai ter, ela foi socializada como homem, é forte e tudo mais, ela não, ela ser reconhecida como mulher não faz diferença nenhuma.
Porque não vai ter emprego para ela do mesmo jeito, vai ser violentada do mesmo jeito. O mais importante é primeiro criar políticas públicas para o mercado de trabalho e conscientizar as pessoas mais preconceituosas, mais problemáticas, de que essas pessoas existem e de que elas merecem e precisam de um lugar na sociedade. Talvez até com estratégias meio tipo de compaixão mesmo, gente. São seres humanos. Que precisam de oportunidade.
Então assim, existem N estratégias para militância trabalhar e tem que ser partir. Não adianta chegar na agressividade, são mulheres cis. Aí agora tem mil identidades que surgem que a pessoa mais pobre, mais humilde, como as nossas famílias, nem conseguem nem entender o que é.
É um monte de letra, né?
O que que é não binário?
Não, não, é um monte de letra só.
Agora é pansexual, não binário. Então, gente, isso não é importante na vida do trabalhador. Acorda, não é. Não é, sabe?
Mais uma vez também importando de fora, né?
Sim. Primeiro, travesti é uma categoria brasileira, latino-americana. A gente sabe o que é travesti. Agora vem a categoria mulher trans, que é importada. Então agora a mulher trans, o homem trans, isso não é nosso. Isso é um conceito do norte global, produzido nas universidades americanas pela teoria queer, que a gente busca de lá. E agora tem até queer.
Que que é queer?
Gente, isso nem é português.
Qual seria uma tradução para isso?
Seria uma pessoa que não se identifica com os gêneros, etc.
Uma grande teoria, na verdade, que cria esses vários gêneros assim, né?
E fala que são tudo coisa de rico americano.
Exatamente. Tem um artigo que eu li sobre isso que fala que quando as ONGs norte-americanas começaram a investir no transativismo brasileiro, o termo trans não era usado no Brasil. Então as ONGs tiveram que fazer um trabalho porque antes era travesti. Né, que é o termo popular.
A gente sabe o que é travesti, essa questão, né, esse termo. É porque a travesti é a suja, travesti é o problema. Agora é trans, é só uma trans linda, siliconada, sou praticamente uma mulher.
É a mesma coisa de não pode falar favela e comunidade, mas os problemas continuam mesmo assim.
Só uma higienização, né, que acontece. E um outro problema dessa questão é que quando você tira o termo travesti e coloca mulher trans, tem a invasão dos direitos das mulheres, né? Que aí começa a confundir. Não são mais as travestis buscando, sim, buscando seus direitos, mas já querendo ocupar o direito que as mulheres conquistaram, né?
E aí começa, não é a mesma coisa, grande conflito, gente. Uma mulher não pode andar 2 da manhã tranquilamente na rua, uma travesti pode. Eu posso, você não pode. Você entende? Olha, o direito de ir e Você não tem porque você é mulher. Olha que coisa triste, coisa horrível. Então assim, não é a mesma coisa. As mulheres têm opressões muito mais evidentes e materiais do que homens e aqueles que foram socializados como homens.
Sim. E o que você falou, Vilela, da solução que eu vejo não só para as questões de gênero, de raça, de tudo que a gente tá trazendo, o primeiro passo é a gente poder falar. Porque o que tá— então a gente tá aqui hoje já é assim, é uma vitória muito importante, porque A medida principal é não fale, não toque nessas contradições, não fale sobre isso. Você tá ajudando a direita, você está ajudando a extrema-direita, você está atrapalhando a luta.
Não, a gente quer complexificar para trazer justiça para todos. Precisa complexificar, você não pode barrar o debate até onde você achou que tava interessante, né?
Ficar classificando as pessoas como transfóbicos, racistas, só porque distorce um pouquinho, não é uma boa ideia.
E muitas vezes críticas que vão melhorar os movimentos.
Né, vão trazer mais, integrá-los à luta de classes.
É isso que esses movimentos identitários estão querendo, né? Então eu vejo que a primeira coisa é isso, a gente poder falar, poder voltar a ter debates, poder discutir essas questões para entender as contradições existentes e gerar medidas, né, para justiça para todos. Porque nem a questão dos pardos e pretos, assim, fica um conflito ali. Se a gente pudesse falar enquanto pardos, nenhum preto ia se sentir invadido por uma pessoa mais clara querendo batendo peito falando, ah, eu sou negão, eu sou isso, sou aquilo.
Porque tem muitas pessoas pretas que se incomodam, mas ficam tentando abafar. E não, tá tudo bem. É só a menina da parditude, que me chamam menina da parditude, é o nome do meu livro e do meu projeto, né, de pesquisa. Ela tá como se eu tivesse alucinando. Não, o problema existe, o problema é real, né? E muitas pessoas, as próprias pessoas pessoas pretas, pessoas brancas do Brasil todo vê isso, porque o Brasil é mestiço. E você vai fingir que a história não aconteceu como aconteceu e colocar como você gostaria que fosse no livro? Não vai mudar a realidade concreta.
Que outras questões vocês acham importante de abordar do momento atual, que é esse momento onde a esquerda tá fragmentada e tá— a gente tem uma figura só, que é a figura do Lula, que tá na última eleição dele E depois a gente não sabe qual vai ser a cara da esquerda, né? Porque não foi preparado um substituto para ele. Quem que vocês acham que pode assumir esse lugar e qual é o discurso dessa pessoa? Isso melhora ou não? Quantos anos?
É, você, pela idade, pode ser já, né? 30 anos para ser presidente? Não, presidente é 35, né?
Então, mas o rosto da esquerda do futuro, ó, tô profetizando aqui.
Em 2060 eu vou me candidatar. Ai não, 2060, o quê? 2000 e primeira coisa, virar você versus Nicolas. Eu não caio nessa polarização, esse é um problema, sabe? Se eu caio na polarização, o Nicolas vai— Nicolas ou qualquer outra pessoa de direita mais identitária. Que que é a direita identitária? É aquela direita que essencializa a família como se fosse pauta exclusiva da direita, como se pessoas de esquerda não pudesse casar, né?
Agora é o drama, Tabata Amaral e João Campos, de centro-esquerda moderadíssimo, se casaram. Olha lá a hipocrisia! Família tradicional para mim e desconstrução para você. Gente, olha aqui, olha o identitarismo da direita. Não pode mais casar na igreja se eu sou de esquerda. Gente, acorda, acorda! Isso é ridículo. Então assim, eu não cairia nessa, mas eu não cairia nessa polarização burra, porque eu acho que as lideranças de esquerda, elas têm que entender que a direita, essas lideranças da direita identitária, elas vão trabalhar com esses signos assim.
Mas eu não nunca tinha escutado esse termo de direita identitária. Então existe a ideia, existe o identitarismo.
O identitarismo de direita é mais forte do que de esquerda, porque o de esquerda é, digamos assim, previsível. O da direita a gente trata como senso comum. Por exemplo, os homens é que sentem que estão perdendo espaço para minorias sexuais e mulheres, aí eles se juntam nesses movimentos red pills, incels. Isso é identitarismo, essencializando a ideia homem que tá sendo ameaçado. O identitarismo, ele sempre se coloca no lugar de vítima.
Então, eu sou a vítima das mulheres, dos movimentos, não sei o quê. Então, os homens são os seres mais identitários da face da terra.
Trump é um exemplo de identitarismo de direita bem forte.
Sim, estamos sofrendo perseguição de não sei quem. Sempre tem uma perseguição vindo aí, sabe? É, e às vezes tem materialidade, tem sentido. É óbvio que o homem, principalmente o homem do cinturão da ferrugem, que vota no Trump, ele é um homem que o avô e o pai dele tinham muito mais recursos e hoje ele tem muito menos. E ele tem menos renda e ele não consegue bons relacionamentos. As mulheres estão mais independentes mesmo, muito bom.
Então ele não sabe como se colocar. Ao invés dele entender que o mundo mudou, ele acha que o problema é a sociedade E aí ele cria os ressentidos, ele cria ali a identidade desse homem. E aí quer a América grande de novo. Essa América grande de novo tem a ver com um sentimento que o avô e o pai dele experimentou e ele não experimenta mais. Então, e busca culpados as mulheres e as minorias sexuais, os imigrantes. É, os Estados Unidos, realmente o tema da imigração é mais forte. Enfim, você dizia o quê?
Falou sobre, sobre, não, não, quem é essa figura que vai substitui o Lula?
Essa pergunta de milhão de dólares. O Lula tá aí, né, firme e forte. Não sei se estão firme, não sei se estão forte, mas olha, a aposta do PT parece ser o Guilherme Boulos. Eu acho que o Guilherme Boulos tá se preparando para isso. Ele tá moderando o discurso, ele tá, ele entendeu que o povo, ele tá entendendo que o povo brasileiro é o que o povo brasileiro quer. Ele precisa de anos para limpar a imagem dele de de MST, de movimentos que nem sempre são tão populares assim, né, na classe média do Brasil.
Eu acho que ele é uma promessa para o futuro. Nós temos outros nomes aí, mas que ainda não despontam, porque precisa de apoio popular, mas também precisa de lideranças partidárias. O problema, a direita partidariamente falando, ela é muito mais fechada ela brocha muito, brochar é meio machista, né? Ela brocha muito os seus, o seu, as suas lideranças para não deixar crescer, sabe? Tem que fazer praticamente uma penitência para você conseguir furar a ponta, sabe?
O próprio Boulos é isso, sabe? Ele não foi para o PT, ele tá no PSOL, nesse partido ultra identitário, completamente desconectado das massas trabalhadoras do Brasil, como é o PSOL. Então, tipo, Tipo, ele teria que sair do PSOL e ir para o PT, sabe? Ele vai comprar essa briga. Estamos assistindo, Boulos, compra essa briga.
Eu acho que a gente vive uma grande crise na esquerda que não vai durar pouco tempo assim. Vai ter que ter uma transformação, principalmente dentro da universidade, né? Você tem essa esquerda identitária dominando completamente os cursos de humanidades, as pessoas não conseguem dialogar, articular, e eles criminalizam a diferença, né? Então usam a lei do racismo para criminalizar a transfobia e tudo mais. E eu acredito que por um tempo eles vão continuar insistindo, né, batendo nessa tecla até a gente conseguir harmonizar.
E pessoas de dentro da esquerda precisam começar a dizer: olha, vocês, movimentos sociais, vocês estão exagerando. E não batendo de frente com os movimentos sociais, mas dirigindo-se à população, aos eleitores, ao brasileiro, dizendo: olha, Nós reconhecemos que esses movimentos estão exagerando, que esses movimentos estão desunindo, que esses movimentos estão apontando o dedo na cara de pobre e falando que ele é racista, que ele é transfóbico, que ele é homofóbico, que ele é não sei o quê, sendo que ele está tentando sobreviver.
Nós não estamos aqui inocentando os preconceitos e tudo mais, mas nós estamos colocando a questão de classe na frente de outras questões pormenores. Pobre não pode ser colocado num gradiente de sofrimento para ver quem sofre mais. Ele precisa ser o centro do objeto de representação da esquerda e não apenas dividir a classe trabalhadora em gradientes de sofrimentos que vão competir por representatividade. Aí vai ter um negro, vai ter mulher negra no STF, sim, vai ter travesti deputada, vai ter não sei o quê.
Gente, isso faz diferença? Faz alguma diferença simbólica, mas materialmente para grande massa trabalhadora do Brasil é irrelevante. Então a direita precisa voltar a falar de mais representação e menos representatividade.
Essa é uma questão que eu vejo de como o discurso da interseccionalidade, né, foi levando a gente a um sectarismo imenso. Nas teorias de interseccionalidade vão falar, ah, porque antes era só a classe trabalhadora, vamos lutar por direitos direitos trabalhistas, né, para os trabalhadores ter uma vida melhor. Aí vem o movimento negro e coloca, tá, mas tem uma diferença do trabalhador negro, da condição dele, devido ao contexto histórico brasileiro, e a gente precisa ter um movimento negro.
Quando o movimento negro faz essa afirmação, já era uma preocupação da esquerda e sempre foi, de, mas a gente não vai estar se separando, a gente não vai estar fragmentando. Isso sempre existiu. Aí tem, na verdade, começa o movimento feminista, é o primeiro, né. Depois o movimento negro, e você vai tendo cada vez mais intersecções. É o movimento LGBT, que cada momento acrescenta uma letra. E quando as pessoas começaram a me questionar isso, que eu critico o identitarismo, e o pares de estudos seria mais uma identidade, né?
Só que o que eu gosto de trazer no meu trabalho, que é um objetivo até futuro, é de que o Brasil é um país mestiço, e o discurso da realidade mestiça do Brasil, né? Porque eu acho importante falar isso também: a miscigenação não é um discurso, Você pode manipular o discurso sobre ela, você pode inventar: vivemos em uma democracia racial, não há racismo porque existe miscigenação, ou o Brasil é super racista porque a miscigenação foi um branqueamento.
Não importa qual seja o discurso, seja de opinião ou teórico, a miscigenação é um fato concreto, aconteceu. Vieram povos da Europa, povos da África, agora vem de diversos lugares, tinham os nativos aqui, nós nos misturamos e temos uma sociedade jamais vista, que é o que o Darcy Ribeiro fala, que é uma grande referência do meu trabalho. Né? A gente tem isso, é uma realidade concreta, né, a miscigenação. E esse discurso, ele tem uma capacidade de unidade muito maior do que os movimentos sectários que a gente tem visto.
Porque muitas pessoas não gostam de mim porque elas falam que o meu trabalho, ele é muito conciliador, e eles querem rompimento, eles querem ofender a branquitude, eles querem, sabe, que a branquitude pague por tudo que foi feito. E eu sou conciliadora, né? E o lugar do pardo, ele incomoda muito isso, porque o lugar do Pado ele vai mostrar.
Querem café? Ah, eu aceito dois só com leite, aqueles.
Tem com leite?
O meu sem açúcar.
Eu nasci na roça, família apanhadora de café, e eu não gosto de café puro.
Ah, mas eu gosto também café com leite.
Mas com leite também tem as raízes aí, né?
Eu nasci na divisa do Espírito Santo com Minas e a Bahia, tem leite, tem de tudo. Aí eu adoro a roça.
Mas só concluindo essa questão da miscigenação, quando eu falo que eu sou mestiça e, por exemplo, o meu pai é um homem branco e foi um homem, um bom pai, né, e você tira essa questão do branco daquele lugar distante do inimigo, muita gente de movimentos que querem reforçar mais essa diferença Elas não gostam, elas se incomodam com pardo porque na família do pardo a vovozinha branca que faz um bolo que ele ama não é o opressor, é só a vovozinha branca, aquela pessoa que te ama, que cuidou de você.
Claro, tem racismo dentro das famílias, eu falo muito disso no meu livro, mas é aquela contradição. Assim como também existe— chegou nosso cafezinho.
Ah, tanto faz, tá, valeu.
Existe uma uma contradição dentro das famílias, igual tem contradição, por exemplo, do machismo. Existem relacionamentos héteros, isso não quer dizer que não existe machismo dentro das relações. E a questão do racismo acaba sendo muito semelhante no caso de que a gente tem famílias mestiças, a gente convive, mas o racismo também tá entranhado em algumas dinâmicas.
Não, dele é com leite.
Não, tá bom, você não tem, pode ser, pode ser.
Ah, não tem preconceito então?
Não.
Desculpa, falando das famílias, né?
Eu falei de uma analogia que eu faço no meu livro, de que existe um mito que no Brasil não tem racismo porque tem famílias mestiças. Isso é um mito que dá para a gente comparar com a questão da misoginia, dos direitos das mulheres, de que existem relacionamentos héteros, são um padrão, mas existe a misoginia dentro de muitas relações. Né? Então o fato das pessoas conviverem na mesma casa não significa que não os preconceitos, né, sociais não podem estar acontecendo ali.
E o racismo no Brasil, ele é exatamente assim. O racismo acontece dentro da nossa casa. Pessoas que a gente ama, familiares brancos, falam coisas inadequadas sobre nós, né, sobre a nossa, nossos traços negros, recreativo, que vem em forma de brincadeira. Dentro das famílias acontece demais, né? Mas também tem a parte de, por vezes, a pessoa branca vai ser a vovozinha que faz o bolo que você ama e que faz a gente se unir. E muito movimento hoje em dia, eles querem demonizar, eles querem reforçar muito a narrativa da vítima e do oprimido, que existe, é óbvio que existe situações de vitimização, mas sem um norte de precisamos superar isso para nos unir, e sim querer reforçar mais essa divisão e o branco opressor que tá ali distante e tal.
E às vezes o branco é o sábio que tá aí defendendo para caramba, né, a gente como pardos, como negros, defendendo as mulheres também, né. Então os movimentos, eles às vezes não, não tem essa maturidade de lidar com a contradição que existe. Eu vejo que isso é um processo de amadurecimento dos movimentos. A vida não é essa dualidade.
Esquece os Estados Unidos, gente. Estados Unidos tem a história deles, Brasil tem a nossa.
E até nos Estados Unidos é uma que eu também trago no livro, que eu tenho um amigo que faz um movimento de mulatos nos Estados Unidos, porque os Estados Unidos tá superando essa coisa desse one drop rule, né, dessa regra de uma gota de sangue, de que o mestiço que é afro lá tem que falar que é negro. As novas gerações estão olhando para suas famílias e questionando: mas a minha mãe é branca, a geração Z, né, minha mãe é branca, meu pai é preto, ou o inverso, por que que eu tenho que falar que eu sou negro?
E aí tem um movimento multirracial que cresce tanto nos Estados Unidos quanto na Europa.
Imagina como é lá. Isso aqui já tem toda essa resistência, imagina lá.
Lá é muito louco, porque o mainstream de lá, o popular, é isso de que é negro, não pode falar que é mestiço, né? Mestiço é ofensa, igual que estão tentando implementar aqui. Mas quando você vai no povão, você senta numa mesa de boteco para falar com um tio qualquer, ele sabe que o Brasil é mestiço, ele vê isso, né? Lá não. Lá o mainstream, o tiozão ele acredita, né, que mestiço não existe. E aí as novas gerações, geração Z, tá chegando.
E aí tem páginas de orgulho mestiço. Então é um tema que tá crescendo muito no mundo. Lá era proibido o casamento interracial, né, era ilegal. Faziam presa se era um branco e um preto na rua se pegando, ia preso pela polícia, né. Então, conforme essa lei não tem mais, essa lei, as pessoas vão começando a se relacionar mais e vai mudando. E o Brasil podia ser referência para o mundo todo para falar sobre isso, mas o Brasil tá fazendo um caminho inverso de tentar dividir o que é que não dá mais para dividir, que já tá sendo misturado desde que os portugueses chegaram aqui, né, em 1500.
E pensando em sociedade americana, tem o movimento negro que é muito forte identitário, mas também tem os supremacistas brancos nos Estados Unidos, que são uma categoria totalmente racista, totalmente fechada. Então a sociedade americana é muito muito problemática do ponto de vista racial.
E até isso, até essa coisa ruim está importando também, né?
Eles não têm leis que criminalizam racismo, então tem esses grupos que vão se formando de uma forma absurda, e a gente copiando, né?
E aqui no Brasil a Constituição da nossa nação foi diferente, embora inicialmente bastante problemática, né? É algo que a gente não ignora, sabe? Quando a gente tá falando de ou de ampliar, né, as discussões raciais, a gente não tá ignorando o passado colonial nem a teoria do branqueamento, que em algum momento brancos ricos da República sentaram e falaram: olha, o progresso do Brasil vai ser conquistado desde que a população seja mais branca, então vamos importar europeus.
Então tudo isso já esteve na mesa, mas não foi isso que constituiu a nação brasileira. Sabe, brancos e pretos, indígenas, a partir de certo momento tiveram relações consensuais e não só estupro colonial e nem teoria de branqueamento. Então você ficar olhando para pessoas pardas, mestiças, e demonizando elas como se elas fossem o fruto do estupro colonial em 2026, isso é muito duro e isso ataca principalmente a autoestima dessas pessoas e diretamente a autoestima do nosso próprio país, em que a gente precisa se colocar em caixinhas binárias importadas e criando identidades infelizmente artificiais e que não estão ligadas à materialidade da constituição da nossa história.
Então nós temos o ser antirracista no Brasil significa entender primeiro o que é o Brasil e não simplesmente bater no peito Black Lives Matter e ficar importando pautas, porque a gente não vai conseguir combater com, com precisão o racismo brasileiro. E, mas a gente vai conseguir pelo menos formar um grupinho moralista e fingir que nós estamos fazendo o bem, enquanto a população na verdade nos vê como radicais, desconectados, histéricos e agressivos.
Fala, Homer, que que o pessoal quer saber, os nossos membros?
Temos aí uma pergunta da Ana Souza. Ela tá perguntando quando foi o estopim que você realmente decidiu criar o seu livro.
Isso, tá.
E estopim tem alguns, né? A gente vai vivendo e tem uns momentos que o assunto impacta muito a gente, né? E em 2013 eu começo a estudar raça, né? Foi junto com as manifestações dos 20 centavos que teve, foi quando Eu comecei a estudar política e comecei a estudar movimento negro e passei a me assumir negra. Eu fiquei uns 3 anos dizendo que eu era negra. Eu senti um incômodo, mas eu acreditava nessa narrativa porque a justificativa que dão é: se você sofreu racismo, então é negro.
Que é uma falsa lógica, né? Você pode ter sofrido racismo e continuar sendo mestiço, mas cria-se essa falsa lógica. E como eu sofri muito racismo na infância. Tem essas histórias no meu livro, histórias de, histórias densas mesmo, né, pesadas que eu vivi. Vou até contar uma aqui de quando eu tinha 11 anos de idade. Eu tinha um grupo de amigos que praticavam muito racismo recreativo comigo. Eles me chamavam de Jaqueline, que era uma personagem de um programa do Bossa, daquela, sim, a Bossa, que é Hermes e Renato, que era uma sátira da novela assim, A Moça.
E tinha uma empregada que era um blackface, era um homem branco com cabelo black power. E ele fazia uma empregada, Jaqueline era o nome da empregada. E a cena engraçada era o momento em que a sinhá ali da casa batia nessa empregada, enfrentava essa empregada. Ai, Jaqueline, não sei o quê, você não faz nada certo. E dava um chutão voadora, bem aquele humor Exagerado, horroroso, dos anos 2000. E as pessoas me chamavam de Jaqueline, esse era o meu apelido nesse grupo.
E um dia eu tava lavando a louça na casa de uma amiga, ela tava me ajudando, e ela pegou o pano da pia molhado e me chicoteou, e gritando Jaqueline, me chamava de Jaqueline, de preta safada, de enfim. Esse grupo fazia muito racismo recreativo comigo, eu tinha 11 anos, eu não entendia nem o que tava acontecendo. E eu tinha aquela crença até do que a gente citou do Brown, né, de ah, eu sou parda, isso não é racismo porque eu não sou negra.
Quem sofre racismo é negro. Isso comigo é uma brincadeira, ainda mais criança, você não tem como interpretar isso. Só que ela me machucou esse dia, né? Então foi um dia que foi bem, em que eu fiquei, tá, que brincadeira é essa, né, que me machucou? E quando eu conheci o movimento negro, a proposta que eles deram foi: se você tá sofrendo essas coisas, né, é porque você é uma pessoa negra. E eu passei a acreditar nisso. Porém, a realidade concreta Começou a mostrar que não era assim.
As próprias pessoas negras não me aceitando como negra. O meu pai me questionando, meu pai branco: mas por que que você quer ser negra? Você não é minha filha? Tá querendo me excluir da conta? Por que isso? E para quê, né? E isso muda o fato de que você é minha filha? Porque não muda falar que eu sou negra, não muda o que eu realmente sou, né? Então eu tive o meu primeiro ataque assim de ódio pesado no Facebook, ainda era grupo de Facebook, de um monte de gente falando que eu estava fingindo ser negra num grupo de movimento negro.
E foram nas minhas fotos e ficaram comentando fotos que antes eu tentava me branquear, né, por causa do racismo. Eu estudei numa escola no centro de São Paulo que eu era bolsista, era uma escola super branca, tinha eu parda e uma outra menina preta só, né. Eu sofri muito racismo, então ficava tentando clarear, botava filtro. Isso muitos pardos vivem, botar filtro para esclarear, alisa cabelo, E aí pegavam essas fotos e ficavam comentando, você, por que você tá fingindo ser negra?
E me xingando de palavrão, de um monte de coisa. Eu tinha uns 18 anos, eu fiquei super mal. E naquele dia eu tive um estalo de que eu precisava fazer alguma coisa. Tinha só 18 anos. E aí aos poucos, vendo outras pessoas amigas minhas, vendo notícias de celebridades também vivendo esse conflito, foi quando eu fui percebendo que precisava ter um livro, né, que ajudasse as pessoas a se encontrarem, perceberem que elas não precisam se encaixar como branca ou como preta, e que tá tudo bem serem pardas, serem mestiças, né.
Esse é o objetivo do livro. E tanto o livro quanto o meu trabalho na rede social, o objetivo principal é ajudar essas pessoas pardas a se encontrarem, porque eu sei o quanto foi doloroso viver isso, e tem muitas pessoas que têm relatos também muito pesados em relação a isso. Isso. E o trabalho dentro da universidade é para impactar políticas públicas, é o trabalho mais coletivo, né, que leva mais tempo. Por mais que agora eu tô fora da universidade, já tenho, já tô num processo judicial, né, para lutar pela minha vaga.
Mas também tô vendo outras possibilidades de programas. Logo eu vou estar de volta na universidade pública. E o que eu faço dentro da universidade pública é para servir as políticas públicas, servir a esses novos políticos que você falou, né, Vilela, de de que a gente precisa de novos nomes. Eu não tenho vontade nenhuma de ser política. Muita gente incentiva, fala que eu tenho que me candidatar, mas eu não quero. Eu sou escritora, né?
Eu quero ser professora, não quero ser política. Então o meu objetivo é produzir esse material para que políticos possam usar para novas políticas públicas de igualdade racial que sejam mais adequadas ao contexto brasileiro e não tão binárias. Aí foi assim, aí eu fui começando, fui indo. E em 2023 comecei o livro, né? Fui convidada pela Editora Planeta e lancei agora em 2026. É um tempinho.
Então, essa é do Partido Missão?
Não, cada um, essa coisa, essa acusação é—
olha só, revelações, hein?
Porque a onça não é uma onça, não sou de partido nenhum, é um leopardo.
É um leopardo, mas tem algum resultado?
Tem, tem uma história, né, de de um amigo meu que é meu tatuador, o Everton. Fez essa tatuagem linda aqui, ó.
Deixa eu ver, é uma cobra? É uma cobra coral com umas folhas. Dá para ver? Dá, né, na câmera?
A gente, eles me conheceu porque foi atrás do meu trabalho no YouTube, porque tava perdido. Ele é pardo e ele é triracial, né, tem um fenótipo bem diversificado e tava perdido. Me encontrou Gostou do meu trabalho, a gente começou a conversar, fizemos parceria de tatuagem, e um dia ele me chamou de Leoparda. E aí ficou, aí pronto, é isso. E aí qual foi a analogia que eu fiz? Que eu tenho um artigo que se chama Impedidos de Entrar em Wakanda.
Para quem não sabe, Wakanda é aquela cidade fictícia africana que tá, tem no Pantera Negra, né, no filme da Marvel, e que muitas vezes as pessoas usam essa alegoria de Wakanda para excluir pardos. Pegam uma pessoa parda que tá se dizendo negra, porque nós fomos convidados a fazer isso, né, nós fomos recomendados a fazer isso, pegam e ficam: ah, essa aí, o porteiro de Wakanda tava dormindo quando essa aí entrou. Um monte de zoeira, né, sobre isso assim, e exposição, fotos nossas, e para falar: você não entra em Wakanda.
E aí eu fiz um artigo sobre isso. Esse artigo virou um post, né, mais simplificado, nas redes sociais, com o título se você foi barrado em Wakanda, talvez você não seja uma Pantera Negra, mas um lindo leopardo. E aí o leopardo passa a ser o símbolo do Pareditude. E foi o Everton que fez a capa também, ele que fez esse leopardo que é o logo da Pareditude, né? Eu uso o leopardo em tudo, ainda vou tatuar esse aí também.
Muito legal. Não confundir então com a onça do MBL, tá certo?
É isso aí, já deixou claro aqui.
Não sabia? A gente já tinha te zoado em relação a isso, né?
Mas foi recente.
Não é a primeira coisa que você pensa, né? Você vê aqui assim, fala, amiga, fala, o leopardo. Você é um leopardo, uma onça?
Eu acho que eu tô mais para um leão cansado do que sem dente, né? Leão banguelo, sabe? O leão banguelo do Pica-Pau.
Manda, manda.
Vamos lá, o Ricardo Mendes, ele tá perguntando se, na opinião de vocês, o Brasil ainda quer dialogar ou a maioria já escolheu um lado e não quer mais ouvir o outro.
É que o Brasil é muito amplo, né? Vocês podem dividir essa resposta aí.
Bom, eu, a maioria dos brasileiros, ela tá disposta, só que ela tá cansada, ela não aguenta mais, ela já tá por aqui, sabe? Porque os problemas pessoais, os problemas materiais são tantos, e o pouco tempo que as pessoas têm de ócio, de tempo livre, elas querem namorar, elas querem sair, elas querem viver. Elas não têm mais estômago e paciência para debater o Brasil. Quem tem são as pessoas que se polarizam em um lugar ou em outro.
E aí a grande massa brasileira é espectadora desses movimentos polarizados, odiosos, que só vivem para fazer bullying uns contra os outros. Então assim, se a gente conseguisse limpar esse terreno, mostrar que existe espaço— eu até tenho um projeto chamado Despolarize-se que eu tento é mostrar que existem possibilidades de se construir pontes entre as pessoas de direita, de esquerda, conservadores, progressistas. É claro que existe valores que são inegociáveis, pontos de tensão mais dramáticos, mas existem muito mais pontos de união entre as pessoas.
Então, tanto a esquerda quanto a direita, pelo menos aqueles que têm vergonha na cara e coragem de assumir essa posição deveria partir para despolarização, para reconhecer no outro coisas boas e críticas que não partem para o pessoal, que não fala ele quer destruir sua família, ele quer destruir sua identidade, ele quer acabar com a sua vida. Se partir para esse lado, acabou, gente, não tem jeito mesmo. Mas a maioria da população, isso aparece em pesquisas, de opinião, ela é apática, ela é espectadora desse circo.
Então, se tem esse cenário já descrito nas pesquisas, existe, existe terreno fértil para despolarização acontecer, mas tem que partir das elites políticas também.
Pelo que eu presencio aqui, com as conversas que eu tenho aqui, com os comentários, claro, se tirando os haters que não estão a fim de discussão, Tem muita gente querendo entender o outro e dando espaço para, pô, tinha uma outra ideia sobre esse assunto, sobre cotas, e de repente eu entendi, eu tinha outra ideia sobre o assunto de hoje, por exemplo, sobre pardos. Tenho certeza que muita gente nunca nem tinha pensado nisso, não, que pardo é preto ou é não sei o quê.
E hoje vai escutar e vai repensar isso, pelo menos, né? Pode continuar inclusive pensando da mesma forma, mas acho importante escutar o ponto de vista dos outros.
E não pedir a USP, a UF, para nos expulsar porque falamos isso. De preferência, galera, agora já expulsaram. Eu tô na fila, Deus me livre, não vai acontecer isso não.
Não, não vai não.
Antes que você seja expulso daqui, aí é mais uma pergunta.
Vamos lá, Juliana Ferreira, ela tá perguntando como as experiências de vocês mudaram a forma de enxergar a militância e o debate político.
A experiência Olha, eu acho que a experiência ela começa antes da universidade. Ter nascido pobre, na roça, de uma família muito humilde. Quando eu chego na universidade, foi na PUC de Minas Gerais, que eu mudo pra Belo Horizonte pra fazer teologia, depois geografia. Eu encontro pessoas de classes sociais mais elevadas que tinham preocupações muito pós-materialistas. São justamente essas pautas que diz respeito a identidades, a questões simbólicas.
E eu tava ali levando meu biscoito Cream Cracker pra comer na hora do recreio, né? Nem tem recreio na universidade. Então quando eu vejo que essas pessoas ricas que terminavam o semestre, viajavam para Europa, elas eram muito agressivas na sua militância, eu achava aquilo ali um ponto de tensão. E foi ali que eu comecei a perceber que os movimentos de esquerda mais ligados à universidade eram desconectados daqueles que mais precisam.
E eu não poderia reclamar disso porque eu era branco, loiro e acabou, homem. Branco, loiro, cisgênero. Então eu tinha na visão deles muitos privilégios para reclamar de alguma coisa, embora minha família fosse muito pobre e a minha condição nos primeiros anos de Belo Horizonte foi bastante precária. Então essa desconexão da realidade dos pobres do Brasil, que são pretos, que são pardos, que são brancos, que são de todas as etnias, isso foi um problema para mim, porque as militâncias elas dividiam os pobres em ingredientes de sofrimentos.
E aí isso para mim foi um grande problema, foi a ficha caiu ali para mim nos primeiros anos da graduação. E eu aprendi a questionar os movimentos sociais nessas, nessas hipocrisias a partir de certa literatura, às vezes até meio conservadora. Quando, como eu já disse, né, quando eu li o livro do Pondé, Contra um Mundo Melhor, Descortinou muita coisa para mim. Eu falei, caraca, é aquilo ali, gente, é gente bem criada, chão de taco da Zona Sul, que quer dizer para o pobre o que é importante para ele lutar.
Então a ficha caiu assim para mim, mas eu não fui para direita, não virei conservador, porque eu acredito nas políticas públicas, na redistribuição econômica, na presença do Estado, no investimento público. Então por isso que eu não fui para direita, não porque por qualquer outro motivo, sabe, mas por motivos de convicção política, por causa do conflito distributivo mesmo. Então é meio que nesse lugar que eu me coloco.
A minha história foi um pouco diferente da do Sábio. Eu acho que eu vivi uma ilusão muito grande do que eram as militâncias, né. Como eu falei, eu passei por um período em que eu me autodeclarava negra e tava inserida dentro desse espaço, eu me via inserida dentro dessas militâncias, me via como parte disso. E foi caindo a minha ficha quando eu fui sendo expulsa disso, quando as pessoas começaram a me colocar como oposição ao movimento negro, sendo que eu sempre me vi como uma variação teórica dentro do que foi construído até então pelo movimento negro, principalmente porque eu sou afrodescendente, né?
Então eu me via dentro, eu me via ali nessa luta, e eu acreditava que as pessoas que a maioria das pessoas, né, também dá para falar todas, a maioria das pessoas nesse meio, elas estavam comprometidas com a justiça social e lutar pelo justo. E quando eu comecei o meu trabalho, eu tinha, eu sabia que teriam dificuldades, desafios, mas eu ainda tinha uma esperança de que as pessoas comprometidas com a justiça iam parar para ouvir, ver as injustiças que têm acontecido com os pardos, todas as questões que eu escrevi sobre, né, E eu fui percebendo que não, que tem uma grande parcela de pessoas, principalmente aquelas que estão em lugar de poder já, né, dentro dessas pautas, que elas não querem a justiça, elas querem o domínio, elas querem ter poder sobre a narrativa.
Elas não estão numa perspectiva de colaborarmos entre nós, né? Nossa, vamos nos acolher e lutar juntos contra esse problema que a gente vive de formas um pouco diferentes, mas é um problema comum. Elas estão focadas numa competição, em querer calar o diferente mesmo, por poder mesmo, uma luta por poder. Tudo bem, né, que é um espaço desse tamanhinho que tem ainda, né, a gente ainda tem que avançar muito na discussão em relação à raça no Brasil, mas esse pequeno pedaço que o movimento negro conquistou, quando eu chego e apresento o que tem acontecido de injustiça, Eu imaginava que eu seria bem recebida, eu não estou sendo.
Isso mudou a forma como eu vi a militância, né? Eu fui vendo que essa parcela, que é a parcela mais barulhenta, é a parcela que mais tá na universidade controlando as pecinhas do que que alguém vai pesquisar e o que não vai, é justamente essa parcela, né? Dessas pessoas que limitam a diversidade do debate, que não importa que nem uma injustiça que esteja acontecendo, elas tentam abafar. No ano passado viralizou a Samília Ornelas, né, que foi rejeitada numa banca de heteroidentificação.
Deu várias notícias. Vocês colocarem a foto dela aí, é bem importante ilustrar quem é ela, porque ela foi rejeitada e ela veio me pedir ajuda na UF, justamente, que a universidade que me expulsou. Ela veio me pedir ajuda porque é mais parda que ela. Não sei assim se ela não é parda, Não sei onde que a gente tá vivendo, o que que tá acontecendo no mundo realmente. E ela foi rejeitada, foi para justiça. Olha que absurdo, ela foi rejeitada, ela foi para justiça, ficou um ano brigando na justiça.
O juiz determinou que ela deveria voltar. Ela, minha amiga maravilhosa, o juiz determinou que ela deveria voltar. Ela voltou, um juiz falou ela tem que estar lá, a universidade recorreu e do nada cancelaram a matrícula dela. Ela tava indo para aula, ela já tinha assistido várias aulas, meio de medicina, que é um curso super desafiador, que ela estuda há 10 anos para passar. Ela tem 31 anos já e estuda todo esse tempo para passar, sabe?
E tiraram a matrícula dela. Eu divulguei no meu, no Pareditude, né? E depois que eu divulguei no Pareditude, reverberou para outras mídias, Metrópole, enfim, infinitos jornais. E o que que aconteceu? Pessoas internas começaram a pressionar quem queria ajudar ela para que não ajudasse. Então essa foi minha grande frustração com a militância. Se não, se não convém, a gente não vai ajudar. Vários influenciadores pretos que não concordam com meu trabalho foram defender e falar que ela é parda mesmo.
A ministra da Igualdade Racial, Aniele Franco, teve uma conversa com ela por ligação, só que a universidade é uma autarquia, né, então ela não pode atuar lá dentro. Mas teve uma conversa, falou que ia fazer o que fosse possível. Ela não conseguiu entrar. E eu vi rumores depois de pessoas que estavam ali pressionando para não ajudarem ela. Assim como quando eu tava sofrendo muita pressão interna dentro da faculdade, também existia pressão para quem não concordasse com o que estavam fazendo comigo não se manifestar, porque senão também seria penalizado de alguma forma, né?
Então foi aí que veio a minha frustração, quando eu entendi que, claro, existem pessoas nesses movimentos que querem lutar por justiça, com certeza, mas que tem uma parcela Que não. Então eu vivo hoje querendo trazer esse novo momento, né, para a gente poder lutar por justiça, expondo esses absurdos que estão acontecendo. Mas eu acredito no ativismo, eu me coloco, né, eu sou uma militante, eu sou uma ativista, além de ser escritora, né, pesquisadora, influenciadora, comunicadora, eu também sou.
Então as pessoas falam, ah, esses militantes chatos. Eu também sou uma militante chata naquilo que, nos momentos que eu preciso ser. Exatamente. Totalmente, eu faço parte dessa luta, mas eu vejo que a gente precisa amadurecer essa luta e corrigir essas distorções, né, que acontecem. Acho que em todas as instituições tem essas coisinhas.
Pois é. Fala, Rumer.
O Marcos Vinícius, ele tá perguntando aqui, ó: você disse que você foi expulsa da faculdade, o que passou pela tua cabeça quando isso aconteceu e qual foi a alegação da faculdade para te expulsar?
Essa essa conversa é longa, porque o que aconteceu em 2025, eu fui assediada o ano inteiro porque acontecia um cancelamento sobre mim na internet e eles reverberavam dentro da universidade. E de alguma forma a turma e os coordenadores do curso, eles acreditavam que eles deveriam me punir, fazer alguma justiça comigo, como se eles fossem, como se fosse um tribunal ali, né, A turma: vocês têm que fazer alguma coisa porque a Beatriz está falando coisas na internet que prejudicam o movimento negro, ela está falando contra, ela— como que vocês permitem isso?
A universidade começou a sofrer essa pressão, meu programa, né, Programa de Cultura e Territorialidades, que é um programa interdisciplinar, não é tão estruturado como o do Sávio de Ciência Política ou um de uma disciplina dura como Sociologia, História, né, é um programa que é mais vulnerável, um programa novo. Então a militância consegue, conseguiu controlar assim o que tava acontecendo lá dentro. E eu fui sofrendo uma série de assédios durante todo o ano.
Então primeira vez que eu fui apresentar um seminário, a turma inteira levantou e saiu. O professor autorizou. Um amigo meu tinha ido comigo para, porque a gente sabia que podia acontecer alguma coisa na universidade, tinha medo de estar lá, né, por causa do ódio que eu tava recebendo. Um amigo foi comigo me acompanhar Eu fui apresentar o trabalho, a turma inteira saiu, eu fiquei super mal. Foi um ano que eu, enfim, tive até que recorrer a medicamento psiquiátrico para conseguir estar na universidade.
E o professor não deixou meu amigo entrar para ver. Então começou assim. Aí depois eu tive uma outra onda de cancelamento em agosto, e eles fizeram um cartaz A3 assim na porta da sala colocando que eles eram contra uma influenciadora que estava falando, que era uma influenciadora transfóbica, racista, é um cartaz enorme assim na porta da sala e do lado da lousa. Então sempre me pressionando, né, porque acho que eles queriam que eu desistisse.
E aí eles começaram a fazer alguns eventos voltados para essas ideologias, que eles sabem que eu tenho posições diferentes, e queriam obrigar que eu tivesse lá. Eles começaram a manipular o regulamento para dizer que o aluno tinha obrigação de ir no evento. Por exemplo, fizeram evento com aquele Rita Von Hunty. E eu não fui porque o clima era de medo total. Então se eu fosse em um evento desse, era um evento para me pressionar, para me humilhar, vai saber, né?
Eu já era muito difícil andar pelos corredores. Então eu não fui a esses eventos. Eles foram me pressionando, aí cortaram a minha bolsa pela ausência nesses eventos. Eu negacionista. E tiraram a minha bolsa CAPES por causa disso. E depois a expulsão veio com essa justificativa de que eu não fui em tais eventos e também que nenhum professor queria me orientar, porque no meio desse processo meu orientador também me abandonou. Não, ele não é que ele discordava dos meus pontos, ele sempre acreditou que eu sempre falo isso, que eu tinha o direito de pesquisar, mas na ocasião ele falou para mim que para ele me defender melhor dentro do programa ele precisava parar de me orientar.
E eu acreditei, mas depois conversando com outros professores acadêmicos descobri que isso não fazia o menor sentido. Ele quis, não quis bancar, né, a situação toda. Então eles me expulsaram com essa justificativa. E uma professora me reprovou também de uma forma bem estranha numa matéria, sem me dar chance de recuperação. A expulsão foi feita em uma reunião que entrou várias pessoas da turma que nunca entravam na reunião, né, de colegiado.
E a professora expôs uma nota baixa minha que ela me deu e não me deu chance de recuperação para todo mundo. Ela não tinha me passado antes. A ata da reunião do que seria discutido não foi passada antes. Eu não sabia que eu seria expulsa na reunião com todo mundo aplaudindo, né? Então foi um horror. E a universidade justificou que eu fui jubilada, só que eu estava 9 meses no programa. Eu não tinha quebrado nenhum dos prazos, até porque 9 meses em um mestrado você ainda tá pensando no seu projeto, desenvolvendo o seu projeto, né?
E então eles não argumentaram, eles não deram nenhuma prova. E eu coloquei lá no meu Instagram, tá fixado para quem quiser se aprofundar, e tá no meu site também, paraestudio.com, todas as evidências do que aconteceu comigo. E também a justiça também vai definir, né, se eles estão certos ou não, porque eles não alegaram nenhuma prova. Eles alegaram jubilamento, eles não tinham nem fechado o semestre. Eu ainda tava com acesso ao sistema depois do cancelamento.
Todas as disciplinas que eu fiz sem nota. E eles alegaram que era jubilamento sem fechar o semestre. Na verdade, eles fizeram mesmo Coliseu ali naquela reunião, com o pessoal da turma identitário aplaudindo e sentindo: nossa, isso mesmo, porque ela não merece estudar, ela não tem que estar aqui dentro, não rezou a cartilha, porque ela não, porque ela não concorda com tudo que a gente tá apresentando aqui, que ela deveria concordar.
Então foi Foi isso que aconteceu. Foi muito difícil, foi um ano muito desafiador. E agora, né, eu tomei as medidas cabíveis e vamos ver os próximos episódios.
Fala, Homer.
Vamos lá, tem uma pergunta aqui da Fernanda Alves. Ela tá perguntando aqui, ó: depois da repercussão de Pet Tube, você sentiu mais acolhida ou mais isolada nos debates sobre identidade racial? Social?
Nossa, essa é uma questão importante.
Teve acolhimento também por parte, depois da expulsão?
Sim, porque depois da expulsão eu acredito que as pessoas que ainda estavam meio desconfiadas de mim, elas olham, tá, tudo bem, não discorda da menina, mas expulsar ela, né? Você não concorda o que ela tá falando, mas expulsar, como chegou nesse extremo, muita gente que tava neutra observou que realmente estão querendo censurar a conversa. E aí eu passei a ter um apoio. Mas no ano passado inteiro, durante todos esses questionamentos, porque houveram campanhas de difamação contra mim, né, para tentar abafar o meu trabalho.
E era sempre assim: o Brown falou meu nome, citou meu trabalho, aí começava uma campanha de diversas celebridades, intelectuais públicos, né, que já tem um lugar consolidado, acadêmicos publicando Fora de São Paulo, publicando em vários jornais, nas redes sociais, sabe, uma campanha assim todo mundo junto para me difamar. E aí foi um ano muito difícil, muito difícil, que eu perdi muitos apoiadores, né, que essas ondas, eu recebia muito ódio em todas as redes sociais, as pessoas falando absurdo da minha vida pessoal e tal.
Só que eu acredito muito no que eu faço, né, eu acredito muito que é para ajudar as pessoas pardas também, não é para os haters, não é para convencer quem discordo, discorda, tá. Então consome o tipo de conteúdo e de livro que te contemple. É para as pessoas pardas, é para unir os afins, né. Então eu continuei, continuei, continuei. Eu ter continuado e ter tido essa resistência dentro da universidade foi o que levou à minha expulsão.
Só que a minha expulsão expôs o tamanho da censura do que tá acontecendo, né. Aí quando tem essa virada e eu Conto o que aconteceu na faculdade, muitas pessoas, pessoas sérias, né, que também tem um lugar consolidado, vem em minha defesa publicamente e eu passo a ter mais acolhimento, né, passo a pessoas realmente perceberem que, cara, não é o que você diz, mas é o seu direito de dizer, de estudar, de fazer sua faculdade se você passou, se você fez o processo, né.
E aí também vira uma luta pela liberdade acadêmica, não só pelo reconhecimento dos pardos enquanto mestiços.
Eu acho que essa repercussão que teve o seu caso foi muito didática. Infelizmente, né, foi terrível para você no sentido pessoal, mas foi muito didática para mostrar aquilo que todo mundo já constatou, que a universidade se tornou o palco desses movimentos identitários. As regras são eles que ditam, eles julgam e eles colocam para fora quem eles quiser. Então o nosso posicionamento também é importante por isso, porque nós mostramos que nós não, não somos a extrema-direita, blá blá blá.
Nós estamos vendo esses problemas, estamos colocando na mesa e estamos falando disso. Então isso eu diria assim que é histórico, sim, o nosso momento, e participar disso é importante, por mais que seja difícil para quem tá na linha de frente. Mas viemos aí para fazer.
E um ponto, né, até do que você falou, Sávio, desse momento que tá acontecendo, é que eu descobri depois que eu fui expulsa, depois que viralizou, que muitas pessoas passaram a mesma coisa que eu, só que elas não tinham visibilidade total. Aí você não tem visibilidade, eles conseguem abafar, né? Então eu percebi que é uma prática que já tava muito comum de expulsar ou de você pressionar até a pessoa desistir. Até professores, eu conversei com professores que foram muito assediados por militantes, e professores concursados que acreditam que você vai ficar naquele trabalho a vida toda, né, vai aposentar legal, e que ficaram desesperados prestando outros concursos porque estavam sendo muito pressionados dentro dessas instituições, né.
E essas pessoas vieram me procurar para falar que isso tava acontecendo, que foram expulsas ou que tiveram bolsa cortada não foram contempladas porque estavam querendo estudar algo diferente dessa cartilha, né? Mas o que eles não esperavam é que eu tenho visibilidade, e é uma visibilidade que veio do meu celular na mão. Essa é a maior raiva que eles têm, né? Porque eu não tenho nada, eu tenho um celular.
Eu não aguento mais ser acusado de ser financiado por ONGs. Gente, ONGs, por favor, se vocês quiserem nos financiar, manda o Pix, né?
Porque O duro é não receber dinheiro e ainda acharem que recebe.
Estou cansado assim. É, também falam da direita, falam tudo que nós, maior comentário que eu recebo lá: o novo candidato do PL, quando é que vem afiliação pelo PL? O sonho deles é que a gente vá para direita e acabe o debate dentro da universidade, mas para o azar nós não faremos isso, continuaremos ali lutar por políticas públicas, por universidade de qualidade para todos, e fazendo as devidas críticas aos exageros dos movimentos sociais.
Fala, Romero!
Tem a pergunta aqui do Betinho Nascimento, ele tá perguntando se vocês se consideram persona non grata dentro do meio acadêmico.
Isso tá bom. Não, persona non grata é uma categoria meio que quase jurídica, né? Nós não, eu pelo menos não fui colocado nesse lugar. A Beatriz tecnicamente é uma persona não grata porque ela foi até expulsa, né? Eu acho que pelos militantes mais emocionados da USP eu sou uma persona não grata, mas pela instituição não. Espero que continue assim, USP. Obrigado.
Não é o caso da UF, né? UFL, eles me expulsaram.
Mas as federais, gente, o pessoal pega muito no pé da USP, mas eu vou dizer, as federais, os movimentos identitários, os tentáculos opressores deles são muito mais fortes do que nas universidades, na Universidade de São Paulo. Eu, todo mundo diz isso, fala assim, cara, o pessoal pega no pé da USP, mas a USP tem um corpo docente muito mais liberal no sentido de pensar direitos, são programas mais bem estruturados, igual no programa da Beatriz, com todo respeito ao programa, Mas o que que é isso?
Faz uma reunião para expulsar a garota, aí vem um pessoal e aplaude no final como se fosse um tribunal da guilhotina. Ridículo, gente! Isso não é nada, isso é zero, zero seriedade. Um programa desse, a CAPES, o Ministério da Educação tinha que passar uma lupa e ver que circo é esse que tá acontecendo lá. É inadmissível que a universidade seja aparelhada por grupos para fazer o que bem entendem. A universidade não é de todos, e todos têm um lugar de fala, todos têm um lugar para exercer os seus direitos.
Então fazer ciência, né, que é o mais importante, e usar o autor que bem entender. E sabe, essa ideia de tentar nos classificar como nomes feios não existe. Ah, outra coisa, e mesmo se eu fosse de direita, não teria problema nenhum. Pessoas de direita também são bem-vindas na universidade pública, desde que façam os devidos processos para entrar. E é sobre isso, gente, ninguém tem que virar de esquerda porque vai para universidade, não, sabe?
A esquerda tem que competir por corações e mentes e não impor aos estudantes e professores as ideologias.
Sim, ao meu ver, tem essa questão de persona non grata, mas é que hoje eu vejo que eu fui para o programa, para o pior programa que eu poderia ir para debater essas questões, sabe? Por ser programa novo, interdisciplinar, em que a militância realmente consegue fazer muita coisa ali. E eu vejo, por exemplo, sociologia na UF é mais estruturada, tem uma excelente universidade também. E a sociologia você vê que é um campo mais sério, né?
A minha coorientadora é desse departamento, ela falou que eu não seria expulsa lá jamais, que muitas coisas que aconteceram não aconteceriam. E acontece sempre a pressão dos alunos que tem, mas que já tinha na graduação, como eu contei com a história do presente inútil, né? Então já tinha essa pressão. A diferença minha na graduação e no mestrado é que na graduação eu sofria muita exclusão, mas era dos estudantes. A instituição me protegia, os professores me protegiam e defendiam o meu direito de estudar o que eu quisesse.
Ainda tinha essa ética, né? Quando eu chego no mestrado, não dá para diferenciar muito bem o aluno militante do coordenador militante que resolveu me expulsar com todo mundo batendo palma. É uma loucura. Porém, eu tô recebendo muitos convites de professores de diversas universidades que querem me orientar. Então eu não sou não grata, né?
E a partir desse programa aqui, tenho certeza que muitos convites vão acontecer para vocês, né?
E das ONGs também, né, para nos financiar.
ONGs, tá aqui também, né? Lembra da gente, as ONGs, né? Jorge Soros patrocina a gente aqui, não tá pingando dinheiro aí.
Ai, meu Deus. Sim, eu tô até pensando onde que eu vou estudar, o que que eu quero, porque eu quero ir para um lugar que consiga estudar, gente. Eu quero estudar, só isso.
Para fora, pensou já?
Pensei. A única coisa que tá me empatando essa questão é que a minha irmã tá grávida e eu sou madrinha e quero acompanhar, né? Vai parir agora em março. Então beleza, mas eu quero acompanhar, sabe? Aí se eu conseguir um patrocínio da Insider, vários patrocínios, melhorar de vida, melhorar de vida, sabe? É porque aí dá para eu ir e voltar quando eu quiser vê-la, ver meu sobrinho, né?
Ficar longe assim é difícil.
Mas tem um professor lá da Universidade da Califórnia, o Stanley, que quer me orientar.
Já pensou?
É, essa menina vai longe.
É brabo.
Beatriz Bueno será uma das maiores intelectuais do Brasil.
Ai, amiga, amém!
E você vai ser o presidente, ele é o presidente em 2060.
E eu aqui fico, né? Ninguém falou de mim, tá todo mundo Vai, você já é consolidado. Obrigado, obrigado. E você é rei do quê?
Eu sou rei de fazer piada sem graça.
É o rei do tiozão, dos tiozões. Eu sou o rei do pavê.
É, eu sou o tio do pavê.
Manda.
Tem a pergunta aqui da Vanessa Lopes, tá perguntando se em algum momento vocês já sofreram ameaças claras e diretas físicas.
Eu não gosto de falar porque incentiva mais.
Ah, sofri. Eu também. Nossa. Ameaça demais, cara. Ameaça de morte, ameaça de espancamento. Tô louco. Eu às vezes eu ando na rua assim meio escondida, né, que eu ainda tô morando em Niterói, que é onde é a UFI. Então ando meio escondida. Tem muita coisa na internet assim, principalmente de movimentos transativistas assim, né. As ameaças de, ai, vou matar ela, aí tem que dar um pau nela. Aí isso a gente vai ficando com receio porque a gente transita na rua, né.
A gente não sabe até onde. Infelizmente ainda somos pobres, pegamos metrô, pegamos ônibus, não podemos pagar um segurança, né, um helicóptero para nos levar. Eu quero, gente. Então dá muito medo assim, por isso que eu tive que tomar medicação para ir para universidade no segundo semestre, porque o meu psicológico era o tempo inteiro com medo de que acontecesse algo comigo, né. Eu sozinha na faculdade, eu não tinha um amigo do meu programa.
Eu tinha alguns amigos da sociologia, mas a gente não fazia matéria no mesmo horário, então eu não conseguia unir com pessoas para ir. Então era um medo constante. A minha família tendo medo, temendo por mim, pela minha vida. Os familiares ficam muito preocupados, fala até: ai, desiste, não fala mais disso, por que que você tá mexendo nisso? Por que que você não para com isso e vai fazer outra coisa, né? E eu me mantendo firme de que não, de que eu tenho muita fé em Deus, né?
Então Deus o tempo inteiro me protegendo. Hoje eu tava ouvindo até o seu devocional, viu, Vilela?
É mesmo?
A gente ouviu antes de vir.
Poxa, que legal!
Muito bom!
Tem todo, todas as 6 horas da manhã, tudo. Ele tá fazendo no YouTube, tem o devocional todo dia e tem o desmotivacional aos domingos. Você constrói todo dia e domingo tem um desmotivacional que é para você desistir, falhar e perder.
Jogar tudo pela janela, né?
É, aí segunda começa o devocional de novo para você se animar, e no domingo é o Desmotivacional Show, que é humorista mesmo, né? Já percebeu, mas é legal assim também. Assistam Desmotivacional Show todo domingo, o pior da inteligência artificial. A gente usa para o mal só, é só coisas toscas, né? E você usa para o mal o quê, a sua sabedoria agora?
Cara, vamos usar minha sabedoria para o bem agora com uma pergunta aqui. Que ele tá perguntando, é o Gustavo Henrique, tá perguntando para o Sávio se você acha que a arte consegue furar bolhas políticas melhor do que os debates acadêmicos.
Com certamente, porque o debate acadêmico ele é totalmente restrito, né? Ele é rebuscado e a linguagem também, ninguém, muita gente nem tem saco para isso, mas ouvir uma música, uma peça um filme é muito mais fácil disso acontecer. Inclusive, eu tô querendo fazer isso porque, na verdade, eu comecei na internet como cantor, que sou. E aí depois, quando eu fui fazer mestrado, doutorado, ciência política, que a coisa da academia tomou tanto da minha vida que eu fui deixando a minha parte artística de lado.
Mas eu ainda vou fazer. Por isso que eu não vou virar presidente do Brasil só em 2075, porque eu ainda quero gravar um disco político, tratando sobre disso tudo aqui de uma maneira bem loucona. Mas eu ainda não tenho estrutura para isso, mas aguardem, vocês vão ver, ainda vou fazer isso.
Eu tenho, eu abro o livro com uma poesia pensando justamente nisso, né? Uma poesia que eu fiz, eu apresento nos meus eventos presenciais, é longa, tem uns 4 minutos assim, e falando sobre, não é que tem aqui não, né? É essa aí mesmo, cidadão vira lata. Ela é bem longa, né?
Mas eu vou mostrar na câmera lá, quer pegar de volta, né? Tem uma câmera aqui em cima lá, muito engraçado, né?
Eu nem tinha visto essa câmera aqui, gente. Você tinha visto essa câmera?
Olha lá, olha na câmera do seu lado, tá vendo? E aí é só a mãozinha dela puxando.
É que eu acho que você tá me dando, mas bota aí. Aí, bota aí, quer ver? Vou falar para você ler, já que é o seu livro, tá?
Mas não é essa que eu abri?
É, mas é porque ela é longa, eu queria que você lesse o finalzinho, que é impactante. 15 minutos depois, é 4 minutos quando eu gravo.
Chuva, nossa!
Aqui, lê esse finalzinho, lê esse finalzinho.
Exclusão pegou a visão nessa realidade onde— vamos lá de novo, né? Exclusão pegou a visão nessa realidade onde não existe cinza é preto ou branco. Negra de pele clara, branca de pele escura, ninguém. Sigo no meu processo de cura. Cidadão vira lata, sem pedigree, infeliz. Meu corpo não tem direito de contar a história desse país. É lugar que deveria de ser de muita possibilidade, diversidade. Hoje é lugar de tristeza, de dor, de ninguendade.
Legal essa palavra, ninguendade.
É do Darcy Ribeiro, é um conceito É isso que eu ia falar, ele fala que os mestiços que aqui nasceram já não eram mais europeus, mas também não eram indígenas, né? E quando vem os africanos também não é uma coisa nem outra, e começaram a viver nesses, nessa ninguendade que é o povo brasileiro vive. Pois é, o Brasil mestiço foi aqui, foi.
Senhores e senhoras, obrigado pelo papo. A hora de algum, alguma ponta solta, alguma coisa que faltou é a hora de vocês completarem. Senão, redes sociais, sites, ONGs que patrocinam vocês e tudo mais.
Para encontrar Sávio de Maio, basta pesquisar Sávio de Maio, é DI, tá? É só ver na, eu, Sávio de Maio, só existe eu, gente, não existe outro. Eu tive que mudar meu nome, né, porque meu nome de batismo é Sávio Silva de Oliveira, mas era tão comum, tinha um monte, tinha, mas Sávio já é diferente, né? Já é diferente, mas tem 24 mil Sávio no Brasil.
Imagina Beatriz.
Então assim, aí eu fui buscando o nome totalmente lúdico. E aí falei, agora achei um nome super original. Descobri que Di Maio é um nome super popular na Grécia e na Itália. Ou seja, fui acusado ainda de tentar me europeizar mais ainda. Então é isso, Sávio Di Maio, em qualquer lugar que quiser encontrar.
Beatriz, Além do livro aqui que tá em todas, então, em todas as livrarias, Amazon, todas as livrarias você encontra ele na Amazon, já é um dos mais vendidos. O lançamento em março, a gente já tava vendendo, né? Com certeza, esse aí é o seu.
Então já assina para mim aqui depois, vou dar meu autógrafo.
Eu fiquei treinando autógrafo, meu filho, um tempão para dar um autógrafo.
Acho que eu só escrevo meu nome, sabe?
Eu criei uma assinatura.
Ai, eu vou criar também.
Tem que criar, amigo.
Ah, mas é mesmo? Você criar assinatura, é, pode ser, porque você criar uma assinatura muito, muito diferente, as pessoas nem vão nem saber que sou eu. Para isso que eu escrevi o nome, certo?
O meu é bebê, porque Beatriz Bueno, né?
Obrigado, bebê.
Obrigado, bebê. Ainda tem isso? Ainda tem?
É, obrigado. Vocês que tiveram aqui já sabe, dá aquele like maroto.
É isso aí.
Se inscreve no canal. E que que o pessoal escreve nos comentários para provar Chegou até o final desse papo.
Bom, para provar que você chegou até o final, coloca aí: cidadã vira-lata.
Cidadã, gostei!
Cidadã ou cidadão, se você é homem, cidadão vira-lata, ou se você é cidadã, impõe gênero agora.
Cidadã, como que é? Cidadã, cidadão ou cidadão? Gostei de cidadã! Cidadã! Valeu, gente, fiquem com Deus, beijo no cotovelo e tchau! Que Que bom que vocês vieram, valeu!
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