Episódios de Inteligência Ltda.

1802 - A REALIDADE CRUEL DO FEMINICÍDIO: MÁRCIA TIBURI E SÂMIA BOMFIM

02 de abril de 20262h26min
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SÂMIA BOMFIM é deputada federal e MÁRCIA TIBURI é filósofa, escritora e professora. Elas vão bater um papo sobre o aumento de ocorrências de feminicídio no Brasil e o que é necessário ser feito para combater esse crime hediondo.

Participantes neste episódio4
R

Rodrigo Cáceres

HostHumorista
H

Homer

Co-host
M

Márcia Tiburi

ConvidadoFilósofa, escritora e professora
S

Sâmia Bomfim

ConvidadoDeputada federal
Assuntos5
  • Feminicídios no BrasilAumento de feminicídios · Misoginia e suas consequências · Legislação sobre feminicídio · Violência contra mulheres · Cultura do estupro
  • Mulheres e EmpreendedorismoMulheres na política · Autonomia financeira das mulheres · Violência de gênero
  • Cultura e SociedadeMisoginia na arte e na música · Representação feminina na mídia
  • PatriarcadoPatriarcado e violência · Estruturas sociais e desigualdade
  • Feminismo e MachismoProjetos de lei sobre misoginia · Direitos das mulheres
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Chegou a hora de deixar os carros da idade da pedra pra trás. O BYD Dolphin Mini foi o elétrico mais vendido no varejo por dois meses consecutivos. Pela primeira vez, um carro 100% elétrico lidera essa posição no Brasil. E chegou a sua vez de ter um carro mais econômico que moto. BYD Dolphin Mini, a partir de R$ 109.990,00 pra CNPJ. Fala até uma concessionária BYD e faça um test drive. Consulte condições em byd.com.br. No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas.

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Olá, terráqueos, como é que vocês estão? Eu sou o Rogério Vileira e está começando mais um Inteligência Limitada. O programa onde a limitação da inteligência acontece somente por parte do anfitrião que vos fala. Sempre trago pessoas mais inteligentes, mais interessantes e com a vida muito mais feminina do que a minha e do que a sua. Pois é. Não é? É verdade. Você está com espinha na testa? Eu tenho uma espinha na testa. Você não tem mais idade para ter uma espinha na testa, cara? Pois é, rapaz. Quais anos você tem? 36 anos. Então.

Mas parece que eu dei um peno urso, né? Eu como muito chocolate. Ontem a Fernanda trouxe muito chocolate. Acho que você comeu muito chocolate. Porque faltou pra mim, então você comeu muito chocolate. Vim aqui de madrugada buscar, cadê o chocolate? Ah, eu passei. Comer pegou. Ah, com certeza. Como que o pessoal... É uma pauta muito importante. Como o pessoal vai poder participar? Quero muitas perguntas, muitas dúvidas. Verdade.

Você pode até xingar nos chats, porque imagino que a galera já tá xingando aí. Ah, sim. Mais.

Mas a gente vai ler as perguntas. Somente as perguntas. Então já começa já deixando o seu like, se inscrevendo no canal, torne-se membro. Xingam aí, me xingam, xingam. Porque se xingar a gente, eles vão entrar no nosso assunto. Aí pode dar problema. Pode pegar até isso pra elas. Aí a gente vai entender porque estão contra o PN. É misógino ou não? Podemos aqui fazer um tribunal pra ver se o discurso é misógino ou não.

se não quiserem ter problemas judiciais não xinguem ninguém lacradoras vão queimar audiência primeiro por chá agora essas aí essas aí é, então aqui deputada que vida é essa da pessoa que ela não tem mais nada que fazer do que assistir alguma coisa que ela odeia

Tem que tratar a deputada como deputada e a professora doutora como professora doutora. E aí, será que também irrita o povo? Irrita, com certeza, né? Você vai separar as melhores perguntas, né, Homer? Com certeza. Eu lerei todas, mas somente as melhores irão para a mesa. E se você viu que elas responderam, aí manda uma pergunta que elas não responderam. Senão a gente não vai ler.

E antes de mais antes de falar com elas, quero falar com você, galera. Rapidinho, antes da gente continuar o episódio, deixa eu te mostrar uma parada que pode te ajudar bastante. Principalmente se você já pensou em fazer concurso, mas ainda está naquela fase meio travada, sem saber direito por onde começar. Por isso que acontece com muita gente um negócio que eu vou explicar aqui.

acontece com muita gente e às vezes a pessoa até que entrar nesse mundo, mas trava numa dúvida básica que é, tá, mas qual concurso eu procuro? Será que tem alguma coisa perto de mim? Ou então por onde eu começo? E foi pensando nisso que o Estratégia Concurso, que é parceiro aqui do canal, criou o radar do Estratégia. Ele é basicamente um mapa de concursos. Vocês vão colocar na tela aí para explicar, né? Então, em vez de ficar caçando informação solta e tentando montar esse quebra-cabeça sozinho, você entra lá.

e consegue olhar as oportunidades de um jeito bem mais claro. Olha aqui, colocaram na tela. Estão vendo isso? Então, esse é o radar do Estratégia, um mapa que reúne concursos do Brasil inteiro. Então, se você está assistindo, é só apontar a câmera do celular para o QR Code que está na tela. Agora, se você estiver assistindo no celular.

Dá pra ir também no link da descrição. Exato, não dá pra apontar o celular no próprio celular. Então, pega o link da descrição, entra nesse mapa e vê um concurso perto de você, certo? Certo. Hora das apresentações. A Samia já veio aqui. Então, você começa. Sua câmera aquela. Como você se apresentaria pra quem não te conhece?

Olá, muito boa tarde. Eu sou Samia Bonfim, eu sou servidora pública da Universidade de São Paulo, mas eu estou licenciada para o mandato de deputada federal. Esse é o meu segundo mandato como deputada, também fui vereadora aqui na cidade de São Paulo. Sou filiada ao PSOL desde 2011. Sou feminista, sou mãe de um rapazinho de quatro anos e meio. Nome? Hugo.

que tá inclusive com o sapatinho dele aqui, do presente que eu trouxe da outra vez que eu vim. Eu fiquei muito surpresa dele estar bem aqui, não serviu. Porque ele já tá com oito anos, senão eu já ia... Mas nem no dele, no serve tá enorme o menino já. Como que pode servir numa pessoa? Isso é um momento, cara, é muito engraçado. E ele que é uma criança muito grande, até me assusta que isso já tenha cabido um pezinho dele também. Tava do lado do...

Cadê aqui o fetinho do pavanato que ele deixou aqui o cadê meu Deus é famoso esse fetinho você sabe o fetinho do debate ele leva o fetinho é um desocupado gente a ó vamos colocar então aqui ó e aí sou monumento pró-aborto né que bom

Colocar dentro do sapatinho. Mas o Pavaná tá andando fugindo de uns debates. Fiquei sabendo aí. Aquele também, né? Aquele... É, ele combina. Ele sumiu daqui. Ele marcou. Marca e não vem. Mas é porque a pessoa não quis combinar os temas antes, aí ele não apareceu. Aqui ele... Ah, porque ele precisava fazer o texto pra decorar. Aí ele se omitou e ia pro Congresso Nacional, imagina. Foi problema de equipamento aqui. Ah, entendi. De equipamento que fica ali na caixa.

cerebral, entendi. Terminou a apresentação? Terminei, sou eu. Márcia, é o seguinte, sua primeira vez aqui, o Homer, explica pra ela aquele defeito que eu tenho lá. Ele tem um defeito, que ele é um cara interessado. Exato. Veio aqui pela primeira vez, tem que me dar presente pra eu deixar no cenário. Se apresenta aqui, Márcia, e eu quero o meu presente.

Ali, eu trouxe pra você, Vilela, a minha escova de pentear sobrancelha. Ah, que susto. Achei que era uma escova de dente. Eu falei, tá bem sujinha aqui, ó. Ainda bem que não é de... É de maquiagem. Ah, tá. Porque se fosse de dente... Você sabe que eu estudei filosofia, né? Eu fui professora de filosofia, ainda sou. Mas eu aprendi com um filósofo chamado René Descartes, que na sua juventude... Escreveu, aliás, aquele livro famoso, O Discurso do Método.

Ele dizia, assim, que a gente precisava avançar na vida tendo uma máscara. Então, a maquiagem é análoga da máscara. Então, é bom a gente dar uma arrumada, assim. E o que você acha daquele recado no avião? Que antes de colocar a máscara no seu filho, você tem que colocar a máscara em você. Isso diz muito, hein? Eu sou sábio. Mas o lance de máscara, se você for para o lado metafórico, né?

É bom quando caem as máscaras, até quando a gente está numa situação difícil. De perigo, exato. As máscaras caem. É bom que a máscara caia. Aí a pessoa que é valente começa a chorar, a pessoa que não é valente começa a ser valente. É tudo... Mas obrigado demais. E esse livro aí? Deixa eu ver. Então, esse é o meu livro mais recente. É um livro que... Não, não, aqui tem uma câmera aqui em cima. Ah, você está mostrando.

Parece uma estrutura meio alien Ai que legal, ficou bonito Então esse é o meu livro Sobre o assunto do momento Que é o ódio às mulheres Mas você não lançou agora né Ele tá circulando aí faz uns 3, 4 meses E aí eu continuo lançando Por exemplo, semana passada teve um evento Na livraria da Vila, eu falei do livro Lancei em Brasília Semana passada também, tô viajando um pouco com ele Tá no percurso E aí

Ele saiu agora, há pouco tempo, do Forno. E ele é um livro sobre o ódio às mulheres. Mas é um trabalho de quanto tempo? É um trabalho de 20 anos que eu estou fazendo isso, que eu estou pesquisando esse assunto, pesquisando mulheres. E tentando entender por que o ódio se tornou um capital, por que ele se tornou uma mercadoria. Hoje a gente está falando muito nisso, a chamada machosfera, que está todo mundo falando. É, na verdade, um mercado do ódio. Mas não é só um mercado...

econômico. Então, tem muita gente ganhando dinheiro com isso, mas tem também a economia psíquica. Tem a compensação emocional, além da compensação financeira. E aí eu acho que a gente pode falar sobre isso, que vai ser interessante. Então eu passo a vida escrevendo livros. Eu já escrevi muitos livros, já perdi a conta. Eu sei que tem sete romances, tem uns quinze ensaios, aí tem aqueles livros acadêmicos, aquelas coisas mais...

mais distantes, mas esse é um livro de fundamentação, é para explicar com rigor como é que funciona o ódio como estrutura do sistema patriarcal. Eu chamei as pessoas certas para a gente explicar passo a passo o que está acontecendo ou o que sempre aconteceu, ou está pior.

Essa é a pergunta também, né? A boa pergunta. Ou sempre aconteceu. Sempre aconteceu. E só está sendo mais mostrado porque hoje tem rede social e tudo. Sempre aconteceu, está sendo mais mostrado. As duas coisas acontecem. E a terceira coisa também. Nós estamos vivendo, sim, uma espécie de surto, de epidemia, uma histeria coletiva masculina de matança de mulheres. Então, tem os três aspectos. Tem os três aspectos. Tem uma maior consciência das mulheres sobre o problema.

Que antes ficava calada e hoje não fica... Que antes ficava calada, mas estímulo para que se busque denúncia, né? Então, acho que isso é um aspecto importante, até porque a lei do feminicídio também é recente, de 2005. Então, a tipificação tem cerca de 20 anos. Portanto, a compreensão de que se matam mulheres por serem... Até um tempo atrás tinha crime, era um crime passional, né? Tinha, mas era um crime passional, era visto.

como uma justificativa porque os caras amavam demais, não conseguiam controlar os seus próprios sentimentos ou as mulheres de serem livres demais. Isso foi usado como justificativa. É super recente a decisão do Supremo que derrubou a tese do crime passional. O que? Agora, ontem? Que não se pode mais argumentar com essa falácia. Essa falácia de que o homem cometeu um crime passional.

por onde a gente começa? a gente estava falando aqui antes vamos falar sobre misoginia antes ou dar um contexto histórico, fazer uma linha do tempo o que vocês acham que é melhor começar, Márcia?

Então, eu acho que a gente pode falar do conceito de misoginia, porque tem essa novidade, né? Tá sendo tão debatido. É, as pessoas andam falando muito. Muita gente com medo, né? É, então. É que nem... Tem umas palavras que elas são palavras, digamos assim, muito sobrecarregadas de teoria, e elas parecem umas palavras que assustam mesmo, né? Sim, sim.

A própria palavra feminismo assusta muita gente, porque comunismo assusta muita gente, socialismo assusta muita gente. E, claro, assusta as pessoas que muitas vezes ou constantemente não estudam esses assuntos, porque na hora que você começa a estudar gênero, por exemplo, você começa a ver o que é...

você perde o medo, você começa a entender que o negócio ajuda, na verdade, a compreender como funciona a sociedade. Mas tem também as brigas, as disputas conceituais. E misoginia, porque é o nosso assunto de hoje. Então, é o ódio às mulheres. E esse ódio às mulheres faz parte da estrutura...

do sistema no qual a gente vive, o sistema patriarcal. Agora, está interessante, porque a gente tem, e isso é assunto para a Sâmia, a gente tem vários projetos, inclusive da Sâmia, envolvendo o tema da misoginia. Mas tem um, que é o principal de todos, que está chamando a atenção, que foi aprovado no Senado, que também é um assunto que, de repente, a Sâmia quer discutir, porque foi unânime e é muito engraçado que isso tenha acontecido. Está falando da pele?

O PL da misoginia. O PL da misoginia aprovado no Senado. Então, esse PL equipara a misoginia, o ódio às mulheres, o preconceito misógino, portanto, ao racismo, que é também um preconceito muito estrutural da nossa sociedade. E equipara também a transfobia, a lesbofobia e essas fobias...

que são medos e são, ao mesmo tempo, preconceitos contra corpos que são diferentes, que são dissidentes, que são corpos que não são adequados aos jogos do sistema de poder que a gente chama de patriarcado. Porque o que é o patriarcado também? Se a misoginia é o ódio às mulheres, e aí você pode falar da lei, o patriarcado é o sistemão, é o grande sistema.

Todo mundo está dentro dele. Quando você nasce... Todo mundo no Brasil, todo mundo no mundo. Todo mundo no mundo, todo mundo, desde que o mundo é mundo, todo mundo entrou dentro desse sistema, porque esse sistema cria dois gêneros. O que é gênero? Gênero é uma determinada configuração que é natural, cultural, de um corpo.

Então, o sistema patriarcal cria dois gêneros, mulher e homem. E ele se organiza heteronormativamente. Então, ele diz, mulher e homem tem que ter uma relação entre eles e esses dois vão reproduzir, vão ter seus filhinhos que também devem ser iguais a eles.

E aí, quando aparecem pessoas que, ao longo da história, sempre apareceram, pessoas homossexuais, ou seja, não heterossexuais, pessoas que também não tinham uma aparência heterossexual, pessoas que, hoje em dia, a gente chama de trans, mas, ao longo da história, nas mitologias, eram chamadas de hermafroditas. Isso sempre foi muito.

Hoje tem o intersexual, é o nome correto de usar na nossa época. E tem muita pesquisa, tem historiografia, tem ciência, tem um monte de coisa. Mas essas pessoas, elas foram sendo... Elas eram as dissidentes desse jogo do casalzinho, né? Do casalzinho heterossexual que consegue reproduzir filhos.

que serão iguais a eles. Então, a gente está falando de um sistema que produz dois gêneros. No meu livro, eu falo que esses dois gêneros são os únicos produzidos pelo patriarcado. Então, quando o Donald Trump chega e diz, só tem dois gêneros, ele está falando do ponto de vista dele...

puxando a sardinha para o assado dele, que é o patriarcado. Mas tem um monte de outras pessoas, de outros gêneros e de outras sexualidades que não são esses dois que o patriarcado quer que existam. E aí o sistema...

querendo que o patriarcado exista dessa maneira, só através desses dois gêneros, começa a atacar e fazer guerra, inclusive guerra de extermínio mesmo, contra as pessoas que são diferentes desse jogo pré-estabelecido do casalzinho heterossexual, heteronormativo e compulsoriamente também heterossexual. O que significa o quê? Que se você não for heterossexual, você vai pagar um preço.

Você deve, é como se você nascesse e devesse ser heterossexual, como se você não pudesse ser outra coisa. E hoje, enfim, essas questões todas se abriram demais. No passado, elas existiam. Sempre houve pessoas que eram chamadas, então, de hermafroditas, pessoas que eram homens e mulheres que se vestiam e se travestiam de uma maneira diferente daquilo que era esperado delas.

Quando a medicina e o direito começaram a legislar sobre esses corpos, essas pessoas começaram a sofrer muito. Então, é sobre isso que nós estamos falando, sobre um sistema que nos obriga a ser homem e ser mulher.

E nega, porque é um negacionismo da existência de pessoas outras. E aí a gente chama de pessoas LGBTQIAPN+, e essa sigla vai aumentando, porque é a sigla que mostra que os corpos, as existências, são diversas, são singulares, se modificam, e são múltiplas, plurais, e o sistema patriarcal é conservador, porque ele não gosta que tenha essa diferença.

Mas quem que força? É o Estado? É a cultura que é passada? Quem que é que força esse patriarcado? Quando a gente fala de estrutura, por exemplo, tem uma feminista que eu cito bastante no meu livro, que é a Rita Segato. Ela é super importante. Ela fala assim, o patriarcado é uma frente. É uma frente estatal, religiosa, econômica.

que envolve todos os setores familiar, que envolve todos os setores da sociedade. Esse sistema, se você vai pra... Independente se é governo de esquerda ou direita. Tanto faz. Inclusive, na esquerda a gente fala de esquerdomachismo, que é um assunto super interessante de falar. Esse é um super bom de discutir. Esse é divertido, inclusive. Ah, que legal, com a foto ali.

É ela mesma, ela é uma gênia. Então, e aí ela é uma mulher, aliás, que fala um negócio assim, ela é antropóloga, ela diz assim, sabe por que os homens estupram? Porque quando você estupra, você manda uma informação para outro homem pela qual você diz para o cara...

outros caras todos, para todo mundo, para o sistema inteiro. Olha, eu sou homem, eu sou muito homem. Quando você pratica uma violência qualquer, lá tem um livro chamado As Estruturas Elementares da Violência. Eu peguei o meu livro, no meu livro eu fiz assim, não é só o estupro e não é só qualquer violência. O feminicídio, no estágio atual do desenvolvimento histórico da violência, é o feminicídio que faz isso. É ele que diz para a comunidade masculina, eu sou muito macho. Eu...

Eu mato. Eu sou capaz de tirar a vida dessa mulher. Eu sou capaz de tudo. Eu mato, prendo, arrebento, eu causo. Eu sou capaz de agredir uma mulher. Eu dou um monte de soco no elevador e nada vai acontecer comigo. E sabe o que é isso? É a prova que o cara tem que dar da masculinidade dele pros outros caras pra ele poder fazer parte do clube. Então, se você pensar bem, é um negócio muito triste. Porque o cara que chega a praticar violência, ele dá... Gente, ele tá com uma vida espiritual e uma vida conceitual.

pobre demais. Mas eu não sei se eu tô falando besteira, né, Homer? Mas a maioria dos homens vê esse cara como um fraco, como um bosta, não é? Sim. Um cara que espanca uma mulher, ele é rechaçado pela maioria dos homens. E se ele estuprar uma mulher, na prisão, ele vai ter o pior tratamento lá. Na prisão, quando ele estupra, ele vai ser, tem essa história de que ele será também estuprado. Mas os feminicidas na prisão, o que será que acontece com eles?

Você viu o policial, o tenente coronel Esse que mentiu Que a esposa Que a esposa se suicidou Ele foi recebido com um abraço Muito carinhoso Inclusive por parte de um desembargador Um alto escalão Do judiciário Foi até o local do crime abraçar e aconhê-lo

Você acha que depende do que faz? Violência é vista de um jeito e morte é vista de outro? Eu acho que os homens estão divididos. O que eu tenho percebido é que os homens estão divididos. Então, tem um certo grau que não é de inteligência, nem de QI. Eu acho que é um tipo psíquico mesmo.

digamos assim, os caras mais neuróticos, digamos, como todos nós, todo mundo que está aí na vida com suas sofrências, suas questões, vai achar horrível. Por quê? Porque ainda está amparado psiquicamente.

Nessa ideia de que tem uma lei, né? Tem uma lei que não é só a lei penal, a lei jurídica, mas a lei interna do funcionamento da sociedade mesmo. Então você acha que matar os outros é um negócio errado. E matar a mulher também é errado, porque os homens também matam muito entre eles. Eles matam, eles se matam pra caramba e eles matam as mulheres. E as mulheres raramente matam, matam muito pouco.

E aí, eu acho que tem isso, tem esses homens que romperam com a lei. E não é só a lei no sentido penal, jurídico, do sistema de justiça. É a lei no sentido simbólico. A lei que faz a gente ser um ser humano junto com os outros seres humanos. E aí é muito fácil você matar uma pessoa mais fraca que você, entre aspas, vulnerável, ou uma pessoa que não aprendeu a fazer o que você sabe fazer. Porque essa também é uma grande diferença. Eu falo muito isso no meu livro. Os homens são.

assim, vou falar nessa língua e vou traduzir, tá? Existe um... Todos nós somos subjetivados. Todos nós passamos por uma matriz de subjetivação para a gente se tornar quem a gente é. O que isso significa? Que é como se tivesse um molde. Então, é uma matriz. Aí você aprende a ser homem e você aprende a ser mulher.

E as outras pessoas vão desaprendendo e aprendendo outras coisas e criando. Eu acho, inclusive, que os outros gêneros são muito mais criativos do que o gênero homem e mulher. Mas o patriarcado faz isso, ele cria isso. E os homens são subjetivados a partir da matriz da violência. E as mulheres são subjetivadas a partir da matriz do cuidado. Essa é uma diferença. Então, a gente aprende a cuidar.

E isso vai lá pra política, porque a gente olha como as mulheres fazem política, elas fazem política a partir da noção de cuidado. Não só do cuidado que elas cuidam das coisas, cuidam dos filhos, cuidam das outras, cuidam delas mesmas. A gente, pra aparecer, a gente se cuida, né? Tá toda cuidada. Mas a gente, hoje em dia, também tem que se cuidar. Aprender a se cuidar. Se cuidar da violência que tem por aí. Então, o cuidado é todo...

nosso negócio. E aí, os homens são forjados, subjetivados, eles interiorizam, eles aprendem, se formam a partir da violência. Isso significa que o cara tem que mostrar força, tem que ser agressivo, tem que esconder seus sentimentos, tem que tentar não ter sentimentos. Por isso, aquela velha história, homem não chora. E é uma dor, cara. Então, os homens não conseguem entrar em contato com a sua própria dor.

E aí eles vão fazer o quê? Para mascarar suas dores, eles vão lá causar violência. Só para dar um exemplo, quando as mulheres se separam, quando um cara te dá um pé na bunda, que é o nome que a gente usa aí na vida cotidiana, o que você faz?

Você vai chorar, você vai sair com as suas amigas, você pode até pedir para ele, me perdoa, você vai dizer, vai mandar uma carta, você vai mandar uma música, você vai fazer terapia, você vai fazer uma massagem, você vai rezar, você vai tirar um...

procurar uma cartomante, fazer um tarô. Olha como as mulheres reagem a uma traição, a um pé na bunda. Elas ficam ofendidas, ficam chateadas. Às vezes, elas até se humilham. Sei lá, as mulheres têm mil jeitos de tentar reconquistar ou então de esquecer o homem que elas amavam.

perderam. E os homens fazem o que? Como é que eles reagem a isso? Uma mulher, quando ela é deixada, ela, assim, pensa poxa, que merda, né? Me ralei, me ferrei, me dei mal. Levou um pé na bunda, bota o rabinho entre as pernas e vai tentar se tratar.

E um homem faz o quê? Ele coloca culpa na mulher, ele maltrata a mulher, se ele não aceitar a separação, que hoje em dia parece que estamos com essa fragilidade, os homens estão se transformando no sexo frágil, não sabem levar um pé na bunda, meu, todo mundo já levou na vida e é muito educativo, né? Levar um corno é super bom, você aprende um monte de coisa. Eu, inclusive, acho que as mulheres têm pouco ego, sabe? Os homens têm muito ego, então eles ficam assim tomados de um narcisismo que tem a ver não soube.

com essa noção de lei. A perversão significa você não obedece mais nenhuma lei e a perversão está sempre conectada com uma determinada posição do seu ego. Você acha que você é a principal pessoa do mundo, que você é o centro das atenções, que você é alguém a quem todo mundo deve se curvar, que todo mundo deve respeitar e obedecer.

e fazer todas as suas vontades. Tem essa diferença entre você ser uma mulher e ser um homem. Então, os homens que não são assim, são caras que já usaram, digamos, a própria inteligência para melhorar também a sua sensibilidade. Eu acho que a gente, assim, colocando essa questão dessa diferença entre ser um homem e ser uma mulher, subjetivado a partir de uma matriz, cuidado para as mulheres.

violência para os homens, e os efeitos disso na sociedade, como funciona a família, como funciona o Estado, como funciona a Câmara dos Deputados. Você vê exatamente esse desenho. Olha ali, os caras sambando na violência, funcionando na violência, ganhando cada vez mais poder através da violência, e as mulheres se defendendo, defendendo os filhos.

Nem todas, né? Porque a gente tem aquele exemplo lá, que é uma mulher, aliás, muito interessante, que é aquela que usa flores na cabeça. Essa é muito interessante, porque ela não é uma mulher igual às outras. Todas as mulheres, nós, a gente, eu sou mãe também, a minha filha já tem quase 30 anos, a gente, que é mulher, por exemplo.

Já que a gente aprendeu a cuidar, a gente vai cuidar dos filhos. E uma coisa que a gente faz é, se alguém avançar na direção do nosso filho, ou se a gente sentir que a nossa criança e o nosso filho, adulto, não importa, está com uma necessidade ou está sob perigo, o que a gente faz? A gente se joga na frente do filho. Então, a gente é o escudo do filho. E essa deputada, no ano passado, o Glauber estava super envolvido nisso também, essa deputada usou o filho dela como um escudo.

ela fez a coisa mais antinatural que uma mulher faria no combo cultural que ela recebeu. Quando a gente aprende a ser mãe, é isso, você defende a sua cria. E ela não defendeu a cria dela, ela colocou a cria dela para ser o escudo, para receber o perigo que estava situado ali naquela condição. Mas eu estou falando isso também para dizer, tem muitas mulheres que, apesar de terem sido inseridas na matriz do cuidado...

elas começam a servir ao patriarcado. E por que elas fazem isso? Porque elas estão morrendo de medo. Eu acho, essas mulheres de direita, para mim, elas estão, assim, borradas de medo. E aí elas mandam uma mensagem para o seu algoz, porque nós enfrentamos os nossos algozes e os nossos agressores de peito aberto. E vamos lá, vamos para o argumento, vamos para a lei, vamos para a disputa.

E, claro, é sempre uma atitude muito corajosa, mas essas mulheres de direita, elas estão todas morrendo de medo. A Cíntia Chagas é um exemplo maravilhoso, porque ela mesmo veio para a cena, quando ela foi agredida por esse deputado que era marido dela, quase morta, jogou uma faca nela e tal, ela veio dizer, nossa, eu atacava as feministas na proporção da violência que eu sofria, porque eu via que elas estavam falando de alguma coisa que eu precisava negar, que eu precisava esconder. E eu estou falando dessa deputada...

Porque eu acho que ela é um exemplo interessantíssimo dessa mulher que está ali. Ela se chama... Julia Zanatta. Julia Zanatta. Ela é uma mulher muito amedrontada, tão amedrontada que ela é capaz de usar o fruto do seu ventre para se defender e defender os homens com os quais ela fez acordo numa situação de perigo. Eu escrevi um artigo sobre ela para a revista Liberta, que é do ICL, onde eu faço o artigo toda semana.

e um artigo assim que eu acho que vale a pena a gente analisar essas personagens que estão fazendo política e as mulheres que estão fazendo política, mas para dizer, as pessoas que morrem de medo, que para mim são as pessoas de extrema direita, o povão da extrema direita, não o cara que está lá ganhando muito dinheiro em cima disso, nem o odiador profissional da machosfera. Esse está se dando bem em cima...

Dos otários, né? Essa gente que é o otário da vez é gente que está morrendo de medo. Porque quando você vê um algoz...

Esse algoz aciona as pessoas todas. Mas umas, as que têm coragem, que têm ética, que têm decência, que não têm medo, que é o povo sem medo, reage com coragem, enfrenta e diz, um cara vem ameaçar a democracia, faz o discurso contra Dilma Rousseff, chama o Ustra de herói, lembram do Bolsonaro fazendo isso? O que aconteceu ali naquele momento do Brasil?

O cara dividiu o Brasil em dois, foi Bolsonaro que dividiu o Brasil em dois. Não sozinho, mas naquele dia, aquele discurso dele era puro gatilho. Ele faz o grande gatilho, o gatilho que gera uma posição de confronto a ele, de enfrentamento, que diz, não vamos aturar isso. Jean Wyllys deu aquele cuspe transcendental, o cuspe revolucionário da história.

E do outro lado, as pessoas que vendo o seu agressor, vendo um sujeito que está botando pânico na sociedade, que está dizendo o pavor de Dilma Rousseff vai sobrar para todo mundo, que chega com aquele subtexto, eu mato, prendo e arrebento, eu torturo que nem o Ustra.

porque isso era o subtexto quando ele faz essa apologia do Ustra, e aí ele gera também essa população de pessoas em pânico, amedrontadas, que mandam para ele a seguinte informação. Querido líder autoritário.

Eu estou aqui totalmente para você. Eu estou aqui dizendo, você não precisa me matar porque eu sou igual a você. E se eu sou rico, se eu sou bem vestido, se eu sou bem alimentado, é uma coisa. Agora, imagina o pobre, que não tem nada daquilo. Porque a gente fica, né? Como é que existe tanto pobre de direita, tanto pobre sendo ferrado por figuras tipo Bolsonaro e pelos bolsonaros em geral, filhos, inclusive o candidato atual?

todos sendo ferrados por ele e adorando esse líder autoritário. Do meu ponto de vista, é porque essas pessoas morrem de medo e querem mandar uma informação que é justamente essa. Eu sou igual a você, nem que seja na hora do voto.

Nem que seja na hora do discurso. Nem que seja se eu não posso ter o seu carro, o seu jet ski, se eu não posso ser igual a você, se eu não posso ter o dinheiro do bilionário, seja o Elon Musk, seja o Vorcaro, seja quem for, eu vou pelo menos tentar ser igual nas ideias. Eu vou tentar ter o mesmo discurso, porque aí eu me assemelho. E é esses mecanismos também miméticos que a gente tem que entender. Funciona perfeitamente para as mulheres que se entregam para os seus algozes.

Pegando um gancho do que você disse, Márcia, mas é muito interessante como essas mulheres de extrema direita repetem também um padrão de comportamento de negar o feminismo, negar a luta feminista, também porque, muito provavelmente, se identificam, de alguma forma, com os elementos que a gente traz, porque...

O machismo é policlassista, ou seja, a mulher pobre, a mulher rica, a partidário, está presente em todas as esferas da sociedade. Então é óbvio que elas também são vítimas do machismo. Aliás, citando os bolsonaristas, veja, o que foi feito com a Joyce Hasselman. Tivemos isso dentro do governo do Lula, que foi até afastado o Silvio.

O Silvio Almeida, pela acusação gravíssima de assédio, é correto. Você tem que afastar mesmo diante de um aspecto que é inadmissível. Mas você vê o tratamento dado às mulheres da extrema direita, que negam o feminismo. A Joyce Hasselman foi a primeira a ser expurgada do seio do bolsonarismo, porque começou a criticar.

os piores possíveis. Exatamente. Desde que ela se levantou e se afastou, nunca mais teve condição de se reerguer, porque ela é sucessivamente vítima de discurso misógino. A segunda dela é a Carla Zambelli, que honestamente, pra mim, zero compaixão, tá pagando pelo que fez, tá sendo extraditada pro Brasil.

Porque ela foi a primeira a ser abandonada pelos bolsonaristas. Ela é tão golpista quanto os demais. Tá bom, acionou o hacker, fez um crime contra as urnas eletrônicas. Mas todos os demais fizeram. Só que os outros tiveram advogado, farto salários, proteção, rede de apoio. O próprio Eduardo Bolsonaro estava nos Estados Unidos fazendo o que faz.

E é louvado por todos eles. E, por fim, a própria Michelle Bolsonaro. Vindo para cá, eu tive uma notícia de que, contrariando a expectativa dela, o PL vai apoiar Ciro Gomes no Ceará. Por mim, independentemente das discussões internas do PL, perdeu a queda de braço, também a queda de braço para que ela pudesse ser a candidata à presidência da República, toda vez sendo secundarizada.

Então, assim, não estou aqui dizendo por compaixão, pelo direito dela defender as ideias absurdas que ela defende. Não, acho que há outras mulheres que merecem mais a nossa solidariedade, a nossa defesa, sobretudo pelo conteúdo que defendem. Mas o que eu quero dizer é que mesmo aquelas que negam o feminismo precisam dele. Aliás, só estão nos postos em que elas ocupam em função da luta feminista. Uma parlamentar como a Júlia Zanatta não fosse a luta feminista pelo direito ao voto, a participação política.

para que tivesse, inclusive, financiamento eleitoral para as candidaturas femininas, ela não estaria ali presente. Nós somos cerca de 20%. Esse índice sobe e desce um pouco. E até deu uma melhoradinha. Porque às vezes sai um, entra suplente, vira secretária, mas é cerca de 20%. Posso falar um filosofês aqui? Por favor, adoro filosofia. Botar umas notas de rodapé de professora. Se eu não entender, eu pergunto.

Não, mas então, eu vou dar uma dica do negócio que na filosofia, na história da filosofia é super interessante, que é o lance do discurso, que a gente tem que prestar atenção no que as pessoas estão falando, né? E isso é o principal. Na era da economia da atenção, as pessoas precisam prestar atenção no que as pessoas estão dizendo. Era do TikTok. Abrir os ouvidos e ficar atentos. E aí tem um negócio que é, em filosofia, a gente chama de autocontradição performativa.

Que é um negócio... Autocontradição performativa. Esse negócio é muito útil. Você olha pra pessoa. Então, é o paradoxo de Epimenedes. O Epimenedes era um grego que dizia todos os gregos mentem. Então, quando um grego diz que todos os gregos mentem, será que o que ele tá dizendo é verdade? Ele tá mentindo, então... Cria um paradoxo.

E o paradoxo implode o que a pessoa disse. Aí explodiu, o caba não está dizendo mais nada. É isso que você está falando? É isso. Então, essas feministas... O próprio discurso da pessoa contradiz ela e implode o discurso. É isso? Então, imagina quantas dessas, da Micheque, Bolsonaro, até a Zanatta...

a Hasselman, a Carla Zambelli, todas essas mulheres, quando elas atacam o feminismo, elas acabam implodindo a própria posição delas. Porque se elas realmente fossem antifeministas, elas botavam a violinha no saco e iam para casa lamber bota de macho, entendeu? Isso me lembra uma vez que eu estava numa escola debatendo, enfim, debatendo política, e aí um cara, ele dizia que era a favor de escola sem partido.

Aí eu sugeri, eu falei, então você se levante e vai embora. Porque a gente está dentro de um ambiente escolar debatendo política e você está a favor de um projeto que aniquila a nossa posição, o que nós estamos fazendo. A gente costuma dizer isso para elas, mas eu acho, ao mesmo tempo, Marcia, que também tem uma falsa sensação de que, por serem, sei lá, iluminadas ou privilegiadas aos olhos de Deus ou da sociedade...

Elas serão protegidas no mundo que não é delas. No mundo que não defende a vida, a sobrevivência e os direitos delas. Assim, eu posso. Eu sou aqui também. Eu tenho o próprio mérito de estar aqui. Elas caem nessa ladainha. Ai, coitada. E depois elas são vitimizadas por essa própria criança. Mas posso colocar só uma questão que me incomoda, às vezes?

É uma carta branca, às vezes, não estou falando de vocês, mas da esquerda, para homens da esquerda ofenderem mulheres de direita. Uma coisa é admitir que elas estão erradas, outra coisa é chamar de vagabunda, você tem que ser estuprada e passa um pano para essas pessoas.

Tá errado. Tá errado. Mas aí você vai lá pra... Não tá errado. Tá totalmente errado. Claro que não tá errado. Porque parece que... Não, não. Se é uma de direita, você pode falar o que for. Porque você tá do lado certo. Não é assim, né? Essas mulheres, elas precisam... Você tem que ir na ideia. E merecem ser criticadas pelo que elas defendem. Não é na ideia. Não é na ideia. Não é na ideia. Não é na ideia. Não é na ideia. Exato, exato. Que utiliza isso também. Que utiliza isso também.

Por favor. Tem um nome, aliás. Tem um nome. A falácia se chama ad hominem. Embora seja aplicada às mulheres. Você ataca a pessoa. É, exatamente. É, exatamente. Então, ataca a pessoa em vez de ir no argumento dela. E isso acontece a todo momento. E demonstra o que a pessoa pensa de verdade, né?

Tá revelando ela, né? E isso também é parte da explicação do que Márcia tava dizendo de quanto é enraizado, né? A lógica machista. Porque ela acha que não tá. Não, não. É, não falei nada, não. Mas aí... É fácil de você confrontar o seu... Mas você vai pra rede, pra rede social, ali pra bagunça da internet, aí você vê também que as pessoas muitas vezes estão fazendo isso por pura guerra. É. Guerra de discurso. Sim. E aí por isso que eu acho tão importante a gente voltar a ser razoável, sabe? Ah, mas eles fazem isso também.

é horrível o errado, o dois errado não faz um certo e ao mesmo tempo como as redes sociais não dão esse espaço mínimo pra gente elaborar um pensamento com começo, meio, fim eu não vejo quanto ela tá cada na rede social é na rede social, é na câmara na rua muito pouco porque também tem esse aspecto da covardia ali eles são muito corajosos quando estão por trás de um perfil muitas vezes um perfil fake

Ou quando estão ali na tribuna, sabendo que o Conselho de Ética nunca vai puni-los, porque até hoje, só uma vez, um parlamentar foi punido, para mim, uma punição muito branda, por ter sido misógino com a ministra, Gleisi Hoffmann, disse absurdos, e aí, como também mexeu com alguém que era... Não acontece nada mesmo?

Não acontece nada. Eu dou um exemplo. Durante a CPI do MST, da qual eu fiz parte, eu fui assim, interrompida, xingada, ofendida, ameaçada, esculhambada centenas de vezes. Eu fui parar no Conselho de Ética duas vezes. Por quê? Por mau comportamento. Porque eu confrontava. Eu respondia quando eu era violentada pelos caras. Cheguei a protocolar representações contra eles no Conselho de Ética, que nunca foi adiante.

foi arquivado porque isso era parte da disputa política. E definitivamente não é. Quando você parte para uma desqualificação da mulher, pelo fato de ela ser mulher, seja pela sua forma física, que não te agrada, mas não está ali para te agradar, porque ela é parlamentar e não é a sua musa ou a pessoa com quem você quer se relacionar. Não é disso que se trata. É por fato de ser mulher.

É difícil um cara ser ofendido pelo fato de ser homem. É isso que as pessoas não entendem essa diferença. A mulher é morta, claro que não todas as vezes, mas às vezes pelo fato de ser mulher. Não é o cara matou outro cara. Ah, porque ele era um homem matando outro homem. Não, não. O cara não odiava o fato dele ser homem.

Exatamente. Ninguém vai matar um cara por ele ser um homem. É isso. Eu te odeio porque você é homem. Não, eu fiz alguma coisa. O marcador é justamente esse. Mas por que tem esse ódio? De onde vem esse ódio da mulher? Eu acho que esse ódio é o que garante que o homem seja homem.

Se você pega, vou dar também um exemplo mais escolar, você vai lá na história da tragédia grega, pega Antígona, que é uma personagem de teatro que todo mundo já ouviu falar. A Antígona, ela fala coisas, que nem a Samia fala lá no Congresso Nacional, ela é a nossa Antígona, ela fala coisas que ofendem os homens.

Porque ela se posiciona, porque ela se defende, porque ela não concorda, porque o Creonte, que é o opositor dela, que é o tio dela que usurpou o trono na tragédia grega, ele diz assim, essa mulher abala o meu poder, como que ela tem coragem de falar essas coisas? Até parece que eu não sou mais um homem.

Por isso que eu acho também que é muito dolorido você ser um homem, você se obrigar a ser um homem. Tem homens que, pela dificuldade cultural, escolar, pela formação religiosa, eles são também muito oprimidos para serem homens. Tem muitos homens que não gostam de ser homens. De ser o forte.

É muito... Exatamente. Aí você se obriga a uma posição de violência que você não necessariamente gostaria de ter na vida. E você está vendido nessa posição. Assim como as mulheres. Por isso que eu digo que a gente tem que rediscutir a noção de patriarcado. Porque as pessoas, sejam homens, sejam mulheres, todas sofrem nesses lugares. Mães sofrem muito.

mulheres para darem provas de que são mulheres servindo, sendo boas donas de casa. Agora estão fazendo essa onda toda de... Como é que chama? As mulheres que são troféus, né? Que coitadas, meu Deus, isso vai acabar mal. Meninas, isso vai dar muito problema no futuro. Parem com isso. Mas é disso que a gente está falando. Eu queria ser um homem troféu.

Você queria ser um homem? Então, ah, deixa, Vilela, deixa eu falar um negócio. Existe homem troféu? Deixa eu falar um negócio. Então, o homem troféu não tem o marido como capital, digamos, né? O homem troféu seria o marido como capital. Tipo, você tem que ter um homem. Qual é o homem que eu vou botar na minha cena, se eu sou, digamos, uma influencer poderosa, que tem milhões de seguidores, e aí eu pego aquele cara que tá ali, que vai dar uma cena boa, não quer dizer que eu gosto dele, mas eu vou botar ele nessa cena. Esse é o homem troféu.

O Homem Troféu, que é, ao mesmo tempo, o marido como capital para muitas mulheres antigamente, nas gerações passadas e até hoje. Tem pessoas que querem casar com um bom partido. Lembra do Bom Partido? Esse era o Homem Troféu. Agora, tem um negócio que é a misoginia que a gente conhece. É o cara chegar e dizer, sua feia, né? Sua horrorosa, sua baranga, sua gorda, sua palita, você não quer.

Sua velha, sua não sei o que. Sua burra. Sempre assim, muitos xingamentos pra cima das mulheres. A gente não consegue fazer isso com os homens. A gente vai chegar e dizer pro cara, cara, como tu é feio, cala sua boca, como tu é infeliz, como tu é burro. As mulheres não fazem isso. Porque as mulheres, por terem sido formadas na compaixão, elas olham pro outro e reconhecem a alteridade do outro. Raramente, mesmo nas rodas de menina, assim, eu com as minhas amigas, de vez em quando a gente fica...

zoando e tal, mas eu vejo que é sempre meio artificial, que a gente não consegue dizer mas o cara era feio mesmo, era feio demais, ninguém consegue entrar num jogo desse tipo de vileza em relação... Ou fala mais na gozação do que na real, né? Exatamente, porque as mulheres não... Até porque, gente, eu citou a Câmara, ali tem muitos deputados que são muito feios.

Mas isso não é utilizado Ou lugar pra ter gente feia Isso não é utilizado ali pelas deputadas Ou mesmo pelos parlamentares homens Pra dizer, você é feio, você é gordo Você não é atraente Isso não é um aspecto que As mulheres tem muita compaixão

um aspecto de controle também sobre eles porque nos diminuir, tirar a nossa autoestima, como se algumas ainda se abalam em função disso é um instrumento importante como controle mesmo como dominação, e tem um outro aspecto que eu acho que

Existe um grau de ressentimento muito grande nos homens pelo fato de que eles vieram perdendo o poder, né? Perdendo o espaço na sociedade. Porque as mulheres ganharam mais direitos civis, direitos sexuais, direitos reprodutivos. É perder, porque eles sentem como uma perda. A nossa vida, a minha vida e a vida da Márcia, com certeza, é melhor do que era a vida das nossas mães e das nossas avós. Porque hoje a gente tem mais poder. Eu estou perdendo, eu não vejo. Então.

Você entende? Perde poder e controle sobre qual deveria ser o papel da mulher para a manutenção do seu papel na sociedade. Porque se tem um cara falando e tem uma mulher questionando... No imaginário de um poder talvez imaginado.

Mas se você não almeja esse poder, você não perdeu nada, entendeu? Mas você é um cara que tem um pensamento democrático. Você olha pro outro e reconhece a alteridade do outro, reconhece que o outro tem direitos, que o outro tem direito de existir, e que uma mulher é um ser que tem lá as necessidades dela. Por exemplo, a mulher pode votar. Nossa, agora eu perdi espaço, porque antes era só...

Não, mas é mais estrutural. Eu concordo com ela no seguinte sentido. O cara entende que aquela mulher poderosa que tá lá no Congresso falando... O que é chefe dele, vai? É masculino. Ele fica diminuído na sua masculinidade. Então, um cara, pra não ter essa reação, é um cara que tem que estar muito bem resolvido por ela.

Uma coisa é a Sâmia falar alguma coisa, outra coisa é a outra parlamentar falar alguma coisa. É isso? Até porque a reação dele, quando nós reagimos ou questionamos, vai nesse aspecto. Quem você pensa que você é? Quem é essa mocinha? Quem é essa menina que pensa que ela é? De onde é que ela veio? Como ela é metida? Como ela é arrogante? Ou então, como ela é barraqueira, histérica, brava? Sendo que eles performam coisas que são muito mais piores ou intensas.

E esses aspectos nunca são questionados, nunca entram na roda. Mas eu acho que a questão psíquica dos homens tem que ser colocada, porque junto com a questão ética, sabe? Porque é uma questão de ética, você reconhecer o direito do outro é uma questão de ética. Mas os homens desceram uns degraus abaixo e estão meio perdidos. Eles estão lá... É, os caras estão perdidos nisso, por isso que eles praticam. Digo, a violência virou assim meio que um trunfo.

um monopólio, uma atitude que os homens se sentem autorizados uns perante os outros, e aí tem esse aspecto. O cara se sente diminuído por uma mulher. A mulher, pra ele, era um objeto, e não um sujeito. Ela é um objeto, que ele põe ali quantas histórias, né? Uma mulher que enfeita, enfeita o Congresso, se ela vier...

A exceção que enfeita, que é o Tolkien, né? A mulher preta, ou a mulher hétera, ou a mulher trans, que tá ali pra fazer o papel de um pra dizer que a gente não é machista. Então, é disso que a gente tá falando. Tudo nosso, somos homens, o negócio é todo nosso, o poder é nosso, a violência é nossa, a gente faz o que quiser. E a gente aceita. Elas servem o cafezinho.

E elas ficam aqui na retaguarda. Falar em café, alguém quer café? Eu aceito um café. Eu também quero. Foi uma deixa, gente. Foi uma deixa. E aí os homens ficam esperando que as mulheres amparem, resolvam, façam a pior parte, o trabalho difícil, preenchem os formulários, façam as políticas públicas e eles querem brilhar. Tem um exemplo que eu estou sempre... Os louros, né?

Então, tem um exemplo que eu ando dando muito, falando desse assunto, que é o seguinte. A Revolução Francesa, tá? 1789. Aí, ali, as mulheres ajudaram muito. Elas entraram na Bastilha, elas quebraram tudo, elas fizeram aquele negócio, porque a vida dos franceses estava insuportável. E aquela nobreza estava lá, hedionda, simplesmente...

tomando tudo, e os pobres cada vez mais pobres. E é isso que acontece, as mulheres que ajudaram na revolução foram mandadas para casa. A mesma coisa aconteceu com a Revolução Rússia, a mesma coisa aconteceu em 1945, quando o Exército Vermelho...

entrou em guerra contra os nazistas e venceu essa parada. E aí, as mulheres russas também foram mandadas pra casa e foram esquecidas. E aí, eu cito esse exemplo, 1793, 4, 5 anos depois da Revolução,

Tem um decreto que manda cinco mulheres, se cinco mulheres estiverem reunidas na rua, se elas forem vistas juntas, manda prender todas. Porque é sublevação. Sim, porque não queriam que as mulheres se unissem.

Então, o patriarcado, nas suas instituições, forçou muito a barra para que as mulheres não ascendessem, através de muita violência. E a mesma coisa, dificultando a vida das mulheres para que elas não possam entrar na política. E isso não precisa você decretar que elas não vão votar. Aliás, o Getúlio Vargas fez essa coisa maravilhosa de ter decretado que elas iam votar, mas ele, ao mesmo tempo, decretou que elas não podiam mais jogar futebol. Então, imagina isso, na casa.

Na casa das mulheres, o laboratório político já está dado. O homem senta na ponta da mesa. A mulher fica servindo o cara. A criança de um ano, quando vê o funcionamento cognitivo e o hábito interno da casa, já aprendeu tudo. Esses dias eu estava numa situação lá que uma criança de dois anos e oito meses começou a me bater.

E aí eu disse pro menininho, ó, fulano, para de me bater, que não é legal. Aí a mãe dele veio e disse assim, nossa, eu tô muito preocupada com ele, porque eu comecei a dirigir carro, e agora eu entrei no carro, e peguei pra dirigir, e o menino chega e diz, começou a bater nela e dizendo, você não pode dirigir carro, só meu pai que pode dirigir carro. No dia que eu ouvi esse exemplo, eu pensei, a coisa é grave.

Porque ela não depende só da escola. A escola ajuda e tem que ser uma educação, claro, que dê conta de respeitar as pessoas e formar o respeito dos cidadãos para a questão de gênero e da sexualidade e dos lugares de cada indivíduo na sociedade. Mas quando você vê esse tipo de coisa, tem um degrau abaixo, Vilela.

Sâmia, tem um degrau muito abaixo. Aquele menininho de dois anos e oito meses já aprendeu com os gestos, com os movimentos, com o que ele tá vendo na televisão, na internet, na casa. Com as críticas que o pai faz. Ali, ó, ele já tá...

pegando tudo antes de chegar a uma escola e dizer mulheres devem ter direitos similares ou iguais aos homens ou direitos específicos para a sua condição, se elas são trans, se elas são cis, se elas são negras, se elas são deficientes e assim por diante. É disso que a gente está falando.

E por isso que esse debate de misoginia nas redes é tão importante e a gente precisa encarar esse tema de fato. Porque imagina um adolescente que passa o dia na internet, um dia na rede social. Então, tem vários projetos sobre o tema da misoginia.

No Congresso Nacional tem esse, que a Márcia já citou, que foi já aprovado no Senado por unanimidade, que equipara a misoginia ao crime de racismo. Portanto, imprescritível, inafiançável, que pode levar a pena de até cinco anos. Qual é o caminho dele agora? Agora ele chegou na Câmara.

Tem várias possibilidades. Ele pode andar nas comissões ao passo normal de qualquer projeto de lei, então passa pela Comissão da Mulher, pela Comissão de Constituição e Justiça. Ele é debatido na comissão. Desculpa, a gente usa o jargão interno e esquece que está conversando. Alguém coloca cadêndos, coloca retiadores. Exato.

Então ele chegou na comissão da mulher, porque é o caminho que ele vai passar, porque ele fala sobre o tema de mulheres. Então tem uma comissão dedicada aos direitos das mulheres. Ali a presidente da comissão vai escolher um relator ou uma relatora que vai escrever qual que deve ser as modificações do projeto que chegou no Senado. Ela pode dizer, mantém igual ou sugiro que se faça essa ou aquela alteração.

O colegiado se reúne, no caso, a comissão da mulher, mantém o texto, aprova ou pede vistas ou obstrui, que é adiar quando você não quer que ele seja votado. Depois que ele passou pela comissão da mulher, foi aprovado, teve uma maioria de votos, ele vai para a comissão seguinte, que nesse caso suponho que seja a comissão de Constituição e Justiça, que é por onde passam...

todos os projetos. Que é para ver se ele é constitucional, se ele não é muito contraditório com o arcabouço legal que existe no Brasil, etc. Esse é o caminho regular. Mas há outras possibilidades. O projeto pode entrar em regime de urgência. O que isso significa? Que ele vai direto para o plenário?

Você aprova um requerimento no plenário dizendo não precisa desse caminho todo. Por ele ser um tema urgente, nós queremos votá-lo em regime de urgência. E tem ainda uma terceira possibilidade, que é ele ser apensado a outro projeto, juntado. Porque na Câmara já tem outros projetos também que falam sobre o tema da misoginia. E isso pode ser uma possibilidade. Então a gente pega o do Senado, junta a de uma deputada ou de algumas deputadas.

E vota esse pacote. Quem que vai definir como vai ser feito? Hugo Mota, que é o presidente da Câmara. Claro que, assim, com pressões dos líderes, das deputadas, da bancada feminina, essa vai ser a definição. Eu tenho também um projeto, como a Márcia mencionou, que fala sobre o tema, principalmente, fala da misoginia, mas também da misoginia das redes, que são os grupos de redpills que alguns... Machosfera.

machosfera, com alguns influenciadores que ganham dinheiro, e é disso que se trata, ganhar dinheiro com o discurso misógino, ou grupos, sejam grupos clandestinos, ou grupos mais aparentes, assim, nas redes, de...

que compartilham essas ideias e estimulam a prática de violência, não só nas redes, mas extra-redes. Um exemplo, foi citado esse militar que suicidou a mulher, que fingiu que ela se suicidou, mas, na verdade, com a investigação, se descobriu que ele matou ela.

Ele falava, ele participava de um desses grupos que ele se auto-intitulava como alfa, como macho alfa, ela como beta, ele como aquele que tinha o poder humano e ela como alguém que deveria obedecê-lo. Esse ideal, ele é compartilhado por uma série de homens e ele se traduz muitas vezes nisso. O cara matou a mulher. Ou então aquele jovem do Rio de Janeiro, um dos que foram presos no caso de estupro coletivo em Copacabana.

Ele estava utilizando uma camiseta, isso viralizou nas redes, acho que uma reportagem da Folha de São Paulo, se eu não me engano, com o dizer regret nothing. Não se arrependa, não me arrependo, enfim, que é em alusão também a um dos grandes Red Pills, influenciadores, cujo nome agora eu me esqueci, mas que enfim, tem isso como... Andrew Tate. Andrew Tate, perfeito.

que tem isso como lema, ou seja, fazemos, fazemos por orgulho, e é o orgulho da machosfera. Então, é necessário, e é isso que nós defendemos, que se dê nome aos bois, que se conceitue o que é a misoginia. Porque acho que quando você conceitua, você faz, de alguma forma, a sociedade refletir e compreender o problema que existe, assim como foi o feminicídio. Existia feminicídio antes, mas foi em 2005 que a legislação brasileira, a partir da contribuição de diversas feministas,

conseguiu compreender que as mulheres são mortas pelo fato de serem mulheres. Se você consegue trazer para a legislação a ideia da misoginia, dá para entender que é um ódio motivado por questões de gênero, pelo fato de serem mulheres, e que essa misoginia tem diversas consequências. Primeiro, nos próprios homens, é importante que seja dita mais, você estava citando um papel fundamental, um menininho de dois anos e pouco.

Agora, tu imagina os adolescentes, que tem uma série de frustrações, de medos, que passam um dia nas redes sociais, que também vivem num mundo de violência, que reproduzem esses comportamentos violentos a partir dos seus pais e a partir do que eles veem não ídolo. O cara que ele assiste, que ele acompanha nos grupos que ele tá. Ou, muitas vezes, é pra fora das redes. E aí chega lá na escola.

faz o grupo das meninas que são estupráveis, como a gente viu acontecendo em alguns institutos federais brasileiros, que, aliás, os rapazes foram corretamente afastados da escola, estão ali passando por um processo de responsabilização, de apuração. Mas quantos casos como esse não acontecem todos os dias que ou nas redes sociais torna a vida das mulheres um inferno, ou, quando é ainda pior, quando na vida real se traduz num estupro?

num assassinato, numa perseguição, numa violência diária e de diversas... Agora tem esse aspecto também do... Você pega, por exemplo, esse filme, a série Adolescência, que todo mundo viu, que tornou isso a questão... Foi super importante essa série, todo mundo assistiu. Porque lá a coisa estava...

lá na Inglaterra, na Europa, enfim, no mundo todo isso está pegando com muita força, porque, de fato, tem uma mobilização que tem a ver com o mercado. E aí eu estou falando, tem o mercado, compensação financeira, eu me lembro do CEO do Google, em 2016, falando para um monte de blogueiro aqui no Brasil, que o assunto que mais rendia dinheiro, e aí os blogueiros estavam ganhando muito dinheiro,

Era ódio a Dilma Rousseff, por exemplo. Então tem isso. Os caras monetizam, odeia a Sâmia, me odeia. Esses caras já ganharam muito dinheiro. E não só o capital financeiro, da monetização propriamente dita, mas também o capital político. Porque aí você ataca uma mulher. Eu sou super usada. A vida inteira eu fui usada. Ele se torna o...

Para raio de maluco desse território. É um ativo eleitoral, inclusive. É um ativo político eleitoral. Ele não tem propósito. Ele é só contra você. É. O que você representa. E o que ele faz? Ele mobiliza, ele interpela pessoas que estão aí com o ódio flutuando, que nem sabem o que estão sentindo. Que estão procurando o culpado.

Exatamente. Só que aí vem o outro aspecto, que é a economia psíquica, que a gente não pode jogar fora. Economia psíquica no sentido de que os afetos, eles mobilizam as pessoas. E, digamos, o mundo da esquerda, por mais que tenha ódios...

É um mundo muito mobilizado por afetos, tipo solidariedade, empatia. Aí você vai para as mulheres, para o campo do feminismo. Isso é ainda mais denso. É muito mais forte. Fazer política com as mulheres. Chega a ser assim, parece que você está... Que casou com todo mundo.

love total. E aí você vai pra extrema, você vai pra direita que começa uma frieza, a frieza é um afeto importante no processo. E você vai pra extrema direita e já não é mais só uma frieza, é um ódio generalizado que vira uma espécie de combustível que faz funcionar tudo. E aí tem uma compensação emocional, que aí o ponto. Às vezes a compensação é financeira, mas a compensação emocional é muito forte. E eu passei a minha vida... E pertencimento, você tá falando?

Mais que isso, olha só, pertencimento também. Mas olha só, eu fiquei ao longo da minha vida analisando o fascismo. Eu trabalhei, escrevi vários livros sobre isso. Fui muito atacada, inclusive, pelos livros que eu escrevi. Por quê? Porque acho que as pessoas não liam, mas elas olhavam o título e aquilo também mobilizava. Tipo, elas se identificavam, botavam uma carapuça e ficava esquisito. Claro, também tem muita entrevista na vida, né?

Mas, então, esse ponto da questão psíquica, eu acho que não pode ser jogado afora. E aí vem a história da formação desses jovens. Explica melhor essa parte. É, vou explicar. O menininho que aprendeu aquilo em casa com três anos, com cinco anos, com dez anos ele está na escola. O exemplo da direção.

Então, da mulher dirigindo e ele brigando, porque só o pai dele podia dirigir. Bom, ali já teve um aprendizado do hábito familiar, das coisas que são costume na família, né? E toda família tem esse tipo de funcionamento, porque isso já tá arraigado. Mas aí você vai pra escola, aí os meninos vão ser ensinados na escola também, com os brinquedos, na família já tinha isso, tem os brinquedos, tem os jogos masculinos, os jogos femininos, tem uma separação de gênero.

que faz muito mal às pessoas. E tem, sei lá, você vai para países que têm outras pedagogias, sei lá, na Finlândia, na Dinamarca, na Islândia, os caras vão ensinando as crianças que são definidas como meninos a fazerem coisas que meninas fazem. Trabalho doméstico, por exemplo, brincar de boneca, aprender a cuidar, sobretudo.

E as meninas são incentivadas a aprender a fazer coisas que os meninos fazem, desde o esporte até brincadeiras mais duras, para elas também não ficarem naquela posição de só cuidar, mas também aprenderem a enfrentar e lidar com situações mais duras, digamos assim. E aí, de poder, inclusive, e até mesmo de violência.

Então, quando você chega na era da internet, é uma novidade, porque antes aqueles meninos que se juntavam numa pequena malta, uma pequena fauna ali, entre eles, meia dúzia, que iam correr atrás de uma bola, de repente, na internet, não tem mais a bola para eles jogarem. Eles se juntam para fazer um game. Pode ser um game, mas os games já estão também mexendo muito com a violência. E quando o game...

é vivo e é um estupro, a gente viu isso. Para essa garotada que está fazendo estupro coletivo, é praticamente um game ao vivo que eles estão fazendo. E aí, eu queria falar dessa economia psíquica, por quê? Porque o menino vai aprendendo a curtir, a se satisfazer com aquilo, a achar muito bom.

com esse tipo de conta. Ele vai aprendendo os prazeres da vida. Tem pessoas que vão curtir jogar futebol, correr, andar de bicicleta, ir pra uma festa, sei lá, beber, conversar com os amigos, ir pro cinema, ler um livro. E tem gente que vai curtir fazer essas coisas. Então, isso é...

É como se fosse uma espécie de ganho, de lucro, de é onde eu estou me satisfazendo. Em psicanálise, vocês dizem, estou gozando, estou em pleno gozo daquilo que é mais meu, que é onde eu estou me sentindo mais feliz, onde eu estou me realizando. E aí eles se realizam uns para os outros, porque eles não fazem isso sozinhos. E por isso que esses grupos dão tão certo. Seja os Red Pill, que é um esquema de pirâmide.

O dono do negócio lá em cima e os outros que vão ganhando alguma coisa até chegar nos bocó, boca mole que não ganhou nada. M-G-Town. Os caras que não ganham nada. Tem o cara lá embaixo que ele não tá ganhando nada. E esse que não ganha nada é a recompensa. Mas é uma inspiração, né? É a recompensa suposta. Esse é a prova.

de que a compensação emocional não pode ser jogada fora. Não adianta a gente dizer, ah, só um negócio. Não é só um negócio. Tem um lugar onde a pessoa está se satisfazendo como pessoa. Um pertencimento, um acolhimento de um clube que vai... E está também, está pertencendo e está mexendo com o seu ressentimento.

Que não é só o ódio. É de um ressentimento tão grande que está dizendo para esses homens, para esses adolescentes principalmente, que a culpa é da mulher e que não... Você tem muita chance de ser magoado. O melhor é ficar sozinho. Então tem muita gente ficando sozinho. Ele nem... Ele não está maltratando a mulher. Mas ele fica sozinho pelo medo de ser...

Ai, que frágil, o bebê, né? É, frágil, não é de ser... Gente, lembra? Decepções, porque esse cara falou assim, não, com certeza essa mulher vai te decepcionar e tal, sem saber que isso faz parte da vida, faz parte do aprendizado. Não tem ninguém falando pra ele, cara, você vai tomar pé na bunda, você vai dar pé na bunda. O medo da mulher é qual?

É dela se relacionar e ser morta. Você sabe que tem um fenômeno que está acontecendo? Eu estava falando isso com a minha terapeuta, inclusive, que tem chegado cada vez mais no consultório dela e recentemente li também uma reportagem dizendo que isso é um fenômeno nas terapias em geral. Só para o pessoal entender, as minhas amigas comemorando...

porque agora tem um Uber que você pode pedir uma mulher. Uma mulher, claro. Por que vocês estão comemorando? Os caras não sabem o perigo que é pegar só um Uber. Eu, quando estou namorando, é aquele negócio. Pede um Uber, liga. Compartilha o teu caminho. A pessoa fica falando com você no caminho. Fala que chegou. Fala que chegou. Eu estou com alguém. Porque, meu, é um perigo constante. Coisa que a gente não faz. A gente pode passar de assalto.

Mas esse perigo você não passa. Perfeitamente. Chegado nos consultórios, assim, de acordo com a minha terapeuta, e essa reportagem também da UOL. Aí eu derrubei o negócio aqui. Não, não, aqui. Que é o seguinte. Eu tenho tido mais nojo, medo e riscos, assim, internos de me relacionar com os homens. Tem chegado coisas do tipo, tenho ficado mais...

Com o pé atrás, com as pessoas que eu já conheço E tem que ficar mesmo E tem que ficar justamente O medo desses rapazes Que é um medo legítimo e é um problema social Não me relaciono com as mulheres Porque eu posso ser frustrado As mulheres tem medo de se relacionar com os homens Porque elas podem ser mortas por isso Estupradas, mortas

Descompradas, mortas, violentadas de diversas formas. Então, a misoginia é um problema social pro homem e pra mulher. Mas pra mulher pode causar a vida dela, custar a vida dela. A diferença de dano é muito substancial. Sabe a Margaret Atwood, que escreveu o conto da Aya? Essa mulher, ela fez uma investigação, ela escreveu que, ao perguntar pros homens... Ela falou a motivação, o que ela tava vendo... Então, ela foi perguntar pro... Coloca...

Foi perguntar para os amigos, assim, o que eles temiam em relação às mulheres? E os caras responderam, a gente tem medo que as mulheres riam da gente. E isso é um fator. Isso é um fator. É parecido com o que você disse, né? Ah, sim, decepcionar. E você zoar. Então, o grande medo é de ser ridicularizado, é de ser objeto de riso de uma mulher.

Por quê? Porque tem muito ego, né? Tem muito narcisismo nos homens. Um alto índice, assim, uma densidade narcísica muito forte. E as mulheres têm muito menos. Isso a gente pode discutir depois. Mas aí ela foi perguntar pras mulheres o que elas temiam nos homens. E aí as mulheres respondiam, tenho medo que ele me mate. E outra coisa, que a mulher que eu tava contando pra Samia...

Isso a autora falou? Ela falou isso, essa divisão. Entre o medo de ser objeto de riso e o medo de ser morta. É muito desproporcional, vai? É um medo que as mulheres têm na história. Aí, a outra coisa. Essas mulheres, enfim, a mulher que inventou...

O conto de Aya. É, o conto da Aya. Margaret Atwood. Aí, a mulher que, pela primeira vez na história, levantou a questão do feminicídio, que é uma ativista que já faleceu, lá dos anos 70, ela escreveu isso. Eu botei no meu livro.

A mesma sociedade que odeia as mulheres é uma sociedade que cultua, que ama os homens. Por quê? Os homens são preferidos. A Simone de Beauvoir já falava isso. Os homens são essenciais. Eles são preferidos, eles são...

Eles são posicionados num lugar de privilégio e as mulheres, nessa sociedade patriarcal, elas só estão ali para servir a esses homens. Então, claro... No caso do conto da... é para procriar. É, no caso do conto da... exatamente. Ali é para procriar. É para isso. O nome dela, inclusive, ela não tem nome. É do cara, né?

É, então, porque ela é, exatamente, mas pensa, cara, isso é, a Margaret Atwood botou, criou essa distopia. Ofa, alguma coisa, né? Mas falando, justamente que, falando dessa distopia, copiando a realidade, porque você lembra daquela época que as mulheres usavam o sobrenome dos maridos, a mulher prótese do marido?

Ela não tinha direito de ter nenhum nome próprio, de contar a própria história, não tinha direito a educação. Aliás, uma coisa que as pessoas não sabem, quem tem medo do feminismo, sabe qual foi a primeira reivindicação das mulheres na história do feminismo? Sempre, sempre, sempre. O direito de se alfabetizarem.

O direito de se educarem. O direito de ter um pinguinho de direito para ser pelo menos uma pessoa que pudesse ter o mínimo acesso à sociedade dos homens. Elas nem estavam querendo nada de mais. Um pouquinho de respeito. Então, para dar documento mesmo, bota ali século XIV.

que a gente tem documentos de mulheres numa reivindicação pelo direito à educação. Nem as mais ricas tinham acesso... Então, elas tinham, justamente, essas mais ricas, ou que tinham, às vezes, um pai que permitia ou que gostava delas e ajudava elas a estudarem alguma coisa, ou ensinava a ler e escrever e ter um convívio com os livros.

essas mulheres é que deixaram essa notícia. Elas é que começaram a discutir. Olha, não sei por que os homens nos tratam tão mal. Não sei por que os homens falam tão mal da gente. A misoginia é um assunto que perpassa a nossa história ocidental, gente. E oriental, infelizmente, também. E das três grandes religiões. Também tem isso. Então, essas religiões monoteístas, elas usam isso como matéria para ascender no poder.

Entendi. Terrível. O Romer, tem uma pergunta em cima do que a gente falou antes de a gente continuar no assunto aqui? Temos sim. Mande. Como que está o chat aí? Está tranquilo ou está uma briga entre eles? Mais ou menos. Eu estou vendo que estão brigando entre eles aqui, né? Sempre estão brigando entre eles, né? Tem uma pergunta aqui do Mendes. Ele está perguntando aqui, ó. O Glauber Braga, ele chegou a ser punido por agredir a mulher dentro do Congresso?

A mulher? Que mulher? Não, não. Nada a ver, não. A pessoa não entendeu nada. Acho que ele agregou uma mulher dentro do público. Não, não foi uma mulher. Não, gente. Essa pessoa está... Assim, é que tem gente que fica nas fake news do grupo de zap e não tem a menor noção. Vou recapitular. O Glauber Braga, que é deputado federal, também do PSOL e também é meu marido, pai do meu filho, Hugo.

Ele está suspenso por seis meses, ele retorna para a Câmara no dia 12 de junho. Porque, bom, o discurso oficial do motivo da punição é porque ele expulsou um provocador, e é provocador, que era do MBL e hoje está no PL, Gabriel Custenaro.

que é um cara do Rio de Janeiro, enfim, foi atrás dele por oito vezes, e uma dessas vezes foi dentro da Câmara e foi fazer uma provocação sobre a minha sogra, Saudade Braga, que inclusive veio a falecer 15 dias depois desse ocorrido. E, bem, ali tirou ele da Câmara e virou um grande processo de perseguição. E por que perseguição?

porque o Glauber foi um dos principais nomes a denunciarem o Arthur Lira, ex-presidente da Câmara, e um grande esquema chamado Orçamento Secreto, que identificou um grande volume de emendas sendo desviadas e mal utilizadas. Então, pegaram esse aspecto para criar isso como justificativa para poder dar um...

Uma lição em quem questiona também ali a ordem. Uma lição a ele, uma lição ao pessoal. E por que como um pretexto? Ah, tem que dizer que está certo bater nas pessoas? Não, porque eu posso listar aqui dezenas de parlamentares que já agrediram outros parlamentares e absolutamente nada aconteceu com nenhum deles. Porque nenhum deles denunciou o orçamento secreto. O cara que apalpou uma mulher, não teve aqui em São Paulo? E ele não foi. Ele segue ali.

Aliás, ele não foi reeleito, é o que me consta, mas ele foi punido depois na justiça comum. Ele precisou pagar uma grande indenização para ela. Mas a Assembleia de Compadres achou que era razoável apalpar uma mulher em pleno plenário, a ex-deputada Isa Pena. E se faz isso no plenário, imagina...

Mas esse cara diria estar repercutindo alguma fake news de grupo pra ter feito essa distorção. É a broderagem. Eu não entendi da diferença. A broderagem que a gente vê, que é esse caso aí que você tá falando, Samy, é uma broderagem desses caras, que é a mesma coisa que a gente viu, sei lá, um mês atrás, dois, a história da menina que foi...

casada com o cara do Tribunal de Minas. E aqueles juízes, que eram eles mesmos, uns abusadores que veio à tona depois da história deles, na verdade, eles estavam legislando e julgando. Eles estavam julgando em causa própria. Eles estavam se defendendo. Então, é disso. Os caras legislam em causa própria, julgam em causa própria. Não querem abrir precedente, né? Os homens estão sempre se defendendo. Aliás, esse caso de Minas, mas eu fiquei pensando aqui, também é um bom exemplo.

Contra esses caras que acham que uma possível aprovação do PL da misoginia vai ser um grande caça aos bruxos, né? Como se houvesse ali... Vamos pegar esses espantagens. Por que a galera está falando? Ah, agora não vou poder falar nada que eu vou ser preso. O que está pegando? Mas você sabe que eu acho que... Vocês estão vendo o discurso da galera. Totalmente. Pega o argumento deles e então explica. Mas vê os argumentos que estão dando.

Eu acho, primeiro, que eles partem de uma premissa equivocada. Como se nós tivéssemos um judiciário que vai aplicar essa lei para se punir de forma generalizada aos homens. O que acontece, na maioria das vezes, é o contrário. Eu acho que essa decisão do Tribunal de Justiça de Minas, que depois foi revertida porque houve uma rebelião na sociedade brasileira, porque aquilo era um escândalo, era uma menina de 12 anos estuprada, e aí todo mundo caiu em cima e mudou e se descobriu que um dos desembargadores, inclusive, também...

Era um estuprador. Mas essa é uma tendência do judiciário brasileiro, não só do judiciário, do legislativo, do poder político e jurídico brasileiro. Não é de dar uma punição ou responsabilização aos machistas, e, nesse caso, aos misóginos.

geralmente é de descredibilizar a palavra da vítima ou enchê-la de questionamentos ou um processo tão vexatório que ela é revitimizada. Vou citar, por exemplo, o caso da Mari Ferrer, que inclusive se tornou... Só falando aqui que a lei está falando que o Glauber vai voltar com tudo, um político de qualidade.

Ah, muito obrigada. Ele volta no dia 12 de junho, no dia dos namorados, inclusive, para reatar a relação dele com o Congresso Nacional, que andava um pouquinho abalado ultimamente. Mas, eu estava dizendo, enfim, essa é a tendência do judiciário brasileiro.

E legislar contra as mulheres e não de protegê-las. Então essa premissa é equivocada. Mas tem uma segunda, sempre entra esse espantário da liberdade de expressão quando a gente está falando de setores marginalizados, subalternizados, que estão reivindicando direitos.

Hoje... Pode ter algum tipo de confusão e gente que não tem nada a ver? Eu faço um paralelo, inclusive, com a própria lei do racismo, que é a que está sendo equiparada à lei da misoginia a partir da proposta que saiu do Senado. Hoje, que a lei do racismo já é consolidada, que pode ter um ou outro que a questione, mas ela, no mínimo, constrange uma sociedade que é racista.

Acho que ninguém mais discute se ela é certo ou errado. É, e se discute é com bastante constrangimento e tenta ali nos seus grupos, né? Enfim, clandestinos, racistas e tal. Mas sabem que isso é um fato, né? Isso é um fato e é que é reproduzido socialmente que precisa ser combatido e que precisa ser punido.

Talvez tenha demorado ali um tempo para que a sociedade brasileira compreendesse que é um crime e que precisava de uma responsabilização. Basicamente no estádio, acontecia direto e não era nada. Hoje em dia não é mais aceito.

Talvez a gente esteja nesse estágio no que diz respeito à misoginia, ou seja, estamos ainda se familiarizando com o conceito. Mas tem uma questão. E pode ser que, bom, gera um estranhamento, porque afinal de contas, que raio de misoginia é isso? É muito novo, né? Vai ser utilizado um fator subjetivo. Tem uns cursos falando que racismo é pior, como vocês estão... Mas, gente, vem cá. Aí tem uma questão super séria que é...

Claro, a novidade, concordo, tem a novidade. Pensando nos que estão bem intencionados. E por que que é novidade? Não considerando que tá todo mundo comendo de ser preso. Mas por que que é novidade? Quem quer uma intenção não adianta. Por que que é novidade? Porque veio pra consciência, tem uma palavra que já é velha, mas a coisa veio pra consciência e deixou de ser naturalizada.

Então, antes... Isso sim. Imagina, você vai lá pra... Botei tudo isso aí no meu livro. Você vai pra o direito penal do século XIX, o cara podia matar a mulher dele e pronto, entendeu? Matava e pronto. Assim, bastava ele dizer que ela me traiu. Pronto, e acabou. Então, as coisas mudaram. A gente evoluiu. As mulheres entraram na história. Antes, elas eram tratadas como animais e como escravos. É assim que era. Bom, mas então, essas mulheres... Mas a lei da Diniz foi de quando?

É 1970 e poucos, né? Foi ontem. Então, mas é 2023, como a gente colocou também, que não se pode mais alegar isso da legítima defesa da honra. Mas aí tem uma coisa. Uma coisa que as pessoas esquecem é que, se a gente tem uma lei do racismo, que é uma lei contra um preconceito, ninguém merece ser julgado ou muito menos violentado pela cor da sua pele.

Então, a lei contra o racismo, depois gerou também a lei contra a LGBTfobia. Então, você pensa assim, pessoas marcadas pelo preconceito de raça, marcadas pelo preconceito sexual, de gênero, de transgêneros, podem se defender, a lesbofobia, você pode se defender se você é uma mulher lésbica, mas se você é uma mulher cis, você é tratada como se você fosse uma subcidadã.

Você não é equiparável. Tipo, se alguém te xingar, se você for uma mulher preta, você pode se defender do racismo contra você. Mas não pelo fato de você ser uma mulher que está sofrendo misoginia. Você está sofrendo um ódio por você ser mulher. E aí vem um detalhe que é pra gente não menosprezar. Que as mulheres, quando elas não têm outras sobrecargas de preconceito no seu corpo, seja a questão trans, seja a questão lésbica, seja a questão...

de raça, seja a questão capacitista, que é em relação às mulheres com deficiência, uma mulher fica totalmente fora da lei. Ela está a descoberto da lei. Ela está abandonada pela lei se ela é só uma mulher cis. E aí, é isso, é uma Ângela Diniz que pode morrer, porque, infelizmente, todas as mulheres são mortas por serem mulheres, sejam pretas, sejam brancas, sejam ricas, sejam pobres. Claro que os recortes diversos...

fazem as mulheres negras serem as mais feminicizadas do Brasil. Mas as outras também estão ali sofrendo o feminicídio e sofrendo a misoginia. Então, eu acho que equiparar a cidadania das pessoas e não deixar as mulheres numa posição de sub-cidadãs...

Eu acho que é uma coisa importante nesse processo também de criminalizar a misoginia, para que a gente possa ser igual aos outros, sabe? Porque agora a gente está debaixo, a gente não tem lei para nós. E por que isso acontece? Por que não se fez essa criminalização até agora? Porque justamente a misoginia era tratada como uma coisa natural, um direito dos homens. E aí vem o aspecto da opinião, que eu acho tão interessante de discutir também, pelo seguinte.

O cara chega e diz, ah, é minha opinião. Ah, é liberdade de expressão. Tá, amor, é verdade. O racismo também era antes de ser crime. Então, não é porque a sua opinião e a sua liberdade de expressão, você tem, digamos, se não for crime, você tem a liberdade de matar uma pessoa. Mas é crime, então você não tem mais essa liberdade. Quando a gente passa a condição de crime, quando a gente legisla e cria uma lei para que uma determinada violência não aconteça mais, aí ela deixa de ser...

uma opinião naturalizada, que as pessoas falam e que tá tudo certo, e passa a ser crime. Então, essa passagem que eu acho que as pessoas também, muitas vezes, não estão entendendo o básico jogo da sociedade. Você não pode me espancar, você não pode me xingar, você não pode me injuriar, você não pode me roubar, você não pode me fazer nada que eu considere que fere um direito meu. Só que aí você tem que criar o direito. Porque não é natural.

Tanto não é natural, que no direito natural, histórico, as mulheres eram mortas pelos maridos e a legítima defesa da honra matei essa aí porque ela me traiu, mesmo que não tivesse traído. Aliás, a gente viu o caso do cara lá em Goiás, né? Foi uma história das mais horrendas, aquilo que aliás tornou uma lei, inclusive, da violência vicária, que era uma tipificação que não existia.

Violência vicária é quando você mata um ente, alguém querido da mulher para prejudicá-la, para feri-la. Que esse caso foi um bárbaro, cruelíssimo. E, aliás... O cara que matou os próprios filhos e se matou em seguida para ferir a mulher. Isso também é um detalhe. E aí, no último...

a gente conquistou essa lei no Congresso. Mas olha que coisa, teve parlamentar que obstruiu esse projeto. O que é obstruir? É dificultar, botou uma série de requerimentos e questionamentos. Uma sessão que eu achei, honestamente, que fosse durar 10 minutos, sabe aquele projeto que se aprova por aclamação simbólica? A gente passou quatro horas em obstrução. Justamente porque negavam esse conceito que é o óbvio pra gente aqui que está discutindo.

Que é pra ferir a mulher, que é pra amedrontá-la, que é pra feri-la de morte. Pois é, então. Mas aquele Congresso Nacional do qual você faz parte, eu sempre falo pra Samia que eu admiro muito ela, porque ela se enfrenta com os caras que são muito burros.

Então, a gente que usa a burrice como método para avançar no poder, aquela burrice que é violenta, que violenta a nossa inteligência, é realmente uma coisa muito difícil de aguentar. E que é um ativo político e eleitoral, porque você falava da desnaturalização, da misoginia, por isso esse estranhamento, essa reação, mas há aqueles que são muito conscientes do que é a misoginia.

E sabem de que lado eles estão nessa discussão. E é por isso que não querem que o projeto vá adiante. Eu costumo dizer que há uma bancada Redpill na Câmara. Que é justamente essa. Já tem. Que não se organiza como tal. Não vai reivindicar. Tipo, sou da bancada evangélica, sou da bancada... A do estupro. Sabor Redpill. A do estupro.

Mas é uma bancada redífica, aquela que se organiza para obstruir, defende tudo o que é, mas não se assume. Para questionar, para dificultar, que é essa que está dizendo. Acho que o projeto é um pouco vago, que não conceitua direito, que pode ser usado por essas...

falsas acusadoras, que vai tentar nos cercear a opinião, a nossa expressão. Então, claro, há os bem-intencionados, que ainda estão se acostumando a um processo de desnaturalização, mas hoje o machismo é também um ativo político e eleitoral. Acho, tenho certeza, que há homens que são eleitos e se candidatam com uma plataforma machista. Ah, com certeza. Me lembro no último processo eleitoral para vereador, o agressor da Ana Hickman não.

foi candidato a vereador, que obviamente não se elegeu, e dizia na televisão assim, pelos direitos dos homens que são, sei lá, injustiçados, que bobagem, ele dizia, vote em mim. Há um deputado que tem uma história bizarríssima de uma namorada dele também que...

supostamente, a versão oficial que ele apresenta é de que ela teria se matado, mas de que há uma série de contra-argumentos, inclusive da família dela, alegando que não, que, na verdade, ele matou ela. E há muitos homens o defendendo nas redes pelo direito de reagir contra a mulher. Então, também se tornou um ativo eleitoral.

econômico nas redes, aqueles que ganham grana a partir de serem os head peels líderes e másculos, mas há também os que se elegem para isso. Isso aí é o que o Foucault, o filósofo francês, dizia que era o grotesco, o infame e o ridículo e o discurso desqualificado que geram efeitos de poder.

Então, é assim que o negócio funciona. Quanto mais tosco, quanto mais agressivo, quanto mais feio, quanto mais estúpido, quanto mais zero projeto apresentado e zero projeto aprovado, quanto mais cena. A gente pode citar vários, né? E aí, uma coisa que eu queria falar também, que eu acho que ajuda a gente a entender, é que, assim, não...

A misoginia só atrapalha, a lei anti-misoginia só atrapalha os misóginos. Porque um homem que saiba se portar, que saiba se comportar na vida real, no parlamento, seja onde for, esse cara não corre o menor risco. Você pega, sei lá, gente, pega um Haddad da vida para dar um bom exemplo de um sujeito que é um lorde.

Eu duvido que alguém, algum dia na vida, consiga atacar o Haddad dizendo que ele é um misógino. Ele é um lorde, para dar um exemplo, de um cara que não está aqui, mas que vai ser candidato. Então tem muitos homens, muitos, você, duvido que você vai ser misógino. Sei lá, os colegas aqui...

Assim, eu conheço uma penca de homens não misóginos, você também, você é casada com um. Quer dizer, quantos caras que são capazes de admirar as mulheres, fazer parcerias com as mulheres, serem decentes com as mulheres, como eles são com os homens, sabe? Então, um cara que tem medo disso é porque ele não tá se segurando. E aí eu vou querer lançar também aqui a discussão sobre a fragilidade da masculinidade. Esses caras estão muito frágeis.

inclusive na política. O cara tem medo de aprovar uma lei anti-misoginia no Congresso, mas que fraqueza, meu! Mas que fragilidade, que sensibilidade, que sentimentalismo é esse, que mimimi é esse, meu! Cara, se banca, se banca como um homem inteiro.

e aí que é isso, que a gente está com falta lá naquele congresso. Eu criei junto com outras pessoas um instituto que chama um outro congresso, é possível, porque a gente vai mudar esse congresso. A Sâmia vai continuar lá, o Glauber vai continuar lá, e vários deputados e deputadas bem legais, mas assim, essa corja da bancada Redpill e do estupro, essa gente vai voltar para o esgoto histórico de onde saíram.

O Romer pergunta. Vamos lá. Tem uma pergunta aqui do Vinícius Silva. Ele mandou o seguinte. Existe alguma PL para punição mais severa se uma mulher acusar um homem falsamente? A mulher pode ser... Se a mulher colocar um homem na cadeia apenas com a sua palavra ou uma responsabilidade muito grande, não deveria haver uma punição maior caso haja uma acusação falsa?

A Samia tem que responder isso, mas eu queria dar um exemplo. Eu conheço uma mulher que está presa, que ela foi acusada de várias coisas, mas um homem que foi acusado também não foi preso. Está livre, total livre. Não aconteceu nada com ele. Então, só para dizer, gente, qualquer pessoa pode acusar a outra.

E eu não entendo por que os homens têm tanto medo das acusações das mulheres. A prova de que a violência contra as mulheres cresce está nas estatísticas, nos mapas da violência feitos pelos institutos de pesquisa. Então, a violência contra as mulheres cresce, o resto da violência continua mais ou menos igual, e aí os homens estão tão preocupados com alguma violência possível que uma mulher possa fazer acusando o cara de alguma coisa falsa.

Tem tanta acusação verdadeira que nem vai precisar fazer uma acusação falsa, eu acho.

Eu estava até aqui vendo, meu celular está muito ruim, mas que saiu um dado esses dias, se eu não me engano, mais de 80% dos crimes sexuais. Agora me falha a memória do dado exato. Os crimes sexuais não têm nenhum tipo de punição para os agressores, para os estupradores ou violadores em geral, seja de mulheres ou de meninas. Então o maior problema na sociedade brasileira é a não punição ou dificuldade de denúncia, de encaminhamento ou de provar que a mulher passou por aquela situação.

O oposto, não sei se tem algum dado, algum levantamento. Se tiver, até peço para o Vinícius compartilhar conosco. Mas o oposto não me parece que, de fato, é um problema na sociedade brasileira. A gente até brincava antes, né? Os caras sempre usam o exemplo da fulana do Neymar para criar uma tese de que as mulheres são umas desonestas que saem...

acusando os homens por aí de terem praticado crimes que eles não cometeram. Eu desconheço se há algum projeto que busca ampliar a pena dessas mulheres. Eu sei que, caso haja uma falsa acusação de crime, já há uma legislação prevista para dar um encaminhamento para esse tipo de...

de caso, e as pessoas têm o direito de, enfim, denunciar, reclamar desse tipo de coisa. Agora, achar que esse é o problema, não sei se é o caso do Vinicius ou não, mas achar que esse é o centro da sociedade é uma descompreensão completa do problema jurídico e político em torno da violência contra a mulher.

E também porque as pessoas costumam raciocinar sem levar em consideração o coletivo, o social, aquilo que pode ser aplicado para todos. Então, se houver alguma mulher ou homem que mintam, que criem um caso, que produzam injustiça, isso sempre vai haver. E, claro, que essas pessoas vão ser denunciadas e punidas conforme...

conforme as possibilidades, sejam homens, sejam mulheres, sejam o que forem. Claro que injustiças podem acontecer. As mulheres são muito vítimas de injustiças. E é disso que a gente está falando. Estamos precisando de uma lei que nos ajude, que ajude as mulheres que são...

maltratadas, violentadas de diversas maneiras simbólicas e físicas por serem mulheres, que elas possam se defender minimamente. E quem sabe essa lei também possa coibir, avisar para as pessoas que aquela pessoa lá tem o direito de existir, que aquela pessoa lá tem o direito de ser mulher, que ser mulher não é menos do que ser homem.

Que ser uma mulher trans não é menos, nem melhor, nem pior que ser uma mulher cis, e por aí vai. Que uma mulher preta não é menor, nem melhor, nem pior do que uma mulher branca, e assim por diante. Que a gente possa trabalhar com a noção de igualdade de todos perante a lei, que é um direito básico, universal, um direito humano universal, básico, e que instaura, institui, segura, sustenta uma sociedade democrática.

E tem também sempre a discussão sobre... Então, por que vocês são contra do aumento de pena contra estupradores? Eu já deve ter escutado isso.

Ah, eu não sou contra, não. Você sabe, é bom você me fazer essa pergunta, porque esses dias estavam rolando alguns questionamentos nas minhas redes. Um monte de gente tá falando aqui. Esse dia eu tava na Câmara e eu fui abordada por uma moça, uma moça jovem, uma dessas que são ou contratadas por alguém ou que tem algum canal, alguma coisa, pra ficar abordando pessoas de pegada e de surpresa. E ela me falou, Samia, por que o PT e o pessoal votaram contra o aumento de pena pra estupradores?

E eu tinha acabado de sair de uma comissão e eu falei, moça, desculpa, mas de qual projeto de lei você tá falando? Porque a gente vota tanta coisa todo dia que eu não tô sabendo exatamente qual projeto que é. Aí ela não soube me dizer, eu falei, não, pode procurar aí, vê qual que é e me pergunta, que se eu não souber te responder, eu vou pesquisar, vou atrás pra te dar uma resposta, porque agora sim não me lembro. Eu fui pesquisar qual projeto era e até agora eu não encontrei qual é esse projeto. É, deu de verdade.

O que teve foi um projeto que propunha aumento de penas para o crime de feminicídio, no qual eu votei a favor, hoje é a pena máxima, 40 anos. E o pessoal? Teve um projeto, todo mundo, foi provado de forma simbólica, quando não tem ali contradições. E teve um outro, esse eu votei contra, não sei se é desse que eles estão falando, que propunha castração química para estupradores. Ah, deve ser isso. Esse eu votei contra, e explico por quê.

Porque a gente pode ter vontades e desejos, mas quando alguém é inconstitucional, se você...

A prova não vai valer de nada, porque ele vai ser, obviamente, derrubado posteriormente, porque ele é contra o que diz a Constituição brasileira. E você propor a castração química para o estuprador, primeiro, que é inconstitucional, não para em pé, é algo que serve para, digamos assim, jogar para a plateia, para quem tem uma ânsia punitiva, está bem, dá ali algum sentimento, mas não para em pé. É como pedir cadeira elétrica.

Por exemplo, a Constituição, pena de prisão perpétua, por exemplo. Pena de morte, não permite. Mas tem um segundo aspecto, porque dá uma falsa sensação de que o problema do estupro é um problema de desejo. O cara, ele tem tesão demais, ele tem desejo demais. Porque tem gente que ainda acha que é isso. Ele não controla os próprios instintos. E por isso que ele violenta uma mulher ou uma criança, que, aliás, 70% das vítimas de violência sexual no Brasil tem menos de 18 anos.

Não é disso que se trata, é de poder, é de demonstração de força e de violência. Então, a castração química não resolveria absolutamente nada. Então, além de ser algo que não para em pé do ponto de vista legal, constitucional, não atinge o problema, não diz respeito ao que de fato é o estupro e a violência sexual. Mas, se alguém souber qual projeto de lei é e quiser me perguntar, eu estou super à disposição para responder, porque de fato eu fui atrás. Deve ser essa, então.

Fala, Romer. Vamos lá. Tem aqui a pergunta. Ô, Romer, aumentando aí sua calvície, hein, cara? Você viu, cara? Realmente, desde que você começou aqui... Pois é. Vamos fazer um... Fiz um transplante aqui. Fazer um negocinho aqui, né? Manda aí, manda aí. Ó, a Suada 88, ela mandou aqui. Suada 88.

vocês acabaram de falar, então vocês acabaram de responder, então só vou contextualizar porque muitas mulheres votaram contra o aumento e endurecimento da pena em casos de estupro feminino. É, ela falou que foi sobre castração, não era aumento de pena, né? Eu não sei que tenha algum outro projeto que eu sinceramente não identifiquei, porque eu fui atrás porque eu fui muito

abordadas sobre isso. Eu vi muita gente falando sobre isso. Ah, vocês reclamam, mas... De qual pele as pessoas estão falando. É isso que eu estou dizendo. Pesquisei e não sei qual é. Me digam. Porque senão me parece fake news, assim. E óbvio que, assim, tem toda uma discussão. Talvez essa pessoa tenha também ouvido falar disso. Uma discussão sobre o punitivismo.

que as feministas são muito antipunitivistas, por exemplo. Mas, sim, antipunitivistas. É uma pecha que jogaram para cima da esquerda, inclusive, porque, no fundo, a gente sabe que o sistema penitenciário pune, na verdade, as pessoas pobres e pretas, quem está preso.

está preso por condições sociais e econômicas e porque não pode pagar um bom advogado não vai poder fazer delação premiada que nem o vorkaro o vorkaro que aliás eu me matei de rir com um meme que era o vorkaro com aquele cabelo aquela coisa toda e demonização facial e aí depois era ele do lado com a cabeça raspada o negócio todo assim aí apareceu o pobre é muito engraçado era o vorkaro pobre

O cara gastando 200 milhões na, sei lá, Onibisa e o barato. Exatamente. Comendo uma coxinha. Exatamente, ali na, sei lá, no centrão de São Paulo. Aí, então, tem essa coisa desse lugar, desse indivíduo, né, que...

comete o crime, claro, tem que ser preso, tem que ser punido, mas ele vai ser julgado conforme o dinheiro que ele tem. Ele vai poder se defender, contratar advogados, ou não, ele vai ser abandonado lá na prisão. As mulheres, aliás, prisão de mulher é um lugar que ninguém vai visitar. Tem mulheres assim que morrem na prisão porque ninguém se lembra delas, porque muitas vezes são elas que são... Tem fila quilométrica, né, de visita, de levar comida, mas não...

Então tem tudo isso, tem esse aí mesmo. Aí tem todo esse cuidado, eu acho, do campo feminista de realmente prestar muita atenção em como funciona esse sistema prisional. Agora, em relação a isso, eu mesma, várias vezes que eu vou falar sobre isso, eu digo, ó, gente, sinto muito...

Mas vai parecer que eu estou sendo punitivista, mas eu rebato dizendo que o patriarcado é um sistema de punição das mulheres. Inclusive, não é só punição, é culpabilização prévia. Quando a gente falava de cultura do estupro, sempre era aquela história, as pessoas perguntando assim, ah, mas o que ela estava fazendo, com que roupa ela estava?

E o feminicídio é a mesma coisa. O que ela fez? A culpa era dela. Então, as mulheres são previamente culpabilizadas. E aí, eu digo, esse sistema é culpabilizador, ele é vitimizador e ele é punitivista. Ele já pune a mulher. Culpa, julga e pune.

E torna ela uma vítima e revitimiza. Ela não vai mais poder se livrar da condição de vítima dela. No meu mundo feminista, eu fico dizendo, gente, não é porque os homens fizeram violências contra as mulheres, contra nós, e todo mundo já passou por alguma, que você vai ficar naquela posição da vítima, porque isso dá compensação emocional para o cara que te vitimizou.

O cara fica muito feliz. Esse tenente coronel aí que foi preso, que recebeu o abracinho, eu tenho certeza que esse cara ficou muito satisfeito quando ele matou uma mulher. Ele tá se achando um herói. É disso que a gente tá falando. Então, eu sou totalmente a favor de um acirramento, de uma intensificação. Eu alteraria a Constituição pra deixar esses caras em prisão perpétua. Eu acho que isso é uma coisa que faria... Assim, isso realmente liberaria a gente desse medo.

que as mulheres estão no ônibus, na rua, que elas estão dentro de casa, no Uber. Eu botei no meu livro isso, né? Tem um capítulo sobre a ameaçabilidade. Você está sempre ameaçada. Então, os homens não conhecem isso, cara. Você pode até estar na rua com medo que peguem o seu celular, que roubem você sua carteira, sofrer um assalto e tal.

Mas as mulheres têm medo da violência dos homens. Você tem medo. Uma mulher, quando chega, você pega um Uber e chega uma mulher, você é, ufa! Amiga, que bom! A gente anda na rua, quando você anda na rua caminhando. Eu vi uma cena esses dias, que eu não sei se dá tempo de eu contar, que foi muito interessante. Eu tava saindo...

do lugar lá que eu faço a minha ginástica. E aí eu vi um homem na rua, um sujeito numa situação muito triste, e já era final de tarde, escurecendo o dia. E aí, ali em Santa Cecília, perto de uma escola, e aí vinha de lá, na minha contradireção, uma garota de uns 15 anos. Eu vi que aquele homem estava numa situação muito ruim, que ele estava perigoso. Estava forte, sim.

É, eu vi aquilo, passou vários homens por ele, aí eu freiei, assim, porque eu vi que podia, sei lá, ser uma ameaça, e de repente ele atravessou a rua e a menina que vinha do lado de lá, ele atacou essa menina. Ele não atacou nenhum homem que passou por ele.

E aí, passaram os carros e a garota, a gente assistindo, né? Eu e outras pessoas assistimos aquilo. A garota conseguiu se desvencilhar dele. Era uma estudante com uniforme de colégio. E aí eu pensei, tá vendo? O cara não tem nada. Ele é o descapitalizado total. Não tem.

É um homem que não tem casa, que não tem dinheiro, que não tem carro, que não tem roupa, que não tem nada. Ele tá ali numa situação abandonado pelo sistema capitalista, sabe lá? Mas a única coisa que ele tinha ainda era uma certa noção de masculinidade violenta, tóxica, que autorizava ele a se jogar em cima de uma menina de, sei lá, que devia ter 15, 16 anos. E aí é disso que a gente tá falando também. O patriarcado é um sistema que empodera o homem no lugar.

o cara mais perrapado, o cara na pior situação social, o cara na pior no pior lugar da pirâmide econômica e social, ele acha que ele ainda tem um poder. Só que no Brasil não, eu tava em Las Vegas, começo do ano que eu fui pra lá.

Eu tava andando naquela avenida principal, mas bem escuro, num canto assim, tinha duas ou três meninas. Esses caras meio loucos de rua assim mesmo, você não sabe se o cara mora na rua ou se ele só tá muito louco. Começou a chegar perto delas e eu fui perto delas e o cara se afastou e elas agradeceram pra mim, assim. Por que o cara se afastou? Porque eu cheguei perto delas. Só por causa disso. Agora, e se eu não chegasse? Entendeu? É uma coisa que não dá pra entender.

Então, é exatamente isso. Porque você fez uma blindagem por ser homem. Porque ele não ia te enfrentar. Ele disputa... Usaria mais trabalho. Ele olha... Porque esse cara, esse cara, assim, nessa situação bárbara, né? A situação vil. Ele olha pra mulher como se ela fosse um território. É a história da lógica do colonizador. Tem gravuras do passado, assim, que mostrava aquele Cristóvão Colombo chegando nas Américas.

o território, e uma mulher indígena deitada, e ele de pé com o cetro, e ela deitada, e era tipo a tomada do território. E o corpo feminino é considerado, pelos machistas históricos e de plantão, é como se ele fosse um território que o cara pode ocupar. O drama dessa sociedade, ou a tragédia dessa sociedade, é que os homens consideram que...

Os homens e o Estado e toda essa frente machista consideram que o corpo deles pertence a eles, mas o corpo da mulher não pertence a ela. E é por isso também que não se legaliza o aborto de uma maneira como nos países europeus, que já houve tanta luta, as mulheres... Dizem que se o homem desse à luz, ia ter...

Clínica de aborto em tudo quanto é esquina, né? Pois é. Então é disso que se trata. Os caras legislam em benefício próprio, objetificam os corpos das outras, tratam esses corpos como se eles fossem sub-cidadãos, como se eles não tivessem direito a nada, não deixam uma mulher ser dona do seu próprio corpo. O cara que mata a mulher acha que ela pertence a ele. Mas, meu filho, de onde você tirou essa ideia?

É uma pergunta a ser feita. Onde é que você estava com a cabeça quando você achou que essa moça pertencia a você? E outra, onde você estava com a cabeça quando você não aprendeu a se frustrar, bebê? Tem que se frustrar na vida. É muito bom você aprender a se frustrar. Você aprende a...

a fazer lutos, a perder os entes queridos, a perder emprego, e depois conseguir outro, outro amor, que é tão bom, outro emprego, que também é tão bom, e assim você vai construindo a sua vida, e se tornando dono de você mesmo, porque eu acho que esses homens aí, essa fragilidade masculina, psíquica...

tem a ver, e ética, obviamente, tem a ver, sim, com esses caras que se sentem muito pobres interiormente, sabe? Tem uma vida interior muito pobre, é muito triste. Acho que os caras precisam se ajudar, sabe? E não é a religião que vai ajudar. Eu acho que é o livro. Eu acho que é a educação.

Por que ninfa morta? Por que a ninfa, a figura da ninfa? É, então, porque eu peguei uma imagem, eu percebi que na história da arte, na história da literatura, na história da filosofia, tinha uma fetichização das mulheres mortas. E aí eu vou contando assim como esse amor às mulheres mortas. Por exemplo, você pega... Vou dar um exemplo bem concreto aqui. Eu analisei algumas personagens, mas o texto que me pegou foi um texto de um cara que as pessoas podem ler, que é o Edgar Allan Poe.

Edgar Allan Poe, super interessante. Esse cara escreveu... No ensino médio, né, gente? Então, cai no vestibular, cai no Enem. Aí, esse cara, ele escreveu um livro, um pequeno texto, chamado Filosofia da Composição, que ele diz, como que a gente faz pra ter sucesso...

Na poesia, no conto, a gente bota lá uma bela mulher morta. Ele diz assim, não tem motivo mais poético no mundo do que uma bela mulher morta, jovem. Se você botar uma mulher morta no filme, no conto, na novela, seja onde for, na pintura, na literatura, vai ser um sucesso. Porque o olhar masculino, ele gosta de ver aquela mulher morta que é a mulher idealizada, o romantismo no século XIX.

você pega aqueles poetas que ficavam fazendo a poesia para uma capa um cadáver ou para usar uma referência mais comum a Branca de Neve então tem um capítulo sobre a Branca de Neve e quando eu acho que eu fiquei feminista assim quando eu era menina ficava gente que era o contando a história da Branca de Neve eu ficava

Como é que esses caras estão vendo uma mulher dentro de um caixão e achando isso bonito? Eu ficava assim, é uma tara, né? Ou todas as princesas, né? Desses contos que são estupradas na prática, né? Porque ou estão dormindo ou estão mortas. E os caras beijam elas. Depois elas agradecem. E elas se casam com eles imediatamente. Isso aqui é uma pintura do século XIX. Que é o mesmo cara que fez a capa do livro, que é esse Everett.

Milé, que fez uma Ofélia. A Ofélia do Shakespeare. Tem um capítulo aqui também sobre a Ofélia do Shakespeare. Que é assim, uma mulher que é morta e louca. E aí, que maravilha! Aquela cena daquela mulher morta, louca, cheia de florzinha. Gente, ela se suicidou porque ele ficou xingando ela e ela não tinha mais lugar. Porque naquela época...

Não é que nem agora, né? Naquela época, 1500, 1600, 1800, 900. As mulheres se sentiam, assim, feridas por isso. E, claro, sempre tem as mulheres que vão ficar ofendidas, maltratadas, porque, dependendo do contexto, você não tem como se defender. Mas você é xingada e eu também. De adorinha, você coloca.

Tem um capítulo sobre o Diadorim, porque aí eu pego uns modelos e vou mostrando. A Diadorim, por exemplo, ela parece morta, pra quem lê o Grande Sertão Veredas, que também cai no Enem, também cai no vestibular, faz parte da cultura brasileira. É bom conhecer Guimarães Rosa. Uma série muito boa também. Então, tudo isso. Tem filme, tem um monte de coisa.

E aí eu disse, essa mulher, ela só pode aparecer como mulher na hora que ela tá morta. Antes, ela tá sempre disfarçada de um homem pra sobreviver entre aqueles homens. Então, eu fui mostrando isso, porque, claro, minha tarefa é ser uma professora, dar notícia desse tipo de coisa, ficar pesquisando esse tipo de coisa. Mas, assim, isso, se as pessoas olharem, faz parte da vida também. A minha questão era, aliás, essa. Que nexo que tem entre essas narrativas?

E a figura da Joana da Arca, as bruxas que eram queimadas, o que isso você traz? Então, uma grande história de feminicídio, a história das bruxas, né? Era um feminicídio orquestrado na passagem do feudalismo para o capitalismo, na virada da chamada Idade Média para a Idade Moderna. E existe a chamada Caça às Bruxas, é na verdade um projeto de matança de mulheres indesejáveis. Que eram quem?

Desde a mulher que tem terras, que os parentes dela querem ficar com as terras. Desde o cara que quer matar uma esposa. Bastava acusar de bruxaria. Uma irmã que vai ser herdeira, uma sobrinha, uma filha. Uma mulher louca, uma mulher que tá com... Mulher louca, entre aspas, né? Uma mulher que tem lá... Um distúrbio. Um distúrbio qualquer. Uma espécie de uma curandeira, né? Uma bruxa de ervas que dava ali um tratamento, um cuidado. As mulheres livres. As mulheres sub-trabalhadoras.

As disruptivas em geral, as mulheres livres As trabalhadoras, as revolucionárias As que cuidavam Da própria vida, as que tinham Alguns, que tinham bens, as que incomodavam As mendigas que estavam na rua Ou que eram pobres, ou sei lá As que se negavam a casar com sabe-se lá quem No filme do Hamlet tem um pouco isso Você assistiu o Hamlet, né? Ela é meio bruxa, ela mexe com ela Ainda não quis assistir porque me disseram que é um pouquinho pesado Não, é punk Você achou pesado? Eu achei Não, é...

Mas dá pra assistir. Dá pra assistir, mas as pessoas não saíam do cinema no final. Elas ficaram impactadas. É um filme incrível. Mas a personagem, eu também achei isso fascinante. Ela ganhou o Oscar. Ela é maravilhosa, aquela mulher. O discurso dela foi espetacular. Todas as mães. E tem a ver com o filme. Foi bárbaro. Fala Romer.

Ah, é do filme, né? Que é a história de Shakespeare, mas pra quem não sabe nada, vai só descobrir no final qual é a relação porque a história dela, né? A história da mulher do Shakespeare que eu nunca tinha visto nada sobre ela e aí foi legal.

que até eu fui ler existe dúvida sobre o nome dela, se é Agnes ou é outro nome, tem dois nomes é citado o nome dela e dois escolheram Agnes e tem outro nome parecido Anny, é a mesma pessoa é que nem

É, então, mas aí nesse filme não aparece a Ofélia, que tá dentro do... A Ofélia que tá dentro da peça do Hamlet. Nesse filme é a história que tá por trás da construção da peça, né? Que aí a gente vê um pouquinho da peça só no final. Mas, enfim, mas é uma personagem que foi muito adorada. Ela foi uma mulher que morreu ali na cena em 1600, mas depois ela vira um motivo na pintura. Então começam a pintar zilhões de Ofélias.

E tem um culto dessa mulher que se suicida louca. E tem a discussão sobre o homem, nas análises, desculpem, sobre o homem que incita essa mulher ao suicídio. Que é, digamos, o primeiro caso de, vamos chamar assim, de gaslighting, né? O cara que fica fazendo essa mulher parecer louca, fica enlouquecendo essa mulher. Eu tinha uma moça que trabalhava comigo uma época, e ela falava, ela se separou do marido dela, era uma moça que trabalhava em casa, né?

E ela separou do marido dela, e ela dizia sempre assim, ele me perturba muito. Ela dizia, ele me disturba. Ele me perturba, ele me disturba. Era um homem que deixava ela louca, até que ela conseguiu se separar dele. E é disso que a gente está falando, dos homens que ficam...

Fazendo as mulheres, isso tem toda uma literatura, ficam fazendo as mulheres se sentirem muito mal na vida delas através de discursos misóginos dentro de casa, gente. E aí tem pais, irmãos, filhos, maridos.

namorados, e eu acho também interessante citar isso, porque a gente fala do nexo que existe entre esse ambiente misógino, de que tem um ódio ali que vai funcionando, rebaixando a mulher, fazendo ela se sentir burra, idiota, inútil, enquanto ela está sendo muito útil, mas vai rebaixando ela para ela se sentir muito mal, até os extremos de violência, as coisas tão conectadas, isso que a gente também precisa lembrar.

Manda Romer. O Jackson Antônio, ele tá mandando aqui porque o funk não é considerado misógino.

É uma discussão, né? Mas tem também. Tem também quem discutir isso. Eu acho que há letras de música no funk, mas o problema é você taxar um gênero musical como se ele fosse misógino. Tem no sertanejo, se você for pegar sambas antigos também. Há muitos elementos de misoginia. Amélia, que era mulher de verdade, ou então música sertaneja. Sei lá, não sou muito sertanejo, mas certamente tem uma série de exemplos. Também não.

No rock também deve ter vários. Acho que o problema é você considerar um gênero musical que geralmente é ligado a pessoas negras e a periferias pra taxar como misógino, como se esse fosse um problema só desse grupo social, né? Acho que a misogínia é transversal à expressão artística, cultural, de diversas vertentes, infelizmente. Mas o que fazer com a arte? Porque é arte, você gosta ou não, e aí tem letras problemáticas. O que faz com isso?

Mas quantas vezes você fazia uma retratação do que é o machismo? O Chico Buarque teve umas músicas acusadas de misoginia. E ele chegou e disse, gente, pois é, naquela época a gente falava assim, hoje não pode mais falar e tá tudo certo, que bom. Nem ele tinha percebido. É, né? Taca.

mete, depois joga fora. Mas acho que agora que o debate é mais público, que houve um avanço de consciência sobre isso, que se conceitua, que se desnaturaliza, a gente precisa rever isso daí. O pessoal está perguntando escala 6x1, não tem a ver com o tema, né? Não sei, vamos ou tem.

De alguma forma tem, sabia? Porque eu acho que são as mulheres... Mulher faz... Posso falar, as mulheres trabalhadoras, as que vivem sob escala 6x1, elas sentem mais essa escala porque elas não chegam em casa e vão descansar. Elas chegam em casa e vão para a beira do tanque, para a beira da pia, para fazer almoço, para cuidar da criança. Então, as mulheres podem trabalhar 10 ou até 20 horas a mais que os homens, a depender da configuração familiar.

E por isso que é uma pauta feminina e também feminista, né? Porque é questionar quem é que é o provedor ou a provedora do lar e quem é que mais trabalha. Então, se a gente falar, o sujeito... Vamos pensar numa mulher trabalhadora de São Paulo que acorda quatro, cinco horas da manhã, pega duas ou duas horas e meia, três horas de transporte público. Perfeitamente. Tem que ter um trabalho possível, que não necessariamente é o que ela gostaria de fazer, mas é o que consegue pagar as contas da família dela.

E aí chega em casa, ela tem que dar conta de tudo. E se ela é mãe solo, né? Ou seja, que hoje, mais da metade dos lares brasileiros, as mulheres são as provedoras. Essa escala desumana e sem proteção social, sem nada, escala de mulher não termina. Escala de mulher é 7 por 7. É 14 por 7. 24 horas por dia. Quando o filho tá doente, acorda de madrugada pra daqui.

Claro, é todo o tempo. As mulheres não param de trabalhar nunca. Então, é bom lembrar que as mulheres são todas trabalhadoras, sempre foram. E uma coisa, aliás, para a discussão do campo da esquerda, que não é o nosso assunto hoje, mas queria colocar isso também aproveitando, é que as feministas, por exemplo, são trabalhadoras. E criou-se no mundo da esquerda uma coisa que eu digo que é a ideologia do esquerdo machismo, que criou um negócio chamado identitarismo imaginário.

Como assim? Que significa assim, por exemplo, a extrema-direita inventou um negócio que é o comunismo imaginário. Nem tem comunismo, não tem comunismo, não existe comunismo. Teria lá um desejo, uma vontade, um projeto, a gente pode discutir comunismo do século XIX, o tópico, conceitos possíveis, mas assim, não tem esse projeto, não existe. Mas tem o imaginário, que aí é combater uma...

um desses, é um espantalho. E aí, a mesma coisa, o identitarismo, que os caras de esquerda adoram dizer que a luta feminista, a luta das mulheres... Da esquerda, os esquerdo... O esquerdo é machismo, que é... Eles criaram isso, eles começaram a dizer que as mulheres vieram pra dividir. Aí eles esqueceram...

do Lênin, que dizia que a luta de classes não é nada sem a luta das mulheres. Por quê? Porque as mulheres são uma classe e as mulheres são todas trabalhadoras. E as feministas, inclusive, são trabalhadoras e as mulheres são trabalhadoras. Então, apagar que as mulheres são trabalhadoras é uma coisa que a naturalização conservadora faz e o esquerdo machismo também faz. E aí o esquerdo machismo e o direito machismo...

se unem e, assim, a gente sabe através de pesquisas que hoje o sentimento mais profundo da esquerda está localizado no feminismo comunitário, das mulheres que são de periferia, que se apoiam entre elas, que estão lá ainda nos...

nos efeitos históricos das comunidades eclesiais de base, mulheres que estão lá lutando umas com as outras pela sobrevivência da sua família e do seu mundo. Então, eu acho legal a gente falar sobre isso também, porque tem uma luta antimisógina, que é uma luta pela sobrevivência. As mulheres que estão combatendo o ódio e estão lutando pela...

pelo seu lugar ao sol, que estão lutando pela consciência, que estão lutando umas pelas outras. Alguns estão lutando pela sobrevivência. São mulheres que estão lutando justamente por o direito básico de existir e o direito de sobreviver junto com seus filhos, junto com seus pais, junto com suas irmãs e seus irmãos, junto com sua comunidade. Isso é inapagável, isso é maravilhoso.

E é óbvio que a gente tem que apoiar essas mulheres, apoiar esses setores da sociedade, porque ali também tem uma bandeira ética, sabe? Que eu acho que essa sociedade do delírio do poder, do machismo, do ódio, não está sabendo olhar com decência, sabe? E ainda sobre a relação desse tema com o tema do feminicídio.

A autonomia financeira é um elemento fundamental para que as mulheres superem uma situação de violência. Porque o feminicídio, a gente costuma dizer que é uma morte evitável. Por que evitável? Porque raramente ele aparece já como um assassinato. Não é do zero ao cem em um dia. Em um dia. Vai escalando. Teve todo um ciclo de violência psicológica, física, material, simbólica.

e ele pode ser interrompido, esse ciclo perverso que chega ao feminicídio. Mas em muitas casas, infelizmente, as mulheres, até por serem expulsas do mercado de trabalho, metade das mulheres, quando se tornam mães, não conseguem retornar ao seu emprego anterior e retomar uma atividade econômica.

justamente porque a lógica do machismo e da necessidade do cuidado, que muitas vezes é exclusiva da mulher, não acolhe novamente. Então, em alguns casos, ela tem, de fato, uma dependência financeira do marido, do companheiro, que é um agressor. E não é porque ela é uma aproveitadora, ou seja, ela está ali naquela relação porque ela quer a grana do cara. Mas é porque ela tem um filho, uma filha, tem ali uma constituição familiar que muitas vezes a rede de apoio dela é familiar.

foi rompida, ela não tem amigas, ela não tem para quem procurar ajuda. 10% dos municípios brasileiros tem algum serviço da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres. No estado de São Paulo, que é onde tem uma rede mais bem estruturada, porque é um estado mais rico, maior, etc., tem cerca de 140 delegacias das mulheres, mas, se eu não me engano, menos de 30 funcionam 24 horas.

E às vezes elas ficam em regiões centrais, ou seja, não necessariamente de fácil acesso para o conjunto da população. Então, a temática material, financeira, da mulher trabalhadora, ela é fundamental para compreender a gravidade do feminicídio. E mais um detalhe que a gente também não pode deixar de colocar aqui no jogo das cartas na mesa.

que é aquilo que eu chamo de feminicídio indireto e de machismo de catástrofe, que é o seguinte. Os governantes, com seus orçamentos para combater a violência contra as mulheres, e eles deixam lá no cofre. Eles deixam lá e eles não aplicam. Então, a gente olha para prefeitos, governadores, o governador de São Paulo atual... É 10 centavos por mulher. Que as deusas nos livrem dele em breve. Na política de mulher.

Então, esses caras não aplicam o dinheiro. E aí, o capitalismo de desastre é o que aconteceu, por exemplo, em Porto Alegre. Inundou a cidade porque os caras não usaram o dinheiro que estava lá guardado para proteger a cidade do Rio. A mesma coisa no patriarcado. Os caras não aplicam o dinheiro para defender as mulheres, para criarem políticas públicas de combate à violência.

A segurança das mulheres é um assunto de segurança pública que tem que ser mais debatido. E, obviamente, esses homens não colaboram. E, assim, eles criam condições...

concretas para o extermínio dessas mulheres. Bolsonaro foi superimportante nesse projeto. Quando ele liberou as armas, olha, quem é que mais mata? Homens que têm armas. Homens que têm acesso às armas e, sobretudo, homens que têm o serviço de manusear as armas. Os homens que são... Muitos policiais matam suas companheiras. A gente vê toda hora esse... A gente vê que...

Chefe da guarda municipal lá de... Do Espírito Santo de Vitória. Uma história mais triste. Que era especialista, inclusive, em Ronda Maria da Penha, em política de proteção, mulheres foram executadas. Evitou durante meses, mais de um ano, eu acho, feminicídios na cidade. Uma mulher genial. Foi morta pelo cara que depois se matou, que também tem esse detalhe. O cara mata e se mata, covarde.

Então, é um covardão e um sujeito que está muito perturbado. E nós, mulheres, é que tínhamos a pecha de loucas, irracionais, as malucas, as histéricas. Então, é disso também que a gente está falando. Desses homens que, mesmo não matando com uma arma diretamente, colaboram para criar uma sociedade, para criar as condições de possibilidade de transformar homens em feminicidas e mulheres em mortas. Porque a gente fala da...

naturalização, mas quando é uma autoridade, uma figura pública, não é que naturaliza, ele autoriza, ele dá o comando para os seus milhares ou milhões de seguidores e eleitores para que façam o mesmo. Aí eles veem que não há uma estrutura pública, social, que protege aquela mulher, e o governante em quem ele se espelha estimula, né? Diz que pintou um clima com adolescentes no Distrito Federal, diz que não vai estuprar a parlamentar, a deputada Maria do Rosário.

porque ela não merece. Tudo isso, você cria um caldo cultural que autoriza os homens a reproduzirem a mesma lógica, ao mesmo tempo que se a mulher quiser pedir ajuda, ela não tem para onde ir. Não tem delegacia, não tem rede, a família dela foi desestruturada, ela não tem amizades, ela vive para cuidar dela mesma, quando sobra tempo, se consegue, mas para cuidar dos filhos, e cuidar do marido, e cuidar da casa.

E aí, esse ciclo que poderia ser interrompido é autorizado pelas autoridades todas. É isso. Homer. Vamos lá. Tem muita gente que perguntou aqui, tanto, né, eu vou citar alguns nomes aqui, Ju Rosalim, Mr. Luke 2000, eles perguntaram aqui para a Márcia, quando ela falou sobre a lógica do assalto, o que realmente quis dizer com isso? Quis dizer que o sistema patriaracial capacitalista é um...

Mas só dá o contexto, né? Porque tem muita gente que não sabe e no chat eu vi muita gente perguntando. Ah, então. Em 2015... Uma palestra? Não, em 2015 eu dei uma entrevista e quando você dá uma entrevista, você deixa muita coisa em aberto, né? É. E naquela época eu fui desenvolver um raciocínio. Por isso que é bom podcast, porque aqui você tem o tempo pra desenvolver. É, então.

Então, aí eu fui desenvolver um raciocínio e falei, olha, a gente pode, por exemplo, fazer um raciocínio super absurdo. Aí eu falei, por exemplo, eu posso dizer... Essa parte não foi no corte, né? É, então, aí eu digo assim, então, por exemplo, eu posso dizer que eu sou a favor do assalto. E aí eu comecei a fazer um raciocínio para mostrar que se a gente acompanha a lógica do capitalismo, o capitalismo é a lógica do assalto. E aí, quando eu vejo um sujeito, como dizia o Bertold Brecht, o que é...

roubar um banco perto de fundar um banco. Vejamos o caso do Vorcaro. Roubou todo mundo. É a lógica do assalto do capitalismo. Então, quando a gente vê o menino que rouba o celular, esse menino que rouba o celular, esses dias roubaram o meu celular, me meti numa encrenca gigantesca. Nossa, dá pra fazer um filme com a história que eu passei. E aí... Recuperou?

Sim, na hora, quase teve um lixamento Conheci a família do menino Que me roubou Conheci a mãe, o irmão, o pai, foi toda uma história Assim, é um filme o que aconteceu Mas enfim, e aí eu digo Esse cara que rouba, seja o Vorcaro Seja o menino que rouba o celular Que seria pra nós hoje o ladrão de galinhas

Os dois estão envolvidos dentro de uma lógica, uma lógica de vou me apropriar de tudo que eu puder no lugar onde eu estou, para eu poder, sei lá, me dar bem, ou participar desse negócio, ou ter o lugar ao sol. O menino que rouba o celular está na dele, porque, afinal de contas, tem um esquema também do qual ele pode participar. Como o Vorcaro estava criando um esquema para ele participar, e os graúdos todos estavam participando junto. Então, eu estou dizendo, tem uma lógica que tem a ver com...

obviamente um desrespeito pela propriedade do outro, pela posse do outro, mas, ao mesmo tempo, uma liberação para o crime, para todo mundo fazer o que quiser. Aí eu disse, se eu sou um sujeito que sou a favor do capitalismo, eu tenho que ser a favor de todo tipo de assalto.

entende o que é? Não é o capitalismo como... O capitalismo é uma coisa perversa, gente. É um negócio perverso. Ele sempre se apropria dos corpos, do trabalho alheio, do trabalho das mulheres, dos negros, dos trabalhadores. Ele se aproveita das pessoas e se aproveita também...

das distorções sistêmicas, que é o que permitiu, por exemplo, que tenha surgido um banco como o Master, com tudo que ele fez. E aí, a gente olha pra isso, o menino que tá vendo a garotada da geração dele se vestindo bem, comendo hambúrguer, comendo na pizzaria, passa ali pelo bairro dos riquinhos, ele vê tudo isso. Eu conheci um cara, aliás,

que ele hoje trabalha na Segurança do Banco do Brasil, concursado, passou 15 anos, ele me disse que passou 15 anos na cadeia. E lá na cadeia ele pôde estudar, fez uma ou duas faculdades, se tornou um especialista em segurança. Hoje ele tem um emprego muito legal, mas ele contou isso, que ele era menino, morando na periferia, ele é a mãe dele, mãe solo.

Ele vendo os caras passando com carrões, os caras comendo bem, se vestindo bem, indo para as festas. E ele, alienado daquilo, ele sem acesso àquilo tudo. Então, a sociedade capitalista, ela gera esse tipo de desejo. Quando a gente vê um vorcaro com suas festas nababescas, a gente...

A gente também quer, não aquela festa que é cafona pra caramba, mas a gente quer um pouco de diversão, a gente quer alegria de viver, a gente quer ter o nosso churrasco, o nosso almoço de fim de semana, poder tomar uma cerveja, poder ir pra uma festa. A gente também quer isso, quer ter uma roupa boa. E aí, quando é que você vai ter acesso a isso, num sistema de injustiça social?

em que as pessoas não têm acesso à oportunidade, a oportunidade que é educação, que é emprego. Por que tem tanta gente morando na rua? É efeito do capitalismo, gente. Sinto dizer. Então, não dá para a gente ser a favor do capitalismo e contra o roubo. É isso que eu quis dizer. A lógica é essa. E, claro, qual foi o problema que as pessoas viram? As pessoas não sabem o que é lógica. A lógica não é bom.

Lógica significa como funciona. Então, às vezes funciona muito mal. E é muito ruim. A lógica do assalto é uma coisa muito ruim. Mas eu estava mostrando para as pessoas. E, claro, lá na conversa ficou meio mal colocado. E depois isso foi usado pela extrema-direita contra mim.

E aí eu tive que sair do Brasil, porque... Eu saí do Brasil porque eu fui muito atacada. Comecei a ser atacada não só por isso. Só que eu dei essa entrevista em 2015. Eu deixei um cara chamado... Teu colega, chamado Kim Kataguiri, falando sozinho. Numa rádio. Numa rádio.

Porque arrumaram uma emboscada midiática. Porque eu jamais falaria com essa gente desse movimento Brasil Livre. Eles me processam, vivem atrás de mim. Então, mas tinham marcado contigo e não falaram que... Ninguém marcou comigo. Não, não, marcaram com você. O jornalista marcou. O que ele apareceu, não é isso? E não te avisaram que ele estava... Não, nunca. E foi uma coisa que depois eu fui entender a emboscada toda da história.

E aí, quando eu vi aquilo, eu nem sabia o nome do cara. Eu olhei para o cara e demorei. O Kim ou o jornalista?

Não, o Kim. Eu não sabia. Eu vi... Quando ele me deu um beijo no rosto, eu pensei... Gente, esse cara foi meu aluno, será? Porque eu dava aula lá no sul no passado. Será que ele é um cara jornalista, estagiário? Quem que é? Eu não sabia. Mas eu reconheci que ele era o cara do MBL. Eu disse... Ah, não vou falar com essa gente. E aí começaram... Ah, mas você não escreveu como conversar com fascista? Sim, gente. É uma...

proposição para a gente discutir o que significa dialogar num contexto antidemocrático. Quando a antidemocracia chega, porque a democracia é toda baseada no diálogo. Vamos tentar se entender, vamos levantar argumentos, só que com pessoas que estão abertas à sua...

as suas colocações ao seu entendimento. E nesse caso, eu sabia que era uma armadilha, porque eu já tinha visto. Quando eu senti, eu fui-me embora. No dia seguinte, começa uma loucura de recortes, de fake news. Eu acho que os caras, não sei se foram eles, não posso provar.

Mas eu acho que alguém ficou a noite inteira pesquisando pra achar alguma fala minha que pudesse recortar. Foi aí que virarizou? Foi, no dia seguinte. E aí, eu me lembro, era o dia do julgamento do Lula. Tinha Twitter naquela época. E a minha questão com essa galera, que eles chegavam te assaltando pela tua imagem. Então, o celular virava uma arma e eles chegaram com o celular na tua cara. E aí, imagina.

dá vontade de dar um soco, né? Mas você não faz isso porque você é uma pessoa que não quer cometer um ato de violência. Mas eu entendo quando a pessoa fica com raiva tipo Glauber e manda correr, né? Antigamente as coisas se resolviam assim e tem pessoas que infelizmente resolvem assim. Melhor a gente não fazer isso, mas às vezes você entende. E esses caras faziam isso, eles chegavam te assaltando.

a lógica do assalto era essa inclusive você chega com a arma que você fez ali na hora pode ser o celular é a arma desses caras eles sequestravam outra imagem então a minha imagem

foi reproduzida e recortada. E quando, inclusive na história, a jornalista que estava me entrevistando, ela fala assim, ô Márcia, mas isso quer dizer que você é a favor de assalto? Eu disse, não! Eu falei, não, eu estou construindo um argumento. E aí já passou para outro assunto e ficou aquela coisa. Mas os caras pegaram isso e fizeram da minha vida um inferno. Eu fui protegida por quatro instituições internacionais, porque, gente, eu sou uma escritora.

Lembra do Salman Rushdie, que foi esfaqueado em 2022? O cara que estava do lado do Salman Rushdie, que se chama Henry Reese, esse cara, ele me mandou um e-mail em 2018, quando eu estava sendo perseguida, e me disse assim, ô Márcia, eu sou fulano, eu tenho uma instituição que protege escritores perseguidos, você não quer vir aqui?

E foi assim que eu saí do Brasil. E naquela época a gente não contava. Eu não contei tudo o que aconteceu, porque a gente ficava naquela pose. Eu que não vou dar mais palanque para esses caras que ficam aí fazendo disso uma tecnologia política. Eles queriam causar na sua, justamente como se você fosse uma alavanca. Você era cobaia de um experimento político, uma alavanca para eles viralizarem nas redes. E fizeram muito com isso. Aí fizeram muito comigo, fizeram isso muito comigo.

O que tinha de vereador, toda a época de campanha eleitoral, vereador, deputado, candidato, eles entravam num jogo de ódio, e aí eu ia lá e olhava, poxa vida, né? Que monetização que eles estão conseguindo aqui com a minha pobre pessoa. E fora do Brasil, era uma coisa assim, eu estava dando aula numa universidade francesa,

que aliás estava me protegendo, e os caras, eu dizia assim, aparecia lá no Presidente da República espalhando fake news contra mim. Aí eu dizia, gente, vê se tem sentido, o Brasil está desse jeito. Eu sou uma professorinha, uma escritorazinha aí, vivendo minha vidinha, e o Presidente da República me transforma numa notícia?

Os meus colegas franceses nem entendiam o que estava se passando. Como assim? Então, e é isso que a gente está entendendo. O Brasil foi um laboratório importante. Agora, a gente está vendo o segundo mandato do Trump. A gente está vendo o que está acontecendo na Europa. Aí, meu livro, Como Conversar com Fascista, demorou para sair na França.

Porque os caras também não acreditavam. Eles diziam assim, ah, isso aí é coisa que acontece lá na América Latina, lá no Brasil, né? Aí, depois, as marchas nazi-fascistas lá na França, aí eles publicaram o meu livro. X, chegou aqui. Pois é, então, tem uma movimentação...

de uma internacional de extrema direita, já faz bastante tempo. Em 2015, quando escrevi o Como Conversar com o Fascista, que foi o primeiro livro no Brasil que apontou para essa questão da chegada do fascismo, eu falei disso, dessa articulação organizada, porque os caras pensaram...

Dá para vender Coca-Cola, dá para vender livro, jujuba, dá para vender a inteligência limitada, mas dá para vender ódio, dá para vender a extrema-direita, dá para vender esse extremismo, dá para vender esses governos, esses projetos de destruição do Estado, que só destroem a vida das pessoas. E as pessoas coitadas, as que ficam aí fazendo o discurso neoliberal...

sendo pobres ou sendo pessoas que são de classe média, não sabem realmente o que elas estão falando. Então, a lógica do assalto era a lógica do capitalismo. E não é boa. E essa é uma confusão que as pessoas fazem. Elas começam a odiar a lógica. Gente, a lógica significa como as coisas funcionam. Não significa que seja bom assim. Significa que é terrível quando se trata de capitalismo.

Não mate o mensageiro, né? É isso aí. Fale aí, Romer. Pergunta aqui da Bruna Nascimento. Ela está perguntando por que muitas vezes as mulheres negras e periféricas são as maiores vítimas e o que o Estado tem feito para mudar essa realidade?

Acho que as mulheres negras e periféricas acabam sendo as maiores vítimas de todas as desigualdades sociais. A gente vive numa estrutura que é machista, que é racista, LGBTfóbica. Se a gente for ver, por exemplo, as mulheres negras ganham os piores salários, de maneira geral, estão nos piores postos de trabalho, são uma minoria nos espaços de poder.

Então, a busca por essa rede de proteção, rede de apoio, por autonomia financeira, por condições de dar resposta a uma situação de violência, acaba sendo pior. Ao mesmo tempo em que as mulheres negras, e isso, enfim, pesquisas indicam, tendem também a ser menos...

tolerantes ou naturalizarem menos a violência do Estado, a violência contra os seus filhos, contra as suas filhas, e também criam essas redes de apoio, de cuidado e de organização. A Márcia mencionou um pouco isso. Existe um feminismo, que é um feminismo comunitário, cotidiano, que é esse. O Estado falha na sua rede de cuidado.

Na rede de proteção, de apoio, falha em garantir direitos e acessos para o conjunto da população e a população se vira para dar conta. As mulheres negras e mulheres periféricas são um grande exemplo disso. Falta a vaga na creche que deveria existir para que toda mulher tenha condição de ter o seu próprio trabalho, de ter autonomia, de ter o seu próprio tempo, de poder viver socialmente.

sem que a vida dela seja exclusivamente o cuidado com o filho dela, para que tenha condição, inclusive, de viver uma vida sem violência. Mas, se falta creche, as redes comunitárias de apoio dão conta. E, geralmente, é a tia, a prima, a irmã, a vizinha que dá conta de fazer esse processo de revezamento. A luta contra a violência do Estado, muitas vezes você vê uma mãe gritando, desesperada, indo a público.

chorando, denunciando, questionando. Quando dão voz a ela na televisão, esse caso também cria um processo de comoção que é importante para que outras mulheres e outras pessoas se vejam nesse processo. Então, acho que é isso. É uma estrutura social profunda que diz respeito ao caso do feminicídio e da violência, mas...

mas não somente. E teve a forma como o Brasil se desenvolveu com os anos de escravização, com o fato do racismo ser essa estrutura velada, mas tão presente e estrutural na sociedade brasileira? Aqui foi.

Valeu. Gente, é isso? Faltou alguma ponta solta? Agora é a hora. Se não, redes sociais. Agradecer demais. Vocês falam, eu falo, a gente falou por duas horas e dezesseis e tem gente enchendo o saco aqui que ficou duas horas e dezesseis com a gente. Pois é, né? Odiando o papo. Eu não entendo isso.

Mas o importante é que ele... Mas engajaram, você viu pra ajudar ele a dar um upgrade, a fazer movimentar. Na verdade ele gostou do papo, ele só não assume, né? Eu também acho, eu também acho. Mas, Milena, sabe o que eu quero falar? Eu quero, assim, te agradecer e te parabenizar por trazer esse tema ao Inteligência Limitada.

Porque suponho, eu não tenho dados, mas eu tenho suposições, de que tenha um público majoritariamente masculino. Até pelas pessoas com quem é um converso. O YouTube manda para a gente. É cerca de 60% masculino e 40% feminino. Olha só, e assim... E era menor o público feminino. E geralmente, nem sempre...

temas em geral, curiosidades na política, ou uma lógica, muitas vezes, do embate, da contratação, que eu mesma já vim em participar de debates do tipo. Mas eu acho que é muito importante, assim, ter esse tempo de mais de duas horas pra gente refletir sobre o tema do feminicídio. E vão viralizar, e a pessoa vai ver e falar, isso é interessante, vou ver o programa inteiro.

E aí você pega tanto questões mais conceituais, gerais, mas também fatos concretos. Isso, por exemplo, de que 10% dos municípios brasileiros somente contam com uma rede de proteção às mulheres vítimas de violência. Isso é um dado que as pessoas não têm muito mais dimensão que difunde. Então, toda a concepção histórica e filosófica que a Marcia traz. Eu acho que isso ajuda muito. Jovens que muitas vezes estão buscando opinião, entretenimento, etc., mas que vê aqui um compromisso.

Eu quero dizer isso, olhando para a Câmara, de verdade. Tenta tirar de lado ideologia, ainda que seja difícil, porque a gente é formado disso, de concepções, etc. Mas o feminicídio é uma epidemia. E não é possível que a gente naturalize que quatro mulheres brasileiras sejam mortas todos os dias pelo fato de serem mulheres. Que a gente naturalize que existam 34 mil meninas brasileiras.

que estão casadas, ainda que a lei seja muito explícita de que menor de 14 anos é necessariamente estupro de vulnerável ou de que somente 20% dos espaços de poder sejam feitos por mulheres ou que ganhamos piores salários, que trabalhamos cerca de 20 horas a mais por semana do que os homens. Tudo isso cria um caldo cultural e material que tem como a última ponta do iceberg o feminicídio e as diversas demonstrações.

De misoginia. Por isso, assim, é só agradecer e parabenizar pela iniciativa. E tenta, assim, quem assiste, às vezes está contaminado pela... Não, mas relaxa. A gente está acostumado. E coloque-se também como parte da solução do problema. A gente sabe que vai ter essa discussão.

E esse ano eleitoral, eu quero trazer muitas questões. A gente quer fazer um programa sobre Paulo Freire, que a galera também não entende muito sobre esse assunto. Eu quero fazer as suas palavras como se fossem minhas. Quero assinar embaixo, realmente.

Porque, de fato, e eu que venho da filosofia, passei a vida sendo professora de filosofia, eu sempre observei como as mentalidades vão sendo construídas. E a gente, às vezes, acho que as pessoas estão sendo meio capturadas por coisas que elas não pensaram, sabe? Então, elas estão pensando o pensamento dos outros. E, por isso, ler, assistir, discutir, mas tentar se informar.

Você sabe, as pessoas respondem nas redes sociais com trechos de vídeo de outras pessoas. Elas não colocam as ideias dela. Elas colocam trechos de outras pessoas respondendo. Pois é, então você começa a ser vendido por ideias que não são suas, repetir ideias que não são suas. E uma coisa que é um prazer gigantesco na vida é você aprender a pensar. E a gente não, ao mesmo tempo, a gente não aprende a pensar sozinho. A gente aprende a pensar estudando pensamento, lendo pensamento.

Por isso eu sou tão fã da filosofia e acho que ela faz muita falta na nossa vida.

E a filosofia se baseou na sua história, no diálogo. A beleza da coisa é o diálogo. Então, é a gente aprendendo a escutar, fazendo o que eu chamo de política da escuta, mas também aprendendo a falar. E, claro, isso nunca é uma coisa fria, tão organizada.

É a gente se entendendo também, a gente se atravessando, a gente se complementando, a gente duvidando, a gente gostando, a gente não gostando, não tem problema isso, sabe? Não tem problema a gente não gostar. O problema é a gente fazer a agressão. Eu queria, claro, óbvio, estou super agradecendo também por poder trazer o livro aqui.

porque o livro é um instrumento de elucidação da realidade e a gente precisa compreender para poder transformar as coisas e para poder também participar do debate melhorando a esfera pública. Então, o livro, as revistas, os artigos que a gente lê, e eu queria, além desse livro, que aliás no meu site as pessoas podem...

Comprar com autógrafo marciatiburi.com. E o marciatiburi.com tem artigos. Hoje mesmo, publiquei um artigo lá para a gente pensar sobre esse lugar da misoginia. Porque é um assunto que eu acho que ajuda as pessoas. A gente tem que entender isso agora. E as grandes questões do momento, elas precisam ser debatidas. É muito bom a gente não ter uma opinião pronta.

É muito bom a gente ver o que um está falando, o que o outro está falando, ler um artigo, ler outro, discutir e ter muita desconfiança do que a gente mesmo pensa e do que os outros pensam, sabe? Vamos tentar entender, vamos tentar aprofundar. E aí, enfim, que os livros possam nos ajudar a isso e que os nossos debates cresçam e apareçam e que novas pessoas... Você é otimista ou pessimista?

Eu sou super otimista, que mulher é um bicho otimista. Também sabe? Super otimista. Ultimamente eu ando extremamente pessimista. Eu também, por isso que eu perguntei. Eu diria, mas eu sou realista, porque eu analiso a situação, eu falo, bom, acho que não dá pra ser tão feliz à luz do dia. Mas eu me explico. Eu sou otimista prática, embora possa ser pessimista teórica. A grande questão dos marxistas, né? Que é assim, gente, o mundo tá uma merda, mas eu não vou ajudar a piorar.

Ah, nesse sentido, sim. Ou a vida tá difícil. Esse livro mesmo. Isso é determinado a fazer a diferença nesse mar de lama. Você pega um livro desses, você é um exemplo, você também, a gente tem coragem de falar. Você pega um livro desses, gente, é um assunto difícil.

Aí, poxa, passei 20 anos da minha vida aqui estudando isso, tentando entender, formulando uma teoria. Não é uma coisa bonita ter mexido nesse assunto. Era um assunto difícil mesmo, doloroso. Mas eu acho que uma coisa que também faz muita diferença para as pessoas que têm um pensamento democrático e as pessoas autoritárias, a diferença entre...

antifascistas e fascistas, é que os democratas, os antifascistas, são pessoas que se enfrentam com a sua dor. E as mulheres são seres que aprendem a... Se enfrentam com a sua dor? É, tipo, você enfrenta a sua dor. Você é capaz de olhar pra você mesmo...

e se deparar com a sua dor, e se conectar com a sua dor, entender o seu sofrimento, entender onde é que aperta o seu sapato, onde é que as suas feridas estão abertas, mas você não se deixa levar por isso, você tenta entender. E eu acho que as pessoas extremistas de direita, cheias de ódio...

Pessoas com pensamento conservador e que não conseguem olhar para a dor do outro, que não conseguem ter empatia nem compaixão, que essas pessoas, na verdade, não conseguem enfrentar a própria dor, se conectar com a própria dor. É como se elas fossem todas paranoicas e tivessem um mundo pronto na sua cabeça.

e não tivessem, portanto, que se envolver, que se abrir para a alteridade do mundo, para os outros, seja o outro do conhecimento, que está no livro, que está na ciência, que está nas artes, seja o outro real, a pessoa com quem você pode...

Se abrir, abrir o seu coração para entender como ela funciona, sabe? E, claro, o que a gente chama de extremista de direita é essa pessoa que parece que ela já ficou com uma dissonância cognitiva, como se diz hoje. Na minha época, a gente chamava de burrice.

e era isso, né? A pessoa parece que não consegue entender nada porque, na verdade, ela não tem condições, ela não tem vontade sobre tudo, ela não tem aquele afeto básico da ignorância positiva, né? Que faz você perguntar pro outro, que faz você ler um livro pra tentar entender, ler o outro pra tentar entender melhor.

escutar as pessoas falando, tentar ouvir outras formas de entender o mundo pra você melhorar a sua. Então, eu sou muito... Isso realmente é uma coisa que me comove, que as pessoas têm um desejo de conhecer e que elas se entreguem pra entender esse mundo, que não é fácil a gente entender isso aqui. Parece tudo uma grande alucinação. Pois é. Redes sociais? Samia?

Samia Bonfim, Bonfim, M antes do F. Todo lugar. Todos os lugares. E o meu é marciatiburi. Arroba marciatiburi. Eu uso o Instagram em geral. Vamos deixar num comentário fixado o site dela e as redes sociais, certo? Correto. O que você tem que falar agora? Bom, agradecer demais para você. Não erra, tá?

Não erra, presta atenção O que você tem que falar? Agradecer demais para você que chegou no final desse papo Se você ainda não deixou o seu like Você está panguando, cara Então já deixa aí o seu like Se inscreve no canal Torne-se membro Agradecer também demais o nosso patrocinador aí O Estratégia Concurso Tem esse mapa aí que você sabe onde tem um concurso

Se eu souber de você, é só pegar o link na descrição ou o QR Code que tá na tela agora. Isso aí, exatamente. Agora é hora de você brilhar, cara. O que o pessoal escreve nos comentários pra provar que chegou até o final dessa conversa? Pra provar que chegou no final, coloca aí. Deputados feios.

Mandou bem, mandou bem. Fiquei com medo, né? Tanta coisa foi falada aqui. Talvez seja a maior bancada dentre tantas do Congresso. Se você é um deputado feio, esse programa foi pra você, entendeu? Deputados feios. E a feiura vem de dentro. Deputados feios nos comentários. Fiquem com Deus. Beijo no cotovelo. E tchau, e que bom que vocês vieram. Valeu.

As informações e declarações feitas pelos entrevistados do Inteligência Limitada são de exclusiva responsabilidade deles e não refletem necessariamente a posição do apresentador, da produção ou do canal. O conteúdo aqui exibido tem caráter informativo e opinativo, não sendo vinculado a qualquer compromisso com a veracidade ou exatidão das falas dos participantes. Caso você se sinta ofendido ou tenha qualquer questionamento sobre as declarações feitas neste vídeo, por favor, entre em contato conosco para esclarecimentos.

Estamos abertos a avaliar e, se necessário, editar o conteúdo para garantir a precisão e o respeito a todos.

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