COMO O ÁLCOOL AFETA O SEU CÉREBRO: vício, dopamina e ambiente (com Vitor Blazius) | Os Sócios 301
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Você gosta de beber uma cerveja aos finais de semana? 🍺
A sensação é comum, quase automática. Um encontro com amigos, um jantar, um momento de descanso… e lá está a bebida alcoólica ocupando um espaço que, para a maioria das pessoas, parece inofensivo.
Mas o que a ciência revela não apenas sobre esse hábito — ou até mesmo sobre o início de um possível vício — mas sobre todo o mecanismo que acontece no seu cérebro quando você ingere um copo de cerveja, vinho ou qualquer outra bebida alcoólica?
Quais são exatamente os mecanismos pelos quais o álcool afeta o seu cérebro?
Será que uma taça de vinho realmente faz bem ao coração?O quanto a genética influencia a forma como cada pessoa reage ao álcool — tanto em termos de prazer quanto de risco de desenvolver dependência — e até que ponto o ambiente, a cultura e a normalização social são os verdadeiros responsáveis por transformar o consumo em hábito?
Será que é possível parar de beber sozinho, e quanto disso depende de fatores biológicos, psicológicos e do contexto em que a pessoa está inserida?
Para responder a estas e outras perguntas, convidamos o psiquiatra Vitor Blazius para o episódio 301 do podcast Os Sócios.Ele será transmitido nesta quinta-feira, às 12h, no canal Os Sócios Podcast.
Hosts: Bruno Perini @bruno_perini e Malu Perini @maluperini
Convidados: @drvitorblazius
- Abuso e exploração sexual de crianças e adolescentesIdade média de início do consumo de álcool no Brasil · Influência da família e do ambiente · Tempo, supervisão e confiança como pilares · Perigo do consumo antes dos 25 anos · Estudo do Parque dos Ratos (Bruce Alexander) · Eficácia do ProERD
- Consumo de ÁlcoolMecanismos de afetação cerebral · Vício e dependência · Dopamina · Genética e álcool · Ambiente e normalização social · Síndrome Alcoólica Fetal · Neurotoxicidade do álcool
- Escândalo Irã-ContraContexto histórico da Lei Seca · Al Capone e crime organizado · Consequências da proibição · Experiência da Rússia com redução de vodka · Salões e abuso de álcool · Smashing the Liquor (livro) · Guerra do Ópio
- Vícios e dependência químicaDefinição de dependência · Vício vs. dependência · Celular e dependência · Casas de apostas · Açúcar e dependência · Craving
- Programa Família FortesCommunity Reinforcement and Family Training (CRAFT) · Amor Exigente · Alcoólicos Anônimos (AA) · Abordagem baseada em evidências · Reatância psicológica · Reforço positivo vs. negativo
- Uso de substânciasCrack e cocaína · Heroína · Fentanil · Maconha (natural e sintética) · Drogas novas (N-Bome, Kratos) · Opioides · Síndrome amotivacional hedônica
- Genética e força naturalPredisposição genética · Estudo na Islândia · Estudo em Diadema · Fatores de proteção (orientais) · Relação com o ambiente
Bruno Perini:E aí, pessoal, vamos começar mais um episódio do podcast Os Sócios. Quem fala aqui é Bruno Perini, host do podcast. Estou como sempre com Malu Perini, minha esposa, host, o belo rosto dos Sócios.
Malu Perini:Olá, pessoal, sejam bem-vindos a mais um episódio dos Sócios.
Bruno Perini:E sobre o que falaremos hoje, Malu?
Malu Perini:Hoje vamos falar da ciência por trás dos vícios: álcool, dopamina Independência.
Bruno Perini:Isso, e trouxemos para isso um convidado pela primeira vez aqui no Sócios, nunca veio antes, mas antes de apresentá-lo eu tenho um recado para vocês sobre uma grande oferta que faremos junto com o pessoal da AGF pela primeira vez, o Grupo Prime AGF, um pacote de 16 produtos pelo preço de um. Lá você vai ter a Turma 36 do Viver de Renda, os cursos do Thiago, o jeito Barsi de investir, tem o MBA Value Investing do Barsi que sozinho custava R$12 mil, Tudo isso junto, os 16, com desconto de 87% para que você possa levar. Tem a Finclass, o aplicativo da GF, as carteiras recomendadas. Então, para quem quer começar a investir ou se aprofundar mais nesse mundo, é uma baita oportunidade que talvez não se repita no futuro. A gente chamou realmente de O Legado, juntando o que tem de melhor nas duas casas para levar até você. Para que você possa estar por dentro de tudo isso, a gente tem um QR code na tela e um link na descrição. Basta se cadastrar, fazer sua pré-matrícula e ficar atento aí para as informações que nós passaremos ao longo das próximas semanas. Então espero te ver lá. Bom, agora apresentando o nosso convidado, a gente recebe aqui pela primeira vez nos Sócios o Dr. Vitor Blasius. Ele é médico psiquiatra especialista em psicoterapias, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atua com divulgação científica de práticas baseadas em evidências sobre álcool e dependência, além de treinamento de familiares. Vitor, bem-vindo ao Podcast Sócios.
Vitor Blazius:Muito obrigado, é um prazer estar aqui. Espero que seja bem produtivo para todos.
Bruno Perini:E o que que seria esse treinamento de familiares aqui? A primeira coisa que chamou atenção, né?
Malu Perini:Não, é porque eu falei do jeito que ele escreveu, né, ou que escreveram, alguém escreveu isso. Eu falei, achei curioso como descreveu o serviço, porque de fato eu tava lá olhando o Instagram dele e ele fala bastante para os familiares das pessoas que têm dependência. Então acho que às vezes Por que seria isso? Porque a pessoa que tem dependência geralmente não se...
Bruno Perini:Não quer procurar ajuda, é o familiar que procura.
Malu Perini:Não consegue ser avaliada como uma pessoa que tem dependência, acho.
Vitor Blazius:Sim, é que a gente vai poder... Eu espero poder esclarecer isso até o final, mas para começar a responder, é porque as dependências em geral afetam o processo de tomada de decisão e muitas vezes afetam a própria percepção da pessoa que está com um problema. E ao mesmo tempo nós temos influências sociais e culturais que fazem toda a diferença em como esse transtorno se manifesta. E as informações que as pessoas recebem, né? Experimenta jogar no Google: "Como ajudar um familiar alcoólatra?" Você vai se deparar com lixo, que não é só inútil, que muitas vezes é pior, atrapalha. E existem treinamentos para familiares para entender o que fazer, como gerenciar isso para que o seu familiar queira e perceba que precisa mudar e faça aquilo que é necessário para que ele mude. E como isso afeta muitas e muitas pessoas, elas precisam saber disso, né?
Malu Perini:Sim, com certeza. E você que pararia o álcool e dopamina, como a gente, acho que nós somos a geração mais dependente de dopamina que existe. Eu acho que até o final você vai diagnosticar todos nós, né? Inclusive todos nós dependentes de dopamina. Acredito que a gente no celular tá todo mundo dependente. E qualquer um dá uma tolhinha, eu paro a qualquer momento.
Bruno Perini:Você para mesmo?
Malu Perini:Eu paro.
Bruno Perini:Se eu jogar teu celular fora, você não vai entrar em crise e me bater?
Malu Perini:Não.
Vitor Blazius:Dependendo do momento.
Bruno Perini:Ah, não vai. Eu não, mas a boa prestação... Mas, por exemplo, se a gente viaja pro meio do mato, você fica sem celular uma semana, você fica de boa?
Malu Perini:Você não. Fico de boa. Não sei.
Bruno Perini:Existe realmente uma dependência hoje em dia do celular?
Voz D:Não, não existe, mas brincando um pouco, dependendo do contexto, eu consigo imaginar algum contexto em que tirar o celular poderia evocar uma resposta agressiva.
Vitor Blazius:Não, com certeza.
Bruno Perini:O cara que acabou de comprar um iPhone parcelado em 12 vezes, ele vai tentar tirar o celular...
Vitor Blazius:Pega o seu celular, ele cai no chão e quebra. Pô... Sacanagem!
Bruno Perini:Sim, com certeza.
Voz D:Isso também importa.
Bruno Perini:Dependência nisso?
Vitor Blazius:Dependência...
Bruno Perini:O que é dependência primeiro?
Vitor Blazius:Dependência é muito... Eu vou explicar de várias formas ao longo desse podcast, mas a primeira mais simples e mais fácil de entender, eu vou começar por ela. É quando você continua fazendo uma coisa que te traz problemas. Eu percebo que uso muito o celular e isso atrapalha os meus objetivos principais. Por exemplo, eu deveria estar trabalhando e isso se repete ao ponto de que eu tenho prejuízos com isso, mas eu continuo mexendo no celular dessa forma destrutiva. Aí a gente pensaria numa dependência, nos termos úteis.
Bruno Perini:E um vício seria a mesma coisa ou não?
Vitor Blazius:O vício é uma forma historicamente pejorativa de dizer isso.
Voz D:É a mesma coisa, mas tem uma carga um pouco mais pejorativa, né?
Vitor Blazius:Para dizer que aquela pessoa tem um problema que Muitas vezes se mistura com uma falha moral ou de caráter.
Bruno Perini:E hoje, se a gente pega em termos assim de vício, de dependência, o que que tá aparecendo mais no seu consultório? Porque aqui no título a gente botou a questão do álcool, que historicamente afeta muita gente, mas a nova geração, por exemplo, tá bebendo cada vez menos. No entanto, estão cada vez mais utilizando o celular, casas de apostas, que também gera uma certa dependência. E quando você falou desse comportamento de dependência, continuar fazendo algo que te traz prejuízo, o que veio na minha cabeça na hora foi isso: aposta.
Vitor Blazius:Sim, aposta é muito relevante, mas ainda não chegamos perto do que é o transtorno por uso de álcool, que é disparado o que mais as pessoas têm problemas. Apostas está crescendo muito agora e tem muita gente desenvolvendo transtornos por conta disso. Tem potencial. Tem potencial, mas o álcool ainda É campeão, é a droga liberada historicamente, abusada, é a única droga que você precisa explicar por que você não está usando. É verdade. Ela continua sendo, infelizmente, campeã.
Malu Perini:E ainda então é...
Vitor Blazius:E os jovens não estão bebendo menos.
Malu Perini:Não estão.
Voz D:Não.
Vitor Blazius:Essa é uma informação que aí eu já começo, não é querendo ser polêmico, precisando ser, porque é uma informação que talvez incomode até quem está assistindo, Entendeu o que eu quero dizer? No Brasil hoje nós temos algumas fontes de informação a respeito de álcool e quanto as pessoas estão bebendo. Em contrapartida, nós temos dados muito escassos nacionais. As últimas pesquisas tinham, sei lá, 1.000, 2.000 pessoas nos principais inquéritos. Alguns vendo só capitais, outros vendo pelo telefone. Então são dados muito frágeis quando a gente compara com os dados mundiais e outras estatísticas mais robustas. E quem divulga e coloca uma narrativa em cima daquilo que está aparecendo nos dados, que eles são um emaranhado gigantesco de dados, quem divulga dessa maneira dizendo que o James East está bebendo menos, existe uma certa tendência a uma parcela da população que bebe menos, isso é verdade, mas quando a gente pega o escopo de toda a população, se está bebendo ou igual ou mais, porque isso polarizou um pouco mais, quem bebe, bebe mal, bebe muito. E ainda a gente tem dados frágeis sobre o que o James E.
Voz D:está fazendo.
Vitor Blazius:E a parte polêmica disso é que o instituto que mais divulga a respeito do álcool se chama CISA, Centro de Informações de Saúde e Álcool, que é bancado pela Ambev, né? A Bembev.
Voz D:A Bembev, né? A sigla muda porque eles acabam comprando cada vez mais. Mas é, eu chamo de Ambev que é mais simples de dizer.
Vitor Blazius:Quer dizer, que fazem investimentos massivos em poder trazer a narrativa nacional a respeito do álcool sendo controlada por pequenos desvios de como eu explico isso, né? Por exemplo, quando eu digo que a Gen Z está bebendo menos, então tem uma tendência a beber menos. Não que a indústria seja insensível a essa parcela de público que está bebendo menos, mas já começam a investir mais em marketing para pessoas que querem beber menos ou não beber, com maior incentivo para influenciadores que vão divulgar bebidas sem álcool. Isso parece uma medida interessante, parece que existe uma preocupação, que é exatamente o oposto do que é. São medidas que acabam fazendo mais propaganda. E, em termos gerais, a OMS tem uma diretriz mundial para tentar controlar danos em saúde em geral, que estipularia para até 2030 reduzir em 10% o consumo de álcool, danos por consumo de álcool. A gente não está nem na metade dessa meta, a gente está muito distante disso e 2030 já está chegando, porque as medidas que são todas, que funcionam para reduzir problemas por consumo de álcool, elas são todas não divulgadas ou não incentivadas pelas principais pelos principais produtores de conteúdo, né, que produzir conteúdo é caro, custa, então quem mais se beneficia com a falta dessas medidas é justamente o principal divulgador dessas informações que depois vão para as revistas e vai ver lá fonte: CISA, Centro de Informações de Saúde e Álcool. Aí você abre o site, várias publicações que têm 80 ou 70% de verdade, que é suficiente para parecer supercreditável. No entanto, essa parcela que é não muito realista, ela distorce a narrativa e essa é justamente a distorção necessária para que a população continue sem a percepção de dano e sem a percepção daquilo que é necessário fazer para que se reduza esses danos pelo álcool.
Malu Perini:Entendi.
Vitor Blazius:E a maioria não é feita por alcoólatras. O álcool é a principal causa de morte evitável dos 18 aos 39 anos. Eu tenho certeza que algum conhecido de vocês já faleceu por conta do álcool sendo jovem. Eu já tenho vários.
Bruno Perini:Aí você diz, por exemplo, o cara que bebe e dirige?
Vitor Blazius:Por exemplo.
Malu Perini:Dois amigos. Duas pessoas, né?
Vitor Blazius:Bebe e dirige. Assassinatos, homicídios, né? 50% de quem comete e de quem sofre estava alcoolizado. Suicídios, a maioria envolve consumo de álcool, pelo menos como um dos fatores que favorece isso. Sem falar nas doenças mentais, uma das principais causas de absenteísmo ou de prejuízo no desempenho no trabalho, álcool disparado. A gente não vê por aí essas informações, né?
Voz D:A gente vê inclusive uma ressalva que é muito interessante, né?
Vitor Blazius:Vou falar para você tomar cuidado com uma coisa, Eu não falo: "Isso faz mal." Eu digo: "Faça isso com moderação." O aviso é sempre: "Beba com moderação." Nunca: "Não beba." Ou: "Esse produto faz mal." "Esse produto traz problemas." Não. O problema é a pessoa. Individualizam para que pareça uma questão de liberdade individual.
Malu Perini:Então, aproveitando esse gancho, todo mundo está apto a ser um alcoólatra? Ou não?
Vitor Blazius:Sim, sim, absolutamente.
Malu Perini:A gente ouviu, eu ouvi, né, por muito tempo que a pessoa tem o gene do vício, e aí se ela abusar, ela mais facilmente vai virar um alcoólatra ou vai ter algum tipo de vício. Não, qualquer pessoa pode.
Vitor Blazius:Isso é falso. Qualquer pessoa pode se tornar alcoólatra dependendo do quanto ela beber e quanto tempo. O que vai diferenciar é o tempo que ela vai precisar beber para chegar nesse estágio. Mas qualquer um que fizer força suficiente ou que for exposto o suficiente pode desenvolver o alcoolismo pelos mecanismos que ele sequestra o sistema de recompensa cerebral de uma forma que pega o sistema de hábitos e leva a pessoa a ficar vulnerável a consumir álcool mesmo quando ele está sendo um problema.
Bruno Perini:Mas eu vou dar um outro exemplo pegando essa pergunta da Malu, né? Há um tempo atrás eu li um livro do Malcolm Gladwell e ele usava um exemplo interessante, mas não com álcool, com cigarro. Ele citava um estudo onde as pessoas queriam ver se havia algum tipo de predisposição genética ao vício no cigarro. E aí ele pegava, né, porque muita gente começa a fumar porque vê o pai fumando. Então ele pegava pais que fumam com filhos biológicos e filhos adotivos e via, pô, ambos experimentaram cigarro. Mas o filho biológico, ele mantinha o hábito de fumar, ou vício de fumar, por muito mais tempo do que o não biológico. Então parecia que havia algum tipo de mecanismo biológico que era deixar ele mais suscetível àquela substância.
Vitor Blazius:Existe. E se a gente for pegar filhos de alcoólatras, enfim, eu vou usar esse termo porque é mais simples.
Malu Perini:Não pode mais falar alcoólatra?
Vitor Blazius:Pode, pode, mas a gente tenta fazer esforços para tentar tirar um pouco do estigma, né? Pessoa que tem Alcoolismo: Atenção Anônima. Isso é mais prejudicial do que positivo. Claro que as pessoas têm direito a receber o anonimato que desejem. O problema é a gente contribuir para que isso seja desejável. A pessoa sentir vergonha de ter um problema com álcool, na medida em que qualquer pessoa pode ter isso, acho que é perigoso e destrutivo.
Voz D:Então, por isso, alcoólatra dá a entender que a pessoa ama o álcool acima de todas as coisas, e isso é muito longe da realidade.
Vitor Blazius:E tem um estudo muito interessante, talvez um dos mais interessantes da genética que eu já li, que acompanhou, se eu não me engano, a Islândia, da década de 90 até 2000 e pouco, acompanhou uma corte, um dos melhores estudos que tem para a gente fazer, é um estudo prospectivo, que não olha de trás para frente, ele olha de frente para trás, depois que o problema já aconteceu olhar para trás, ele acompanha os jovens vendo quais são aqueles que vão desenvolver um transtorno, como vai ser o consumo de álcool ao longo do tempo, acompanhar esse processo usando esses estudos genéticos que tinham de melhor qualidade sobre o álcool para poder examinar aqueles genes mais interessantes. E o que se observou foi que durante a evolução do estudo, acho que é a Islândia, ela mudou o sistema de acesso ao álcool no país. Se eu não me engano, mudou o modelo econômico do país, abriu o mercado, algo assim. Eu sei que o acesso ao álcool ficou muito mais acessível e tudo aquilo que se esperava que os genes causassem causou o oposto. Então, isso demonstra pra gente que existe uma carga genética que é dependente do ambiente. Por exemplo, existem genes que podem fazer meninas beberem mais cedo do que meninos, sendo que a média é que os homens bebam um pouco mais cedo. Isso está diminuindo um pouco, mas na média. Mas a gente tem que comparar os genes com o ambiente. A gente está muito longe ainda de conseguir Aferir a partir dos genes quais, em determinado ambiente, quais variáveis do ambiente vão interferir com qual gene específico. Então existe uma predisposição de cada indivíduo para coisas que podem levar ao consumo, mas não existe um alcoolismo sem álcool. E o alcoolismo é muito sensível, as taxas de uma população de danos que vai ter em relação ao álcool e a proporção de alcoolistas, ela é muito sensível a mudanças como A disponibilidade do álcool, se ele está na padaria, se vê os pais bebendo, se a propaganda que o álcool promove, ter propagandas ou não ter propagandas, a disponibilidade em relação a horários de venda. Tem um estudo muito interessante que foi feito em Diadema, que os bares— havia muitos homicídios, principalmente de madrugada. Então fizeram um teste, em um intervalo de tempo colocaram uma restrição para que os bares pudessem abrir até às 23 horas. E caiu em 50% de forma imediata a taxa de homicídios. Isso é muito raro, é muito difícil de acontecer, né? Poder influenciar uma coisa tão grave com custo zero.
Bruno Perini:É, custo zero não pro dono do bar, né?
Malu Perini:É, pro bar, pro barman.
Voz D:É, o dono do bar de repente se prejudicou, né?
Malu Perini:Se prejudicou, mas é...
Bruno Perini:Mas eu entendo o ponto.
Malu Perini:É quase como quando a gente fala, né? Vai fazer dieta, não compra o doce, porque o doce dentro da tua casa é muito mais fácil de chegar lá do que no supermercado. "Ah, tem que pegar o carro e tal." É um processo muito mais difícil. Então, teoricamente, você vai deixar de comer.
Vitor Blazius:E quando a gente vê isso a nível populacional, o impacto é gigantesco. E a gente não tá falando de qualquer impacto, né? A gente tá falando de...
Bruno Perini:Homicídio.
Vitor Blazius:Homicídio ou de acidentes, né? Porque se for calcular o risco de beber demais de uma única vez, que é o consumo mais comum que tem no Brasil, tanto que daqueles que bebem, A maior parte dos homens abusa e acha que é uma quantidade normal. O dano que a pessoa precisa correr é uma vez só, né? Só precisa de um acidente fatal.
Malu Perini:É.
Vitor Blazius:E ela nunca vai achar que vai ser com ela naquele dia, né?
Bruno Perini:Sim. Mas aí, perguntando novamente essa questão da genética, então, por exemplo, se uma pessoa tem um pai alcoólatra e o ambiente é propício pra que ela beba, como você disse, é a única droga que a gente tem que explicar por que que a gente não usa, né? Filhos biológicos de pais alcoólatras teriam mais facilidade?
Vitor Blazius:Teriam mais facilidade, às vezes por ser mais rápido, é... Mas a gente não sabe exatamente quais são os fatores que favoreceriam isso. Aqueles mais claros são, por exemplo, se um indivíduo começa a beber e ele gosta muito do efeito, porque tem gente que vai gostar de formas variáveis, alguns nem vão gostar do efeito, Alguns vão se apaixonar pela primeira dose e já vão começar a beber e são fortes para bebida. Eu consigo beber muito e ainda tô ciente de tudo que tá acontecendo. Parece que a pessoa é imune. Esses são os critérios de maior risco para alguém desenvolver, porque a causa do alcoolismo é o consumo de álcool e ela só vai precisar, independente da quantidade, se ela consumir álcool por tempo suficiente. Quanto mais pior, mais chance ela vai ter de desenvolver alcoolismo. Então aqueles que toleram mais álcool como se fosse tranquilo, ela tem mais risco. O contrário também é verdadeiro. Talvez vocês também tenham algum conhecido que é oriental, talvez japonês.
Bruno Perini:Bebe, fica todo vermelho.
Voz D:Fica todo vermelho.
Vitor Blazius:Isso é um fator de proteção contra o alcoolismo, porque ele diminui o consumo de álcool. Então a gente começa a perceber uma pequena virada de etiologia. Por um lado, e é um discurso que predomina, é que a pessoa precisa de responsabilidade, porque é como se tivesse uma falha moral naquele indivíduo que é irresponsável, que é irresponsável, e ele vai ser o responsável, então, por conta desse problema que aconteceu com ele. E essa pequena virada é para olhar para que a substância que ele está consumindo gera uma quantidade de dependência comparável cocaina, que a gente tem uma taxa de mais ou menos 15% de dependência daqueles que experimentam álcool.
Bruno Perini:Caramba, é muito alta!
Vitor Blazius:Cocaína é 14%, com as margens de erro.
Malu Perini:Caramba, é quase igual, quase igual.
Bruno Perini:Pô, então de cada 10 pessoas que experimentam álcool, 1,5% se tornariam dependentes.
Vitor Blazius:Sim. E se você tiver isso, a gente tá separando aqueles que não bebem. Nós vivemos num país com uma grande proporção de pessoas que não bebem. Que não bebem nunca. Se você pegar só homens que bebem qualquer quantidade, pelo menos uma vez por ano, você vai encontrar uma taxa de 25%, 1 a cada 4 tem algum grau de transtorno por uso de álcool. Então quando a gente vai falar quem é alcoólatra, quem não é, você já conhece vários que na sua maioria, e é como é mesmo, leves a moderados, que o dia que tiverem que parar de beber vão ter alguma dificuldade. Isso passa todos os dias, todo mundo conhece várias pessoas que têm isso, mas não parece, porque todo mundo que bebe, bebe bem.
Malu Perini:E quanto que é então? Quanto a gente— existe uma quantidade ou algo que a pessoa fala: "Ah, essa pessoa então já passou do limite, já é alcoólatra." A minha curiosidade é: tem uma dose segura ou é tipo falar que a dose segura de cocaína é tanto?
Bruno Perini:Seria a mesma coisa.
Vitor Blazius:É possível que tenha uma dose segura de cocaína, a gente só não sabe ainda.
Malu Perini:Não saber também, né?
Voz D:Talvez ela é muito pequena. É que os estudos com cocaína foram travados há muitos anos, né? Parece que não tem e provavelmente quem usa não vai estar preocupado com essa dose segura. Com álcool essa preocupação surge. Mas só deixa eu te responder primeiro porque a tua resposta vai demorar muito mais.
Vitor Blazius:Tem uma taxa que é estimada, que chegaria—
Voz D:e aí que mora um dos argumentos que eu quero trazer, que é o seguinte: é difícil falar sobre álcool e é um dos mecanismos que torna difícil entender por que o álcool é um problema.
Vitor Blazius:A taxa é a seguinte: se o indivíduo chega a 0,08 de álcool no sangue, ele bebeu demais em uma única ocasião. Só que isso é muito difícil de calcular, porque tem o peso, tem o gênero, Tem a proporção corporal de água, altura, tem o quanto a pessoa bebe ao longo do tempo. Então, o que se estabelece é uma taxa de mais do que 4 doses para homens e mais do que 3 doses para mulheres. Seria beber exagerado, o binge drinking. A partir dessa quantidade, o risco de perder o controle do consumo aumenta e o risco de ter problemas graves numa única ocasião também aumenta muito.
Bruno Perini:Mas o que seria uma dose? Porque, por exemplo, uma cerveja tem um percentual de álcool.
Malu Perini:Quanto que é medido no bafômetro?
Vitor Blazius:No bafômetro?
Malu Perini:0,01?
Vitor Blazius:0,08.
Malu Perini:0,08 também?
Bruno Perini:Ah, então é essa a dose.
Vitor Blazius:Não, a dose para lei seca é menos.
Malu Perini:É menos?
Vitor Blazius:Porque a gente tem uma boa política de lei seca.
Bruno Perini:Ah, tá. Intolerância bem baixa.
Vitor Blazius:É. Nos Estados Unidos é mais. Se eu não me engano, é 0,8 nos Estados Unidos, ou 0,6.
Malu Perini:Entendi.
Vitor Blazius:Que eu acho que eram 3.
Malu Perini:Eu vou pesquisar aqui, ó, George Chaffee.
Bruno Perini:Mas aí, mas sobre essa questão de dose, porque uma lata de cerveja é uma dose, uma taça de vinho é uma dose, porque muda, né, o percentual de álcool.
Vitor Blazius:Se a gente morasse na Irlanda, a gente teria bem tranquilo em relação a isso, mas como a gente não mora, porque a Irlanda agora esse mês de maio de 2026 conseguiu, a duras penas, instituir uma legislação que colocasse isso na bebida alcoólica. Parece justo, né?
Voz D:Porque a bebida alcoólica, vai ver quantas calorias tem numa lata de cerveja.
Vitor Blazius:Como é que você faz pra ver? Não tem. Por que que não tem? Se tem tudo.
Voz D:Nunca se perguntou isso?
Bruno Perini:Não bebo cerveja, nunca vi, mas eu não sabia que não tinha.
Voz D:Não tem. Vinho, compra um vinho.
Malu Perini:Tem lá a quantidade, né? 0 ponto... quanto é?
Vitor Blazius:Tem a porcentagem.
Bruno Perini:Porcentagem de álcool. Mas não tem o restante das informações.
Malu Perini:É, não tem.
Vitor Blazius:Não tem quantas calorias tem, quanto carboidrato tem. Quanta vitamina tem?
Voz D:Quanto resveratrol tem?
Malu Perini:Agora tem, porque tá na moda a cerveja de... Algumas, as que têm menos.
Voz D:Quando interessa.
Malu Perini:Ah, não sei, eu não bebo cerveja. Aliás, eu não bebo faz 3 anos porque...
Bruno Perini:A gente quer engravidar, né?
Malu Perini:É, eu queria engravidar, daí eu fiquei sem beber, daí eu engravidei, fiquei sem beber, obviamente, porque existem mulheres que bebem grávidas, inclusive, o que é loucura.
Vitor Blazius:É porque 50% não sabe que não pode beber grávida.
Malu Perini:É, então não pode beber grávida, gente.
Bruno Perini:Realmente, recebi uma mensagem, era uma moça perguntando se ela tava tomando vinho durante a gravidez, que ela tomava uma taça por quanto, uma semana?
Malu Perini:A cada semana, eu falei, caraca, desculpa. Eu fiquei, gente, a criança, e a criança, se tudo deu certo, nasceu normal, né? Mas pode causar grandes efeitos no feto, então não pode beber grávida. Se você quiser ajudar a sua fertilidade, não beba antes de engravidar também. E se você estiver amamentando, também não pode, Pelo menos por 6 horas depois que você tá bebeu, você tem que esperar ao menos 6 horas para poder amamentar.
Vitor Blazius:Mas não beba.
Malu Perini:Mas não beba, exato.
Vitor Blazius:Nem antes nem depois da gestação, porque antes da gestação você tá aumentando, você tá gastando ácido fólico.
Malu Perini:Compete, né?
Vitor Blazius:É. E quando você tá nas primeiras semanas de gestação, que é quando tá construindo o sistema nervoso central, Você aumenta o risco e esse risco ele é dose dependente, mas também é idiosincrático. Quer dizer, um gole é capaz de causar, quer dizer, independente da dose, quanto maior pior, mas uma dose baixa também pode causar síndrome alcoólico fetal. Que é, que tem espectros graves, que tem alterações faciais, cranioencefálicas, mas a gente tem uma taxa no Brasil de 1% das gestações com síndrome alcoólico fetal.
Malu Perini:Caraca!
Vitor Blazius:Em que um fenômeno é indistinguível de um TDAH.
Malu Perini:Ou seja, talvez seu filho tenha TDAH porque você— não, eu tô generalizando, mas porque você bebeu uma taça de vinho. Vai saber, a gente não sabe.
Vitor Blazius:E eu acho que, claro, mas como é que é saber? É melhor não correr o risco. Mas deveria vir, eu acho, né, uma pequena coisinha dizendo assim: grávida, não beba.
Bruno Perini:Tipo um aviso de maço de cigarro, é, com a pessoa morrendo de câncer.
Vitor Blazius:Aí tá lá, esse seria o ideal. Estragado, porque não faz muito tempo que cerveja preta era boa para amamentação.
Bruno Perini:Tem anúncios antigos assim, você acha na internet sobre isso, né?
Malu Perini:Eu cheguei a cogitar quando eu tava no meu problema, quando eu tava na treta da amamentação. Aí passou porque eu tomei, como é que chama aqueles negócio que eu tomei, amor? Que é whisky? Era, era, ai, gente, Esqueci, fugiu o nome agora, mas tintura de algodoeiro, uns negócio lá que aumenta a produção de leite, que não é nada demais, não tem álcool, enfim, é sem álcool no caso.
Bruno Perini:Mas eu tinha perguntado sobre a dose segura.
Malu Perini:Tá, eu já calculei aqui, ó, o bafômetro mede o ar expelido e é até 0,04 mg por litro que é considerado dentro da margem. A partir de 0, então 0,5 já é infração administrativa.
Vitor Blazius:Dose segura. Eu respondi a última? Do Eru Essagêrio? Foi ramificando, né? Dose segura é um assunto muito importante porque não existe dose segura. Isso foi uma narrativa construída para o contrário, né? Porque até pouco tempo atrás, o que era predominante era que existia uma tal curva em J. O que que é uma curva em J? Existe o risco basal de um indivíduo ter uma doença. Se você não bebe nada, teu risco tá aqui. Se você começa a beber um pouco, teu risco tenderia a diminuir. E se você bebesse muito, o risco aumentaria de novo. Isso é a curva em J. Esse é o sonho da indústria da bebida, que isso fosse verdade. E alguns estudos até demonstraram essa curva em J. E durante muito tempo teve todo um discurso do paradoxo francês, Que o vinho tomado em pequenas quantidades nas refeições seria saudável para a saúde do coração ou para diabetes. E quando esses estudos foram revisados, havia uma falha metodológica muito grave e que toda vez que era corrigida essa falha metodológica, a curva em J desaparecia e o risco de consumir bebida alcoólica partia sempre para cima. Só que isso é bem polêmico, porque ficou muito claro na cabeça das pessoas que existe sim uma dose segura, porque o cardiologista disse que tinha uma dose segura e saudável, que fazia bem para o coração. E o cardiologista não tá ficando louco, ele tirou isso de algum lugar. Só que esses estudos são antigos e até 2010 era mais difícil encontrar uma literatura que pudesse estabelecer melhor essa causa e efeito. E só tem um jeito de poder ter certeza que o álcool faz ou não faz mal em doses moderadas. Porque ao longo da história, os estudos, a maioria patrocinados pela indústria da bebida, porque são caros, e eles se focavam no consumo exagerado, porque sempre existiu um medo de que fosse revelado que não existe dose segura e que sempre queriam defender a ideia da "Cruel Joke".
Malu Perini:É pra matar o cara, né? Se ele tá bebendo, ele tem que continuar bebendo, não pode morrer.
Voz D:Pois é.
Malu Perini:Interessante que ele sobreviva.
Vitor Blazius:E aí foram fazer, em 2013, um estudo um estudo gigantesco que precisava de centenas de milhões de dólares para poder ser feito. E já até deram o nome desse estudo de Match 13, em que uma das maiores instituições, o NIH, né, que é ligado ao NIH, que é a instituição de saúde mais renomada americana, foi conduzir esse estudo. Mas esse estudo teve que ser parado quando já tinham investido mais de 100 milhões de dólares, porque descobriram que fizeram todo um lobby para que forçassem, antes mesmo de começar a coletar os dados, para que essa curva em J acontecesse.
Voz D:Então, eles expuseram isso, inclusive os e-mails trocados.
Bruno Perini:Era comprado o estudo.
Voz D:Que o estudo era completamente comprado, antes mesmo de começar.
Bruno Perini:Ou seja, o estudo pago por mim para chegar às conclusões que eu queria previamente foi cancelado porque o pessoal não quis fazer isso.
Vitor Blazius:Inclusive, esse documento é público, quem quiser acessar. ACCD, mas digite "Match 13" que você vai encontrar isso, tem até no New York Times várias reportagens e tem a comissão verificadora que escondeu o nome do principal pesquisador, que foi, não deram tempo para outros pesquisadores participarem do estudo, mas depois ficou divulgado que o Dr.
Voz D:Mukamal, de Harvard, ia ser o único pesquisador que ia ter acesso a poder conduzir aquele estudo. E os e-mails trocados diziam, por exemplo, dependendo da indústria, queriam que falassem que a vodka sim, não só o vinho, então a cerveja, e cada um queria que a sua bebida de principal venda fosse aquela principal associada ao benefício da dose moderada.
Vitor Blazius:E aí o estudo foi cancelado e hoje em dia não pode mais ser feito um estudo desses porque evoluiu a metodologia de pesquisa e hoje em dia a gente tem uma forma melhor de estabelecer causa e efeito para riscos mais difíceis de calcular, como um consumo moderado de álcool, e que se chama randomização mendeliana. E a partir desses estudos mais robustos ficou muito claro, ficou muito óbvio. Então deixa de ser ético fazer um estudo desse. Então ele nunca mais, o estudo que teria, nunca mais vai poder ser feito por conta de restrições éticas. E não é mais necessário também.
Bruno Perini:Isso é interessante porque, por exemplo, né, essa ideia de que uma taça de vinho ela pode ser benéfica por conta do resveratrol, por exemplo, E se eu não me engano, aqueles documentários sobre as Blue Zones, aquelas regiões onde as pessoas atingem idades centenárias, quando eles foram fazer em regiões do Mediterrâneo, um dos motivos alegados para aquilo era um consumo moderado de vinho.
Vitor Blazius:É que esse é o viés, né? Eu pego uma população que se exercita, que se alimenta de uma dieta mediterrânea super saudável, que faz inúmeras medidas e bebe pouco.
Malu Perini:Não é porque bebe pouco, é por causa das outras coisas, né?
Bruno Perini:Talvez sem o bebê fosse até melhor, provavelmente.
Vitor Blazius:Dá pra fazer um estudo mostrando que ter o cabelo mais comprido tá associado à saúde.
Bruno Perini:Sim, correlação não implica causalidade.
Voz D:Não implica causalidade.
Vitor Blazius:Só que como é de muito interesse, aí você vai ver inúmeros estudos, inúmeros artigos de revista, porque ter uma grande quantidade de influência, que é o que a indústria do álcool tem, faz com que a cultura comece a ser moldada a partir disso. E aí, quando a gente fala de "a única droga que você precisa explicar por que você não bebe", é aí que começam a aparecer os motivos. Porque tudo que se olha ou se pesquisa sobre álcool vai ter um dedinho da indústria do álcool levando a pequenas conclusões que não são ofensivas o suficiente para que a gente se sinta enganado e que passam uma sensação de que o problema é beber em excesso. Tanto que se você abrir o site do CISA, se alguém quiser fazer isso, Leia as reportagens a partir desse ponto de vista. Leia qualquer artigo que eles colocarem lá, que você vai perceber que quase todas as informações, inclusive uma vez eu comprei uma Heineken sem álcool e atrás estava escrito nela assim, tinha um QR code que mandava para um site para: "Saiba informações sobre álcool". Adorei, quero saber, vamos ver.
Voz D:E na hora que eu abri, tudo dizia que o problema era o excesso.
Vitor Blazius:"Beber em excesso isso, beber em excesso aquilo", que dá uma interpretação quase que implícita de que beber moderadamente não vai causar nada disso. Então, relaxe e beba uma cerveja. Inclusive, esse artigo do CISA sobre o Gen Z, mostrando que o Gen Z agora está bebendo menos, atribuía ao Gen Z um status de patologização, como se eles socializassem muito pouco e ficassem o tempo todo na frente das telas. Desviando o foco e dizendo que então o que que eles deveriam fazer se eles ficam só em casa vendo telas?
Malu Perini:Eles deveriam sair e beber um pouquinho, e beber um pouco, porque é maravilhoso.
Voz D:A falta de saúde deles é porque eles ficam muito em casa. Ninguém tá falando assim: vamos fazer crossfit.
Malu Perini:Inclusive você falou aí da cerveja sem álcool. Se eu não me engano, uma cerveja sem álcool tem um pouquinho de álcool, né?
Vitor Blazius:Até 0,5 pode ter.
Malu Perini:Então cuidado, grávidas, não use cerveja sem álcool, tem um pouco de álcool.
Bruno Perini:Poderia ser. Mas e por que na sua opinião nós temos essa relação, digamos, histórica com álcool? Porque se você volta muito no tempo, cara, os egípcios já faziam cerveja, os gregos tinham lá o vinho que eles tomavam diluído na água. E eu já ouvi até que animais, que macacos comeriam frutas que já estão quase podres porque teriam fermentado e teria um pouco de álcool lá.
Vitor Blazius:Tem um estudo muito legal da Nature feito justamente sobre essa genealogia, genética evolutiva, de como o metabolismo do álcool foi gerado, e que traz muitas explicações interessantes sobre como os hominídeos começaram a desenvolver a capacidade de gerenciar o álcool, de metabolizá-lo. E mostra que antigamente, ou até, né, caçadores-coletores sentiam uma atração pelo álcool justamente porque aquelas frutas fermentadas, levemente fermentadas, não a ponto de estarem podres, teriam uma quantidade de álcool não tão elevada e estaria associado a muito açúcar, porque o álcool é feito através do metabolismo da glicose por um fungo que gera o etanol. Então frutas com bastante glicose, que glicose sim é necessária para a vida, com grande quantidade de glicose estavam associadas a ter um pouco de etanol. Então, aí você vai ver, sei lá, os elefantes da Marula e outros, isso é historicamente relevante ou na história, porque produziam bebidas alcoólicas, vinhos, né? Jesus transformou água em vinho, não em suco de uva. Só que se a gente for ver a proporção e os ambientes em que o álcool era consumido, é completamente incomparável com agora. Você ia ter raríssimos momentos de doses baixas e com um processo de fermentação e destilação muito rudimentares. A porcentagem de álcool dessas bebidas antigas era inumeravelmente menor e menos frequente do que se tem hoje. O processo de destilação mais industrial não faz o quê, 200 anos que começou a virar uma produção em escala? Não é tão antigo assim na história da humanidade. A disponibilidade que nós temos do álcool, ela é sem precedente histórico.
Bruno Perini:O teor de álcool do vinho antigo era muito menor do que o de hoje? Da vodka era menor do que o de hoje?
Vitor Blazius:Muito menor. Dá muito mais trabalho você destilar a partir de uma certa quantidade para chegar nos níveis que tem hoje.
Bruno Perini:Então a gente poderia falar que nunca na história o ser humano bebeu tanto quanto agora por conta da questão de disponibilidade e também um teor de álcool mais alto.
Vitor Blazius:Completamente. Inclusive toda substância que gerava, e isso também justifica porque na antiguidade alguns pais da medicina, como Hipócrates, dizia que deveria, vinho era a bebida alcoólica, né, aqua vitae, que é uma água da vida, que favorece, acalmaria, é o melhor remédio para a alma, porque ninguém podia tomar, não tinha lugar nenhum, e quando se bebia, bebia pouco, Então não tinha tempo e exposição suficiente para começar a ver os problemas pelo uso do álcool. Aí quando via uma pessoa que desenvolvia, sei lá, uma cirrose no passado, quando começaram a beber em maior quantidade, ninguém sabia que era por causa do álcool. Até associar aquilo com o consumo de álcool, que era raro, geralmente reservado a uma parcela da população mais elitizada.
Voz D:Então essa história de o álcool ajudou a mudar a civilização atual para que ela desenvolvesse a socialização entre as tribos, Ela é muito pouco crível. Pensar na quantidade de álcool que se tinha, talvez era uma especiaria tão maravilhosa e tão rara que talvez ela tivesse um valor muito mais de status do que promovendo a socialização das culturas antigas. Imagina um caçador-coletor tentando fermentar a uva como se faz, sei lá, num presídio, para tentar fazer álcool. Isso é uma coisa... Não tem registro disso na história, pelo menos eu desconheço algum registro de um caçador-coletor ou de...
Vitor Blazius:Tentando fazer uma coisa sistemática para obter mais álcool. Não, era uma coisa que achava uma fruta dentro de uma árvore, vai achar algumas poucas frutas que têm um pouco de álcool, a maioria delas 0,5, que hoje a gente considera até sem álcool, porque o efeito é muito irrisório, é muito baixo, né? Uma bebida sem álcool ter até 0,5, a velocidade de metabolização, ela manteria um nível alcoólico praticamente zero, por isso que é aceito.
Malu Perini:É descrito como zero.
Bruno Perini:Mas quer falar alguma coisa? Não.
Vitor Blazius:Mas tem álcool. Então, dependendo da narrativa que se quer levantar, dá para dizer que o álcool é historicamente...
Bruno Perini:Mas o ser humano, ele tem algum tipo de atração para essas substâncias que alteram a nossa questão cerebral?
Vitor Blazius:Acho que isso é verdade, isso sempre teve, né?
Bruno Perini:É, se a gente pega a história, pessoas estão se drogando desde sempre.
Vitor Blazius:Desde sempre e hoje em dia também, né? Eu tô me drogando nesse momento agora. Café, né? Porque mudar o estado cerebral— e acho que a gente teve um prejuízo muito grande do debate a respeito das substâncias, em parte por conta da moralização, porque se elegeram algumas drogas para serem criminalizadas e outras para serem incentivadas. Tanto que você vê o ministro da Agricultura ou Saúde da Itália se rebelando contra a Irlanda, que queria que tivessem rótulos dizendo a quantidade de álcool que tem numa lata de cerveja, dizendo que não pode para grávidas, sabendo que uma grande parcela da população não sabe que não pode para grávidas, e dizendo que ia quebrar a economia da Itália, que era uma ofensa cultural à Itália, porque o vinho— você não pode dizer que o vinho não faz bem para a saúde. É uma coisa que é chocante para mim.
Malu Perini:Você bebe, Vitor?
Voz D:Não. Nada.
Malu Perini:Nada.
Bruno Perini:Interessante. Mas desde sempre ou só quando estudou mais sobre o assunto? Ou bebeu?
Vitor Blazius:Bebi muito, já bebi bastante. Mas eu até, quando eu comecei a estudar sobre o assunto, bebia moderado, mas eu acho que eu tinha um certo risco para beber mais.
Voz D:Nada muito grave, mas eu não queria beber duas, eu queria beber quatro.
Vitor Blazius:Se eu bebia quatro, tinha uma grande chance de eu querer beber seis. E acho que muita gente é assim e não se dá conta que isso é um É a atenção, tem que ter atenção. Meu vô morreu de consequências do álcool, mas nunca liguei tanto as coisas quanto depois que eu comecei a estudar. Tanto que professores meus e até— Eu fazia muitos estágios e fiquei muito próximo do setor especializado em dependência química na Federal do Rio Grande do Sul.
Voz D:E na festa de finalização, o jantar de finalização, Um dos colegas que estava estudando dependência química foi para o banheiro vomitar porque tinha bebido muito.
Vitor Blazius:Então não é porque a gente estuda que isso protege de absolutamente nada, né?
Malu Perini:É, falam que os médicos são os mais drogados, é o que dizem, né?
Vitor Blazius:É, estatisticamente sim.
Voz D:Quase fiz um mestrado em médicos e uso de drogas, sim.
Malu Perini:Eles entendem um pouco sobre os efeitos, os mecanismos. Os efeitos e usam muitas drogas ainda que a gente não tenha acesso.
Vitor Blazius:Mas o principal motivo nem é esse, porque tem essa coisa assim de que talvez os médicos sabe muitas coisas, a gente sabe muitas coisas sobre uma área, né? Saber tudo sobre tudo é impossível. Mas o que mais faz com que o esbético seja uma grande parcela de consumidores é rotina, você tá lidando com coisas muito difíceis diariamente, uma pressão, uma cultura muito insalubre do ponto de vista laboral, né?
Voz D:Inclusive entre os colegas, né?
Vitor Blazius:Uma exigência e uma crítica muito fácil de, né, entre os pares. Mas até perdi o que eu tava dizendo.
Malu Perini:E aí as pessoas querem mudar a realidade.
Vitor Blazius:Que as pessoas querem mudar a sua percepção. Isso desde sempre, né? Só que a gente criminalizou o debate e agora que tá começando a descriminalizar um pouco esse debate, que tá tendo pesquisas, né? Tem certas drogas, e tudo é droga, né? Tudo que vai alterar a nossa percepção de alguma forma é uma droga psicoativa, né? E então Estão descobrindo boas pesquisas em relação a, por exemplo, psicodélicos, né? Como a ketamina para depressão. Só que é um debate lento porque se criou uma— Por quê? Porque a legislação altera a cultura e a cultura faz crescer um preconceito. E aí as pessoas acham, têm dificuldade de perceber que se a gente hoje fosse estabelecer quais drogas merecem ser liberadas ou não, A última droga que seria liberada seria o álcool.
Bruno Perini:É, mas aí se você pensa também nas consequências da proibição, a gente já teve uma experiência muito mal-sucedida com isso nos Estados Unidos, né, que foi da Lei Seca.
Vitor Blazius:Que é também uma grande história mal contada, né.
Bruno Perini:Por que que você disse que é uma história mal contada? Porque até onde eu sei, aí você pode me corrigir nesses pontos, né, mas lá você tinha os trabalhadores abusando muito do álcool na época. E aí quiseram proibir nos anos 20, mas o que aconteceu é que existia ainda uma demanda por álcool, e como tava proibido, a polícia combatia o pessoal das indústrias, exceto quando esse cara tava armado. Aí você tinha um Al Capone liderando a produção de álcool sem fiscalização do Estado, com teorias ainda mais altos, substâncias de pior qualidade. E aí a polícia combate os pequenos, não combate os grandes, e teve criação de grandes sindicatos do crime. E no final, o pessoal tava bebendo também. Talvez muito menos gente, né, porque alguns não querem desrespeitar a lei. Mas não é meio que um negócio, cara, se proibir, como tem demanda historicamente, o ser humano gosta de bebida, ele corre atrás, você não vai acabar gerando um problema ainda maior porque você tá incentivando o crime?
Vitor Blazius:Sim, o problema é que o problema da narrativa, né, quando a gente olha para essa narrativa A gente olha para essa parcela. Isso é verdade. Se a gente, do nada, cria um sistema que simplesmente proíbe o álcool— E ele foi proibido, inclusive, como uma medida desesperada e uma tendência mundial, que estavam tendo proibições. A Rússia, inclusive, teve um processo muito bem-sucedido com a redução da vodka, que estava matando muitos jovens. Já os Estados Unidos começaram— Tinham saloons. Os saloons não eram bares, como agora. Era o lugar em que chegavam os imigrantes e pessoas mais pobres, e jovens morrendo de cirrose antes dos 30 anos. Era uma coisa assim, uma epidemia brutal de abuso de álcool sendo encabeçado por grandes corporações da indústria do álcool. Não eram os pequenos produtores que estavam por trás disso. E aí houve movimentos para tentar frear esses impulsos dessas indústrias que estavam acessibilizando o álcool de uma forma extremamente nociva e claramente destrutiva. No entanto, houve resistência.
Voz D:E essa resistência fez com que os esforços parassem no meio, ficou só aí.
Vitor Blazius:Não estou dizendo que deveriam proibir completamente, mas a experiência que teve foi uma experiência muito parcial. E uma proibição completa sem junto com isso a educação popular, sem junto com isso uma estratégia de coibir o crime que pudesse talvez regulamentar o álcool de uma forma melhor, foi uma medida desesperada que foi tomada no calor de vários movimentos que acharam que teria mais, que tinha muito apoio popular, mas acharam que teriam mais medidas, que foram todas cortadas ao longo do tempo, tanto que não existia O termo... Como é que é o termo? Tráfico de bebidas é um termo novo, é um termo que veio décadas depois da proibição do álcool. O que se tinha antes era mais ligado à restrição que precisava existir, não eram necessariamente pessoas que queriam... Ou que o crime organizado nasceu somente por causa da restrição do álcool. Acho que foi uma das janelas que usaram para crescer o crime, que talvez crescesse de outras formas, e atribuíram tudo isso a um instinto humano, a um espírito humano de querer mudar a própria consciência. E aí, quando tira as drogas, as pessoas vão fazer coisas inimagináveis para poder usar. Porque, claro, não tinha regulamentação, não tinha cuidado nenhum. E aí as bebidas proibidas, né, que tinham etanol, metanol, que até o Brasil passou por isso recentemente, elas passaram a ficar mais disponíveis e aí começou a ter problemas que foram muito mais enfatizados depois, que eu acho até é parte da narrativa, né? Olha, não mexam com álcool porque as pessoas vão ficar loucas, as pessoas vão ficar... o crime vai crescer. E de fato, se a gente fizer uma guerra às drogas, que já existe, a gente vive isso com outras drogas, é o tráfico organizado, O crime organizado, ele é movido muito às drogas. Sim. Mas ninguém para pra fazer um grande manifesto, uma grande marcha a favor do fim da guerra às drogas. Mas se passa pela cabeça de alguém a proibição do álcool, que eu acho que nem é exatamente o que deveria ser feito, isso é muito louco, né? Isso é uma coisa tão querendo...
Voz D:Porque tem drogas que são sujas e drogas que são limpas.
Bruno Perini:Sim, essa percepção de que o álcool é socialmente aceitável, ela tá enraizada na cultura social.
Vitor Blazius:Existe um livro, tá, é que eu não consigo lembrar todas as coisas do livro, que é um livro muito denso, histórico, que mostra todos esses movimentos e como isso aconteceu ao longo do mundo, chama Smashing the Liquor, que explica toda essa história da Lei Seca, inclusive mostra que as estatísticas de doenças ligadas ao álcool continuaram com uma proteção, menos gente morrendo por conta disso, durante 30 anos depois do do ato Wollstedt, da Lei Seca. Então, se a gente contar a história inteira, ela é complicada, ela é difícil de colocar num corte, por exemplo.
Voz D:E hoje em dia a informação é consumida muito assim, né? E quando a gente tem uma indústria de cortes e de notícias rápidas que é paga pela Ambev, fica difícil você se informar sobre um assunto tão complexo diante de uma narrativa toda voltada pra gente pensar: "Nossa, a Lei Seca deu errado." Tá, mas por que que ela deu errado?
Vitor Blazius:É difícil, é complicado.
Voz D:E quem que fez isso?
Vitor Blazius:Eram pessoas puritanas que queriam, por motivos religiosos? Não, eram por motivos socioeconômicos, de abuso. Inclusive, houveram muitas guerras proporcionadas porque, por exemplo, a Guerra do Ópio, que o Reino Unido queria invadir a China, queria invadir o mercado da China.
Voz D:E para não negociar na base da prata, começaram a infiltrar ópio para viciar a população.
Vitor Blazius:E isso gera uma guerra, porque determinadas substâncias, se a gente disponibiliza demais para a população, isso mata, isso faz mal. E quando a gente pensa que é necessário restringir, é muito pacífico para todo mundo que é necessário restringir substâncias em geral, porque realmente uma indústria de brinquedos, ela tem que vir lá dizendo: "Olha, faixa etária tal". Isso é uma forma de proteger o cidadão. "Esse brinquedo contém peças pequenas que não podem ser engolidas." É necessário que tenha isso, porque quando você tem um filho e percebe que elas podem ser engolidas.
Voz D:E talvez quando você tem um filho você perceba: "Olha que bom que tá escrito isso, porque talvez eu não ia perceber." Já vi uma que não tinha, que eu comprei uma vez, que eu fiquei bravo. Poxa, era tão bonitinho, comprei, abri, olhei: "Pode ser engolido." Eu queria que tivesse.
Vitor Blazius:E eu espero que quando eu vou comprar uma carne no açougue, que eu não precise ter a clareza de como que é exatamente o ponto em que a carne está apodrecida. Que vai ter uma lei que vai me proteger, que eu vou comprar uma carne e eu vou poder confiar no prazo de validade. Agora, quando a gente pensa— então é pacífico pensar que as substâncias, de uma forma geral, elas precisam de uma regulamentação, porque lucrar com o prejuízo de uma população é imoral e torna a sociedade um lugar inseguro. Mas não é isso que é feito com álcool. O álcool é obscuro, eu não sei quanto, e se a gente fosse saber como, vamos calcular? Vou ensinar a calcular como que faz pra você ver como deveria ter no rótulo, porque é muito difícil calcular. Uma cerveja tem 5% de álcool. Então como é que a gente calcula? A gente pega 355ml e faz o quê? O que você imagina que tem que fazer?
Bruno Perini:Eu imaginaria que 5% disso, que dá 17 ponto alguma coisa, seria álcool.
Vitor Blazius:É, mas falta calcular a densidade do álcool, que é 0,78. Aí eu multiplico por 0,78, aí eu vou ter a quantidade de álcool em gramas. E aí eu vou ter mais ou menos 14. E aí a hora que eu chegar em 14, é só eu olhar o que que isso causa de problemas. Eu vou ter que olhar diretrizes de vários países que são diferentes, e dependendo do lugar que você vai olhar vai ter um ou outro, porque cada um usa dose padrão. Dependendo do país é 10, Dependendo do país é 14, dependendo do país é 12.
Voz D:E cada instituição vai ter: tantas doses de álcool causam esse tipo de problema. Até a gente entender o que foi, é muito mais fácil tomar uma cerveja. Deveria ter isso, né?
Vitor Blazius:Ó, pelo menos essa substância, essa garrafa de vinho, que tem mais ou menos 6 ou 7 doses de vinho, a gente vê, eu já vi até influencers da saúde, de maromba, dizendo: "Olha, eu tomo uma garrafa de vinho no sábado e é de boa, não tem problema nenhum." Ele está dizendo: "Olha, eu faço um binge drinking todo sábado e isso é algo não só recomendável, algo não só aceitável, é algo de boa, você não deveria se preocupar com isso." Claro, 20% da massa muscular vai deixar de ser construída depois de um binge drinking, mas uma pessoa que treina daquele tanto, que faz amor com suco, Outras drogas, né?
Malu Perini:São muitas drogas envolvidas.
Voz D:Muitas drogas envolvidas.
Vitor Blazius:Uma pessoa que tem conhecimento, sabe treinar direito, ela tá conseguindo resultado apesar do álcool, não por causa do álcool. Isso sem a gente falar que o problema de beber todo sábado é que todo sábado o meu repertório comportamental vai ser beber. Então eu vou tentar fazer outra coisa no sábado, eu tô tão habituado a fazer aquilo há tanto tempo, é tão natural que eu vou começar a ter o meu repertório de lazer restrito. Eu vou deixar de fazer outras coisas pra ficar bebendo. E aí, o momento da vida que tiver muito difícil, o meu cérebro já vai ter registrado que beber é uma forma segura, agradável e efetiva de me sentir melhor. Isso começa a ficar perigoso.
Malu Perini:Assim que vai aumentando o consumo, né?
Vitor Blazius:Isso aqui fica perigoso ao longo de anos, não agora.
Bruno Perini:Eu falo para Malu, eu bebo muito pouco e não sei se é porque eu lembro quando eu provei cerveja a primeira vez, eu achei horrível. Só passei a beber porque nos ambientes que eu ia, tipo uma balada, tá todo mundo bebendo, eu falei, ah, vou beber também, né? Mas eu nunca gostei do gosto. E hoje eu bebo muito pouco. Quando beber algum tipo de, sabe, vinho que a gente bebe junto, mas eu nunca fui o cara que faz 3 anos que a gente não bebe. Mas a última vez que a gente bebeu vinho foi junto.
Voz D:Ele está contigo.
Bruno Perini:E aí, eu nunca fui a pessoa que chega em casa e: "Ah, tive um dia difícil, deixa eu abrir uma cerveja ou um vinho." Isso nunca aconteceu na minha vida. Foi só em ocasiões sociais. Mas eu conheço muita gente que faz isso, né? O cara chega em casa depois de um dia difícil e fala: "Cara, vou abrir uma cerveja aqui, tomar e relaxar." Isso é um dos jeitos mais nocivos de consumir.
Vitor Blazius:É muito mais importante isso do que o risco genético, por exemplo. Claro, o risco genético vai contribuir pra alguma parcela, alguma quantidade. Mas o jeito que eu consumo o álcool, as circunstâncias que eu faço isso, elas podem me deixar muito mais vulnerável. Porque existe um limiar de bebida que a pessoa vai ter ao longo da vida que vai fazer com que ela passe a desenvolver o alcoolismo. E aí o que acontece quando a pessoa tem um alcoolismo de algum nível? O cérebro dela fica mais sensível a pistas que envolvam o álcool e ela passa a determinados contextos ter até uma ideia de única escolha. Ela mal percebe que ela poderia fazer outras coisas e parece até idiota a ideia de que: "Olha, pra relaxar faça outra coisa." Parece uma coisa impossível, uma coisa desmedida. "A vida... Que graça que vai ter a vida se eu não beber?" E ela não se preocupa com essa parte.
Voz D:Se você pensa que o álcool... Se beber...
Vitor Blazius:Se a vida sem álcool ia ficar sem graça, já tem algo acontecendo, já é importante o suficiente pra chamar atenção. Mas quando a pessoa começa a desenvolver um alcoolismo, ela começa a já não mais calcular de forma justa os prós e contras. "Tô tendo brigas com a minha esposa." "Ah, mas a minha esposa que é chata." "Meus amigos tão me incentivando." Mas eu não tô vendo que meus amigos também não tão, talvez em algumas áreas da vida, tendo absoluto sucesso. E isso é o mais comum. É um alcoolismo de autofuncionamento em que a pessoa O álcool é tão importante pra ela que ela faz até um desempenho melhor na academia e no trabalho pra que ela possa ter sucesso em outras áreas, pra que ninguém encha o saco pelo tanto que eu bebo. Porque eu bebo sim, estou vivendo. Tem gente que não bebe e está morrendo. E tem toda uma romantização em cima disso que até essa conversa começa a parecer meio, de repente, exagerada. Olha que cara... Rígido, daqui a pouco não—
Voz D:e vários argumentos que eu escuto o tempo todo.
Malu Perini:Ah, só um pouquinho, né? Não vai fazer nada. Mas você falando aí me fez lembrar que— me fez lembrar, né? Me fez associar muito com comida também. Tem muita gente que eu não sei se você classifica isso como vício também, mas a pessoa ela associa qualquer problema, ela vai comer um doce, ela vai descarregar. Então no final das no final das contas, ela não consegue fazer uma comemoração sem comer um doce. Ela não consegue chegar em casa estressado, ela precisa comer um doce. Então é meio que todos os— é porque eu acho que todos— não sei se isso a gente pode considerar um vício, você pode me falar?
Bruno Perini:Pode considerar até uma droga.
Malu Perini:Uma droga, né? Não sei, é polêmico, mas é o mesmo caminho, né?
Vitor Blazius:De—
Malu Perini:é a "deixa" O hábito, a deixa e a recompensa.
Vitor Blazius:É exatamente o mesmo caminho. Se a gente pegar um alimento que tem a proporção perfeita entre açúcar e gordura—
Malu Perini:Que é o que a indústria é perfeita em fazer, né? Ótimo em fazer.
Vitor Blazius:E fica delicioso.
Malu Perini:Não, bem.
Vitor Blazius:E você equilibra isso de uma forma bem perfeita, isso ativa mais o sistema de recompensa cerebral, aumenta mais a dopamina no núcleo acúmbens e o seu apetite passa a não ser mais o que regula o teu desejo por comer aquilo. E até o prazer e o desejo começam a separar. E se a gente fosse pensar algumas partes do vício, que isso é complexo de afirmar porque é uma ciência relativamente nova, e quando a gente classifica algo tem muito mais implicações jurídicas do que médicas, né, de convênios de saúde, vou dizer que aquilo, o convênio vai pagar para uma pessoa que tem um tratamento X, E o que tem que fazer? Muda tantas coisas na sociedade que é difícil classificar assim. Mas se a gente fosse pegar de um ponto de vista prático e útil para o dia a dia, o açúcar também, de certa forma, ele cria coisas que levam a pessoa a continuar usando, mesmo que ela esteja com obesidade, mesmo que ela olhe no espelho e se sinta mal com aquilo. Então, até uma certa medida, é um vício e talvez seja uma das poucas indústrias mais ricas que a do álcool.
Voz D:A indústria do alimento explorou isso de formas muito efetivas.
Bruno Perini:Mas na tua opinião então poderia ser classificado também como uma droga, um vício?
Vitor Blazius:Acho que do ponto de vista prático sim, teórico acadêmico não. Mas do ponto de vista prático, uma espécie de vício, entendendo que é perigoso, mas até para se livrar disso é diferente, né? Porque você tem que envolver uma alimentação melhor e não necessariamente a pessoa vai precisar de um tratamento para o vício para comer menos, para mudar isso. Então, de certo, é complexo, mas eu diria que de certa forma sim, porque cria um consumo diante dos problemas. Mas ainda faltam algumas coisas. E tem craving também, né? A pessoa tem vontade, né? Eu lembro quando eu tô comendo mais—
Malu Perini:Craving é desejo por algo, assim mesmo.
Vitor Blazius:Quando eu tava comendo muito açaí, um açaizinho à tarde, domingo à tarde, todo domingo à tarde eu começava Vinha aquela vontade forte de comer um açaí. E aí eu não comia o açaí, eu ficava irritado. Aí eu percebi que eu tinha que cortar o açaí da minha vida.
Bruno Perini:Eu pergunto se a gente pode classificar como uma droga, porque já vi muita discussão sobre isso, né? E gente afirmando: não, o mecanismo do açúcar no cérebro é igual o da cocaína, acende as mesmas áreas. Só que o cara que usa cocaína e fica sem, ele vai lá e às vezes rouba uma pessoa para poder consumir cocaina. Tudo bem que o custo é muito mais alto, provavelmente, do que do açúcar, né? Mas eu nunca vi um cara que é viciado em açúcar roubar alguém para comprar um brigadeiro.
Vitor Blazius:É porque a intensidade, né? Se eu aperto a mão de alguém até estourar a mão dela, eu tô apertando a mesma área que eu uso para cumprimentar os meus amigos.
Voz D:Então, mas é uma proporção completamente desproporcional.
Bruno Perini:Esse é um ponto bom. Então acende as mesmas áreas, mas não com a mesma intensidade.
Vitor Blazius:É igual dizer que, sei lá, Ritalina é Cocaína atuam nas mesmas áreas. Sim, mas daqui a pouco a gente vai falar que o café também, porque o café também aumenta dopamina. Ah, mas se o mecanismo é igual— Mas ele não é igual, ele é bem diferente, até não só pela proporção, mas tem uma série de outras áreas. Hoje em dia a gente tem distinções, por exemplo, a gente sabe que o querer e o gostar acontecem em áreas diferentes do cérebro. E geralmente o que acontece com o aumento da dopamina é que aumenta o querer por aquela coisa. E na prática é muito difícil diferenciar o que é querer e gostar. Mas a gente tá começando a classificar, tem até uns estudos do Kent Barrie, que tentou classificar quais são as áreas hedônicas do cérebro, os hotspots hedônicos. E a gente sabe mais ou menos, sabe mais ou menos.
Voz D:Então a gente tem que tomar cuidado quando vai afirmar essas coisas, porque realmente o açúcar ele é viciante até certo ponto, mas a gente tem que cuidar para não diminuir também os outros vícios, Dificilmente alguém termina um casamento por causa do açúcar, né? Ou rouba, realmente.
Bruno Perini:Talvez termine pela falta dele. E falando de outras substâncias, Victor, porque você explorou muito o álcool, que falou, cara, o álcool ele é a substância que causa muito problema e é socialmente aceita. Mas tem muita gente que busca substâncias que elas são proibidas para um uso recreativo, por exemplo. O que as pessoas deveriam evitar a todo custo? Gosto, essas que não têm muito respeito pela lei, quer algum tipo de substância, mas cara, se envolver com isso aqui é garantia de vício, porque o nível de pessoas que vicia muito alto.
Vitor Blazius:Crack, cocaína, provavelmente também cocaína vicia bastante porque ela é estimulante e você já vai estar no meio de outras drogas, né? Talvez o que ela devesse— é que é complexo isso, né?
Voz D:Porque toda vez que eu falo sobre isso As pessoas entendem o que querem, né? Mas vou responder.
Vitor Blazius:Talvez a maconha. Maconha vicia menos que o álcool, mas ela traz outros problemas.
Bruno Perini:Então você está defendendo a maconha?
Vitor Blazius:Deveriam evitar maconha sintética, drogas novas. Deveriam evitar com toda força, porque drogas novas... Por exemplo, N-Bome é uma droga que parece muito LSD.
Bruno Perini:N-Bone? N-Bomi. Também não conheço.
Vitor Blazius:Que bom!
Malu Perini:Nem ouvi falar nenhum nome. É, nunca nem tinha ouvido falar.
Vitor Blazius:Que bom! É uma droga que é nova e que de repente é mais barata que o LSD e a pessoa vai utilizar porque, pô, é parecido com LSD, vou usar. Ou usar maconha sintética, que são drogas que têm um potencial de não só vício...
Malu Perini:Pô, o único benefício é que ela era natural, aí fizeram sintética. Sacanagem! É porque sintético é possível vender, né? Sim, é mais controlado.
Vitor Blazius:Não, você tem, se você faz uma maconha sintética, ela não é maconha.
Bruno Perini:Ah, ela não seria proibida então?
Vitor Blazius:Não, durante muito tempo. Acho que recentemente proibiram alguns tipos, só que não tem como ter tanta velocidade para proibir a velocidade do que é possível fazer drogas novas.
Bruno Perini:Então tem muitas drogas que o cara cria uma substância nova que não é catalogada em vida, ela consegue vender.
Voz D:Outra droga que foi inventada recentemente, Sucesso, é uma droga.
Malu Perini:Ah, sério?
Bruno Perini:Não, amor, sucesso.
Vitor Blazius:Não, não, é uma droga que chama Sucesso, uma droga de cheirar, que cheira igual cola.
Malu Perini:Caramba, ele tá falando de drogas, amor!
Vitor Blazius:De verdade?
Voz D:Não, não, não era. Pior que essa não é, é que eu não sei o nome oficial dela, talvez seja uma sigla.
Malu Perini:E por que será que se chama Sucesso, né?
Vitor Blazius:Fiquei curioso. Deve ter feito sucesso.
Voz D:Por isso, porque ela tava muito—
Malu Perini:tá, mas acho que vamos mudar de—
Vitor Blazius:não só vício, mas psicose, né? Volte e meia aparece aquela outra droga que eu esqueci o nome agora, Kratos, Kratos, esqueci. É aquela que fazia as pessoas virarem zumbis e comerem as pessoas. Nossa, que morderem os outros. Porque uma droga, ainda mais quando é uma droga que não tem controle nenhum, ela pode levar a consequências graves, uma psicose muito grave. De repente você perde a sua cabeça e começa sei lá, achar que você tem que morder alguém que tá do seu lado, porque mexer com o cérebro é uma coisa séria. E quanto mais a gente pudesse ter uma conversa mais aberta e mais até em certa medida de redução de danos, mas não exclusivamente, seria mais fácil das pessoas se protegerem, né? Vai chegar numa balada, pô, tem uma droga nova, você não sabe o que é, não pode ser muito perigoso.
Bruno Perini:E não precisa ter tanta genética assim para, dependendo do tipo da droga que você vai consumir, É, eu perguntei de substâncias e eu me surpreendi com a ausência de duas que eu já ouvi falar que viciam muito, que é a heroína. Acho que no Brasil não tem tanto consumo assim, talvez seja mais comum em outros países, na Europa. E a outra é aquele que tá matando muita gente nos Estados Unidos, o fentanil.
Vitor Blazius:É porque nos Estados Unidos teve uma, tem uma, os médicos dos Estados Unidos eles são, você chega lá com uma dor de cabeça, ele te dá um opióide. Porque teve uma onda de propagandas de opioides e de uma baixa percepção de risco, em que os opioides são maravilhosos.
Voz D:Esquecer das guerras do ópio e dos problemas seculares que já teve.
Malu Perini:Porque lá não pode remédio, né? Então vamos de ópio.
Vitor Blazius:E vamos de ópio, vamos colocar uma morfina do nada, colocar um— aí fentanil, uma droga que se dá para coisas, anestesia, estágios terminais.
Bruno Perini:É isso que eu vi, que era usado muito pro pessoal que tinha câncer em nível terminal já.
Vitor Blazius:Mas eu não falei muito delas que tem pouco no Brasil, né? Mas são epidemias gravíssimas e que matam muito pela overdose, muito fácil, né? Porque é injetável, a pessoa injeta um pouco a mais, aí os jovens vão morrendo. É porque a gente olha para o Brasil e não vê essas pessoas morrem de acidente de trânsito, aí não parece que o álcool foi uma consequência do uso daquela substância e fica meio camuflado. Maconha, por exemplo, a pessoa tende a ter prejuízos na direção, só que ela tende a dirigir de 20 a 30 km números mais baixos do que o normal, dependendo do que ela fica parada.
Malu Perini:Talvez, né? Tipo, vai devagar e aí o acidente não é tão grave.
Vitor Blazius:É, e a gente tem pouca associação daqueles desfechos finais, né? Porque o álcool vai causar problema, sei lá, a pessoa vai ficar na UTI. A pessoa morreu do quê? Morreu do fígado ou morreu de um ataque cardíaco, a morte súbita do nada. São classificadas fora do escopo ali, não foi imediatamente bebendo. Apesar de que a pessoa pode ter um coma alcoólico que leva à morte. Só que coma alcoólico muitas vezes é uma piada numa festa.
Malu Perini:E agora mudando um pouco de assunto, eu tava falando, né, que no início a gente te apresentou e falou que você... Como é que é?
Bruno Perini:Treinamentos familiares.
Malu Perini:Treinamentos familiares. E eu tinha entrado no seu Instagram e aí eu vi que você tinha várias manchetes lá, né, falando Ah, como ajudar o seu marido, como tratar o seu marido, como... Muito dos... pelo que a gente entendeu aqui, muita gente que já tá ou quase alcoólatra, ou é alcoólatra, ou tá quase, ela não se considera uma pessoa alcoólatra. Então, acho que a abordagem seria... como que a gente fala: olha, tem alguém do seu lado que é alcoólatra e precisa de ajuda, que você fala é justamente isso?
Vitor Blazius:É porque existe um treinamento familiar que é uma abordagem baseada em evidência que se chama Community Reinforcement and Family Training, que é o que existe de mais efetivo para você levar um familiar a buscar ajuda ou até parar por conta própria. Porque as taxas de tratamento ainda para quem quisesse, das pessoas que precisam, em torno de 2% conseguem um tratamento, às vezes por falta de disponibilidade, às vezes principalmente pelo estigma. E a gente tem uma cultura no Brasil, porque essa área foi meio abandonada pela medicina como um todo, então é difícil encontrar um centro de formação para profissionais em álcool ou drogas. Tem em São Paulo, aqui, tem no Rio Grande do Sul. Se alguém souber outro grande centro de estudo, talvez em Brasília está nascendo um. Não tem muitos. Então, o que mais tem em toda cidade, você vai ver alguma fazenda de recuperação, algum instituto religioso que está promovendo algum tipo de intervenção, é uma intervenção não baseada em evidência para um problema de saúde real, concreto, mensurável. E quando se vai— tanto que uma das coisas mais efetivas que se tem, porque tem mais disponibilidade, é o Alcoólicos Anônimos. Que não tô desvalorizando Alcoólicos Anônimos, que se mostrou efetivo. No entanto, as abordagens para familiares geralmente vai ter o amor exigente. Se nunca ouviram falar, não, vocês têm sorte. É muito pouco que cria uma cultura de moralista, de exclusão, que fala de fundo do poço, ou às vezes de intervenção, de pegar a pessoa numa crise e levar ela para "Vou colocar num lugar pra ser internada." E aí depois larga aquilo e o problema volta. É como se fosse uma pessoa que tem uma dependência, quanto mais grave, mais se aproxima de como se fosse uma doença crônica. Um câncer. Se a pessoa tem um câncer, geralmente você não vai chegar pra pessoa e vai xingar ela por conta disso, vai criticar ela. E geralmente são as abordagens mais frequentes, né? Você tem que abandonar a pessoa, deixar ela quebrar a cara pra ver ela chegar no fundo do poço e poder se recuperar a partir disso. Mas qualquer um que tenha observado o suficiente vai perceber que sim, existem pessoas que depois de muitos prejuízos podem ter uma resiliência brutal e reagir de uma forma construtiva. Mas a maioria não vai ser assim, o poço não tem fundo. E aí eu comecei a fazer isso, acho que em 2019, comecei a promover esse tipo de treinamento, porque Deus Familiares aprendendo de como gerenciar isso, que é muito parecido com o que a gente faz com um paciente. Eu comecei a atender, o meu primeiro paciente da minha vida era um alcoolista. Ainda estava me formando como psiquiatra, não sabia o que fazer com ele.
Voz D:E eu fazia basicamente o que os familiares faziam, tentava aconselhar, eu tentava dizer que não pode, coisas assim que são naturais a gente fazer.
Vitor Blazius:Você vê um amigo com um problema, você fala: "Oh, cara, "Não faça isso, isso aí está te fazendo mal." Só que quando é um assunto sensível, qualquer um de nós vai demorar para receber isso bem. Você precisa se sentir muito mais seguro para você...
Voz D:Por exemplo, num casamento, se você quer mudar alguma coisa da tua esposa, você tem que ter um jeito para você conversar com ela, né?
Vitor Blazius:Porque senão você desperta uma coisa natural do nosso cérebro que é a reatância. Quando a gente sente que a nossa liberdade está sendo ameaçada, é natural eu resistir. Só que se eu olho para a pessoa, ó, alcoólatras estão sempre em negação, eles sempre negam a realidade, e eu já começo a confrontar aquela pessoa de uma forma mais intensa, ela vai ficar chateada, porque natural. E aí eu vou olhar e vou pensar: viu, eu tinha toda razão, ela não me escuta, ela não me ama, ela não me entende. E isso vai criando um afastamento muito maior que vai piorando o alcoolismo. Então eu falo muito de treinamento familiar porque é uma das coisas que E dá muita satisfação de fazer, porque quando a família está entendendo como agir, você economiza muito tempo. Em vez de 10 anos, tem um estudo de uma professora no Rio Grande do Sul, se não me engano em Porto Alegre, que ela estava avaliando por que as pessoas buscam tratamento e quais delas se recuperam mais. Se uma pessoa só na base da coisa negativa, de se ferrar e de deixar ela para lá, geralmente ela leva 10, 15 anos para poder receber o primeiro tratamento. E quando tem um apoio familiar mais estruturado, mais informado daquilo que funciona, isso tende a acontecer em meses. Então, poxa, se tem como evitar chegar no fundo do poço, eu acho que é de interesse de muita gente e é muito satisfatório de ver acontecendo, né? Você evita tantas coisas.
Malu Perini:E o que que a gente pode— qual é a dica? Não sei, dica de capacitar?
Bruno Perini:Para quem está assistindo aqui e pensa: caramba, acho que eu tenho Eu tenho um familiar com um problema, o que seria o primeiro passo?
Vitor Blazius:Eu acho que o primeiro passo seria você tentar buscar a conexão, focar. É que teria muitos primeiros passos que eu poderia dizer e talvez eu teria que me seguir. Mas eu vou te dizer talvez um primeiro passo que ajude a deixar a coisa um pouco mais leve. Você tentar focar nas coisas positivas primeiro. Porque às vezes é tanta raiva, é tanto havia recentemente é tanta coisa para ser resolvida que é difícil a cabeça não ir direto, imediatamente, para tentar resolver alguma delas, né? Ó, você chegou em casa ontem embriagado e falou um monte de bobagem, hoje finge que não aconteceu nada. Sim, isso é um problema que tem que ser resolvido, só que às vezes a relação tá tão desgastada e tão difícil que aquilo que você fala não vai ser ouvido. E aí você vai ficar frustrada, vai ficar mais brava. Então, um primeiro passo seria tentar procurar primeiro as pequenas coisas boas que acontecem. E tentar alimentar um pouco elas, porque a gente sabe que qualquer pessoa responde muito mais a reforços positivos do que negativos, né? A pessoa recebeu uma punição, ela vai tender a se vingar. Se ela recebe um incentivo para uma coisa positiva que tá acontecendo, aquilo vai tender a acontecer mais. Então, se eu puder começar por aí, fica um pouco mais leve e um pouco mais fácil de poder ganhar confiança daquela pessoa. Porque é difícil eu escutar uma crítica de alguém que eu não estou confiando que naquele momento está conectado de alguma forma comigo ou que se importa comigo. E às vezes é difícil fazer isso num ambiente que está tudo, são brigas e discussões, desentendimentos e crenças. Às vezes a pessoa, por não entender que o alcoolismo é uma coisa que existe, achar que é simplesmente uma falta de amor, uma falta de caráter, né? Ou uma coisa sem esperança. É um mecanismo que o alcoolismo faz que leva ter comportamentos que parecem com isso, mas não é bem isso.
Bruno Perini:E quando a gente comentou da Lei Seca, você disse: "Pô, não é nem a maneira que eu abordaria o problema, né, essa proibição." Qual é a sua visão sobre como é que deveria funcionar parte de legislação, por exemplo? Porque no Brasil a gente tem exemplos muito claros de que leis mudam comportamento, como é o caso do cinto de segurança. Todo mundo usa hoje em dia, né? Se você encontrar alguém que não usa, é um cara que você até comenta: 'Pô, fulano não usa.' Você pensa: 'Que imbecil, pelo amor de Deus, não perde nada de não usar.' Então a legislação, ela mudou comportamento.
Malu Perini:A gente foi para a Rússia lá, eles não estavam usando.
Bruno Perini:Mas se você pensa também numa legislação que ela vai lá e proíbe, como eu disse, na Lei Seca, entre mortos e feridos teve coisas negativas que num balanço geral talvez até valessem a pena, como você falou, poxa, que teve consequências ao longo dos anos. Mas eu fico pensando, cara, proibir, será que a gente não cria PCC2 aqui no Brasil, com substâncias proibidas?
Vitor Blazius:É que se a gente proibisse totalmente, a gente cometeria erros que a gente já viu que exatamente só isso não dá. E a gente não precisa ir muito longe para isso, porque tem a OMS já há décadas que está tentando demonstrar com estudos, com dados muito claros do que funciona, o que custa menos, o que um legislador poderia olhar e pensar: "Poxa, isso é barato, isso a população apoiaria." E isso teria consequências drásticas, rápidas e melhores. E a gente já tem um conjunto de coisas a se fazer, que tem uma sigla chamada SAFER. A gente teria que aumentar os impostos proporcionais à quantidade alcoólica, o dano daquela bebida, e também se a gente pudesse colocar— Porque hoje o Estado tem prejuízo com a bebida alcoólica. Que a gente fala assim, ah não, o álcool ele alimenta a economia e ele traz benefícios para o país.
Bruno Perini:Mas você gasta mais na outra ponta com saúde.
Vitor Blazius:A gente teria que acabar com o SUS então para essa conta fechar, porque daí a gente jogaria para o bolso do indivíduo, é cada um que se vire. Porque o quanto custa uma diária da UTI já cobre muito esse custo, é muito bem, bem fácil. Mas teria que restringir, teria que colocar um imposto, um preço mínimo para bebidas alcoólicas, teria que restringir o acesso, teria que ter horários para vender, as bebidas não poderiam estar expostas, né, sabe, chega na padaria, do lado do frango assado lá, um negócio de bebida, ou deixar todos os bares que você encontra, vai ter cadeiras da Brahma, não é à toa, não é porque a cadeira da Brahma é mais barata, é porque é fácil conseguir, porque é propaganda o tempo todo, restrição de propagandas, zero propagandas, o que a gente fez com cigarro já tá bom. A gente já provou que isso não só é possível, como isso é um exemplo mundial, que a gente já mudou isso com o cigarro. Por que não deu para fazer com o álcool? Lobby. O álcool se antecipou um pouco mais, a indústria do álcool conseguiu aprender com os erros da indústria do tabaco para entender que não dava para falar certas coisas. O tabaco dizia que fazia bem e os médicos recomendando não fumar, A indústria do álcool foi um pouco mais sutil nisso. Ela começou a perceber que tinha que mudar as narrativas, tinha que pegar os dados do álcool, que são complicados, e complicar um pouco mais. Teria que pegar e colocar a bebida alcoólica pro Ministério da Agricultura, não pro Ministério da Saúde ou de quem regulamenta os alimentos, né, pra poder fugir de certas legislações. Eles vão pegando as brechas. E se a gente simplesmente tratasse com uma mudança da propaganda? Disponibilidade e impostos ou preço mínimo, isso seria barato, fácil de fazer e teria um impacto gigantesco. Se a gente aumentasse treinamento de profissionais, tem muito pouco, teria que ter mais incentivo para isso. Mas uma universidade que resolve querer fazer um treinamento para álcool e drogas hoje, ela vai ter todo o custo sozinha, do zero, para formar isso? A gente já sabe que tem um problema cultural que afeta os médicos também. A maior parte dos residentes de psiquiatria, tem estudos que mostram isso, eles tratam pior os dependentes químicos do que os outros. Olha só. Eu me lembro que na minha residência, quando o estágio em dependência química do segundo ano, eu tinha medo de chegar lá, porque tudo que eu tinha ouvido dos veteranos é que era um lugar assim, ó, vai lá, são 6 meses, respira fundo, vai passar.
Voz D:Por acaso eu cheguei lá e eu gostei, não vi isso que tinham dito.
Vitor Blazius:Porque eu acho que eu tenho, e até uma das coisas que eu acho que me fez não beber mais, porque pra mim, e eu acho que isso é uma das coisas que é importante as pessoas terem na cabeça também, que a gente tem valores de vida que nos norteiam, coisas que a gente valoriza, que são importantes pra nós. Uma das coisas que eu valorizo muito é a minha liberdade.
Voz D:Se eu sinto que ela está sendo ameaçada, seja por um argumento de um veterano, seja pela indústria do álcool, isso me incomoda. Porque eu valorizo a liberdade. E por acaso eu gostei de ficar lá e fiquei quase 4 anos nesse estágio que era obrigatório, porque eu gostei de ficar lá.
Vitor Blazius:Mas essa cultura contamina todos os setores. E se a gente não faz essas medidas, tudo vai criando uma profecia autorrealizável, que eu coloco a responsabilidade na pessoa, que ela tem que ter responsabilidade de beber e não dirigir, ela tem que beber com moderação, mas eu não digo o que é moderação.
Voz D:E eu solto esse veneno como se fosse nada.
Vitor Blazius:E aí eu espero que as pessoas vão tomar boas decisões? Eu acho que isso é irreal. Então, tratar— não é para assustar as pessoas com álcool, dizer assim: "Olha, nunca ninguém beba." Até porque— deixa eu responder uma coisa que não foi perguntada. Quanto que seria beber de uma forma segura? Tá, não tem. Mas quanto que seria beber de baixo risco? 1 a 2 doses por semana é de boa. Mais que isso começa a aumentar o risco. Então se a pessoa gosta de beber uma dose no final de semana, no meio de uma refeição, se ela fizer isso 1 a 2 vezes por semana é um risco muito baixo.
Malu Perini:A dose para mim ainda tá estranha.
Bruno Perini:O que que é a dose?
Malu Perini:Eu posso beber então uma taça de vinho?
Vitor Blazius:Uma taça de 150ml de vinho, mas você pode tomar um shot de tequila, que dá na mesma.
Malu Perini:Prefiro o vinho no caso.
Vitor Blazius:Ou uma lata de cerveja.
Voz D:Uma long neck de 355.
Vitor Blazius:Isso é equivalente a uma dose.
Bruno Perini:Então, uma, duas doses por semana seria não seguro, mas é baixo risco.
Vitor Blazius:É, se uma mulher consome mais que isso, principalmente a mulher, o homem geralmente do Brasil exagera, né? Daí ele mata, morre, se estraga com acidentes e problemas de saúde mental. A mulher tem um problema que é muito grande, que eu fico chocado que na campanha de câncer de mama não apareça isso, porque o risco risco basal de uma mulher ter câncer de mama, e é por isso que se faz campanha, é em torno de 11%. Uma cada 10 mulheres vai ter câncer de mama. Isso é muita gente.
Malu Perini:É muita gente.
Vitor Blazius:E cada dose que você aumenta da dose de baixo risco, você tá acrescentando mais 5% de risco para câncer de mama. Tanto que a maioria dos cânceres associados a álcool são de mama em mulheres jovens com consumo moderado.
Bruno Perini:Olha só.
Malu Perini:Ah, então o álcool aumenta o risco de câncer de mama.
Bruno Perini:Só o de mama ou não? É que esse aparece muito.
Vitor Blazius:É que esse é brutal.
Bruno Perini:Tá.
Vitor Blazius:Mas ele aumenta de boca, esôfago, estômago, cólon, próstata e mama. Foram 7. Fígado.
Bruno Perini:Ou seja, por onde ele passa tá aumentando. É basicamente isso.
Vitor Blazius:É. E 10% dos casos de demência são alcoólicos.
Malu Perini:Ah, sim, que a pessoa bebeu demais, estragou o neurônio.
Vitor Blazius:É, ao longo da vida foi estragando, porque daí falam: "A maconha estraga os neurônios." Tudo bem, comente, diga que eu estou fazendo propaganda da maconha, mas não é.
Malu Perini:O álcool é pior.
Vitor Blazius:O álcool é muito pior. O álcool é a droga mais neurotóxica que tem. Tem vários mecanismos do porquê ele é neurotóxico. E ele mata neurônios. O álcool a gente já sabe que mata neurônios. Maconha já foi testado e até hoje não se descobriu ela matando de forma irreversível neurônios. O álcool mata.
Bruno Perini:Não tem aquele estigma do cara que usa maconha e fica meio lento?
Vitor Blazius:Porque fica, né?
Bruno Perini:Então não é que matou o neurônio, só que deixou ele preguiçoso? Sei lá qual o mecanismo.
Vitor Blazius:O mecanismo é mais assim: quem usa muita maconha tem uma coisa que é como se fosse uma síndrome amotivacional hedônica, em que ela fica desmotivada para fazer as coisas mais difíceis. A ambição começa a diminuir. E aí ela começa a ficar mais voltada a vender miçanga na praia. Claro, estou exagerando.
Voz D:Estou exagerando.
Vitor Blazius:Claro, tem muito juiz federal que usa maconha diariamente. E talvez, mas se for ver a vida daquela pessoa, aquilo que ela construiu até chegar lá. O principal problema é que muita gente usa maconha desde cedo, né? E até os 25 anos, talvez 30, seria o pior problema. Ah, é, a melhor resposta para a tua pergunta de antes sempre surgem depois, né, as respostas, seria que se vai usar drogas, não faça isso antes dos 25 anos, de jeito nenhum, não faça isso.
Bruno Perini:Aí o pessoal faz o contrário.
Malu Perini:É justamente o contrário.
Vitor Blazius:Usa até os 25 e depois fala: "Não, agora parei." Porque a maior parte das consequências e sequelas que vai levar e prejuízos na personalidade ou na motivação vão acontecer nessa faixa etária, porque o nosso cérebro fica pronto mais ou menos aos 30 anos, né? Tanto que o melhor antídoto que existe para você eliminar, diminuir a chance de um suicídio ou homicídio é um aniversário de 30 anos.
Malu Perini:Interessante, não sabia disso.
Voz D:É, a gente demora demais para desenvolver.
Malu Perini:Acho que o homem deve ser um pouco mais, né?
Bruno Perini:É, o homem mais.
Malu Perini:O jovem tem que acabar, é o que eu sempre digo. Ainda bem que acaba, que a gente vai envelhecendo.
Vitor Blazius:E o jeito mais perigoso de uma mulher morrer é ela beber junto com um familiar. Porque quem mata os homens em relação à violência com álcool, que é a maior em volume das Américas e não é o maior país, é beber junto com um familiar, é morrer nas mãos de um familiar. Mulher morre nas mãos de um familiar.
Bruno Perini:Que se embebedou e acaba fazendo isso.
Vitor Blazius:É, o homem não. O homem por causa de uma idiotice, uma besteira numa festa que nem conhecia, um desconhecido completo, ou no acidente de trânsito. Aposto eu passar ou alguém corta ele no meio do trânsito, ele bebeu, ele tava armado, acabou. É o risco que ele assume, que ele, beleza, pode dizer que, ó, 50 vezes eu fiz isso e não deu nenhum problema. É que não precisa acontecer duas, né?
Bruno Perini:O quanto a mudança de ambiente, de convívio com pessoas, pode auxiliar a não desenvolver esse tipo de vício? Porque eu lembro que eu li sobre a volta dos soldados americanos do Vietnã, e lá no Vietnã eles usavam muita droga. Quando eles voltaram, muita gente pensou: cara, temos um grave problema com isso. Só que os caras saíram de um ambiente muito tóxico, com todo mundo usando droga, para ser recebido pelas famílias sem droga. Então vários simplesmente largaram o vício na substância.
Vitor Blazius:Esse é o estudo do Bruce Alexander, um canadense, que ele fez um estudo mostrando que a ideia de vício que se tinha era de um rato, se não me engano, o Wistar, que era um— colocava ele numa gaiola e colocavam para ele usar droga ou água. E aí esse rato usava mais droga que água, então, portanto, dependência química, substâncias matam, viciam, é uma coisa biológica. E quando pegaram esses ratos, foram estudar mais a fundo e viram que eram ratos sociáveis. Então deixar ele sozinho, isolado, o efeito do isolamento social não foi considerado nesse cálculo. E aí fizeram um parque dos ratos, que é o paraíso dos ratos, onde tinha tudo que o rato poderia querer e uma socialização intensa.
Malu Perini:Água e droga também.
Vitor Blazius:E aí deixaram a água e a droga lá e uma imensa minoria dos ratos se envolvia nesse comportamento dependente. Alguns experimentavam inclusive sem danos ou com danos mínimos.
Malu Perini:Eles não se juntavam e falavam: "E aí, quem vai usar mais essa droga?" Não tinha isso.
Vitor Blazius:É, porque geralmente a gente tem uma coisa quase que transgeracional, né? Os amigos... Por que alguém se junta com amigos que usam drogas e bebem? Muitas vezes porque já vem de um ambiente familiar em que necessariamente, não necessariamente drogas, mas o convívio com os pais e o jeito dessas relações eram problemáticas e deixavam esses jovens mais vulneráveis, que se juntavam com outros jovens vulneráveis. E tem um dado bem interessante para pais, que é como prevenir drogas e álcool nos seus filhos, quais são as práticas.
Voz D:Eu tô perguntando para mim mesmo.
Malu Perini:Você é pai?
Voz D:Sou.
Malu Perini:Nós também.
Voz D:Eu penso muito nisso.
Malu Perini:Quando a nossa criança ainda é Bem bem pequenininho.
Voz D:Que idade tem?
Bruno Perini:Tá com 1 ano.
Vitor Blazius:Então quais são as medidas mais importantes para se ter com essa criança? Tem 3. Uma é super criança adolescente, né? Porque a primeira é colaborar para que não tem nenhuma droga que uma criança se imagina usando, a não ser o álcool. Quando eu crescer, eu quero beber vinho.
Bruno Perini:Ela vai ver as pessoas fazendo, né? Viram uma espécie de aspiração.
Malu Perini:É engraçado porque, por exemplo, meus pais não bebem, né? A minha mãe deve experimentar alguma coisa, meu pai não bebe nada, meu pai não bebe nada.
Bruno Perini:Mas na Malu é só maconha, mano.
Malu Perini:Minha mãe deve, não, de vez em quando ela toma um drink, né? Mas é muito raro, eu nem sei a quantidade, deve ser menos do que 2 vezes no mês, alguma coisa assim. E aí é muito menos que isso, é muito menos que isso, mas eu não tive essa aspiração. Ai, quando eu crescer eu vou beber, porque eu não vi em casa, não tinha. A gente não, eu nem sabia.
Bruno Perini:Eu achava que era elegante beber vinho, então de certa maneira eu tinha isso, olhava assim, falava: não, beber vinho, apreciar.
Vitor Blazius:Mas é, né?
Malu Perini:Eu podia tomar um pouquinho de vez em quando, entendeu?
Bruno Perini:Mas é, você falou então, a primeira é não deixar com que ela se imagine usando uma substância.
Vitor Blazius:É, não necessariamente isso, mas não é essa, é que esse é só um dado extra.
Voz D:Ah, tá.
Vitor Blazius:É que as crianças se imaginam. Se perguntar para elas, e no Reino Unido elas conhecem mais marcas de cerveja do que de brinquedos e doces. Caramba! Isso é grave, né? É grave. "Propaganda não influencia." Então são burros, é isso?
Voz D:Estão gastando dinheiro com propaganda porque são burros? É a única resposta? Que se a propaganda não faz diferença, estão gastando, jogando dinheiro fora? É isso? É comum fazer isso? Acho que não.
Vitor Blazius:As 3 medidas são tempo, E aí é um dado duro, né, pra gente, eu sei, eu sou pai e endurece pra mim, porque tempo não é só de qualidade, tem que passar tempo com os filhos. Tempo.
Voz D:Não adianta só uma hora por semana, tem que ser tempo. Supervisão.
Vitor Blazius:Tem que supervisionar, tem que estar de olho, tem que ver o que estão fazendo, se estão no celular, o que estão mexendo, com quem estão andando, tem que supervisionar. E a terceira, que talvez seja a mais desafiadora de todas, Seja, o seu filho, e isso é uma coisa que a gente não garante, né, isso que dói na gente, o seu filho precisa ter a confiança de que ele pode contar tudo para você. Talvez não tudo, mas os problemas mais relevantes.
Malu Perini:E isso é uma coisa que implica numa relação difícil, porque ao mesmo tempo você tem que passar confiança, mas você vai ser a pessoa que vai corrigir. Então você tem que corrigir de forma que não iniba a criança a contar um problema que seja um problema que você vai corrigir de fato, né? Então é complexo.
Vitor Blazius:É complexo e a gente também, e a supervisão também é complexa, né? Porque a gente tem uma sociedade que, na medida em que estigmatiza o consumo de álcool, talvez isso possa tornar menos frequente, se eu ver os meus filhos usando, eu ligar para os pais de todos eles. Mas talvez a gente possa ligar para os pais deles antes e dizer que quer saber caso descubra algo assim, né?
Voz D:A gente tem que criar uma rede, né, pra poder supervisionar os nossos filhos o máximo possível, principalmente no período de vulnerabilidade.
Malu Perini:Que é até os 25 anos. Hahaha.
Vitor Blazius:Tem um dado de... Diz que eles estão ficando em casa, né?
Malu Perini:Diz, né? Quantos anos tem o seu filho?
Voz D:Um tem 4, o outro tem 1.
Malu Perini:Ah, é novinho ainda, né?
Bruno Perini:E, Vitor, tem algum dado de qual idade, em média, as pessoas começam a beber aqui no Brasil?
Vitor Blazius:Tem e subiu um pouco. Eram 13 anos, subiu agora pra 16.
Bruno Perini:Em média, 13 anos? Pô, 13 anos em média? Eu comecei a beber com 17. Eu comecei a beber, comecei a beber com 17, tipo, uma cerveja numa festa, entendeu? Primeira vez.
Malu Perini:Eu bebi com 13.
Bruno Perini:Não, mas tá, você bebeu com 13? Pelo amor de Deus!
Malu Perini:Sim, eu sempre fui uma, mas se você bebeu com quantos anos, Vitor?
Vitor Blazius:Você que trata, eu tinha uma festa de 15 anos de uma prima minha e eu acho que foi 14.
Bruno Perini:Meu ponto ainda, se você bebeu '3, você é a média.' Então alguém bebeu com 8 porque eu bebi com 17.
Malu Perini:É porque muita gente, e isso que eu acho que é o mais grave, não fui eu, é a mesma coisa da mulher que não sabe que pode, não pode beber grave, são os pais que deixam a criança beber, amor.
Vitor Blazius:Não sabem, não sabem, deixa a criança deixar só um golinho de cerveja. Se for contar isso, eu comecei com 5. Meu Deus do céu, eu descobri abrir um ponche de uma prima minha numa festa de 15 anos.
Voz D:Eu não tinha lembrado, não tinha pensado que a festa era de 15 anos e talvez não devesse ter ponche, né?
Bruno Perini:Pois é. Ponche?
Malu Perini:Ah, tinha na festa.
Voz D:Ponche saboroso, tinha. Mas eu fiquei rodando assim, eu não sabia por que que eu tava tão tonto.
Malu Perini:É, eu não lembro na verdade.
Voz D:Mas o meu porre mesmo de verdade consciente foi com 13, 12, 13, 12.
Malu Perini:Nossa!
Bruno Perini:É muito cedo. Mas se você é a média...
Vitor Blazius:E antes dos 13 anos, a gente tem um dado que antes dos 13 anos é o período estudo que aumenta quase 10 vezes a chance de ter uma dependência quando adulto.
Bruno Perini:Caramba, caramba!
Malu Perini:15, eu acho que eu bebi com 15, mas também não foi assim, ah, fiquei bebendo.
Vitor Blazius:É que a gente fala, a gente, né, me coloco na sociedade, eu digo isso porque eu não diria isso, mas fala para criança, não, isso aqui é bebida de adulto. Sim, bebida de adulto, tá? Todas as coisas legais que os adultos fazem, tipo trabalhar, quero fazer, quero dirigir, "Quero beber." A gente cria no imaginário uma pessoa que bebe. Se a gente faz isso, depois a gente vai falar: "Não, mas seja responsável." Mas não está sendo responsável. Acho que daí não confia na gente. A gente não observa muito o que está acontecendo. E aí quando chega o problema grave, fala: "Olha, não tem o que fazer." Daí procura ajuda num grupo de ajuda mútua que vai dizer: "Você tem que deixar o teu filho quebrar a cara." Aí você se distancia mais dele. Aí ele fica mais isolado, com mais raiva de você. Você acha que ele vai pedir ajuda quando? Nunca. Aí você vai criticar ele: "Viu como eu tinha razão? Ele é tão sem-vergonha que ele não pede ajuda." Mas não se imagina no lugar dele, né?
Bruno Perini:É, pelo que você disse então, essa questão desse ambiente familiar mais seguro, com mais tempo de convivência com os filhos, mais supervisão, isso é um grande inibidor desse contato das crianças com as drogas.
Vitor Blazius:É, eu acho que daí é um desafio interessante, né, que a gente tem que... Eu li num... Tem um livro muito bom que eu li recentemente de pais, vocês já leram? O livro que você gostaria que seus pais tivessem lido.
Malu Perini:Ah, alguns amigos meus já leram.
Bruno Perini:Você começou a ler esse livro?
Malu Perini:Eu comprei, não comecei ainda.
Bruno Perini:Não começou não?
Vitor Blazius:Vai gostar, acho que vai gostar. Que dizia uma coisa que provoca assim a gente, né, principalmente quando começa a crescer um pouco, chega nos 2 ou 3 anos, a gente começa a perceber, né, que eu pensava que não ia ter o terrible two na minha casa, mas teve.
Malu Perini:Não tem.
Vitor Blazius:E aí começou a pensar assim, estar com os filhos, beleza, mas você tem, é uma responsabilidade que é difícil de fazer dependendo do momento, da fase, porque eles mudam o tempo todo, né? Você já percebeu?
Voz D:Você já perdeu um recém-nascido, já perdeu um bebê, você fica perdendo seu filho o tempo todo e chega outro, né? Porque eles mudam a personalidade o tempo todo.
Vitor Blazius:Você precisa gostar de gostar de estar com teu filho. E às vezes isso implica a gente educar ele e também ter criatividade para criar coisas para que você possa ter momentos em que seja legal para você também estar com ele, né? Não fica aquela coisa pesada, "tô cuidando dessa criança", mas é importante você ter aquela sensação. E isso é muito fácil de perceber pela criança, né? "Meu pai e minha mãe, eles gostam de estar comigo." É difícil isso, né? Se a gente não tem uma coisa muito dura, muito pesada.
Malu Perini:Sim, verdade.
Vitor Blazius:Então, só supervisão, como alguns fazem, é melhor que nada, bem melhor. Mas tem que juntar com essas outras.
Bruno Perini:É o que é um desafio no mundo moderno para muita gente, né? Casal que trabalha. A gente é privilegiado nesse ponto.
Malu Perini:A gente tem muita sorte.
Bruno Perini:É que a gente trabalha em casa.
Malu Perini:E não, mas sobre o que você falou, eu e o Bruno, a gente não bebe, né? A gente consideravelmente não bebe. Não é que a gente não bebe nunca. Se eu tiver sem amamentar, sem querer engravidar e sem estar grávida, provavelmente vou aceitar uma taça de vinho. Mas nos últimos anos não tenho aceitado. Mas todas essas coisas, apesar de eu ter experimentado bebida acho que com 15 anos, eu não bebia com frequência, né? Eu fui cooptada como todo jovem é cooptado. "Ah, experimenta aqui. Pra você ser legal, você tem que experimentar." E aí eu acabei experimentando. Mas eu não fui uma pessoa que tive o álcool presente porque todas essas 3 coisas que você falou, tempo, supervisão e confiança de contar tudo, teve na minha casa. Eu acho que realmente faz diferença.
Vitor Blazius:E tem uma coisa que faz o contrário, que as pessoas usam e acham que faz positivo. E aí, quando eu digo isso, sempre me dizem: "Não fale isso, Vitor." Mas eu acho que tem que dizer, está na literatura, não inventei, que é: Uma medida que foi testada e reprovada era a modalidade que, não sei se vocês receberam, do ProERD. Ah, já, o programa de educação contra as drogas? Não sei se funcionam assim ainda, mas na minha época era o programa de educação contra as drogas que ia na escola e falava: "Drogas matam, seu careta, seja careta!" E cria aquele pânico moral nas crianças, que ficam super curiosas para experimentar as drogas.
Malu Perini:Tem até aquele meme, amor.
Bruno Perini:Mas é um meme.
Malu Perini:É um meme, mas é muito bom. Eu e o Bruno, a gente sempre usa, porque afinal estamos rodeados por drogas e a gente tá sempre tentando dizer não às drogas, né? E aí tem um meme que é uma reportagem de um garotinho que assistiu...
Bruno Perini:Acabou de passar pelo ProERD.
Malu Perini:Essa palestra, e daí o repórter pergunta: "E aí, o que que você aprendeu?" Aí ele olha, não sei o quê: "Que as drogas são a solução." É muito bom esse meme. Aí eu e o Bruno, a gente sempre usa.
Bruno Perini:"Mas não tem efeito então?
Vitor Blazius:Você acha que é mais densidade?" Não só dá, é que não é nem a minha opinião. Viu?
Malu Perini:Ele tava certo.
Vitor Blazius:Tem estudos mostrando que essas estratégias aumentam o uso de drogas.
Bruno Perini:Caramba!
Vitor Blazius:É, porque a gente não pode adotar uma política pública e soltar. "Não, isso parece bom, solta." A gente tem que ver o que aconteceu com os índices.
Malu Perini:E não diminuiu?
Vitor Blazius:Aumentou.
Bruno Perini:Que teoricamente seria uma conscientização... Teoricamente não, né? É uma conscientização sobre os efeitos adversos e mesmo assim aumentou.
Vitor Blazius:É que não é uma coisa tão racional, né?
Voz D:Se fosse racional, pouca coisa é racional, né?
Malu Perini:Por isso que eu falei para o Bruno, eu já falei isso, o Bruno falou que eu tô errada, que eu não vou criticar as drogas firmemente para minha filha. Se for usar, me avisa para a gente resolver como que a gente vai fazer isso.
Bruno Perini:Se for usar, me avisa.
Voz D:O caramba!
Malu Perini:O Bruno falou que não é assim que a gente vai tratar.
Voz D:Tempo, supervisão, confiança.
Vitor Blazius:Eu vou falando, meu filho, pai, o que que estamos tomando ali? Daí eu faço assim, não, é veneno, meu amor.
Voz D:Por que que as pessoas estão tomando veneno?
Vitor Blazius:Já vou te explicar. Eu explico, é que o meu é muito curioso, ele quer saber todos os detalhes. Ele não fala que ele tá com sono, mas é dele, né? Ele não fala que ele tá com sono, ele fala, eu tô ficando com muita adenosina. Você acredita?
Voz D:Eu acho que ele é muito reforçado, né? Porque ele me fala isso. É maravilhoso.
Malu Perini:É, provavelmente é muito estímulo.
Bruno Perini:Você tem mais alguma pergunta?
Malu Perini:Não, não tenho. Acho que não.
Bruno Perini:Estamos chegando no horário, né?
Vitor Blazius:Sim.
Bruno Perini:Vitor, foi um prazer recebê-lo aqui. E para quem está assistindo, se tem algum último recado para pessoa que você acha que é interessante que a gente não comentou aqui. Alguma passagem que a gente não comentou?
Voz D:Ah, foram muitas coisas que a gente poderia comentar, mas talvez numa próxima.
Vitor Blazius:Foi um prazer, adorei participar, fiquei feliz.
Voz D:Espero que tenha sido claro o suficiente. Se alguma coisa não ficou claro, comenta e eu posso responder também.
Bruno Perini:E se não ficou claro também, o pessoal quer aprender mais, também fale suas redes sociais, o que você faz, tem YouTube, Instagram, tudo aí, pode divulgar à vontade.
Vitor Blazius:Tenho um perfil no Instagram, tenho um canal do YouTube que já vai voltar a ser popular. Então podem me seguir lá, você que quer aprender mais sobre o assunto, você que tem um familiar que tem um problema com álcool ou drogas, ou se você quiser aprender mais para você, você é bem-vindo e pode chegar lá e mandar perguntas.
Bruno Perini:E qual que é o arroba do Instagram?
Vitor Blazius:@doutorvitorblasius.
Bruno Perini:E o YouTube também, também mesma coisa.
Malu Perini:Tá ótimo. Muito obrigado, Vitor, pela presença. E vocês encontram a gente aqui semanalmente no canal dos sócios, sempre com episódio para tentar de alguma forma ajudar e acrescentar na sua vida. E vocês me encontram no @malu Bruno Perini no Instagram.
Bruno Perini:Vocês me encontram no Instagram, @bruno_perini, YouTube, Você Mais Rico, e sempre aqui no Sócios. Para quem assistiu o nosso, muito obrigado pela audiência. O nosso convidado, obrigado pela presença, espero que volte mais vezes. E é isso, pessoal, grande abraço e até a próxima.
Malu Perini:Beijos!
Barsí
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