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A GERAÇÃO ATUAL ESTÁ PERDIDA? (com Guilherme Freire) | Os Sócios #306

09 de julho de 20261h39min
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Vivemos na época com mais liberdade, conforto, tecnologia e acesso à informação da história. Ainda assim, nunca se falou tanto em ansiedade, solidão, falta de propósito e crise de identidade. O que aconteceu?

Por que tantas pessoas sentem que estão perdidas? Estamos vivendo uma crise de sentido? Perdemos referências como família, comunidade, religião e tradição?

As redes sociais mudaram a forma como construímos nossa identidade? E o que explicam mudanças tão marcantes como a queda da natalidade, os casamentos cada vez mais tardios, o aumento de jovens morando com os pais e a dificuldade de assumir responsabilidades da vida adulta?

Essas transformações são apenas características das novas gerações ou representam uma mudança profunda na forma como vivemos, nos relacionamos e enxergamos o mundo?

Para responder a essas e outras perguntas, convidamos Guilherme Freire para o episódio 306 do podcast Os Sócios.

Uma conversa sobre filosofia, propósito, tecnologia, família, cultura e os desafios de construir uma vida com direção em uma sociedade que parece ter perdido suas bússolas.

Ele será transmitido nesta quinta-feira (09/07), às 12h, no canal Os Sócios Podcast.

Hosts: Bruno Perini @bruno_perini e Malu Perini @maluperini

Convidado: Guilherme Freire @guilhermefclfreire

Participantes neste episódio3
B

Bruno Perini

Hostjornalista
M

Malu Perini

Hostjornalista
G

Guilherme Freire

ConvidadoProfessor e mestre em filosofia
Assuntos10
  • Amores Difíceis e Heroísmo CotidianoO 'velho do restelo' e o pessimismo crônico · A necessidade de homens fortes e a educação para a crise · O ciclo de morte e renascimento nas civilizações · Amor fati e abraçar o destino · A importância da ação individual e local
  • Gestão de CrisesDesintoxicação da propaganda e do noticiário · Cultivo do corpo e da mente (exercício, leitura, espiritualidade) · Ter filhos e cuidar deles · Estudo de épocas de crise e história · Reconexão com a comunidade e política local
  • Democracia Liberal Ocidental e HipocrisiaEducação inadequada e formação de engenheiros/virtudes · Reset demográfico e incentivo a famílias numerosas · Reforma da máquina de propaganda anti-Ocidente (escola, mídia) · Presença da natureza na vida cotidiana
  • Dívidas e prosperidadeMelhor época para viver vs. recordes de ansiedade · Tecnologia como farmácia (benefícios e toxicidade) · Entropia social e tendência ao declínio · Crise do Ocidente e ideias políticas/econômicas falhas
  • Crise de identidade e propósito pessoalAbundância material vs. ansiedade · Perda de referências (família, religião) · Impacto das redes sociais · Queda da natalidade e casamentos tardios · Dificuldade em assumir responsabilidades adultas
  • O Oriente e a crise demográficaModelo de Singapura e pragmatismo chinês · Blindagem do progressismo moderno pelo comunismo · Influência ocidental nas mazelas orientais · Crise demográfica importada
  • Mudanças sociais no BrasilTaxa de natalidade em queda · Envelhecimento da população e impacto na previdência · Japão como exemplo de crise demográfica acelerada · Diferença entre percepção da crise em diferentes regiões
  • Era de Ouro da CivilizaçãoFilosofia grega (razão, lógica, ética) · Império Romano (hierarquia, dever, universalidade) · Cristianismo (moral, ética pós-morte) · Revolta pós-iluminismo contra esses pilares
  • O 'último homem' de NietzscheHomem pós-iluminista, secularizado e domesticado · Relativismo, falta de religião e vontade fraca · Sentimento de fim de civilização
  • Tecnologia e a fuga da naturezaHipócrates: doenças e afastamento da natureza · Superinteligência e a capacidade de burlar programação · Fuga da programação biológica (sexo sem reprodução) · Jihad Butleriana e controle da tecnologia
Transcrição96 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
BPBruno Perini

E aí, pessoal, vamos começar mais um episódio do podcast Sócios. Quem fala aqui é Bruno Perini, host do podcast. Estou como sempre com Malu Perini, minha esposa, host, o belo rosto dos Sócios.

MPMalu Perini

Olá, pessoal, sejam bem-vindos a mais um episódio dos Sócios.

BPBruno Perini

E, Bolinha, qual será o tema de hoje?

MPMalu Perini

Hoje a gente vai falar o que a gente gosta de falar, né, que é divagar sobre as causas da nossa perdição no Brasil, porque estamos todos perdidos no Brasil. Então eu tava até me questionando sobre isso, se o Brasil está mais no fundo do poço que os outros jovens. Não sei, vamos, vamos.

BPBruno Perini

Eu acho que é mundial. Se você pega pesquisas assim, vê. E isso é uma coisa que socialmente você tem impactos, né? Porque quem faz besteira na sociedade geralmente é o homem jovem solteiro. E se você pega em pesquisas, o mais perdido hoje é o homem alguém solteiro, entendeu? E antes de apresentar o nosso convidado, que já veio aqui diversas vezes, vocês já sabem quem é, tá aí na thumb do podcast, eu tenho um recado para vocês de uma união que ela tá acontecendo pela primeira vez e ela visa ajudar você que é empresário a dobrar os seus lucros no próximo ano.

A gente tá falando da Operação Lucro 2X, uma união entre G4 e Grupo Primo para que você possa, através de diferentes pilares, como por exemplo captura de audiência, geração de mais receita, melhora no time de vendas, uma cultura mais forte, eficiência operacional, ver sua empresa atingir ter um lucro maior. Então sabe aquela história de empresa rica, dono pobre que muita gente fala? Na verdade a gente pensa que é o contrário, empresa rica, dono ser rico também, né?

Uma PJ forte, uma PF forte, até porque esse cara ele vai ter uma cabeça diferente para empreender se ele tiver mais segurança financeira. Então que a gente quer pegar o seu lucro para estar magro, margem apertada, juros tá alta aqui no Brasil, um ambiente, né, mais inóspito para que você possa expandir sua empresa e te passar pilares para que você possa conseguir fazer isso de uma maneira mais assertiva. Para quem quiser ter acesso a esse conteúdo, nós faremos uma live no dia 11/08.

A participação nela é totalmente gratuita e para se inscrever tem um link aqui na descrição. Cada dado, vamos apresentar aqui então nosso convidado, Guilherme Freire. Ele é professor e mestre em filosofia pela PUC de São Paulo, ministra aulas há mais de 10 anos pelo Brasil, foi secretário adjunto na Secretaria Nacional da Juventude do Brasil e chefe de gabinete na Secretaria do Planejamento do Governo do Estado do Paraná, onde também atuou como coordenador de empreendedorismo.

É sócio fundador do Filosofia do Zero, do Em Busca da Verdade e da editora EBV. Atualmente dedica-se à gestão das empresas, além de ministrar aulas e palestras de filosofia, história e literatura. Já foi palestrante convidado em instituições e eventos de renome, como por exemplo na ONU, em Cambridge, Oxford, Harvard, Vale do Silício, no ITA, no INSPE, entre outros. Guilherme, bem-vindo novamente ao Podcast Sócios.

GFGuilherme Freire

É minha alegria. Eu amo esse podcast, então para mim cada convite é uma alegria.

MPMalu Perini

Que bom, obrigada. Você deve ter sido o cara que mais veio. É, provavelmente.

BPBruno Perini

Ou talvez o Roque, né?

GFGuilherme Freire

Já veio também muitas vezes.

MPMalu Perini

É verdade.

BPBruno Perini

Ou algum sócio meu. Mas tá entre os três, cara.

GFGuilherme Freire

E tem um pessoal, o Roque, o Sacani, que fica indo em vários podcasts, né? Tipo, são quase quadros recorrentes assim, né? Eu tive com o Sérgio Sacani esses dias, já é a terceira vez que eu já tô junto com ele. Imagina que ele é da ciência, eu sou de outra área diferente, mas é muito bom todo mundo.

BPBruno Perini

Ele é muito gente boa, cara. Eu gosto muito dele.

GFGuilherme Freire

Muito gente boa, muito gente boa. Tava envolvendo uma polêmica agora, né? Teve uma polêmica aí sobre o Flow e tal. Foi envolvido, né? Foi envolvido, sei lá. Eu não sei nada sobre essa polêmica, tá só comentando e tal.

MPMalu Perini

Não tô sabendo, mas vamos mudar já que é polêmica pra gente não—

GFGuilherme Freire

É, não, zero. Mas eu adoro ele.

BPBruno Perini

O nome dele foi citado lá como, ah, o Sacani não tava vindo aqui no Flow.

GFGuilherme Freire

Ah, entendi, entendi. Whatever, whatever, não é nosso tema.

BPBruno Perini

Mas eu entendo também, é longe pra cacete.

GFGuilherme Freire

É muito longe o lugar.

MPMalu Perini

É bem longe mesmo.

BPBruno Perini

Mas vamos lá então, vamos mudar de assunto. É, cara, como é que você entende esse paradoxo de, ao mesmo tempo que a gente tem essa era de abundância, porque hoje nós temos condições de vida muito melhores do que no passado. Se você pega o homem mais rico da história da humanidade, segundo o ranking feito pela revista Forbes, em valores atualizados, seria o John D. Rockefeller. E esse cara, durante boa parte da vida, ele não viveu com energia elétrica, por exemplo.

E até quando surgiu energia elétrica, durante um tempo ele abdicou do uso porque ele vendia querosene para informação pública. Ele não queria usar aquele negócio que é contra o que ele vendia. E se você pega reis do passado, eles tiveram vários filhos, a maioria morreu porque você não tinha antibióticos, por exemplo. Então a gente tem acesso à medicina, a gente tem muito mais conforto, nós temos muito mais liberdade. Naquela ideia do véu da incerteza do John Rawls, né, que é simplesmente uma pergunta: se você tivesse que nascer em alguma época do mundo sem saber o seu sexo, sem saber a cor da sua pele, Que época você escolheria?

Agora, com certeza, porque em outras épocas a chance de dar errado era muito maior. Então a gente vive, isso é indubitável, na melhor época para estar vivo. No entanto, se a gente pega pessoas com depressão, com ansiedade, a gente tem números recordes, coisa que não aconteceu durante outra parte da história. Por que que você entende que isso tá acontecendo na sociedade atual?

GFGuilherme Freire

Essa é aquela frase que começa um dos melhores livros da história, que é Um Conto de Duas Cidades, né? Engraçado, Conto de Duas Cidades já foi mais lido no passado, foi um dos livros mais lidos do período. E ele começa com a frase icônica: era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, né? E ali a história se passa na Revolução Francesa, e a fronteira entre o melhor e o pior às vezes é muito próxima, tá? Você sabe que várias dessas coisas são uma via de mão dupla, elas têm benefícios agregados E elas têm problemas inevitáveis.

Então acho que duas coisas que geram problemas, apesar de serem coisas boas, são prosperidade material e avanço tecnológico. Avanço tecnológico é uma coisa, as duas coisas novamente é bom, é bom como você enriqueça, só que conforme ela vai enriquecendo ela vai ficando mais fraca, porque aquelas virtudes, aquele esforço e sacrifício que ela precisava para construir as coisas agora ela não tem. E junto com a tecnologia você começa a ter uma série de facilidades muito grandes, porque você agora não precisa decorar o mapa porque você tem no Waze, você não precisa abrir o livro, organizar sua biblioteca porque você vai lá e pergunta no chatbot.

Você faz uma série de coisas que são facilidades no fundo e que evitam esse desenvolvimento. Então, na verdade, parte das crises que nós vivemos são efeito até da própria prosperidade. Não tem como você fugir dos efeitos adversos dessa mesma coisa, sei lá, Quantas coisas maravilhosas vieram da rede social e quantas coisas terríveis. E então os gregos tinham um nome para isso que é uma farmáquia. Farmáquia é algo que é— até a palavra farmácia é análoga, porque faz referência a como um remédio.

O remédio, ele numa quantidade, ele é muito bom, mas a partir de uma certa quantidade ele é tóxico para você. E a mesma coisa vale para várias coisas do mundo moderno. O uso das redes sociais, o uso do dinheiro, as vantagens que nós temos, se você tira elas de um contexto mais amplo e usa elas numa medida correta, elas são a semente da sua própria perdição. Então essa contradição eu acho que ela é um pouco natural. Tem o fenômeno da entropia social também.

Porque a tendência das coisas é o declínio, não é a ascensão. A construção de coisas normalmente vem da energia de alguém construir algo. Por exemplo, sei lá, empreendedor vai lá criar a Ford, tem inovação, inteligência, você coloca ordem em algo. Mas se eu largar a empresa Ford solta, ela vai declinando conforme o tempo passa. Meu corpo vai declinando conforme o tempo passa, essa sala vai ficando mais bagunçada com o tempo. A tendência das coisas é entropia.

Se eu jogo um copo No chão o copo quebra, ele não vira copo. Então toda a sociedade vai ter uma percepção de decadência. Essa ideia de decadência, ela tá lá muito notoriamente no Trabalho e os Dias, no livro de Daniel na Bíblia, porque é a metáfora do livro de Daniel. Você tem uma cabeça de ouro na estátua do rei, depois vem um peito de prata, e depois uma base de bronze, e depois vem pés que misturam ali metal com argila, com barro.

Então tem uma fragilidade inevitável. E de fato você vai ver isso nas gerações. Por exemplo, minha avó, ela falava que ela achava os homens de hoje fracos porque eles compram carro pronto, que o pai dela construiu o carro com as próprias mãos. E aí perto disso você vai olhar para o passado e ver uma geração de ouro, porque vai falar, poxa, ali tinha um homem que construiu um negócio com as próprias mãos e eu Tive tudo pronto. Então tem aqui o fenômeno da entropia, mas eu acho que tem um fenômeno particular de crise do Ocidente, que o modelo político-econômico do Ocidente tem uns buracos.

Ele tem a gênese da sua própria perdição, a despeito de ter coisas incríveis. E eu acho que o salário, a conta de algumas atitudes está chegando. Sei lá, coisas como imigração na Europa. Você por um tempo fala, não, você quer Europa é para todos, todos os povos. Podem participar das benesses da Europa. E isso não tem um arco temporal que aquilo não cria efeitos desastrosos. É crise demográfica, olha, vou ter menos filhos e vai ser menos gasto e vai ser mais fácil minha vida.

De novo, tem um arco temporal que não vai ser desastroso. É inflação, tem um arco temporal que tudo parece maravilhoso. Só que existe um ponto na curva em que a curva começa a cair muito rápido. Então aquilo que no primeiro momento parece gerar um efeito muito grande, porque sei lá, né, você começa a fazer inflação, a economia de fato é a famosa história da bolha. O Hayek ganhou o Prêmio Nobel de Economia por causa disso. Você tá jogando um monte de empréstimo, jogando um monte de dinheiro, a economia parece que tá voando, só que aqueles ativos reais não estão sendo produzidos.

O boom, ao boom se segue o bust, e você descobre que tem um sério problema. Você imprime, a dívida americana vai crescendo por anos, Ninguém teve filho. E aí chega uma hora que você fala, olha, não tem mais gente para trabalhar. Aí, aí vai resolver, mas não é assim também, porque tem, tem buracos aí. E aí o que acontece é que agora você começa a olhar para o seu país, como acontece lá no Japão, e falar, falta gente, desesperador.

Você olha para Europa e fala, tem tantos imigrantes que não foram assimilados e não estão lá. Então eu acho que muito dessa crise ela é um efeito natural da prosperidade, mas um outro lado grande dela é por ideias políticas erradas ou econômicas erradas que também geram esse efeito. Perfeito, né?

BPBruno Perini

É sobre essa questão da prosperidade material que nós temos hoje. Sempre que aparece algum tipo de invenção nova e muito fantástica, vou dar um exemplo aqui, e não que seja o melhor exemplo, mas das canetas emagrecedoras, né? Sim, isso é capaz de resolver muitos problemas das pessoas, que obesidade é endêmico hoje em dia, né? Mais pessoas morrem no mundo em decorrência dos males da obesidade, do sobrepeso, do que de fome.

GFGuilherme Freire

Perfeito.

BPBruno Perini

Lembro que na pandemia uma piada comum das pessoas em casa As que ficaram vivas, todos os meus sentimentos aí pra quem perdeu parentes e amigos. Mas era que o pijama era traiçoeiro. O cara começava a comer e engordou durante a pandemia. 100 anos antes e um monte de gente morreu de fome. Porque a produção de comida não era o que é hoje. Então a gente tem muito mais prosperidade. Mas sempre que algo assim muito fantástico aparece, eu lembro de um pensamento do Sófocles, o autor da trilogia tebana, entre outras obras.

Ele dizia que nenhuma grande bênção entra na vida dos mortais sem uma maldição. E às vezes eu fico pensando, qual é a maldição que isso aqui vai trazer? Eu acho que grande parte da tecnologia foi isso, né? Ansiedade, a conexão o tempo todo. Hoje, como o trabalho ele é muito mais intelectual do que físico, a fronteira também entre as coisas ela fica mais difícil de ser compreendida. Porque se o trabalho da pessoa no passado era arar um campo, cara, você acabou de arar o campo, você vai para casa, acabou seu trabalho. Seu trabalho hoje é intelectual, quando é que você para de pensar em trabalho?

MPMalu Perini

Nunca. Você fica trabalhando o dia todo.

BPBruno Perini

Exatamente. Então a sensação de que você está estafado, é que tá muito cansado, ela acaba acompanhando. E uma coisa que eu sempre falo também é do mal da inflação, porque você falou de crise demográfica, né? A sequência geralmente é a seguinte: a pessoa sai de casa, ela se casa, e depois ela tem filhos. Se morar em 50 metros quadrados aqui em São Paulo, o custo para isso, para comprar apartamento, é de R$1 milhão. Esse cara não vai sair de casa com 20 anos, nem com 25, nem com 30.

Ele vai sair com quase 40, aí ele vai casar com alguém E aí já não consegue ter filho às vezes. E aí vem a crise demográfica, por exemplo.

GFGuilherme Freire

Sim, não é um problemaço. E tem problemas, crise demográfica tem problemas econômicos, culturais e outras coisas. Mas o fato das pessoas não estarem querendo endereçar os problemas, as pessoas vírgula, em geral da liderança política não estar querendo, ou parte da liderança intelectual não está querendo endereçar os problemas, É o que gera muito da aflição também. Porque pensa, você pode ter um povo, sei lá, pensa o Japão pós-guerra, a situação é bem desesperadora, tá?

São casas destruídas, são pessoas que perderam o pai, a dinâmica econômica quebrada e assim por diante. Só que bomba atômica, imagina que horror. Só que é um esforço nacional consciente, coletivo, de eu vou reconstruir o país. Isso dá um feeling de esperança muito grande a despeito da desgraça, porque tá todo mundo no mesmo projeto. Só que no Ocidente atual, a elite política e a casta intelectual oficial, elas estão completamente desconectadas da população.

E cada vez mais isso é percebido. Inclusive a rede social deixa isso mais claro, porque sei lá, nos anos 90, sei lá, assistia TV, não é que você tinha tanta consciência do quanto seu líder político era desconectado de você ou do que você acha sobre o mundo. Era uma narrativa só também, uma narrativa só. O mundo é mais controlado, o mundo é mais interiorano também, a informação não circula tanto. Hoje você consegue abrir a rede social e olhar e falar, meu líder político, ele tá completamente louco, ele não tá conectado com a realidade, eu tô sendo governado por loucos.

Tem, sei lá, Ilha do Epstein, você descobre isso, tem o Você descobre com muita facilidade algumas loucuras e o descompasso. Porque, por exemplo, o sistema universitário, o sistema universitário foi criado, a forma atual dele, com uma carona boomer século 20. Isso foi ossificado e ideologizado até o ponto que perdeu a função como as pessoas imaginavam, porque nem é profissionalizante, nem é alta cultura. Vagamente é ideológico, vagamente é semiprofissionalizante, mas também não é.

E aí o sistema universitário fala, cara, a gente investe, sei lá, milhões e milhões e não tem o efeito. Então, ou a grande mídia, sei lá. Então você olha para grande mídia, para universidade, para liderança política, que são as instituições que fizeram, que eram o poder do século 20, e elas perderam legitimidade. O que dá, claro, um respiro grande para a população É empreendedorismo, é o estudo, é o fato de entrar na internet, ele consome conteúdo e o cara realmente, ele agora consegue, quando ele faz isso, ele compra um livro do Shakespeare, começa a ler, monta uma empresa no fundo do quintal dele e a coisa começa a decolar.

Mas muito dessa ansiedade vem disso, você olhar, pensa, sei lá, greve de caminhoneiros na época do Trudeau. O Trudeau, tá, que ele é tipo namorado da Katy Perry agora, né? Tipo, sei lá, o negócio, o nível de descompasso entre, sei lá, o Trudeau e o caminhoneiro canadense é inimaginável.

BPBruno Perini

Era o primeiro-ministro do Canadá durante a época da pandemia.

GFGuilherme Freire

E mesmo agora, sei lá, o cara tá lá assistindo a Copa, se lascando, sofrendo os efeitos da inflação, e tá lá o Vini Júnior postando negócio, a Virgínia e não sei o quê, e o cara sente se sente muito mal porque tem um contraste sendo apresentado. Isso, veja, a decadência é real. Eu só tô dizendo que essas coisas aumentam a percepção de decadência pelo descompasso. Então tem um carro que vai bater na parede. Lembro da minha esposa uma vez falando, Guilherme, tudo que você fala é o fim do Ocidente.

Fala, olha, eu espero não só falar sobre o fim, mas eu gosto de me propor a falar sobre soluções também. Eu acho que tem muitas soluções para esses problemas que a gente tá falando. Eu não acho é só o problema por si. Mas claramente tem carros que estão batendo na parede, e eu acho que fingir que esses carros não estão batendo na parede não vai ajudar, né?

BPBruno Perini

E quando você fala fim do Ocidente, né, por Ocidente, do que você está falando? Porque, por exemplo, em várias definições a gente fala do Ocidente, mas coloca Austrália no Ocidente, sendo que geograficamente não estaria, ou coloca o Japão, apesar de ser uma cultura bem diferente, porque é um país asiático, mas ele é mais ocidentalizado. Quais são as características desse fim que você tá citando?

GFGuilherme Freire

O fato do Japão e da Austrália serem colocadas como Ocidente tem muito a ver com a influência do Império Anglo-Saxônico geral, né? Estados Unidos ocupou o Japão depois da Segunda Guerra, imprimiu muito da cultura, e Austrália é um país anglo-saxão. Então, apesar deles estarem geograficamente isolados, eles estão lá. Então assim, o Ocidente na verdade tradicional, ele já acabou, só que nós vivemos nos frutos dele. Porque o que que, quais são os 3 pilares que construíram a cultura ocidental e que são a formulação dela, e tudo que a gente tem é derivado disso?

Foi um encontro muito específico de 3 instituições diferentes que têm histórias paralelas, mas próximas, que são a filosofia grega, porque a partir da filosofia grega vem um planeta de coisas. Nós estamos falando do desenvolvimento da lógica, que é o que vai gerar depois o código binário. Raimundo Lúlio desenvolveu o código binário a partir da lógica de Aristóteles. Nós estamos falando da medicina. Não existiam médicos espalhados pelo mundo antes dos gregos.

A primeira vez que se estudou, estudou a ética. Então toda a lógica foi organizada, a ética, classificações da biologia. Tem uma forma de pensar própria dos gregos que influenciou o globo terrestre de maneira muito forte. E que pautou a civilização ocidental, que é uma cultura muito baseada na razão, na análise metodológica da realidade e assim por diante. Então a filosofia grega é um dos pilares fundamentais. E a filosofia grega ainda tem uma coisa muito própria dela, que é uma conexão da vida intelectual com a excelência individual, que dá uma cara muito Ocidente, né?

Porque se você pensar cultura oriental tradicional, embora Confúcio tenha um paralelo muito grande, tá, com a filosofia grega, E daria um tema longo aqui, mas há uma sinergia muito grande. Mas se você pensar, é muito mais coletiva, cabeça muito mais coletiva. E se você olhar para um Aristóteles da vida, ele quer formar o Alexandre o Grande excepcional que vai tomar a frente e liderar aquelas pessoas, e cada indivíduo tem que prosperar individualmente junto com esse coletivo.

Então é uma outra cabeça. Então a filosofia grega é um pilar muito grande. Depois tem um outro pilar que molda o Ocidente, que é o Império Romano, que é uma cabeça de vilas. Então você tem esse pai de família que é o chefe dessa vila, que é uma hierarquia. Você faz parte de uma hierarquia militar também maior, e existe a hierarquia do Império e hierarquia da sua família. Existe uma ordem que você tem que servir algo maior do que você, tem um sentido de honra, de dever, uma série de coisas que vão moldando essa cultura ocidental.

E o Império Romano também dá uma cabeça de universalidade. Por isso que o Ocidente consegue incorporar, por isso que o cara consegue virar japonês no Brasil, e o Ocidente consegue incorporar Austrália, qualquer coisa, porque a cabeça do Ocidente é uma cabeça de universalidade. Isso vem desde Roma, porque Roma se via como uma urbis, uma cidade com uma missão divina que é o mundo inteiro, enquanto outras cidades se viam como não Eu sou eu, né?

Eu sou a minha localidade. Roma entende que todas as outras cidades do mundo não são reais, que ela é a única cidade que existe. Então tem essa cabeça de universalidade. E a terceira característica, que é muito própria do Ocidente, é o cristianismo. O cristianismo foi responsável por coisas como abolição da escravidão, a ideia de que não adianta você ganhar o mundo se você perder sua alma. Então ele dá um senso de ética para a vida depois da morte, que é muito próprio do Ocidente.

E que aliás foi um dos fatores que deram esperança ao longo desses anos. Por isso que aí vem o outro fenômeno: no pós-iluminismo há uma revolta contra esses três. Então há uma revolta contra a razão na figura da filosofia grega. E aí isso pode ser o quê? Relativismo, pode ser uma série de coisas, mas a forma relativista que aí não, cada um tem a sua verdade. Cada um tem o seu jeito, porque o Iluminismo, ele traz uma noção de um igualitarismo radical.

E o igualitarismo radical, ele é incompatível com as 3 ideias que nós acabamos de falar, porque não dá pra você ter o Império Romano se todo mundo é igual. Porque aí o pai de família tem que ser desconstruído, e o chefe militar tem que ser desconstruído. E a ideia de meritocracia, que é muito própria do Império Romano, né, que você ia, entrava como soldado, provava o seu mérito e virava decano. Provava o seu mérito, virava tribuno militar e assim por diante.

Você vai, são 36 anos de carreira por mérito. Essa ideia de mérito é colocada em xeque porque eles falam, não, todo mundo é igual, não existe mérito. Aliás, por que você acha que você tem mais mérito? Porque você passou numa prova? Você é igual a mim, não importa o cenário, você é igual. O pai, por que o pai não é igual ao filho? Então esse igualitarismo, ele é antiromano e é contra o cristianismo, porque também um dos pilares desse mundo iluminista é o secularismo.

Então todas as religiões são iguais. Só que se você perde a base religiosa, você tá vendo isso na França, não é que você não tem religião nenhuma, é que você vai sendo engolido por religiões díspares. Então você vai sendo engolido pelo Islã, ou você vai sendo engolido pela religião política, como o caso da Coreia do Norte. Então o vácuo religioso foi preenchido pela ideologia e por religiões alheias ao Ocidente. A perda da hierarquia gera instabilidade geral, familiar, que é a primeira, que é a mais importante, e depois política.

E a perda da razão gera indiferença e ceticismo. Então você fica— então a figura do homem sem religião, cético e sem hierarquia, nossa, esse é o que é o último homem do Nietzsche, né? Porque falam muito do super-homem, mas na verdade às vezes mais Mais aterrorizante, mais forte é a descrição do último homem, porque o último homem é o homem pós-iluminista secularizado, que é o homem que ele vive pelo conforto, ele vive domesticado e fraco, né?

Essa figura do homem relativista, sem religião e de vontade fraca, sem espírito, é muito própria do Ocidente atual. É uma figura que todo mundo que vive e anda na rua vê esse personagem em grandes quantidades. Tem muita gente, é o último homem. E o último homem, ele tem o espírito de fim de civilização. Você olha para ele, fala, cara, já era. E é engraçado, né, porque esse feeling de fim de festa, de, ah, eu sou o último homem, se o menino cresce trancado no quarto Enzo, nada contra o nome, nome do fundador da Ferrari e tal, mas aí a piada já tá feita, nunca tomou luz do sol, E aí imagina, o menino ele tá trancado, aí tem pornografia que gera uma série de problemas, aí tem doutrinação na escola, pouco contato com natureza.

O Enzo sai para o mundo muito despreparado, muito perdido. Então você, a decadência que você olha para o menino e fala que já era, acabou a civilização. Quer dizer, não é que tudo acabou, mas a decadência dessa figura É que coitado também, ele é vítima também, ele é de uma cultura em que ninguém tentou exigir, ninguém colocou nada para ele. Isso já tem o feeling de fim do Ocidente. Então é um problema sim de uma ideologia política mais ampla, que é esse movimento do Iluminismo.

Sim, tem problemas econômicos, tecnológicos e outros, mas também é um problema da educação particular do fenômeno atual do cara que é isolado. E aí a decadência já tá feita, porque pensa, seu filho foi mimado e ele sai para o mundo, você pode ter construído a maior empresa do mundo, maior negócio tal, ele destrói. E ele é um bárbaro dentro da sua casa e você não sabe nem porque ele virou um bárbaro, sabe? Em certa medida, todo mundo no Ocidente, nós já somos bárbaros nas ruínas de uma civilização, porque Não é que as pessoas estão lendo Shakespeare e lendo Plutarco e lendo os grandes clássicos.

Então nós vivemos numa civilização construída por esses grandes homens, mas nós já não entendemos eles da maneira como nós poderíamos. Nós já não temos mais, eles já não conversam conosco como conversavam com alguns homens do passado. Isso acho que por um defeito de educação mesmo, tá, um erro de educação. Não acho que é que é inevitável, eu acho que é um problema. Então, por exemplo, você tem o iPhone, mas você não sabe quem é o Steve Jobs.

Você tem o iPhone, mas não sabe quem é o Steve Jobs, beleza, o iPhone continua funcionando, não é que a obra dele não tá lá. O Ocidente inteiro é isso, todo mundo tá usando o iPhone e ninguém sabe quem é o fundador mais. Claro, as pessoas sabem quem é o Steve Jobs ainda, mas olha, não duvide que em muito pouco tempo a quantidade de jovens que eu conheço que já não assistiram O Senhor dos Anéis já é bastante alta. Então, mesmo que é dos anos 2000, as pessoas já estão perdendo memória dessas coisas.

Então, esse esquecimento que tá lá no Platão, que é, ele bebe do rio do esquecimento, né? Você esqueceu quem você é. É o tema do Rei Leão, né? Que o Mufasa chega para ele, lembre quem você é. Nós somos todos o Simba ali, meio que enchendo a pança num canto isolado, e as hienas estão soltas porque nós perdemos esse chamado vocacional do Ocidente. Então, acho que tem um Tem um tema muito forte de esquecimento aqui.

BPBruno Perini

Bom, pegando os 3 pilares que você colocou, essa questão da filosofia grega, do Império Romano e a parte da moral cristã, digamos assim, se a gente olha para o Oriente, você acha que eles estão menos perdidos? Porque lá na China a gente pode adotar como paralelos, você falou do confucionismo, vários paralelos com a filosofia grega, eles mantiveram esse confucionismo, eles têm o Partido Comunista Chinês, Que é muito forte, que é muito forte, coloca ordem na coisa.

E em termos de moral, eles têm as suas características próprias, mas elas— uma coisa que eu acho que deve ser muito bacana de ser chinês, tem várias coisas ruins com certeza, mas isso eu acho que é legal, é o fato de que é o mesmo idioma, sei lá, cara, 4 mil anos. Eles conseguem ler o original do Sun Tzu sem mudar nada, entendeu? Talvez tem uma outra coisinha, mas eles conseguem entender. Se eu vou pegar a obra, por exemplo, a gente falou de Império Romano, a obra do Sêneca em latim, eu não vou entender nada.

Eu sou obrigado a ler uma tradução, que muitas vezes é a tradução de uma tradução. Então parte do significado pode acabar se perdendo, né?

GFGuilherme Freire

Ali o que acontece é que teve um grande homem que foi o Lecuanil. Isso o Charlie Munger já comentava sobre isso, porque chegaram para o Charlie Munger e falaram, olha, Por que que a China tá começando a decolar? E ele falou, é porque a China copiou o país mais funcional do mundo moderno, que é o Singapura. E o Singapura, o Lee Kuan Yew, que é um líder da direita, né? E aí a famosa história do Mao Tsé-Tung, que ele— Mao Tsé-Tung, desculpa, do Deng Xiaoping, foi quem justamente adotou o modelo de Singapura, começou a abrir a China e mudou uma série de coisas.

Que aí falaram para ele, olha, mas você é um homem do Partido Comunista, você tá copiando ideias de um homem de direita, como funciona isso? Ele falou, o que que me interessa se o gato é preto ou é branco? Eu quero saber que come o rato. Então, nessa maneira muito chinesa, ali tem um fenômeno no mundo, porque esses países passam pelo comunismo, e extremamente por ter passado pelo comunismo, portanto por ser de uma revolução anterior, eles foram em grande parte blindados do progressismo moderno, porque o comunismo tava preso na Revolução de 1910.

E aí você bloqueou as TVs e outras coisas, então não entrou a propaganda progressista do século 20. E isso acontece na Rússia em alguma medida, em outros lugares acontece com o PCO no Brasil, que por algum motivo ele não incorporou, ele é de extrema-direita, o PCO. Porque como você tá em 1917, 1917 é um ano de extrema-direita para 2027, 2026, quer dizer, o que aconteceu ali foi que a propaganda anti-ocidental blindou do progressismo.

Então esses efeitos progressistas entraram menos. Isso gerou um pragmatismo que depois, quando eles foram adotar ideias de direita do Singapur, eles adotaram. E aí vem o brilhantismo do Lee Kuan Yew, porque ali eles voltaram ao Confúcio, que era a base da civilização deles. Ali eles voltaram à noção de mérito, que na verdade eles copiam em grande parte da Alemanha, tá, do sistema prussiano e outros. Porque quem fez isso primeiro foi o Japão.

O Japão, na Restauração Meiji, Ele adota a meritocracia prussiana, que é um modelo de meritocracia radical e militarístico, que dá essa cara do Japão moderno. É uma cara meio, olha, você tem que passar nas provas a todo custo, tem hierarquia bastante rígida, você não pode questionar muito essa hierarquia e você vai ter que provar o seu mérito desde cedo. Então o Lee Kun-hee pegou isso do Japão, que na verdade ele pegou via Hong Kong, porque Hong Kong pegou isso do Japão, que vinha da Restauração Meiji e que na verdade vinha da Alemanha.

E ele incorpora isso. Então ele mistura Confúcio, lei e ordem pesada, com cultura empreendedora, que aí ele aprendeu com os ingleses, com uma cabeça de modernização tradicionalista. Esse combo que é muito poderoso, que é uma monarquia versão século 21, né, apesar de ser no século 20, mas absolutamente adequada, que é uma espécie de monarquia empresarial, o efeito disso é muito poderoso, porque de fato você tem uma espécie de board do país, você tem um CEO do país, e aí você consegue fazer projetos como, olha, eu vou desfavelizar o país inteiro.

Só que ao mesmo tempo a economia é extremamente livre. Então é um paradoxo muito poderoso. E o Oriente então, em maior ou menor medida, bebeu dessa ostentabilização monárquica pós-era Meiji. De novo, na China isso chega, os chineses vão odiar, eles odiariam, tá falando que isso veio do Japão em algum nível. Mas historicamente é isso, Hong Kong bebeu do Japão, o Singapura bebeu do Hong Kong, e aí sim a formulação mais perfeita talvez tenha sido feita no Singapura, e os chineses beberam dali.

De qualquer maneira, os japoneses sentiam lá na era Meiji que eles estavam ficando para trás, E eles falaram, olha, eles têm armas modernas e nós estamos aqui no feudalismo antigo, o que que nós fazemos? Bom, pegar o que tem de melhor na Alemanha, na Prússia, que é indústria, fábrica, meritocracia e fim. Bom, quando você adota isso, efeito é muito poderoso mesmo. A Alemanha de fato decolou nesse modelo. E só que como eles estão fora, é mais fácil eles adotarem as boas ideias do Ocidente antigo do que os do Ocidente, porque no Ocidente você tem uma casta de pessoas no Ocidente tradicional.

Então você chega para defender uma ideia dessas na universidade, eles vão falar: ai, que absurdo, está defendendo o autoritarismo, ou qualquer besteira dessa. E lá na China ou no Japão, ninguém tá nem aí para isso, porque não tem essa bagagem, esse mesmo fenômeno. Agora, esses países incorporaram parte, por influência americana, também das mazelas do Oriente. Então, sei lá, do Ocidente. Então Mao Tsé-Tung foi educado na França, era um marxista, e isso gerou uma mazela muito grande para a China.

O Deng Xiaoping caiu na mesma crise demográfica da Europa, apesar de ser um reformador brilhante. E os japoneses caíram nessa mesma crise demográfica, eles que tinham uma cultura de casamento arranjado, que o Ocidente acabou com essa cultura. E é bem curioso como era casamento arranjado. A minha professora de japonês Ela é mais velha e ela ainda pegou essa cultura do casamento arranjado. Ela ainda sabe vagamente, ela não participou, mas ela sabe o que é, né?

Que é bem interessante. O encontro, né, produzido, a mulher é produzida e tal, e você tinha uma lista dos pretendentes. E daí o cara olhava a lista dos pretendentes, aí ele julgava os pretendentes, falava: você pode ter encontro com esses. E aí a mulher escolhesse. Isso, o pai julgava, só que a mulher escolhesse casar ou não. Então era um arranjo que não é que ela era forçada a casar, a palavra final é da mulher e do homem, eles tinham que topar os dois, mas a família escolhia os candidatos.

E esse modelo foi abolido por pressão ocidental, porque sei lá, o Ocidente achou isso estranho e agiu contra. Só que eu não acho que esse é o único fator, eu acho que copiar um modo de vida ocidental é outro fator, mas isso gerou um efeito demográfico muito poderoso, porque as pessoas não têm a cultura em várias dessas culturas de sair caçando alguém para casar. É uma cultura muito diferente. Então a tentativa de importar ideias ocidentais gerou parte da restauração do Oriente e parte da crise do Oriente também.

Então hoje, porque o mundo é globalizado, não dá para falar de uma China não ocidentalizada, porque a China tá usando a meritocracia da Alemanha do século 19 E literalmente, tá, isso é falado em documentos do Partido Comunista, é consciente. E tem a crise demográfica importada pelos controladores de população, sei lá, pelo Clube de Roma, que era uma organização globalista dessas para o controle de natalidade do século 20. Então não existe mais o Oriente não ocidentalizado.

Mesmo assim, ele teve uma blindagem um pouco maior para alguns desses problemas, né.

BPBruno Perini

Cara, pensando aqui, né, você citou os gregos, o Hipócrates, que é o considerado pai da medicina, ele dizia que as doenças elas começam à medida que a gente se afasta da natureza. E se você pensa em termos ambientais, eu li um livro sobre IA outro dia que eu achei muito bom, apesar de ser um livro bem catastrofista, né. O nome do livro é bem interessante, ele fala: se um criar, se alguém criar, todos morrem. Esse é o título. Mas lá ele falava sobre a dificuldade que nós teríamos realmente em controlar uma superinteligência.

Não esse nível de IA que a gente tá vendo agora, mas níveis assim, ordem de magnitude maiores, que deve acontecer ao longo dos próximos anos, né? Porque ele fala que nós, os seres humanos, já com nível de inteligência muito mais baixo do que dessa superinteligência, nós já conseguimos burlar nossa programação. Porque se a gente pensa em termos biológicos, nós, como os outros animais, somos basicamente programados para sobreviver e multiplicar.

E o ser humano, com pouco de inteligência que ele tem, ele já conseguiu burlar essa programação porque ele quer sobreviver, mas ele não quis mais multiplicar. Então ele arranjou maneiras de manter o prazer do sexo sem as consequências, por exemplo, ou nem mais o prazer do sexo, né? Você citou, por exemplo, a questão da pornografia, e tem um monte de gente viciada nisso hoje em dia. Acho que vai piorar porque o jovem tem acesso a isso de maneira muito rápida, as interações ficam cada vez mais em redes sociais e são menos interações verdadeiras, né, vamos colocar assim, no mundo real.

E parece que a gente tá fugindo da programação. Aí ele fala, pô, se a gente já conseguiu fazer isso, imagina uma superinteligência. Por mais que você programa fazer uma certa coisa, ela consegue burlar. Você acha que muito disso vem devido a essa mudança de como era a vida lá atrás comparada a como é hoje?

GFGuilherme Freire

É, a tecnologia, ela é uma força que se não for subordinada na marra ao desenvolvimento humano gera uma série de problemas. Você não consegue contê-la. Os chineses fizeram as 4 grandes invenções modernas, que foi o papel, a bússola, a pólvora e a imprensa. É muito louco, né, quando você pensa que os chineses criaram tudo isso antes de todo mundo. E na verdade, o que a gente pensa como mundo moderno veio a partir daí. E os chineses, qual foi a atitude deles?

Vamos queimar tudo isso e vamos segurar, porque se nós deixarmos isso, o mundo vai ser descontrolado completamente. É, eu entendo a atitude deles porque de fato em alguma medida aconteceu o que eles temiam.

BPBruno Perini

Você citou o Hayek, você me lembrou de uma frase dele agora, sabia? O Hayek, se eu não me engano, no livro A Desestatização do Dinheiro, ele cita que os chineses foram levados a proibir o uso de moeda fiduciária, moeda de papel sem lastro, antes dos europeus a terem inventado. A gente fala, ah, os europeus inventaram, né, o papel-moeda, os chineses inventaram, deu problema e proibiram.

GFGuilherme Freire

Isso, isso. Não, e várias coisas. Eles na verdade foram os primeiros a ver as consequências das invenções modernas antes de todo mundo. E eles têm então essa obsessão em controlar a tecnologia, né? Assim, a tecnologia ela vai produzindo efeitos desastrosos e alguns efeitos muito bons. E é o problema ali do Duna. No Duna eles passam por uma jihad butleriana É porque eles falam, olha, nós vamos ser destruídos se nós continuarmos nesse rumo.

Então eles destroem a AI uma hora e a tecnologia se torna analógica, né? E aí você volta para os computadores humanos e para outros tipos de tecnologia que são futuristas em algum aspecto, mas que em outros aspectos são antigas, né? Eu acho que o mundo vai ter que passar por algum tipo de jihad butleriana, mas a minha posição então ela é é mais de reforma da tecnologia do que de destruição, né? Eu acho que o caminho de destruir as máquinas, o que é mais plausível, né?

É, mas o caminho de destruir todas as máquinas e quebrar tudo é um caminho que eu não consigo enxergar acontecendo, por N motivos. Eu não consigo. Me soa um pouco aquele fazendeiro do Interestelar, sabe? Não, vamos ignorar todo o problema e continuar aqui, porque são os ludistas do passado. É, eu acho que a energia ludita não vai funcionar. Eu acho que a energia do tipo a tecnologia desenfreada vai resolver tudo é loucura. Aí a bomba atômica, tá aí tantas coisas que simplesmente a tecnologia pode não ir pelo caminho que as pessoas estão imaginando.

E eu acho que o único caminho que vai ser possível para sobreviver a humanidade e para ter prosperidade é na verdade subordinar a tecnologia e forçar ela a estar subordinada ao desenvolvimento humano. Eu não sou um aceleracionista, né? Tem toda essa discussão do— teve um autor antigo chamado Nick Landry, que ele foi até morar na China. Ele tinha frases bastante loucas dos anos 90, 80, que ele falava: Neo-China chega do futuro, né?

E aí ele tinha uma frase provocadora dessa, que ele falava que nada humano vai sobreviver no futuro. E ele defendendo isso, falou: não, vamos em frente, acelerar a tecnologia até o ponto que a singularidade vai chegar e vai dominar tudo e tal. E na verdade tem muitos, muitas coisas que podem ir sideways, sabe, que podem dar errado muito rápido. A própria bomba atômica já podia ter dado errado muito rápido. Então assim, não é, eu não tenho otimismo infinito com a tecnologia, mas eu também não sou anti-tecnologia.

Eu acho que tem que olhar, a humanidade tem que racionalmente perceber. Eu realmente acredito que o caminho é uma uma reforma racional de várias coisas. Como assim uma reforma racional? Essa questão do meio ambiente, ela é muito importante. Ninguém nunca me pergunta isso porque acho que as pessoas inferem, porque, nossa, defende o tradicionalismo, então sei lá, talvez você derruba árvores. E na verdade é exatamente o oposto. Eu acho que a minha visão sobre isso é que maior presença da natureza na vida cotidiana é melhor, tá?

Que você deveria na verdade forçar a presença da natureza na vida das pessoas o máximo possível. E isso eu super defendo que fosse regulamentado e colocado. Ao mesmo tempo, eu não gosto dessa linha do tipo atentado em fábrica para não sei o quê, ou tantas regiões que não são desenvolvidas, porque se trava tudo e se cria a reserva infinita também, que é desproporcional e não se desenvolve. E eu defendo, na verdade, essa intersecção, ou seja, que na verdade a natureza e a vida do desenvolvimento sejam cruzadas, que você tenha a presença das duas coisas, porque isso faz bem psicologicamente para as pessoas, é bom para o planeta, mas é bom para a humanidade também, deixa as pessoas mais tradicionais, não menos, deixa elas mais sãs, na verdade.

Então, sei lá, por exemplo, São Paulo tem o rio, o rio tinha que ser despoluído e as pessoas tinham que ter acesso ao rio. Isso envolve desfavelizar uma favela específica ou mais de uma, Mas tinha que ser feito também, melhor ainda. Então aí você resolve dois problemas. Então eu acho que o Ocidente precisa de uma reforma racional, que é: olha, nós fomos para um caminho de educação irracional, nosso caminho de educação é estúpido, ele tá desadequado para o mundo atual.

Nós tínhamos que estar formando mais engenheiros, mais pessoas com boas virtudes, mais pessoas que sabem pensar fora da caixa, mais pessoas que aprendem os grandes clássicos da humanidade, educação física mais intensa, os meninos tinham que lutar, tinham que fazer alguma coisa mais desenvolvida, e nós estamos aqui dando ideologia e coisas defasadas. Então acho que isso é um reset na educação era fundamental. Um reset demográfico, que é o seguinte: olha, agora nós vamos favorecer imobiliariamente quem for ter muitos filhos, porque a gente precisa, porque é importante para o país.

E tanto em termos de tributos como em termos de imóveis, nós vamos favorecer uma família numerosa. O Imperador Augusto fez isso. Por sinal, então não tô defendendo nada diferente do que foi feito por grandes imperadores ao longo da história. Deu certo, deu certo, deu certo, gerou uma era de ouro. Louco, né? Mas era bem radical dele. Você era imposto agressivo quanto menos. O imposto é muito agressivo se você não for ter filhos, mas você pode adotar, que é bem típico romano.

Então se você não consegue ter filhos biológicos, beleza, você adota. Ele mesmo, e aí, é, e isso é colocado, e você vai pagando menos imposto quanto mais filhos você tem. E se você não tiver, se recusar a constituir uma família, você vira um cidadão de segunda classe. Essa postura é alinhada a uma melhora econômica também razoável, que ele fez os dois, né? Augusto prendeu tantos oligarcas, prendeu tantos corruptos e tal na época dele, que ele baixou os impostos e o Estado tinha mais verba.

Tem um tema um pouco de curva de Laffer aqui, que é menos impostos, mais simples, tendem a aumentar arrecadação, que acho que aconteceu ali na época. Eles não, eles não têm um registro tão bom desse período também para a gente também entender a economia nos detalhes, mas a melhora da economia alinhada com incentivo cultural muito pesado para fertilidade realmente reverteu a crise demográfica ali na época, e ter filho virou um sinônimo de É, eu pergunto isso porque no mundo moderno, vamos colocar assim, né, essa idade contemporânea que nós vivemos, as propostas dos países para tentar reverter a crise demográfica, elas não deram certo.

BPBruno Perini

É, mas aí também, depois que o país cai abaixo da taxa de reposição, você não viu ele voltar?

MPMalu Perini

É porque o prêmio também não é tão atrativo.

BPBruno Perini

Não acho que é só questão do prêmio. Vamos colocar assim, no Brasil, ó, vai ter imposto mais baixo para famílias que tenham mais de 5 filhos. Mas onde é que você encontra até imóvel para uma família de classe média com 5 filhos? Como é que o cara inclusive vai ser classe média com 5 filhos? Ele não vai conseguir dar conta.

GFGuilherme Freire

A proposta tem que ser meio mais radical. É o problema Bukele versus Bolsonaro, por exemplo. Pensa os dois em relação à segurança. A segurança melhorou alguma coisa na época do governo Bolsonaro, mas não assim, o Bukele e o Bolsonaro não estão na mesma espécie de comparação. E a mesma coisa são os países ocidentais atuais e o Imperador Augusto. Eles não estão no mesmo ballpark, assim. É tipo falar assim, olha, Guilherme, quero abrir um data center.

Pô, legal, juntei R$1 milhão. Eu vou falar, cara, assim, é muito legal, tal, você tem R$1 milhão, pô, muito bacana, tem muitos investimentos legais. Você não tá nem na discussão, não tem, você não tá no debate, não tem nada a ver. Então sim, você baixar uma taxa de homicídio de 50 mil para 45 é uma coisa boa? É muito bom. 5 mil pessoas a menos morreram, uma coisa ótima. O que a gente tá falando aqui que seria necessário é algo ao estilo Bukele, que é tipo você baixar de tipo sei quantos mil para zero.

BPBruno Perini

No Brasil não é exequível porque o presidente não tem esse poder, por exemplo.

GFGuilherme Freire

Isso, isso. Você teria que ter um sistema à la Singapura, outro sistema político para executar isso. Mesmo assim, eu acho que o Ocidente ainda vai ter que passar pela experiência de tentar reverter a crise demográfica de maneira mais radical. E isso envolve mudança sim de imóveis, isso envolve sim mudança de impostos, sim, isso envolve mudança educacional pesada. A sociedade tem que começar a ensinar que é para ter filhos, tem que mudar toda a cultura, tem que mudar as escolas, tem que mudar e falar assim: olha, tenha filhos, é parte do seu dever nacional ter filhos.

Você hoje é educado antifertilidade nas escolas. Então você tem uma máquina, aí volta para o mundo ocidente, ocidente vai ter que desarticular reformar a sua máquina de propaganda anti-Ocidente, que é escola e grande mídia. Vai ter que reformar esses dois, porque não dá para você ter um país— isso é um fenômeno muito próprio do Ocidente atual, né, que não tem na China e que tem no Ocidente, que é a grande mídia americana é anti-Estados Unidos, a escola elementar é anti-Estados Unidos.

Você vai lá e começa a odiar os Estados Unidos na escola. A mesma coisa aqui, é anti-Brasil e etc. É claro que se sua escola é contra você, você e a sua escola, você vai para escola, seu filho ouve: não tenha filhos. Você vai para grande mídia, ela fala: não tenham filhos. Você não tem nenhum incentivo para isso. Então, se você não mexer nessas áreas, é óbvio que não vai reverter a crise demográfica. A Hungria teve mais sucesso do que os outros, mas ali de novo também ainda acho que é aquém do que eu tô defendendo.

Mas uma coisa engraçada da Hungria, que você chega no aeroporto e tem um cartaz gigante assim: tenha filhos, família antes de tudo. Tipo, foi para um caminho bastante intenso e foi mais eficaz do que, sei lá, uma França da vida que é half-hearted. É tipo, ah, você vai pagar 0,1% a menos de imposto se tiver um filho a mais. O cara olha e fala, pelo amor de Deus, velho, você já me cobra 1 trilhão de dólares, 1 trilhão de euros aqui para respirar, para pagar o sei lá o quê, o imigrante ilegal, você ainda quer que eu tenha Mas o filho assim, então tem que ser bem mais radical, tá?

A diferença do Imperador Augusto e os nossos reformadores ainda é muito grande. E acho que as pessoas ainda não estão levando a sério. E acho que elas vão levar mais a sério quando a crise demográfica for maior e os efeitos forem mais sensíveis.

BPBruno Perini

No Brasil não tá tão séria a situação ainda, porque se a gente pega no Brasil, nos últimos 30 anos a população cresceu muito, cresceu quase 70%. Para os próximos 30, a tendência é de estabilização, a gente não vai crescer. E nisso vai ter uma população envelhecendo, a gente vai ter mais pessoas com 60 anos do que pessoas com 6, crianças com 6. E aí vai começar o problema realmente grave. Inclusive, o ano passado foi um ano emblemático para Previdência Social, porque pela primeira vez na história nós tivemos um gasto superior a R$1 trilhão.

Só que não é assim, ah, gastou R$1 trilhão, ano passado, esse ano vai gastar menos. Não, é daí para cima, entendeu? Primeiro porque tem inflação, aí tem reajuste do pagamento dos aposentados. E segundo que tem mais gente chegando para se aposentar a cada ano que passa. Se você quer um exemplo de um país que vai sofrer com isso mais rápido, tem que olhar para o Japão. O Japão a cada 2 anos perde mais ou menos 1 milhão de habitantes no saldo entre nascimentos e pessoas falecendo.

GFGuilherme Freire

É muita coisa, é muita coisa, cara. A população vai ser muito velha muito rápido.

MPMalu Perini

É que eu acho que aqui a gente não tá conseguindo sentir ainda. A gente fala disso sempre, mas tem um monte de criança na rua, as pessoas são, ainda tem muito jovem, jovens, né?

BPBruno Perini

Quando você fala que a natalidade no Brasil tem 1,6 filhos por casal, sempre que eu faço algum tipo de post com esse dado, os primeiros comentários são: impossível, eu tô aqui no Rio de Janeiro e as pessoas que moram aqui à minha volta tem 3 filhos, 4 filhos, pessoal na comunidade tem mais filho ainda, né? Mas cara, você tá vendo um extrato, né? Você vem para São Paulo, para uma região, você vai ver ninguém com filho. Às vezes tem prédio em São Paulo que não tem mais play de criança, tem play de cachorro.

GFGuilherme Freire

Aqui em geral quem não tá tendo filho são as pessoas mais ricas, as pessoas mais pobres mais filhos. Isso É meio louco, porque na verdade quem tá com mais condições para ter filhos é quem tá não tendo filhos. Então, em termos monetários, não faz sentido algum, não tem sentido lógico, e vai gerar um problema. É, o Brasil vai demorar um pouco mais para ver, mas vai acontecer igualmente, vai ter o mesmo problema. Já está tendo em algumas comunidades, sei lá, você vai para o interior do sul do Brasil, isso já é bem mais perceptível, tá, do que no possivelmente no Rio de Janeiro.

No Rio de Janeiro tem outros mil problemas, né? Aí é um outro, aí é um episódio à parte. Precisa de um reset, aliás, mais reset do que todos, assim. É complexo, é complexo, mas super precisa de um reset. Na verdade, o país precisa de um reset. Eu não tô, eu acho que menos do que um reset no Brasil não resolve. Quando eu falo reset, é ter que shut down tudo e refazer mesmo.

BPBruno Perini

Ou seja, não vai ter, pô.

GFGuilherme Freire

É, não, não vai ter, eu não sei. Não, eu não acho que não vai ter. Eu realmente não acredito não. Eu acho que pode ter dessa maneira que você falou, um reset.

BPBruno Perini

A gente pensa em alguma coisa radical que muda. Eu acho que não vai ter esse ponto de inflexão radical, entendeu?

GFGuilherme Freire

Não pode ter. Você sabe que ninguém nunca acha. Como eu não tô defendendo uma revolução, mas como disse, os marxistas antigos falavam, a revolução parece impossível até o dia que todo mundo fala que era inevitável. É, eu não acho que a restauração também, de outro lado, também tem isso. Quando você olha o Singapura antes do Lee Kuan Yew, sabe uma das coisas mais curiosas, uma coisa ruim do Singapura? Você vai lá para o Singapura, você não consegue comprar um apartamento, porque só tem apartamento para bilionário ou tem um apartamento do Singapura padrão, que é um apartamento pequeno, porque a cabeça deles é todo mundo vai ter a mesma casa.

É louco, porque para um país tão capitalista, é, só que o contexto é estranho, mas Quando você entende o contexto, vai ficando mais claro. O país era favela, era tudo favela. Então, na verdade, a cabeça deles, você tá num país de primeiro mundo, mas é um país de primeiro mundo no qual tudo que você tá habitando é desfavelização. Então é muito louco você imaginar isso, porque você tá no lugar que você tava falando, cara, não tem crime, tá tudo funcionando, só que na verdade você quer um favelão, uma favela gigante.

Que virou um país de primeiro mundo. Até o livro do Lee Kuan Yew chama Do Terceiro Mundo ao Primeiro. E a própria China, a China tinha taxas que fariam vários países africanos parecer extremamente prósperos quando Deng Xiaoping fez as reformas dele. E a China, ela começou a ter um dos maiores, a China tem um dos maiores crescimentos econômicos da história humana registrado em termos de padrão de vida das pessoas. É uma coisa de louco, o cara saiu de comer rato na rua para ter um padrão de vida em que ele chega em Paris, ele sente rico. É um salto muito grande.

BPBruno Perini

Toda loja de marca, você citou Paris, a última vez que a gente foi em Paris, as lojas de grife, Chanel, Louis Vuitton, todas tinham fila de chineses na porta.

GFGuilherme Freire

É, eles na verdade são o maior mercado consumidor de várias dessas marcas. Então, na verdade, o próprio, a própria Alemanha saiu ali da época pós-Napoleão, ninguém acreditava que ia voltar a ser uma potência e aconteceu. Então, na verdade, tem tem N casos, tá, de restaurações bem-sucedidas. Por isso que eu não sou descrente do caso do Brasil. Para completar, no caso do Brasil ainda, o que que eu acho? O Brasil tem duas características muito boas para uma restauração.

Ele tem N características ruins para uma restauração, mas ele tem duas características muito boas, que é: o Brasil tem todos os recursos para todas as reformas boas. Isso é uma característica muito boa, porque em vários lugares— claro que isso é um pouco do problema do Brasil, porque como jorra Prosperidade e maldição do petróleo vezes 10, porque todo mundo ganha dinheiro independente do país tá falido. De qualquer maneira, o fato de você ter recursos autárquicos, por exemplo, o Brasil tá incrível, o Brasil tá preparado para, o Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do mundo, é coisa de louco, tem autonomia energética, é um negócio absurdo.

Então os recursos estão presentes, isso facilita muito, tá? Porque Se você resolve o problema político, social, educacional, que eu sei que é gigante, mas tá tudo lá. Você tem recurso para fazer as reformas, você não precisa desesperadamente de empréstimos e outras coisas para reformar algumas coisas. A outra vantagem do Brasil é que é o nível de consciência, por incrível que pareça, da população em relação à desordem do país é muito alto.

O que eu quero dizer com isso? Tem países que você vai lá, eu vi isso, tá, conversando com ingleses e outros, que agora mudou, tá, na Inglaterra tá mudando a temperatura política social, mas que a ilusão é que tá tudo ótimo. Então você conversa com a pessoa, até porque o país é mais rico também que o Brasil, e aí o cara fala para você: não, não tem, não tem crise. Eu conversei uma vez com inglês, né, que ele chegou para mim falando: a gente tinha que invadir Pequim para proteger a democracia.

Aí eu falei para ele, olha, tem um lugar que eu acho que vocês podiam invadir, eu acho que o ROI é maior, tal, eu acho que vocês deveriam invadir, que é Londres. Eu percebi que Londres só um terço das pessoas são inglesas e todo mundo, o nome mais popular é Muhammad, e eu acho que é mais perto. Talvez se invadisse Londres tivesse um efeito melhor. Foi muito engraçado porque primeiro que ele parecia que ele tinha visto um fantasma, ele nunca tinha nunca tinha passado pela cabeça dele uma ideia do gênero.

Ele tava vivendo em outro planeta assim mesmo. A ideia de que o país dele tava muito disfuncional começou a aparecer na frente dele, porque ele falou, caramba, é verdade, né? Tipo, não tem mais inglês na minha capital. Mas ele não tava ciente disso. E é estranho para quem vem desse terceiro mundo estranho que é o Brasil, é que o cara consiga estar completamente alienado num nível inimaginável, assim, numa bolha que a nossa bolha é zero bolha perto da bolha que ele tá vivendo.

Ele tá vivendo numa realidade paralela insana. No Brasil, se você conversar com brasileiro médio e falar, sim, pode não ter os meios para isso hoje, acho que tem muitas coisas a serem feitas de reformar o país, mas você conversa com brasileiro médio e fala, você acha que tinha que resetar o sistema? Todo mundo fala que sim. Então essas são as duas características que eu diria que são muito boas no Brasil para uma reforma. O desejo da população, que é amplo, e os recursos.

E a outra coisa que é boa no Brasil é que a oligarquia do Brasil é muito manifestamente ruim. Que se você vai na Inglaterra, tem gente que tem a ilusão, menos hoje do que no passado, mas tem a ilusão de que o governo tá amplamente funcional e tal, porque exteriormente ainda tá, né? No caso do Brasil, como é muito tosco, você conversa com as pessoas, fala: o sistema atual não funciona. As pessoas vão olhar e falar, é, cara, não funciona.

Mesmo o cara do governo fala para você, se você for para Brasília começar a conversar com os burocratas, ele vai falar, cara, não funciona. Então eu não sou tão pessimista de médio prazo para o Brasil, se tiver de uma reforma política. Eu sou bastante pessimista de curto prazo, eu acho que não tem nada rolando. Então por que que eu seria otimista de curto prazo? Mas olhando todas as variáveis e tem vários C's no que eu tô falando, é super, é super plausível restaurar o Brasil.

Eu acho que tem muitas coisas a serem restauradas, muitas coisas a serem mudadas, mas eu acho que é um país muito potencial, muito grande. Aí, claro, pode, poderiam me citar a frase do De Gaulle, que o Brasil é o país do futuro e vai ser para sempre. Eu entendo o problema, mas eu não sei. Há 12 anos atrás eu falava várias ideias dessas de crise e outras coisas. Não sei se eu contei aqui do meu, meu cunhado, que ele chegou e falou para mim do Epstein.

Eu contei essa história aqui? Eu tenho um cunhado, né? Então essa história ilustra, eu acho, muito para mim. Ele chegou para mim e falou, Guilherme, a gente falou só fora das câmeras. Eu vou contar uma história sobre isso, porque eu tinha um cunhado, falou assim, chegou para mim e falou, Guilherme, Esse negócio de Ilha do Epstein é de verdade. Há 12 anos. É, eu comecei, a primeira vez que eu falei sobre isso foi 2010. Aí eu cheguei para ele, ele nem tava condenado ainda, eu acho. Não, não, zero, zero.

BPBruno Perini

Foi 2018.

GFGuilherme Freire

É, é, não faz muito tempo. Aí ele falou, Guilherme, faz 12 anos que você me falou sobre, então foi 2014, deve ter sido, sei lá. Ele falou 12 anos, falou faz 12 anos que você me falou de Ilha do Epstein. Eu achei que você era louco, eu achei que você tava louco de verdade. Eu falei, não, não, não, eu tal, Ilha do Éfeso. Ele, eu tô há 12 anos imaginando que você falava umas loucuras, que não dá para acreditar em nada que você falava.

Porque eu falei, cara, esse cara é tão louco. Ele pensou assim, esse cara é tão louco, ele acha que tem uma ilha da pedofilia muito louca, tipo da elite global, tal. E aí eu, ele falou, cara, é tudo real. Aí eu fiquei me perguntando o que mais você falou que é real, entendeu? E eu tenho feeling, acho que parte do meu otimismo é esse. Há 12 anos, quando eu falava algumas coisas, as pessoas olhavam e falavam, cara, você tá completamente louco, o que você tá falando não faz o menor sentido.

E hoje você fala essa mesma coisa que há 12 anos soava como loucura e a população vira pra você e fala, cara, óbvio.

BPBruno Perini

A janela de Overton se moveu, hein?

GFGuilherme Freire

Moveu, moveu. Dentro de um segmento da população, não acho que é o segmento total, muita gente despertou, muita gente acordou pra problemas que não tinha acordado antes. Então, quando você olha cultura empreendedora que cresceu no Brasil, quando você olha gerações novas que tem muita gente despertando, apesar de ter muita decadência, quando você olha tudo isso, a minha esperança vem dessas coisas, desse Brasil alternativo que vai brotando.

Em vários países tem o mesmo fenômeno. E aí vem agora a briga: o sistema vai conseguir suprimir a tentativa de reforma ou as pessoas conseguem articular líderes e reformar os seus países. Eu acho que todos os países do Ocidente vão passar por esse conflito, e alguns países, eu não tenho uma bola de cristal para falar quais vão conseguir, vão se reformar ao modo Singapura ou outros modos e vão mudar muito e mudar o rumo e melhorar bastante, na verdade.

E outros países não vão. E os países que não forem vão passar por colapsos grandes, e os que forem vão se restaurar. Por exemplo, a ideia de que iam começar a melhorar a economia da Argentina, assim como a ideia de que iam começar a melhorar a segurança do El Salvador, era alienígena.

MPMalu Perini

Sim.

GFGuilherme Freire

E tá rolando. Então, eu acho que tem uma— a diferença entre o colapso e o sucesso é mais próxima do que parece, sabe? É tipo, eles estão mais assim na esquina, os dois estão Então, mais na esquina do que parecem, porque o homem que viveu dos anos 60 até 2026, ele tá acostumado com o mundo que foi relativamente estável, que é o mundo pós-Segunda Guerra Mundial, que ele fala, ah, não tem grandes conflitos, eu junto a minha barriga, junto meus bens de consumo, tenho meu emprego para vida inteira.

Ele viveu um mundo de uma outra natureza, que eu acho que quem vai viver agora os próximos 50 anos vai ver um mundo muito diferente, não vai ver um mundo estável, para o bem e para o mal. Esse que é o ponto. Instabilidade é igual quem vende opções, sei lá, o cara falou, cara, Guilherme, eu preciso de volatilidade para ganhar dinheiro. Se esse negócio ficar estável para baixo, eu não faço dinheiro nenhum. O cara que é o trader, né, o trader precisa de volatilidade.

Eu acho que o que acontece é que a volatilidade pode ser que o mundo vai entrar, ela pode significar mudanças melhores. O fim do regime da Venezuela, a despeito da estranheza dele, a reforma da economia da Argentina. Tem muitos lugares que você não esperaria que as reformas são positivas. Então eu não seria cravado que todas as reformas vão ser negativas, não.

BPBruno Perini

É que em alguns locais, você citou, por exemplo, né, El Salvador e Argentina, as coisas começaram a melhorar depois de piorar muito.

MPMalu Perini

Sim, é, mas mesmo assim a gente não, eu pelo menos não acreditava que a Argentina ia começar a melhorar. Eu pensava que eles iam para o fundo do poço cada vez mais.

BPBruno Perini

Então se você pega inflação da Argentina, ela chegou a bater 300% antes de estar no patamar atual, que é um patamar ainda muito mais alto que o nosso. Então o negócio piorou muito, muito, muito antes de começar a melhorar. Se você pega El Salvador, aqui no Brasil você já tem uma série de áreas dominadas por gangues, né, por grupos grupos armados paralelos ao Estado. Em El Salvador era praticamente tudo, tudo, cara. As pessoas não podiam se locomover de um bairro para outro, entendeu?

Porque elas iriam ser mortas. E aí o cara construiu o maior presídio do mundo, botou todo mundo lá dentro. Ele destituiu boa parte dos juízes que trabalhavam no judiciário também, que eram coniventes com os grupos criminosos. Então ele fez uma coisa muito radical. Que eu acho que é, é, mas é isso, né? A gente tem essa cabeça de, ah, aqui no Brasil não vai acontecer. Até uma hora que acontece, porque eu duvido muito que o romano que tava lá no final do império falou, é, isso aqui é o final.

Ou que tava no começo falando, a gente tá vendo o começo do Império Romano. É muito difícil quando você tá, você consegue enxergar, você não consegue enxergar depois.

MPMalu Perini

A diferença também é que o brasileiro, a gente se acostuma, a gente vai dando um jeitinho de não ser pior, entendeu?

BPBruno Perini

Ser humano se adapta a tudo.

GFGuilherme Freire

Eu vou fazer referência a 3 episódios que nós marcamos, que nós já conversamos aqui no Sócios, nesse mesmo podcast.

MPMalu Perini

Estratégia.

GFGuilherme Freire

Nós falamos sobre grandes líderes da história, sobre Alexandre, sobre Napoleão e sobre Império Romano. Nos 3 casos, as pessoas estavam convictas de que não tinha solução. Na época de Alexandre, a Grécia estava em absoluta decadência. Ninguém achava que a Grécia ia dominar a Pérsia, era completamente fora do imaginário deles. Na verdade, eles estavam imaginando que é isso, as cidades tinham acabado, ia ficar em briguinha interna até o fim.

No fim da República Romana, aí todo mundo tá imaginando que já que tudo vai ser um lixo para sempre, ninguém tem mais esperança em nada. Porque imagina, o Sulla tava matando os opositores políticos dele a rodo. Na verdade, a cabeça das pessoas é: o sistema mata quem é contra e acabou.

BPBruno Perini

É guerra civil, né?

GFGuilherme Freire

É. E Napoleão, na época do Barras— eu sempre me lembro de estar estudando a Revolução Francesa e chegar nessa cena, que é o Barras, que era o líder da Revolução Francesa ali na época, ele tava com prostitutas numa sala jogando cartas e fumando charuto, algum equivalente, talvez um cachimbo da época, já apostando dinheiro da população. E era uma coisa explícita, uma coisa pública. E Napoleão veio nesse modelo, nesse contexto. Então o que acontece é que os grandes líderes da história, eles na verdade vieram em situações de decadência muito acentuada.

Eles não viveram em O próprio, a reforma da China, o Deng Xiaoping, a gente citou, era aquele pós-partido, é o Partido Comunista, e tá vindo das pessoas comerem ratos. O problema que eu vejo do Brasil é que o brasileiro ele tem o velho do restelo, que é um problema que vem do português, que é o que tá lá no Camões. Que que é o velho do restelo? Que é o que eu tento combater, tá? Eu tô querendo exorcizar o velho do restelo e tal.

Quando ele sai para as grandes navegações, porque as grandes navegações são uma coisa que eu amo, Porque é o espírito empreendedor e tecnológico, é, são os foguetes da época, e é um espírito militar e religioso, é tudo de bom que a humanidade já concebeu em uma única empreitada. E aí, no, no, quando eles estão saindo para as navegações, tem o velho do Restelo. Ele é um velho que ele fica lá na frente do porto falando, as mulheres de vocês vão trair vocês, O barco vai afundar, vocês vão falir.

Então assim, é o cara que ele faz isso. E todo mundo que já abriu uma empresa no Brasil já passou por esse fenômeno. Você abre uma empresa, como é que é? Chega as pessoas e fala: ei, vai dar errado. Você vai ter filho? Ei, não dá para ter filho no Brasil. Ah, mas a empresa vai falir, os cara vão te roubar, os cara vão não sei o quê. Então esse é um espírito, porque o Camões fala que o português ele tem várias virtudes, mas ele tem dois defeitos: Ele não valoriza seus heróis, que é super real, e ele acha que vai dar tudo errado.

Que assim, quando você conversa com o português mesmo, é muito engraçado. Quebrou meu carro em Tomar, que é o lugar da Ordem de Cristo, aliás, que fundou esse país. E aí eu comecei a conversar, um cara encostou e ficou conversando lá na rua, um velhinho lá, tem nada para fazer, rolou lá e falou, vou conversar, cara. Eu sem brincadeira, ele falou que tudo ia dar errado no mundo, ele falou que a Tesla ia dar errado, Falou que Portugal ia dar errado, falou que a Europa ia dar errado, falou que ele ia dar errado.

Ele começou a falar assim, ah não, porque isso aqui vai dar errado, carro elétrico não funciona e Portugal também não funciona. Aí começou a explicar porque que ia dar tudo errado. E assim, beleza, mas quem é que vai bater no peito que nem a Murphy do Interstellar e vai falar assim, cara, a gente vai fazer o que a gente sempre fez, a gente vai construir essa porcaria? Então na minha cabeça, o Brasil é que eu vou construir essa porcaria.

E eu acho que essa cabeça de, olha, eu não tô nem aí se você acha que vai dar errado, se o outro roubou o dinheiro do não sei o quê, se tem inflação de 1 milhão por cento, entendeu? Eu não tô nem aí. Alguém vai ter que parar e ser adulto e construir a coisa. Igual se a minha família tiver mal, eu vou parar e reconstruir a minha família. Então eu acho que tá faltando esse espírito heroico, empreendedor, tecnológico, do homem que bate no peito e fala: eu vou fazer essa porcaria virar a todo custo.

Esse espírito, ele é importantíssimo, porque é isso que move a civilização, são homens heroicos. Eu não— teve uma vez uma pessoa chegou para mim numa live e falou assim: Guilherme, nunca sei o que pensar das suas lives, porque uma hora eu acho que tudo tá perdido e o mundo vai acabar, e outra hora eu acho que meia dúzia de homens corajosos mudam tudo. E é porque eu acredito menos dois, entendeu? Na verdade, se você olhar os grandes romances da história ocidental, eles todos são assim.

Todas as histórias são essas. É Senhor dos Anéis, é, tem um exército dos orcs, e aí alguém é macho, levanta e fala: eu vou fazer essa porcaria funcionar, eu não tô, eu cansei de ser escravizado aqui, cansei de ser destruído, e eu vou fazer essa porcaria virar. Empresa é feita assim, você chega e fala: eu cansei, eu vou fazer essa porcaria virar, nem que eu morra aqui tentando. Eu entendi que tô sem dinheiro, entendi que eu tô falido, mas eu vou levar isso adiante.

E o Brasil tem que ter a mesma atitude que eu. Entendi que essa porcaria afundou, a gente entende que tá falido, a gente entendeu que os cara tão roubando na rua, a gente entende que tem não sei o quê. Só que aí você tem que começar a ter homens que batem no peito e fala: beleza, só que eu vou acabar com esse negócio, vamos, eu vou começar a resolver. Eu acho que isso é a minha escola para isso, é ser pai. Quando você é pai, eu não tenho como não sustentar minha família e pagar as contas e resolver meus filhos, não tem essa opção.

E isso aumenta o impacto. Ninguém tem filho, aí também ninguém tem responsabilidade, ninguém quer bater no peito e resolver a coisa, porque todo mundo crianção eterna. Então a criança mimada fala que vai dar tudo errado porque é fácil. Esse é outro ponto também, a gente tem que tomar um cuidado. Tem um realismo que é não ser trouxa, né? Imagina o cara falar: o Brasil agora vai decolar, viva! Se você abrir o noticiário, você vai ver que não tá acontecendo.

Mas se tem a ingenuidade, o pessimismo crônico, ele é mau conselheiro, ele é péssimo conselheiro, porque covardia é má conselheira. Virar e falar, já era, escondam-se, botem a cabeça como avestruz no negócio, isso é mau conselheiro. Isso é mau conselheiro do ponto de vista individual e para uma nação. Então eu, eu acho que tem um tema de que os tempos difíceis vão sim começar a forjar alguns homens fortes. Esses homens fortes, eu acho que tem que ser educados para lidar com a crise, porque eles não foram, e tudo bem.

E você pode se educar para isso, você pode, você ser o cara, sabe? É tão engraçado que Plutarco tá escrevendo numa época, por exemplo, Os Grandes Líderes. Não é que aqueles grandes líderes eram da época dele, entendeu? Ele na verdade, ele tá falando de caras do passado, ele não tá Não é contemporâneo. Olha que coisa curiosa, eu fico lendo a Bíblia e eu fico lendo esses textos antigos, né? Ultimamente tava sempre tô lendo isso, na verdade.

Antigo Testamento, Grécia Antiga, Roma Antiga, as distâncias entre alguns desses líderes são de séculos. Então esse cara que ele tá lá falando, por exemplo, Carlos Magno tá falando: eu sou imperador do Império Romano. O Império Romano caiu há 400 anos. Esse cara tem 400 anos de distância disso que você tá imaginando. Quando você tá lendo o livro, quando você ouve a história, você não coloca esses 400 anos na conta. Você tá imaginando que, olha, tinha o Império Romano e veio Carlos Magno.

Por 400 anos ninguém, não tinha Europa organizada, Europa era uma bagunça. E aí alguém bateu no peito e falou, não, agora vai ter uma civilização. Quando veio o Rei Davi, Beleza, tinha tido um período ali de sucesso, Saul, mas Israel não tinha um governo organizado há séculos. Na verdade, cada governo desses, a distância entre às vezes um cara e um outro são de 200 anos, 300 anos, sem nada tá funcionando, sem ter um cara. Júlio César tem praticamente 400 anos de distância para Alexandre, 300, vai, tantos.

E ele tá falando, não, eu vou ser Alexandre o Grande do Império Romano. Então é muito curioso, porque na verdade existe um ciclo que muitos desses homens que reconstruíram coisas— e o Bukele então, qual que é o precedente do El Salvador de grandes líderes? Nem tem precedente. O último cara que deve ter administrado bem El Salvador deve ter sido algum espanhol em 1600. Você olha a história, você não vê assim grandes líderes. Então Eu acho que a liderança, ela vem muito do cara que ele não aceita a crise.

Ele se revolta, para usar o Interestelar, né, ele se revolta contra o apagar da luz, né. Essa ideia que lá eles até, o Dr. Brand lá é cínico, né, e ele acha que tá tudo perdido. Esse é todo o ponto do Interestelar, né, é que no Interestelar o Dr. Brand, ele acha que tudo vai apagar, tudo, o mundo vai ser dissolvido, destruído, e é isso mesmo. E ele não entende o espírito dos construtores. Então eu tenho sim várias, eu acho que tem solução, mas a solução passa por heroísmo.

Agora, heroísmo, eu sei que para o homem atual ele vai olhar e falar, pô, o Guilherme tá muito louco, heroísmo, cara, não existe. Mas eu vejo pais de família heroicos e eu vejo empreendedores heroicos e eu vejo pessoas heroicas em vários estamentos da vida. O mundo moderno vai criar oportunidades para surgirem mais homens assim, porque você tem essa cultura empreendedora, você tem essa cultura de criação. Então eu não acho que é impossível supor uma vitória desses homens não, tá?

Eu não tô falando que eu tenho um projeto, que eu tô assistindo alguma coisa rolando, que eu tô achando que alguém vai ganhar uma eleição, não sei o quê. Eu não tenho nada disso, não é o ponto. Mas eu só diria para as pessoas que se você começa a mudar a sua comunidade, você já começou a ganhar. Você pode, o mundo pode ter mil crises, mas a minha mensagem é de esperança assim. Não é, aliás, poxa, experiência de ser velho é suficiente para isso.

Então eu, na minha época existia Star Wars, hoje em dia não existe, mas existiu uma época que tem E aí eu tava assistindo, que só existiu uma trilogia de Star Wars, tá? Teve duas, vai, mas assim, qual que você acha que foi melhor?

BPBruno Perini

A primeira?

GFGuilherme Freire

A primeira, eu sou fã da primeira. Mas a segunda é boa, tá? A segunda é boa, ela é boa. Mas eu tava reassistindo a trilogia original e olha que engraçado, né? O terceiro filme, que tem os seus problemas, e sei lá, tem um tempãozinho lá dançando, e você Porque tem isso aqui, mas ele é o retorno do Jedi. Porque na verdade o ponto de partida que já era, não é que o ponto de partida que tinha o Jedi, porque era uma porcaria, não tinha porcaria nenhuma.

E tem um véio escondido no lugar, um outro véio muito louco num pântano, e um moleque perdido que não sabe de nada, que vai ter que fazer alguma coisa. E é engraçado porque na verdade a estrutura da jornada do herói é essa. A estrutura simbólica é que o Cristo morre, depois tem a ressurreição, mas dá tudo errado. Todo o ponto é que dá tudo errado. Então, quando a gente fala de declínio, uma das coisas que se segue à catástrofe é a eucatástrofe.

Ou seja, à morte se segue o nascimento, e tem uma geração nova toda vez que algo é destruído. Aliás, a trilogia segunda do Star Wars, que cronologicamente anterior, ela termina assim, com o Luke, o Anakin virando Darth Vader, Mas ela termina com o nascimento do Luke e da Leia. Então tem esse ciclo de morte e ressurreição, né, que é tão forte. Então eu não sei, as pessoas não deveriam pensar só em morte, em decadência. Elas deveriam pensar em morte e ressurreição.

Se elas pensam só em vida, é ruim também, porque se você fingir que não tem a crise, eu acho que você tá muito louco, entendeu? Falar, não, Guilherme, é isso mesmo, eu tô seguindo aqui a Virgínia na rede social, Brasil vai ser campeão do mundo. Tá tudo ótimo, viva o sistema, né? Aquele meme do NPC, né, do robô falando: não, tudo está ótimo, obedeça, tal. Beleza, isso daí é um problema. Mas você deveria pensar em crise, em morte, em desgraça.

Aliás, você deveria estar consciente da sua morte. Esse é um dos pontos mais poderosos da filosofia. Mas você não deveria ser levado por ela. Uma coisa engraçada, o Marco Aurélio fala uma coisa fascinante que ficou muito forte essa frase das meditações na minha cabeça, que é: se você está sendo abalado, né, pelo contexto que você tá vivendo, você já é um escravo dos seus sentidos. Cara, que louco, né? Porque o que que ele tá querendo dizer?

Bom, a sua razão e seu espírito, eles são mais fortes do que a crise. Então, se você tem, tá muito consciente da sua alma, e da sua razão, você não é abalado. Não quer dizer que você não tá vendo a crise, tá? Eu acho que quem quer tomar estoicismo como bobo alegre tá bastante doido. É que às vezes você vê algumas versões também muito pop da coisa, que é sempre a minha birra com estoicismo. Eu sou fã, mas eu sempre tenho uma birra com as versões pop.

É porque eu acho que algumas versões pop deturpam muito. Porque na versão original tem muito essa ideia de: não, não, calma lá, eu tô cultivando meu espírito e minha alma. Então por que que se eu tô cultivando meu espírito, minha alma, a crise que tá aqui na minha frente vai me abalar? Ela não vai me abalar. Eu não sou escravo do meu corpo imediato, não sou escravo das minhas paixões imediatas. Então, e o estoicismo é uma filosofia que surge na decadência, surge na crise.

Ele não é uma filosofia de épocas de prosperidade. Aliás, o Iluminismo é uma ideologia de épocas de prosperidade. Fala: nossa, a gente tem tanto dinheiro, e se todos forem iguais e todos tiverem um Porsche Cayenne em casa. É bom, mas aí o que os seus antepassados iam falar é que tem um motivo do porquê tem. A sociedade não é assim, tem mil motivos na verdade. Então às vezes tem que olhar para mentalidade quem viveu em épocas de crise, é porque é uma mentalidade mais de sobrevivência e de proteção.

E eu acho que o homem ele tem que colocar isso na cabeça dele. Tem um trecho muito forte para mim do Consolação da Filosofia, um dos melhores livros da história. Quem nunca leu Consolação da Filosofia, leia Consolação da Filosofia. É simplesmente um dos top books da história humana. E o Boécio, ele tá tentando restaurar a educação clássica romana depois da queda do Império, e o projeto falha. Você vai falar, poxa, então desespero, porque pensa, 100 anos depois da queda do Império, ele fala, vou trazer de volta, vamos trazer de volta educação clássica, tal.

Resultado, ele é preso, falsamente acusado, trancado, e vai morrer na cadeia. Então esse livro foi escrito depois dele ter falhado. Esse vai falar, poxa, então se esse livro vai ser escrito depois dele ter falhado, então não tem, não tem esperança. Só que na verdade o livro ajudou a fomentar toda a retomada da educação clássica lá para frente na Idade Média. 300 anos depois da morte do Boécio veio a restauração que ele queria, por pessoas que leram o livro dele.

Então, na verdade, ali naquele momento só tá vendo o cara que morreu, você não tá enxergando o que vai vir depois. É o mesmo fenômeno do cara que tá vendo o Cristo crucificado, o cara tá falando: olha, já era. E é muito bonita a constelação da filosofia, porque A filosofia aparece para o Boécio, a dama da filosofia, e ela fala: você esqueceu que você tem uma alma. Então, muito dessa, dessa, desse período de crise, de novo tem esse tema no Senhor dos Anéis, quando ele fala: olha, não cabe ao homem saber o seu destino, mas é o melhor que ele pode fazer com o tempo que lhe foi dado.

Essa ideia de fazer o melhor com o tempo que lhe foi dado é muito bonita, porque pensa, você vai viver um X número de anos, Você não vai viver perpetuamente, você vai viver num mundo que vai ter crise, vai ter crime na rua, vai ter inflação, vai ter talvez hiperinflação dependendo do sabor da nossa liderança política atual, vai ter crise do dólar, você vai assistir um monte de, vai ter inverno cripto, então sei lá, tem, tá rolando toda, tem um amigo meu, coitado, que ele meio que faliu na cripto, né?

Não sou eu, tá, gente, não é o Bruno, mas eu tava conversando com o cara e ele, Guilherme, é isso, meu, meu dinheiro era Bitcoin, derreteu e eu tô mal. Mas tudo bem, agora ele não vai vender e vai segurar lá e tal e tudo mais. Mas esse é o ponto, vai ter inverno cripto, vai ter inflação, vai ter tudo mais. Você é uma alma que nasceu nesse período, você é um cara que tá ali naquele período. A questão é qual é o heroísmo e qual a batalha que você vai lutar nas circunstâncias que te foi dada.

Não é eu gostaria de ter nascido numa época hipotética distante, porque— e aí essa pergunta do John Rawls, eu diria, olha, sim, ele tá analisando um outro ângulo, que é um ângulo material, né, de condições, e super. Mas eu não nasceria no futuro também, porque Deus quis que eu nascesse nessa época, porque essa é a minha batalha. A batalha do futuro, que talvez tenha resolvido outros problemas Talvez muitos desses problemas que o John Rawls tá falando, poxa, não tivesse câncer, sei lá, outras coisas.

BPBruno Perini

Teoricamente será melhor, né?

GFGuilherme Freire

Em tese seria melhor, mas eu não nasceria, porque não é a minha batalha, é a batalha de outra pessoa, é a batalha dos meus filhos. Existe um tema muito forte na filosofia que é você abraçar quem você é. Volta para o que a gente tá falando, abraçar o seu destino, abraçar o rumo das coisas.

BPBruno Perini

Um amor fati.

GFGuilherme Freire

Essa ideia do amor fati, que é curioso, né? Ela não é tão distante, dependendo da forma como você interpretar, com a má providência divina. Que Santo Agostinho escreveu muito da obra dele na queda do Império Romano, ele tava vendo tudo desabar. Então eu não— eu, sabe quando teve o impeachment da Dilma? Sempre conta essa história porque chegaram para mim e falaram: o gigante acordou, Guilherme, tá tudo Tá tudo agora, o Brasil vai voar e tal.

E aí eu olhei e falei, putz, a vida, o que que eu falo para eles, né? E eu tava num jantar, eu fui muito desagradável no jantar. Eu tenho, eu tenho esse, ei, tem que fazer o quê, né? Às vezes eu puxo o assunto que vai matar o jantar, né? E aí eu lembro que eu cheguei e falei, pessoal, eu acho que esse impeachment não vai dar em nada e o Lula vai ser o presidente do Brasil. E aí todo mundo olhou e falou, meu, Guilherme, tá muito louco.

Eu lembro de um amigo meu que falou, amigo meu me chamou preocupado e falou, Guilherme, Você não tá entendendo nada do que tá acontecendo na política, você deveria parar de falar sobre isso, tal. E aí eu falei, olha, eu acho que não vai dar em nada, tal. E eles vão falar, poxa, é que você é um pessimista crônico, é que não sei o quê. Não, é que na verdade você tá tentando, é o mesmo problema que a gente falou da ordem de grandeza, está tentando no volume 2 um negócio que você precisava no volume 12.

Então não tá nem no mesmo ballpark, não tá no mesmo ângulo. O que você tá tentando. E aí eu lembro que eu olhei e falei isso. Então é engraçado porque nada mudou na minha cabeça. Não é que, não é que para mim a política melhorou muito de lá para cá, sabe, ou mudou muito. Aliás, para mim a política não mudou muito desde 1889, entendeu? Sempre falo para as pessoas, já cogitou que a República Brasileira tá dando errado desde o dia que ela foi criada?

Não é, não é que ela, e que ela foi criada para dar errado mesmo. Ou seja, não é que ela começou a dar errado no seu lifetime, sabe? É que tipo na época do seu bisavô já não tava dando certo, entendeu? Sei lá, quando começou já tava dando errado. Então é um pouco o medo e a desordem são maus conselheiros. E na verdade todo medo é mau conselheiro. Isso é louco, todo medo. Não a temeridade, né, mas o medo é um mau conselheiro. A falta de esperança é má conselheira, assim como otimismo desmedido.

E como tem no poema do Kipling, é próprio do homem pegar as verdades que ele falou sendo distorcidas e reconstruir as coisas com ferramentas gastas, né? História muito bonita. Quem abraça a verdade já tá contra a crise. É o trecho do Erich Wöglin que ele fala isso, fala: não é porque o mundo tá em crise que você deveria estar em crise. Se você começa a resolver a crise da sua vida, a crise do mundo já é menor, porque você você é um bolsão de ordem no mundo desordenado.

E pensando de maneira só material, mundo desordenado também é um mundo de oportunidades, oportunidades de várias naturezas. Igual todo empreendedor vai falar isso para você. Olha, todo mundo no mercado financeiro fala: olha, cara, na crise que eu cresço. Muitas pessoas são assim. Então eu acho que não é comemorando a crise, ninguém tá aqui falando: a crise é bom, então você tá fingindo que tá tudo bom. Poliana. Aliás, eu sempre achei estranho esse filme em muitos aspectos.

Não sei se é porque, enfim, mas é uma diferença católica-protestante que não é o tema aqui nosso. Mas a história da Poliana sempre me deixou estranha, que é tipo, aí tudo é ótimo, tudo é positivo. A gente fala, não, não, não é assim. Tem uma coisa mais Mel Gibson, tipo Paixão de Cristo. É, tem luzes e sombras, não é? A coisa não é tão retilínea assim, não é? Tá tudo maravilhoso, ah, virei cristão, agora tudo é é rosado e bom e não sei o quê.

Eu acho que existe luzes e sombras, mas o Barroco nesse sentido tá mais correto do que o mundo atual. Então eu acho que com o tempo você vai aprendendo a ver as épocas como iguais perante Deus, que é uma beleza nisso. Sei lá, os homens da Renascença, eles se matavam, tinha brigas dinásticas e construíam helicópteros e tanques e coisas incríveis. Os homens da Idade Média tinha peste e coisas horríveis e eles construíram catedrais e e coisas belíssimas.

Os homens da época atual tem zumbis, woke craque em São Francisco, e gente que indo para Marte, sei lá, construindo foguetes. Nesse mesmo Brasil que tem muitas coisas afundando, tem gente construindo coisas incríveis, fazendo coisas que são chocantes. Até lá, por exemplo, você pega, sei lá, a Cris Junqueira do tá lá nos Estados Unidos andando na Fórmula 1, entendeu? Botando empresa nos Estados Unidos. É muito louco, né? Porque ela saiu lá do escritório Itaú aleatória e beleza, agora tô aqui já mais velha, já venceu, já fez o negócio.

Fala, beleza, agora eu vou dobrar a aposta aqui e vou fazer um baita do negócio nos Estados Unidos aqui, Fórmula 1 e tal.

BPBruno Perini

Não, sempre falo que só tem duas organizações brasileiras que elas pensam em conquistar o mundo, né, cara? Assim, se expandir para fora do Brasil. Uma investível, outra não. O Nubank, o PCC.

GFGuilherme Freire

Então, mas o Nubank é o espírito, vai saber no futuro. Mas essa é a escolha que o Brasil tem que fazer. O Brasil tem que escolher se ele vai ser Nubank ou se ele vai ser PCC. Essa é uma escolha e o Brasil tem que escolher um lado ou outro. E eu super defenderia que ele fosse Nubank, ou seja, eu sei que é óbvio para vocês, mas ó, é só para dizer que que nesse Brasilzão tem muita gente que não vai falar dessa maneira, mas que tá óptimo PCC.

BPBruno Perini

Falando, não, não, eu não sei se você pensa assim no espectro, apontando bem contra PCC. Eu acho que a gente tá mais PCC lá daqui, pô, atualmente a situação.

GFGuilherme Freire

É, tem gente, tem muita gente que olha e fala, nossa, é verdade, né, PCC, que bela instituição. Mas é organizadinho e tal. A Venezuela não é tipo um estado PCC? Tipo assim, tipo, PCC virou estado, né? Os cara vão fazer uma cumba e crime organizado, não sei o quê e tal, e blá blá blá. Independente, o ponto é que a cabeça, eu acho que é um momento muito bom para voltar esses grandes clássicos e entender a filosofia do declínio, entendeu? O porquê as coisas declinam, né?

MPMalu Perini

Perfeito.

BPBruno Perini

E aí, só para encerrar, Guilherme, tem uma última pergunta, porque a gente falou bastante essa parte coletiva, mas Mas como fazer para o indivíduo que está assistindo a gente agora e fala, cara, eu quero ser esse ponto de ordem na minha vida, na vida da minha família, da minha comunidade? No que ele deveria focar?

GFGuilherme Freire

Não, eu acho que dá até para mim dar, porque não sei nem se a gente falou tanto sobre a solução coletiva, mas uma decorre da outra. Então a primeira coisa que você entender é, eu estou num contexto que tem propaganda contra mim, tem muitas coisas contra mim, então eu vou começar a me desligar dessa propaganda. O que que é se desligar dessa propaganda? Começa a minar nas suas redes sociais tudo que não é conteúdo. Corta, começa a cortar mesmo, bloquear, tirar, tal.

Começa a se desintoxicar das coisas que estão te intoxicando: pornografia, Brasil na Copa. Começa a arrancar tudo do seu entorno que tá te desmoralizando, que tá jogando contra você. Noticiário político muito louco, não com todo respeito, você acompanhar ele, não acho que você não deveria estar informado, mas também você ficar emocionalmente acompanhando cada manchete que inventam, cada pesquisa falsa, porque é que seja, não adianta.

Então o que que você deveria fazer? Começa a se desintoxicar de várias coisas. Isso é um primeiro ponto que resolve o problema de desmoralização. Depois começa a focar em coisas reais. Aristóteles fala muito que os bens exteriores, eles são muito menores do que os bens internos. Então, o que que eu colocaria? Uma coisa é cultivar o seu corpo, voltar isso, porque isso é um tema também. Você super entrou no jiu-jitsu e tal, quando você toma porrada na cara, não tem muito— tudo bem, vai, às vezes nem é soco na cara, mas sei lá, quando você tá sendo estrangulado, não é que você tem muito tempo para ser relativista, entendeu?

Você começa a voltar para a realidade, é bem absoluto, é bem absoluto, e você começa a se territorializar. Então começar a cultivar o seu corpo é um tema muito forte para voltar o controle. Vá numa missa porque você vai se conectar com espiritual. Mas eu não tenho fé. Não tem problema, vá na missa sem ter fé, não precisa ter fé, senta ali e assiste, porque você já tá conectado com algo que é de outra época, que transcende as épocas.

Pega um trabalho para fazer muito forte na sua empresa, na sua casa, Eu vou pintar minha casa, vou consertar o fogão, sei lá, vou pegar uma coisa na empresa, aquela pilha de papel que tem na empresa, e vou limpar ela, vou resolver, vou resolver um gargalo aqui. Faça alguma coisa até o final, porque quando você faz isso, você vai voltando. Pega um final de semana e vai para o mato, Pantanal, volta isso. Leia uma coleção de livros inteira, sei lá, Senhor dos Anéis para os homens, Jane Austen para as mulheres, sabe?

Já seria, pensei em algo bem acessível que dá para você fazer desde os 14 anos de idade. 5 livros seguidos mexe na sua mente, sabe? Lê a Bíblia antes de dormir, começa a ler esses livros. A Bíblia é do mal, são do mal, tá, tá bem legal, todo mundo é do mal. Lê o Evangelho, vai, senta lá e lê, e depois você fala se é do mal, e depois você pensa em outra coisa. E tudo isso, se você não tá consumindo noticiário, se você tá trabalhando duro, se você tá cuidando, tenha filhos.

Meu Deus, tem um filho, cuide dele de verdade, não deixa ele largado lá, cuida dele. Tem um filho, entendeu? Tem mais, na verdade, a gente já falou que o número ideal aqui é 4, a partir de 4 é o número mágico. Eu tenho 5, e aí tem a resposta agora de diferença de 5 e 4: não tem nenhuma. Qual que é a minha impressão, tá? Entre 5 e 4 não faz diferença alguma porque já são tanto que você já não sabe mais a diferença. Então eu não sei, não sei os 6, mas eu provavelmente vou supor que 6 também, porque acho que a partir de um certo ponto você já desligou completamente.

Acho que é por isso que as senhorinhas tinham 12 filhos, porque elas olhavam e falavam assim, cara, depois do— tem até uma moça, não sei se já conversaram com essa, a Mari Arasaki, vocês já viram ela?

MPMalu Perini

Já viu o perfil?

GFGuilherme Freire

Coração de Mãe. Essa era uma conversa divertida, talvez um dia. Mas ela tem muito mais que eu ainda, porque eles nascem ainda de 2 em 2, né? Gêmeos e tal. Enfim, tudo fascinante. Mas tem um filho. E eu acho que com relação ao mundo, estude épocas, leia sobre épocas mesmo. Coisa boa, ler sobre épocas de crise. Vai falar, pô, Guilherme, já tá na crise, quer que eu leia sobre época? Não, leia sobre época de crise, veja como foi a queda do Império Romano, veja como foi não sei o quê.

Isso tira você um pouco do mundinho do tipo, a minha crise é a única crise da história. Sabe aquela coisa meio criança mimada? Tipo, eu estou passando o maior drama da história humana. Cara, a geração Z, é um dos maiores fatores de pânico da geração Z, acaba a bateria do celular. Assim, eu entendo, tem problemas reais, sabe? Mas porra, assim, você precisa ler um pouco o que foi a queda do Império Romano para você ver que você tá tá bem, cara, entendeu?

Você não tá tão mal assim, você tá bem. Então eu acho que a linha muito para lidar com a crise é você se reterritorializar. Deterritorializar é um termo do marxismo dos anos 70, 80, né, que eles falavam de deterritorializar o cara, desconectar o cara da sociedade, da sua comunidade. E eu acho que a gente tá precisando desesperadamente é voltar isso, sabe? A gente com cabeça de eu vou construir. E aí eu acho que sim, se alguém quiser algum envolvimento político, política local, sem dúvida, acha um cara de alto nível e bota ele para ser o prefeito da sua cidade.

Isso vai ser muito mais eficaz do ponto de vista, isso é muito mais possível para você do que tá preocupado. Claro, se você tá assistindo isso e é, sei lá, uma pessoa extremamente influente, beleza, e a política nacional talvez seja um tema para você, mas para a gigantesca maioria das pessoas que estão assistindo, o fato de você estar toda hora preocupado com a política nacional e não tá preocupado com o prefeito da sua cidade talvez seja bastante grave, porque ali você conseguiria influenciar.

Sei lá, um empresário local consegue influenciar a eleição do prefeito da cidade dele e ele consegue pegar um amigo dele de alto nível e botar como prefeito muitas vezes. E aí às vezes eu vejo que ele deixa de fazer isso porque ele tá preocupado com alguma outra coisa hipotética e aí não resolve. E se você olhar mesmo no nível dos estados, esse Brasil aqui, olha, tem um pedaço do Brasil que tá rodando bastante apesar das crises, sabe?

Tem, você olha sul, sudeste, tem um pedaço do centro-oeste, tem um Brasil profundo aqui que tá funcionando como se nada tivesse acontecendo. Não foi meu avô que, meu avô mora em Curitiba, ele falou, Guilherme, o mundo pode estar pegando fogo, mas aqui em Curitiba nada muda. Então tem um pedaço do Brasil rodando. Então Então eu diria que se alguém quiser uma área de atuação em política, política local é algo bastante fascinante.

E é isso, eu acho que construção de empresas obviamente é uma das coisas mais poderosas que você pode fazer, tá? É engraçado porque é um mundo muito keynesiano. O que eu quero dizer com isso? É um mundo de inflação e quero consumir agora, quero agora. O mundo de savings, né, É um mundo de longo prazo. O Warren Buffett, com os defeitos que ele tem, ele tá lá no Omaha e para ele o negócio dura 30 anos, tá lá 30 anos andando. É porque investimento é uma mentalidade de longo prazo, de posterioridade, de cabeça, é da natureza.

Claro, tem tipos de investimento diferentes, mas tem algo assim, né? Se você entra nessa lá, mesmo uma coisa mais monárquica, louca, tipo private equity, mas é demorado, a natureza dele é demorado. Sim, então é um ciclo longo. É, então na verdade eu acho que a pessoa tem que fugir um pouco da inflação, fugir da mentalidade inflacionária, da mentalidade do tipo: não, tem que comprar agora, tem que consumir agora, tenho que ter o carro, que qualquer coisa.

Se desapega um pouco disso, fala: não, cara, o dinheiro não vai me dominar, o dinheiro ele é uma ferramenta que eu vou crescer, vou crescer na vida e ele vai ter prosperidade e tal, mas eu vou subordinar isso à minha família e meu desenvolvimento. E eu acho que desligar um pouco, no melhor sentido da palavra, da maneira como Marco Aurélio falou, como outros, isso vai te blindar para crise. E aí você vai ajudando seus amigos um a um.

Não precisa tentar mudar o mundo. Chama um amigo seu e chama ele para tomar um café e falar para ele, cara, muda isso, melhora isso, muda a perspectiva dele, muda o seu amigo, entendeu? Você não vai mudar o planeta, muda o seu amigo. Porque se você tem agora um amigo bom, filho bom, casamento bom, uma empresa boa, eu não sei o quê, o mundo pode estar a porcaria que for, cara, o seu mundo não tá ruim, entendeu? O seu mundo tá muito bem, o seu mundo ele tá crescendo.

Então é louco isso, porque qual é a solução coletiva? É que todo mundo, se muitas pessoas começarem a fazer isso, muitos líderes começarem a fazer isso, isso, a solução coletiva já começou a acontecer sem você perceber. Então eu acredito muito sim na mudança individual como ferramenta para mudar a sociedade como um todo.

BPBruno Perini

Acho que a gente poderia resumir o que o Guilherme disse em: arrume a sua cama, o seu quarto, a sua casa, a sua vida, para depois querer arrumar o restante, né? E não eleja políticos, não arrumaram a casa deles antes de querer arrumar o país, por exemplo.

GFGuilherme Freire

Bom, mas aí a gente tá, meu Deus do céu, né?

BPBruno Perini

Vai ter que trocar muita gente, tá gerando demais, que vai ter que passar uma linha.

GFGuilherme Freire

Mas é isso, é bom, é basicamente, eu gosto dessa reflexão, eu gosto que as pessoas pensem e falem, caramba, então tem que mudar muita coisa na minha vida e no país. Fala, é, mas isso é bom, é bom você percebeu isso.

BPBruno Perini

Bom, Guilherme, muito obrigado pela presença. Para quem quiser acompanhar mais o seu trabalho, redes sociais, divulgue aí tudo que você quiser, cara, casa é sua.

GFGuilherme Freire

Guilherme Freire no YouTube, Guilherme FCL Freire no Instagram. E minhas empresas são Em Busca da Verdade, que é formação de empresários, e Filosofia do Zero.

MPMalu Perini

Muito bom, obrigado, Guilherme. Vocês encontram a gente aqui semanalmente no canal dos Sócios, sempre com episódio novo para de alguma forma agregar na sua vida. Também me encontram no @maluperini no Instagram.

BPBruno Perini

Vocês me encontram no Instagram, @bruno_perini, YouTube, Você Mais Rico, e sempre aqui nos Sócios. Para quem assistiu o nosso, muito obrigado pela audiência. Nosso convidado, é um prazer recebê-lo, espero que volte mais vezes. E é isso, pessoal, um grande abraço e até próxima.

MPMalu Perini

Beijos!

A GERAÇÃO ATUAL ESTÁ PERDIDA? (com Guilherme Freire) | Os Sócios #306 | Castnews Index — Castnews Index