1895 - A FILOSOFIA DE A ODISSEIA: LÚCIA HELENA GALVÃO E CLÓVIS DE BARROS
CLÓVIS DE BARROS é jornalista, escritor, filósofo e professor, e LÚCIA HELENA GALVÃO é professora e filósofa. Eles vão bater um papo sobre o livro “A Odisseia” e também sobre o filme de Christopher Nolan. O Vilela disse que é fã de Homero, mas prefere o Bart.
- Filosofia e PensamentoA Odisseia · Filosofia ocidental · Lugar natural · Eudaimonia
- A Mensagem da Literatura ClássicaAutoconhecimento · Crescimento humano · Tradição oral · Eneida
- Ética da IA no cinemaOdisseia de Nolan · Fidelidade à obra original · Culpa e heroísmo · Figuras femininas na obra
- O conceito de 'casa' em terra estrangeiraReencontro consigo mesmo · Evolução humana · Diógenes de Sinope · Condição humana
- Desejo e vontade humanaForça vital · João Barradas · Epicuro · Formação de caráter
- Perseveranca e SuperacaoEstratégia e paciência · Inteligência prática · Resiliência
- Chegada à terra dos CiclopesEgoísmo e instintos · Visão materialista · Vaidade e orgulho · Polifemo
- Domínio da MenteInstrumentalidade da mente · Intelecto a serviço do egoísmo · Tradição Indiana · Centauro
- Vítima heróicaJornada do herói · Monomito · Joseph Campbell · Gilgamesh
- Mitos gregos: Filomela e TereuOvo de cuco · Massificação e alienação · Identidade humana
Olá, terráqueos! Como é que vocês estão? Eu sou o Rogério Vileira e tá começando mais um Inteligência Limitada, o programa onde a limitação da inteligência acontece somente por parte do apresentador que vos fala. Sempre trago pessoas mais inteligentes, nesse caso hoje muito mais, muito mais inteligentes do que eu. E que tem uma vida muito mais filosófica, muito mais epopeica do que a minha, do que a sua.
Eu nem sei o que significa isso, cara.
Epopeia e odisseia, não sabe o que é?
Não, epopeia sim, epopeica que você falou, isso eu não conheço não, cara.
Epopeia?
Epopeica que você falou agora. É a derivação de epopeia?
É, coisa odisseica, uma coisa aventurezca, maravilhosa, épica.
Eu nem entendo essas coisas, é muito longo para mim.
É muito, a palavra é muito longa.
O filme é muito longo.
Você nunca iria para Paranapiacaba só porque o nome é grande então?
Cara, por ser um nome longo deve ser velho, né?
É velho.
Então não vou.
E é bem legal ir lá, lá tem névoas.
Não deve ter muita aura lá, cara.
Silent Hill brasileira.
Silent Hill.
E como vai ser a participação do pessoal nessa live maravilhosa, querido Bigode?
Primeiro eu vou pedir para a galera deixar o like, né?
Já de cara.
Se inscrever no canal. Tem muita gente que assiste a gente aqui, mas não é inscrito, né?
Pois é, 40% das pessoas que assistem esse canal não são inscritos. Imagina se o pessoal se inscreve, a gente bate 10 milhões logo, logo, logo.
Então confere aí se você não tá inscrito. Se você não tiver, já se inscreve, tá? Exato. Ativa o sininho, porque às vezes você tá inscrito, mas não tá com o sininho ativado, aí não recebe as notificações, não recebe live, vídeo, não recebe nada. Então ativa o sininho também. E hoje vai ser uma live muito especial, porque ela vai ser destinada lá para o grupo do Telegram, né, que é o grupo que acompanha a gente.
O pessoal acha que quem não é do Telegram não pode assistir. Não é que é destinada, cara, é que assim, a gente dá preferência para os nossos membros mandarem perguntas, mas é para todo mundo essa live. Então você pode mandar pergunta no chat, mas a gente vai— exatamente, a gente vai lá, né? Exato, a gente já recebe as perguntas antes dos membros que já sabem com antecedência qual é a agenda.
Mas não deixa de mandar aí o seu Super Chat, tá bom?
Exatamente. E antes de começar esse papo, quero falar com você, mandar um recado para você que tem uma empresa. Olha, todo empresário foca em faturar mais, não é mesmo? Mas para onde vai o lucro depois que entra no caixa? O CNPJ rala, mas o CPF não cresce porque a maioria não sabe transformar caixa em patrimônio. Para resolver isso, o G4 e o Grupo Primo se uniram e vão lançar o Lucro 2X. De um lado, Thales, Alfredo e com gestão e eficiência do outro, Thiago Negro e Bruno Perini com alocação de capital.
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Sabe aquela, aquela sensação de chegar ao fim do dia destruído, pescoço travado, costas paradas. Eu sei porque muito tempo eu ficava com isso com a outra cadeira. Isso não é só cansaço, é custo, custo de uma cadeira errada, de um corpo que passou horas sem suporte adequado. E olha que eu fico horas e horas aqui. A Elements resolve tudo isso de um jeito completo: apoio lombar ajustável, reclinação, braços 4D, apoio para cabeça.
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Então duas pessoas estão parando o dia a dia delas porque Toparam falar sobre essa obra que é Odisseia, do Nolan e do Homero. Olha aí, eu assisti. Teve gente aqui que prometeu que ia assistir e não assistiu até hoje.
Eu tô no prazo ainda, cara.
Qual que é seu prazo?
Eu tenho até o fim de semana.
Ué, quem deu esse prazo? A gente tinha dado semana passada.
Não, mas era desse fim de semana.
Ah, então entendi errado. Você vai assistir só na semana? Vou assistir semana que vem. Vou cobrar porque a gente vai falar de Ulisses também.
Pode ter certeza.
Fechou então. E você que tá em casa também, Recomendo demais ir assistir o filme do Homero aí, Odisseia, até para falar mal, exatamente com base. Então, Bigoda, vamos para o papo, né?
Vamos lá, vamos lá.
Estou muito ansioso por essa reunião. Estou aqui com duas pessoas que admiro muito e que tem muito para falar sobre Odisseia. E professor, primeiro contigo aí, já teve aqui falando de Odisseia. Se apresenta para o povo que não te conhece, seja bem-vindo.
Olá, um grande abraço a todos. Sou Clóvis de Barros, trabalho com filosofia e tenho estado, depois da vida universitária, no mundo da internet como divulgador de ideias filosóficas.
E professora, também estou com saudade, faz tempo que não vem aqui presencial e está já intimada para vir aqui falar com a gente. Se apresenta para o povo.
Olá, meu nome é Lúcia Helena Galvão, sou professora de Nova Acrópole e é uma satisfação estar aqui.
E eu sei que os dois são unidos por essa obra também, os dois têm uma admiração enorme por essas duas obras, por esses livros. E eu queria começar por isso, né? Por que que elas são tão importantes até hoje? Por que que elas ressoam até hoje? Uma coisa de 3.000 anos atrás ainda ela pode ser relevante nos dias de hoje. O que que vocês acham?
Bom, eu tomo a palavra para observar que nós estamos nos referindo a uma obra que é anterior ao surgimento da chamada filosofia ocidental. E o surgimento na Grécia da filosofia ocidental costuma ser apresentado como um milagre. A expressão milagre grego é uma expressão que você encontra nos manuais de filosofia, nos cursos de filosofia, indicando assim uma ocorrência digamos, sem nexos de causalidade aparente, inexplicável, e que teria surgido um pouco do nada em torno de 4 séculos antes de Cristo.
A minha ideia é que essa aí, essa concepção milagrosa do surgimento da filosofia, ela é muito, mas muito indevida, né? É realmente um autêntico absurdo começar a estudar filosofia com uma proposta de milagre. Acredito mesmo que a filosofia ela tenha sido encaminhada por, eu diria, manifestações de cultura anteriores a ela e que já continham no seu bojo ideias que depois a filosofia passou a tratar, certo, de um outro modo, certo, com outro formato, mas que já estavam presentes anteriormente.
Eu acho que a Odisseia é um excelente exemplo da presença das ideias filosóficas antes da própria filosofia. Então, a título de exemplo, nós poderíamos encontrar na filosofia de Aristóteles a ideia de lugar natural dentro de uma concepção cósmica do universo. Cada ente seria provido de uma espécie de função de um papel, ergon, dentro do universo. E portanto, o vento ventaria cumprindo a sua função, a maré marearia, o sapo sapearia, os corpos celestes teriam o seu papel, e cada um de nós humanos também.
Ora, perceba que nesse caso haveria, além de uma função, uma espécie de lugar adequado para que essa função fosse levada a cabo. Aristóteles chamava esse lugar de lugar natural, que entre os animais recebe o nome de habitat. Então o habitat do urso em tal lugar, o habitat da foca em tal lugar, e assim nós humanos também teríamos, digamos, lugares adequados onde a vida poderia, digamos, combinar com a nossa natureza, permitir o pleno desabrochar da nossa natureza e, com isso, permitir que nossa vida fosse harmoniosa com o resto do universo e, portanto, uma vida boa, uma vida feliz.
Esta harmonia do nosso existir com o resto do universo recebia o nome de eudaimonia. Ora, observe que Ulisses está de boa em Ítaca, é convocado para uma guerra, passa 10 anos nessa guerra e aí volta para Ítaca numa odisseia, né, numa epopeia, numa viagem complicadíssima que leva também mais 10 anos E ele faz de tudo para retornar a Ítaca e encontra no meio do caminho, eu diria, contextos existenciais que poderiam ser entendidos como auspiciosos, como agradáveis a qualquer um, como no caso da ilha de Calipso.
E ainda assim ele insiste em voltar para Ítaca. E fica claro que na Odisseia já temos a noção de um lugar natural aonde a nossa vida possa encontrar o espaço adequado para o seu pleno florescer. E evidentemente que isso tem um poder filosófico fantástico, porque Muitas vezes somos convidados a viver vidas que são, eu diria, entendidas por muitos como vidas agradáveis, confortáveis, vidas boas, vidas cheias de prazer e de gáudio.
E no entanto, sabemos muito bem que essa vida proposta, ela não tem nada a ver conosco. Ela não tem nada a ver com a nossa natureza, e que portanto pode ser maravilhoso passar o resto da vida contemplando o mar na praia, mas que talvez o nosso lugar natural seja, por exemplo, na sala de aula, e a nossa natureza de explicador exija de nós um outro tipo de existência. Então Perceba que essa insistência de Ulisses em retornar para Ítaca, ela é alegoricamente muito elucidativa daquilo que Aristóteles retomou na sequência com a ideia de lugar natural.
Perceba que não há então, portanto, nenhum milagre, mas há sim uma certa continuidade marcada, claro, por um outro tipo de abordagem, um outro tipo de apresentação dos conceitos, E eu acho que isso que eu acabei de dizer justifica muito o fato dessas grandes narrativas, dessas grandes histórias terem ainda hoje a importância que elas têm, porque elas falam de coisas que nos dizem respeito diretamente, elas nos concernem. Essas histórias, elas, elas têm elementos que coincidem com o que acontece conosco, e por isso elas se tornam fascinantes para nós.
Então eu acho que, respondendo um pouco essa sua primeira pergunta, é isso. Quer dizer, há uma relevância de significado muito grande, e isso justifica a importância que essas grandes histórias ainda têm até hoje.
Professora, acrescentando a isso que o que o Clóvis falou, a gente pode falar que aquele monomito que o Joseph Campbell trabalha nos livros e nas palestras dele sobre a jornada do herói, ela é reforçada nesse, nessas obras. Ela começa nessas obras ou ela é anterior? Essa ideia dessa construção desse herói, né, que sai de casa, passa por uma transformação e volta para casa trazendo o elixir, se transformando, né? Ele morre Ele morre nessa viagem e renasce como uma nova pessoa. Ele reforça essa jornada do herói?
Sim, com certeza. É curioso você ter perguntado isso, que eu estava pensando exatamente em Campbell e no Monomito. Com certeza, uma das referências mais antigas de Campbell deve ter sido a Odisseia, a Ilíada, a obra de Homero como um todo.
Talvez Gilgamesh também, um pouco mais anterior também.
Como falava o professor Clóvis, muito daquilo que a gente não conhece tanto deságua na cultura ocidental, deságua na Grécia, quer através de Parmênides em Eleia ou Fosseia, que traz muito da cultura oriental, quer através um Cícero que diz, por exemplo, que Hércules nada mais era do que o Balarama hindu. Ou seja, muita coisa vem e é reaproveitada num fluxo de ideias que acontece ao longo da história. Então você fala de Gilgamesh, a gente poderia falar de epopeias como o Ramayana, o Mahabharata, o ciclo de Gesar no Tibete.
Tem muitas epopeias que no fundo estão falando do drama humano, de renascer, nascer uma segunda vez, que é exatamente passar por todas as provas da vida e sair renovado. Claro que com um fundo cultural que foi modificado ao longo do tempo, porque nós podemos ver dentro do pensamento de Homero a ideia de uma, digamos assim, um plano dos deuses, algo que vem de um plano das ideias, como diria Platão, e é realizado pelos homens como um ciclo previsto para a natureza humana, enquanto que nas versões que nós fazemos atualmente, como a versão de Nolan, nós vemos mais um drama psicológico.
Mas no fundo é a mesma jornada do ser humano em busca de si mesmo. Até mesmo o mito da caverna de Platão poderia ser colocado dentro dessa categoria de uma jornada do ser humano na busca de si mesmo, de encontrar o seu lugar como diz o professor Clóvis, encontrar sua areté, a sua virtude, o seu lugar no mundo, que no caso de Ulisses era, no caso de Odisseu, era rei de Ítaca. E isso para ele era uma necessidade, reencontrar o que os hindus chamariam do seu dharma, o seu lugar onde ele ocupa o seu espaço no mundo, mas agora renovado e mais digno de ser rei de Ítaca.
Ou seja, mais digno da própria condição humana. Então, ao longo da história, muitos, não só clássicos, mas obras de literatura como um todo foram feitas em torno desse tema, e muitas versões foram feitas em torno dessas obras de literatura, agregando novos valores, mas conservando essa ideia cíclica do homem que mergulha na busca de si mesmo. Até se nos aprofundarmos um pouco no mundo de Carl Jung. Ele vai falar disso numa linguagem da psicologia analítica, né, do homem que mergulha dentro do seu inconsciente na busca de trazer à tona a sua completude, a sua individuação, segundo a linguagem junguiana.
Professor, sim, a gente vê uma diferença entre, entre a a obra original e a interpretação, né, que o Nolan levou para o cinema de um personagem que tá movido pela culpa, né? Parece que na obra original Ulisses, o Odisseu, não tem essa culpa pela guerra, pela artimanha que ele usou no cavalo de Troia, ou não ter enterrado os soldados. É verdade isso? Houve uma adaptação hoje em dia para você se colocar no lugar do herói e não ser Um herói que na época era justificado, as mortes de guerra, aquilo era considerado heroísmo.
E talvez hoje esse anacronismo poderia bater errado, porque o cara mata crianças, usa um estratagema para acelerar a vitória na guerra, que poderia ser como uma coisa errada. E aí ele sente culpa. Você acha que isso foi uma adaptação legal que você viu no filme? Foi uma adaptação necessária? Ele desvirtua a obra? Porque tem muito, tem muita essa discussão, né, que o Nolan ele estragou ou mudou demais a obra original. E o que que vocês acham disso, né? Se a arte ela permite esse tipo de coisa.
Olha, eu vou te responder, eu acho que direi aqui meio que tudo o que eu o que eu tenho para dizer sobre esse assunto. Vocês me ouvem bem?
Sim, sim, tá perfeito.
Então, imagine que alguém tenha um livro, né, para ler diante de si, qualquer pessoa, né? E essa pessoa então lê o livro como um todo, e ao longo da leitura acontece o que só pode acontecer. Essa pessoa, ela vai relacionando, costurando aquilo que ela lê com seus próprios pensamentos. Que por sua vez resultam das suas experiências, resultam de uma experiência vivida no mundo que é o dela, num universo cultural que é o dela. E isso é assim, a leitura é uma recepção de uma mensagem que implica necessariamente uma reconstrução, no sentido de que o que não acontecerá nunca é uma absoluta passividade ou uma postura de esponja que simplesmente absorve aquilo que tá sendo apresentado.
Toda leitura é necessariamente um trabalho ativo, interativo, de relação daquilo que dispomos como recurso e aquilo que o autor nos apresenta. Muito bem, isso qualquer livro, qualquer cenário. Ora, isso dito, quando eu li A Odisseia, em algum momento lá no curso do ensino médio, depois na universidade, mais recentemente para fazer o meu trabalho. Eu li esse texto e, tal como qualquer outro leitor, eu enxerguei esse texto e eu signifiquei esse texto e eu inferi coisas desse texto a partir do meu repertório, da minha cultura, da minha vida, no tempo que é o tempo de hoje.
E isso é assim porque, porque é assim, não há como ser diferente. Muito bem, ora, você deve imaginar um pouco por onde eu tô querendo conduzir a conversa. É aquele que espera uma espécie de identidade entre uma obra e outra. Ou seja, aquele que espera uma manifestação cinematográfica que seja, abro aspas, fiel ao texto, o que na verdade está esperando é que aquilo que vai encontrar no cinema tenha pontos de tangência com o seu próprio entendimento, com a sua própria leitura, porque não há uma verdade objetiva.
O que há são leituras do texto. O que Homero quis dizer, se é que ele existiu, né, isto, isso nos escapará sempre. Acho até que escaparia do próprio Homero se ter se ressuscitado. Razão pela qual o que há é uma espécie de denúncia, né, de diferenças entre o próprio entendimento, o próprio olhar, a própria leitura do texto e aquilo que nos é proposto pela produção artística cinematográfica. Quer dizer, como se já não bastasse o fato de que a linguagem do cinema tem pré-requisitos, né, que são outros, que são completamente, eu diria, alternativos em relação à literatura escrita, ainda assim é preciso entender que alguém leu o texto e a partir do texto criou uma uma obra de arte que é de cinema e que de certo modo supõe-se, apresenta e manifesta a sua leitura, o seu entendimento, o seu olhar com o seu repertório, como seria o caso de qualquer leitor.
Então, veja, haverá quem diga: ah, foram retirados aspectos mitológicos e tal. Então aí haverá quem diga, ah, mas o papel feminino foi esvaziado e que algumas personagens em Homero, no âmbito personagens femininas, eram infinitamente mais poderosas, mais robustas do que na obra cinematográfica. E aí por aí vai, há um elenco enorme de observações, inclusive essa que você disse da questão da culpa, que teria sido, digamos, acrescentada em relação ao texto original.
Há quem diga, colegas, professores de filosofia, analistas do filme, que, bom, se é para fazer uma coisa assim, muda o nome, não usa Odisseia, né?
Eles falaram, né?
Então não deveria chamar Odisseia, que chamasse outra coisa, etc. e tal. Então veja você, temos aí um problema. É, se para ter o direito de chamar de Odisseia é preciso corresponder de maneira matemática, de maneira a salvaguardar uma espécie de identidade pari passu entre o texto escrito e o filme, é evidentemente que cada obra é singular, cada obra é única, cada obra é incomparável, cada obra tem o seu, o seu, o seu autor, e portanto Talvez cada obra devesse mesmo ter o título que revelasse e que materializasse essa particularidade, essa singularidade.
Agora, por outro lado, não cabe a menor dúvida que, apesar de toda essa singularidade, que tem um diretor que nos é contemporâneo, com atores que nos são contemporâneos, com uma narrativa marcada por vieses culturais que nos são contemporâneos, ainda assim é uma obra que tem, digamos, a sua trama inspirada numa trama escrita, ou pelo menos costurada, 7 séculos antes de Cristo, e essa inspiração é uma inspiração que também é fácil de perceber.
Então, se eu diria o critério é: ah, Homero quis isso e o cara deformou, eu insisto, o que Homero quis é, no fundo, eu atribuo a Homero aquilo que eu, no final das contas, enxerguei, né? E aquilo que o diretor do filme enxergou de diferente de mim eu denunciarei como sendo uma espécie de falseamento do espírito do autor, que na verdade é o espírito da minha leitura, porque o espírito do autor me escapa tanto quanto escapa ao próprio diretor.
Então eu acho que qualquer iniciativa, qualquer iniciativa semelhante, de produção artística, a meu ver, genial como essa, né, de grande, de monstruoso trabalho artístico como é esse da Odisseia. Obviamente poderá ser criticado, uma crítica que a meu ver é uma crítica que encherá páginas, encherá tempo de discussão, encherá programas televisivos, encherá podcasts, mas que é uma discussão, a meu ver, absolutamente esvaziada, porque é, é, é, é, o que se poderia pretender em termos de fidelidade é uma impossibilidade lógica, é uma impossibilidade material evidente e, portanto, a obra cinematográfica deve ser avaliada, deve ser criticada, deve ser merecedora de juízos de valor em função dela própria, em função dela própria e não em função de uma maior ou menor identidade com a obra original.
Por quê? Porque essa identidade é uma identidade que é carente de referência. Eu insisto, ela é carente de referência. Nós não temos a verdade objetiva da Odisseia na mão para poder saber o que é que o diretor falseou ou não. Esse é o meu entendimento. Então Nesse sentido, eu queria dizer que eu sou maravilhado com o trabalho que me chega em português da Odisseia de Homero, e eu sou igualmente maravilhado com o filme grandioso que é apresentado por esse extraordinário e genial diretor de cinema. Eis aí o que eu penso e o que eu tinha para dizer sobre esse assunto.
Eu vou pedir a opinião da professora. Já falando da minha opinião, também concordo com o professor Clóvis, que é o seguinte: eu sei, impactado desse filme. E assim, assim como eu, milhares de pessoas estão indo atrás da obra original para ler. Tá criando um, no mínimo, se essa obra ela tem os defeitos que que as pessoas estão apontando, ela tem o mérito de trazer o interesse numa obra importantíssima. E muita gente tá indo à original ler e se interessando.
E eu queria perguntar para a professora Sara, gostou do filme? E também adicionar ao comentário do Clóvis que, por exemplo, Ulisses também, do James Joyce, tem uma visão diferente. A gente tem aquele livro de Circe também que mostra, mostra a feiticeira de uma forma diferente, que inclusive no filme o Nolan eu acho que se inspirou muito naquele livro para construir a figura dela, uma figura feminina que já sofreu por causa de homens ou de humanos e tal.
Eu queria saber da professora o que ela achou do filme e a figura feminina como era na cultura grega ou que é expressada nesses livros e nessa obra.
Aí eu queria, antes da professora, eu tinha uma última observação a fazer. Quando eu digo que o filme é maravilhoso e o texto é maravilhoso, eu queria deixar claro, isto é em função do que eu sinto ao me deparar com essas mensagens. Eu não entendo absolutamente nada de literatura, nem nada de cinema, menos ainda, sabe? Então Eu não estou legitimado e qualificado para julgar o valor dessa obra cinematográfica. Eu só estou dizendo que eu fiquei encantado em assistir o filme, e esse é um direito que eu tenho.
Professora?
Bem, sem dúvida, Vilela, o filme é um belo filme, é um entretenimento muito interessante, e tem esse mérito que é indiscutível que você falou, que tá fazendo as pessoas lembrarem que o Homero existiu. Porque no nosso momento histórico, onde a leitura está num processo de decadência vertiginosa, onde a gente vê as livrarias sendo fechadas para todos os cantos, é evidente que lembrar que Homero existiu, ainda que apenas se inspire nele, é um mérito muito grande.
Tem aí as suas licenças. Eu acho que, da mesma maneira que existem licenças poéticas na literatura, existem licenças dentro do cinema também, né? Então a gente tem que considerar e ver gregos de calças compridas e outros detalhes desse tipo. Não podemos ser tão puristas assim e temos que entender que é uma expressão realmente inspirada em Homero, mas banhada na cultura do nosso tempo. Não poderia nunca ser feita uma crítica como aquela que você falou, de que, bom, um herói grego não se arrependia da guerra, que simplesmente a guerra aí é muito mais uma guerra interior do que uma guerra concreta.
Então seria estúpido imaginar Odisseia de Homero se arrependendo de estar lutando contra os seus próprios defeitos. É evidente que não se pode fazer, porque senão a gente começa a fazer um julgamento ao contrário, ao achar que Nolan está certo e que Homero é que estava errado. Ou seja, nós temos aí uma visão, é, corremos esse risco. Nós temos aí uma visão simbólica onde o homem estava lutando contra os seus próprios defeitos estava lutando contra as suas próprias limitações.
Então essa visão que temos hoje lembra muitas vezes o que acontece constantemente hoje em dia, que é uma interpretação muito rasa e literal do mito, não como alegoria, não como algo que sugere, mas como algo que descreve. Por exemplo, coisas que se falam dos contos de fada, que seriam assédio sexual, o príncipe beijando a princesa na Branca de Neve. Isso é uma interpretação bem— porque uma coisa é você fazer uma versão onde você considera que O Príncipe estava errado.
Outra coisa é você fazer uma crítica ao original sem considerar o contexto e aquilo que aquilo queria dizer. Evidentemente, aí O Príncipe beijando a Branca de Neve, ou a Bela Adormecida, tem a ver com antigo mito de que fala Fernando Pessoa, né, do homem despertando a sua própria alma, e não literalmente de um homem beijando uma mulher adormecida. É assim também O Odisseu de Homero era um homem que estava vivendo aí a sua métesis, que é a sua inteligência prática, né, para poder passar pelas provas da vida e conquistar a si próprio.
Portanto, não caberia de maneira alguma Odisseu com sentimentos de culpa acerca do que ele fez ou deixou de fazer na guerra, que seria simplesmente absurdo. Agora, dentro do contexto que o Nolan criou, é um homem comum e não o herói. Inclusive, ele tira muito da Metz. O Odisseu de Nolan é um homem comum, com seus dramas psicológicos, necessitando de uma boa psicoterapia, eu diria, enfrentando uma guerra que foi concreta, onde ele matou pessoas e não matou os seus defeitos.
Então a gente tem que considerar, é Odisseia do Nolan, e ir com essa expectativa para esse E diante disso veio uma versão, versões, como eu falei, existem inúmeras de todos, quanto é clássico que eu conheço já sofreu alguma versão. E também no caso do feminino, ele cria uma visão dele do feminino que não necessariamente corresponde a determinados condicionamentos que hoje colocamos na cultura, de que necessariamente se tem que reforçar o papel do feminino, que necessariamente as mulheres têm que ser mais fortes.
E não se faz essa cobrança que o Odisseu teria que ser mais forte porque o Ulisses era mais forte. Por que se faz essa cobrança em relação a Circe, a Penélope, a quem quer que seja? É a visão dele. E logicamente, se eu for falar a visão das mulheres de Homero, eu vou considerar aquilo que falava Aristóteles na Arte Poética, que no mito o personagem central é um ser humano, os personagens secundários são fatores psicológicos, fatores internos dele projetados do lado de fora.
Portanto, não necessariamente eu tô falando de mulheres. E na visão de Nolan, ele tem a visão dele, dessas mulheres como representando algum obstáculo dentro do caminho psicológico do autor, não necessariamente obedecendo a um padrão que hoje é muito exigido da cinematografia atual, que é o empoderamento feminino. Então eu me libero de qualquer tipo de cobrança e vou ver o filme de uma maneira bastante limpa. Vou ver o que que o Nolan tem a propor, o que ele pensa, como ele interpreta, e a partir disso ver o proveito que o filme me traz.
Eu considero que nesse sentido é um belo espetáculo visual, sem dúvida. É, tem imprecisões históricas em relação à Grécia, com certeza tem, não há o que discutir. Não corresponde à maneira como Homero pensava, porque Homero realmente participava de uma ideia muito comum nesse mundo homérico, né, pré-clássico, de que o mundo ele é determinado por um dharma, por uma vontade divina. E hoje não existe mais isso. O mundo é escrito pela vontade do homem, pela culpa do homem, pelas determinações do homem.
Portanto, ele participa dessa visão atual e ele considera os seus protagonistas e os seus coadjuvantes da maneira que ele vê esse mito, da maneira que ele compreende esse mito. Se eu não imponho que a figura de Odisseu corresponda à de Homero, por que eu imporia que as figuras femininas correspondessem a Jomero. Se é para ser correspondente, teria que ser tudo e não só as figuras femininas. Se eu faço essa colocação só em relação às figuras femininas, eu tô fazendo um discurso feminista em relação ao filme do Nolan.
Se é para corresponder, vamos fazer tudo corresponder. Se não, é a versão do Nolan e aceitemos do jeito que é. E quem considere que as mulheres estão diminuídas, que faça a sua versão onde coloque as mulheres em primeiro plano. Ou seja, cada um represente aí aquilo que no seu universo psicológico considera relevante. Eu não faria essa cobrança, assim como eu não fiz nenhuma outra. Se tivesse que fazer alguma cobrança, começaria pelo próprio Odisseu.
Se eu não faço cobranças, não faço em relação a nenhum personagem e aceito o que ele propõe como espetáculo visual muito bonito, um bom entretenimento e uma visão do Nolan. Ou seja, Como se diz atualmente, a Odisseia do Nolan, baseada em valores atuais, embora respeite esse ciclo do homem, as provas do homem, mas baseada em valores atuais.
Em relação aos seres mitológicos que aparecem, né, sereias, ciclopes, aquele monstro do mar, eu esqueci o nome, Eles têm uma representação na cultura grega, na mitologia. Tem alguma mensagem que passa? Você ultrapassar esses obstáculos tem algum significado além do que a gente possa entender de simplesmente vencer esses monstros? São coisas internas? Como que funciona essa parte para a cultura grega, ou que foi retratado na obra?
E além disso, né, qual que era o motivo dessas histórias? Era passar um tipo de moral? Era passar um tipo de conduta?
Veja, conforme eu observei, né, nós diante de uma alegoria como essa O que caracteriza uma alegoria é justamente a apresentação de uma realidade que está no lugar de outra, né? A palavra símbolo, né? Pelo fato de ter este sim no começo, né, indica justamente essa existência de dois pedaços de um graveto, né. Você tem uma realidade que é ali apresentada E essa realidade ali apresentada, ela indica a existência de uma outra realidade a que essa primeira sugeriria a existência, né?
Então, entenda, nós precisamos disso. Por quê? Porque a nossa consciência, a nossa mente, ela não pode trabalhar com as realidades do mundo. Então eu lhe dou um exemplo: se você tem uma cruz de madeira, uma cruz de madeira ela não entra na minha cabeça, porque a minha cabeça, a minha mente, ela, digamos, a cruz de madeira não tem flexibilidade para integrar a minha mente. Mas o que é que tem flexibilidade para entregar, para integrar a minha mente?
A palavra, né? A palavra, ela tem essa flexibilidade. Então a palavra, ela tá no lugar da cruz de madeira, e com a palavra cruz e com a palavra madeira eu consigo, digamos, viver a vida do espírito, né? Então a vida do espírito, ela requer uma materialidade que tenha certas características, e essas características exigem esse trabalho simbólico que é de botar uma coisa no lugar da outra. Isso nos é muito familiar, isso nos é muito familiar.
Então, ora, aonde que entra a questão política e ideológica da coisa é que quando você apresenta uma certa realidade e diz essa realidade tá no lugar de outra, haverá uma luta, uma luta por indicar qual é a segunda realidade que tá sendo representada pela primeira. Haverá uma luta. E por que haverá uma luta? Porque há interesses. Há interesses em jogo. Então, quando você tem, digamos, para te dar um exemplo, vamos imaginar que eu diga aqui universidade pública, né?
Então são duas palavras. Agora, a que isso corresponde, né? E aí haverá uma luta, porque na Argentina a universidade pública tem uma característica, no Brasil tem outra, em outros lugares ela é até paga, né? Haverá lugares onde todo mundo entra, haverá lugares que têm vestibular, haverá lugares... Então, a ideia da universidade pública, ela é uma palavra que está no lugar de uma realidade que é objeto de disputa, de luta, de enfrentamento.
Então, todo signo é ideológico e portanto todo signo é objeto de disputa e de luta. Ora, quando você tem uma interpretação de uma alegoria, então uma alegoria ela é apresentada como querendo dizer tal coisa, você tem uma proposta, né? Isso na verdade tá no lugar da aquilo. Mas é evidente que haverá quem diga: lamento, não temos Homero aqui e, portanto, este signo que está aqui quer dizer outra coisa e outra coisa. E nós poderemos dizer que, a rigor, podemos ter tantas propostas de significação quantas forem, quantos forem os olhares, quantos forem os interesses, quantos forem os atores em disputa para dizer o que que aquilo quer dizer.
Então, nesse sentido, você dizer, ah, a interpretação de fulano de tal é uma interpretação falsa e equivocada, etc. e tal, porque na verdade, né, o que se pretende é isso. No fundo, estamos diante de uma espécie de polifonia, de grande orquestração, aonde o significado das palavras, o significado das histórias, o significado das narrativas será sempre objeto de disputa e objeto de luta. E quem se manifesta como esse senhor fez através do seu filme, é claro, está sujeito a N atores que se juntarão a ele em aliança e outros que vão atacá-lo no sentido de dizer que aquilo que foi sugerido como símbolo é indevido, é falso, é equivocado.
Por essa ou aquela razão. Então eu prefiro, no fundo, eu acho que seria muito convidativo e muito enriquecedor se nós pudéssemos— acho que cabe, caberia até aqui uma tese sobre a recepção do filme A Odisseia, né, no sentido de entendê-la como um grande ringue um grande espaço de disputa, um grande espaço de entendimento, um grande espaço de produção simbólica, aonde cada um evidentemente imputará a esse ou aquele movimento o valor que lhe convém e que lhe é interessante.
Era um pouco isso que eu queria dizer. Então, claro, eu entendo perfeitamente quem tenha olhado para o Ciclope e tenha se frustrado. Eu entendo perfeitamente quem tenha se deparado com a Circe e tenha se frustrado.
Por quê?
Por um viés autoritário de achar que o seu entendimento, né, a sua construção mental ao ler o livro é que é a verdadeira e, portanto, qualquer coisa divergente, e às vezes muito divergente, só pode ser alucinada ou falsa. E isso eu acho que é, de novo, muitas manifestações críticas fazem prova de um certo autoritarismo e, como disse a professora muito bem, é a odisseia do rapaz. Essa tem que ser entendida como tal, como sendo a odisseia do rapaz.
Se você quiser assistir a interpretação do rapaz dessa obra, pois vá. Se não quiser assistir, pois então não vá. Fique com a leitura do texto e com o seu entendimento. Agora, não se pode pretender de uma produção mais do que ela se propõe a ser.
Professora, quer acrescentar alguma coisa dessa? Eu tenho uma outra questão para colocar.
Pode colocar sua questão.
A relação de volta para casa, eu queria análise de vocês baseado em filosofia ou experiências de vida sobre essa volta para casa, nessa dificuldade que que o Ulisses, o Odisseu, tem de voltar para casa, voltar para suas coisas, para a vida normal dele, né? O que significa isso na filosofia, essa coisa que todo mundo fala? O que que é voltar para casa? O que que é voltar para casa nesse livro, nessa obra? E o que é voltar para casa na filosofia?
A gente poderia falar que voltar para casa é reencontrar a si próprio com nível de consciência, de maturidade, de sabedoria filosofia. Vai ver presente dentro do mundo da filosofia, e não só na filosofia ocidental, mas o pensamento oriental também tinha muito isso, de que o ser humano tem uma jornada da ignorância à sabedoria, de que o ser humano tem, digamos assim, uma evolução a cumprir. Ele deveria sair daqui mais humano do que entrou.
Ou seja, a condição humana seria um processo em construção. Então, se você imaginar, por exemplo, a teoria das ideias de Platão, falava o professor, você tem um cavalo ideal no plano das ideias e vários cavalos no mundo manifestado que vão sofrendo modificações, correndo atrás desse ideal, correndo atrás desse arquétipo. Então o mito, ele tem muito essa, essa visão, digamos assim, os dois mitos de Homero, que um de um lado você tem o Aquiles, que é a própria híbris, é a cólera, é a fúria, E do outro lado tem o Ulisses, que é a Métise, a inteligência prática, mas que precisa aprender a usar essa inteligência prática purificando-a de alguns elementos.
Então o filme, perdão, o filme, a obra original propõe algumas passagens onde ele seria purificado, onde ele passaria por provas de purificação. Ou seja, aí as interpretações são impossível de você dizer isso significa tal coisa, mas dá a sugerir, por exemplo, que quando ele diz meu nome é ninguém, ele estaria desenvolvendo algum grau de humildade. Quando ele passa por algumas provas, ele estaria limpando. Quando ele recebe o véu de Leucoteia e se despede de tudo, ele teria desenvolvendo um certo desapego.
Ou seja, nós vamos interpretando, né, Mas logicamente não existe uma interpretação oficial. Mas sim existe a ideia clássica de que o homem não é um ser pronto, é um ser em construção, e que haveria nesse plano das ideias um conjunto de etapas a serem cumpridas para que o homem saísse da ignorância e chegasse à sabedoria. Ou seja, o ser humano teria de completar a sua evolução como ser humano, teria que encontrar o seu lugar como como ser humano.
E isso seria essa volta para casa. Eu sempre costumo dizer nas minhas conferências que o grande problema da humanidade atual, quer na questão ecológica, quer na questão social ou política, não é falta de animais em extinção ou a poluição dos oceanos, ou seja lá o que for. É falta de seres humanos de verdade. O que realmente está em extinção são seres humanos de verdade, com valores, com estudos com grau de sabedoria. Conta-se que houve um filósofo, conta-se não, é fato histórico.
Houve um filósofo chamado Diógenes em Atenas, que ele andava ao meio-dia na ágora com uma lamparina acesa, chegando perto do rosto das pessoas. E as pessoas perguntavam: o que que você tá procurando com essa lamparina meio-dia, Diógenes? E ele sempre dizia: eu estou na procura de um homem, e hoje eu não achei nenhum. Deixou ir embora porque não achei inimigo. Eu acho que se Diógenes estivesse vivo até hoje, a busca dele seria mais inglória ainda, porque é mais difícil ainda hoje encontrar um ser humano na plenitude da condição humana, com valores, com virtudes, com um grau de sabedoria.
E eu considero que se você tem esse ser humano, como diz a Bíblia, tudo mais será dado por acréscimo. O problema ecológico se resolve, o problema político se resolve, Os problemas sociais se resolvem. Ou seja, o que falta realmente no quebra-cabeça da natureza é o homem ocupar o seu lugar. Ou seja, passar dessa cólera, passar para essa inteligência aplicada. Curiosamente, o próprio nome Odisseu significa aquele que se encoleriza ou aquele que provoca cólera, né?
E a jornada dele seria passar a realizar de maneira mais pura, mais limpa, essa Métis prática, essa inteligência prática, limpa das suas alienações, dos seus defeitos. Então, a volta para casa é a volta para nossa verdadeira identidade, uma coisa que algumas tradições chamavam de nome interno. Volta para aquilo que você realmente é, um ser humano na plenitude da condição humana, com valores, com virtudes e com o grau de sabedoria que lhe corresponde.
Eu sempre gosto de contar uma história que Não sei se o professor Clóvis conhece, mas na década de 60 houve um psicólogo chamado Roger Fouts, e ele pegou uma macaquinha chimpanzé e deu para um casal, casal Graham, e eles fizeram um experimento que na presença da macaquinha eles só falavam no código de surdo-mudo norte-americano, ASL. Na idade adulta, essa macaquinha, que era o chegou a dominar 150 sinais desse código. E esse experimento continua sendo feito, é feito até hoje.
Mas é interessante porque existe inclusive um livro que fala sobre isso, que eu recomendo, e mostra as frases que a Washoe falava através de sinais. Washoe comida, Washoe passeio, Washoe sono, Washoe sede. E se nós transplantarmos isso para o ser humano, nós vamos ver que essas frases da Washoe é mais ou menos o que nós falamos todos os dias também. Mas nós estranharíamos muito, seria absurdo se um dia a gente chegasse na jaula da Washoe e ela estivesse lá com a mão no queixo e dissesse: Washoe, justiça!
Washoe, fraternidade! Washoe, bondade! Evidentemente isso são necessidades que ela ainda não tinha. É um umbral de passagem. Esse umbral de passagem a gente pode dizer que é o início da condição humana. Ou seja, nós nos alimentamos dessa coisa da mesma maneira que a macaca, o axolotl, se alimentava das coisas que lhe são próprias. Então o ser humano se alimenta de justiça, de fraternidade, de bondade, e voltar para essas coisas seria voltar para casa, seria voltar para a legítima condição humana.
Considero esse experimento interessante porque sempre houve uma busca de tentar definir o que seria um umbral entre o animal e humano, que seria um ser humano. Conta-se que Tales de Mileto, uma vez ele participou de um círculo onde diziam que chegaram à conclusão que o ser humano era um ser bípede cujo corpo não era coberto nem de pelos nem de penas inteiramente, que ele teria ido em casa, depenado uma galinha e jogado naquele círculo e dito: eis um ser humano.
Ou seja, essa história verdadeiro ou não, mostra que a gente sempre esteve buscando esse diferencial da natureza humana. E o diferencial da natureza humana seria exatamente esse encontro dos valores que caracterizam um verdadeiro ser humano, ser humano puro, um ser humano pleno, ou seja, justiça, fraternidade, bondade, integridade, etc. A volta para casa seria a volta para esse local de identidade, seria a volta para encontrarmos o nosso lugar no mundo como seres humanos, que talvez seja o grande vácuo que existe aí.
Porque eu acredito que cada coisa cumpre exatamente aquilo que lhe corresponde, cada coisa está no seu Dharma, cada coisa está realizando o seu destino. E o ser humano está um pouco fora do lugar, ele não faz exatamente aquilo que lhe corresponde. Daí nos comportarmos como predadores e termos tantos problemas à nossa volta. Então a volta para casa seria a volta para nós mesmos, para coincidir conosco mesmo com os seres humanos, para encontrarmos a verdadeira natureza humana como seres em construção que somos.
Professor, a gente tá sempre tentando voltar para casa, independente do local?
Isso, eu queria É muito interessante essa ideia do voltar, sabe? Porque vamos imaginar que alguém saia de casa pela manhã, passe o dia todo fora trabalhando e volte para casa. Pois muito bem, existe na ideia de voltar para casa uma ideia de retomada de uma experiência interrompida. Ora, há um problema aí, porque esse que saiu de casa de manhã foi sendo transformado pelo mundo ao longo dos encontros com o mundo, e ele quando volta é outro.
A casa por conta da usura dos materiais, por conta do que acontece ali durante o dia. Quando ele não está, também é outra. De tal maneira que o encontro entre ele e a casa no regresso é um encontro inédito entre quem nunca foi quem é agora e a casa que também nunca foi quem é agora. Nesse sentido, dado esse ineditismo, nós poderíamos dizer que o verbo voltar, ele é impertinente. Estamos sempre indo, estamos sempre indo porque somos sempre inéditos e estamos sempre encontrando mundos nunca antes encontrados, nem por nós nem por ninguém.
Todo encontro com o mundo é singular, né, é primário, é virginal. Não há como repetir um encontro com o mundo porque não somos quem éramos e o mundo tampouco. Porém, porém, agora pensando de outro modo, é possível refletir sobre A despeito de todas as transformações que eu tenha sofrido ao longo do dia, haverá em mim algo que permanece. Ou seja, apesar de eu ter sido transformado ao longo do dia do ponto de vista existencial pelos encontros com o mundo que me mudaram, que me envelheceram, que me agrediram, que me adoeceram, etc., haverá paralelamente a isso uma essência que é a do, a minha, e que é a mesma de quando eu saí pela manhã.
Nesse sentido, é possível pensar em voltar, é possível pensar em voltar sempre que encontrarmos por detrás do fluxo das existências, encontrarmos aquilo que permanece nos essencial, aquilo que nos funda, aquilo que é a nossa genuína identidade, o nosso daimon, né, o nosso daimon nesse sentido, sim. É possível um reencontro consigo mesmo, enquanto um reencontro com aquilo que é o nosso ser mais profundo e que não está, digamos, à mercê das transformações dos encontros com o mundo. E aí então, nesse sentido, de fato voltamos para casa.
Vamos falar então sobre, sobre a questão do desejo, né? Parece que o desejo, ele é bem implícito colocado na obra, né? Sobre essa coisa da— é principalmente a gente vê na Circe, na Calíope, o lance das sereias, né? Dele querer ouvir o canto das sereias. E ao mesmo tempo se amarrar para não ser tentado a deixar o barco, né? Essa questão do desejo atrapalhando a elevação ou os objetivos, como que fica isso, essa ideia?
Imagino que o desejo, ele é força vital, motor da existência. E ele não é só perturbador, né? Afinal de contas, o desejo também era o de voltar para Ítaca. O desejo também era o desejo primeiro, né, de reencontrar o seu lugar natural, de retomar a vida que era entendida como a vida boa, a vida a ser vivida, que era com Penélope em Ítaca, etc. Então Ora, claro, no meio do caminho, N estímulos do mundo podem produzir afetos de atração, e afetos de atração que são, digamos, paralelos àquilo que é o propósito primário da aventura.
E naturalmente que isso mostra toda a nossa complexidade existencial, no sentido de, de certo modo, nos tornar humanamente capazes de refletir sobre o que estamos sentindo, sobre o valor daquilo que nos atrai. Essa capacidade que temos, ou que podemos ter quando, quando educada e desenvolvida, de identificar algum, algum valor para aquilo que hoje representa o nosso maior apetite e, com isso, a nossa capacidade de fazer escolhas para além dos desejos de circunstância.
Eu acho que quando Kant fala da diferença entre desejo e vontade, ele de certo modo Ele um pouco quer mostrar essa possibilidade que temos de não ser meros joguetes na mão dos estímulos do mundo e das atrações que sofremos no mundo, mas a capacidade que temos de nos posicionar em relação a tudo isso. Com um certo recuo crítico e uma capacidade de definir uma trajetória em função daquilo que nos pareça mais auspicioso e mais dignificante.
Então acho que a alegoria de Homero é maravilhosa para a reflexão sobre esses estímulos de circunstância e a capacidade que temos de valorá-los na nossa vida.
Professora Lucilena, queria saber tua visão sobre.
É interessante a referência que o professor Clóvis faz a Kant, porque é exatamente isso. Desejo, de uma certa maneira, é a busca daquilo que nos falta. Agora, depende muito da compreensão, do nível de consciência que temos para compreender o que é que nos falta. Ou seja, quando estamos no nível de achar que nos faltam coisas meramente circunstanciais, ele é um desejo banal. E quando temos um nível de compreensão que percebemos o que nos falta para sermos humanos, ele se converteria em vontade.
Então, voltar para Ítaca é vontade, permanecer nos prazeres de Circe ou de Calipso seria desejo. O que ocorre é que muitas vezes, quando o homem atinge um certo grau de consciência que ele desenvolve vontade, ele percebe onde ele tem que chegar por definição como ser humano, pode acontecer um conflito entre desejo e vontade, onde a vontade quer que você volte para Ítaca e os desejos querem que você desfrute um pouquinho mais de Calipso porque tá muito agradável.
Então isso vai de um desenvolvimento do ser humano para ele conseguir impor a vontade sobre os desejos, que foi exatamente o que aconteceu com Ulisses, mas 7 anos para ele fazer isso. Ele conseguiu impor a vontade, que tem a ver com o ser, com a realização como ser humano, com encontrar o seu lugar no mundo, sobre o desejo, que é o desejo de ir saborear o prato de hoje na Ilha de Calipso. Então nós vivemos constantemente essa contradição: a vontade de ser justo e o desejo de aproveitar essa pequena situação, de tirar vantagem, a vontade de ser fraterno e a vontade e o desejo de aproveitar essa oportunidade de pegar as coisas só para mim.
Estamos constantemente com essa disputa entre esses dois mundos. Um desenvolvimento de consciência, um amadurecimento, vai fazer com que a vontade prevaleça sobre o desejo. Não que o desejo deixe de existir, mas que você selecione esses desejos de tal maneira que eles não contradigam a tua vontade. Que tem muito a ver com aquilo que Epicuro dizia: você deve usufruir dos prazeres, contanto que sejam prazeres que não vão comprometer a tua dignidade, que não te corrompam, que não te coloquem numa situação de quebrar a tua paz, que era o que dizia o epicurismo.
Ou seja, os desejos não vão deixar de existir, mas vão ter que se enquadrar dentro de um parâmetro da vontade. Ou seja, nada que me impeça de voltar para Ítaca deveria ser desejável. Isso tem a ver com um conceito de formação de caráter: aprender a gostar e a desejar apenas as coisas que me levam para Ítaca, e aprender a rejeitar aquelas coisas que me afastam de Ítaca. Platão fala sobre isso como a educação das inclinações: aprender a gostar daquilo que me humaniza e rejeitar aquilo que me afasta da minha legítima condição E a questão do intelecto, né, dessa, dessa coisa do ser humano ser superior e através do intelecto vencer as dificuldades.
O que que a filosofia fala sobre isso? O que que a obra fala sobre isso? A gente vê essas artimanhas, né? O que que o Cavalo de Troia foi? Porque eu não sei se o Cavalo de Troia, ele é comprovado historicamente ou é uma história que passada de geração em geração, essa coisa do, da inventividade humana, né?
É, não consta da Ilíada, né?
Não.
Agora eu vou pedir, professor, não, de onde vem essa história do cavalo de Troia?
É uma, pois é, são histórias supervenientes, né?
Tá.
Eu vou pedir licença, professor, e a você, Vilela. Eu tô tratando uma pneumonia. E fui aqui até corajoso aqui na minha iniciativa aqui de participar, mas eu acho que vou interromper minha participação aqui porque tô ficando cansado, sabe? A pneumonia é um problema como se fosse um furo no pulmão, vai faltando ar. É um, é uma doença muito desagradável. Eu fui até onde eu aguentei firme aqui. Queria agradecer muito o convite, me desculpar por ter que me ausentar. Onde, onde o senhor tá?
Onde, onde estamos aí? Você que tá num carro?
Onde que é? Portugal nesse momento, no norte de Portugal. É, tô aqui Calor, convalescendo de uma pneumonia. A temperatura aqui tem estado nesses últimos dias entre 35 e 40 graus, bastante quente.
É, nossa! Então melhora, se cuida aí, professor. E aproveita então que já se despede passando redes sociais, palestras onde você vai estar, se vai voltar para o Brasil em pouco tempo. Avisa para o pessoal então.
É, aqueles que quiserem me acompanhar podem entrar no Instagram, @clovisdebarros, e lá podem receber as reflexões matinais às 6 horas da manhã entrando no link da bio, no WhatsApp do Clóvis. Lá também tem os cursos e também podem me acompanhar no canal do YouTube, Clóvis de Barros. Oficial. E lá, enfim, como em todo canal do YouTube, tem lá minhas manifestações. Seria uma alegria contar com a tua audiência nas minhas redes. Queria dizer que mais uma vez compartilhar com a professora Lúcia Helena essa oportunidade de conversar sobre a odisseia foi maravilhoso.
Eu não poderia nunca abrir mão dessa oportunidade. Dizer que temos trabalhado juntos, que escrevemos um livro pela Editora Papiros, Os Valores da Vida, e temos participado juntos de eventos divulgando esse trabalho. E é para mim uma honra sempre participar de qualquer tipo de intervenção na companhia da professora Lúcia Helena, que é altamente qualificada para se manifestar sobre tudo que diz. Então, mais uma vez, muito obrigado pela oportunidade, e oxalá numa próxima eu esteja em condições de saúde adequadas para ir até o final, tá bem?
Obrigado, professor, foi incrível esse encontro.
Muito obrigada pela pergunta.
Obrigado. E melhoras, hein? Melhoras. E assim como Ulisses, que você chegue em casa bem.
Ah, é, não tem dúvida. Teremos, teremos eventos aí, inclusive com a professora Lúcia Helena, já na próxima semana no Brasil. E de novo eu espero estar em plenas condições.
Exato. Esse evento então vamos colocar no comentário fixado aí, tá, Bigoda?
Pode deixar.
Eu acho que já sei qual é o evento, a gente coloca o link aí para o pessoal ir. Obrigado demais.
Obrigado, gente.
Valeu, valeu, professora. Vamos continuar aqui então.
Só esclarecendo o que você tinha perguntado, Vilela, no início da Odisseia Os primeiros cantos são a chamada Telemáquia, onde Telêmaco viaja em busca de, orientado por Atena, em busca de informações sobre o pai. Passa primeiro, fala com Nestor, e depois ele vai a Esparta e encontra Helena e Menelau. E nessa ocasião os dois ficam muito emocionados de ver o filho de Odisseu e falam a ele da grandeza do seu pai, da importância que ele teve na guerra.
E Helena vai contar sobre o cavalo de Troia e vai dizer que foi uma construção que inclusive ela teria participado, ela teria ajudado na ideia. E ela vai falar sobre o cavalo de Troia. Então o cavalo de Troia surge na Odisseia e não na Ilíada, como normalmente as pessoas pensam.
E na filosofia, como que é colocado essa ideia espiritual versus intelectual, ou a estratagema do ser humano, né, de ter essa vantagem sobre os outros animais de pensar, de se lembrar, de compartilhar conhecimento? E fazendo uma analogia com a obra, na verdade, a mente é algo instrumental.
Ela não tem uma finalidade em si. Ela pode ser como um espelho que, voltada para baixo, ela atende a necessidade dos instintos, dos desejos mais banais, atende às necessidades da vida corriqueira. Isso não está mal, mas não é suficiente para um ser humano. Quando se trata de um ser humano, esse espelho tem que ser virado para cima também e atender às necessidades da humanidade como um todo, atender às necessidades da sua alma, atender às necessidades de valores, de virtudes, de sabedoria.
Então a mente desenvolvimento daquilo que nós chamamos de intelecto, ele se qualifica quando o homem sai do particular, do egoísta, do superficial, e se vira para o universal, para o altruísta, para o profundo. Ou seja, com o desenvolvimento da consciência humana, com a sabedoria, o avanço da sabedoria, o intelecto se qualifica. Segundo a tradição indiana, a gente passaria daquilo que eles chamam de kamamanas, a mente de desejos para manas, a mente pura.
Ou seja, nós aprenderíamos a utilizar a mente, porque a mente é um brinquedo muito perigoso. E quando ela desperta, se ela é usada para fins meramente de sobrevivência, o homem se torna um predador perigoso. É como se você imaginasse um leão. O leão está correndo atrás de você numa floresta, aí você sobe numa árvore. Até onde eu saiba, leão não sobe em árvore. Imagina você que eu fosse lá com uma varinha de condão e despertasse a mente nesse leão.
Ele iria lá, continuaria leão, com os objetivos de leão, mas agora com a mente para operacionalizar esses objetivos. Ele iria lá, construiria uma escada, subiria na árvore, pegaria você. Ou seja, mais ou menos o que acontece com o homem quando ele não vira esse espelho para cima. Ele continua com interesses egoístas, instintivos, impulsivos, predatórios, só que operacionalizados pela mente. Então a mente se qualifica quando os objetivos aos quais ela serve são mais elevados, são mais verdadeiramente humanos.
Então nós transitaríamos esse intelecto de um intelecto a serviço do egoísmo, a serviço dos instintos, para o intelecto que serve também a coisas mais elevadas. Não vai deixar de servir a esses elementos, porque os instintos são necessários, as questões da sobrevivência são necessárias, mas ele vai impor o superior sobre o inferior, que é a própria ideia da Acrópole, né, a cidade alta, onde uma cidade se governa do alto para o baixo.
E a ideia dos animais míticos, como por exemplo o centauro. Você vai ter um centauro, que é Quirón, que era um sábio. O que que é um centauro? Uma mistura de um tronco humano com um corpo de cavalo. Mas no caso do centauro, o humano se impõe sobre o animal. No caso do minotauro, por exemplo, que é uma besta totalmente irascível, é o contrário: a cabeça de touro e o corpo humano. Ou seja, o animal se impõe sobre o humano. Então a mente vai atender ambos os mundos, mas o homem deveria ser comandado de cima para baixo e não o contrário. Então isso é qualificação do intelecto.
É, eu queria pegar alguma resposta antes de ir para a próxima questão, ver uma pergunta do pessoal do chat aí.
Vamos lá, eu vou começar com a do Carlos Henrique. Ele falou assim, é: o que faz a Odisseia, a Ilíada e tantas outras obras clássicas continuarem atuais depois de quase 3.000 anos? O que tem de diferente delas para as obras atuais?
Uma coisa interessante que algum tempo atrás eu conversava com um ele falava como é impressionante como a qualquer momento que se monta em Londres uma peça de Shakespeare, ela lota. E são pessoas que em geral já conhecem aquela história de todo jeito, já ouviram mil vezes, mas é só montar Shakespeare que volta a lotar. Isso faz aquilo que a gente chama de clássicos. Os clássicos, de alguma maneira, eles não estão falando de alguma coisa estranha, estão falando de nós mesmos.
Estão falando de um mergulho, de uma autodescoberta, estão falando de revelar. Porque na verdade, quando eu digo do desenvolvimento, da evolução do homem, não significa que ele realmente acrescente coisas novas, significa que ele passe a ver aquilo que ele sempre foi. Como diz Píndaro, né, sei quem és sabendo. Ou seja, a gente lança luz sobre aquilo que sempre fomos, só que não sabíamos. Então todo clássico é no fundo um processo de mergulhar dentro de si próprio, encontrar esses cantos desconhecidos da natureza humana.
Então você sai de lá, parece que viveu uma experiência e não simplesmente viveu um entretenimento. Aquilo equivale a uma vivência, é uma experiência prática onde você sai de lá conhecendo um pouco melhor a si próprio, conhecendo um pouco melhor o seu universo de possibilidades e como tomar poder dele, como alargar as suas fronteiras do autoconhecimento, do autodomínio. Então é curioso, todos os clássicos têm essa característica.
Monte mil vezes, mil filmes sobre Odisseia e todo mundo vai se interessar. Ainda que o filme, a Odisseia de Nolan, seja a Odisseia de Nolan, que não tem tanto a ver com a Odisseia de Homero, o fato de ser inspirado na de ser a Joel, com certeza tem a ver com sucesso que ele fez. Se fosse inspirado em qualquer outra coisa, ou inspirado em nada, uma invenção dele, talvez não tivesse tido esse sucesso estrondoso. Esses clássicos sempre revelam algo ao homem sobre si próprio, portanto eles equivalem a uma vivência de autoconhecimento.
E essa ideia do cavalo de Troia, né, ou que a gente até hoje chama como presente de grego que é usado na nossa cultura ocidental, né, de uma coisa que parece boa, mas na verdade é ruim. O que que a gente pode trazer para vida essa, esse conceito que foi desenvolvido nessa obra?
Muitas vezes deixamos entrar em nós elementos que não tem muito a ver com os nossos valores, não tem muito a ver com a nossa identidade, por inércia, por desatenção. Deixamos entrar pensamentos, sentimentos, ideias. Existe inclusive uma ideia no pensamento egípcio que eles falam sobre esse princípio do gênero mental. O que que vem a ser isso? Segundo a visão egípcia, a mente humana teria um polo masculino e feminino. O polo masculino seria uma primeira desconfiança que fecunda a mente.
E o polo feminino é aquele que recebe esse primeiro gérmen, essa primeira desconfiança, desenvolve, gera um corpo, gera uma ideia e atrai a prática. Isso seria a mente masculina e feminina. E aí se diz que muitas vezes a gente faz como um ovo de cuco. Não sei se você já ouviu falar. Sim, é um passarinho, segundo se diz, que pega o ovo dele e coloca no ninho de outro pássaro e vai embora.
Para outro, para outro passarinho criar como se fosse filhote dele, né?
Isso. Às vezes é um passarinho pequeno, um pardal, e o cuco é um pássaro bem maior, mas como fui eu que choquei, é meu filho e eu cuido. Então muitas vezes fazemos esse fenômeno do ovo de cuco, recebemos dentro de nós ideias que são estranhas aos nossos valores, aos nossos princípios, e desenvolvemos essa ideia. E depois colocamos em prática e achamos que são nossas. Se nós parássemos para analisar dentro da minha mente nesse momento quais ideias são legitimamente minhas, quais ideias foram desenvolvidas a partir de pequenos elementos sugestivos que vêm do ambiente, às vezes uma propaganda, às vezes uma letra de música, às vezes uma conversa que eu ouvi de alguém, você infiltra determinados elementos que vão se desenvolver ali dentro que vão tomar conta.
E daqui a pouco você praticamente é pensado, não pensa mais. Se você parar para analisar quais ideias são legitimamente nossas dentro da nossa mente nesse momento, talvez não sejam a maioria. E ainda ocorre o fenômeno mais curioso, porque isso ocorre também no plano das emoções e dos sentimentos. Às vezes eu ouço pessoas falando: eu odeio fulano. Aí você chega para elas e pergunta: o que fulano te fez? O que você viu ele fazer?
De errado, por que você odeia? Não, todo mundo odeia, ele não deve prestar. Ou eu adoro ciclano, todo mundo adora, ele deve ser muito bom. Ou seja, até no campo emocional, muitas vezes nos deixamos infiltrar por sentimentos, por emoções que não são legitimamente nossas, fundamentadas em coisas que realmente acreditamos. E assim vamos nos alienando da nossa verdadeira identidade, vamos nos massificando. E num determinado momento você vê uma sociedade que tem, sei lá, 200 milhões de pessoas só com duas ideias.
Provavelmente, se você tivesse todo mundo pensando e tendo ideias próprias, você teria 200 milhões de ideias. Se só há duas ideias, é porque só deve haver duas pessoas pensando, e o resto absorveu por inércia, como ovo de cuco, e não pensa, não para para elaborar a sua verdadeira visão de mundo. Então essa alienação, que muitas vezes chamamos de massificação, e é um fato, vai matando a identidade humana. É assim que perdemos a guerra, deixando entrar em nós, perdemos a guerra do domínio da nossa própria vida e da construção da nossa identidade, que é o que viemos fazer aqui.
Viemos ao mundo para crescer como seres humanos e perdemos essa guerra ao abrirmos mão de pensarmos, de sentirmos, segundo o nosso próprio critério, segundo os nossos próprios valores.
A figura do Ciclope, ela pode ter uma leitura para a gente filosófica de um ser meio bizarro, com uma visão diferente, um olho só, que devora o ser humano e que a gente tem que vencer ele de alguma forma? Qual que a gente pode trazer para nossa vida?
Bom, a primeira coisa que eu teria a dizer, Dilela, é que eu concordo plenamente do professor Clóvis, que a gente não pode se considerar dono de interpretação nenhuma.
Sim, sim, sim.
Então Homero não deixou nenhum testamento dizendo Polifemo significa tal coisa, né?
Então, que eu possa dizer, a figura do Ciclope não foi ele que criou, era uma ideia que já existia, certo?
Há muito tempo, em muitos povos inclusive.
E seria uma figura, um semideus, uma figura acima do ser humano, uma figura diferente? O que que é o Ciclope?
Bom, Polifemo, Ciclope, ele é um ser furioso, um ser predador, um ser que se alimenta de carne humana. Ou seja, nós poderíamos, numa interpretação minha, Lucilena Galvão, não sou dona de nenhuma verdade, colocá-lo como um ser bastante egoísta e dominado pela cólera e pelos instintos. E é curioso se a gente tomar simbolicamente esse fato de que ele tem um olho só, porque a visão dual nós poderíamos interpretá-la simbolicamente como quem vê dois mundos: um mundo de vida e um mundo de sobrevivência, um mundo de valores e um mundo de instintos.
E harmoniza os dois, harmoniza os dois, porque os dois são necessários. Agora, quando você tem um olho só, é como se você matasse essa visão superior e deixa de ponderar a inferior, e a inferior predomina, é inferior, e então dá a tônica da sua vida. Então o homem essencialmente materialista, que não tem nenhuma ponderação sobre valores, sobre virtudes, que não tem nenhuma busca de sabedoria, ele seria um homem de um olho só. Ele deixa de ponderar.
Tem uma carta do tarô egípcio inclusive que mostra um alquimista misturando duas águas Eu acho aquilo ali muito interessante. Ele deixa de ponderar esses dois mundos, as necessidades, os equilíbrios, e o equilíbrio nesses dois mundos, e passa a ver o mundo com um olho só, um olho muito materialista, um olho muito instintivo, um olho muito egoísta e brutal.
É, me parece, me parece que ele é um devorador, me parece movido pelo instinto, né, de se alimentar, de sobreviver. Parece que tem uma coisa também, uma coisa dele morar numa caverna, ele ser um pouco isolado, apesar de ser um povo, né? No filme não mostra isso, mas existem mais dele naquela ilha, e motivado principalmente pela fome e pela sobrevivência, né? Isso.
Existe uma frase que diz que todos os homens morrem, mas nem todos os homens vivem, alguns apenas sobrevivem. Ele vive uma existência fechado no seu próprio egoísmo e nas suas próprias necessidades pessoais, isolado de qualquer consideração em relação ao outro, ou seja, isolado de qualquer autoridade, de qualquer vida em consideração com a vida em sociedade, com a civilização. Ele vive em função de si próprio. Então são alguns sinais que a gente pode considerar talvez como associado a um símbolo de egoísmo, de uma vida dominada totalmente pelos instintos e pelos desejos meramente personalísticos e egoístas.
E na tua visão, o fato do Ulisses furar o único olho dele e a partir disso conseguir escapar, qual que é a tua metáfora, teu entendimento para isso em relação a gente, ao ser humano?
Bom, aí existe uma coisa que o Nolan preferiu não colocar no filme dele, né, que é o fato de que o Odisseu diz: meu nome é ninguém.
O fato dele dizer, por que que ele faz isso? Porque é para não ser castigado.
Sim, ele faz porque ele era muito esperto e ele sabe que depois o Polifemo vai dizer aos seus irmãos quem o machucou, quem o prejudicou. Isso é a parte mais externa da história, né? Mas simbolicamente seria como se Ulisses tivesse matado a sua vaidade, tivesse se reconhecido como um ser humano, um mero mortal. E ao matar a sua vaidade, ele consegue dominar esse egoísmo, esse aspecto puramente instintivo, e passar a pensar mais no todo, no outro, pensar mais como humanidade.
Seria como uma receita: ao vencer o seu egoísmo, para vencer o seu egoísmo, Diminua um pouco esse pensamento excessivo apenas nos seus interesses, diminua sua vaidade, torne-se ninguém para vencer o monstro que está te devorando, o monstro do egoísmo, o monstro dos instintos, o monstro da superficialidade. Torne-se ninguém, ou seja, vença essa vontade de querer estar em primeiro lugar, estar sempre querendo tudo para si e muito pouco para o outro.
Você pode perceber que dentro do nosso mundo atual, a ideia do êxito tem muito isso. O êxito é sempre sobre alguém e não sobre si próprio. Para que você tenha êxito, você tem que ter uma montanha de derrotados para você subir lá em cima e dizer: eu sou o melhor. Evidentemente, isso não é uma mentalidade muito propícia para uma vida fraterna. Se você chegar para um amigo e disser: eu participei de uma corrida e tirei em primeiro lugar, e ele te perguntar quantos concorrentes tinha, tinha mil concorrentes, quantos chegaram em primeiro lugar?
Todos. Todo mundo ganhou, todo mundo fez a mesma marca. Acabou a graça. Ele não vai nem te parabenizar, porque não tem graça nenhuma uma vitória como essa. Para graça acontecer, para você merecer um parabéns, você teria que ser vitorioso sobre uma montanha de 999 derrotados. Aí sim. Então essa mentalidade do êxito, uma mentalidade vaidosa, uma mentalidade tremendamente egoísta, é morta quando você se considera menos, você se considera um, você se considera ninguém.
Ou seja, você anula a sua vaidade e se coloca no lugar de um ser humano que teria que trabalhar para o outro ser humano, teria que trabalhar para todos os seres humanos, teria que pensar como humanidade. Mais uma vez, como te falei, uma proposta. Não sou dona de nenhuma verdade, nem existe interpretação oficial de Homero.
Bigoda, mais uma pergunta.
Vamos lá, a próxima é do Ricardo. Ele perguntou o seguinte: é, o que podemos dizer que foi a mensagem principal de toda a literatura? O que o autor ou os autores quiseram passar com a história?
Ele tá falando autores porque também existe uma discussão discussão se Homero existiu ou se ele que escreveu. Dá para falar alguma coisa sobre isso também, professora?
É, dizem que se Homero existiu, teria existido aí em torno do 8º século antes de Cristo. Mas também há quem diga que houve uma tradição oral que provavelmente foi compilada por um escritor, por um poeta, chame-se ele Homero ou não. Eu particularmente acredito que existiu alguém grande Porque a obra é muito especial, inclusive na maneira como ela é concebida. Ela não é muito linear, ela é muito especial. Mas de qualquer forma, eu poderia dizer, segundo a minha visão, que a mensagem dessa obra— não sei se todas as da literatura, eu acho que seria um pouco de exagero— mas dessa obra em particular é que o homem veio ao mundo para crescer, que nós podemos sair daqui maiores do que chegamos, que temos aí uma odisseia por cumprir de autossuperação, de crescimento.
Sêneca, que foi um grande filósofo estoico, ele costumava dizer: certifica-te de veres morrer os teus defeitos antes de ti. Ou seja, pelo menos um enterrozinho, um velório assistir antes do seu, né? Ou seja, sair daqui maior do que entrou. E o homem muitas vezes nos nossos dias se aliena dessa questão e não considera sequer que impossível crescer. Ele acha que ele está pronto e que crescer é ter mais bens, é ter mais fama, é ter mais reconhecimento, e não crescer quanto a valores, virtudes e um potencial de sabedoria.
Eu fico às vezes imaginando se a gente pudesse conversar com a natureza e ela pudesse nos responder, e nós iríamos contar para ela as grandes novidades que nós criamos. Olha, natureza, eu criei máquinas estruturas, eu criei máquinas super rápidas, e a natureza me responderia: olha, meu caro, bilhões de anos antes de você existir eu já tinha criado todos os corpos do universo, tudo voando, tudo flutuando. Bilhões de anos antes de você existir eu já tinha criado a velocidade da luz.
Eu não precisava de você para criar isso. Eu precisava de você para criar a si próprio, porque nisso eu não posso interferir. A condição humana implica no livre-arbítrio. Dentro de você tem que construir a si próprio. Isso eu preciso de você, o resto tudo eu já tinha feito. E no entanto nós nos envolvemos em fazer mil coisas e construir a nós mesmos não necessariamente. Então você pega o homem romano que tava conduzindo uma biga e o homem moderno que tá conduzindo o avião a jato, a máquina progrediu tremendamente, o homem nem tanto, ou não necessariamente.
Talvez estejamos vivendo os mesmos problemas existenciais ou até mais problemas do que aquele condutor da biga. Ou seja, o crescimento como ser humano, eu acredito que é a principal mensagem dessa obra. Agora, como eu te falei, eu acredito que nós temos que viver a nossa odisseia, que nós somos o Odissíu e que temos que sair do outro lado, mas dignos de sermos reis de Ítaca, reis e rainhas de Ítaca.
A próxima é da Mariana. Ela perguntou: qual é a melhor tradução para ler a história de Odisseia e Leda nos dias de hoje?
Olha, é muito difícil falar sobre a melhor tradução. Eu tenho uma tradução que gosto bastante, mas eu não opinaria aí porque é uma coisa um pouco desagradável. Parece que eu tô fazendo propaganda de editora. Então eu prefiro não falar a esse respeito, mas eu não saberia dizer qual é a melhor edição. Eu tenho uma edição da qual eu gosto bastante. Eu sugiro que o leitor pegue recomendações na internet, porque falar sobre isso aqui implicaria, eu acho que, numa certa propaganda, né, que é uma coisa que eu não gostaria de fazer.
Tá bom.
Bigoda, a Fernanda Costa, ela falou: Penélope Penélope seria uma das personagens mais subestimadas da história?
Olha, eu considero que Penélope não é subestimada de forma alguma. Ela é grandiosa. Ela representa essa capacidade genial do homem de perseverar, esperar reunir as condições necessárias para vencer os obstáculos sem se deixar corromper, sem ceder ao desânimo, sem ceder à angústia, continuar insistindo, continuar esperando para que no momento certo Ulisses canse de dar as pernas ao mundo e volte para casa. Que Ulisses não é outra coisa senão uma condição do próprio ser humano, uma consciência elevada.
Até o momento em que eu tenha condição de vencer as adversidades, eu não vou ceder, eu vou tecer e desfazer a mortalha de Laertes Eu vou permanecer fazendo a estratégia que for necessária. Ela tem tanta inteligência prática quanto o próprio Odisseu, talvez até mais. A situação dela é complexa e é constante. Ela não tem 7 anos na ilha de Calipso, ela não tem um momento de paz, e ela está ali constantemente criando uma estratégia para ganhar o dia de hoje, até que ela reúna as condições, até que desperte nela a sabedoria necessária para superar essa adversidade e voltar a reinar sobre si próprio.
Então ela é um exemplo tremendo e belíssimo de estratégia, de inteligência, de perseverança e de constância diante da adversidade.
É Diego Moraes, ele falou o seguinte: existe alguma parte da história da Odisseia que foi mal interpretada tanto na obra como no filme?
Olha, Homero não faz interpretação nenhuma, então não posso dizer que na obra houve alguma coisa mal interpretada. Ele coloca a história, as interpretações são posteriores. E o filme é uma interpretação de Nolan, que também eu não posso dizer, como dizia o professor Clóvis, que esteja errada, porque eu estaria me arvorando a ser a dona da única interpretação correta, tá? Então cada cada um vai interpretar. E é uma coisa curiosa, porque uma obra de caráter simbólico, se você ler hoje, guarda esse livro com as marcações, com tudo que você tem, e daqui a 10 anos volta a ler.
Se você cresceu nesse período, você vai ler e vai ver outras coisas que naquele primeiro momento você não viu. Por isso eu digo, guarda o mesmo livro, senão você vai achar que tá lendo outra tradução, que você vai ver tanta coisa nova que você vai ter impressão de que tá lendo estudando o livro novo. Ou seja, nossa interpretação não é igual nem a nossa mesma num período X, quando crescemos nesse período. Então é muito difícil dizer, bom, tá errado, tá certo, tá mal feito ou bem feito.
Cada um, segundo o grau de consciência que tem, vai ver alguma coisa. Isso é exatamente a beleza dessas alegorias, né? Elas estão sempre desvelando à medida que o homem avança.
Eu acho que a gente encaminha para o final, professora, vamos fazer então um apanhado da obra, o que ela significa, o que que é a conexão dela com a filosofia, e agradecer demais a tua participação. Mas como a gente finaliza esse papo, que para o pessoal realmente atrás dessa obra ler, assistir o filme, atrás de outras obras que completam essa ideia, o que que você tem para falar para a gente sobre?
Olha, eu considero que revisitar essas obras é uma ideia muito boa, interpretando seja do jeito que for. Mas o fato de que você relembre aos homens que existe simbolismo na vida é algo genial, porque nós vivemos uma época que somos muito literais, tomamos tudo ao pé da letra. Quando nós relembramos Homero, quando relembramos antigos mitos como Mahabharata, Ramayana, mito do Rei Arthur, seja lá qual for, nós começamos a relembrar que a vida pode ser interpretada, que a linguagem da vida é símbolo.
Quando nós aprendemos a pensar acerca da viagem de Odisseu, começamos a pensar acerca da nossa própria viagem também. Então você começa a imaginar, por exemplo, se você é aquela pessoa, colocando um exemplo bem banal, que toda vez que você entra numa fila a sua fila não anda e todas as outras andam, seja no trânsito, seja no banco, seja no mercado, você pode pensar simplesmente: eu sou um azarado. Ou você pode pensar: o que que a vida tá querendo me dizer com isso?
Será que ela tá sugerindo que eu sou um pouco ansioso demais? Ou quem sabe tem uma autoestima um pouco exacerbada de achar que todo mundo pode esperar menos eu? Deixa eu me reposicionar para ver o que que acontece. Aí você faz uma sugestão de interpretação e se reposiciona, e você percebe que aquele fato repetitivo cessa, vem outro. Então começa um bate-bola com a vida, que chega um determinado momento que você tem até uma curiosidade vital de ver o rosto desse interlocutor que tá dos bastidores da vida conversando com você através dos acontecimentos.
Então eu brinco sempre, quando a gente relembra esses clássicos essas grandes alegorias, porque vão mostrar para gente que a vida é exatamente assim e que existe um Homero nos bastidores da vida, e que nós podemos começar a interpretar e não ser tão literais, e não simplesmente nos vitimizar, e não simplesmente colocar a culpa de tudo no outro, mas simplesmente nos colocar diante da vida e perguntar: por que eu atraí esses fatos para Porque, como dizia Marco Aurélio, grande filósofo estoico, nada acontece ao homem que não seja próprio do homem.
Por que precisei viver isso? Por que que esse acontecimento queria me dizer? Porque se eu interpreto e me reposiciono, eu cresço. Se eu sempre transfiro responsabilidade para ocasiões, para pessoas, para instituições, eu sempre sou a vítima. Isso é confortável, mas isso não faz crescer. Então Epicteto costumava dizer: extinção da culpa marca o início do progresso moral. Não tem culpados, tem responsáveis. Eu vim ao mundo porque necessitava crescer, portanto os acontecimentos têm algo a me dizer.
Portanto, revisitar antigos mitos é uma forma de revisitar a forma simbólica de ler a vida. Eu brindo essa ideia, eu acho isso maravilhoso.
Professora, acabou— eu ia fazer um comentário, acabou passando a gente foi para outro assunto, mas quando a gente tava falando do estratagema dele com o Ciclope de eu sou ninguém, e aí depois, só para dar um contexto, né, no filme o Nolan não usou isso, mas na obra existe. Quando ele é perguntado quem ele é, ele é ninguém. E aí quando perfura o olho e o Ciclope começa, o Ciclope começa a falar para os outros, para os outros da comunidade dele, alguém me feriu, é, ninguém me feriu, porque pergunta, né, quem foi que te feriu?
Ninguém me feriu, ninguém feriu. Ou seja, ninguém feriu ele. Essa foi a parte intelectual. E você coloca na tua interpretação como uma possível, o abandono do ego, abandono daquela coisa de eu assumir a autoria de algo, algo que salvou, não só me salvou como salvou aos meus amigos. Só que depois ele sucumbe ao ego e aí ele é mais forte, ele fala: ninguém sou eu. Ele fala que é Ulisses de Ítaca, dá o endereço, dá o nome e tudo mais.
E ele é punido por isso. Isso na tua interpretação pode também mostrar que, apesar da gente evoluir, conseguir às vezes superar os nossos defeitos, a gente tá fadado a errar de novo. O ser humano tá sujeito sempre a essa queda, a esse orgulho, ele tá sempre incubado na gente, e a gente tem que vencer isso constantemente para não ser traído pelos nossos, pelas nossas próprias vitórias.
É o que eu quero, e o que eu interpreto disso é que o ser humano, o avanço não é simples, ele é sujeito a recaídas, mas não é que elas vão acontecer sempre. Chega um determinado momento que nós superamos de fato e passamos para um novo degrau, novo desafio. Mas até que você se equilibre bem no novo degrau Você é sujeito a desequilibrar e cair para o anterior, tá? Então tem um umbral aí de conquista, de solidificação de um outro estado de consciência.
Algo que superamos já há muito tempo, é difícil que a gente recaia. Daquilo que eu acabei de superar, eu ainda posso ter recaídas, tá? Então o crescimento humano é uma luta às vezes sem glória. Hoje consigo, amanhã não, depois de amanhã novamente. Então nós temos que ir, digamos assim, empurrando as trincheiras adiante. Se hoje eu conseguir, diga, sei lá, eu quero parar de fumar, hoje não fumei, amanhã eu fumo, depois de amanhã volto a lutar.
Ou seja, eu fumava todos os dias, agora fumo dia sim, dia não, já foi um avanço. Agora eu vou avançar para dia sim, 2 dias não. Ou seja, brindar as pequenas vitórias, ir avançando passo a passo como uma mãe que brinda quando a criança dá o primeiro passinho. E aí depois, quando ela consegue dar o segundo passo, brinda de novo, faz festa, chama os vizinhos. Ou seja, ir espaçando e ganhando tempo contra os nossos defeitos, porque não é uma vitória fácil.
Eles são gigantes, que nem Polifemo. Vencer a vaidade, vencer o egoísmo, é vencer um gigante. Então, um dia sem egoísmo, ótimo. Amanhã eu caí, depois de amanhã eu vou lutar novamente e vou espaçando cada vez mais. É como você está subindo uma escada. Não olha para a escada inteira, você vai desanimar. Olha só para o degrau que está diante de você. Vou vencer esse degrau. Bom, pode ser que amanhã não consiga vencer o outro, mas depois de amanhã volto a lutar e vou espaçando, vou espaçando os meus defeitos, vou ganhando tempo sobre Polifemo, vou avançando, porque não é fácil o avanço humano, crescimento humano.
Tanto individual quanto coletivo, é lento e sujeito a esses pequenos avanços e retrocessos. Mas no longo prazo acabamos solidificando conquistas.
E para finalizar, professora, agradecer demais a tua presença. E faz uma indicação de uma, de outras obras, e passa seus contatos, onde vai estar, tudo que o pessoal quer saber, e uma, e um convite à leitura. Para as pessoas, não só a relação a essa obra, mas filosofia. O que eu quero, eu quero para mim e quero que as pessoas em casa também tem uma lista de leitura que é legal para a gente compreender esse mundo grego, esse mundo contemporâneo que a gente vive e essas relações.
Eu recomendo que se aproveite essa oportunidade, se redescubra os mitos clássicos. Por exemplo, leia Eneida de Virgílio. Que é algo que é bem menos conhecido pelas pessoas em geral do que a Ilíada e a Odisseia. Eneida é maravilhosa. Voltaire costumava dizer que a Eneida era o poema mais lindo que já tinha sido escrito. E de fato, a Eneida é sensacional. Conheça outros mitos de outras civilizações. Leia um pouco sobre o mito do Rei Arthur.
Os mitos têm muito a nos dizer sobre a nossa própria vida. Entender os mitos, mergulhar no simbolismo que eles sugerem, é conhecer um pouco mais não só Arthur, Guinevere, ou Enéas, ou Ulisses, é conhecer um pouco melhor a si próprio. Bom, e chamo todos aqueles que possam conhecer o nosso canal no YouTube da Nova Acrópole. Olha, ali temos mais de 1000 palestras. E o meu canal do Instagram, Prof. Lucilena Galvão, que sempre estou ali fazendo leituras comentadas, sugerindo leituras. Muita coisa interessante acontece por lá.
Obrigado demais, professora, mais uma vez. Foi um papo maravilhoso o teu e do Clóvis. Que encontro memorável! Eu tenho certeza que as pessoas aí vão curtir bastante. Obrigado demais.
Muito obrigada, Aguilhera. Um grande abraço para você.
Abraço. E para vocês que tiveram até aqui com a gente, vocês têm obrigação, não é, Bigode, de dá uma curtida nesse vídeo, porque esse encontro é único, incrível. Então já curte agora, se inscreve no canal, vale a inscrição se você não é inscrito, se você tá aqui por acaso, não é?
Exatamente.
E ao pessoal que a gente não conseguiu ler as perguntas do chat, vocês desculpem, porque vocês viram que foi corrido, né? Foi corrido. O professor tá com problema de saúde, ele foi extremamente solícito, né, em atender a gente. A professora Lúcia também tinha falado que tinha pouco tempo. Então vale a pena você compartilhar esse vídeo também. E o que que você tem para falar para o pessoal, cara?
Cara, agradecer a todos chegaram até o final, né? Não é como você disse agora, não esquece de deixar aí teu like, a tua inscrição, ativa o sininho aí também. E agradecer nossos parceiros, né, o G4 Educação e também a Elements, que estão patrocinando o episódio de hoje.
Elements, que tem essa cadeira maravilhosa aqui que me faz ficar horas aqui sem ter dor nas costas. Ou no quadril, porque eu sou um idoso, certo?
Dá até para dormir.
Então obrigado demais. E o que que o pessoal escreve nos comentários, querido Bigoda?
Tem várias coisas.
Eu tenho uma sugestão aqui.
Você tem?
Tenho. O que que o pessoal escreve nos comentários para provar chegou até o final do papo? Se for ruim, eu tenho uma sugestão.
A minha foi: a odisseia do rapaz.
A odisseia do rapaz. Pode ser isso, ou ovo de coco.
Ovo de coco, gostei. Acho que ovo de coco, perfeito.
Então escrevam nos comentários ovo de cuco. Quem vai ler não vai entender nada, vai ter que assistir o episódio inteiro para entender exatamente o que que o ovo de cuco tem a ver com Ulisses.
É isso aí.
E Odisseia, perfeito. Ou Odisseu. Você não assistiu o filme ainda?
Ainda não, nem li nada.
Ixi, acertei a Fabi que tava atrás de você, que não tem nada a ver com o negócio.
Foi estratégico, cara. Eu abaixei.
Você baixou? Você foi Matrix agora, você deu uma baixada. Cara, e eu taquei com força, hein?
Olha só, eu ouvi o barulho batendo na capa do notebook dela.
Caramba, que difícil, cara.
Então obrigado demais, gente, que papo legal, que bom ter vocês aqui. Fiquem com Deus ou com os deuses. Beijo no cotovelo, tchau, e que bom que vocês vieram. Valeu, fui! As opiniões e declarações feitas pelos entrevistados do Inteligência Limitada são de exclusiva responsabilidade deles e não refletem necessariamente a posição do apresentador, da produção ou do canal. O conteúdo aqui exibido tem caráter informativo e opinativo, não sendo vinculado a qualquer compromisso com a veracidade ou exatidão das falas dos participantes.
Caso você se sinta ofendido ou tenha qualquer questionamento sobre as declarações feitas neste vídeo, por favor entre em contato conosco para esclarecimentos. Estamos abertos a avaliar e, se necessário, editar o conteúdo para garantir a precisão decisão e o respeito a todos.
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