Episódios de Inteligência Ltda.

1816 - NELSON MOTTA

15 de abril de 20262h15min
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NELSON MOTTA é jornalista, compositor, produtor musical, escritor e apresentador de televisão brasileiro. Ele vai bater um papo sobre sua carreira estelar e contar histórias mirabolantes do balacobaco. O Vilela me obrigou a usar essas palavras modernas na descrição.

Participantes neste episódio2
R

Rodrigo Cáceres

HostHumorista
N

Nelson Motta

ConvidadoJornalista, compositor, produtor musical
Assuntos5
  • Carreira de Nelson MottaTrajetória profissional · Produção musical · Experiência no jornalismo · Parcerias com artistas
  • TropicalismoMovimento cultural · Artistas envolvidos
  • Show de João Gilberto com problemas de acústicaGênio da música brasileira · Impacto da Bossa Nova
  • Coincidências e destinoConceito de sorte · Reflexões sobre destino
  • Sucesso profissional e vida pessoalAmizade com Elis Regina · Parceria com Lulu Santos
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Rotina puxada, né? No meio de tantos compromissos, também é preciso se comprometer com você. Chegou Nestlé Vital, a nova linha de suplementos para o bem-estar adulto, com opções para apoiar o seu dia e a sua noite. Vital é ter foco sustentado ao longo do dia. E também ter uma boa noite de sono, para começar o dia bem. Qual você escolhe? Um ritual matinal ou um ritual noturno? Clique no banner e conheça, porque se cuidar é vital.

Olá, terráqueos! Agora temos um estúdio na Cidade Maravilhosa. Em uma parceria incrível com o Hotel Rio Otton Palace, estaremos debruçados sobre a praia de Copacabana com convidados especiais, sempre debatendo e comentando os assuntos mais importantes para o Brasil. Então você está mais que convidado para colar com a gente. Vem!

Olá, terráqueos, como é que vocês estão? Eu sou o Rogério Vileira e está começando mais um Inteligência Limitada. O programa onde a limitação da inteligência acontece somente por parte do apresentador que vos fala. Sempre trago pessoas mais inteligentes, mais interessantes e com a vida muito mais musical do que a mim e do que a sua, Leni. É verdade. Quando fala em música, não falar em Nelson Motta. Cara, ele é a referência máster, assim, né? Você que é um maestro.

Pois é, eu já ouvi muitos conselhos do nosso amigo Nelson Mota, sou muito fã dele, acompanho ele há muito tempo. Exatamente, estava conversando aqui e ele falou de sorte, né? É verdade. Dos cruzamentos da vida dele, será que é sorte?

Ou será que é destino? É, eu acho que é destino mesmo, hein? Um misto dos dois. É, é verdade. Sorte um pouco destino. Vamos falar isso e mais coisas. E como que o pessoal vai participar, Lene? É isso aí. Você manda pra cá o seu superchat. Mas. Lembrando que hoje é uma live dedicada ao... Do Rio. Exato. Do Rio especial. Pros nossos membros especiais ali. Então se você não é inscrito no canal ainda, corre, se inscreve lá, porque dá tempo de você entrar no grupo do Telegram.

e mandar uma pergunta para a próxima, porque talvez para a de hoje não dê tempo. Não, não dá mais. Então, mas corre, aproveita, porque você está perdendo a oportunidade de entrar na frente dos outros com a sua pergunta. Dar as boas-vindas ao Nelsinho. Obrigado demais por ter aceitado o convite. Está preparado para a gente mergulhar na tua vida? Estou tranquilo. O que você trouxe para a gente de presentes úteis e inúteis para o meu cenário? Esse é um presente divertido.

que é a minha autobiografia. Quem sabe você escreveu em terceira pessoa. É a história do Nelson. É ele. Eu me refiro ao Nelson. Você distanciou para olhar para outra pessoa. Aí eu podia olhar. É melhor que você fique à distância. Você pode criticar melhor. Você pode elogiar também. Pode criticar, pode elogiar. Você pode debochar do personagem. Virou um personagem. Mas tudo começou com altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude altitude

com o título desse livro que me veio essa cabeça, De Cú Pra Lua. Por quê? Porque meus tios, minha avó, meu pai, muitas vezes na minha vida as pessoas me disseram Pô, você nasceu com Cú Pra Lua. Porque as coisas aconteciam para vocês? Coisas de sorte. Encontros e... Davam na minha vida, assim, do nada, né? E eu fiquei muito intrigado com isso.

E comecei a pesquisar tudo sobre a sorte. Revirei tudo, experiências científicas, religiosas, antropológicas. Probabilidade estatística. Porra nenhuma. Chegou a alguma conclusão? Nem eu, nem ninguém. É, não tem como. É absolutamente inexplicável.

o mistério da sorte. Mas que existe, existe. E a sorte não tem moral, a sorte não tem justiça, a sorte... A sorte tem seus preferidos, você acha? Não, a sorte pode chegar para você ou para um bandido que vai dar a sorte de estar com a arma carregada na hora de assaltar alguém. Então a sorte não tem critérios, ela é imprevisível. Então eu cheguei, ela aparece para várias pessoas em vários momentos.

E o que eu achei que era importante, então, era, como um rapaz de sorte, uma espécie de uma ética da sorte. Você deu aquela sorte, o que você vai fazer com a sorte? Pois é, né? Você pode ter uma sorte e um mal. E para o mal, né? Então, isso que é o mais importante, o que você vai fazer com a sorte. Porque, às vezes, a sua sorte é perder uma grande coisa, uma grande pessoa, mas que depois, na verdade, você vai ver...

Que aquilo não foi falta de sorte, foi sorte mesmo que aquilo ia ser uma desgraça pra você. Mas isso que eu ia comentar, Nelsinho, o lance da sorte, às vezes a pessoa teve sorte, mas ela é incapaz de ver que foi sorte, porque ela tá tão amargurada com algo que perdeu, ou aquela chance, e não vê aquela absurda janela que abriu de oportunidade pra ela. Isso, não vê, Alfica. E eu acho que você tem essa capacidade, então, de estar tão preparado pra vida, pro que ela tem pra oferecer, que fala, tá bom.

Que apareceu isso, eu vou entrar de cabeça. É isso. A porta abriu, eu entrei. Exato. Sempre foi assim. E no livro vai contando toda a minha trajetória profissional de jornalista, de produtor de disco. E depois virei diretor de show.

diretor de gravadora, produzi festivais grandes, fiz de tudo na música ali, né? Ainda continuo fazendo, cada vez tem mais novidades na música também, novos formatos de show. E você passou por muita mudança de tecnologia, né? Se for pensar. Passei muito a minha geração, né? Começou com rádio.

Começou com o rádio, só rádio. Rádio era, para quem é mais novo, o rádio era televisão. E depois começou o início da televisão. Era um canal no Rio de Janeiro. Preto e branco. E tinha uma antena que saía da TV.

E que você tinha que ir lá maneirando com a antena. Agora, para, para, não mexe mais. Coloca bombril na... Coloca bombril na ponta da antena, porque atraía melhor. Era uma aventura você ver TV. Mas tinha uma coisa maravilhosa a TV. Bem Rio de Janeiro, no começo. Pouquíssimas pessoas tinham aparelho de TV no início.

Então, a gente morava num prédio de três andares, aqui em Copacabana, no bairro Peixoto. Então, a casa que tinha televisão no prédio... A casa, era a casa, né? As pessoas, depois do jantar, naturalmente iam para lá.

para assistir televisão e se intitulavam Televizinhos. É? Era a instituição do Televizinho. A porta deixava aberta, os vizinhos iam chegando. A porta aberta, um vinha trazer um bolinho, outro trazia um refresco e tal. Sentava ali, três, quatro famílias diferentes.

Pra assistir televisão, era uma coisa de uma cordialidade. Ô Nelson, não tinha uma coisa que os caras colocavam na frente da televisão? Era um tipo de uma tela que em cima era azul, e embaixo tinha um degradê de marrom pra azul, lembra disso? Isso, era um plástico que botava ali pra parecer. É, parecia que era colorido.

que maravilha esse tempo eu acho muito muito amoroso essa história do televizinho mas você é um cara saudoso? hoje em dia você imagina uma instituição dessa você é saudoso em relação ao passado ou entende que cada coisa eu acho que a nostalgia é a

pior receita pra envelhecer. É, né? Ah, na minha época era melhor, naquele tempo... Aí tá mortinho, quando começa. Ah, no meu tempo. Ah, não sei o que, aí... Que foi bom praquele tempo, e agora é outra coisa, né? Eu também digo, você tem saudade? Eu não tenho saudade de nada, porque eu fiz tudo o que eu queria. Intensamente. Intensamente, no máximo. Em todos os sentidos. Então não ficou devendo nada. Não ficou faltando nada.

todas as viagens que eu fiz, dezenas e dezenas de viagens pelo mundo. Isso tudo eu fui aprendendo, fazendo amigos americanos, italianos. Eu morei na Itália 4, 5 anos, morei nos Estados Unidos 8 anos. Então, isso tudo me deu uma visão do mundo mais abrangente. Então, eu nunca...

Nunca tem as coisas passadas que eu fico lembrando, ah, isso era tão bom. Eu fico lembrando que era tão bom e eu aproveitei aquele tão bom, seja isso de pessoas, de trabalhos, de ocasiões, de eventos. A gente trouxe até aqui, né? E é quando eu cheguei até aqui, com essa bagagem toda. Já estou pagando excesso de bagagem há muitos anos. Já está nos acréscimos.

Mas é o que eu falei com o Boni também, né? Enquanto você está vivendo, não faz sentido. A vida vai te jogando para cá, para cá. Mas hoje, quando você olha com a distância, faz todo sentido cada movimento que aconteceu, né? Hoje você entende muito melhor. Ainda vi isso também, esse livro eu escrevi, para entender um pouco a minha trajetória, porque tem as minhas escolhas, os resultados que tiveram essas escolhas. Então eu vejo muito mais claro, né?

erros grosseiros que eu fiz, mas é da minha experiência, e é ali que eu aprendi. E também no livro você vai ver que eu aprendi mesmo, foi com fracasso, sucesso. Fiz muito sucesso em tudo que eu fiz, graças a Deus. Mas não aprendi nada com sucesso. Sucesso é ótimo. Você fica com autoestima, em altíssima.

Tem o perigo de ficar com o ego meio inchado, que é péssimo, né? Mas, no geral, é uma coisa muito doce o sucesso. É muito boa, as pessoas reconhecem. Fica se sentindo também. Está ali na fronteira da bobagem já, né? Mas não aprendi nada. O sucesso até você... O sucesso é dar uma relaxada. Minha música está em primeiro lugar no Rio de Janeiro. Agora eu sei fazer, né?

Já aprendi a fazer. É tombo na certa. Aí depois você toma uma porrada. É tombo na... Posso assegurar você. É tombo na certa. Essa autossuficiência, isso tudo é fatal. Eu acredito muito na humildade, não como uma virtude, como uma arma de... Uma proteção, né? Uma proteção.

uma arma de conquista da sua independência, da sua liberdade. Em cima do teu título de cu para a lua. É meio também, quem tem cu tem medo, né? Exatamente.

E também foi no fracasso que eu aprendi coisas que deram errado. Mas é engraçado porque as pessoas olham para você e falam, não, ele não fracassou, o Dudo deu certo. É porque o fracasso ninguém sabe, porque fracassaram. As músicas que eu fiz que fracassaram, ninguém sabe que fracassaram. Mas você sabe, né? E não quer dizer que tive ótimas músicas maravilhosas que fracassaram inexplicávelmente.

E outras, talvez, não tão boas, que fizeram um grande sucesso. Também isso aí, ninguém sabe. Também é mistério quem dizer... Ah, eu sinto o cheiro do sucesso. Sabe o que vai estourar. Sabe o que vai estourar. Ninguém sabe. Se soubesse... É, era fácil repetir a foto. Manoel, senhor, você trouxe o presente inútil para mim também, que eu deixo no meu cenário? Eu trouxe um caderninho de escrever. É? No digital para anotações. Você ainda escreve? Eu não.

Não? Não, aqui é completamente inútil. Inútil aqui, olha. Com o meu gato, Zig, na capa. Foi uma amiga fotógrafa que fez... É o Zig, ele é espetacular. David Bowie? Zig, o nome dele completo é... Mas ele tem um olho de cada cor ou não? Zig Stardust. É. Mas eu chamo de Zig só. Ele atende. Porque gato não é muito de atender pelo nome. Não, ele sabe que está falando com ele, mas não atende. Ignora, né? Simplesmente ignora, né?

Eu adoro gatos, é o meu quarto gato. Eu não compreendo a vida sem gato. São animais especiais, eles ensinam muito. O que eu aprendi com gatos, tem aí no meu livro também o comportamento deles, o sentimento, o demonstrar amor, a independência. Eu vi que o gato...

O gato vê você como um gato enorme. Ele vê você como um gato enorme, sem pelo, pelado, ou seja, ridículo.

E totalmente incapaz. Uma porra de um cara que não sabe caçar, não sabe pular, não sabe correr, não sabe derrubar coisas. Não sabe nada. Ele tem um desprezo olímpico por você. Quem é esse gato enorme? Quem é esse gato enorme? Bom, ele me alimenta, ele me faz carinho, ele é um cara legal.

Mas não está à minha altura. Você não está à altura do gato. Uma mordida de vez em quando. Ali está passando e pá! Dá aquele bote ali. Ele morde esportivamente. Exato. É só para brincar ali. Mas é uma figura. Esse gato, então... Eu ganhei ele de presente. Ele é bonitão, né? É lindo, porque ele é dessa raça bengala. Que é uma mistura do gato selvagem.

com o gato doméstico. Então ele tem essa pelagem de onça, praticamente. Então ele manteve algumas coisas do gato selvagem, alguns hábitos e outras coisas do gato doméstico. Então é muito interessante esse bicho. E você é um gato selvagem ou um gato domesticado hoje em dia? Eu sou exatamente um bengala. A mistura dos dois ali... Tem fase.

Ele tem atitudes de gato doméstico, né? Um gato selvagem não vai deitar com você, dormir na cama com você. Ele vai, ele percebe quando você está triste. Se você engana, não engana, é impossível você enganar um animal, né? Ele sabe quando você está triste, ele chega. Ele sabe quando você quer ficar quieto. E você aprende com aquela vontade de pegar, apertar, ele morder, amor do papai, de deixar ele quieto, né? Porque donos de gato fazem...

Não são donos de gato, os gatos são donos dele. Na minha casa tem um capacho, um tapetinho na entrada da casa, e diz assim, bem-vindo à casa do gato e do seu humano. Pronto, é isso tudo. Manoel, vamos voltar para o passado, então. Vamos voltar para a tua infância. Você nasceu onde?

E o que se pensava em ser quando crescesse, quando te perguntavam quando você era criança? O que você respondia? Olha, eu nasci em São Paulo, por incrível que pareça. Apesar dessa alma carioca? A minha alma carioca, porque eu vim para cá com 5 anos. Em São Paulo eu brinco às vezes, quando as pessoas me entrevistem e surpreendem. Então eu falo, pô, sou paulista mesmo, meu irmão.

Meu, sou paulista meu. Ali é a rua Fricaneca. Eu adoro São Paulo, sabe? Tem lembrança de São Paulo nessa época ou não? Muitas, porque muitas. Toda a família do pai e da mãe eram de São Paulo também. Então, a gente ia muito. Eu vivi muito aquela vida paulista em várias fases da minha vida, em férias inteiras passadas lá. Eu acho que...

Eu desenvolvi uma carioquice extrema, porque peguei o Rio de Janeiro, aqueles anos dourados, em Bossa Nova, em épocas incríveis do Rio de Janeiro, onde se desenvolveu esse espírito carioca, que hoje está muito degradado.

houve um espírito carioca marcado pela irreverência, pelo humor, pela inteligência, os grandes cronistas, os compositores. Tudo dava ao Rio de Janeiro uma alma boêmia, artística. E o meu lado paulista é o lado do trabalho mesmo.

ali focado. E eu brinco que se eu não tivesse esse meu lado paulista, fosse só o lado carioca, ia ser um monte de plano, mas não ia conseguir fazer nada. Porque ia continuar o papo no bar e fazer outros planos, daí a coisa vai adiando. Então a gente se vê. Quando a gente se vê, está morto. É a sentença de morte no Rio de Janeiro. Pois é. Então...

É só essa mistura de um espírito paulista e carioca, porque toda a minha ascendência é paulista da gema mesmo. E de onde a sua ascendência? Eu tenho quase tudo brasileiro mesmo, mas do lado da minha mãe tem um pouco de espanhol, e do lado do meu pai...

É muito, é tudo gente lá do interior de São Paulo, de Porto Feliz, mas diz que tem alguns portugueses e pretos misturados ali no meu lado paterno. Mas eu não... Eu vi um primo lá que fez aquela árvore genealógica e minha família veio com um sargento lá do...

no Alferes, lá do Dom João VI, naquela, quando veio todo mundo fugindo de Portugal, veio esse, era um sargento, um bosta qualquer português, que se estabeleceu no Brasil, e essa é a origem dos morta. E aí começou a história. Começou a história. Eu adoro história também.

Uma coisa que ensina muito. Se as pessoas soubessem mais história, elas errariam menos. Os seus pais faziam o quê? Os dois advogados. Na verdade, minha mãe, quando ela casou com o meu pai, ela já tinha se formado advogada. Foi uma das primeiríssimas mulheres a formar advogada em São Paulo, 1942.

Então minha mãe era danada. Mas logo conheceu o meu pai, que ainda estava terminando o curso de Direito, estava atrasado e depois ele se formou advogado também, mas nunca quis que minha mãe trabalhasse, aquele machismo antigo, a mulher tinha que ficar, ela foi bastante prejudicada nisso e a resposta dela foi dominar ele completamente, fazer ele fazer tudo o que ela queria. Ah, é? Tá bom, é a vingança.

E assim foi. E foi bom para ele, porque ela era muito mais... Ele era um aquariano, mais visionário, era jornalista também, antes de formar advogado, ótimo jornalista, escrevia maravilhosamente bem.

ele queria uma vida tranquila ela não, ela queria que ele fosse advogado de business, que ganhasse dinheiro, que levasse família para a Europa, que desse uma ótima educação para os filhos, que desse conforto para ela, roupas, joias passeios, tudo e ela era uma baixinha de um metro e meio mas dominava ele completamente então essa é a história e eles viveram viveram juntos 70 anos no ano que eu fiz 70 anos eu fui eu fui eu fui eu fui eu fui

Morreram os dois. Ele em fevereiro, com 92 anos. E três, quatro meses depois, ela foi também com 93. A gente já sabia. Quando ele morreu, ele teve uma espécie de demência. Foi ficando, foi se afastando, se afastando, até subir praticamente. Foi meio rápido essa fase? Não, foi um que levou uns três anos ali, sem dor. Foi se isolando do mundo ali.

E ela? Ele falou, estou de saco cheio de viver. Ela já estava com 90, 90 e tal. E ela não, ela tinha saúde por três meses. A gente fala, sempre acontece, pessoas que vivem juntas muito tempo. 70 anos dormindo e acordando juntos. Então, vocês se transformam.

além de vocês dois, numa terceira entidade ali também, que se desfaz com a falta de um ali. É muito comum isso, é um lugar comum até. Morre o marido, três meses depois vai, porque não aguenta. E assim foi ela, teve um AVC, foi em uma semana assim. Então eu vivi a minha vida inteira...

com o peso de um casamento de 70 anos, com todos os compromissos que isso implica, com todas... Eu vi muito como é que... Até na missa dos 60 anos de casados dele, eu fui falar em nome da família, que ele é um filho mais velho. Eu falei quase... Eu falei, porra, vocês exageraram muito, porque nem se juntar...

todos os meus casamentos e os das minhas irmãs, não dá nem um quinto do que vocês... Então vocês estabeleceram uma meta inalcançável, inatingível. Todo mundo riu, mas era a pura verdade, porque eles tinham uma grande harmonia.

na diferença ali. Ela era mais artística e tudo, e ele era mais humanista, ele se interessava pelas pessoas, era uma generosidade patológica. Ele dizia para mim...

Se aparecer uma pessoa na sua frente, precisar da sua ajuda, tem que ajudar. Não vai perguntar por que, tem que ajudar. Se apareceu ali, cruzou o seu caminho naquele momento, não foi por acaso. Então você tem que ajudar e assim você será ajudado. Ele tinha toda a razão. Mesmo uma pessoa fala, por exemplo, o cara é um mendigo que está ali pedindo dinheiro.

Ah, dá dinheiro, o cara vai beber tudo. Deixa beber. Um cara que está nessa condição, ele precisa mais beber para esquecer que está vivo. E assim foi todas as vezes. E muitas pessoas que eu ajudei do nada, foi muito importante para essas pessoas. E eu recebi o troco depois. E outro triplo, muitas vezes também. Eu fui muito ajudado na minha vida. Você imagina um cara que teve como...

Mentores, professores, assim. O Vinícius de Moraes. O Nelson Rodrigues. Paulo Francis. O humorista contou a piada, todo mundo tá rindo e só você tá quieto, pensando na morte da bezerra. Xiii, tá desconectado, né? Experimente a deliciosa Delvale Limonada e se reconecte.

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Glauber Rocha, esses foram meus grandes mestres, embora que eles tivessem pensamentos muito diferentes, eles fossem muito diferentes entre si, eram artistas, humanistas, políticos, pessoas que orientaram a minha formação.

tanto a minha formação artística, quanto a minha formação política e existencial também. Falando em existencial, eu tenho 30 anos de análise lacaniana que me ajudou muito na minha vida. Ali dos 30 aos 60, eu fiz muita análise e posso dizer que salvou minha vida. Salvou no sentido...

de poupar de sofrimentos, de situações adversas, de ressentimentos, de tudo. Eu aprendi muita coisa e tudo ali no poder da palavra, que eu acredito loucamente no poder da palavra. Na verdade, eu vivo disso. Então, quando eu escrevo tudo, eu vejo o poder que a palavra tem.

pro bem e pro mal, né? pro bem e pro mal, se você falar que se eu quiser ser entendido perfeitamente, sem margem ou com margem mínima de erros, de interpretação eu prefiro escrever aí eu me garanto, eu sei o que é o peso de cada palavra eu até digo pra...

quando vem essas palestras, vem os garotos, não, qual é uma dica aí para escrever bem? Eu falei, primeiro você bota as letras bem grandes no computador.

E aí você vai escrever, a frase vai ficar enorme na tela, e você vai ver o peso real de cada palavra. Caralho, isso está demais. Vou tirar essa estrela. Você vê, você vê o peso, garanto a você. Então, isso é... Porque escrever, como dizia o Drummond, é cortar palavras.

Então você vai escrevendo e para deixar só o filé mignon, tem que tirar a gordura toda, tem que tirar o osso, tem tudo para deixar aquilo. Dá trabalho, exige técnica, exige aprendizado, mas é uma linguagem, para quem sabe manipular, é uma linguagem infalível. Você sempre foi cercado de livro. Sempre, porque meu avô também, meu avô parte pai, era...

era um professor da faculdade de Direito, depois foi ministro do Supremo Tribunal Federal, era um homem jurista da Academia Brasileira de Letras, também era foda, o Cândido Mota. Então, isso também estabeleceu a vara num ponto bem alto. Até uma coisa que...

Eu tenho até vontade. Já me falaram alguns amigos da Academia Brasileira de Letras. Eu adoraria, menos por vaidade pessoal, é claro que é muito maravilhoso, com orgulho você ser da Academia Brasileira de Letras, ter maior respeito, mas principalmente como homenagem ao meu avô. Seria a primeira vez que eu viria na academia

Dois. O ideal seria na cadeira dele, mas eu nem sei com quem está agora, que vai passando de tudo. Então, com ele eu aprendi o amor aos livros. Ele me ensinou o amor aos livros. Quem tem livro nunca está sozinho ali. Eu sempre adorei ler. Eu lia tudo. Tudo, tudo, tudo, tudo, tudo. E continuo.

um bicho leitor, né, ali, drogado em notícias, com um inferno de internet, atualização a cada minuto, tudo, para um jornalista que... O jornalista já é habituado a ser um cara viciado em notícias, toda hora tem que estar atualizado, tem que ser... Imagina com tudo isso, atualização em tempo real, da história da humanidade ali, na ponta do dedo, então...

Isso é um vício grave. Muitas vezes eu luto contra isso, porque acaba perdendo muito tempo. E você sempre com aquela sensação de que está perdendo alguma coisa. Está perdendo alguma coisa, mas eu acho que tem que lutar contra isso, porque se você olhar bem a maioria de todas as notícias que você viu ali em duas, três horas...

Muito pouco, espremendo ali, um caldo é pouco. É. Mas é um preenchimento de tempo. Ali você olha, puxa outra notícia, outra notícia, outra, outra. Meu Deus, passou o tempo. O que tinha aí? Nada. É. E aí você perdeu duas, três horas. Mas, Nelson, o que você queria ser quando era moleque? Ah. Direito nunca foi teu...

Embora eu tenha entrado, eu fiz vestibular com 17 anos, um idiota, eu não sabia de nada, e eu fui fazer vestibular para direito, passei. Mais pelos seus pais? Pelo meu pai, que o meu era advogado, o meu avô também era jurista, meu pai tinha um escritório de advocacia. Eu tenho certeza que ele adoraria que eu fosse ali, que eu fosse o sucessor dele, natural.

Mas eu odiei tanto a faculdade, não ia a aula nenhuma, até o centro acadêmico eu achava chato, aquelas discussões políticas, aquelas demagogias, era muito chato, eu fiquei com 18 anos, eu estava muito infeliz. Não sabia o que ia fazer da vida. Eu gostava muito de música, mas a música não gostava de mim, eu não tinha talento musical, nasci com isso também. Tentou?

Tentei, estudei violão anos e anos e anos com o Roberto Menescal. Cheguei a tocar bem, direito, assim. Mas as pessoas, a minha turma de amigos, que era o Edu Lobo, o Dori Caíme, o Francis Jaime, o Marcos Valle, o Chico Buarque, o Toquinho, eu olhava para eles, ninguém tinha música gravada ainda. Nós já éramos amigos. Mas você via a diferença? Eu falei, porra, nem que eu estude 50 mil horas por dia, eu vou tocar igual esses caras.

rapidamente mudei para fazer letras de música para o Dori Caymmi, que não sabia fazer letras. Fizemos uma bela parceria, ganhamos festivais. Isso deu um rumo à minha vida, fazer letras de música, que foi uma forma que encontrei de participar da música sem ser instrumentista. Se eu tivesse insistido em ser instrumentista, você...

Provavelmente não me encontraria aqui, mas no lobby do hotel, fim da tarde, Strangers in the Night, seria o meu destino. Então, houve uma época que eu quis muito ser músico, esse tempo ali, uns três, quatro anos, quando eu me apaixonei.

pela música, me apaixonei pela música com 14 anos, nem ligava pra música, achava coisa dos meus pais chato, aquilo, queria saber de surf, de meninas, de cinema italiano, de coisas, novidades a vida em Copacabana era paradisíaca, né, nesse tempo e então eu fui já me perdi aqui eu ia eu ia

Antes da faculdade? Antes da faculdade. Então eu fiz a faculdade. Mas você chegou a tentar outras coisas? Depois é que eu tentei, mas meu pai me ajudou também. Porque ele falou pra mim, ó, eu tô vendo que você não tem nada a ver com isso. Larga essa merda, você não tem nada a ver com isso. Foi a frase textual dele. Eu larguei. E felizmente encontrei... Tinha... Tinha...

tinha aberto há um ano uma nova faculdade de design que era uma novidade no brasil não existia tinha uma escola superior de desenho industrial no rio eu falei porra é isso é isso sempre gostei de desenhar na verdade

Algum talento natural que eu não tenho para a música, eu não tenho um bom ouvido para a música, eu não tenho sentido de ritmo, eu não tenho swing dançando, paciência, não se pode ter tudo. Mas eu desenvolvi esse amor e essa compreensão da música, porque, do outro lado...

Mas para o design, para o desenho, você tinha um talento? Eu tinha. Quando eu era criança, eu gostava de desenhar. E desenhava muito bem. Babá me levava no parque, eu ficava desenhando os pássaros, as aradas. E para mim, no papel, quando eu desenhava, estava igualzinho, quando terminava ali. Então eu fui uma criança bem quieta, que eu gostava de desenhar. Então...

Com certeza eu tinha muito mais talento para o desenho, para o manual, do que para a música, com certeza. Mas eu gostei da música. É uma metáfora da vida real, mas ela não gostou. Eu vou gostar dela assim mesmo e eu vou ter uma relação amorosa com ela.

qualquer jeito. Então eu tive relação amorosa com a música como produtor, como compositor, como diretor de estúdio, como diretor de marketing, de gravadora, como curador de festival. Então todas as... Tudo o resto com a música eu aproveitei. E continuo envolvido. É engraçado que nos últimos anos...

que eu estou mais velho e tudo, eu tenho tido muitos convites para fazer curadoria de um festival. Isso é uma coisa de coroa, né? O cara que já vê ali. Então, vamos ver o que o velho diz. Faz isso, isso, isso. Boa! Eu estou adorando mais uma profissão na música que eu estou. Na curadoria. Só na minha casa, ali à vontade, olhando o mar, pensando, tendo ideias.

E depois vendo realizadas as coisas. Porque eu lutei muito para fazer muita coisa, produzir muitos shows, coisas muito difíceis. Mas que se conseguiu de uma forma ou de outra. Você chegou a seguir alguma coisa do design lá na faculdade? Eu fiz até o quarto ano. Eu adorava aquilo. Adorava.

Encontrei a minha vida. E aí? Continuei levando a vida musical paralela. O que você estava fazendo na época? Nada. Estudar. Estava começando a fazer músicas com o Dori. Mas isso não era nada. Não era uma profissão. Esse pessoal todo você conheceu como?

Era amigo da Wanda Sá, que namorava o Edu Lobo, que era amiga da Helena Gastal, que depois eu namorava, que eram amigos dos irmãos Vale, Marcos e Paulo C. A gente encontrava na casa da Wanda, muitas vezes. Mas tinha muitas reuniões na minha casa também, meus pais adoravam música. Então, essa turma de amigos, a gente se reunia lá. Eu estava começando a fazer letras para o Dori,

Mas aquilo não era profissão, não pensava isso como uma profissão, pensava como uma forma de me manter no mundo da música e queria ser designer. Cheguei a desenhar algumas coisas, o logo da Bolsa de Valores do Rio, eu e um colega que desenhamos, estudante ainda.

E aí, quando eu cheguei, já estava quatro anos na escola, eu era aluno do Zueni Aventura. O Zueni ensinava português para a gente, ensinava comunicação. Era para os designers saberem apresentar um projeto, saberem fazer uma análise, saber escrever, fundamental.

Agora, as aulas do Zuenir eram tão maravilhosas que ele falava do novo jornalismo que estava acontecendo nos Estados Unidos, a imprensa brasileira, os alunos adoravam ele, ele comentava política, tudo que tem um jornal, a comunicação e tudo. As aulas dele eram tão maravilhosas que ele falou você não faz um estágio no jornal, você escreve bem. Eu escrevia direito.

Fui fazer um estágio no Jornal do Brasil. Em três meses, estava contratado e larguei a escola de design. Nossa. Contratado para fazer o quê lá? Repórter. Repórter mesmo? Repórter. Entrei como repórter. Fiquei três meses como estagiário, ganhando um salário mínimo. Depois fui promovido a repórter. Contratado como repórter, ganhando dois salários mínimos.

E eu, como repórter, trabalhei um pouco até em geral, pouco tempo, mas logo fui para a área cultural e trabalhei muitos anos no jornalismo cultural. Tive colunas no Globo, na Última Hora, com Samuel Weiner, em vários lugares, todos os grandes veículos. Eu trabalhei na Folha de São Paulo, também tive uns cinco anos.

mas era mais coluna de opinião, porque durante um bom tempo eu fiz jornalismo cultural com opinião também, mas colunas de notas, de noticiário, colunas poderosas, né? Onde eu sempre adotei um princípio, que se eu não gostava de uma coisa, o pior castigo era ignorar, eu não tocava no assunto.

Se eu gostava, eu enchia a bola daquilo. Eu falei, eu vou usar meu espaço para falar mal de um show que já foi ontem, que foi ruim e que hoje talvez seja bom, ninguém sabe. Então, um show, as mesmas músicas, os mesmos artistas, a mesma banda, um dia é maravilhoso, outro dia é péssimo. Então, não vou perder meu tempo e gastar meu espaço precioso do jornal para falar mal de coisa.

O pior castigo é ser ignorado, é o pior desprezo, é você ser ignorado. E essa política sempre deu certo, porque meus leitores eram mais bem informados, porque os artistas me davam notícias. Antes eu tinha bom transo com os artistas, porque eu não era um cara escroto, que vivia falando mal.

ou era amigo, ia contar uma fofoca que eu ouvi no bar, eu não fazia isso. Essa história de perco um amigo, mas não perco a notícia comigo, não rolou. Nunca perdi um amigo por causa de nada disso. Amigo é muito, muito precioso, né? Eu vejo a falta que eles fazem na minha idade.

A maioria dos meus amigos já foi. Pois é, né? Então isso é uma falta danada também. Claro, tem meus netos, tem meu bisneto de seis anos. Um espetáculo, moleque, o Rafa. Então, agora entram as novas gerações. Meus netos, meu neto... A Marina e o Joaquim trabalham comigo, me ajudam.

na internet, na administração de muita coisa. E a minha neta Antônia, artista plástico, espetacular, eu quero viver bastante para ver a consagração da Antônia, porque ela é sensacional, essa garota. Então vai outras coisas, minhas filhas já estão com a vida resolvida, duas moram na Europa.

Então a vida vai tendo novas etapas. E é importante você viver todas com maior entusiasmo. Em vez de falar, mas se fosse a outra era melhor. Não, não era melhor. É o que é. É o que é. Você faz esse exercício às vezes? Totalmente. Do que aconteceria na sua vida se tomasse aquela decisão ou tivesse feito aquela decisão? Eu já olhei algumas... Imagina.

Especialmente relações amorosas. Imagina se eu tivesse ficado com fulana. Meu Deus do céu. Ou se eu tivesse mandado fulana embora antes. Então eu pergunto. Ou também, que oportunidade eu perdi? Que é pessoa maravilhosa. Faltou ali alguma coisa, mas também acontece isso.

história de orgulho. Ah, não me arrependo de nada. Isso é conversa. Uma coisa de bobo, porque é de uma prepotência. É impossível se viver todas as vidas. Eu não me arrependo de nada. Tem sempre isso. Eu não quero me arrepender do que eu deixei de fazer. Palhaçada. Palhaçada. Claro que se você arrepende, você é um bobo. Muita coisa podia ser melhor na minha vida se eu tivesse tomado a decisão certa.

Isso implica não se arrepender, implica dizer que você não falha nunca, que você está sempre certo. Isso aí não vale. Mas quando a tua vida começou a mudar na área da música? Começou a mudar logo quando eu tinha 22 anos e eu e o Doricayme ganhamos o Festival da Canção. Aí mudou tudo. Qual música?

Saveiros, cantada pela Nana Caymmi, nós ganhamos o festival e aí eu fui, eu que era repórter, virei notícia no Jornal do Brasil, porque tinha repórteres de cultura, estavam procurando o garoto que tinha ganho o festival para entrevistar. Eu estava lá na redação o dia inteiro, só no fim do dia as repórteres me acharam lá. Então foi essa... ...

Essa passagem. Foi uma virada de chave, então. Foi uma virada de chave, porque eu me tornei reconhecido. Depois disso me propiciou. Eu fui chamado a um programa de televisão para fazer um júri, o primeiro júri de programa de televisão. O Flávio Cavalcante chamava um instante maestro. O cara que teve a ideia de botar seis pessoas, seis críticos de música, numa bancada.

e apresentava, as pessoas apresentavam, davam opinião ao vivo, na cara dos artistas que apresentavam as músicas. Era uma coisa inédita isso daí? Inédito isso não teve. E depois isso virou também o programa de Calouros, que é uma tradição desde sempre do rádio, da TV, o velho programa de Calouros, que é o The Voice, eu acho, né?

Aquilo foi o primeiro que botou um júri na televisão. E era interessante, porque jornalistas com opiniões, opiniões, gerações. Eu era o mais novinho da bancada, tinha 22, 23 anos, mas eram uns coroas, então eu era a vanguarda daquilo. Eu defendia o tropicalismo, defendia a jovem guarda, os outros eram velhos, esculhambavam as coisas mais modernas. Então, fiquei muito popular também durante uns dois anos.

Aí depois o Boni me levou para a TV Globo. Me levou, praticamente pedi para ir para a TV Globo, porque eu queria participar daquilo, porque eu estava vendo aquilo começando a acontecer, aquela TV Globo, encontrava ele, o Walter Clark, a turma que estava construindo a TV Globo. Você pegou o comecinho.

É pra aí que eu quero trabalhar, porque o programa foi ficando cafona, muito popular, muito apelativo. Mas direto na TV Globo? Você passou pra TV Rio? Não, direto pra TV Globo. Eu vou sair, mas você vai sair... Tanto que... Olha que coisa idiota que eu fiz, mas...

Aí o Boni falou pra mim Vem ficar com a gente lá na Globo Que é trabalhar no jornalismo Você conheceu ele de onde? Do Bar Antônios, onde se reunia Todo mundo encontrava, almoçava e jantava Não só da televisão Da televisão, de publicidade O Rubem Braga Os grandes cronistas As maiores personalidades Se encontrava nesse bar, restaurante Antônios No Leblon Então lá que eu conheci o Boni Eles iam sempre almoçar lá E aí

eu ia ficar com a gente na TV Globo e tal, eu queria ir quanto você quer ganhar? eu falei, quero ganhar a mesma coisa que eu ganhava no Flávio Cavalcante olha que estúpido e era pouco ou era muito? era bom, mas diz você aí certamente ele generoso como é, teria oferecido mais mas só a convivência com o Boni pagou tudo, foi só um

um salário extra, né? Inclui o aprendizado com o Bonifácio. Mas o que você foi fazer lá? Eu fui trabalhar no jornalismo. Eu fazia coisas, reportagens, grandes eventos, cultura, né? Depois fui trabalhar no jornal Hoje. Foi desde a primeira vez, primeiro programa.

Trabalhei durante anos no Jornal Hoje, todo dia de manhã, ia para a TV Globo, fazia um comentário musical, artístico. Eu tive meu próprio programa, que chamava Papo Firme, era um programinha de cinco minutos, antes da novela das sete, que era naquele tempo, onde eu dava dicas musicais, era espetacular, né?

aquilo, porque não tinha isso, a juventude se ressentia disso. Aí finalmente consegui convencer o Boni, falei, Boni, tem que ter um programa de rock na televisão, não tinha nenhum programa de rock na televisão brasileira, estamos falando de 1970. Aí falei, vamos fazer, fizemos o Sábado Som, eu convenci o Boni, ele comprava filmes de concertos de rock americanos, e a gente editava, cortava, pegava e eu cyber cyber cyber

Não tinha clipe nesse tempo, tinha que cortar um musical. No caso, cortar literalmente. Era película, cortava na tesoura. Então fiz o Sábado Som, que foi a glória das glórias, que toda essa geração de Lulu, Lobão, Léo Jair... Beberam aí, né?

Todo mundo juntava às três da tarde para assistir o Sábado Som, porque era o único programa. O que passava nesse programa, por exemplo? Ah, o Pink Floyd em Pompeia, passava Black Sabbath, passava os Stones, o que tinha, passava... Isso durou pouco, acho que foi uns dois anos só que durou. Nem sei por que, acho que era muito caro, porque tinha que comprar esses filmes todos.

Mas aí fiquei ligado diretamente à música. E depois, na televisão, eu voltei por outras funções, porque eu gostava de escrever também. E fui ganhando, tinha muitos amigos roteiristas, muita convivência com gente de cinema, eu sempre tenho vontade de escrever para a televisão e tudo.

Eu morava na Itália e eu vim ao Brasil para ser comentarista do primeiro Rock in Rio. Mas como você foi parar na Itália?

Aí eu fui parar na Itália em 83, em agosto de 83. Minha vida no Brasil estava péssima. Estava cheirando pó feito um louco. Não é um horror. É o fundo do poço. Eu estava trabalhando, tudo, mas... As coisas estavam dando certo. Tinha uma mulher péssima e cheirando, bebendo. Nem fui de bebê nessa época que...

Juntou tudo de ruim, né? Como diz o Paulo Coelho, a cocaína é a droga do diabo. E quando eu fui para a Itália, para um festival de música brasileira que teve lá, eu falei, eu vou ficar por aqui. Eu vou ficar por aqui, porque aí eu me livro da cocaína, entendeu? E no Rio era impossível, você ia a qualquer lugar, todo mundo cheirava. Então, você ia numa festa, não, não quero, não, não quero. Mas está lá, né? Que isso.

Acaba querendo. Então, eu falei, vou fugir aqui, eu não conheço ninguém. Eu já tinha ido à Itália muitas vezes, falavam italianos já razoável, e adorava o país, aquilo, foi aqui eu vou ser feliz. E realmente, não só me livrei da cocaína rapidamente, como fui muito feliz na Itália, esses quatro anos que eu passei lá em Roma, sempre.

Aí eu fiquei, porque eu estava ganhando dinheiro. Você estava trabalhando como nessa época lá? Eu não estava trabalhando. Ah, não? Eu tinha o Morro da Urca. Eu fiz o Noites Cariocas no Morro da Urca. 4 mil pessoas, o nightclub de maior sucesso no Rio. E eu tinha vários sócios, né? Administrador, sócio artístico, que tomavam conta do negócio. Falei, pessoal, ó.

Vambora, vou ficar aí, vocês vão tocando aí. Eles me mandavam dinheiro todo mês. Então eu fiquei... E eu escrevia para o Globo de vez em quando, quando eu tinha vontade. Aí fazia uma página inteira, contando a vida na Itália. A vida dos sonhos, muito saudável. E, sobretudo, foi um mestrado ali, porque...

Aprendi demais sobre arte, sobre história da arte, vivendo em Roma, vivendo a vida italiana, a história italiana, aquilo tudo. Onde você vira o olho é bonito, não tem erro. Ali me entupindo de beleza, essa minha grande... E na Itália, eu também fui chamado pela Tele Monte Carlo, que era a TV Globo, comprou uma TV em Roma.

eu fui fazer um programa para a juventude lá, chamava Pop Shop. Era uma mistura de show de clipe com uma comédiazinha jovem e tal ali. Mas não fez sucesso nenhum, durou nada, não foi o meu sábado som italiano. Mas aprendi muito nesse fracasso também. Era uma certa audácia também, escrever, produzir, dirigir.

em italiano, pra italianos, um programa com atores amadores ali, praticamente. Eram meus amigos que eu chamei ali que não tinha grana pra isso. Mas foi divertido. Foi bem divertido. O que foi bom... Então, na Itália, em 85, me chamaram à TV Globo pra eu ser comentarista do Rock in Rio, o primeiro Rock in Rio. E eu fui.

também comentei o Rock in Rio, foi uma maravilha aquilo. Daí, teve uma proposta, muito amigo do Daniel Filho também, que era um diretor artístico da Globo, essa tabelinha Bonny e Daniel Filho, foi época de ouro, de diamante da TV Globo.

E aí o Daniel falou, tem uma ideia que falou para mim, para o Euclides Marinho, meu grande brother, escritor de Malu Mulher, de Quem Amaral, mas um monte de séries, novelas, tudo. Tem aqui uma ideia, se vocês querem trabalhar, Andréa Mudebiás e Cadu Moliterno, Projeto Surf. Era só uma pasta de papelão. Mas o que era a ideia inicial? Era um programa que o Cadu e o...

Giano Sufid é um programa de aventuras de jovens. Isso que eles queriam. E nós formamos isso no Armação Ilimitada. Pegamos esse começo, mudamos completamente o troço. Era pra ser...

a Zelda Scott, que era a namorada dos dois, era para ser a Julia Lehmert. Nós pusemos a André Beltrão, que estava começando, mas foi espetacular. Virou ídolo das garotinhas no Brasil. A André Beltrão, tanto que está aí até hoje, um monstro das maiores atrizes brasileiras.

E o humor, né? E o humor bastante, tinha muitas piadas. Mas vinha do Besterol, do teatro do Besterol? Não, o Besterol veio depois também. Veio mais ou menos... O Besterol de teatro veio mais ou menos simultâneo ali no início. Mas de onde veio essa inspiração? Mas o Besterol que veio do Armação veio a TV Pirata, veio um... Caceta, tudo? Tudo, para ter uma ideia... Era muito diferente a Armação. Era muito diferente, tanto que era...

No primeiro programa, terminava o primeiro programa, eles dois, os dois resolvem ter uma crise de ciúme lá, porque os dois namoravam.

a Zelda, então elas faziam uma corrida de moto num espenhadeiro num precipício assim cacete, aquela nervosismo o diretor era o Gell Haas então o Gell Haas que nunca tinha dirigido só novela mas aquilo era tudo novidade a linguagem de clipes tudo aquilo foi inventado por ele por nós ali então chegava no final blum

A moto do André despencava pelo despenhadeiro, rolava e ia capotando, terminava no mar. Porra, como é que pode um seriado que um dos heróis morre no primeiro capítulo? No primeiro episódio. Caralho, o que é isso? Eis que, de repente, vem subindo pelo despenhadeiro.

Todo lambuzado o André Debiase. De coisa. Isso tudo é brincadeira. É tudo de mentirinha aqui. Nada disso é verdade. Desmoralizando. Já quebrava a cor. O narrador falava? Quem falava isso era uma narradora. Que era uma DJ. Era a irmã da... Filha do Gilberto Gil. A Nara Gil.

chamamos a Narinha para fazer, era um DJ de rádio, que ia comentando as ações do programa, e no final, quando ele sobe, ele ia fazer tudo mentira. Mas em rap, era com rima, tudo. E era engraçado também, porque...

Ela se chamava, esse DJ se chamava Black Boy. E era uma menina. E chamava Black Boy. Era tudo subversivo. Tinha o chefe também, não tinha? O chefe era uma maravilha, porque... Era o chefe da André Beltrán, a jornalista, e tinha o chefe dela na redação.

E o chefe era literal. A linguagem era literal. Porque ela fala, ai meu Deus, o chefe hoje está um anjo. Aí ele aparecia de asas, conversando normalmente. O chefe está uma fera, passinha. Juba rugindo. Isso virou uma febre até. Como que é o nome do ator?

Grande ator também. Milani, Francisco Milani. O Tolerância Zero depois, né? Tolerância Zero, muito engraçado. Muito disruptivo essa série, é muito legal. Então era tudo... A música, aventura, humor... Eu era diretor musical e também um dos redatores. Um dos maiores orgulhos da minha... Como que era escrever aquela doideira? Ah, era divertido. Tinha liberdade total, assim? Porque estava vivendo... Inclável, né? Porque ali...

Ali ainda era finalzinho da ditadura. Teve até um episódio inteiro. Eu vou contar esse episódio e depois a gente volta, porque o episódio é muito bom. A série já rolando. Não, final do primeiro capítulo. Ah, no primeiro? Dia da estreia. A gente ainda na mesa de edição. Ali, pessoas tirando coisa, botando. Bom, chegou uma notícia. A censura proibiu essa cena. A cena.

era a Andrea Beltrão, pelada, com uma faixa preta... Aquelas faixas de censura. De censura. Era uma piada. No peito, é. Era uma piada. Ela era nu em pelo, de corpo inteiro. Uma na cintura, uma faixa preta e outra no peito. Era um deboche da censura. Era uma piada espetacular.

E ela andava... E acompanhando. E foi a junta. Não tinham feito ainda isso em televisão. Não? Não. A gente fez como piada e foi espetacular. Daí a notícia era essa. Não pode. Ó, a censura cortou. Não pode. O quê? Putz. Aí falaram pro Guel. Guel. Não podia cortar a cena. Era uma cena importante, uma piada espetacular. Não tinha nenhuma. Aparecia nada aqui na estela.

Os caras ainda tinham censura, ainda existia, formalmente, pelo menos. E aí o Guel falou, quer saber? Não vou cortar nada, vou ligar para Fernando Lira, que era o ministro da Justiça, era amicíssimo, era um liderado do Miguel Arraes, pai do Guel. Fernando Lira, deixa que eu me aviso com ele. Pode, vai manter.

E manteve a cena e não aconteceu nada. Nada? Nada. Pagaram pra ver. Pagaram pra ver. E foi sucesso o episódio de estreia, já? Foi já, porque o impacto... E era tudo, tinha câmera rápida e câmeras lentas, tudo. Era uma linguagem tão estranha... De onde veio essa inspiração? Tinha algum programa gringo, alguma coisa parecida? Ou foi uma doideira mesmo? Foi uma doideira.

E foi um desejo de liberdade também, de poder escrever, aquilo, fazer essas... Estava tendo esse... É, porque aí já acabava a censura. Você estava sentindo na música, na televisão, todo mundo querendo falar. Todo mundo querendo falar. Então aí, palavrão não tinha. Não podia, né? Mas tinha outras coisas mais sutis assim. Tinha um episódio que o Maurício Matar eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu só fui eu

Maurício Matar. Era a Brother Nossa na época. Maurício era um cara que estava estudando na França e tinha um amigo da Zelda que tinha voltado ao Brasil. Então, Maurício Supergato ali com a Zelda e os dois heróis ficaram enciumadíssimos. Quem é esse cara? Quem é esse cara? Aí eu lembrei que o Gilberto Gil tinha feito uma música.

com esse título que eu não vou nem dizer. Aí tinha uma cena, acho que tem uma cena do Maurício remando num rio, passando assim, e o Gilberto Gil cantando no fundo uma música dele. O veado tem os caminhos abertos. Uma música que ele fez chamada O Veado, que é ótimo.

Então tinha dessas coisas. Essas brincadeiras. Não aconteceu nada. Nossa. Mas era uma gargalhada. Você se divertiu. Ah, a gente ria muito. Então a equipe que a gente chamou, era inicialmente eu e o Clídeo Marinho, e aí chamamos também o Antônio Calmon, que era um cara que tinha feito vários filmes, depois virou novelista famoso também, o Calmon tinha feito filmes de jovens, ele gostava desse universo jovem.

E ter uma mulher, chamamos a Patrícia Travassos, também que era do Asdrubal Trouxe o Trombone, um grupo de teatro, a Regina Caselo, o Fernando Guimarães, Evandro Mesquita. E a Patrícia foi fundamental também, que dava o lado feminino na história. Então estava acontecendo esse movimento aqui no início. O nosso trato com o Boni, eu e o Euclides, pelo menos, e o Euclides, oi!

vamos fazer os quatro primeiros programas e depois vamos... Ele estava morando na Itália também, vamos voltar para a Itália. Porque eu não quero... Eu sei que vai ficar chato, vai ficar enchendo... Depois de quatro programas... Aquela rotina eu não aguento. Toda semana tem que inventar as coisas na hora e tudo, vamos embora. Porque aí começa a piorar. Então eu me conheço. Para mim seria um desastre ficar. Um desastre.

Então saí depois, eu e o Euclides saímos. Depois todo mundo, foram entrando outros autores, entrou o Mauro Raza, o Jorge Fernando. Aí virou terra de ninguém ali. Todo mundo queria participar do Armação, os escritores de novela, de comédia, de tudo, porque era uma tela em branco, uma oportunidade para muita novidade, muita loucura. Pois é.

Aí você volta pra Itália, é isso? Aí voltei pra Itália. Fiquei na Itália. Mas isso é difícil, hein? Um sucesso aqui... E tinha alguma coisa lá? Não, eu tava fazendo... Voltei pra fazer esse programinha que foi ficando chato também, porque era muito pobre, não tinha dinheiro pra nada, não dava audiência, não tinha futuro aquilo, sabe? Então, eu fiquei mais um tempo na Itália. Como correspondente também? Também.

E daí resolvi voltar e começar outra vida aqui. Minha outra vida... Você estava casado ou estava solteiro? Não, estava solteiro lá. E aí depois, quando eu voltei, começou logo a história da Marisa Monte. Que eu tinha conhecido a Marisa, depois tinha encontrado ela na Itália. Como que você encontrou ela lá? Em 87. Eu estava já para voltar para o Brasil e a... E aí...

Marisa era filha de uma amiga da minha irmã, que tinha pedido para eu receber a garota, para dar uma orientação para ela, que ela queria estudar canto lírico na Itália. Mas eu recebi a menina, que tinha 19, e fiquei muito impressionado com a Marisa. Como você conhece? Ela foi na minha casa. Ela não era profissional. Ela tinha 19 anos. E conversando com ela, eu vi...

E ela cantarolava muita coisa. Não, mas do Cartola. Pô, ela sabia tudo. Cartola, Vicente Celestino, Noel Rosa e Legião Urbana, Titãs. Isso era a geração dela, que tinha aquilo ali. Então, fiquei impressionado com a garota. Mas, pô, ela foi pra Itália, eu não encontrei ela na Itália. Encontrei uma vez só num piano bar.

que estava lá, que a mãe foi visitar, com as duas irmãs também, mas foi a única vez que eu vi a Marisa em Roma. Daí um dia a Marisa me liga e fala, eu estou voltando para o Brasil, não quero mais saber de negócio de canto lírico, isso é muito chato, tem que morar fora do Brasil, eu não estou afim desse troço, eu quero trabalhar no Brasil, quero ser cantora pop.

Mas antes eu vou passar uns dias em Veneza, na casa de uma amiga minha, e vou fazer um showzinho num bar com o marido dela, que é italiano, e toca um violão maneiro ali. Amador total, né? Você acredita que eu peguei um avião e fui pra Veneza pra ver Marisa cantar num bar? Num barzinho pequeno. E como foi? Juro por Deus, tem que virar. Pô, o Caetano me falou que quando ele leu essa história no...

no meu livro Noites Tropicais, que ele chorou. Depois a Paulinha me confirmou que é verdade, que ele ficou super comovido, porque ele falou que isso mudou o rumo da música brasileira. É mesmo? Essa atitude totalmente insensata. O que eu vou sair de Roma, pegar um avião, para ir para a Veneza, para ver uma garota de 20 anos cantar com um violonista amador em um bar.

Era a Marisa Monte. Porque quando ela começou a cantar, tinha um bar numa calçada larga à beira de um canal, e tinha um bar aberto para a rua. E ela começou a cantar no bar com o violonista. O cara errando, ruim. E ela cantando. Cara, foi juntando gente.

Primeiro encheu o bar inteiro. E foi gente espalhando pela calçada. E mais, e mais. Veio gente até o canal. Devia ter juntado umas 300 pessoas ali. Ouvindo aquela garota cantar. O dono do bar ficou super... Surpreso com aquilo. Nunca tinha acontecido.

pagou um cachê de 50 dólares pra Marisa, falou pra eu falar, Marisa, seu primeiro cachê, eu sou testemunha, 50 dólares. E o que ela tava cantando? Cantando música de barzinho, Milton Nascimento, Djavan. É, de barzinho, era uma cena de barzinho. Poxa. Só que era a Marisa. Daí, depois, quando vim ao Brasil, encontrei a Marisa, e ela falou, eu quero trabalhar com você. Eu que propus a ela.

Ela falou, quero começar uma carreira profissional. Fui ver um showzinho dela, foi espetáculo. Essa menina é absolutamente fora da curva. E aí trabalhamos um ano para botar de pé um show, escolhendo música por música, músico por músico da banda. Foi tudo como deve ser, porque eu tinha sido produtor, digamos.

comercial de gravadora durante muito tempo. Isso foi tudo ao contrário do que eram as regras de gravadora. Tudo foi feito com calma. Primeiro a formação da banda e depois começaram a fazer show em Barzinho no Rio. Escolher repertório. Escolher repertório. Levou meses escolhendo repertório. Mas você já imagina, era uma preparação para gravar? Não, ninguém nos falava em gravação.

Marisa fala, eu quero ser uma grande cantora de palco. Tanto que o ídolo dela era Maria Callas, que é artista de palco. A Marisa não é pouca pica, ela mirava alto, não era Billie Holiday, não. Estava mais para Maria Callas. Claro, ela amava Billie Holiday também. Mas, então, foi escolhido, fizemos tudo como deve ser feito.

Se alguém quiser ter um manual como produzir um disco, foi porque não tinha pressão nenhuma. Nem da Marisa, nem nada. E essa aí? Essa estrada vai lapidando também? Vai lapidando. Quando ela estava pronta, já tinha feito.

10, 15 shows. Já tinha mudado muito do primeiro show. Agora está pronto, vamos gravar. E a presença de palco dela, como que era nesse começo? Mais tímida? Já estava pronta? Não, ela sempre tímida, fechada. Ela é discreta. Até hoje ela ainda é. Hoje eu brinco com ela. Eu falo, Marisa, eu vendo esse último show dela com a Orquestra Sinfônica.

E ela com uns figurinos absurdos, de ópera, tudo, os cenários de ópera. Marisa, finalmente você virou uma diva de ópera. Só que canta música popular, mas isso é só um detalhe. A atitude, a performance... E poderia cantar. E tem bala para isso.

Então, começou essa aventura, Marisa Monte, foi uma outra etapa na minha vida, que voltei a ser produtor de disco. É isso que eu ia falar, o que é o trabalho de um produtor de disco? O que ele faz? Eu produzi a Elis, produzi a Dirigir Show do Agal Costa, produzi o Tim Maia, o Raul Seixas. Produzir, você tem um papel de... Produzir é o seguinte, assim, né? É você...

discutir com o artista, depende da situação. Vou pegar o caso da Elis Regina. Elis estava num momento difícil, era a maior cantora do Brasil. Já era? Já era, estamos falando em 1969. Mas brigada com muita gente, a MPB estava meio decadente, o rock brasileiro ainda não tinha aparecido. Já tinha festival, já tinha tudo. Já passou por tudo isso. O Gil e o Caetano já estavam exilados.

Era uma merda, música brasileira, tudo, e eles precisavam urgentemente de mudar o repertório, a imagem. E ela me chamou para fazer isso.

Estou aqui comendo uma jujuba. É, essa jujuba está salvando. Não, não é possível ficar olhando essa jujuba o tempo todo. É colorida, né? Nossa! Não vale pegar só a vermelha. Não, eu estou... Já passei a vermelha, a laranja... A roxa é boa também. A verde que ninguém pega, você já percebeu, né? É, eu acho a roxa mais... Mas é uva, né? Tudo é bom. Bom, então...

Ela te procura? A Marisa me procurou pra fazer. A Elis. A Elis, desculpa. Então nós levamos um bom tempo ouvindo músicas também. A missão do produtor é dar opções pro artista. Eu vou sair catando música com todo mundo que eu conhecia. Olha, Elis tá fazendo um disco. Preciso de música nova. Tem alguma coisa. Tipo em todo mundo.

Me dei bem porque falei com o Gil e Caetano que estavam brigados com a Elis por causa do tropicalismo, que a Elis esculhambou o tropicalismo. No início. O que ela falou? Ah, isso é uma farsa, sei lá, um monte de bobagem. Isso não é música, sei lá, um monte. Aí falei com eles, o Gil mandou uma música para ela.

Fez especialmente para ela, muito boa a música, Fechado para Balança. E o Caetano também mandou uma grande música para ela, que chama... Não diga nada... Esqueci o nome, é uma música muito boa também. E por cima de tudo, consegui com o Ivan Liss, uma música nova dele, que era meio um...

um samba soul assim, soul branco americano, não soul mas soul, Thelma Hilsack muito boa, era Madalena que foi um mega hit da Elis, então peguei essa música com Ivan e ainda por cima a cereja do bolo foi quando eu ouvi o Tim Maia cantando num single lá na gravadora mesmo eu só eu só eu só eu só

cantando Primavera, eu fiquei louco, falei, quem é esse cara, pô? Aí o produtor estava lá, esse é o Tim Maia, Tim Maia, é, o cara está em São Paulo, não sei o que, olha que música, eu quero conhecer esse cara, que eu preciso de música para eles. E tudo, me deram, me deu o contato, rapidamente já chamei o Tim.

E já adorei ele, porque ele era super engraçado. Tem história. Já tinha história ali. Eu falei, olha, faz o seguinte, vai lá para o estúdio, a Elis está lá com os músicos, a gente espera você. Ela quer gravar uma música sua, então leva só as boas e tal.

Aí chegamos no estúdio, ele tocou a primeira música, ninguém gostou muito. Aí eu, Elis, os músicos em volta. Daí esse outro também. Na terceira música, quando ele começou, já foi, porra, These are the songs I wanna sing. Falei, caralho. Aí ele ficou também louco, era meio uma bossa nova em inglês. Soul, soul bossa, olha que loucura. E aí o Tim.

A Elis adorou, falou, é essa. Eu falei, é essa também, é essa. Resolveu, mas não. Vamos gravar agora. Escreveu a letra ali para a Elis ler, o Tim mesmo tocando violão. A banda da Elis, que era o Azimuth, o Zé Roberto, o Mamão e o Alex, era a banda de apoio da Elis e ainda o Tim tocando o violão base.

E gravaram ali na segunda, terceira tentativa. Já valeu. Já valeu. Foi um dueto, um dos maiores duetos da história da música brasileira. E no final da música, eles ficaram lá naquela... Ficaram improvisando ali. E normalmente você faz, você deixa um tempo, depois vai fazendo um fade-out. Eu não, eu deixei até acabar a fita, até eles pararam.

porque era tão espetacular aquilo vamos ver no que vai dar foi uma história incrível história de um dueto que se transformou em um duelo porque cada um queria mostrar que cantava mais que o outro foi um se exibindo pro outro então foi sensacional e isso e o meu grande benefício foi e da Elis também foi que o Tim respeitou a gente toda a vida eu e a Elis eu e eu e eu

Falava mal de todo mundo, então eu guardo em casa uns LPs, que me davam uns LPs de vez em quando, com o respeito do time. Aí eu falo, aqui, ó.

O cara não respeita ninguém. Isso aqui vale ouro. Não respeita ninguém. Então, o Nelson Mota, com respeito do Tim Maia. E a Elis também. Ele nunca falou mal da Elis. Ficou gratíssimo a Elis. Porque a Elis, lá na Lílis, era a maior cantora do Brasil. Lançou nacionalmente o Tim Maia. O nome dele. Ele sempre foi muito grato a Elis. Então, foi outra fase. E como foi esse disco?

Esse disco da Eris foi um enorme sucesso. Marcou uma volta triunfal dela, moderna, mais universal. Começou com Madalena? Madalena foi um single, que foi um mega hit. E o disco saiu depois disso. Tinha Curva da Estrada de Santos, uma big band, como se fosse uma...

americana cantora de blues arregaçando mesmo ela não cantava roberto carlos era jovem guarda

gravou também espetacularmente se você pensar que vai fazer de mim, que faz com tudo também Roberto Erasmo isso é trabalho do produtor? o trabalho do produtor é oferecer as opções a decisão é sempre do artista eu sempre falava pra ela a decisão eu falava às vezes tinha

Ah, essa música não sei o que, cara. Eu adoro essa música, eu amo essa música. Eu falei, tenho certeza, não sei se essa música ama você também. Ah, porque tem isso também, né? A adequação. Tem que ter adequação. Não serve para o seu estilo, não serve para o seu momento. Então nunca teve discussões. Sempre ela ria e tudo. Falei, mas seu amor não é correspondido. E eu falei, quac, quac, quac, quac, quac, ficava por isso mesmo.

E eu falava, mas o disco é seu. Você vai cantar, o disco é seu. O nome que está na capa é o seu, a cara que está na capa é a sua. Então, meu amor, você vai gravar o que você quiser. Somente o que você quiser. E eu estou aqui para defender você da imprensa, da gravadora. Não vai impor, vamos fazer o melhor para você, não para a gravadora. E vou proteger você de você mesma também, não deixar você fazer besteira.

esse é o trabalho do produtor depois tem o trabalho todo

de estúdio, de você discutir os arranjos. Está muito rápido isso aqui. Vamos tirar um instrumento. Não, vamos botar. Agora vamos fazer orquestra. Não, com cordas. Não, sem cordas. Não, legal. Fazer um solo de galerinha. Aí tem essa trabalheira toda. Depois tem a mixagem do disco, toda a parte técnica final, que o produtor é o responsável. E não é ele que faz. É um masterizado que faz o master, mas o produtor é o responsável.

Então ele tem essas funções, depende do caso artista. No caso da Marisa, era começar do zero, então era, de certa forma, mais fácil, porque não tinha nada antes, então era começar do zero. Com a Marisa a gente pôde... Eu falei, Marisa, o nosso único critério vai ser qualidade.

A Marisa, o que espantou todo mundo foi a mistura dos estilos e musicais. Cara, o que é isso? Como que pode funcionar uma coisa tão... Exatamente por isso, porque a gente teve tanta liberdade. E falei, Marisa, nosso critério único vai ser qualidade. Isso é o que interessa, a qualidade.

Se a música é nova, antiga, se é cover, se é estrangeira, se é brasileira, não interessa. O que interessa é a qualidade. E assim foi. Então pegamos coisas de qualidade de todo mundo. Coisas antigas, coisas modernas. Philip Glass, que era um compositor praticamente erudito e tinha Peninha, cantava Valdir que soriano nos shows. Tudo ficava bonito com a Marisa cantando.

Cantava Titãs, cantava Luiz Gonzaga, forró, era tudo. Então, ela escolheu com essa ali. E teve um mega hit que foi Bem Que Se Quis, uma canção italiana que eu fiz uma letra em português. Qual que é a história dessa música? A história dessa música, quando eu morava na Itália, eu adorava o Pino Daniele, um napolitano.

grande artista, cantor, compositor de jazz, Steve Wonder gravou com ele, um cara espetacular, e eu ouvia muito músicas dele. A Marisa também conhecia, porque ela morou uns meses na Itália, pelo menos, e aí eu estava... Essa música, a Eugênia Mello Castro, uma cantora portuguesa, minha amiga, muito boa cantora,

Falei, olha, faz uma letra em português aqui para me cantar o Pino Daniela. Ela chamava Epocifá. Mais ou menos em napolitano. E agora o que eu faço? Mais ou menos isso. E aí eu fui fazer. Como eu consigo falar italiano bem, ler italiano bem, mas napolitano é outra língua. É mesmo? É, é outra língua. É mais que um dialeto. Então...

Então eu não entendia nada, eu não entendo nada disso. Então eu vou fazer uma letra como se fosse uma música do Lulu. Você pegou a melodia e... A melodia como se fosse o Lulu me mostrando no violão. Olha essa melodia. Coloca uma letra assim. Deixa que eu faça.

Então, essa eu fiz a ideia. Então, não tem nada a ver... A ver com a original. Com a original. Eu só me utilizei da melodia e da harmonia. Isso foi um mega hit da Marisa, que ajudou bastante no começo. Logo no primeiro disco? Logo no primeiro disco. E a grande característica era... Ela foi um...

Um lugar comum até de artista, que depois do primeiro show já saiu o jornal. Nasce uma estrela, óbvio. Assim de cara? O Jornal do Brasil, dois dias depois do show da Marisa no Jazzmania, aqui saiu a capa do segundo caderno inteiro com uma foto da Marisa. Nasce uma estrela. Um clichê, mesmo que se provou totalmente verdadeiro. Então, é...

A Marisa, como as pessoas, os jornais falavam bem dela, todo mundo estava encantado com a Marisa, porque era uma novidade, era uma garota imponente, era uma divinha de ópera. Ela fugia até do padrão estético também. Totalmente, ela era outra forma também ali. Introspectiva, franquinha, reservada, contida.

E aquelas interpretações intensíssimas. Uma variação. Então a imprensa não sabia como classificar. A Marisa é MPB, é samba, é rock, é pop e tudo. Então inventaram que a Marisa era eclética. Eclética. Aí surgiu no Brasil a figura da cantora eclética.

O que apareceu de cantora eclética depois, quem não sabia se definir de nenhuma, ah, eu sou eclético. Então é eclética, né? Nesse ponto, Marisa fez mal um pouco das pessoas. Nada é de eclética, vai encontrar o seu estilo, porque o eclético já está ocupada. E tanto estava certo, e foi o correto para uma... Esse disco da Marisa, esse primeiro disco, o lançamento dela, contraria todas as regras.

de gravadora. Não se lança disco em janeiro. Era um tabu em gravadora, porque janeiro até férias, as pessoas estão sendo dinheiro, já gastou no Natal, ninguém quer saber disso e tal. E os gravadores sempre querem que os discos saiam no fim do ano, outubro, novembro, porque aí é o Natal, pra presente e tudo.

Então eu pensei assim, eu falei, pô, a Marisa Nova, ela vai sair no fim do ano. Concorrer com todo mundo. Concorrendo com Roberto Carlos, Maria Bethânia, Gal Costa. Vamos sair de janeiro, Marisa. Só vai ter você. Saiu sozinha. Resultado, Marisa teve um espaço na imprensa enorme que ela jamais teria se tivesse saído junto com os grandes vendedores de disco.

No janeiro também, como jornalista, eu sabia, janeiro é o terror dos colunistas, porque não acontece nada, não há notícia. Não tem o que falar. Não, estava em férias, foi para a Bahia. Não tinha notícia. Então eu aproveitei as colunas. Todo dia saía notas de Marisa Monte. Então ela nunca teria esse espaço. Outra coisa, cantor novo.

Não se lança com o disco ao vivo. Porque é uma coisa absurda. É como um trapezista sem rede. Pelo contrário, o cantor novo, você tem que cercar de todos os cuidados ali no disco. Ter uns convidados. Você ter a oportunidade de refazer muita coisa no estúdio. De trabalhar. Tirar todos os defeitos. Nada disso. Marisa, o disco vai estar pronta.

Vamos gravar ao vivo. Gravamos ao vivo. E é um disco gravado ao vivo mesmo, porque todo mundo sabe, um disco ao vivo é sempre retrabalhado no estúdio. Às vezes, em discos, é retrabalhado do zero, praticamente tudo refeito. Não só por qualidade da gravação, mas por erros, por coisa... Então, quando nós fomos para o estúdio... ...

mixar o disco da Marisa, a versão final, o que aconteceu foi que refizemos muita coisa da bateria, que tinha o som da gravação era ruim, era difícil, fizemos coisas de baixo. Ela mesma gravou vários backing vocals junto com o backing vocal dela, ela reforçou como se ela fosse, ela adora fazer backing vocals, e fez lá. Mas a voz da Marisa...

Não mexeu nada, cara. Ela é honesta, ela foi honesta. Essa é a minha voz. Podia ficar, mas é o que é. É assim. Então esse é outro tabu de gravadora. Pô, tá jogando meninas feras. Nada, ela se garante. Eu dizia. E depois...

É um disco que é feito de covers e versões. Cover e ao vivo, os três erros. E ao vivo é tudo errado e ainda saiu em janeiro. E deu certo. E deu certo. Isso é... Essas horas que você... Porque ela é eclética, né? Porque ela é eclética, tá vendo? Então isso é o que... É a criatividade. Ela supera, né? Você procurar onde ninguém procura, né?

Por que tem que ser assim? Eu sempre me questionei. Qualquer coisa dessas... Só porque estão fazendo e dá certo, tem que ser assim para sempre. Tinha uma coisa em gravadora, bem no início. Lá, no final dos anos 60, tinha uma lenda que a cantora não vende disco. Como não vende disco? Tinha isso? Os departamentos comerciais de gravadores tinham essa máxima. Cantora não vende disco. Por quê?

Quem compra disco é mulher e mulher compra disco de homem. Essa explicação mercadológica fazia até algum sentido. Mas foi a época das grandes cantoras. Aí começou Elisbetânia, Gal Costa, assim. Aí o Brasil se tornou o país das cantoras. E aí quebrou isso. Era uma regra do mercado de disco.

existe a regra dela ser quebrada existe pra quê? pra ser quebrada vamos falar de tropicalismo então o que foi esse movimento? o que aconteceu? você escreve também noites tropicais e relata um pouco pro pessoal mais novo o que foi esse movimento ele é depois da bosta nova o tropicalismo é o mais importante

Movimento Artístico Brasileiro, depois da Bossa Nova. Acontece logo depois? Não, ele tem um tempo de maturação. A Bossa Nova... O que aconteceu com a Bossa Nova é que ela surgiu em 58, com João Gilberto, e depois em 62.

A Bossa Nova já não existia praticamente no Brasil. Por quê? Porque foi comercializada, todo mundo virou Bossa Nova. As pessoas vejam o terno, Bossa Nova, o carro, Bossa Nova, o apartamento. Tudo virou Bossa Nova, então nada mais era Bossa Nova. Cantores da antiga cantando Bossa Nova para pegar a onda ali. Foi péssimo.

Aí, quando a Bossa Nova... Ninguém queria saber de uma Bossa Nova mais no Brasil no início dos anos 60. Até que a Bossa Nova no Grammy de 64 ganhou Garota de Ipanema com Stan Guedes, Astrid Gilberto e João Gilberto. Ganhou o disco do ano, ganhou a canção do ano, ganhou a melhor capa e melhor engenharia de som com o Grammy. Competindo com o Beatles, com Rolling Stones, com Sinatra, com Elvis Presley em 64.

E ganharam. Aí a bossa nova foi pro mundo onde está até hoje. De onde nunca mais saiu. Porque a bossa nova é um gênero que tem uma evolução constante.

Saiu agora um antigo da Luísa Sonza cantando Bossa Nova. Eu adorei, achei ótimo. Mas o tropicarismo não aparece como uma reação? Tudo é Bossa Nova e tal? O tropicarismo aparece como uma certa estagnação. A Bossa Nova já estava superada pela MPB. O que viria a ser a MPB...

que com o golpe militar de 64, a Bossa Nova também não cabia mais como trilha sonora do país. Então surge a MPB, que era um movimento que mantinha algumas conquistas musicais, harmônicas, melódicas da Bossa Nova. Ela era contra a Bossa Nova, aproveitava a coisa da Bossa Nova, porém...

tinha outro enfoque, outros assuntos. Os assuntos eram sociais, eram pescadores, eram retirantes, eram favelados. A Bossa Nova era uma coisa mais de... Elite. Elite. Garotada de beira de par. Era isso. Era Ipanema. Era garota de Ipanema. A Bossa Nova... Edonismo. Essa é a força da Bossa Nova. A leveza da Bossa Nova.

O João Gilberto cantando, não há nada mais suave, mais pacificador no mundo. É o meu artista favorito de longe, longe. Se tiver escolhido um só, sempre esteve escolhido. De mim e de muita gente, eu acho. Porque ele mudou. Ele não só mudou a música brasileira.

Ele mudou a vida de muitos, inclusive a minha. É mesmo? Fui muito amigo dele durante um tempo, aprendi demais esse privilégio de desfrutar não só da música dele, mas da sabedoria dele. Caramba, um gênio. Então, ele vai falar, a genialidade dele estava onde? A genialidade dele estava na inteligência das pessoas mais inteligentes.

que eu conheci a capacidade, o olhar dele e o ouvido dele de sacar as coisas, o humor que ele tem também, e o que ele transformou a música brasileira. Então, cada show do João Gilberto é uma aula de música. Eu acompanhei toda...

a evolução dele, todo o trabalho que ele fez de ir trazendo um repertório brasileiro dos anos 40, dos anos 50, junto com a Bossa Nova, de ele ter aberto para as novas gerações um repertório, o grande songbook brasileiro, o grande repertório brasileiro é o que o João Gilberto gravou. Ele gravou poucos discos, sei lá, tinha uns 12, pouco mais.

Ele é muito rigoroso, então tudo é perfeito. A perfeição do João Gilberto é na emissão, nessa mistura do violão, que é um dos maiores violonistas do mundo, porque ele inventou um novo jeito, não um novo ritmo, só um novo jeito de tocar violão. Depois de todos os grandes violonistas brasileiros e espanhóis e internacionais,

Vem aquele cara que toca um violão completamente diferente com um ritmo que nunca ninguém tinha ouvido. Nesse sentido, o João é um gênio. Ele é propriamente um gênio. Ele pode se aplicar essa palavra que é muito gato. É gênio. Todo mundo é gênio. Hoje em dia todo mundo. Mas no Brasil tem somente um gênio, que é o João Gilberto, que inventou...

toda uma coisa que não existia antes. Isso é a dimensão do gênio. O Tom Jobim, você vai dizer, que é o maior compositor da história, de uma genialidade musical, mas ele não inventou nada novo, o Tom Jobim, entendeu?

Ele pegou Cole Porter, Debussy, Ravel, Noel Ross, Ari Barroso, Caymmi. E com o talento original dele, ele construiu esse repertório monstruoso, né? De 400 músicas geniais. Mas ele não é um gênio, porque o que ele fez já... Estava no ombro de gigante já. Gigante já, o João Gilberto não.

Ele tirou do zero, uma coisa que não existia antes. Agora, ele sempre disse, e é verdade, a bossa nova é samba. Então ele inventou um outro samba, um outro jeito de tocar. Não é só o tocar, é o jeito de cantar, a delicadeza das palavras. E esse diálogo dele, da voz com o violão...

É insuperável, porque o violão adianta, a voz atrasa, ele tem domínio absoluto daquilo. Então, nunca ele vai cantar duas vezes igual à mesma música. Sempre é muito diferente. E ele vem cantando, eu assisti, devo ser dos brasileiros que mais assistiram o show do João Gilberto. Porque eu dei muita sorte, porque quando eu morava nos Estados Unidos, ele fez vários shows nos Estados Unidos.

fui a Miami, fui a Boston, em Nova York, onde eu morava. E o tempo que eu morava na Itália também, ele fez muitos shows na Europa. Eu vi shows dele em Roma, naturalmente, mas fui em Paris, em Lisboa. O João fechou e depois voltou à Itália, ele fez shows em todos esses lugares. E o João ao vivo é uma coisa que transforma a vida de uma pessoa, você nunca vai ver.

uma coisa mais harmônica, mais suave, mais pacificante. Mas as pessoas ficam em um outro estado de espírito quando houve aquele homem. Mas o gênio dele era difícil ou era só uma impressão que se passava? Não podia ser fácil. Não podia ser fácil. Como todo gênio. Ele era um homem muito, uma personalidade muito complexa, riquíssima, com muitos contrastes também.

Mas ele tinha plena consciência da genialidade dele, ele sabia. Por isso que ele protegia a música dele de todas as maneiras. Essa obsessão dele que tinha de dar um som bom para o público, a mesma do Tim Maia, que também tinha todos os motivos. O João Gilberto queria...

Quando você está num palco só voz e violão, tudo fica enorme, o som fica enorme, entendeu? Se o Titã estivesse tocando no palco, se um parou de tocar, ninguém nota. Tem oito caras tocando ali, entendeu? O volume. Voz e violão, meu amigo, se você tropeçou uma notinha, está morto, que aquilo vai reverberar pelo teatro inteiro.

Então, o João exige uma exigência da qualidade de som. Era técnico que veio do Japão. Sempre ele teve isso. Era um técnico aqui. E sempre teve esse... O João abandonou um show no Carnegie Hall. Eu estava lá, eu assisti. Com 20 minutos do show, ele saiu. O som estava péssimo, realmente. Estava mesmo? Ele saiu do palco. Caralho, Carnegie Hall, lotado.

templo da música clássica ficou ali, não saiu ninguém passou uns 20 minutos, mas consertaram o som e ele voltou e o público inteiro lá sentou e ele fez um show monumental até o fim no dia seguinte saiu uma crítica do New York Times contando esse episódio e ele fez um show

que o som estava realmente uma merda, o crítico dizendo, e que ele saiu do palco, e que ele nunca tinha visto uma demonstração tão corajosa de um artista de conseguir manter a concentração e voltar ao palco e continuar o show. Depois de tudo aquilo, ir fazer um show sensacional. Então, o João foi um herói. Então, se fosse no Brasil, o cara ia...

Estrela. Estrela. Reclamando de quê? Canta. Vai lá e canta. Toca Raul. Então é... O Tim Maia também, de uma forma caricata, o mais grave, o mais agudo, o mais carco, o mais retorno, o mais tudo. Ela também dá vontade dele que o público ouvisse a música dele como ele estava ouvindo, como ele estava fazendo e como ele estava ouvindo.

Quando o som estava ruim, ele falou, pô, esses caras não estão ouvindo a minha música. Isso está prejudicando a minha música. Então, os caras que acham que isso é frescura, que não sei o quê, eu falei, cara, estou defendendo você, para você receber o melhor. Você que está ouvindo. E o tropicalismo, a gente estava então nessa linha como quando... É o mais importante movimento depois da Boa Sanova, é uma inquietação do Gil e do Caetano.

de modernizar a música brasileira, porque para eles não tinha sentido. Eu vou fazer bossa nova, Gilbertiana, já está feita. Mas eles chegaram a tentar alguma coisa antes no sentido de bossa nova? Não, de MPB, bossa nova, eles adoravam o João Gilberto. O ídolo do Caetano e do Gil era o João Gilberto, sempre foi e sempre será.

Então, Caetano tem até aquela música, saudosismo, pouca gente conhece. Eu, você, João, girando na vitrola sem parar. Eu fico comovido de lembrar o tempo e o som. Ah, como era bom, mas chega de saudade. A realidade é que aprendemos com você a ser para sempre desafinados. Cara, porque o João gostava do tropicarismo, daquela coisa.

Eles queriam introduzir guitarras na música, queriam internacionalizar, liberdade para misturar tudo. E o Caetano me contou que ele estava preocupado com a reação do João Gilberto no início do Tropicalismo. Eles na televisão, vestidos de carne virando, arrebolando, e tal. Aí ele falou, ô João, como é que você está achando ali?

Aí desse negócio, eu estou adorando, vocês são maravilhosos, espetaculares, essa animação, mas o meu swing é todo daqui para baixo. Daqui para cima. Fica aqui, daqui para cá, vocês daqui para baixo. Então, o swing do João é todo daqui do pescoço. E eles tinham essa preocupação, então, desse carinho. Eu estava adorando. Porque eu tenho... eu tenho...

Então eles experimentaram com tudo, com samba, com rock, com... E quem cunha esse termo? Fui eu, sem querer. Como que foi? Isso não tinha... O termo era nova música brasileira. Já acontecia, já tinha tido festival, domingo no parque, alegria, alegria. Os baianos estavam enlouquecendo o Brasil, tinham programa de televisão. Mas aquilo não tinha nome. Era nova música brasileira, era...

Não era, porque eles odiavam a MPB, os tropicalistas, mais que a bossa nova. A MPB era mais reacionária, mais panfletária, mais antiga. Aí eles... Aí uma noite... Na noite eu estava num bar aqui em Ipanema com...

o Galber Rocha, o Luiz Carlos Barreto e o Cacá Diegues. Eu andava muito com gente de cinema, mais até do que essa época, mais até do que gente de música. Então nós estávamos comentando, bebendo e comentando. O que estava acontecendo é uma coisa extraordinária no Brasil. Estamos falando de 1968, o ano... Aí... Tudo isso foi acontecendo, o Teatro Oficina...

acontecendo em São Paulo, com o Rei da Vela, um espetáculo alucinante, outra renovação total do teatro, os filmes do Glauber, tinha lançado Terra em Transe, era um outro cinema, estavam as músicas do Gil e do Caetano também, isso tudo parecia que fazia parte de um movimento só, que atingia teatro, cinema, literatura.

música, então parecia, mas não tinha articulação nenhuma entre as coisas. Mas era um momento muito animador. A ditadura estava péssima, braba, terrível, mas tive esse renascimento da cultura brasileira ali com o tropicarismo. Aí bebendo, bebendo, bebendo, tal, fui para casa, daí acordei no dia seguinte, tinha que escrever a coluna de jornal.

Grande, assim, na última hora que eu escrevia. Eu falei, cacete. O que que eu vou? Janeiro, Rio de Janeiro, isso aí. Não tinha notícia nenhuma. Perro dos colinhos. Ah, e lá no bar, a gente começou a conversar. E começamos a imaginar, quase de bêbado. Começamos a imaginar uma grande festa.

de lançamento daquele nosso movimento. Pusemos todas as cafonices brasileiras, com groselho e pinguim na geladeira, e roupas de Carmen Miranda, e sapato bicolor. Misturavam kits absolutos com malandragem, uma besteirada que não tinha tamanho. Aí eu fui...

Aí eu escrevi a coluna sobre aquela festa que a gente ia dar. Escolhemos o lugar, o Chacrinha, seu patrono. Nada, tudo... Escrevi e eu... Botou o título, Cruzada Tropicalista. Era o título. Cara, nem fui eu que dei o título, foi o editor do jornal, mandei a coluna. Ah, é? Bom, escrevi aquilo correndo nas costas que não tinha a mão. Deixou na mão lá e... Mandei pro jornal. Quando viu...

Quando eu vi no dia seguinte, Cruzada Tropicalista, cara, foi uma discussão, porque as pessoas levaram a sério aquilo. Acharam realmente que era um movimento com aquela besteirada toda. Caetano, eles ficaram putos, eles detestaram aquilo, é claro.

Porque o Torquato Neto também tinha uma coluna, reclamou. E eu falei, mas isso era só uma brincadeira, isso era uma piada. Porque acharam que estava desmerecendo. O que aconteceu é que, piada, brincadeira ou não, a coisa continuou e virou tropicadismo. E depois, anos depois, o Caetano me falou, olha só, não poderia haver um nome melhor.

Para o brasileiro e para o mundo. Tropicalism, tropicalism, tropicalism, tudo perfeito. Mas ele chegou a um ponto que eles assumiram isso também. Absorveram totalmente. Mas foi uma surpresa. Fiquei com muita vergonha. Agora tenho orgulho. Agora tenho orgulho. E fala um pouco mais da Elis. Você conta no Noites Tropicais que levou um pé na bunda. Mevei um pé na bunda da Elis.

Mas depois houve uma reconciliação. Uma paixão, uma ligação. Eu não sei. Vai entender a cabeça de Elisa e Regina. Aconteceu que... Ela era uma força da natureza. Ela tinha 25 anos, muito novinha. E a Elisa era casada com o Ronaldo Bosco. E eles brigavam feito louco, eles se odiavam. E certamente se amavam também.

onde tem um, tem outro ali. E foi a época que eu comecei a produzir o disco da Elis. Eu estava com a Elis dia e noite ali escolhendo música, ouvindo, só falavam no disco. E conversa vai, conversa vem. Fui visitar ela em casa. O Tim Maia tinha me dado uma mescalina, que não sei onde é que ele arranjou. É, mas a Elis sabia onde ele arranjou. É.

E eu dividi com a Elisa Mescalina e estava a Joyce, cantora Joyce Moreno, também com o namorado. Todo mundo viajandão lá no terraço da Elisa. Daí eles foram embora, ficamos só eu e a Elisa. Conversa vai, conversa vem. Pum, aconteceu. E aí foi horrível, porque o marido da Elisa era meu ídolo máximo.

O Ronaldo Bosco, ele foi meu mentor também, ele era letrista, ele era jornalista, eu queria ser o Ronaldo no começo. E acabei sendo nesse sentido, porque tudo que ele fez eu fiz também, inclusive ele, mas jornalista, compositor, e era muito mulherengo também, eu também tive minha fase.

Muito mineirinho também. O meu ídolo, quem me ensinou os truques todos, foi o Ronaldo Boa. Eu aprendi com ele. Ele acabou sendo vítima também desses truques. Mas durou relativamente pouco tempo. E a Elis dizendo que ia se separar. Eu me separei logo. Eu não queria levar naquela situação horrível. Ela, boa, ia separar. E não ia.

Aí um dia de manhã me ligou, de repente a Elis ligou, eu estou aqui ao lado do Ronaldo, está internado aqui na clínica tal, que história é essa que você anda espalhando, que nós temos um caso que é absurdo, me deu um esporro ao lado da cama do cara, o cara deu um golpe na Elis, ele falou, estou muito mal, vou me internar, ela foi lá, tchum, mordeu a isca. O velho era foda, mas aprendi muito com ele.

E uma das pessoas que eu mais amo no mundo, que é como um filho, é o João Marcelo Bosco, que é filho do Ronaldo e da Elisa. Eu adoro o João Marcelo. Talentoso. E querido, amoroso, tudo de bom esse moleque. Então, aí eu fiquei desesperado. Mas, aí, pouco depois eu comecei.

Logo depois, comecei a namorar a Marília Pera, que era a grande estrela da TV Globo, começando a aparecer naquela época, o Cafona. Era um espetáculo de mulher também. E comecei a namorar a Marília. Marília era fã da Elisa e fomos num show da Elisa, sentamos na primeira fila. Não tinha lugar e Marília sentou no meu colo.

A Elis não tirava o olho da gente. Ela ficou até vesga, ela ficou louca de ódio. A Marília. A Elis. A Marília nem sabia. A Marília sabia que eu tinha namorado a Elis, que eu tinha encerrado com a Elis. Meu Deus do céu. A Elis foi lá na casa dos meus pais, onde eu estava...

Tinha casa, estava separado, casa dos meus pais para se declarar. Mas aí era tarde demais. Já tinha passado... Mas depois, há tempos, depois a Elis ficou com... A Marília ficou com ódio disso, da Elis ter procurado. Ficaram brigadas anos. Mas depois, por iniciativa da Marília também, nós fomos em São Paulo ver o Falso Brilhante. E aí foi maravilhoso, porque era um show incrível.

E nós fomos lá no backstage falar com o Elis. Então, chegou lá, a Elis abriu a porta do camarim, chamou a Marília, fechou a porta, ficaram as duas lá. E eu e o César Mariano, que era casado com a Elis, a Elis em pé do lado de fora e a gente só ouvia as gargalhadas. Ah, então alivia... As duas lá dentro. Vocês aliviados. César, estão falando da gente. Aliviado não, preocupado.

E assim voltei a ser amigo de Elis. Sofri muito na morte dela, coisa mais triste. Onde você estava na morte? Estava no Rio. A Marília me ligou hoje de manhã e falei, tem uma notícia ruim da Elis. Falei, puta que pariu. A Elis, ela é a única, né? Ela teve um...

a influência que ela teve. Você vê como a Elis cresceu com o tempo, né? A Elis foi ficando cada vez maior, e eu digo cada vez melhor. Cada nova cantora que aparece, vocês já repararam que a Elis está cantando melhor? Porque o tempo só melhorou. A qualidade, tudo que é o estilo, tudo que ela ensinou, tudo que ela é uma...

Ela e a Gal Costa são as cantoras, referências máximas de todas as cantoras brasileiras. Não tenho medo de dizer todas. Com certeza. A Gal também foi minha grande amiga. Dirigi uma turnê mundial dela, gravou músicas minhas. Gal era uma pessoa maravilhosa e completamente oposta a Elis.

E eram dois lados da maior moeda mais preciosa da música brasileira. Você tem grandes parcerias, né? Uma delas também com o Lulu, né? Ah, Lulu? Que é a minha geração, que a gente escutou muito o Lulu. Agora estamos comemorando 45 anos de parceria. Tem 45 anos como uma onda. Caramba!

Foi como então? A primeira não foi como uma onda, a primeira foi Tesouros da Juventude, uma música que tocava, fizemos para o programa de televisão que eu tinha. Foi para o filme? Essa música foi para o programa de televisão na Band que eu fiz em 1980, chamava Mocidade Independente. Durou uns seis meses também, mas era um programa muito louco, muito legal.

E a parceria começou aí? Aí começou, com essa música. Você conheceu ele como? Eu conheci, tinha já dos bairros da noite ali, mas em 76, eu produzi um show com a Marília Pira, que era casado com ela na época, chamado Feiticeira, que a Marília Pira era um musical. Sim. E tinha, eu contratei...

A banda do Lulu, que chamava Viman, ele tinha uma banda de rock progressivo. Nossa, rock progressivo. Era ele, o Lobão, o Rich e o Luiz Paulo. É, o Lobão já contou essa história, era todo mundo meio misturado. Aí, tinha uma banda ótima, tinha o Guto Graçamelo, o Hélio Delmiro, violonista.

Então, chegou uma hora e eu aluguei o PA, o equipamento de som, e alguns músicos tocavam, o Luiz Paulo tocava, era tecladista, mas o Lulu ficava só fazendo o som, porque tinha dois guitarristas na banda, Guto Graçamelo e o Hélio Delmiro, violão acústico e guitarra. E aí, o Hélio saiu, resolveu sair depois de um mês,

O Lulu falou, se jogou em cima de mim praticamente. Eu quero tocar, eu sei todas as músicas, porque ele sabia mesmo. E ele era bom guitarrista? Era ótimo já. O grupo já tinha até um single gravado. Era legal. Então o Lulu e o Lobão entraram na banda. Lobão tinha 16 anos. Baterista? Baterista e tocava violão clássico. Porra.

Não fumava, não cheirava, não bebia nada. Caretinha. E muito bom baterista. E o Lulu realmente, ele entrou de noite e não errou um acorde. Ele sabia o show todo de cor já. E aí ficamos muito amigos. O show foi um fracasso grande, perdi muito dinheiro, quase fali. E o Lulu foi muito querido nesse tempo, porque eu estava muito fragilizado também.

O fracasso abalou até o casamento, né? Caramba. Porque para os dois, né? É, foi horrível. Aí começamos a fazer mais música. Aí desenvolvemos. Mas ele não cantava nessa época ou já cantava? Já cantava. Tá. Já cantava. E aí, tem uma coisa engraçada do Lobão. Isso eu fiz um tempinho no Rio, fracassou.

um processo de crítica, mas público, um desastre. Aí resolvemos ir para a S.A. tentar a sorte em São Paulo. Aí surgiu um problema. O pai do Lobão, que era militar, brigadeiro, não sei o quê, não, meu filho é de menor idade, ele não vai viajar. Como não vai viajar? Pelo amor de Deus, cara. Não, ele não vai viajar.

mas alguém tem que se responsabilizar por ele. Aí eu fiz um documento. Eu, Nelson Cândido, Mota Física, me responsabilizo totalmente pelo indivíduo João Luiz Mordenberg.

E assinei aquela porra. Até hoje, o Lobão me ameaça com isso. Ele fala, ah, eu tenho aqui, você é responsável por mim. Tudo que eu fiz, você é o responsável. Você é o responsável. Que maravilha. Vivendo perigosamente. E em São Paulo foi um fracasso. Também foi um fracasso. Mas e o Como Uma Onda? Como aparece essa música? Como Uma Onda foi um... A gente já tinha feito o Tesouro da Juventude. Acho que tinham feito areias escaldantes.

como uma onda parece estranhamente porque a gente começou a fazer rock o Areias o Tesouro da Juventude Lulu pra mim era um músico de rock e eu tava querendo fazer rock and roll eu via muitas minha vida de compositor de Bossa Nova, MPB eu queria fazer rock and roll todo mundo tava fazendo, eu gostava estamos em 1981 e eu vou fazer rock and roll

Só que ele me veio com uma música... Porra, é um bolero. E era mesmo. Como ele mostrou... Pô, isso é um bolero. Pois é, e daí? E daí nada, é lindo, vamos fazer. Então, saiu. Quando saiu o disco, foi uma grande surpresa. Vocês esperavam que essa música ia pegar? Achávamos que ia. Nunca imaginamos tanto.

o volume. Tem uma pegada surf também, uma coisa de... Era uma bolera, era meio havaiano, tinha a guitarra, a produção, o Liminha que produziu, então tinha aquela havaiana e o Liminha ainda botou uns pássaros, umas carvotas no início, tinha um clima tropical de surf, de ondas.

E era um bom e velho boleto. Mas ela pega logo de cara? Logo de cara. Foi impressionante. Mas a caralho do Lu foi com essa música? Foi o primeiro hit dele. Foi, né? O grande sucesso. E a partir daí foi uma outra. A partir daí fizemos várias músicas. Porque essa música, como uma onda, ela foi feita por um filme. Ah, é? Chamado Garota Dourada.

A gente tinha feito antes um filme... Não, mas foi encomenda? Foi uma encomenda do Fábio Barreto, que até já foi, mas é o diretor do filme e tinha dirigido...

Não, quem dirigiu, ele produziu, não, o produtor foi o Bruno Barreto, o irmão. O Menino do Rio, que foi um filme de um puta sucesso. Primeiro filme de juventude, brasileiro era de surfista, de praia. Eu fiz várias, fiz a trilha toda, fiz música com o Guilherme Arantes e com o Lulu também. Pra esse filme que eu fiz, de repente, Califórnia. Parou até eu vou pra Califórnia. É anterior a Como Uma Onda? É. É mesmo? E um estourou na época? Estourou, né? Estourou.

Porque essa música foi muito... Vou te contar, porque... A gente fez o... O Garoto, Eu Vou Pra Califórnia, que era um personagem no filme, era um surfista mais novinho, assim, que morre no fim. Então, já pensando isso, a ideia do filme, coisa envolvendo pro público ficar apaixonado pelo Garoto. Aí, quando ele morre, você é o... Aquela catarse, né? É.

E foi exatamente, aí fizemos a música para o garoto, que foi espetacular o sucesso também. E depois, aí eles resolveram, tinha outras músicas boas também no Menino do Rio, menos a música Menino do Rio não estava no filme, a música do Caetano. Aí eles resolveram fazer uma sequência disso, chamou Garota Dourada, que foi um fracasso retumbante também.

Entre outras coisas, o filme levou tanto, eles pediram uma música. Para esse filme nós fizemos como uma onda. Ah, entendi. Garota Dourada. Só que o filme demorou tanto. Eles foram filmar lá em Florianópolis. Não teve um dia de sol na filmagem, tudo nublado. Deu tudo errado, cheiraram metade da produção. Tudo que podia dar errado, deu.

Naquele filme ali. E vocês com a música pronta. E a lança. Lança essa porra. Aí botou no rádio e entrou de manhã. Já. Na noite o Brasil tava cantando. E foi assim. Incrível. Nelson, é o seguinte.

Você vai me prometer que a gente vai ter outro papo mais pra frente, porque tem muita história aqui. O maior prazer. Pra fora. Então, agradecer demais pelo papo. Vai ter jujuba? Sim, pra jujuba é garantida. Eu sempre termino o papo com três perguntas, pra quem vem pela primeira vez. Eu até vi as perguntas, né? Vai ser tudo de provínio. Meu Deus. A primeira, não sei se já respondeu, Nelsinho, mas qual foi o momento mais difícil da tua carreira ou da tua vida? Olha. Um momento...

Desse rapaz de sorte. Muito triste, muito horrível. Há uns dois, há uns três anos. Eu adoro gato, eu tive... Eu tinha esse gato, Max, que tinha 16 anos. Pra gato é... Já tava... É velho já? Muito velho, muito velho. Mas ele tentava bem. Porque... Eu adorava ele. Mas aí ele começou a passar mal.

Aí estava muito ruim dos rins, que o problema de gato é sempre nos rins, né? Eles têm... Aí o veterinário falou, fazia uma cirurgia, daí fez a cirurgia. Depois eu vi o gato lá, com a barriguinha toda enrolada. Ele estava ali meio sedado e tudo. E a gente falou, isso não tem jeito, ele vai sofrer mais. Aí eu falei...

Então vamos lá. Então dá uma overdose de propofol nele, que é uma delícia. Não sente dor. Segurei ele no colo. Poxa vida. E nunca chorei tanto na minha vida, nem na morte do meu pai, da minha mãe, dos meus amigos. Mas eu chorei tanto, tanto, tanto, tanto, tanto.

Se eu me lembro, na verdade eu soro pouco. Eu gostaria de chorar muito mais, mas não consigo. Às vezes estou tristíssimo. Mas chorar faz bem, né? Acaba internalizando, né? Esse choro acaba indo para dentro. É, eu não gosto disso. Não é coisa de, macho, eu não choro. Pelo contrário, mas...

Com o Max, nunca chamei a lembrança, eu nunca chorei tanto na minha vida, mas eu sacudia de tanto chorar. Porque bicho, então, é muito... Então esse foi um momento tristíssimo. Qual que é a outra? Tá respondida? Tá respondida, claro. A segunda é o seguinte, você sabe que...

Não sei se te falaram isso, mas a gente vai morrer um dia. Já te deram esse recado aí? Ultimamente eu tenho recebido esses recados, mas... Mas vai demorar bastante. Não, sim. Talvez a gente seja imortal e não sabe também. É, talvez até lá aparece alguma coisa. Eu acredito que sim. Mas esse vídeo aqui vai ficar bom tempo depois da gente, independente de quanto tempo a gente for durar. Então manda um recado para o futuro. Quais seriam suas últimas palavras? Teu epitáfio, Nelson.

É uma frase que eu falo muito. Que, aliás, é da minha maturidade já, quando você passa a ter mais consciência da finitude, que é... Cada dia é uma vida. Até tatuei aqui. Caramba! Tem até tatuado aqui.

Cada dia é uma vida. Que bonito isso. Que é coisa dos meus 80 anos, digamos assim, que eu, minha máxima... Cada dia é uma vida. Porque quando você vai ficando mais velho, você vai valorizando. Mas quando você é criança, os dias não acabam nunca. Quando é adolescente, meu Deus do céu. Aula pra voltar demora não sei quanto. Não acaba não. Oito horas de dor. E o que nós vamos fazer agora? Nada, meu Deus. Não é agora. Não é agora.

É incrível, né? E daí vai mudando. Você não pode resistir. E agora é um... Pisca o olho e já passou a semana, né? Então cada dia é uma vida. Que lindo isso. E a terceira pergunta é qual é a sua dúvida atual? No que você se pega pensando antes de dormir? É uma pergunta que você se faz. Essa é muito difícil.

Muitas vezes eu penso, eu fiz tudo o que eu quis na minha vida. Em cada campo de atividade que eu escolhi, eu me dei bem. São boas lembranças, tudo.

Então uma certa angústia que eu tenho, eu já fiz tudo, já recebi tanto, já ganhei tanto, o que mais que eu vou fazer? Mais do que desejava.

Muito mais do que eu desejava, muito mais do que eu imaginava. Você é muito grato em relação... Eu sou gratíssimo. Não sei a quem. Se é a Deus, aos meus orixás... O universo. O universo, ao amor universal, à sorte. Eu não sei, mas eu tenho sempre esse sentimento de agradecer.

Porque eu tenho a crença que a gente não faz nada sozinho. Ah, não. Você está fazendo alguém guia a sua mão, alguém orienta seu passo, alguém te sopra uma palavra na cabeça. Para mim é uma pretensão enorme achar que você faz alguma coisa sozinho. Não faz. Como diz um amigo meu, a vida não está nem aí para o teu planejamento, né? Exatamente.

Eu adoro essa coisa do John Lennon também. A vida é o que acontece enquanto você está fazendo outros planos. E não tem uma resposta para isso, né? Não tem uma resposta. Essa frase do John Lennon, que é de 1980, ficou para sempre na minha vida. Mas você acredita em sorte ou em destino no final das coisas? Ou um pouco das duas coisas?

Olha, em destino eu não acredito muito, não. Que a gente tem alguma coisa predestinada. Isso é mais difícil para mim acreditar do que... A sorte, na verdade, eu me entreguei à sorte. Eu estudei o máximo que eu podia. Não aprendi nada sobre a sorte. Então, eu vou desfrutar a sorte. É isso que eu vou fazer.

Agora eu fico com a sua angústia de fazer alguma coisa nova. Sabe? Um desafio. Um desafio. Porque... A grande vantagem é que você não tem mais a obrigação de acertar em nada, né? Já acertou tanto? Mas eu tenho. Tem ainda? Comigo mesmo. Sério? Comigo mesmo. Eu gosto de fazer direito. É. Eu gosto de fazer direito. Porque isso também eu já aprendi. Já que vamos fazer... Dá o mesmo trabalho fazer direito e fazer mal. Já fiz tanta lambança na minha vida, né?

por causa, por pressa, por ansiedade. Já está bom, vamos fazer de novo, até melhorar.

Eu tenho essa angústia, eu quero, mas logo, logo vou fazer um livro novo, um novo musical de teatro, que eu gosto muito de musicais de teatro. Também é uma profissão recente, passei a fazer isso há uns 10 anos com o Tim Maia, depois fiz o musical da Elis Regina, fiz o do Wilson Simonal, fiz o Frenetic Dancing Days, dirigido pela Débora Colker, foi um grande espetáculo.

Essa mulher é uma das maiores artistas que eu já trabalhei na minha vida. Essa Débora Coker, ela é um absurdo. Para mim foi uma... Nos tornamos grandes amigos e, para mim, trabalhar com ela foi um orgulho máximo. Qualquer coisa de teatro que eu vier a fazer, meu primeiro pensamento é a Debinha. Então, é só agradecimento, né, Alcim? É só agradecimento.

Falamos tanto de gratidão, então eu sinto gratidão de você ter dividido com a gente uma parte da tua história. Obrigado demais. É um prazer para mim e eu espero que as pessoas recebam bem essas histórias, que aprendam algumas coisas que eu também aprendi, que aprendam com meus erros. Aprendam a errar, o erro é muito bom. Não tenham medo de errar. Só posso terminar com uma coisinha. Claro. Eu fui fazer uma palestra de São Paulo para a Câmara de Comércio Brasil-Alemanha.

150 executivos de grandes companhias, alemães, Bayer, Mercedes, tudo aquilo, monstro, foi cacete. E estavam muito preocupados que a imagem, o comércio, tudo, não tinha criatividade. Eles queriam que ensinasse criatividade para os executivos deles. Aí eu fiz uma parada sobre o conteúdo, muito, muito, mas o que interessa?

Eu falei para ele, não adianta com a mentalidade que você tem de não poder errar, que é bem assim. Você não pode errar, então o cara vai a tudo, só faz quando está tudo no certo. O medo de errar impede qualquer criatividade. Que é isso tudo que os caras fazem. Se você não tiver com medo de errar, vai bloquear a criatividade.

Pense, você tem que estar livre para imaginar. E para errar, fiz isso aqui, errei, ficou ruim. Foda-se, pô. Agora vamos fazer. Ah, essa é genial. Ah, mas se não tivesse errado aquela, não teria. Então foi um jeito, passei um tempo ensinando. Para haver criatividade, tem que haver liberdade para errar. Concordo plenamente. Então isso é uma coisa que eu também uso para mim e dou de presente.

pra quem tá ouvindo a gente. Errem bastante e errem cedo, né? Isso. Tem que errar cedo. Obrigado demais, Nelson. Obrigado vocês que estiveram aqui com a gente. E, ô, Leni, nem chamei perguntas porque esse vídeo do papo não teve espaço pra isso. Cara, que pena que acabou. Que papo legal. Pois é, o Leni, que é músico aí. Ô, Leni, o que você acha aí que você tem que falar agora? Qual que é a tua? Bom, é o seguinte, agradecer a todos que estavam aqui com a gente, acompanhando.

Deixe seu like aí, se inscreva no canal. E pra provar que você chegou até aqui... O que o pessoal escreve nos comentários pra provar que chegou até o final?

Toca Raul. Toca Raul. Escrevam Toca Raul e provem de chegar até o final. Obrigado demais, Alcim. Obrigado a vocês. Fiquem com Deus. Beijo no cotovelo e tchau.

As opiniões e declarações feitas pelos entrevistados do Inteligência Limitada são de exclusiva responsabilidade deles e não refletem necessariamente a posição do apresentador, da produção ou do canal. O conteúdo aqui exibido tem caráter informativo e opinativo, não sendo vinculado a qualquer compromisso com a veracidade ou exatidão das falas dos participantes. Caso você se sinta ofendido ou tenha qualquer questionamento sobre as declarações feitas neste vídeo, por favor, entre em contato conosco para esclarecimentos.

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