Episódios de Inteligência Ltda.

1845 - ROBERTO CABRINI

16 de maio de 20261h58min
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ROBERTO CABRINI é jornalista. Ele vai bater um papo sobre histórica carreira, suas entrevistas emblemáticas e o atual cenário do jornalismo brasileiro. Já o Vilela lia as notícias em sinais de fumaça.

Assuntos6
  • Relação Israel-EUAAtaque de 7 de outubro · Desrespeito aos direitos humanos · Destruição em Gaza · Papel do Hamas na reconstrução · Rejeição a Netanyahu · População anestesiada pela guerra · Radicalismo em ambos os lados
  • Reação internacional ao conflitoMedo como amigo do jornalista · Processo seletivo de exposição a riscos · Evolução da segurança do jornalista em zonas de guerra · Importância do conhecimento do terreno · Ascensão do Talibã
  • Guerra na UcrâniaEstratégia de aproximação a Kiev · Tensão durante o trajeto noturno · Impacto da ajuda externa · Territórios ocupados pela Rússia · Perspectiva geopolítica do conflito · Reserva de terras raras na Ucrânia
  • Conflito Irã-EUAOrigens da Revolução Islâmica · Comparação entre governos · Questão nuclear iraniana · Interesses econômicos e geopolíticos · Papel da China e Rússia no conflito
  • Crise do Jornalismo e MídiaJornalismo como ferramenta de decisão · Contaminação pela ideologização · Viés da sociedade · Superação de barreiras e preconceitos · Dificuldade de interpretação de ideias
  • Tráfico de drogas e lavagem de dinheiroEnvolvimento de cartéis de drogas · Negociação com narcotraficantes · Crise humanitária social · Crítica ao tratamento de imigrantes pelo governo americano
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Oi, eu tenho aqui um recado do Léo Santana pra você. Escuta aí. O GG na área pra dizer o seguinte. O Magalu e eu queremos convocar todos os brasileiros pra gente voltar a se ver do tamanho. Que de fato somos gigante. Chega de se ver pequenininho. Bora botar o Brasil no telão. Ouviu? E mais. Em qualquer compra a partir de R$199, você ainda pode concorrer a uma sala completona. São seis salas por dia até a nossa estreia.

Olá, terráqueos, como é que vocês estão? Eu sou Rogério Vileira e está começando mais um Inteligência Limitada. O programa onde a limitação da inteligência acontece somente por parte do apresentador que vos fala. Sempre trago pessoas mais inteligentes, mais interessantes e com a vida muito mais investigativa do que a minha e do que a sua. Poxa, com certeza, hein? E se for investigar a nossa vida... Poxa, vai descobrir cada coisa. É melhor não, né? É melhor não, deixa quieto, né?

Se for investigar os seus últimos dias, a gente vai achar alguma coisa ou não? Não minta pra mim. Vai achar. Minha preguiça. Vai achar que eu acordo muito tarde. Até então eu tô junto com você. Vai achar também. Você vai pro banheiro pra fugir da galera? Com certeza. Tá rolando moto. Tem que lavar louça, tem que fazer alguma coisa, você não se encher no banheiro, fica lá no celular. Eu vou fazer o que ninguém pode fazer por mim. Se investigar.

Você tá lá no Instagram. Tô no Instagram. Você tá sempre me mandando meme no Instagram, cara. Fico te mandando meme. É você e o Fábio, o dia inteiro, mandando piadinhas lá no nosso grupo de humor de quinta série. Pois é. O Bigoda pode entrar nesse grupo?

Claro que não. Claro que não, né? Ele não tem humor, cara. Ele não entende as piadas. Ele não vai entender. Mas tem alguém que entende tudo e é o Cabrini. E a gente vai falar com ele, cara. Com certeza. Ele veio aqui já faz um tempo. Tem história pra caramba. O que o cara trabalha. Faz bastante tempo. E o programa dele foi legal, cara. Eu recomendo vocês. Assistam lá. Tem a trajetória dele inteira. E hoje a gente vai tentar fazer daquele dia pra cá o que aconteceu. E olha o que aconteceu.

Parece que foi ontem de tanta informação que ele trouxe. Pois é. Mas tem muita guerra, muita confusão que aconteceu. Enchente, guerra. Onde tem treta, o cara tá lá. Você viu, cara. E sem medo. Pois é, rapaz. A gente tem medo de atravessar a rua sem olhar. Rapaz, eu tenho medo de barata voadora, cara. Sério. É que barata voadora é uma coisa que não é de Deus, né? É do demônio. Ah, você viu, né? Porque ela não sabe voar.

Pois é. Ela vai toda torta. Você fica assim. Você já percebeu que ela nunca vai na outra geração. Ela sempre vai na tua cara. Não, então, aí você tenta correr e ela tenta fugir. Só que os dois vão pro mesmo lado. Pois é, rapaz. Cara, a gente foi pra barata voadora. Como que o pessoal que não é barata voadora vai participar desse podcast? Hoje é uma live especial dedicada para pessoas especiais. Que são os nossos membros. Quem mais?

Olha, tem Mike Baguncinha, tem Naldo Beni, tem Henrique Cristo. Tem uma palha de gente aí, cara. Até o Elon Musk já se tornou membro aqui. Ele entrou...

um mês atrás e não avisou nada. Quando eu vejo, lá está um Elon Musk, cara. Eu acho que ele não entende nada o papo da gente, porque a gente fica falando em português. Acho que ele fala Hello, Vilela. Essa é a sua imitação de Elon Musk. Você viu a melhor imitação do Elon Musk da faculdade? E a imitação do Lula, como que é? Hello, Vilela. O que é isso? É o Lula? É o Bolsonaro, eu tenho medo. Então como é o Bolsonaro? Hello, Vilela, ok?

Faustão. Ó o Vilela, bicho! Olha, Silvio Santos. Olha só, a Vilela, a Bavocê. Ah, melhorzinha agora. Quem não sabe imitar também o Silvio Santos, né? Pois é. Olha, é o seguinte, então, membros têm preferência, já mandaram pergunta porque sabem da agenda com antecedência, mas você pode mandar o seu superchat que a live hoje promete, não promete? É isso aí. Fechou. Então, vamos pro papo? Bora pro papo. Vamos, porque aqui está uma figura que veio aqui no começo do podcast em...

2021. Estamos em 2026. Ou seja, muita coisa mudou na nossa vida. A gente virou o maior podcast do Brasil. Com certeza. O mais respeitado, o mais mais. É isso aí. E ele só ficou mais relevante, mais importante, diante de tanta coisa que aconteceu no mundo. E eu sei que se acontece alguma coisa no mundo, eu sei que o Cabrinho vai estar lá. É a única certeza. É isso aí. A gente vai pagar imposto.

a morte, que o Cabrini vai estar em situação de guerra qualquer conflito, enchente tá ele lá na linha de frente, cara, eu admiro muito você, esse livro aqui eu estou com ele em mãos vou ler, começar a ler hoje mesmo e cara, admiração incrível pelo teu trabalho, pela tua história quem não viu, a gente não vai falar de novo da história dele porque tem um podcast incrível que ele trouxe a primeira máquina de escrever dele contou toda a história

E a gente vai fazer uma brincadeira que é, a partir de 2021 aconteceu muita coisa e vamos falar tudo que você cobriu e tudo que está acontecendo na tua vida. Tua câmera aquela, dá oi para o povo e se apresenta se é que alguém não te conhece.

Bom, em primeiro lugar, é uma honra estar aqui. Parabéns pelo sucesso do podcast. Obrigado demais. A vez que eu estive aqui, parece que foi ontem, né? Parece. Já faz bastante tempo. Eu achava que era um ano e meio e tal, muito tempo. Mas até hoje as pessoas falam muito dessa entrevista. Você faz um trabalho incrível. E a gente está sempre atrás das grandes histórias. Todos os domingos a gente... Fala que eu me inspiro em você.

vai parecer que é só porque você está aqui na frente, mas sempre quando me perguntam sobre inspirações, eu falo de você também, viu, Cabrini? Você é um ícone do que a gente pode falar de jornalismo sério, de jornalismo investigativo, que está tão... Era mais forte no passado e está tão raro hoje em dia. Raso e raro, né? Nós estamos, Rogério, em um momento profundamente ideologizado. O mundo está assim, a imprensa está assim. Não, não. É um fenômeno mundial. É um fenômeno mundial.

A verdade fica ofuscada por essas paixões. Ah, você está falando isso, mas mostra o outro lado. Ah, você está sendo pago por tal governo. Sempre a galera está pensando que você está defendendo um lado e você é o cara mais imparcial que eu vejo. Tenta ir lá. Claro que a gente sempre...

Tem um lado, tem opiniões, mas você tenta ser o mais imparcial possível e eu admiro muito isso. Rogério, eu costumo dizer que jornalismo não é um processo de convencimento. Quando eu faço uma reportagem, o objetivo não é convencer as pessoas a pensarem como eu penso. Certo.

O objetivo é você fazer uma grande matéria para que as pessoas munidas de boas ferramentas possam tomar decisões melhores, mesmo que essas decisões possam contrariar até o que o próprio repórter, enquanto cidadão, pensa. E nós estamos em um momento profundamente difícil. Um momento em que o jornalismo está muito contaminado pela ideologização. Eu costumo dizer que quando eu entrevisto alguém da direita, penso que eu sou da esquerda. Quando eu entrevisto alguém da esquerda, penso que eu sou da direita.

Porque você é obrigado a fazer as perguntas. Sem dúvida. Sob o ponto de vista da sociedade. O viés sempre tem que ser a sociedade. Fazendo assim, você vai estar mais próximo do correto. Eu costumo dizer que é algo em que a estrada é mais importante do que o destino. Quando nós nascemos, nós somos influenciados por pensamentos da nossa família, da nossa comunidade, do nosso país, da nossa civilização.

mas o jornalismo só merecerá ser chamado de jornalismo investigativo, por exemplo, se ele contemplar todas as formas de pensamento. É muito cômodo a gente, quando faz uma reportagem, contemplar aquilo que a gente pensa. Mas o grande...

A grande dificuldade, a grande barreira é você fazer jornalismo contemplando as pessoas, os segmentos, a diversidade, aquela com a qual você não pensa. E você só vai fazer jornalismo se você, de fato, ultrapassar essa barreira. A barreira dos preconceitos, a barreira da desigualdade, a barreira daqueles que pensam diferente de você.

E hoje em dia está até mais complicado porque as pessoas estão com mais dificuldade de interpretação de ideias e de texto. Às vezes você fala uma coisa, ela está bem clara, e as pessoas não entendem o que você está falando. Ou entendem uma coisa diferente. Porque há uma grande atração em se carimbar as pessoas.

Colocar em gaveta. Exatamente. Esse é da direita, esse é da esquerda. Então tudo que ele fala mexe com esse tipo de intenção. Mas eu acho que a gente pode fugir disso. Eu acredito firmemente que você pode fugir desse lugar comum que é a ideologização. Não está fácil. É um momento muito difícil. Mas eu acho que no final da estrada o verdadeiro jornalismo vai sobreviver. Eu acho que o dia a dia, o seu trabalho, a tua história acaba...

pavimentando essa estrada. O caminho é você ouvir todos os segmentos. Principalmente aqueles com os quais você não concorda.

E inclusive com as pessoas que o grande público acha que nem deveria ter voz. Sem dúvida. Não é? Sem dúvida. Eu lembro muito bem, por exemplo, que quando eu entrevistava pessoas que estavam ligadas ao PCC, tinha um secretário de segurança que dizia, é um absurdo, você está glamorizando uma organização criminosa. Até se descobrir que esse mesmo secretário de segurança, cujo nome eu não vou revelar, tinha ligações incestuosas.

com o PCC. Então, por isso que ele não gostaria que isso fosse ouvido, que esse lado fosse ouvido. Interesses e gente grande, gente graúda, às vezes, envolvida, né? Da mesma forma que não existem pessoas interessadas em que Vorcaro, de fato, conte tudo que sabe nesse momento. Estamos percebendo isso. Na verdade, o filme sempre se repete nesse país. Entendeu? Você não consegue exercer a verdadeira democracia de informações porque sempre existem interesses ocultos.

E como você disse, não é só aqui, porque lá nos Estados Unidos, os arquivos Epstein pararam de falar. Começou guerra, começou outra coisa. Você chega até um determinado ponto. Claro que todo veículo de comunicação vai ter suas limitações, mas isso acontece em todas as partes do mundo. O New York Times tem restrições ao jornalismo, porque tem interesses a todos os veículos de comunicação.

tem algum tipo de interesse e vai haver limitação. Cabe ao verdadeiro jornalismo procurar resistir e procurar ter estratégia. O que hoje você não pode cobrir, amanhã talvez você possa. Desde que você mantenha-se fiel a princípios, princípios básicos do jornalismo, que é o de não ideologizar a cobertura.

Mas agora como você se apresentaria? Porque você é repórter, tua raiz é repórter, mas agora você âncora, você apresenta um programa. Esse lado de apresentador, ele ofusca, você divide ainda? O que você se apresentaria para uma pessoa? Como repórter, como apresentador?

Como influenciador, como que é hoje em dia atual? Existe uma tendência mundial daqueles que procuram o verdadeiro jornalismo de que o apresentador seja um jornalista, que vai às ruas. Melhor, né? É o repórter que apresenta. Isso acontece com os grandes nomes americanos, por exemplo, Peter Jennings, Tom Brookholl, Terry Coppel. E por que tem essa tendência? Porque você vai às ruas, você tem contato com a realidade e no estúdio você está mais preparado para descrever essa mesma realidade.

Porque caso não seja assim, você vai ser apenas um leitor de TP. TP, para quem não sabe.

É o teleprompter. Vai passando o texto na frente da câmera. Que é uma ferramenta importante, útil, nada contra ela. Mas eu procuro apresentar sempre como um repórter. Um repórter que vai às ruas. E quando você vai às ruas, evidentemente, o seu grau de credibilidade também é outro. Você teve várias guerras, vários conflitos. E quando você está envolvido, ou seja, você está na linha de frente, tem a tua emoção também, tem o teu medo, o teu receio.

você tem família, como você faz para isso não te influenciar a ponto disso tomar um lado, ou isso está muito presente, ou isso é uma ferramenta boa e quanto mais você passar essa emoção para as pessoas, mais elas se sentem dentro do cenário. Porque deve ser difícil você dimerizar isso.

Rogério, eu costumo dizer que o medo é o meu maior amigo. É? Explico o porquê. Existe o medo, então? Com certeza. Mas pode passar ano, pode passar década fazendo... O medo não vai embora. O medo, ele é bem-vindo à medida em que ele mostra os meus limites. O medo se torna um problema insolúvel quando ele te paralisa. Quando te trava. Quando te trava, quando você toma decisões absurdas ou quando você fica sem tomar decisões porque você está travado pelo medo. Aconteceu alguma vez?

de você ficar, o que eu faço agora? Vou ou não vou? Eu diria que é um processo seletivo. Nos primeiros conflitos internacionais que você cobre, a primeira explosão você fica profundamente abalado. Ou quando você se depara, por exemplo, com situações onde você vê crianças, população civil chacinada numa guerra, você fica profundamente abalado. Ou quando eu fui dar, por exemplo, anunciar a morte do Ayrton Senna, foi muito difícil para mim. É um processo seletivo, onde você gradativamente que

vai se tornando mais bem preparado. No começo é difícil, você precisa ter uma certa aptidão para isso. Eu descobri ao longo das reportagens que eu sou aquele cara que, se o meu cinegrafista não consegue filmar, isso já aconteceu, eu pego a câmera e filmo. Se eu perceber que ele está muito abalado. Não por culpa dele, é normal isso. Quando a pessoa não tem tanta experiência, a guerra está muito próxima. Você já colocou a câmera no ombro?

Eu já coloquei a câmera no ombro porque o cinegrafista estava abalado. Esse mesmo cinegrafista depois se tornou com a câmera no ombro.

incrivelmente bem preparado, porque ele venceu o próprio medo. No começo, você sofre muito com isso, mas é um processo onde você vai se aperfeiçoando. Ser jornalista em Zonas de Guerra é um desafio muito grande. No começo, nos anos 60, quando você se apresentava como jornalista, você era muito bem recebido. Você usava ali uma placa escrita press, imprensa.

E as pessoas te ajudavam. Depois, com o passar do tempo, na Guerra da Bózia, por exemplo, nos anos 80, jornalistas passaram a ser alvos de franco-atiradores. Já nos conflitos no Iraque, por exemplo, a partir dos anos 90, jornalistas passaram a ser sequestrados como moeda de troca. A partir do final dos anos 90, no começo dos anos 2000, houve vários episódios em que...

Terroristas se passaram por jornalistas, usaram o disfarce de jornalistas. Hoje em dia é extremamente difícil você fazer jornalismo porque você passa a ser visado. Mas nada te protege mais numa guerra, Rogério, do que você saber o terreno onde você está pisando. Cobrir a guerra da Bósia é diferente de cobrir a guerra da Somália, por exemplo, onde tem o Al-Shabaab, que é uma vertente da Al-Qaeda.

que é diferente de cobrir a guerra na Cachimira, onde tem ali os separatistas, na guerra entre Paquistão e Índia. Você precisa saber onde você está pisando. Existem situações onde você fica mais bem protegido se infiltrando junto da população.

Isso se misturando. Em outras, se você usar toda a parafenália, colete, capacete. Por que isso? Em determinados lugares, onde a população não tem nada do que comer, não tem como se proteger, se você entrar com toda essa parafenália, vai ser como se você estivesse comunicando. Olha, a minha vida é mais importante do que a sua. Eu tenho o direito...

de ter essa proteção, você não tem esse direito. Então, nada te protege mais do que saber o terreno aonde você está pisando. Quando eu estava, por exemplo, eu fui o único jornalista da América Latina que cobriu a ascensão do Talibã em 1996. E eu me lembro perfeitamente que estava eu, meu cinegrafista, nós estávamos filmando uma vila persa que estava sendo dizimada pelos Talibãs porque eles tinham dado comida para os inimigos do Talibã.

E eles nos interceptaram, viram que a gente tinha filmado, fizeram toda a menção que iam nos executar. Pelo fato de eu saber algumas palavras em pastum, que é o idioma predominante no Afeganistão, eu consegui ganhar uma certa simpatia. Eu falei sarrafi brasilian, como rabar anasta, algumas palavras que eu sabia. Ou seja, eu comuniquei que eu era um jornalista que estava ali para ouvir o lado deles da história e que eu não era um jornalista.

Essa foi a outra vez que eu estive no Afeganistão. Estive três vezes. Essa foi a última vez. Esse é um momento em que a gente foi interceptado pelas forças do Talibã. Essa foi agora recentemente, quando o Talibã retomou o poder no Afeganistão, depois de 20 anos. Eu estive no Afeganistão em três vezes. A primeira, quando o Talibã tomou o poder. A segunda, quando os americanos dominaram, logo depois, 11 de setembro.

E essa foi quando o Talibã retomou o poder depois de 20 anos num acordo bastante misterioso, entre aspas, com os americanos. Mas então nesse dia, que foi a primeira, que é essa capa do livro aqui. Essa capa do livro. Olha aqui, olha. Essa aqui é quando eu cobri a feição. Não, aqui, tem uma câmera aqui em cima. Tá certo. Aqui, olha. Vamos lá.

Ah, perfeito. Nada com modernidade. Você vê? Olha lá o monitor. Você está muito bem equipado. É, rapaz. Brincadeira, não. Então, quando eu estava no Afeganistão, isso aqui foi em 1996. Mais cabelo. É, mais cabelo, com certeza. Mas está bem parecido ainda. É. Está igual. Olha, o que não mudou é a chama de fazer bom jornalismo. Verdade. Pessoas pensam que... Não, Cabrini, vai em todos os conflitos que eu tenho.

uma certa atração por adrenalina, a atração é zero. Eu tenho atração por bom jornalismo. Eu quero fazer... Por histórias, né? Por histórias. No final do dia, nós somos contadores de histórias, não é verdade? Pois é. Então, e nesse dia, eu consegui, através de falar algumas palavras, ganhar uma certa simpatia, a ponto de eles chamarem um comando talibã.

Esse comandante talibã sabia falar inglês melhor. E é isso porque a gente se perdeu e acabamos aqui, a gente está filmando tudo, mas a gente está também interessado em cobrir o lado do talibã. Porque nesses lugares do mundo, eles sempre...

te veem com muita reserva porque acham que você vai ter uma visão preconceituosa. Ah, porque você vai ter uma visão preconceituosa do Islã. Uma visão ocidental. Uma visão ocidental, que você vai ter uma visão... Um julgamento. Um julgamento de superioridade. Então você precisa, antes de tudo... Quebrar. Desmistificar isso. Quebrar essa barreira. Pode ser brasileiro ajuda, você acha?

Olha, ajuda no sentido de que o Brasil é um país que tem que ter uma política internacional neutra e dificulta a medida em que a posição brasileira, principalmente nos últimos anos, tem sido irrelevante. O Brasil não é um player importante no cenário internacional. Mas, às vezes, alguns artifícios ajudam. Por exemplo, eu costumava levar uma foto no dia em que o Pelé foi me visitar em casa, quando era correspondente em Londres.

E essa foto, por exemplo, o futebol, a simpatia pelo Peré, que serviu para quebrar barreiras não só no Afeganistão, como também no Iraque. Mas nesse dia, só terminando aquela história, eles quando chamaram o comando do Talibã de estarmos perto de sermos executados.

para você. Exatamente, para mim e para o cinegrafista Sherman Costa, um dos maiores cinegrafistas, um grande profissional, um cara muito corajoso, que fez um grande trabalho nessa cobertura. E ao invés de nós sermos executados, nós acabamos ganhando um banquete deles, que era pão, tomate e muita areia. Mas foi o melhor pão com tomate e areia que eu comi na minha vida. Era isso ou a morte, a execução. Exatamente.

E, no fim, a gente conseguiu até avançar. Eles até acabaram nos dando alguns privilégios em avançar, em filmar algumas áreas em que jornalistas ocidentais não tinham acesso. Você conseguir mostrar que você respeita o outro lado da história... Respeita a cultura, né? Sem dúvida. A cultura que você não tem preconceito contra a diversidade.

palavras ajudam também. Ajuda, ajuda porque quando você aprende algumas palavras você demonstra respeito pela diversidade. E você combate a noção daquilo que mais é prejudicial, daquilo que mais se coloca em risco, que é arrogância. Isso.

jornalista, ele precisa antes de tudo exercer a humildade como dizia Sócrates, tudo que sei é que nada sei, você precisa sempre estar disposto a aprender e não chegar com uma visão de prepotência porque isso não vai te levar a absolutamente nada e é o que eu descobri em tantas coberturas

E vamos falar então de conflitos. Virou a Missão Cabu, essa viagem ao Afeganistão? É, aquela foto que você mostrou, a Visão Cabu. No Domingo Espetacular. Exatamente, foi uma cobertura premiada. A gente ganhou o prêmio da PCA. Nós ganhamos o prêmio da PCA, que foi um prêmio do qual a gente tem muito orgulho, nesse documentário Missão Cabu.

E aí você assume... E essa emissão acabou, desculpa, teve um episódio muito interessante, porque a gente também foi interceptado, a gente estava se deslocando, e a gente também foi interceptado por um comando do Talibã, e eles levaram para a fortaleza deles, e a gente ficou totalmente cercado por 30 Talibãs fortemente armados, e exatamente nesse dia...

eu recebo uma ligação. Mas te trataram mal? Tipo, amarraram? Não, eles estavam com uma certa desconfiança. Não, eles queriam saber o que a gente estava querendo fazer. Quando eu estava nessa fase de investigação, querendo saber quem a gente era, eu recebo uma ligação. De quem era a ligação? Era da minha esposa. E ela fez uma video call. E nessa video call, ela justamente estava me ligando porque era o dia do meu aniversário. Eu tinha até esquecido disso. Nossa!

Ela não sabia o que estava acontecendo contigo. E ela viu pela videocall o marido dela cercado por uma série de combatentes talibãs. Nossa, a forma de acalmar a sua mulher, né? E aí ela começou a cantar para quebrar o gelo. Eles até descontraíram de certa forma. E aquilo acabou até ajudando. O que ela cantou? Você não vai lembrar o que ela cantou. Ela cantou Parabéns a você, Happy Birthday to you.

Nossa, que situação! Ela sempre conta isso, foi bem interessante, porque ela fez uma videoconferência e eles fizeram aceitar a chamada. E quando a chamada foi completada, elas viveram ali totalmente. Eles queriam ver, porque eles sempre pensam que você...

Pode ser um espião, que você está fazendo um serviço de inteligência avançado para os inimigos deles. Então eles sempre têm esse grau de confiança. Mas acabaram nos tratando muito bem, porque viram que a gente era jornalista, viram que a gente tinha interesse no lado deles na história. Conhecer a cultura deles ajuda muito. E uma coisa que ajudou muito nesse dia também foi que eu tinha todas as fotografias dessa cobertura aqui.

E nessa cobertura, eu tirei várias fotos como essa, por exemplo, eu estou aqui cercado de combatentes talibãs. Eles têm profundo orgulho, porque é o dia onde eles deixaram de ser uma simples tribo insignificante e controlaram o país. Talibã quer dizer estudantes do Alcorão, estudantes do Islã.

E essas fotos, eu tinha ali umas 30, quebraram o gelo também. Essas técnicas, elas são muito importantes para você mostrar que você é um jornalista interessado na diversidade. Porque quando você chega nessas situações, Rogério, muitas vezes...

Se você falar que veículo você trabalha, não vai dizer muita coisa. Até o país. No Afeganistão, o Brasil é muito pouco conhecido. Eles não sabem muito bem o que é Brasil. Eles vão te julgar... Pelé, eles sempre souberam. Pelé sempre ajudou a quebrar barreiras. Mas eles vão te julgar por aquilo que você apresentar a eles. Pela sua postura, pelo seu grau de convicção. Por isso que o autocontrole é muito importante. Porque se você fica desesperado, não vai passar uma boa imagem.

Ou eles vão pensar Por que esse cara está tão nervoso Por que ele está aqui É um mundo onde para eles puxarem o gatilho E te eliminarem é muito fácil

E aí em 1922, então, se assume o Câmera Record, né? Sim. E no mesmo ano, foi 23 dias cobrindo a guerra entre Rússia e Ucrânia, diretamente de Kiev. Como que foi? Como que funciona isso? Cabrini, eu vou cobrir uma guerra. Qual é a negociação? Como que é a parte de organização? A equipe, a televisão, alguém de lá? Como que funciona isso? Eu não faço ideia. Você tem uma ideia, né? Eu quero ir lá e ver em loco. Em primeiro lugar... Eu quero ir lá.

seu telefone de um repórter que nunca deixa de... É só mulher querendo cantar parabéns aí de novo, achando que você está entre sequenciladores agora. Mas então, em primeiro lugar, eles têm uma confiança bem grande pela experiência, já cobrimos oito conflitos internacionais e a cada conflito que você cobre, você vai evoluindo, você vai tendo experiência, principalmente autocontrole.

O fundamental para um jornalista em zonas de conflito é o autocontrole e o conhecimento do terreno onde você está pisando. Mas, por exemplo, a Ucrânia era a primeira vez? Era a primeira vez na Ucrânia, mas já tinha cobrido vários conflitos internacionais. E como foi o contato? Você foi atrás de quem? Olha, então nós entramos, o objetivo era chegar em Kiev.

E foi algo... Essa foto é onde? Essa foto é a caminho de Kiev. Como que foi a estratégia, então? Era chegar por onde? Então, o grande desafio de você cobrir a guerra da Ucrânia era conseguir chegar a Kiev. Certo.

Porque a única forma de você conseguir chegar até Kiev era por um trem... Que vinha da Polônia? Não, que vinha da fronteira com a Polônia. Todas as outras entradas estavam fechadas. Estavam bloqueadas, estavam fechadas. Então, para você conseguir entrar em Kiev, você tinha que tomar um trem, e o único trem que chegava até lá era um trem noturno. Certo. Então, o que acontecia?

Quando você se aproximava de Kiev, todas as luzes tinham que ser apagadas. Do trem? As internas. As luzes internas. Por quê? Porque nesse momento que a gente se aproximava de Kiev, era o momento em que os russos estavam mais próximos. Meu Deus! E aquela foto que você viu é exatamente a caminho disso. Era ali perto da...

É perto da região onde os ursos estavam. Os ursos chegaram a ficar a 30 quilômetros de Kiev. Eles se aproximaram profundamente. Acho que deve ter outras fotos. Tem outras fotos? Bom, enfim. Então, o momento mais crítico foi o momento de você se aproximar. A única forma de você se aproximar de Kiev...

era através desse trem. Não havia outra forma de você chegar. E esse trem, durante 10 minutos, todas as luzes eram apagadas e você torcia, ou rezava, dependendo daquilo que você acreditasse, para não ser alvejado. Porque qualquer luminosidade poderia fazer com que as tropas russas que estavam cercando Kiev te atacassem.

Então é uma tensão... E foi justamente nessa época em que o jornalista do New York Times morreu nas proximidades. Quando o jornalista do New York Times morreu, nós estávamos a 10 quilômetros de onde ele estava. Nossa! Então você pode calcular o tipo de tensão que existia. Os ataques aconteciam sempre de madrugada.

você acordava muito cedo para saber qual a extensão da destruição que tinha sido provocada pelos ataques. Eram sempre destruições muito intensas, com perdas civis, perdas militares, e a gente viveu essa rotina por aproximadamente...

20 dias ali em Kiev, no momento mais crítico, porque os russos achavam que tomando Kiev a guerra acabaria. E eles de fato estiveram muito próximos, mas ali com a ajuda da União Europeia, com a ajuda dos armamentos americanos.

que no começo da guerra era uma ajuda muito grande. Atualmente, essa ajuda que passava de bilhões de dólares, hoje ela não passa de 300 mil dólares. Por quê? Por causa da guerra no Irã. Mas naquele momento...

Essa ajuda da União Europeia e também a ajuda dos Estados Unidos, que começou a chegar, mudaram totalmente o cenário. E os russos já não estão mais perto de Kiev. Nesse instante, a Ucrânia conseguiu produzir danos muito importantes.

Mas mesmo assim, se você considerar a situação atual, no momento cerca de 20% do território ucraniano está tomado pelos russos. Luhansk, Donetsk, a Crimea estão em poder os russos. Mas a Rússia não conseguiu avançar da maneira que pensava que iria avançar e com perdas muito grandes.

Os russos já tiveram 330 mil perdas. Já os ucranianos perderam 155 mil pessoas. Ou seja, é a metade em termos de perdas. O importante é que eles conseguiram avançar e conseguiram controlar pelo menos 20% do território. Mas é uma guerra que entra no seu quarto ano e sem perspectiva de solução.

Esse é o problema, todo mundo achava que ia ser uma resolução rápida e não foi. Esses são os territórios tomados. Exatamente, onde se destacam Donetsk, Luhansk, Lugansk e a Crimeia, que veja ali mais ao sul. E o trem que você pegou vinha lá por cima. Exatamente, até que era.

Hoje em dia os russos não estão mais próximos. Ah, não? Não, não estão. Está mais seguro agora. Está mais seguro em Kiev. Mas é uma guerra onde a solução ainda não está vista. Mas o que mais assusta no mundo hoje em dia é que nesse instante que nós estamos conversando existem 130 conflitos. Como assim? 130 conflitos em 70 países.

E a gente só sabe que são maiores. Nunca houve tantos conflitos desde a Segunda Guerra Mundial. Nunca o mundo esteve em tamanho perigo. Se você considerar, por exemplo, a Guerra do Sudão, que é um dos cinco conflitos maiores, que poucas pessoas ficam sabendo, se você abrir os jornais hoje, não vai falar da Guerra do Sudão.

Mas é uma guerra entre forças paramilitares e forças do exército que controla. É uma guerra que produziu mais de 300 mil mortos. A guerra, por exemplo, em Mianmar, que já produziu mais de 10 mil mortos do governo que foi deposto contra rebeldes.

Você praticamente não fica sabendo disso. Então, é uma série de conflitos, a maior parte na África, sem soluções à vista. Claro que, nesse instante, o conflito mais importante é Irã e Estados Unidos, que é um conflito que atinge toda a população mundial, está sendo afetada por causa do estreito de Hormuz, por causa do petróleo, mas, nesse instante, conforme eu te falei, existem conflitos.

que você não encontra no noticiário internacional, mas que não deixam de produzir destruição, mortes e pessoas que são deslocadas. A pior tragédia de uma guerra são os milhões de pessoas que são deslocados de onde vivem, os refugiados. Essa é a parte mais trágica de uma guerra, além, é claro, das mortes civis. E são sempre os civis quem mais morre.

E sem contar os possíveis próximos conflitos. Cuba pode acontecer alguma coisa. Taiwan pode acontecer alguma coisa. Mas vamos falar ainda, para terminar, da Ucrânia. Que histórias que você escutou lá? Dos ucranianos ou dos russos? O que você sentiu estando em loco lá?

Bom, a gente tem que lembrar que Kiev, de fato, era uma das capitais mais importantes do grande Império Russo, depois que virou Império Soviético e voltou a ser Império Russo. Então, você tem que imaginar que a Ucrânia era parte da Rússia, então há uma explicação bastante lógica.

Da União Soviética. E então existe uma legitimidade nos argumentos russos. Isso é indiscutível. Mas, por outro lado também, a grande maioria da população da Ucrânia, com exceção a 20% dela, quer fazer parte da União Europeia. Então existem argumentos válidos nos dois lados.

E nesse instante, o final mais possível seria a Rússia continuar dominando essas áreas, que já está, 20% estão sob controle. Mas a estratégia do Putin, nesse momento, é conseguir avançar ao máximo para depois negociar em condições mais favoráveis. E ele se beneficia enormemente do conflito no Irã, onde os americanos deixaram de apoiar grandemente, dar um apoio bélico importante para a Ucrânia.

Mas o que eu mais pude constatar ali é que o ucraniano está disposto a morrer pelo país. Porque sempre foi feita essa propaganda divulgada pela Rússia, que eles resolveriam a guerra em semanas, porque, na verdade, a Ucrânia gostaria de voltar a ser controlada pela Rússia. E isso não aconteceu.

A população ucraniana se mostra em sua maioria, não na sua totalidade, existem essas regiões que estão sob domínio, elas estão sob domínio principalmente porque grande parte da população de fato apoia a Rússia, esse é um fato. Mas a maior parte do território não deseja fazer parte da Rússia, e sim da União Europeia.

enquanto a Rússia não aceita de jeito nenhum que a Ucrânia, que estrategicamente tem uma importância vital para a segurança da Rússia, fique sob o controle da União Europeia. Por isso que eu não vejo solução à vista, porque é uma questão geopolítica muito difícil. Nós estamos falando de um território muito rico em termos da agricultura e muito rico em termos de terras raras.

A Ucrânia tem uma reserva de terras raras altamente importante. E grande parte do que você assiste hoje é o direito pelo controle das terras raras. Inclusive, faz parte da negociação para que os americanos voltem a investir mais no fornecimento de armamentos e no fornecimento econômico de que os americanos tenham maior controle das terras raras também. Essa é uma das discussões mais importantes que raramente aparecem.

Raramente aparece a discussão no noticiário internacional, mas é o que está no tabuleiro nesse instante.

Pois é, porque a maior área que quem tem é a China, segundo o Brasil, e a Ucrânia tem grande área. Tem uma reserva estratégica fundamental para algo que vai se tornar cada vez mais importante, à medida em que a tecnologia, em que os computadores se tornam vitais para qualquer tipo de país. Inclusive na guerra, né? Sem dúvida. Guerra de drones. Mas vamos falar então do ataque de 7 de outubro. Você esteve lá, o que você viu? Eu também estive lá um mês depois dos ataques.

Você visitou o Kibbutz, conversou com as pessoas. O que você sentiu daquele... Acho que é o maior ataque do Hamas, que não tinha acontecido sem precedente. É, se você colocar...

Se você fizer um gráfico aí, você vai ver que nesse instante, perto de 80 mil palestinos morreram, 1.400 israelenses morreram. Mas a maior parte das mortes aconteceu em um ataque bárbaro, em um ataque onde todos os direitos humanos foram desrespeitados. E eu consegui chegar praticamente dois ou três dias depois na festa rave que acontecia, onde aconteceram os ataques.

Perto da fronteira, como tive nos kibbutz mais atacados também. Então, e esse conflito, eu estive na zona mais atingida durante três vezes, a gente até acabou de ganhar um prêmio, o prêmio Dave Awards, que é um prêmio internacional muito importante, porque a gente esteve na zona de conflito. Então, o que eu posso dizer para você é que todos os lados têm as suas razões.

A gente tem sempre uma tendência a cobrir guerra como se fosse uma causa maniqueísta. Guerra não é o bem contra o mal. Guerra, todos têm interesses, a maior parte dos interesses são econômicos, esses interesses econômicos usam questões religiosas para prosperar. Mas é indiscutível que esse ataque de 7 de outubro foi um ataque bárbaro, um ataque covarde, mas...

Também não podemos esquecer que mais de 75 mil palestinos morreram na faixa de Gaza. É um dos lugares mais destruídos. Cerca de 5% da população foi aniquilada. Gaza, hoje em dia, virou uma montanha de escombros. E a proposta feita pelo Donald Trump é basicamente absurda. Fazer daquilo um grande resort. Então, isso jamais vai prosperar.

porque eu acredito que é preciso ter uma visão mais realista. Sim, o grande problema nesse instante é a discussão de qual vai ser o papel do Hamas nessa reconstrução. Israel defende que o Hamas seja totalmente aniquilado.

Mas a realidade é que o Hamas, politicamente, ele sempre vai ter uma influência, de maneira velada ou não. É impossível você eliminar totalmente o papel do Hamas nessa guerra. Então é por isso que nós estamos em um impasse muito grande, onde é difícil a gente encontrar soluções que, de fato, permitam uma paz naquela região.

Pois é, a foto que vocês colocaram é em Israel? Essa foto. É, isso, exatamente. Ah, aí é o lugar da rave, não é? Isso, exatamente. Eu estive lá também. Isso, exatamente. Esse lugar da rave é triste, né? Tem gente que... Do Festival Nova. É, sim. Se esconderam no lixão, né? Outros se esconderam dentro de ônibus e tal e os caras foram lá e mataram, né?

Foi um ataque covarde que visou civis. Isso é inconcebível em todas as regras, independente da ideologia que você possa ter. A maneira com que o ataque foi executado é inadmissível.

Mas também é claro que você pode questionar, né? Os civis que morreram em Gaza. É uma desproposição muito grande. 1.400 contra perto de 80 mil. É uma desproposição bastante grande. Com certeza. Você pode ser contra o Hamas, a favor da Palestina e a favor de não morrer Palestina e não morrer judeu. Dá para ter as coisas. Você não precisa tomar um lado, né?

Sem dúvida, sem dúvida. Eu acho que, antes de tudo, você precisa ser a favor da paz, e a favor da população civil, e a favor da democracia. É muito difícil que uma solução seja encontrada. Também não vejo num cenário tão curto. E o que você sentiu da população? É medo? É raiva? É sentimento de vingança? A população está anestesiada, porque ela é uma população acostumada a esse tipo de atrocidade.

O que é até... O que esse medo é constante de ataque? Olha, décadas a fio de conflito fizeram as pessoas se acostumarem com tudo, com essas atrocidades. Isso não significa que a população aceite isso.

mas significa que você fica a guerra, fazendo parte da sua rotina, você sempre tem alguém próximo da sua família que morreu, isso é verdadeiro, principalmente em Gaza. Eu estive em Gaza, entrevistei Yasser Arafat, do Fatah, num dos momentos mais difíceis, onde Gaza estava sendo totalmente destruída, e a entrevista com Yasser Arafat foi feita dentro de um bunker.

E é difícil você constatar que nada mudou. Claro que naquela época o Fatah, que é relativamente mais moderado, embora o Arafat tenha sido considerado como terrorista durante muitas vezes, mas a situação não mudou muito. Ela continua. Os radicais, e existem radicais tanto no lado israelense como no lado palestino, nós não podemos...

esquecer que a extrema direita israelense é tão propagadora de destruição quanto a extrema esquerda representada pelo Hamas.

Uma solução só poderá acontecer quando os moderados forem mais ouvidos, o que a gente já verificou em determinados momentos da história, Chimão Pérez e tal, mas existem os radicais que não permitem que os moderados prosperem. E esse é um instante onde os radicais, tanto do lado israelense quanto do lado palestino, têm maior influência geopolítica.

Você chegou a perguntar para ele sobre o Netanyahu? Porque eu vi várias, quando eu fui lá, tinha manifestação contra o Netanyahu. E depois com a guerra, meio que todo mundo falou, agora é o momento de se unir, mas existe uma grande rejeição a ele. O Netanyahu foi muito beneficiado pela guerra, ele usou a guerra para permanecer no poder. Se não fosse o 7 de outubro, provavelmente Netanyahu não estaria mais no poder, porque contra ele existem denúncias de corrupção, denúncias importantes de corrupção.

e ele fez com que a guerra se tornasse uma pauta mais importante, e com isso ele conseguiu se manter no poder. Mas o maior beneficiário desses conflitos, politicamente, é o próprio Netanyahu, que não estaria mais no comando da nação se não fossem esses conflitos.

E aí vai engatando uma guerra na outra. Agora a gente está nesse conflito do Irã. Teve um conflito ano passado, que foram aqueles ataques às instalações nucleares. E agora essa guerra, como você vê essa guerra? Também parece que o Trump toda hora anuncia um cessar-fogo, a guerra acabou, mas parece que ela não vai ter um final tão próximo também. É preciso a gente, em primeiro lugar, analisar as origens disso.

Tudo isso começa em 1979 com a Revolução Islâmica, quando a Revolução Islâmica, através do Ayatollah Khomeini, tomou o poder que estava em poder do Shah Reza Pahlavi, que ficou 38 anos no poder.

Então vamos comparar como era o governo de Reza Parlevi e como é o governo dos ayatolás, inicialmente do ayatolá Komeini. Havia abusos de direitos humanos dos dois lados. Claro que o Shah Reza Parlevi primava pela proteção dos direitos ocidentais e por isso ele se manteve no poder.

Mas é claro que também é uma hipocrisia. Os americanos sempre fazem as invasões pelos direitos humanos, mas, ao mesmo tempo, um dos seus principais aliados, que é a Arábia Saudita, é um dos países onde mais os direitos humanos são desrespeitados. Uma grande ditadura que não tem qualquer tipo de respeito pelos opositores. Então, é uma demagogia muito grande.

Mas o que a gente tem que comparar é que o governo de Reza Paleve, que era um governo autocrático, era um governo que não respeitava os seus opositores, que matava impiedosamente os seus opositores, da mesma maneira que o governo dos ayatolás mata os seus opositores.

não existe nenhuma diferença importante em termos de respeito aos seus opositores. A diferença é que era um governo autocrático, hoje em dia é um governo teocrático, um governo dominado pela religião, onde as vozes discordantes são igualmente desrespeitadas.

O cenário mais importante aí é a questão nuclear. A gente tem que lembrar que, nesse instante, o Irã tem perto de 200 ou 300 quilos de urânio enriquecido a 60%. Urânio que é utilizado para a construção de bombas atômicas é urânio enriquecido a 90%. Mas existem muitos especialistas que acreditam...

que esse urânio enriquecido, que o Irã, com a tecnologia muito avançada, nós estamos falando de um dos países mais cultos do mundo. Estamos falando de um império persa, 2.500 anos, Ciro, de 550 a.C.

controlou a Babilônia, conseguiu vencer o exército da Babilônia, que era algo impensável, que depois foi sucedido por Dário, que construiu estradas modernas, que tinha tolerância religiosa e que, perto do ano 300 a.C., foi dominado por Alexandre o Grande. Mas estamos falando de uma civilização...

profundamente desenvolvida através dos anos. E um país que tem muito orgulho dessa civilização. Sim, é um governo teocrático, sim, há uma grande oposição às vozes discordantes, mas continua sendo uma sociedade muito culta.

E a razão principal, claro, da questão que tem a ver com a questão israelense, é o desenvolvimento de bombas atômicas, a possibilidade, o Irã sempre defendeu a tese que essa cultura, essa tecnologia nuclear, ela se propõe apenas a questões energéticas, que os americanos não concordam, que os israelenses não concordam. É difícil você provar...

com total certeza de que o programa nuclear iraniano é um programa bélico. Existe muita desconfiança, mas existem também muitas vozes que garantem que não há uma evidência de que não seja apenas um programa energético que é vital para qualquer tipo de civilização.

Então, eu não vejo nada sendo resolvido, porque eu não vejo qualquer tipo de disposição. Nós estamos, nesse instante, com pelo menos... Tem a ver com o petróleo, tem a ver com a China. Bom, 18 líderes importantes do Irã foram eliminados, a começar pelo Khamenei, o Ayatollah Khamenei. Mas, mesmo assim, o poderio de resistência do Irã ainda continua considerável.

Achava-se que derrubando a cabeça o próprio povo iria... O Trump achava que aconteceria no Irã a mesma coisa que aconteceu na Venezuela. Uma ação de poucos dias, onde ele foi lá e tirou o Maduro como quis, e que ele faria isso facilmente no Irã. Não foi assim.

Vendo no mapa, olha o tamanho do Irã, a importância dele nessa região. É uma importância vital em um exército que está entre os dez maiores do mundo, é o sétimo maior exército do mundo, um exército muito bem equipado. Uma coisa é você combater o palestino, combater o Hamas na faixa de Gaza, ou até o Hezbollah, que é apoiado pelo Irã, que é no Líbano, o Hezbollah que está no Líbano.

Outra coisa é você combater o Irã. O próprio Irã consegue... O próprio terreno é complicado também. O Irã apoia o Hamas. Você está falando de um exército sunita.

de uma vertente sunita. E eles são chiitas. A parte que o Hezbollah é chiita. O Hezbollah é chiita, que é apoiado pelo Irã. O Hezbollah controla boa parte do Líbano, é apoiado pelo Irã. O Hezbollah sempre ataca o norte de Israel. O sul do Líbano tem uma influência muito grande no Hezbollah. E é preciso lembrar que o Hezbollah, que só existe pelo apoio do Irã...

ele tem uma importância muito grande na política libanesa. Quando o Israel faz uma pressão muito grande para o atual governo do Líbano para eliminar o Hezbollah, é um pedido ou uma exigência praticamente impossível, porque o Hezbollah é mais bem equipado, mais forte em termos bélicos, do que o próprio exército do Líbano. Então é impossível isso acontecer. E ele, é claro, tem um apoio.

muito grande do Irã, e o Irã tem um exército muito desenvolvido. Por isso que é muito difícil você conseguir enxergar uma solução à vista, porque o Irã tem ali, na Síria, por exemplo, ele tem, na Síria e no Iraque, ele tem braços importantes, braços militares importantes, como tem no Hezbollah. O Hezbollah é o mais importante.

Então, eu não vejo uma situação de fácil controle. Achava-se que com a eliminação dos 18 principais líderes, o Irã facilmente iria se render. Isso não aconteceu. Então, nesse instante, nós estamos com uma paz.

frágil, uma trégua frágil, que a qualquer momento a guerra pode ser retomada. E se for retomada, não há uma previsão de uma solução muito simples, porque existem aqueles players que também têm interesse nessa guerra. A China está sendo altamente beneficiada por essa China, por esse conflito. Da mesma forma que a Rússia está sendo... Com a Venezuela ela foi prejudicada.

foi prejudicada. A China, ela tinha um acesso ao petróleo da Venezuela muito grande. É mais barato, né? Muito mais barato. A China, durante muitos anos, ela teve acesso ao petróleo da Venezuela a um custo muito baixo. Então, essa guerra, ela esconde fatores ou players, como se fala.

no mundo da geopolítica, muito maiores do que simplesmente Irã e Estados Unidos. Você não pode já considerar a Rússia, que está sendo beneficiada, porque nesse instante o apoio que era dado para a Ucrânia pelos americanos não está sendo mais na mesma escala. E está vendendo mais combustível.

Sem dúvida. Então tem essa questão do petróleo, é uma questão que afeta pelo menos diretamente 2 bilhões de habitantes em todo o mundo, entendeu? Verdade. Então eu não vejo uma solução à vista nesse instante. E como funciona o teu trabalho, por exemplo? Em que momento você decide, eu preciso ir para o Irã ou eu preciso ir para o Israel para cobrir essa guerra? De repente acontece alguma coisa, você fala, eu tenho que ir semana que vem, eu tenho que ir amanhã. Como funciona essa programação?

É claro que é uma decisão em colegiado. Toda a direção do jornalismo da Record toma parte. O Antônio Guerreiro é um grande jornalista, um homem apaixonado pelos jornalistas estarem na linha de frente. Nem sempre possível. Claro que eles se preocupam com a nossa segurança também. Estive muito perto de ir para o Irã. Talvez estamos analisando as autorizações. Eu imagino que não deve ser muito fácil. Mas, ao mesmo tempo...

você precisa estar no local dos grandes acontecimentos. Eu sempre digo que, onde houver uma grande história, nós temos que estar perto dela, porque só assim você consegue fazer o verdadeiro jornalismo. Claro que você tem que...

Se expura riscos, mas ao mesmo tempo você procura agir com uma certa racionalidade. Não estamos falando de ciências exatas, estamos falando de riscos, mas... Mesmo tomando todas as preocupações, o risco sempre vai existir. Sempre vai existir. Mas se um dia algo me acontecer, saibam...

que eu terei ido fazendo o que eu acredito ser importante, porque eu acredito que a nossa função é de prover boas informações para que as pessoas tomem decisões melhores. Eu acho que disso depende a paz. A paz mundial depende da conscientização das pessoas e depende do combate à manipulação. Nada nos deixa mais próximos de uma terceira guerra mundial em grande escala do que a manipulação da informação.

Você acha possível a gente caminhar para uma terceira guerra? Nunca estivemos tão próximos disso. Guerra Mundial hoje em dia diz respeito à China, diz respeito à União Europeia, a Estados Unidos, a Israel. Esses são os players mais importantes do momento. Verdade. Tem aquele relógio do apocalipse, que nunca esteve tão perto da meia-noite. Sem dúvida. Você ganhou vários prêmios. O prêmio do Missão Israel por trás das câmeras venceu o prêmio internacional David War Awards e o do Coyote.

Como que foi essa cobertura no México do pessoal que atravessa para os Estados Unidos? A gente achava que era impossível você fazer uma grande matéria sobre a questão da imigração ilegal. É, porque imagina o que tem envolvido nisso, de grana, de armamento.

Principalmente os cartéis. Ah, é? Os cartéis de drogas. Eles estão por trás? Eles estão por trás disso. Eles ganham muito dinheiro com isso. Eles ganham dinheiro com isso. Ah, o dinheiro direto. Eles usam a estrutura dos cartéis. Para passar drogas também? Para passar drogas também e para passar pessoas. Então, eles faturam em cima disso.

Então, os principais caminhos da imigração ilegal passam pelo controle dos grandes cartéis de drogas que operam na região. Então, nós conseguimos mostrar tudo isso. Como foi a negociação? O que você pode falar? Imagino que algumas coisas você não pode falar, mas o que se pode falar sobre essa negociação para conseguir isso?

A negociação passa por você mostrar todos os lados pertinentes dessa história. Mostrar que você vai ter uma cobertura crítica ao imperialismo americano, mas que você também não vai deixar de mostrar que os cartéis de drogas estão envolvidos nisso.

e que você vai fazer uma cobertura onde todos serão ouvidos. Para isso ajuda muito o seu histórico. Eu tive que pedir autorizações para narcotraficantes, e sem eles eu não conseguiria ter acesso, porque são eles que fazem com que os imigrantes que pagam altas quantias...

E muitas vezes você paga pelo menos uns 5 mil dólares, entendeu? Para pessoa. Exatamente, para ter proteção, para ter acesso às falhas da imigração americana, que está muito presente ali.

É uma viagem que você não tem nenhuma segurança de que você vai conseguir. É uma garantia, né? Nenhuma garantia de que você vai conseguir penetrar nos Estados Unidos. E nós acompanhamos esses imigrantes que estavam sendo levados para ultrapassar a fronteira. Claro que a gente não ultrapassou a fronteira, porque aí estaríamos cometendo uma ilegalidade. A gente não pode cometer uma ilegalidade para mostrar que ela é possível.

Mas nós mostramos todos os caminhos e procuramos fazer uma cobertura onde sempre buscamos a imparcialidade. Mostramos a perspectiva americana, mostramos a perspectiva social, a imigração ilegal, ela caminha junto com a grande crise humanitária social que passa pela humanidade. As pessoas só passam por tantos riscos, só aceitam passar por tantos riscos porque elas não têm condições no seu...

na sua origem, se elas tivessem uma vida digna. Quem quer sair do teu espaço, da tua casa? Então tudo isso precisa ser mostrado. A imigração ilegal é, antes de tudo, um fenômeno social. É isso que a gente procurou demonstrar. Mas foi algo muito difícil do ponto de vista físico, porque a gente precisou caminhar com eles.

Então, é uma caminhada muito extenuante, você passa ali pelo deserto, e a gente ficou três dias com eles, entrevistando os principais personagens, mostrando todos os riscos, e foi realmente uma reportagem muito marcante, porque é a primeira vez que se mostra no próprio teatro dos acontecimentos.

O que está em jogo em uma imigração? A hipocrisia, o lucro fácil, os cartéis de drogas envolvidos. E o desespero, né? O desespero, a falta de uma visão, de uma tolerância com o processo de imigração por parte do governo americano. Nós não podemos deixar de ter uma visão crítica da forma com a qual o governo americano tem tratado os imigrantes nos últimos anos. Isso é inquestionável.

Tudo isso precisa ser demonstrado, mas você precisa também, ao mesmo tempo, fugir da armadilha do Fla-Flu, direita versus esquerda. Isso não é fácil.

E esse documentário, O Coyote, ganhou o prêmio de direitos humanos de jornalismo. Sim. É bem interessante, você encontra no YouTube esse documentário, onde a gente procura contemplar todos os tipos de visão. Você tem algum desses documentários, alguma dessas matérias que você acredita que tem mais o teu DNA que você prefere ou cada um tem a tua história?

Olha, o Roberto Cabrini está impregnado em cada uma dessas matérias. Eu hoje, com mais de 40 anos de profissão, eu posso dizer que... 40 anos de profissão. De profissão, exatamente. Eu posso dizer para você que eu já cobri praticamente de tudo. Claro que você vai ter que ter um destaque muito grande para as coberturas de guerra. Mas vamos falar da enchente também.

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como também o empresário que roubou um depósito público do Rio de Janeiro e foi se esconder em Moçambique. Enfim, a gente tem muitas experiências nisso, porque quando a pessoa foge...

imediatamente você tem que procurar mapear as pessoas que cercam. E mais cedo ou mais tarde, essas pessoas acabam cometendo erros. Mas nada é mais difícil de cobrir do que investigar a banda podre da polícia. Ah, é? Porque você se depara...

com setores da polícia, a maior parte da polícia é composta por profissionais honestos e que não concordam com isso. Mas quando você fala de banda podre da polícia, você está falando de pessoas que usam instituições e essas instituições para perseguir, para ameaçar, para evitar que você se aproxime da verdade e ameaçam não só você, como pessoas ligadas a você. Eu costumo dizer que denunciados não mandam flores.

É verdade. Denunciados fazem todo tipo de ação para te intimidar, para que você não se aproxime da verdade. Que tipo de ameaças você já recebeu? As mais variadas, as mais variadas. Mas eu digo para você que ninguém te ameaça se você não estiver diante de fatos importantes. É fundamental para você sobreviver, você demonstrar que você não está fazendo uma investigação que você não está fazendo uma investigação.

por perseguição pessoal. Você não está perseguindo um indivíduo. Você está fazendo uma matéria porque se trata de algo importante para a sociedade. E mesmo que essa pessoa depois reincida, você às vezes tem que abrir mão de mostrar que essa pessoa está reincida. Eu não vou citar nomes, mas eu já me deparei com grandes...

líderes de facções criminosas, que nós mostramos estarem cometendo grandes atrocidades, com a conivência de setores públicos, porque as organizações criminosas só conseguem caminhar porque elas têm braços, tentáculos em todas as instituições.

Mas, às vezes, quando você se depara com a pessoa reincindindo, você é obrigado a abrir mão para que aquilo não seja visto como algo pessoal. Você está perseguindo. Então, a estratégia é capaz de salvar a sua vida. Claro que eu falei de uma forma um pouco mais subjetiva, porque não quero citar nomes. Eu aprendi.

com anos de profissão que você não deve citar nomes. Mas as matérias estão aí para serem vistas, desde a investigação que identificou a pedofilia da Igreja Católica no Brasil, quando foi a primeira vez que a Igreja Católica, que o Vaticano, admitiu...

Casos de hiperofilia cometidos por religiosos no Brasil, isso nunca tinha acontecido, o filme Spotlight até reconheceu esses casos, ou quando nós mostramos braços da polícia que recebiam, por exemplo, Persefarias fugia porque ele dava uma mesada para determinados setores para não ser localizado. Então, se ele estivesse em Londres, a polícia o procuraria em Bangladesh.

Se estivesse em Bangladesh, a polícia procuraria na Indonésia. Era assim que acontecia. Hoje, infelizmente, a Polícia Federal, que antes era muito contaminada, hoje é uma polícia modelo, hoje é uma polícia admirada no mundo inteiro, porque ela conseguiu se livrar. Mas o fato é que essa contaminação da polícia é um dos principais inimigos e hoje em dia o crime organizado, e se fala aí das grandes organizações, PSPCC, Comando Vermelho...

Esse crime organizado está infiltrado nas nossas principais instituições. Isso é algo profundamente difícil de ser combatido, porque estamos falando de uma indústria profundamente lucrativa, que dá muito dinheiro.

Ele está infiltrado em vários ramos. No narcotráfico, no tráfico de drogas. Posto de gasolina é a maneira de lavar dinheiro. Posto de gasolina é a maneira mais prática de se lavar dinheiro. Contrabando de cigarro. Contrabando de cigarro, com certeza. Mas eles conseguem prosperar e nunca deixaram de crescer exatamente porque eles têm infiltrações nos mais importantes setores. Na política, na polícia e vamos lá. Exatamente. Aí não convém citar novos. Exato.

E como faz para entrevistar um assassino, um criminoso, um traficante? Qual é a tua preparação em relação a isso? Primeiro, que você tem que ter uma negociação para ver se ela aceita. Não é pago cachê, certo? Não. Eu sou totalmente... Existem aqueles que pagam. Eu sou totalmente contra. Eu já falei várias vezes que sou contra. Eu acho que o crime não pode ser remunerado.

senão compensa, né? Não, eu sou totalmente contra isso. Porque teve essa discussão agora com o seriado, o filme da Richtofen, né? Sim, sim. Dizem que pagaram. É preciso lembrar que isso já foi feito em várias partes do mundo, né? Já foi feito? Mônica Luins, que vai, do caso do Bill Clinton. Pagaram? Pagaram, né? A Barbara Water a entrevistou.

foi pago. Existem aqueles que defendem. Eu acho que é defensável se você for transparente. Olha, essa pessoa está dando entrevista e está recebendo esse cachê. E isso não vai influenciar nas pessoas? Mesmo assim, eu discordo, porque acho que quem comete um crime e ganha para dar uma entrevista, você estaria próximo de remunerar o crime.

Hoje em dia, com o streaming, com os episódios de True Crime, se tornou cada vez mais comum. Mas eu continuo com a minha mesma posição. Eu sou contra se remunerar criminosos para dar entrevista. Como eu convenço? Foi a sua pergunta original. Você negocia ou a tua equipe vai antes negociar? Quando eu falo negociar, eu falo em convencimento. Mas negociação envolve valores. Como vai ser? Eu vou sentar aqui, eu vou te perguntar. Parte do seguinte princípio, Rogério.

Essa entrevista é com... Ah, tá. Como que é, então, Cabrinho? Então, esse foi o caso do Jairinho, né? Entrevistei. Mas, enfim. O que eu posso te falar é o seguinte. Que todo ser humano, por pior que seja, ele tem direito de mostrar o seu lado da história. Existem aqueles que acham que quando você entrevista um criminoso, você estaria glamourizando o crime.

Mas quando você entrevista um criminoso, e os grandes criminosos deram entrevista no mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos, o assassino John Lennon deu entrevista para o Larry King, por exemplo, você está propiciando que a sociedade possa se proteger mais. Entrevistar não significa avalizar, significa...

entender como funciona aquela mente. E você tem que partir do princípio que todo ser humano tem direito de apresentar o celular da história. O entrevistado, eu digo sempre, que tem até o direito de mentir.

Cabe a você fazer as perguntas devidas sob o ponto de vista da sociedade. Eu sempre digo que as melhores perguntas... Você coloca no lugar de quem na hora que você está entrevistando esse tipo de entrevistado, que é diferente de um entrevistado comum, claro. Primeiro lugar, você sempre entrevista sob o ponto de vista da sociedade. Da proteção à sociedade. Senão, a entrevista não vai ter sentido. Claro. Entendeu? Você está entrevistando para propiciar que a sociedade...

Ou entenda como funcionam essas mentes. Não é um bate-papo informal. Não. Você possibilita e o entrevistado tem o direito de mostrar o seu lado da história. Tem o direito de se defender. Eu sempre digo, Rogério, que repórter não é juiz, repórter não é promotor, repórter não é delegado. E não é psicólogo. Não é psicólogo. Repórter é a janela.

E a janela não pode ser culpada pela paisagem. Então, quando você entrevista, você permite que a sociedade tenha acesso a entender como funciona uma determinada perspectiva para que, inclusive, possa se proteger melhor.

E ao entrevistado, você sempre assume o compromisso de que você não irá julgá-lo. Isso é fundamental. Eu não estou aqui, se eu vou entrevistar um criminoso, para julgar. Eu estou aqui para fazer as perguntas devidas.

Se a pessoa fala, olha, eu dou entrevista, mas você não pode perguntar isso, eu não aceito dar entrevista. Ah, você coloca esse tipo de... Você vai ter todo o direito de apresentar o seu lado da história. Existem muitos casos que quando o entrevistado vai mal na entrevista, aí depois culpa a edição, né? Quando na verdade ele que não foi bem na entrevista. Isso aconteceu várias vezes.

Mas o fato é que, inúmeras vezes, o entrevistado consegue mostrar o seu ponto de vista e consegue fazer com que muitas pessoas possam analisar o que ela fez sob uma outra ótica, enfim. Mas isso não depende do entrevistador. O entrevistador está ali para permitir que o entrevistado apresente o seu ponto de vista e permitir que a sociedade entenda aquele ponto de vista, mas jamais julgar. Quando eu entrevisto alguém, por exemplo, Eduardo Cunha, que foi um...

Um homem muito importante no cenário político, pivô de um escândalo político. Eu não faço comentários nem análises sobre a ação dele antes, nem durante e nem depois. É comum que as pessoas me procurem depois, quando eu faço uma determinada entrevista com esses personagens, para saber, mas aí, o que você acha? A pessoa é culpada? Mentiu ou não mentiu? Eu nunca...

exerço julgamento. Porque seria uma quebra da confiança. Mas às vezes você não tem o sentimento... Você tem certeza que ele está mentindo? Tenho, tenho. E aí? O tempo todo. E aí eu transformo isso em boas perguntas. Ah, tá. O que são boas perguntas? É comum as pessoas levarem um questionário com inúmeras perguntas. Certo. Acho bacana isso. Mas isso é problemático se isso fizer com que a pessoa não faça o que você está fazendo comigo nesse momento. Olho no olho. Quando você está...

tendo o contato olho no olho, expressão facial, expressão corporal, você está conseguindo ferramentas para fazer perguntas melhores. As melhores perguntas não são constantemente as pré-estabelecidas. São aquelas que surgem de respostas incompletas. Porque você sente na voz dele, no jeito de responder, a próxima pergunta já vem da própria resposta dele.

As melhores perguntas nascem de respostas incompletas, desde que o entrevistador esteja atento àquela deixa. Muitas vezes, o entrevistado está querendo revelar algo. Ele está quase que te pedindo. Mas cabe a você saber qual é o caminho que você vai percorrer. Qual é o flanco.

que se abriu numa resposta incompleta. Tem algum exemplo que você lembra de... Pô, essa pessoa falou alguma coisa que ela provavelmente não falaria em outra entrevista. Ela revelou alguma coisa importante. Muitos casos, muitos casos. Mas tem algum exemplo assim?

Eu poderia, por exemplo, citar o caso da entrevista com o Fernandinho Beira Mar, que é uma entrevista muito repercutiva, tem mais de 40 milhões de visualizações em perfis diferentes.

onde a negociação foi muito difícil, porque ele falou assim, não, eu sei que você está aqui para manipular a entrevista, fazendo perguntas que vão conter o julgamento. Não, eu não estou aqui para te julgar, estou aqui para permitir que você apresente o seu lado da história. Tá bom, mas você vai ter que fazer da seguinte forma.

a cada resposta que eu der, nós vamos voltar à gravação para ver se eu gosto daquilo que eu respondi. E se eu gostar, eu permito que isso continue. Senão, eu vou levantar a cadeira e não vou dar essa entrevista.

Aliás, já começou desde o princípio. Eu não fui entrevistar o Fernandinho Benamar. Eu fui entrevistar o Nen da Rocinha. Mas no último momento, o Nen da Rocinha, que é um rival arqui-inimigo do Fernandinho Benamar, desistiu da entrevista. Mas antes do Fernandinho Benamar, ficou sabendo que o Nen ia falar. Se ele vai falar, eu também quero falar. Aí ele me recebeu. Aí ele topou da entrevista.

Entendeu? Mas aí, no último momento, eu não vou dar mais essa entrevista, porque eu acho que vocês não vão deixar eu apresentar o meu lado da história, vai ter julgamento. Aí eu falei, não, nós estamos aqui para ouvir o seu lado da história. E eu me decepciono, me decepciono muito com aquilo que eu tinha da sua imagem. Que imagem é essa? Não, eu sempre ouvi dizer que com o Fernandinho Beramar a palavra não tem curva.

Nossa, e eles levam muito a sério isso. Essa expressão eles levam muito a sério. Mas eu estou vendo que isso é balela. Entendeu? Você falou que você ia falar, agora você não está falando. Tá bom. Mas é o seguinte, a cada pergunta que você fizer, eu vou ter que parar a gravação para ver se eu gosto e continuar. E aí? Senão eu não vou... Então tá bom. Vamos fazer assim, dessa forma. Primeira pergunta. Então eu comecei, aí eu falei, vou fazer uma estratégia.

Eu fiz sinais para o meu cinegrafista, para que tudo aquilo que ele falasse, porque eu sabia que eu tinha um grande trunfo nessa entrevista. Qual era? A vaidade dele. Ele era um cara muito inteligente. E muito vaidoso. E muito vaidoso. Então, a cada resposta que ele dava, o meu cinegrafista...

Nossa, que impressionante. Mandou muito bem. E ele crescendo aqui. Resultado? Não passei um pouco mais leve. E depois a entrevista foi se intensificando. Foi falando das questões mais graves. E nós falamos duas horas. E eu não voltei em nenhuma.

pergunta. Em nenhum momento ele parou, não, isso aqui não. Em nenhum momento ele parou. Que fantástico. São estratégias. E cada pessoa é uma estratégia diferente. Você precisa sentir ali. O principal é você não ser arrogante, mas também não ser covarde. Ele sente isso. Ele vai te analisar, ele vai te medir. Se você demonstrar medo, ele monta em cima. Ele assume o controle.

Assume o controle. Mas, ao mesmo tempo, você não pode ser arrogante. É uma linha tênue. Sim, sim. Um equilíbrio. Mas, como eu te falei, cada entrevistado tem uma maneira de fazer. O principal é você fazer perguntas, mas nunca perder o seu autocontrole.

Eu costumo dizer que você precisa agir como se fosse um comissário de voo, em que o passageiro chega bêbado e profundamente alterado, e o comissário, bem treinado, fala, passageiro, por gentileza, quer retornar à sua poltrona? Então, o entrevistado pode perder a calma.

Pode perder a estribeira. Pode perder o controle. Você não. Exato. Você não pode discutir com o entrevistado. Ele pode levantar a voz. Você jamais. Como você faz? Para não entrar no mesmo... Treinamento mental. É muito difícil isso. É muito difícil. Já ouve...

No começo da carreira, houve momentos em que a pessoa começou a me ofender e eu comecei a dizer, você não pode falar isso. Ainda bem que isso não foi ao ar. Hoje você já saberia lidar com isso. Isso aconteceu, eu estava me entrevistando um contrabandista em Miami, estava fazendo perguntas importantes, aí ele começou a...

você começou a me ofender, a me xingar e tal. Eu falei, você não vai falar isso? Depois eu falei, eu nunca mais vou perder, nunca mais vou discutir com o entrevistado. Exato. Entendeu? E desde aquele dia, eu sempre mantenho esse autocontrole. Não é fácil. Claro.

É um processo evolutivo, é o mesmo processo que você usa para cobrir uma guerra, onde acontecem situações de risco e você precisa manter a calma, porque se você se deixar levar pelo desespero ou se deixar levar pela adrenalina, no caso de um entrevistado que te ofende, por exemplo, ou te ameaça, você não vai fazer um bom trabalho. Com um entrevistado que te ameaça, você precisa demonstrar sempre que você não o está perseguindo.

que você está fazendo perguntas pertinentes, inclusive para que ele tenha o direito de se defender. Perfeito. Vamos falar da cobertura, então, da enchente, daquele desastre que aconteceu no Rio Grande do Sul. Como que foi para você? Valeu.

Porque é diferente. Foi uma das missões mais difíceis. Além de ser uma tragédia, é no teu país. Bate diferente, não bate? Está mais próximo. Sem dúvida. E era um momento onde todos os lados estavam politizando a cobertura. Tentando politizar a cobertura. Culpa de quem? Quem está ajudando? Está ajudando por quê? O que é absurdo. Se está ajudando, está ajudando. Depois vê o que essa pessoa está fazendo. Por que ela está fazendo.

Então, a gente tinha que assumir riscos, a gente tinha que entrar em barcos, e havia uma discussão muito grande de número de mortos, onde os dois lados tentavam manipular isso e levar essa discussão para o campo ideológico. O caminho que eu adotei e que foi muito bem visto foi a de me ater estritamente a descrever aquilo que eu via.

sem jamais me deixar levar por aquilo que era trazido de informação, nem da direita e nem da esquerda. Porque na rede social estava uma loucura se você sabia o que era verdade e o que não era. Totalmente, porque foi uma cobertura onde a tentativa de politização foi imensa. Eu nunca vi os dois lados do Brasil, o Brasil hoje em dia tem dois lados, tudo vira Lula versus Bolsonaro, nunca vi tamanha tentativa de manipulação. Então você precisa demonstrar...

algo que tem se tornado cada vez mais raro, que você é um jornalista que busca a imparcialidade, que você não está fazendo uma cobertura sob o ponto de vista nem da direita e nem da esquerda. O que deveria ser óbvio se tornou mercadoria rara no país. E como foi lá? O que você viu com seus próprios olhos? Que sentimento? Eu vi um número de mortos muito maior.

do que era falado, eu vi corpos boiando e vi muita tentativa de se manipular a verdade. Pro lado de diminuir o número de mortes ou de aumentar também? De aumentar também, vi as duas tentativas. Mas também deve ter visto uma parte bonita da humanidade, do ser humano de ajudar. A melhor parte da cobertura foi que a situação só foi amenizada graças ao voluntariado. Eu nunca vi

Tantos voluntários. E, na verdade, a situação só foi amenizada porque a população gaúcha se mobilizou totalmente. Se não fosse a população gaúcha ter se mobilizado, a tragédia teria sido imensamente maior.

Mas até para se descrever isso, era preciso de muita precisão e de muito cuidado para que isso não resvalasse na polarização, na ideologização. Você teve em guerras e na enchente, no que aconteceu no Rio Grande do Sul, você viu mais mortos ou não? Você já viu em guerra uma situação pior de ver a morte perto de você?

Olha, muito semelhante. Muito semelhante. Em termos de destruição. Porque, por exemplo, se você falou da guerra da Ucrânia, onde eu estava lá em Kiev, eu estava muito perto, onde o jornalista americano do New York Times foi alvejado e morreu, foi assassinado. Como que morreu?

Ele morreu porque estava em uma região muito perto do avanço das tropas russas e era uma região onde havia um risco muito grande. E ele morreu alvejado justamente pelas forças russas. E ele morreu exatamente muito perto de onde a gente estava.

Então, o que eu posso dizer para você é que na cobertura do Rio Grande do Sul, eu vi uma destruição muito grande também. Mas nessa cobertura da Ucrânia, você saía para cobrir as áreas mais afetadas e prédios totalmente destruídos, crianças, mulheres, população civil, muita gente morta, mas você andava 2, 3 quilômetros e você encontrava restaurantes funcionando.

você encontrava as pessoas vivendo. Então, em determinado ponto, eu posso dizer que, em termos de destruição, por metro quadrado, a destruição que eu vi lá no Rio Grande do Sul era até maior, porque os ataques que eu vi ali em Kiev...

na zona mais grave, eles aconteciam em vários quarteirões, mas era uma área menor do que a área atingida no Rio Grande do Sul. No Rio Grande do Sul, você encontrava regiões onde havia vida, onde havia comunidades muito atuantes, totalmente transformadas em um mar de destruição, onde tudo estava destruído.

Então isso me impressionou. A área afetada era maior do que as de cobertura de guerra que tendem a ser localizadas ao ataque que foram feitos na noite anterior. E os ataques em zonas de guerra, invadialvelmente, eles ocorrem à noite. Isso é uma coisa que é muito comum. Qual que é a explicação? Porque as forças, as baterias antiaéreas têm mais dificuldade para proteger.

Você encontrou brasileiro lá na Ucrânia? Encontrei, encontrei inclusive brasileiros servindo os dois lados do exército. Ah, é? Existem mercenários brasileiros nas forças ucranianas. Nas forças não cabiam. Olha, a Rússia hoje tem combatentes de mais de 100 nacionalidades. E as forças ucranianas também. As forças ucranianas têm muitos brasileiros lá. Muitos brasileiros.

Pessoas que saíram daqui foram lá, se aliaram, né? Alguns por causa de dinheiro, outros por razões ideológicas. E o documentário Sena, 30 anos, o dia que não terminou, que também é muito premiado, que se produziu. Olha, foi muito marcante porque...

Eu reconstruí a história 30 anos depois. Eu fui o jornalista que mais esteve perto do Ayrton Senna nos últimos anos da vida dele. Era a minha função, cobria a Fórmula 1. E cobri no Fórmula 1 a sua função mais importante. Ela cobria os passos do Senna. Tudo que ele fazia era notícia.

E eu tinha uma relação muito importante com ele. O Senna me abriu muitas portas. Eu era um amigo importante. Viu a série? Vi, vi. Tinha aspectos positivos, outros nem tanto. Eu fiquei um pouco decepcionado. Enfim, acho que tinha uma história muito legal. Houve uma manipulação bem grande, na verdade. Mas esse documentário, nós ganhamos até um prêmio internacional. Olha, é você? É, esse é eu. Olha só. Esse é em Portugal.

O que era lá? Olha, o Senna me abriu, isso aí é em Sintra, onde ele tinha uma casa, ele ficava hospedado na casa do Braguinho, eu estou no caso do Almeida Braga. Nesse dia eu joguei um tênis com ele, por exemplo. Ganhou ou perdeu? Olha, eu ganhei, ele ficou bravo. Ah, o Cabrinho não mente para a gente. Ganhou mesmo? É, ganhou do Senna, olha só. Eu perdi do Tênis Santana.

O Tele ganhou de você? O Tele ganhou. O Tele tinha um jogo mais feio que eu já vi, né? Sério? Ele é um cortador de cana, só sliceinho, né? Mas o Senna, ele ficava bravo. Mas o interessante... Ele era competitivo? O interessante nesse dia aí que eu ganhei do Senna foi o seguinte. Uma bolinha se perdeu no meio de uma mata que tinha ao lado da quadra. E aí como funciona a cabeça do Senna, né?

quando o jogo terminou. Ele bravo porque tinha perdido, entendeu? E ele ficou... Ele tinha um compromisso depois desse jogo. Ele tinha uma reunião com os técnicos da McLaren. Nessa época ele estava na McLaren. E ele ficou 20 minutos procurando essa bolinha. Por quê? Porque a cabeça dele é como na engrenagem de um carro.

Onde se uma pequena peça na engrenagem está errada, isso precisa ser solucionado. Então, para o Senna, para o cérebro dele encontrar essa bolinha, era uma proposta de perfeição que ele tinha que ter. Se ele não encontrasse essa bolinha, o código dele de perfeição seria quebrado.

É uma coisa na cabeça dele. É, explica muito a cabeça dele. O Senna era um cara totalmente comprometido com a perfeição. Um hiperfoco total. Hiperfoco total. E esse hiperfoco, ele era levado até para situações banais, como essa de uma bolinha de tênis. Essa foto o que é? Essa foto foi quando ele virou o rei de Mônaco, né? Ele ganhou seis corridas ali. E a gente deu uma volta no trajeto ali, no lado dele está Adriano Galisteu.

Foi uma matéria muito incrível. Você estava de vela lá, Cabrini? Eu estava ali cobrindo. Ele estava o seguinte, ele estava cobrindo. Ele estava refazendo todo o circuito, o trajeto. E falando, olha, aqui eu pensei isso, aqui eu fiz aquilo. Aqui eu acelerei. E ao mesmo tempo, está vendo? Dá para ver. A Adriana Galisteu ali.

E foi uma reportagem incrível. Ali ele está a bordo de um Audi conversível. No momento em que ele estava justamente assinando o contrato com a Audi, ele falou, você acertou o carro. Depois eu fiquei sabendo que ele tinha feito um contrato.

Mas o Senna é incrível, porque ele me dava acesso a tudo, né? Quando eu não estava na Globo, ele estava cobrindo a Fórmula 1 pelo SBT, não tinha acesso a todas as credenciais, ele me possibilitou ir até a fábrica da McLaren, entendeu? Para mostrar. Eu me lembro que...

quando eu estava cobrindo a Fórmula 1, que não tinha credencial ainda, um cara chamado Pasquale, que era da Foca, e que ficava ali monitorando quem tinha credencial e quem não tinha, estava se aproximando, a gente ia acabar em fazer uma entrevista incrível dele com outros pilotos e uma matéria impressionantemente boa. E aí chega o Pasquale, o fiscal, e ele ia pegar a minha fita. Ele falou, dá a fita para mim. Ele pegou a fita, escondeu a fita para mim.

É um cara muito incrível, né? Eu realmente... E brasileiro, né? Tinha uma admiração muito grande por ele. Como eu tinha um contato muito bom com o Piquet, o Piquet me deixou fazer uma matéria no iate dele, entendeu? Poxa. Como eu tinha acesso ao Nigel Mancio, o Nigel Mancio me deixou fazer uma matéria na Ilha de Man, entendeu? Que é onde ele morava, ninguém ia pra lá, e ele me deixou ir pra lá. Tanto que essa cobertura que eu fiz pelo SBT...

onde só na primeira corrida eu tive credencial. Um ano depois, eu já tinha estado na Globo, mas a Globo falou, não, você precisa vir para cá. Aí eu fui lá, aí eu passei a ter credencial. A credencial. E cobri os últimos quatro anos da vida do Ayrton Senna. Pô, não sabia disso, então você tinha um contato bom. Mas eu era correspondente.

Eu era correspondente em Londres e eu cobria de tudo. Tanto que a localização do PC Farias aconteceu em 93. Em 1994, o Senna morreu. Eu cobria de tudo. A minha estreia como correspondente da Globo em Londres foi...

cobrindo a execução do juiz Giovanni Falcone pela máfia em Palermo, que foi em 1991, entendeu? Em 1992, digamos. 92. Então, foi um período muito marcante na minha carreira, onde eu tinha a obrigação de cobrir a Fórmula 1 e de cobrir os passos do Ayrton Senna e dos outros pilotos também, mas onde eu podia cobrir de tudo. Um ano depois da morte do Senna, em 1995,

eu tive que tomar uma decisão mais difícil da minha carreira, que a Globo me dava luvas para eu continuar cobrindo o Fórmula 1, era importante para eles que eu continuasse na equipe, mas eu achei que era o momento de me dedicar exclusivamente ao jornalismo investigativo, que eu já cobria, mas eu achava que tinha cumprido um período importante na minha carreira. E naquele instante eu decidi que eu ia me afastar e cobrir apenas jornalismo investigativo, jornalismo internacional.

dando ponto fim a esse período tão marcante na minha carreira, que foi a cobertura da Fórmula 1. Mas eu acho que... E esse documentário de 30 anos, ele foi muito interessante, porque eu fui o repórter que mais tempo dedicou a cobrir as razões do acidente.

Eu fui o primeiro cara a divulgar as imagens do capacete dele, a divulgar a medida em que a investigação das causas da morte ia avançando, a quebra da coluna de direção. Eu passei longos meses cobrindo só isso.

E, ao mesmo tempo, eu tinha gravações daquela época que seriam muito importantes. Quando eu tive a oportunidade de fazer 30 anos, eu revisitei todos os lugares e eu pude colocar um ponto final de um ciclo.

colocando todas as informações que eu opurei durante 30 anos das causas da morte dele e, ao mesmo tempo, pondo fim a um período tão importante. Para mim, pessoalmente... Fechei um ciclo. Fechei um ciclo, sem dúvida. E eu acho que a tua decisão em focar ao jornalismo investigativo foi bom para você e bom para todo mundo, porque a gente vê a paixão que você tem. Eu tenho, realmente é uma grande paixão, é uma missão. Uma missão, um propósito.

É um propósito de vida. Eu acredito no que eu faço e acredito em levar sempre boas informações para as pessoas. E você só combate manipulação com jornalismo atuante. Perfeito. O Homer, perguntas. Fala comigo.

Tem a pergunta aqui do Diogo Henrique. Ele perguntou, você parece que tem uma fome por notícia que não acaba mais. O que te motiva a buscar sempre mais notícias? Está faminto ainda? Estou. Estou. Olha, eu acredito que a minha profissão é um sacerdócio.

Claro que você quer ser bem remunerado, claro que você quer apresentar os melhores programas. Eu tenho muito orgulho de ser a âncora e, ao mesmo tempo, repórter. Do Domingo é espetacular, como tenho muito orgulho de ter sido correspondente à Globo, em Londres, em Nova York, todos os prêmios que eu conquistei. Mas eu acredito que nós estamos em uma missão. A missão é de trazer boas informações e essas missões passam, muitas vezes, por jornalismo investigativo.

Teoricamente, todo jornalismo deveria ser investigativo, só que tem tantos exemplos de jornalismo parcial, jornalismo oficial, barrigada, que se convencionou se denominar de jornalismo investigativo aquele que se aprofunda quando todo jornalismo deveria se aprofundar. Mas eu acredito que nós estamos em uma missão. Não existe sociedade democrática sem jornalismo de qualidade.

Ainda mais nesse momento, onde nós estamos num jornalismo tão contaminado pela ideologização. Eu acredito nisso, que nós estamos em uma missão e que eu preciso cumprir essa missão para fazer pensar. Claro que nem sempre eu posso cobrir tudo aquilo que eu quero.

Eu acredito na importância que nós temos para promover justiça. O jornalismo é irrelevante se ele não consegue promover justiça. Muitas vezes, uma matéria que as pessoas nem lembram, são aquelas que dão muito orgulho. Por exemplo, eu consegui provar que um homem negro que estava sendo condenado pela cor dele, consegui demonstrar a inocência dele. Ou consegui fazer a mesma coisa com uma mulher negra também. Isso me dá muito orgulho.

O jornalismo que não procura promover justiça, na minha visão, é um jornalismo irrelevante. Concordo, concordo. Sobre a morte do funkeiro MC Kevin, como que foi? Você fez aquela cariação ao vivo, como que foi tudo isso?

Então, essa cariação foi muito falada na época, porque havia... É bom dar um contexto para quem não sabe, que ele cai da janela. Isso, isso, exatamente. E até hoje... Fica meio obscuro. Até hoje está bem obscuro isso daí. Porque eu acho que a polícia não fez uma boa investigação.

E existem fatos que foram ignorados ali dentro. Mas essa entrevista foi muito marcante porque ela mostrou todos os lados e mostrou muito bem para o público que a investigação não correu como deveria correr, porque existiam interesses ocultos, que eu não vou citar nesse momento, porque se existe uma coisa que eu aprendi, é saber até onde você pode falar.

Mas eu diria que existiram forças ocultas que determinaram que a investigação não seguisse totalmente para o esclarecimento do que aconteceu. Você acredita que houve ou você sabe? Eu tenho várias evidências, mas eu aprendi no jornal do investigativo que você só fala aquilo que você pode provar. Exatamente, faz sentido total. Fala, Romero.

Tem uma pergunta aqui do Marcos Vinícius Rocha. Você já ficou cara a cara com gente muito perigosa. Tem alguma situação que você travou por dentro, mesmo tentando manter a postura de jornalista? Olha, principalmente no começo da carreira. O que eu falei, o medo é o meu maior amigo, porque o medo mostra as minhas limitações. Mas quando você está diante dessas pessoas muito perigosas...

e pessoas que podem te matar, dependendo daquilo que você falar, eu descobri que nesses instantes eu me torno profundamente concentrado naquilo que eu tenho que fazer, que eu não perco a racionalidade. E é isso que salva vidas. Não significa que você não esteja sentindo medo, mas a razão é mais importante do que o medo.

A pessoa que se deixa dominar pelo medo não pode fazer esse tipo de cobertura onde você vai se deparar com situações limite. Essas situações limite, elas representam um processo evolutivo. Nas minhas primeiras coberturas era difícil, conforme eu disse. Depois você vai melhorando. Mas eu sempre descobri, porque uma coisa é você falar que você não tem medo aqui, no ar-condicionado, numa situação de conforto.

Outra coisa é não vamos ver, com a pessoa apontando arma para você, com a pessoa te ameaçando, com a pessoa potencialmente podendo te matar a qualquer instante. Então você descobre que você consegue desenvolver um autocontrole no exercício da função. E isso vai melhorando com o tempo. Mas digamos que eu já partilho de um patamar onde descobri que eu tinha uma certa vocação para isso.

E você só consegue medir o quanto você consegue controlar a razão e os seus medos nessas situações limite. Tem algum assunto que você fala, putz, isso eu não vou, isso é muito bizarro, isso é muito pesado, eu não me sinto bem em entrevistar essas pessoas ou me aprofundar nesse assunto?

Existem situações... Maldade com criança, você sabe, essas coisas muito pesadas. Sem dúvida, sem dúvida. Então, você precisa ter muita sensibilidade em coberturas que envolvem crianças. Às vezes é melhor você não cobrir, porque você poderá entrar num território onde você... Vai expondo, né? Vai expor... Tem coberturas que não valem a pena. Principalmente as coberturas que envolvem menores de idade.

Então, eu já me deparei com situações desse tipo, onde achei que não valeria a pena, porque você ia entrar num terreno muito difícil, num terreno onde você não ia conseguir mostrar provas importantes, porque você...

Até pela lei você não pode mostrar nada que envolva crianças. E em determinadas matérias, em não mostrando determinados aspectos, você não vai conseguir demonstrar que determinadas pessoas ou determinados setores foram negligentes. Então, algumas coberturas vão ser obrigadas a renunciar pela impossibilidade de fazer o que o jornalismo investigativo exige, que é apresentar provas. Saber não é poder mostrar.

Pois é. Tem alguma matéria ou alguma coisa que você fez que te fez como ser humano acreditar menos na humanidade ou te deixar mais pessimista? Ou você é um otimista? Você acha que a gente está caminhando para sermos melhores? Como que é? Porque eu imagino que às vezes deve bater um desânimo. Olha o que eu estou cobrindo. Olha que desgraça ou que selvageria. Como que é?

Aquele dado que eu apresentei a você, que nesse instante existem 120 conflitos. Pois é, eu achei um absurdo. Eu não imaginava que era tanto. Se eu fosse chutar, ia falar, sei lá, 14, 15, né? É, pois é. Então...

É evidente que nós passamos pelo iluminismo, é evidente que nós passamos pela era das trevas e é evidente que a humanidade avançou em combater preconceitos. Mas nada disso serviu para as atrocidades que eu tenho presenciado em zonas de conflito.

Nada disso serviu para as atrocidades que eu tenho presenciado. Perto de onde nós estamos. No Rio de Janeiro, em determinados períodos, morrem mais pessoas vítimas de balas perdidas do que na guerra da Ucrânia, dependendo do período que você estiver falando. É absurdo, é. Então, quando você vê que estatisticamente...

apesar da guerra ao preconceito, da guerra contra o preconceito de cor, preconceito de orientação sexual, de fato a humanidade experimentou progressos nessa área.

Mas de que tem adiantado isso em um mundo tão perto da terceira guerra mundial? Que evolução é essa? Então você passa a questionar como nós evoluímos. Porque no final do dia tudo se resume a interesses econômicos. Tudo, né? Tudo.

Falando em interesses econômicos, qual é a tua opinião sobre esse boom de séries, de crimes reais, de personagens famosos aqui? Você acha que tem uma romantização ou que isso faz parte realmente para o público entender, entrar na cabeça desses personagens? Olha, é uma tendência mundial, isso está sendo feito no mundo inteiro. De true crime, né? Há uma demanda.

Do público por isso. Se não tivesse demanda, não existiria. O público quer assistir isso. Ponto. Ou ler. O público quer assistir isso. Ponto. Não culpem a janela pela paisagem. Pois é. Certo. Mas entramos em uma seara onde eu, pessoalmente, eu respeito os que pensam em contrário. Eu não pagaria para alguém cometer um crime para você poder fazer uma série como essa. Isso tem acontecido no mundo inteiro. No mundo inteiro. Com a ascensão do streaming.

Isso se tornou uma mercadoria lucrativa. Como eu disse, há uma procura muito grande por isso. Mas é algo que precisa ser pensado pela sociedade como um todo. Essa demanda justifica o pagamento aos criminosos? Eu acho que todo mundo tem que discutir isso. Pois é. Fala, Homer.

Vamos lá. Tem a pergunta aqui do Walter Pietro. Ele perguntou o seguinte, você já chorou depois de desligar a câmera? O que mais te emocionou ou te chocou diante de tantas guerras e tantas tragédias?

Eu uso a minha profissão como blindagem psicológica. Eu nunca precisei fazer análise, nunca fui para o analista. Pô, eu ia te perguntar isso. Eu uso a minha profissão... Me explica isso. É algo muito pessoal.

Eu uso a missão que eu tenho de mostrar a realidade como algo mais importante do que qualquer tipo de distorção psicológica que eu possa ter. Eu sempre ponho na minha cabeça que eu preciso ser forte, porque o meu trabalho vai ser importante para mostrar uma determinada verdade. Para promover conscientização. Isso não significa que eu não fique abalado psicologicamente. Eu descobri que quando eu estou no exercício do jornalismo,

eu controlo as emoções e não vou às lágrimas. Porque eu me deparo com uma situação onde se eu deixar de cobrir um determinado acontecimento, eu vou possibilitar que essa injustiça continue.

É evidente que você precisa ter um limite para isso. Aquela célebre situação onde você está com uma câmera e vê um ser humano se afogando. Você filma ou você vai salvá-lo? Você, claro, vai salvá-lo. Antes de tudo, a solidariedade, a sua humanidade tem que falar mais alto.

Mas você, tendo a conscientização de que cobrir uma determinada realidade e a realidade vista pelo viewfinder de uma câmera, ela se torna mais palatável, é essa que é a verdade? É verdade. Ela se torna mais palatável? Isso é importante o pessoal saber, né?

já tem uma escolha de ângulo, não é a mesma coisa se você está lá e você está sentindo o cheiro, está vendo a emoção, está escutando o cheiro, o barulho da explosão é diferente do que a gente vê na tela. Uma coisa é você estar numa situação cobrindo onde eu tenho a obrigação de transmitir a verdade. Outra coisa é você estar, por exemplo, de férias em um determinado local.

onde você é só um ser humano. É você fazer com que a sua missão se torne mais importante do que as suas fraquezas psicológicas. Muito individual, não é ciência exata. Você disse chorar. Eu já chorei depois da cobertura. Ah, é? Meses depois. Eu fui sentir mais ainda, intensamente. Porque, por exemplo, quando morreu o Ayrton Senna, foi muito difícil só ser...

ouvir a gravação de Dona Notícia, vai ver que eu estou ali, bastante abalado, mas até o fato de eu mostrar o quanto abalado eu estava, mas eu também, ao mesmo tempo, eu sabia que eu não podia perder a precisão da descrição dos fatos, porque é para isso que eu estou lá. Eu estou lá como jornalista. Então, eu uso o exercício na minha função para promover uma blindagem psicológica, mas chega um determinado ponto onde...

Tudo isso vem. O ser humano aflora. O ser humano aflora. E aí sim, você chora. Mas eu não choro no exercício da minha função. Eu nunca chorei. Eu só choro depois que eu terminei a minha cobertura.

que eu terminei o ciclo da cobertura. A cobertura do Ayrton Senna, por exemplo, durou meses, onde eu cobri a morte dele, cobri o fim de semana todo, desde a morte do acidente do Rubinho Barrichello, a morte do Roland Ratzenberg, no sábado, e o acidente fatal do Ayrton Senna, e depois eu cobri toda a investigação. Eu só me permiti realmente sentir...

intensamente claro que eu sentia, mas eu sempre dizia para mim mesmo, eu preciso continuar o meu trabalho, porque se eu fraquejar, as pessoas não vão ter boas informações e injustiças serão feitas, injustiças serão praticadas.

É assim que eu me porto quando estou cobrindo uma guerra. Sim, eu tenho medo, a explosão está acontecendo, eu tento usar da razão para me proteger da melhor forma, mas, ao mesmo tempo, eu sei que se eu cobrir aquele evento da melhor forma, eu vou poder sensibilizar pessoas para que aquela população civil, e numa guerra sempre a população civil quem mais sofre, para que essa injustiça possa terminar. Então, eu uso...

a minha missão como forma de blindagem psicológica. Eu funciono dessa forma. Isso é a tua experiência, não quer dizer que todo mundo seja assim. Olha, eu entendo perfeitamente aqueles que estão cobrindo um acontecimento muito drástico e desabam. Eu entendo perfeitamente. Entendo perfeitamente.

Acho que não existe apenas uma forma de se cobrir um acontecimento. Não tem como julgar a pessoa. Não tem como julgar. E não tem também como algum dia acontecer isso contigo por algum motivo que... Se dependendo de que conselho que eu dou para um jovem jornalista...

o conselho que eu daria da minha maneira de agir. E como eu disse, quando você vai cobrir algo, não existe só uma fórmula de se cobrir bem. Existem várias fórmulas de se cobrir bem. Vários ângulos que podem ser demonstrados. Mas se as pessoas quiserem e estiverem interessadas em que eu compartilhe a minha experiência, seria de falar o seguinte.

Procure controlar as suas emoções para que você não perca a sua precisão de descrição dos acontecimentos. É o que eu recomendaria. Mas respeito imensamente aqueles que desabam na emoção. Somos humanos. Sim, sim, antes de mais nada. E outra coisa que é bem importante.

Você não pode perder jamais o seu sentido de humanidade, porque a sua cobertura precisa contemplar a sua humanidade também. Você não pode se tornar frio a ponto de se distanciar de uma discriminação ou de uma injustiça ou de uma atrocidade de tal forma que você não a descreva bem. Você precisa...

Ter a sua humanidade, mas esse sentido de humanidade não pode permitir que você perca a precisão dos acontecimentos. Mais uma vez, uma linha tênue que você vai aperfeiçoando ao longo dos anos. Pois é, perfeito. Fala, Romer. Pergunta da Suzy Soares. Se mediante a tantos ataques e tantos perigos que você já sofreu e você já esteve de frente, se em algum momento a sua família já pediu para você parar?

Olha, a minha esposa, ela sempre compreendeu muito bem, porque ela sabe que é algo que eu acredito. É claro que ela fica ligando o tempo todo, querendo saber se eu estou bem, mas ela jamais me disse não vá, porque ela sabe que eu acredito nisso. Agora, meus filhos, esses sim, somente nos últimos anos, tem sido difícil convencê-los que eu tenho que ir para uma determinada cobertura.

Mas a minha posição sempre prevalece, porque eu acredito naquilo que eu faço. Eu prefiro, eventualmente, viver menos, mas porém mais perto dos meus ideais. Que idade estão os seus filhos? Tem 36 e 35. A minha filha é a Gabi Cabrini, que apresento Fofocalizando, e o meu filho, o Roberto Cabrini, que eu sou Francisco Roberto Cabrini.

Ele é diretor comercial da Cazé TV. Olha só. Grande profissional. Os dois estão na área de comunicação. Os dois estão bem encaminhados. E que dia você faz aniversário? Tem muito orgulho deles. 13 de outubro. Vou te ligar então para cantar um parabéns. Vai que ele está no meio da guerra também?

Bom, vai ser inglês. Eu salvo ele, né? De repente eu posso salvar ele de uma situação, né? O que era interessante porque eu tinha até esquecido que era meu aniversário, né? Sério? É claro, né? Estava naquela situação. Além de ser lembrado... Isso, aliás, não foi a primeira vez. Isso já aconteceu algumas vezes. É mesmo? Estar no meio de uma cobertura. Porque o fato de você estar aniversariando se torna menor, né? Diante do que você está ali.

Você já passou aniversário, então, em guerra, em situações? Poxa, vida. Poxa, pelo menos umas três vezes. Ligaria. Aonde? Teve um dia... Poxa, ontem foi meu aniversário. É.

Mas eu vou te lembrar, então, em alguma situação. Fala, Homer. Aqui foi. Foi. Cabrini, eu acho que nesse momento aqui, eu acho que é legal a gente fazer uma... No teu caso, numa carreira tão extensa, uma avaliação. Você falou em missão, falou em propósito do que é o teu trabalho, do que é importante, e principalmente para quem está começando no jornalismo para não abandonar, porque a gente vê agora Caso Master, INSS.

o Superior Tribunal envolvido. E a sensação que todo mundo tem, qual que é? Qual que é? Não vai dar nada. Não é? Todo mundo tem essa sensação. Ah, eu sei que não vai dar nada. Mas se o jornalismo ficar enchendo o saco, ficar trazendo porque no começo foi assim. A gente só sabe por causa do jornalismo. Porque tem muita gente poderosa querendo abafar. O que fazer para esses jornalistas, para esses profissionais E aí

vencerem o medo, vencerem o poder econômico e continuar trazendo o que tem que trazer. Conjugar com muita coragem o verbo resistir.

Jornalismo é um ato de resistência. O que você não pode cobrir hoje, amanhã talvez você possa. O fato que hoje você não pode noticiar... Você fala assim de não poder é uma janela de oportunidade? Pelas mais variadas razões, pelas mais variadas pressões. Como, por exemplo, o Irã. Você falou, não dá para ser agora, quem sabe daqui a um tempo. Exatamente. E você sabe que nós temos tantas relações incestuosas hoje, envolvendo tantas instituições.

que nem sempre você pode mostrar tudo o que você gostaria de mostrar. Mas o que você hoje não pode mostrar, talvez amanhã você possa. Nada justifica você ser totalmente contaminado pela autocensura. Eu vi muitos colegas culpando jornalismo governamental, jornalismo empresarial, quando a censura empresarial ou a censura governamental é infinitamente menos importante do que a autocensura.

É aquele profissional que parte do pressuposto que isso eu não vou conseguir cobrir. Quando, na verdade, é ele que não tem a convicção suficiente para fazer o seu próprio trabalho. Mas depende de nós, de cada um de nós, fazer esse país mais democrático. Quando a gente começa a profissão, já houve tempo em que eu achava que sozinho mudava o mundo.

Eu já tinha ali uma corrupção da Polícia Federal. Eu entrava no prédio da Polícia Federal e entrava e perguntava para todo mundo. Com o tempo, você vai vendo o que você pode, o que você não pode fazer. Precisa de ajuda demais. Precisa de mais ajuda, precisa de mais estratégia. Eu sempre achei que eu podia ir em qualquer lugar e que eu tinha um sentido de invencibilidade que eu conseguiria mudar o mundo. Hoje não. Hoje eu fui tomado.

por uma sensação de que primeiro vamos mudar uma situação de injustiça na esquina da minha casa. Estou falando em sentido figurado. As pequenas coisas se tornam coisas grandes. Sim. Se você acreditar nelas. Você ser um bom pai, você já está mudando o mundo. Você ser um bom marido, você ser um bom amigo, já está mudando o mundo também. Eu olho na minha estante ali e ela está, felizmente, cheia de troféus.

de grandes coberturas jornalísticas, mas elas seriam apenas atos de vaidade, ou apenas aqueles objetos seriam pedaços de metal, plástico ou cobre, se atrás delas não estivessem grandes exemplos de se combater injustiça. Verdade. Mais importante do que ganhar um troféu, ou o prêmio mais importante, é você combater...

com o bom jornalismo, as situações em justiça. E isso tem que ser feito independente de ser reconhecido por onde você trabalha, de ganhar o melhor troféu ou de ser até reconhecido pela sociedade que nem sempre não quis ter acontecido. Pode entender naquele momento o que foi feito.

É a sua consciência. É você entender que você precisa, através do seu trabalho, ajudar a combater injustiça. O que nem sempre é fácil, porque nós somos uma atividade competitiva.

Não há circo sem bilheteria, você faz jornalismo também para ter audiência, também para lutar para que o programa prospere. Mas se você renunciar aos seus ideais, você vai se tornar uma pessoa vazia. E mais cedo ou mais tarde, você vai sucumbir à sua falta de propósitos.

Pois é. E em relação a... Você falou de ameaças, de morte e tudo mais, mas teve outro lado também de gente querendo te calar com dinheiro? Já, já aconteceu. Cabrini, não fala disso aqui, não. Eu lembro num dia, por exemplo, que eu tinha feito uma matéria impressionantemente bem documentada sobre setores da polícia.

Não vou falar qual que era a polícia, pode ser civil, pode ser militar, pode ser federal. Mas vamos falar em setores, você vai ficando mais inteligente nisso. Não precisa, não precisa falar. Exatamente. Mas setores da polícia que tinham ajudado a um contrabando multimilionário. Bultoso. Entendeu? Bultuoso. E não faltava 20 minutos para a matéria entrar no ar, ligaram para a seguinte hora, você tem o que você quiser aqui, não põe essa matéria no ar.

Aí eu falei assim, espera um pouco aqui, peraí, continuei conversando para ver se eu conseguia gravá-lo. Não consegui gravá-lo, mas a matéria entrou no ar. Isso aí faz parte. Podia ser um vorcaro agora e continuo o cabrinho, mas dormindo com a consciência tranquila. Aí, veja bem, o jornalismo vai medir o seu grau de convicção.

Porque não vão faltar aqueles que vão te ameaçar, aqueles que vão tentar te corromper. E no final do dia, você vai ser testado, medido no seu grau de convencimento. Uma coisa é falar aqui aos quatro cantos, eu sou um idealista, eu acredito em honestidade, acredito em combater corrupção. Mas isso precisa ser praticado. Quando a oportunidade aparece, é aí que você é testado. Praticar significa não aceitar vantagens. Eu costumo dizer que...

A pior forma de corrupção é a corrupção da fonte. E aquele cara, por exemplo, vou dar um exemplo. Aquele delegado de polícia corrupto que te chama, falou o seguinte, olha, você vai ter um furo aqui, você se destaca, você dá uma notícia que ninguém tinha.

fez algo que foi muito melhor que os seus concorrentes. O jornalista quer isso, quer ser melhor que os seus concorrentes. Mas ali no terceiro dia vai ter um preço. Olha, você tem que fechar os olhos para isso aqui. Isso aqui você não pode falar. Você vai dar esse furo. Ou seja, é a corrupção da informação. Corrupção não é só através de dinheiro, não é só através de oferta financeira. Até porque informação é poder.

É muitas vezes feita pela corrupção da informação. Olha só. O verdadeiro jornalista é aquele que sabe o contexto em que ele está e que vai deixar de dar furos em nome de não se deixar corromper, não se deixar fazer parte de um jogo. Isso acontece todos os dias. A corrupção da informação.

Pensa em algum momento se dedicar também a YouTube, alguma coisa mais relacionada à internet, ou fazer algum documentário misturando ficção com uma parte documental, que eu acho que você tem bastante bagagem para criar uma coisa disso a partir de toda a sua experiência.

O difícil, né, Rogério? É o tempo, né? Eu tenho o privilégio de estar numa emissora que me apoia muito, que me dá boas condições de trabalho. Posso só falar para o pessoal? A gente teve que desmarcar duas vezes porque era assim, está marcado, mas a gente não sabe. Pintou uma matéria, ele tem que ir para lá. E a gente, claro, né? Todo fim de semana, há uma expectativa muito grande.

Pela GR, GR é a grande reportagem. É como chama a minha sessão. É a grande reportagem. Ela tem sido o carro-chefe em termos de audiência. Do domingo espetacular. Claro que o programa tem profissionais incríveis e todos, você não faz nada sozinho. Mas eu sei da importância que a grande reportagem tem. A grande reportagem é ações. Nesse domingo, por exemplo, a nossa matéria teve 24 minutos.

Não é fácil você fazer isso. Uma reportagem que mostrava como funciona uma gangue urbana que provocou a morte de um jovem de apenas 16 anos. Isso é importante quando provoca uma reflexão por parte da sociedade. Mas você tem que ter consciência.

de que esse seu trabalho vai ser um trabalho que vai ser de muita importância e eu, felizmente, trabalho em um local que me dá as melhores condições. Não consigo cobrir tudo o que eu queria, pelas mais variadas razões, inclusive as logísticas, mas eu acredito firmemente que a gente consegue todos os dias combater injustiça. Se você não pode cobrir um determinado assunto, e você vai ser obrigado a cobrir um determinado assunto...

com uma visão distorcida, porque existem interesses que vão determinar que você faça a cobertura dessa forma, então não entra na cobertura. Pois é. É o que eu sempre digo. Cabrinho, obrigado demais, espero que a tua próxima volta não demore tanto. Me dá a mão aqui, prazer imenso de falar contigo.

Eu quero te parabenizar porque é incrível o trabalho que você faz. É um trabalho didático. Eu já vi você, através da sua ação, você promove muita cultura. Eu já vi entrevistas impressionantemente didáticas.

aproximaram a nossa audiência de informação. E às vezes é uma informação bem complicada. Exatamente, exatamente. Tem assuntos que são muito complicados. E você sempre traz especialistas que promovem conscientização. Eu acho isso impressionante. E eu já aprendi com muitos entrevistados. Poxa, obrigado. É legal você ouvir essa entrevista porque tem muito conteúdo. E você é um cara que se preocupa com o conteúdo. E é a nossa missão também educar.

É, também acho. Fazer diferença na vida das pessoas. Você fez na minha e acredito que faz na vida de muita gente. Então, obrigado, Cabrini. Tem rede social? Tenho. Está atualizando lá? Roberto Cabrini, jornalista. Alguém que cuida é você mesmo? Eu cuido. Eu tento ter uma certa... Eu evito passar qualquer tipo que mostre vaidade. Entendeu ou não?

Eu sou meio discreto nas minhas redes sociais, mas eu recebo muita informação por elas. Muitas das matérias que você assiste, elas começaram por pessoas que entram em contato comigo pelas redes sociais. Mas eu sei da minha responsabilidade, e se você olhar a minha rede social, é uma rede social bem discreta, porque jornalismo investigativo caminha com descrição. Verdade. Concordo totalmente. Obrigado. Ô, Homer, você que é um cara discreto também, é a sua vez de brilhar.

Bom, agradecer demais para você que chegou no final desse papo. Se você ainda não deixou o seu like, cara. Ah, tem que dar um like. Deixa um like aí. Um papo desse é incrível. Maravilhoso. Papo incrível. Se inscreve no canal também. Exatamente. Agradecer demais quem esteve aqui com a gente. E agradecer também você, porque agora você vai dar o que o pessoal vai escrever nos comentários para provar que chegou até o final dessa conversa.

Para provar que você chegou no final dessa conversa, coloca aí. Cabrini de Vela.

Cabrini de vela naquele carro do Senna com a Adriane Galisteu. Verdade. Então, Cabrini de vela, coloquem. O pessoal não vai entender nada. Vai ter que assistir a entrevista inteira para saber do que a gente está falando. Fiquem com Deus. Beijo no cotovelo e tchau. E que bom que vocês vieram. Valeu.

As opiniões e declarações feitas pelos entrevistados do Inteligência Limitada são de exclusiva responsabilidade deles e não refletem necessariamente a posição do apresentador, da produção ou do canal. O conteúdo aqui exibido tem caráter informativo e opinativo, não sendo vinculado a qualquer compromisso com a veracidade ou exatidão das falas dos participantes. Caso você se sinta ofendido ou tenha qualquer questionamento sobre as declarações feitas neste vídeo, por favor, entre em contato conosco para esclarecimentos.

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