O que define o grau de bipolaridade de uma pessoa?
Tati Bernardi leva ao divã de Meu Inconsciente Coletivo um diagnóstico recente: a ciclotimia leve. No episódio, a colunista da Folha conversa com o psicanalista e psiquiatra Mario Eduardo Pereira sobre transtornos de humor, bipolaridade e os desafios de diagnóstico. Como se dão as oscilações entre polos depressivos e estados mais eufóricos? E quando essas variações deixam de ser parte da vida cotidiana e passam a exigir atenção clínica?
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- Definição e classificação de transtornos afetivosConceito de tonalidade afetiva (Stimmung) · Polos depressivos e maníacos · Continuum de afetos · Transtornos afetivos versus esquizofrenia · História psiquiátrica dos transtornos
- Bipolaridade tipo 1 e tipo 2Episódios maníacos franco · Episódios hipomaníacos · Diferenças clínicas práticas · Critérios diagnósticos DSM · Manifestações comportamentais
- CiclotimiaOscilações leves de humor · Natureza crônica · Mal-estar subjetivo · Oscilações frequentes ao longo do dia · Diferenciação de mania e depressão graves
- Saúde MentalComplementação ao tratamento medicamentoso · Reconstrução de significado · Mudança de plasticidade cerebral · Relação transferencial · Orientação do tratamento multidisciplinar
- Fatores Ambientais e TraumáticosAbandono parental na infância · Abuso sexual · Violência familiar · Traumas precoces · Alterações cerebrais por trauma
- Fatores Genéticos e Saúde MentalHereditariedade · Gêmeos univitelinos e bivitelinos · Múltiplos genes envolvidos · Vulnerabilidade versus determinismo genético · Ausência de marcadores genéticos específicos
- Saude ClinicaDificuldade diagnóstica · Passagem por múltiplos diagnósticos · Confusão com ansiedade · Importância da história clínica · Critérios objetivos versus experiência subjetiva
- Mecanismos de ação e funcionamentoVirada maníaca ou hipomaníaca induzida por medicamento · Efeitos colaterais · Importância do diagnóstico correto · Combinação com estabilizadores de humor · Ajuste de tratamento
- Valor e PrecificaçãoDefinição de transtorno pela subjetividade · Preço da forma de vida · Exaustão versus funcionalidade · Sofrimento pessoal · Critérios psiquiátricos versus experiência vivida
- Histórias Pessoais e de ViajantesNarrativa autobiográfica do paciente · Retrospectiva sobre padrões de vida · Identificação de gatilhos · Contexto social e cultural · Intersecção entre história e psicopatologia
- Trauma - Aspectos NeurobiológicosAlterações em regiões cerebrais de memória · Processamento de emoções alterado · Reações de ansiedade aumentadas · Plasticidade cerebral · Possibilidade de modificação por experiências relacionais
- Medicamentos e TratamentosLítio · Lamotrigina (Lamictal) · Topiramato · Cannabis medicinal · Efeitos colaterais e tolerância
- Manifestações depressivas em transtornos afetivosTristeza intensa · Falta de sentido e motivação · Possibilidades psicóticas na depressão · Desesperança · Impacto na funcionalidade
- Manifestações maníacas e hipomaníacasExaltação e irritabilidade · Excesso de confiança e amor próprio · Coragem irreal · Criatividade aumentada · Possibilidade de experiências psicóticas
- Humor e ComédiaVariações apropriadas ao contexto · Significação dos eventos · Inscrição cultural · Diferença entre normal e patológico · Importância do contexto social
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psicanalistas e psiquiatras sobre temas que têm perturbado a minha cabeça. Como diagnosticar o grau de bipolaridade de uma pessoa? O que um cancelamento causa na saúde mental? E se quem te cancela é alguém próximo? Existe um bom uso da maldade? O que às vezes a gente se comporta como criança ao tentar educar justamente uma criança? Por que escritas autobiográficas geram tanta raiva? E hoje eu converso sobre os subtipos do transtorno bipolar com o psicanalista e psiquiatra Mário Eduardo Costa Pereira.
Ele é também professor titular de Psicopatologia Clínica da Ex-Marcelio Université, professor livre docente do Departamento de Psiquiatria da Unicamp e autor dos livros Pânico e Desamparo e Erótica do Sono. Mário, recentemente eu fui diagnosticada com ciclotimia, né? E aí algumas pessoas chamam isso de bipolaridade leve. Aí fui entender que tem a bipolaridade 1, bipolaridade 2.
eu não fui em psiquiatra, não mediquei pra nada. A partir de uns 32, na verdade, eu comecei a ser medicada com antidepressivo pra ansiedade e fui tratada como ansiosa por 10 anos. E só depois dos 40 e alguma coisa é que eu fui diagnosticada com ciclotimia. E por mais de 10 anos era ansiedade. Eu tive uma depressão muito que não era leve, assim, que eu fiquei um pouco assustada,
Então, tive essa depressão e também tive com um antidepressivo pra dor, uma virada maníaca. E aí, que era no passado os maníacos depressivos, que hoje em dia a gente não fala mais, né? Conta um pouco pra gente desse espectro da bipolaridade. Legal, Tati. Olha, todos esses termos que nós estamos usando, nós estamos usando os termos da psiquiatria num recorte do mundo, do sofrimento psíquico,
que são muito importantes. E mesmo quando a gente parte para outros registros de debate, psicanalíticos, sociais e outros, é muito importante a gente ter também bem claro como é que isso se passa nesse contexto, nesse recorte psiquiátrico, por vários motivos. E eu gostaria de hoje aproveitar para a gente poder aprofundar. Você está tendo uma oportunidade rara desse debate. Você dá um ponto de partida, algo muito pessoal teu, que é a questão, que é muito comum,
Até chegar a um diagnóstico nesse campo dos transtornos afetivos, um diagnóstico psiquiátrico, ter passado por vários tratamentos, por vários diagnósticos anteriores, em primeiro lugar, porque não é fácil o diagnóstico psiquiátrico desses transtornos. E vou fazer uma apresentação bem geral, que possa ser acessível a todos, e a gente pode entrar em detalhes. Quando a gente fala de transtornos afetivos, de transtornos do humor, o humor é uma tonalidade,
É a tonalidade afetiva básica da nossa predisposição em relação ao mundo. Por exemplo, eu posso acordar de manhã com uma predisposição muito triste, muito negativa, o outro muito bem disposto, muito alegre. E o mundo vai ser lido a partir desse filtro. Os psicopatólogos alemães, eles falam desse humor como a estímulo. Estímulo é estímulo, é a voz, é a tonalidade, é o tom.
Qual é o tom básico que a gente se coloca no mundo, que o mundo é filtrado? Isso varia muito de pessoa para pessoa. E em algumas situações patológicas, essa tonalidade pode ser muito carregada de tristeza, de melancolia, de desânimo, de falta de sentido, de falta de motivação, de falta do ímpeto para viver. E isso tende a ir para os polos mais depressivos.
sujeito que acorda, ou que tem uma predisposição muito animada, muito feliz, muito otimista, muito exultante. E quanto mais ela for intensa, ela pode chegar a coisas que a gente chama, a níveis que a gente chama de hipomaníacos e maníacos. Você usou esse termo pra você mesmo. O que que é o maníaco, no ponto mais extremo? É quando o sujeito tem uma tal exaltação do humor que ele fica exaltado, muitas vezes irritado e às vezes
o que aparece em primeiro lugar, e é bem frequente, seja a irritação, seja a impaciência, a exaltação, além de um otimismo extremo, um amor próprio completamente desenfreado, uma coragem irrealista, um ímpeto para fazer as coisas. Enfim, uma grande alegria que pode chegar até níveis psicóticos. Ele pode perder o contato com a realidade. Ele pode achar que é o rei do mundo, ele pode achar que é o imperador do Brasil, ele pode achar que é Deus.
No polo depressivo também você pode vir a ter experiências psicóticas. Você pode achar que você é a causa da morte de Deus, que o mundo vai terminar por sua causa, que você já está morto, que não tem mais sentido em nada, que o mundo vai acabar. Então nós temos uma espécie de um gradiente. Tem uma continuidade que vai de uma ponta a outra. E tem também a questão da modulação desse humor. Em situações que nós vamos simplificar nossa conversa, vamos chamar de habituais da vida cotidiana,
natural do humor. Pra todo mundo. É, pra todo mundo, né? Dentro dos padrões daquele laço social, daquela cultura. Por exemplo, se você tem uma perda importante, você tende a ficar mais triste, se você tem um grande sucesso, você tende a ficar mais alegre, se você tem uma boa notícia, isso te anima, se você tem um fracasso, se você tem uma decepção amorosa. Enfim, tem uma modulação que faz o humor acompanha em termos de significação, em termos de inscrição, algo que tem a
com você e as marcas dentro da cultura que você vive, essa grade de interpretação do mundo que é compartilhada no laço social onde você vive. Bom, as situações, então, mórbidas, patológicas, é que nós estamos falando em termos psiquiátricos, é quando você está nos extremos ou tem muita dificuldade de modulação. Você vai ter, por exemplo, às vezes você tem uma perda. Eu, por exemplo, há muito tempo atrás, tive uma paciente,
que entrou num quadro depressivo extremamente grave, profundo, depois da perda do cachorrinho dela. Foi uma perda importante, mas ela entrou num estado devastador. Ela achava que o mundo não tinha mais sentido, que tudo tinha acabado, que não havia mais nada que pudesse motivar na vida. Quer dizer, como se tivesse um estímulo que para outras pessoas poderia ser leve ou moderado, para ela foi como um fim do mundo, tinha uma significação própria e que aquilo parecia que não tinha mais fim.
Não tinha uma modulação. Ou você pode ter para os outros lados também. Você pode isso desencadear um quadro hipomaníaco ou maníaco. Hipomaníaco são essas mesmas coisas maníacas menos intensas. Bom, a ciclotimia, ela tende a ser um quadro também de humor, um quadro afetivo, que há uma oscilação. Uma oscilação mais leve. A pessoa não chega a entrar nos quadros extremos, nem de mania, nem de depressão. Muitas vezes é subclínico. São variações que depois o sujeito olha retrospectivamente e vê.
Puxa vida. Eu era assim desde sempre. Desde sempre não tinha me dado conta. Às vezes, como você, você está fazendo um certo tipo de tratamento e é comum nesses quadros em que tem presença de elementos hipomaníacos ou maníacos que quando se usa antidepressivos, como foi o caso que se traz, o sujeito tem uma reação paradoxal. Em vez de sair da depressão ou de controlar a ansiedade, desencadeia um quadro hipomaníaco, uma ciclotemia ou mesmo um transtorno afetivo.
Bipolar ou maníaco. E aí a pessoa, o médico, se dá conta, puxa vida. Eu achei que era ansiedade, eu achei que era um transtorno borderline, eu achei que era, enfim, um outro tipo de quadro clínico. Aqui aparece bem claro que era um quadro afetivo. E é físico, né? Eu lembro que eu liguei na época pro psiquiatra e ele me medicou especificamente pra dor crônica. Eu já tomava antidepressivo pra ansiedade e falei, eu tenho muita dor no corpo.
remédio também, que é um antidepressivo bom pra dor. E acho que uma semana ou dez dias depois, uma semana depois que eu tava com o remédio, eu liguei pra ele e falei, eu não sei, mas meu coração tá muito disparado. Dá a impressão que eu vou ter um negócio, assim. Ele falou, e no teu comportamento? Porque aí acendeu uma, né? Eu falei, ah, eu tô, eu falei, tem uma coisa interessante acontecendo comigo, porque eu tô criando coisas até quatro da manhã e eu
Tô achando todas muito geniais e mando mensagens de vamos fazer tal coisa, vamos fazer tal coisa. Não consigo parar. E aí ele falou, para o remédio hoje. Você tá tendo a virada maníaca, medicamentosa. Mas eu te confesso que se não fosse o coração disparado, a sensação de criatividade, ela é muito interessante. E é perigosa, né? Porque deve ter gente que gosta dessa sensação. Sem dúvida, tem gente que sente saudade disso.
mais criativa, isso inclusive coloca problemas éticos técnicos, né, se a gente tivesse condições de manter todo mundo num nível hipomaníaco, sem grandes riscos não valeria a pena enfim, se desse pra dormir, né se desse pra dormir, bom, enfim mas eu vou te propor primeiro a gente deixar o campo mais claro possível para os que estão nos escutando aqui então, do ponto de vista digamos, da construção
dessas categorias psiquiátricas, isso levou muito tempo para tomar essa forma. Isso começa lá na forma atual, vamos colocar assim como um marco histórico, século XIX, quando um grande psiquiatra alemão, o Krepp, ele vai separar os dois grandes grupos de psicose na cabeça dele, que era o que se chamava de transtorno maníaco-depressivo, psicose maníaco-depressiva, que era o nome da época, por um lado, e as psicoses, que ele chamava de demências precoces,
depois seria a esquizofrenia. E quando isso entra no contexto psiquiátrico contemporâneo, não vou entrar nos detalhes, mas fica mais ou menos o campo dividido nesses dois grandes grupos, os transtornos, cuja alteração principal é do humor, do afeto, desse tipo de tonalidade. Então, isso seria o transtorno afetivo bipolar, os transtornos depressivos, por um lado. E, por outro lado, os quadros psicóticos do tipo da esquizofrenia.
Quando entra na faculdade de medicina, curso de psiquiatria, em primeiro lugar, a separação clara. São dois universos diferentes. Nem sempre isso é tão simples, como eu falei. Você pode ter fenômenos delirantes, nos casos extremos de mania, mas desse tipo que você descreve. Uma excitação, só que é uma excitação muito maior do que essa que você experimentou. O sujeito fica muito acelerado, às vezes não dorme. Tem pessoas que podem, inclusive, morrer de um desgaste tão grande,
parece um estupor maníaco que não para, não para, não para, não para e morre de solstão. O que foi assustador pra mim foi perceber que eu tava tendo uma coisa que era muito parecida com o que eu tive a vida inteira, só que tava um pouquinho a mais. E aí por isso eu fico insuportável. Mas quando eu percebi que esse pouquinho a mais era insuportável eu me dei conta de que eu estava vivendo com algo que era além. Sabe? Assim, precisou esse remédio da virada maníaca pra eu entender
Entender, nossa, isso aqui é muito ruim, eu não consigo dormir, eu não tô conseguindo me alimentar direito, porque é tanta ansiedade, é tanta excitação, né? Acho que é um efeito meio cafeína, assim, não sei explicar muito, meio cocaína, não sei. E tira fome, né? Porque quem come descendo da montanha russa ou subindo da montanha russa? Ninguém vai comer uma pizza na descida da montanha russa. Mas o que foi assustador pra mim é que quando ele falou, hum, talvez eu acho que a gente precise estudar um pouco se você não tem ciclotimia.
Tava um tom a mais em algo que já era um tom a mais. Porque aí eu percebi que a minha vida inteira foi isso. Ah, essa coisa de 50 projetos de uma vez. Que eu sempre falei que, ah, é porque eu tenho que sustentar muita gente. Ah, é porque brinco, né? Ah, doidinha dos projetos. Mas na verdade, é uma prisão. Porque eu tiro férias e continuo pensando, criando. E não é de um lugar, nossa, que inteligente. É de um lugar que não consegue parar, sabe?
cultural, em que isso é muito valorizado socialmente, né? Pessoa que trabalha, que tá lá em meu projeto, o que você tá fazendo? Não tá dando pra parar, minha vida é uma correria, como é que tá sua? Tô correndo também. Então, isso dá um pouco a tonalidade do ambiente social. Se você fosse lá uma monja, beneditina, uma copista que passa a vida escrevendo uma iluminura na Bíblia, que essa coisa acelerada não tem nada a ver. É um transtorno muito bem aceito numa situação
neoliberal, né? Então, por isso demorou tanto também pra eu achar que tava me causando mal. Eu precisei chegar numa dor crônica horrível no corpo, enxaqueca de assíndio anão, gastrite, refluxo, intestino irritável, pra entender. Bom, eu acho que é porque eu tô me machucando de não conseguir parar. É, então você veja, né? Quando que se transforma num transtorno? Se você pega e aplica o diagnóstico psiquiátrico
de uma maneira fria, o transtorno é definido de fora em direção à pessoa. Se ela está dentro desses critérios, ela está no transtorno. Do ponto de vista subjetivo, vai ser um transtorno para ela quando aquilo propuser uma forma de vida que já não está mais valendo a pena. Que o preço para viver daquele jeito é muito caro. O sujeito começa a se desgastar muito, começa a não ver mais sentido, sai de um projeto no outro e não consegue nem desfrutar
sem fim, ou porque tá na exaustão, ou porque acaba tendo problemas físicos com isso. Então, tem um ponto de vista a partir do sujeito. Então, eles não coincidem o transtorno definido de fora pra dentro pela psiquiatria e de dentro pra fora pelo próprio pessoa, pelo próprio... Bom, claro que nos extremos, nós todos mais ou menos estamos de acordo que o sujeito passa a noite inteira no em cima do telhado cantando, dizendo que ele é Deus e que não se alimenta e que tá morrendo. Bom, todos vão me dizer, bom, eu tenho que fazer alguma coisa.
Isso pode ser genético? Então, essa tua pergunta é excelente. Te agradeço que você tenha feito. É importante para discutir isso publicamente, discutir com as pessoas que se interessam, de um diálogo que seja interessante da psiquiatria, com a psicanálise, com a cultura. O que se sabe com os estudos atuais? Se sabe que há uma participação, em primeiro lugar, familiar indubitável. Você pega, você faz. Isso já desde o século passado. Você faz estudos de cortes.
se acompanha famílias ao longo do tempo, se faz estudos de incidência ao longo de famílias, você tem muito mais chance de vir a desenvolver aquilo que se chama transtorno afetivo bipolar, nós estamos falando desses hoje, no interior de famílias. Tem mais entre a própria família do que na população em geral. Bom, eu, por exemplo, sou gaúcho. Toda a minha família é colorada.
Colorado. Ontem tava em Porto Alegre, vi o Inter ganhar do Grêmio, no Beira Rio, tava lá. Feliz na vida. Mas não é porque toda a minha família é colorada que tem o gene do Colorado. Sim, aí já é a explicação da psicanálise. Você é criada por uma mãe bipolar, você vai... Então, tem um fator desse tipo. Então, é importante quando a gente vê isso, ver qual é o peso de um e de outro. Bom, mas também é verdade que tem outros elementos que não são tão simples. Por exemplo, se você tem um irmão gêmeo,
gêmea, univitelina, ou seja, uma gêmea idêntica a você, se você tem um transtorno afetivo bipolar, a chance que ela tem, independente de qualquer outro fator, entre 50, 60%. Mesmo que tenha sido criado em outra família, em outro país. Então é uma mistura dos dois. Se você tiver um gêmeo que não é univitelino, a chance de ela ter, se você tiver, já cai pra 15%. E a chance, na população em geral, se pegar qualquer pessoa, ao acaso,
mundo, a chance que você tem de pegar uma com transtorno efetivo bipolar é de 1 a 2%. Bom, esse tipo de estudo são muito vigorosos, são muito robustos, né? Então, dificilmente você pode contestar esse elemento factual. Realmente, tem fatores que indicam que a possibilidade de ter participação genética, ela é grande. Bom, o que se sabe mais especificamente do gene, não apenas da herança? A herança pode vir de vários fatores,
fatores genéticos. Para falar também de uma maneira simples. Uma coisa que se sabe, ou até agora não foi demonstrado, é que não existe o gene do transtorno afetivo bipolar. Você encontra esse gene, então o sujeito tem o transtorno afetivo bipolar. Isso é mais ou menos a composição do fator genético para qualquer transtorno mental. O que eu vou descrever agora é mais ou menos o panorama genético da grande maioria da participação dos fatores genéticos.
em transtornos mentais. O que a gente tem é uma composição de vários genes. E que esses genes, eles podem, conjuntamente, cada um, com uma contribuição bem parcial, aumentar muito a vulnerabilidade do sujeito a desenvolver um quadro desse tipo. Então, a gente tem que pensar numa combinatória. É o meio mais a constituição. Você pensa assim, olha, já foram identificados, sei lá, vou dar um chute,
não sei de cabeça, uma centena de genes como estando preferencialmente presentes em pessoas com transtorno afetivo. Mas que basta lá uns 30, 40 pra aumentar o risco. Então você pode ter três pessoas, todas elas têm fatores genéticos que predispõem ou que facilitam que ela venha ter um transtorno bipolar, sendo que nenhuma delas tem os mesmos genes. Sim. Tem composições genéticas,
expostas a um mundo, naquele mundo e naquela existência particular, aquela constelação facilita que ela tenha esse tipo de descompensação. Ela não é determinante, mas então se fala muito mais de vulnerabilidade do que propriamente uma causalidade linear. Mas a gente só sabe que a pessoa tem essa genética depois que ela tem a doença, porque não é como descobrir um câncer, não tem como ver isso, um exame para ver a genética da bipolaridade.
Também é muito importante. A gente não tem hoje em psiquiatria, como a gente tem em oncologia, por exemplo, certos genes marcadores. Mas tem, por exemplo, um cérebro que ilumina mais num lugar e etc. E tem genes também, como eu falei. Tem vários genes, candidatos. E tem alguns poucos genes, mas existem, cuja presença aumenta muito o risco. Ah, entendi. Então, a gente não tem ainda um marcador genético. Mas existe.
Esses elementos. Os marcadores tumorais, eles devem ter revolucionado, né? O estudo de câncer. Não tem isso pra doença psiquiátrica. Quando surgiu o DSM-5, ou seja, a classificação de transtornos mentais da Associação Psiquiátrica Norte-Americana, em 2013, o presidente da época do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, que pertence a um outro grupo, quem faz o DSM, é a Associação Psiquiátrica Norte-Americana.
Nacional de Saúde Mental é um órgão de Estado que faz as políticas de saúde mental, exatamente, políticas de pesquisa e tudo mais. Aí ele diz assim, olha a situação. Alguns dias antes de lançar o DSM, dizendo assim, o nosso instituto não vai mais financiar pesquisas cujo critério diagnóstico é do DSM, porque eles se baseiam em diagnósticos clínicos. Nós queremos financiar aqueles que se baseiam em concretudes biológicas, neurológicas. E o modelo para
psiquiatria não pode mais ser a clínica do século XIX, mas a oncologia do século XXI. Tá na declaração dele. Que isso seja realizável ou não, só pra você ver a influência da oncologia. E precisa de muito dinheiro também. Não, mas enfim. Uma coisa é você ter o fator biológico, outra coisa é como é que se traduz numa patologia ou num sofrimento psíquico. É, mas também ele tá ignorando estudo de causa, que é uma coisa importantíssima, né?
É que aí a gente entra também numa discussão... Eu posso falar brevemente, porque
Esse tema é muito importante, embora não seja o nosso centro, mas é muito importante ficar claro pra gente poder avançar. A presença do fator biológico, ela não é por ela mesma uma tradução do que vai acontecer no campo do sofrimento da patologia singular. Eu vou dar um exemplo, talvez eu tenha inclusive falado lá na outra vez que você me convidou aqui, mas que eu acho que é um exemplo muito claro. Você pega uma situação que não tem nenhuma dúvida que tem o fator biológico,
síndrome de Down. A não ser que você seja um terraplanista da psicopatologia, a síndrome de Down precisa ter uma alteração cromossômica do par 21. Então, é inquestionável que tenha alteração cromossômica. Quando eu entrei na faculdade nos anos 70, no Brasil, a expectativa de vida de uma criança com síndrome de Down em torno de 15 a 18 anos, que ela morria abandonada pela família, pela escola, pelo Estado, pela sociedade,
uma associação de crianças excepcionais, porque a concepção de médico, família, escola, Estado, tem uma lesão biológica que determina o destino mental dessa criança, ela vai ter um retardo mental irrecuperável, não adianta investir. Coloca numa instituição que se ocupa disso e é isso. Não estimula, é um abandono. Hoje, no Brasil, ou seja, não é tanto tempo assim, a gente vê as pessoas,
com síndrome de Down. Envelhecendo. Não, você tem... A expectativa no Brasil já é mais de 65 anos. Pessoas com cidadania plena, totalmente integrada, com vidas legais, dignas, super... Autônomas, muitas vezes. Autônomas. E você, veja, nós não curamos a trissomia do íntimo. Você entende? A trissomia, o fator que seria o determinante biológico, continua lá. Mas em pouco tempo, posso te dizer sem medo de errar.
nenhuma condição que leve uma família a procurar ajuda clínica para crianças na área de saúde mental, que melhorou mais do que a síndrome de Down, que existe um fator biológico inegável, mas que a gente não tratou a biologia. As crianças melhoraram incrivelmente em todos os parâmetros. E o que que curou? Curou a nossa mentalidade. A patologia não estava restrita ao fator biológico. Quando a gente muda a mentalidade,
do médico, da família, da escola, da sociedade, quando a gente consegue conceber que uma criança com insumida do 21 pode ter uma vida legal, digna, social, que a gente pode investir, que muda tudo. A mesma coisa acontece para todos os outros fatores genéticos, biológicos. O que vai acontecer? Claro, tem elementos que dependem da natureza biológica do que está em jogo, mas tem outros que vão depender da relação do sujeito com a sociedade, vai depender como é que ele vai se conceber a si mesmo,
de oportunidade que vai se dar e daí por diante. Bom, quando a gente tá falando de transtorno afetivo bipolar, quando a gente tá falando de fatores genéticos, a gente tem que ter esse horizonte também de fundo. Porque senão a gente faz uma coisa determinista. Olha, é transtorno afetivo bipolar, tem fator biológico, então acabou. Não há outra coisa que fazer a não ser dar o remédio que é sintomático e torcer pra um dia ter o tratamento genético.
O fator genético é um fator dentro de uma equação. Então, isso é muito importante. Eu tô sem medicação pra, nesse momento, pra
ciclotimia. Eu tô tratando ela em análise, porque eu entendo que dentro, não sei se a gente pode falar de um espectro, mas dentro desse espectro bipolar, o meu, dito pelo psiquiatra, é visto como algo muito leve. Então, você acredita na possibilidade de tratar uma ciclotimia só pela análise? E se for uma bipolaridade mais grave, muito perigoso ficar sem remédio? A gente pode pensar assim? São fenômenos muito complexos. Você falou da
o Freud pensava toda a etiologia dos fenômenos mentais como uma etiologia heterogênea. Ele nunca achou que se devesse apenas a fatores mentais, psíquicos, emocionais. Ele cria noções como equação etiológica, séries complementares, em que ele vai pegar diversos elementos e vai ver como se compõem na vida de cada pessoa. Depois eu posso te dar um pouco de detalhes sobre isso,
porque isso é muito importante, mas para não perder o fio do transtorno afetivo bipolar. O que se sabe hoje? É verdade que tem fatores genéticos. É verdade que eles são, em geral, fatores dispersos, são vários, que eles dependem de uma composição. Mas também é verdade que, por exemplo, dei o exemplo dos gêmeos univitelinos. Tem exatamente a mesma composição genética da sua irmã univitelina e ela tem 50% de chance de ter um transtorno bipolar
você tem. Mas ela tem 50% de não ter, tendo mesmo a composição genética que você. E um filho? Então, essa é uma outra questão. Se sabe, do ponto de vista estatístico, que casais que têm transtorno bipolar têm uma chance maior de que essa criança venha a ter um transtorno bipolar. Isso vale para estudos populacionais que são sempre históricos, datados, enfim. Nesse ano, nesse dia, nesse mundo, a vida sendo
ela é esse casal. Um casal dessa população tem tanto por cento de chance de vir a ter. É muito importante. Então, essa é a tua pergunta. Não tem nenhum caráter de determinação, de necessidade. É um panorama do mundo tal como ele é hoje. Mas o que a gente sabe biologicamente hoje? As grandes linhas. Sabes que além do fator genético, é muito marcado que tem certos elementos da vida da pessoa, que são
muito mais frequentes naqueles que vão ter transtornos afetivos ou não. Por exemplo, você estuda a vida dessas pessoas, elas têm muito mais história de abandono parental na primeira infância ou na infância, de abusos, de violência e de abuso sexual. É incontestável isso. Então, você tem essas populações, elas estão fortemente
Conectadas com o transtorno afetivo bipolar. E eu diria, a história de abuso e de trauma pecoce, eles estão presentes em quase todas as psicopatologias. São marcas fundamentais. Mas no transtorno afetivo, elas são muito documentadas. Então, existem várias teorias que tentam dar conta. Tem algumas que são muito próximas do Freud. Quando eu falava lá da equação etiológica. O Freud achava que... Como é que se dá a etiologia da doença mental?
com um pacote de coisas, com um pacote cultural, familiar, simbólico, humano, com um pacote biológico. E ele vai ter uma primeira formatação na primeira infância, nos primeiros anos de vida, e quando tem uma maior plasticidade, quando estiver exposto a um mundo concreto, a vida com o outro, ao meio ambiente, e se ele tem a sorte ou não de ter experiências que são muito brutais, traumáticas. Perda dos pais precoce,
Um ambiente familiar muito disruptivo, violência dentro do... Física, abuso sexual. Então, ele dizia assim, olha, dependendo da predisposição que o sujeito vê, que ela é biológica por um lado, mas essa predisposição não é só biológica, ele tem os outros fatores. E a que tipo de vida que ele teve junto ao outro. E as ocorrências desse primeiro momento vai ter uma primeira solidificação, que vai dar aquilo que o Freud vai dizer é uma espécie de uma fixação,
daquilo. Mas aquilo sozinho é capaz de desenvolver a patologia? Não é. Ele vai dar, então, a predisposição, vai dar a forma básica que o sujeito vai se instalar no mundo. O sujeito pode ter toda essa predisposição, mas jamais depois, na vida adulta ou na vida posterior, vai depender daquele sujeito conformado daquele jeito ao que ele vai estar exposto. Por exemplo, essa minha paciente. Pra ela, a morte do cachorrinho teve uma incidência brutal. Depois,
Na análise, ela conseguiu. É, aparece as coisas. Foi o presente que ela recebeu do pai, que tinha abandonado ela pra ficar com a nova companheira depois da mãe. Então, o único elo que ela tinha com a história familiar dela era aquele cachorro. Bom, é uma história que pra ela tem uma super significação, é que ela perda, veja. Então, para o Freud, ela depende desse conjunto de fatores heterogêneos. Eu tenho uma amiga que ficou muito mal.
Na morte do cachorro. Mal de fazer uma depressão bem profunda. E na análise ela descobriu que ela fazia lá um link com um aborto que ela fez. E que ela achava que a alma do bebê que ela abortou tava no cachorro. Então ela... Tem muita coisa, né? Tem muita história. E por isso a análise é tão importante. Por isso você só medicar e não ir atrás da tua história é tão perigoso. Exatamente. Mas vamos dar um passo a mais. O que se sabe mais disso? A gente sabe que esses fatores,
Abuso, violência, perda precoce das pessoas mais significativas da vida no início, fazem alterações cerebrais. Não são cérebros iguais daí pra frente. Isso já é bastante documentado. Você vai ter certas regiões cerebrais ligadas à memória, ao processamento das emoções, às reações de ansiedade. Isso eu acho fantástico. Esses caminhos desenhados no cérebro. Eu fui muito atrás de ler sobre isso por ter crise de pânico.
Imaginava meu cérebro como uma floresta E o pânico desenhou uma estrada Mas sair do pânico desenhou outra estrada Eu acho isso fantástico Eu acho isso Estudar isso das coisas mais interessantes que existem Então, isso são questões ainda em aberto Então, assim, pelo que se conhece hoje E a massa de informações disso é tão robusta Que você não pode simplesmente negar Não é simplesmente o efeito do capitalismo O efeito do discurso da ciência, não
essas transformações elas são estáveis mas elas não quer dizer que elas não sejam modificáveis por outras experiências pela palavra por mais ciência ou por uma relação com outras pessoas enfim, mas elas tendem a ser constantes, estáveis tendem a não desaparecer espontaneamente então isso é bastante marcado com isso não quer dizer que você não possa reconstituir uma certa
nisso por outras vias. Sejam sociais, culturais e também experiências como essa com outras pessoas ou uma experiência muito específica voltada pra isso que é uma análise. Que te permite uma reconfiguração disso. A gente sabe que a experiência psicoterapêutica também muda a estrutura cerebral. Eu não tô aqui falando também coisas idealistas. Muda. A gente não sabe com que profundidade
ainda, que zonas são alteradas e qual é o efeito mesmo dessas mudanças. Mas a gente sabe que é possível alterar também essas mudanças com fatores que são relacionais, que são da linguagem, que são, enfim, de uma ressituação. Mas ao mesmo tempo, a análise te permite uma outra coisa. Tem aqueles elementos que a gente não sabe o quanto que eles podem se modificar nessa estrutura básica, mas também muda a maneira como você se relaciona com isso.
se relaciona, como você se relaciona com a cultura no interior da qual você vive e que ela própria assiste a tua posição que nem com as crianças com síndrome de Down. A doença não tava apenas nelas, tava na sociedade. Exatamente. Você precisa tratar a sociedade pra melhorar a clínica do que acontece com criança com síndrome de Down. E você pode mudar completamente a vida de todo mundo de uma maneira radical como nenhuma outra. A grande questão da minha ciclotimia pra mim é a raiva.
Quando eu fico com muita raiva. E a análise me ajudou a ver os gatilhos e parar antes, né? Então, não sei se a ciclotimia, enquanto doença, hoje em dia diminuiu na química, no desenho do meu cérebro. Mas a análise me deu ferramentas pra não entrar nesses gatilhos. Ela pode estar ali, mas eu sou mais do que ela. Eu sou muito mais coisa além dessa predisposição ou dessa síndrome ou disso. Não sei como explicar direito. Então, isso é muito importante.
É importante para todo mundo ter claro. Tem algumas coisas que vão chamar da questão que eu diria nuclear. Isso tem fatores biológicos, históricos, linguísticos, culturais, dos eventos da vida que vão se solidificar de um jeito. E eles são parcialmente modificáveis com o que se conhece hoje. Seja por vias químicas, seja por vias relacionais, humanas, enfim. Mas eles são modificáveis. Ao mesmo tempo tem uma outra dimensão. É isso que você está relatando.
como é que você convive com isso e como é que a sociedade convive com isso. E que pode ser mais ou menos patogênicas. Então, muda tudo. Então, isso é muito importante que a gente tenha todos esses planos ao mesmo tempo. A outra coisa que é importante dizer é que, nesse sentido, a biologia, ela não é destino. E eu diria cada vez menos isso. A gente está falando, por exemplo, que a relação com os outros, uma terapia pela palavra, pela transferência,
ajudar a modificar mesmo esse núcleo central. Isso nós vamos ter que ver. Que tem alterações, isso já é demonstrado e demonstrável. Em que nível que isso age, nós vamos ver. Mas, por exemplo, hoje você tem cada vez mais elementos que te fazem pensar que mesmo a plasticidade, no ponto de vista neurológico, pode ser relançada. O Freud era muito negativo nisso. Ele tinha um conceito que atravessa a obra inteira
dele, que se fala muito pouco, mas ele fala de uma ponta a outra, ele retorna que é da viscosidade da libido. Viscosidade da libido, ele dizia, olha, depende da pessoa. Ele dizia que era um número primo. Cada pessoa vai ter maior ou menor plasticidade pra reorganizar os seus investimentos afetivos, libidinais. Quanto mais plasticidade tiver, melhor vai ser o resultado terapêutico numa cura pela palavra. Quanto menos, pior pra ele. Mas ele dizia, é um número primo.
análise não mexe nesse nível. Bom, você pode reler isso. Bom, mas será que essas alterações que vieram lá do encontro de uma predisposição genética com um azar de infância com não sei o que mais. O signo. O signo. Será que isso faz um destino cerebral imutável? Não necessariamente. Cada vez menos a gente pensa nisso. Você pega, por exemplo, aqui eu vou medir minhas palavras de novo. Não quero dar nenhuma falsa esperança, mas são coisas
Por exemplo, tem cada vez mais pesquisas com elementos psicodélicos. E de que forma esses agentes psicodélicos, muitos deles, eles permitem pelo menos conceber interações que ampliam a capacidade plástica do cérebro. Aquilo que parecia, cada vez que eu perco, é igual ter perdido a minha mãe ou ter sido abusada pelo meu tio. Que exposta a certas circunstâncias te permitem ampliar a tua rede associativa de memórias, de recontextualização e tudo.
que ressituam isso. Não estou dizendo que isso seja feito hoje, nem estou dizendo que temos certeza que isso vai poder ser utilizado. Sim, mas estudar isso é interessantíssimo. Ressignificar trauma, fazer essa expansão cerebral para novos significados, isso é fantástico. Está cada vez mais dentro do campo do possível e do provável que nós vamos ter condições de ampliar a possibilidade dessas recomposições. Eu, nesse momento, parei com o Lamitore e estou fazendo
Um teste com canabidiol. Vamos ver o que vai dar. Porque o Lamitor, eu não pude… A minha experiência tratando essa ciclotimia, ela foi um pouco frustrante, assim. Porque eu sou alérgica à… A Lamotrigina. A Lamotrigina me dá coceira. E eu não sou… Conversei com dois psiquiatras. Não era caso de lítio. A Lamotrigina acima de 50 me dá coceira.
baixo, né? E teve um outro que eu tentei e que eu fiquei deprimida, que agora eu não lembro o nome, que as pessoas às vezes tomam pra enxaqueca também, que é o... Ah, o tupiramato? E o tupiramato me deixou muito pra baixo, assim. Então eu tive uma experiência e aí a própria psiquiatra falou, né? A sua ciclotimia dá pra você controlar ali com o antidepressivo que eu já tomo, pra ansiedade, e vendo. E aí eu tô tentando o canabidiol. Mas você, quando recebe um paciente
vai lá pra saber se ele tem a ciclotimia. O que que te acende alerta pra que ele possa ter? Então, eu não faço quadros de depressão profunda e não faço quadros de mania perigosa, né? Mas ao longo do dia eu fico, eu faço marolinhas disso tudo o tempo inteiro. E uma coisa muito chata é assim, num mesmo dia eu tô no emprego da minha vida e eu quero pedir demissão. Nada disso em intensidade pra que eu peça demissão ou pra que eu me sinta a rainha
sei lá, a Coca-Cola do deserto, mas marolinhas de, e segundo essa psiquiatra, essas ondas de humor e de tá tudo bem, não tá, tá tudo bem, não tá, tô incrível, tô péssima, tem a ver com a minha dor crônica, porque essa baixa, essa subida, mesmo sendo nada muito colorido, mas tem ali um colorido, isso é o que me dá a dor crônica, e isso fez muito sentido
mim, né? Mas o que que a pessoa chega no teu consultório e fala, que você fala, tem uma ciclotimia aqui ou tem um caso de bipolar 1 ou 2? O que que difere eles de uma forma bem prática, assim, bem simples pra quem tá ouvindo a gente? Bom, hoje como essas informações circulam muito, então muitas vezes a pessoa diz, ah, eu acho que, geralmente o termo que ela usa é bipolaridade, eu acho que eu tenho bipolaridade, eu acho porque...
Tomei o bipolar, a pessoa fala. Tomei o bipolar, porque... Ah, hoje eu tô meio bipolar, amanhã não.
Então, é comum que ela se autodescreva dessa maneira. E aí, você já fica pensando. É muito comum também isso que você descreveu pra você. O que é mais chamativo naquele momento pra própria pessoa é a ansiedade, é a irritabilidade. Isso é o que mais me incomoda. Eu sou muito irritada. Com coisas bobas, assim. O barulho que a pessoa do meu lado tá fazendo pra comer, eu tenho vergonha. Eu não falo pra pessoa, mas eu começo a ficar. Quando eu vou ver, eu tô, sei lá,
unhando a minha mão, porque a pessoa tá fazendo um barulho pra comer. Quando eu entendi que isso podia diminuir, e é muito perigoso, porque o uso de remédio taja preta, tipo um rivotril, ele melhora muito essa sensação. E ele é pra ansiedade, ele não é pra ciclotimia. Eu não tomo pelo tanto que eu acredito que possa viciar, porque ele tira muito essa sensação de carne viva e irritação. Então, esse clonazepam, esses bensos jazepínicos,
esse remédio de faixa preta, são tranquilizantes que a gente nós psiquiatras, a gente tem de usar o menos possível a gente usa em situações muito específicas, em períodos controlados, bem delimitados porque não são medicamentos que se possam usar a longo prazo. É terrível, eu fico sem memória, é uma ressaca horrorosa então, mas é comum a gente receber pacientes que já vem usando esse tipo de medicação há muito tempo. Como no início não é tão
claro, como você está descrevendo agora. Então, é comum ter acontecido com as pessoas o que você descreveu pra você. Chama mais atenção da própria pessoa e do médico os sintomas de ansiedade, de irritação. Não dorme direito. Insone e tudo mais. E ele trata com um transtorno ansioso. Cada vez mais se tende a tratar, um dos tratamentos principais é usar antidepressivos com ação na ansiedade. Mas,
é comum acontecer o que aconteceu. Quando a gente tem fenômenos hipomaníacos ou maníacos, se você dá o antidepressivo, pode piorar esses sintomas, aí aparece. Aí o médico diz, agora entendi. Ele lê o passado, aquilo tudo, a própria pessoa se dá conta. Não, agora ficou claro. Foi o que aconteceu pra você. Então a história que você conta de você mesmo é muito típica, mas não é tão claro. Você vai tomar uma decisão do que você vai fazer. Você tá vendo a pessoa pela primeira vez,
Você vai propor um tratamento a longo prazo com lamotrigina, com outros estabilizadores do humor? A gente usa muito a lamotrigina, um excelente remédio. Pena que você não tenha tido um bom resultado. Dá muito problema de pele, é comum disso acontecer. Se usa também, eventualmente, outros estabilizadores do humor, embora o efeito do tratamento medicamentoso na ciclotimia seja menos estudado do que no transtorno bipolar mais claro.
evidente, né? E nem tem urgente. Daí, de repente, acho que não estuda muito por isso. Sim, mas eu gostaria de dizer uma coisa bem clara, porque você tinha me feito essa pergunta antes e eu gostaria de deixar uma resposta bem clara. Qual é o papel da medicação? Eu diria assim, são quadros muito complexos, que vários fatores estão em jogo. A avaliação clínica é muito importante. Tem situações, e eu diria a maior parte delas, que o tratamento solicita um tratamento
com vários, né? Vários elementos. Você vai precisar de um, usar, por exemplo, um esquema medicamentoso eficaz, abordagens psicoterápicas, às vezes, mais de uma delas. Às vezes, você tem sintomas, por exemplo, o sujeito desenvolve uma fobia. Tá dentro de quadros... É menos comum, mas pode acontecer, né? Ou então, ela tem, desenvolve ao longo do tempo, né? Certos tipos de comportamento que respondem à irritação, que já viram automáticos.
Então, você pode pensar num painel terapêutico, usar uma medicação, que a pessoa faça análise, que ela tenha um tipo de terapia para evitar os efeitos desse tipo de comportamento, trazendo muitos problemas para ela. O toque pode estar dentro de espectro? A gente pode falar em espectro bipolar, como a ciclotimia sendo mais leve? Não. Tem muitas vezes, tem sintomas parecidos, mas acho que a gente pode deixar o toque um pouco à parte, para a gente tentar deixar o painel claro com essas três.
afetivos, tem três principais. O transtorno afetivo bipolar do tipo 1, que aparece claramente pelo menos um episódio maníaco franco. E o transtorno bipolar do tipo 2 é que tem pelo menos episódios hipomaníacos. E a ciclotimia, o terceiro, que é isso que você descreveu agora. Essas oscilações menos intensas, mais incontroláveis, crônicas, e que acabam trazendo um mal-estar subjetivo.
Muitas vezes ninguém nem vê, mas por dentro eu tô... Exatamente. Montanha-russa. É, às vezes nem o próprio médico percebe. São coisas muito sutis, dependem muito da reação da pessoa. Por isso que eu preciso de uma avaliação clínica muito clara. E aqui a psicanálise pode ajudar muito. Isso é muito importante. Porque nos transtornos afetivos, como em vários outros, você geralmente precisa de vários tratamentos simultâneos e muitas vezes de vários profissionais.
Pensa, por exemplo, no autismo, pensa na esquizofrenia, mesmo em situações de alguns tipos de transtorno afetivo, você precisa de vários profissionais. É muito como dependência de substâncias, você vai precisar de vários profissionais, vários tratamentos. E aqui a psicanálise, ela pode ajudar muito. Não no sentido de dizer que a psicanálise sozinha responde a todas as necessidades dos impasses dessa pessoa. Ela é fundamental nessa restituação subjetiva,
pessoa. Mas ela faz algo muito mais importante, eu diria. Ela permite que você conceba nesse grupo heterogêneo de tratamentos de profissionais, uma orientação pro tratamento. O objetivo do tratamento, ainda que você use a medicação, não é simplesmente controlar o sintoma. Você usa uma terapia comportamental, não é apenas pra fazer um controle. É porque o sintoma aparece de outro jeito depois. É, pode ser muito útil uma terapia comportamental, né? Mas ela não é um fim do tratamento, ela é um instrumento do tratamento.
E aqui a psicanálise pode ajudar muito. Porque um tratamento visa não é adaptar o sujeito à sociedade, ser um bom cidadão no sistema funcional, num sistema neoliberal. Não bota o sistema em questão e trabalha, se dedica. Esses são os critérios de order, desordered. Dos critérios desse... Não é pra isso que serve o tratamento. O tratamento visa, em última instância, que a consertação desses diversos elementos heterogêneos
permita uma melhora da posição do sujeito enquanto sujeito. Na sua singularidade de desejo, que ele possa ser um ser desejante dentro, em relação ao laço social. Ele tem uma posição no laço social, ele tem uma responsabilidade no laço social. Então, nisso a psicanálise pode orientar muito. A gente não quer fazer apenas bons neoliberais. A gente quer fazer sujeitos desejantes que... Que consigam parar, porque também se ele está inteiro,
ele tá inteiro no funcionamento, ele não consegue parar, que é um clássico de… Exatamente. Das pessoas que por fora são funcionais, mas aí você precisa parar entre Natal e Réveillon, a pessoa faz um quadro, um surto, porque ela só se vê trabalhando. Se ela tiver que fazer laço social, ficar em casa pensando, ela surta. É, muitas vezes o sintoma, ele é muito grave, é muito sério, ninguém tá romantizando o sintoma, eu acho que isso é um erro gravíssimo.
Ah, isso é só uma questão. São questões sérias, nos transtornos afetivos. São aquelas situações no campo da saúde mental com riscos. O sujeito tem risco para a saúde física. Ele tem risco de suicídio. Ele tem risco de abuso de substâncias. Então você tem riscos concretos. Não são coisas abstratas. A gente tem que avançar com muita responsabilidade no que se diz nesse campo. Eu sofro de um risco gravíssimo de destruição de imagem.
Então. Eu, na irritação, eu, assim, já aconteceu de eu pedir demissão de um emprego que era importantíssimo e mantinha minha família, já aconteceu. Eu solto merda do ventilador. Então, eu acho que eu não faço a questão. Mas isso é muito sério, assim, né? Porque a irritação me leva a romper com lugares e pessoas e instituições. Isso é muito sério pra mim. Eu não posso te dar exemplos concretos, porque não seria
o caso, mas eu posso dizer, eu teria uma lista infindável de exemplos de pessoas que passaram por isso que numa crise dessas destruíram a própria vida social. Isso, isso. Eu não tenho, né, quando você fala suicídio, eu penso num suicídio de imagem moral, assim, né e que isso é muito sério, porque depois eu entro em quadros, até eu me levantar e eu fico muito deprimida. Agora uma coisa que eu ia te perguntar é se essas situações da vida que desencadeiam, então eu tô
nisso que a psiquiatra chamou de uma ciclotimia leve. Mas, por exemplo, no meu divórcio de um casamento de 10 anos com um filho pequeno, eu tenho certeza que eu flertei ali com uma bipolaridade um pouco mais. Porque algumas coisas levam a gente a piorar do quadro, né? Eu não tava ciclotímica, eu tava realmente, acho que tava com uma hipomania importante ali, sabe? Então, situações assim, eu lembro quando eu entrei na faculdade, que minha vida mudou completamente. Quando minha filha nasceu, não tanto, mas...
logo que eu engravidei, que eu levei um susto, assim, apesar de ser uma coisa que eu queria muito, a minha psiquiatra fala, vamos manter você sem remédio porque tá tudo bem. Mas se acontecer alguma coisa muito disruptiva de rotina ou uma coisa muito importante como falecimento de alguém ou uma separação, um divórcio, aí você precisa voltar aqui pra gente reconfigurar aqui a nossa conversa, né? Me parece que essa atitude clínica é fundamental. Você não tá tratando uma abstração, você tá tratando no caso da Tati.
Isso, isso. Não é um DSM, né? É uma pessoa. Não, o DSM é um dos instrumentos que ela vai certamente servir pra te ajudar, mas não pra ajudar o DSM, pra ajudar a Tati. Isso, isso. Em uma certa configuração, pode montar de um jeito, e se essa configuração muda, você vai mudar o tratamento psiquiátrico. Não fala nem do tratamento psicanalítico, mas tem o pano de fundo psicanalítico que ela vai te escutar em posição de sujeito. Como sujeito Tati,
a melhor composição pra isso. Então veja, no transtorno afetivo nós estamos falando de predisposições, nós estamos falando de tendências de possibilidades de ruptura de uma certa maneira. O Freud dá um exemplo que era muito claro, né? Ele falava que tinha certos cristais da boêmia que já estão todos lapidados. Quando ele cai no chão, ele quebra, mas ele não quebra de qualquer jeito. Ele quebra lá onde já tinha as linhas,
já marcadas de fragilidade daquele. Isso é muito bonito. Isso é a posição do Freud, de certa maneira, é a posição das neurociências e da genética psiquiátrica de hoje. São certas predisposições que um sujeito exposto a situações que possam implicar para ele ruptura, perda, luto. O Freud mesmo dizia, é como a imagem que o Freud usava, era daqueles circuitos elétricos que tem um amplificador, que ele pode amplificar o que aconteceu,
direção da corrente. Era aquilo mesmo. Então tem muitas vezes, e isso é muito importante, isso é uma crítica que a psiquiatria precisa fazer. Porque tende a desvalorizar a experiência subjetiva do que dá em jogo. Não, isso aí é o gene, é a doença. Mas subjetivamente, o sujeito vive, na verdade, como uma grande lente de aumento. Não é que é falso perder o cachorro. É muito verdadeiro, só que toma uma proporção ilimitada. Então muitos tomam aquilo como uma grande revelação, como algo
Algo de muito verdadeiro dele aparecer, mas aparecer de uma maneira louca, que ele não pode gerenciar minimamente, que ele não pode se aproveitar daquilo. É totalmente patológico no sentido do pato, do passivo, do padecemento. Ele padece daquilo, não consegue ter nenhum tipo de orientação, embora muitas vezes uma análise te permita depois ver o que tinha de verdade naquela loucura. É que nem num porre. Muitas vezes você diz assim, eu tava no porre.
Mas aquilo era eu. Sim, sim, sim. A minha psiquiatra fala uma coisa muito bonita. Ela fala que nem sempre as pessoas entendem os seus coloridos. Exatamente. Eu acho essa frase muito bonita. E as pessoas sequer reconhecem que ali pode ter algo de muito verdadeiro subjetivamente, que apareceu de uma forma brutal, incapaz de ser digerido, mas algo de importante. Então, nisso pode te ajudar muito. O que apareceu seu ali?
A morte daquele cachorro foi tão decisiva pra você. É, e por que cada coisa me dói tanto e é tão histriônico dentro de mim? E é cansativo, é chato. Nem todo mundo aguenta um drama de cada namoro que eu termino, cada projeto que não dá certo, cada rompimento com amigo. É um… Precisa ter paciência pra ser amigo de ciclotímicos e bipolares. Mas a gente é muito legal também, a gente é muito bacaninha.
Mostrar o que super vivo, super legal tava naquele momento de ruptura, de dor. O que é a parte de verdade da tua vida, da tua existência. Como se fosse uma lente de aumento, num certo sentido. Pra encerrar, eu quero te fazer uma pergunta. Se é possível alguém se forçar, ficar só subindo na montanha-russa e não descendo, né? Porque eu lembro que na minha infância, na minha adolescência, não era possível fazer nenhum quadro depressivo.
Se eu chegava meio triste da escola e deitava na cama, minha família entrava em desespero.
Tinha que estar feliz. Era uma família que tinha medo de depressão. Então, eu acho que eu abracei essa coisa meio hipomaníaca. E eu era o tempo inteiro fazendo graça pra minha mãe rir, pros meus avós rirem. O tempo inteiro falando, o tempo inteiro. Eu fui pra esse lado da ansiedade. E aí, eu lembro que na primeira vez, quando eu saí da casa da minha mãe aos 24 anos, eu lembro que eu fiquei uma semana assim, eu posso ficar triste o dia inteiro.
triste um dia inteiro, sabe? Foi um descanso, eu descansei na tristeza, porque ela não era era uma coisa que era fácil de educação, sabe? Minha mãe tinha realmente muito medo de um quadro depressivo meu, não dava era não era permitido ficar triste, sabe? Pois é, então, a expressão dessa situação vamos chamar assim, patológica patológica no sentido de um padecimento da pessoa, ela nunca depende de uma questão unicamente da
doença. Ela depende da condição em que ela é social, do mundo, das interlocuções, daquele momento familiar, daquele momento da história, da história social. O quanto isso pode mobilizar gatilhos para uns e para outros, como esse ambiente, ele permite ou não que certos elementos se expressem, como eles solicitam outros. A gente já acabou de falar como essa coisa hipomaníaca é solicitada no mundo
contemporâneo. É muito bem aceito estar hipomaníaco. É muito bem aceito. Numa outra sociedade, a mínima manifestação disso, o sujeito já estaria indo pro médico. Então, isso depende desse contexto todo. Agora, seja como for, tudo isso eu usei a questão do porre, me lembrei daquele famoso ditado latino, em vino veritas. O vinho tem um porre, mas a verdade aparece por ali. De certa maneira, tem algo da verdade
Aparece nisso tudo. E a verdade nunca é só uma verdade. Que depende daquele indivíduo. Daquele sujeito. Ela é uma expressão do que está acontecendo no mundo. Aquela criança como Sandy Down. Quando ela morria aos 18 anos. Abandonada. Não é uma expressão apenas da doença. É uma expressão de tudo. Do pacote todo. Muito interessante. Vou dar a dica absolutamente. Nada a ver, mas tudo a ver. De um stand-up americano. Que chama Marcelo Hernandes.
Urbana. E eu tive uma crise de riso e de choro vendo esse stand-up. Foi catártico pra mim, que ele fala que ele chegou pra mãe dele, que veio de Cuba. Família, ela sofreu muito pra sustentar uma mãe solo, pra sustentar esses filhos. E ele chegou e falou, mamãe, acho que eu tenho depressão. E ela fez quase um rap, assim, pra ele. Ah, você tem depressão? E eu que saí de Cuba? E não permitiu. Não, aqui você não vai ter depressão. Quem vai ter depressão sou eu, a mãe fala.
sabe? E é muito engraçado. Eu acho que eu vim de uma família um pouco assim. Tava todo mundo meio deprimido, mas essa filha que pôde ter as coisas que ninguém teve ali, não podia ter, né? E assim que eu fui morar sozinha, eu falei vou dar uma descansada na tristeza aqui. Mas eu ainda sou mais do... Eu ainda tô mais na hipomania do que nos quadros depressivos. É comum ter os dois juntos também, simultaneamente. É, até porque a hipomania, ela é... Ela é só o outro lado da moeda, né?
Ela só… eu gasto até cansar. E aí, eu canso. E o cansaço me traz depressão. Então, é sempre… a minha depressão é sempre muito associada a eu estar cansada. Mas é porque eu fui até um limite, assim, de… sabe aquela… topar oito coisas cansativas num mesmo dia. E aí, eu chego em casa arrasada. E aí, eu entro… fico três, quatro dias mais deprimida. Eu preciso parar de fazer isso comigo. Enfim.
Muito obrigada, Mário. Sempre incrível conversar com você. Muito, muito bom mesmo. Obrigada. Este foi o Meu Inconsciente Coletivo, o podcast pra onde a sua neurose sempre vai querer voltar. Eu sou a Tati Bernardi e a edição de som é da Zamunda Estúdio. Os episódios do Meu Inconsciente Coletivo são publicados toda quinta-feira de manhã nos principais agregadores de podcast. Escute o seu inconsciente e siga a gente pra não perder nenhum programa. Até semana que vem!