Espectro autista X sociedade da alta performance
O episódio discute o diagnóstico do autismo em meio às pressões da sociedade da alta performance. Tati Bernardi conversa com a psiquiatra e pediatra Patricia G. Ferraz sobre mudanças classificatórias na psiquiatria e diferenças no uso de medicação. A conversa aborda ainda a visibilidade recente da neurodivergência e os riscos do uso de remédios para responder a demandas da família e da escola.
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Tati Bernardi
Patrícia G. Ferraz
- Transtorno do Espectro AutistaMudanças classificatórias na psiquiatria · Uso de medicação em crianças · Visibilidade da neurodivergência · Pressões da sociedade da alta performance
- Saúde Mental JuvenilCobrança por alta performance · Expectativas familiares e escolares · Efeitos da tecnologia no desenvolvimento infantil
Olá, eu sou a Tati Bernard, escritora, roteirista e estudante de psicanálise, e essa é a nona temporada do Meu Inconsciente Coletivo, o programa da Folha de São Paulo que, desde 2021, simula uma sessão de análise e prova que as minhas neuroses dialogam com as neuroses de muita gente. Depois de ter colocado alguns personagens no divã, eu volto a conversar com grandes psicanalistas e psiquiatras sobre temas que têm perturbado a minha cabeça.
Como diagnosticar o grau de bipolaridade de uma pessoa? O que um cancelamento causa na saúde mental? E se quem te cancela é alguém próximo? Existe um bom uso da maldade? Porque às vezes a gente se comporta como criança ao tentar educar justamente uma criança. Por que escritas autobiográficas geram tanta raiva?
E hoje eu converso com a psicanalista pediatra e psiquiatra Patrícia Ferraz sobre dificuldade de aprendizagem e distúrbios do neurodesenvolvimento. A criança precisa caber em uma escola ou é a escola que precisa ter cabimento para uma criança?
Patrícia, vou te contar duas cenas e a nossa conversa vai começar a partir dessas cenas, né? Tenho muitas amigas com filhos, então convivo com muitas mães e muitas crianças. Eu sou mãe também. Primeira cena, tô numa festa, as crianças ali têm mais ou menos três, quatro anos.
E uma das crianças muito tímida não quer sair do colo da mãe. E as outras crianças correndo, brincando. E uma muito tímida não só não quer sair do colo da mãe, como ainda enfia a cara embaixo do braço da mãe. Tem lá uma tentativa de enturmar a criança, mas ela não quer. Eu vejo essa cena como algo totalmente normal, mas percebo que se instaura ali naquele momento um monte de mãe que começa a julgar a cena se essa criança tem algum problema.
E aí, quem é que vai falar pra essa mãe que ela precisa procurar ajuda? Porque essa criança provavelmente tá no espectro autista.
Eu acho aquilo um absurdo, até que chegam nessa mãe, depois de quatro, cinco pessoas ali falarem, não, ela precisa olhar, ela precisa ver isso, ela precisa ver isso, indicam uma psiquiatra infantil ou uma neurologista, não lembro. Essa mãe vai e depois de submeter uma criança de três, quatro anos a milhares de testes, descobre que a criança não estava no espectro autista. Essa é uma cena que me marcou.
Outra cena que me marca também, crianças na primeira série, crianças de 5, 6 anos. A classe toda já praticamente alfabetizada e uma criança com um segundo olhar de algumas mães e algumas pessoas da escola com um certo atraso em relação a outras crianças, porque ainda não tinha sido totalmente alfabetizada, tinha ali entre 5 e 6 anos.
A mãe dessa criança muito angustiada, porque a classe inteira já alfabetizou, leva esse menino em uma neurologista e tem a sorte de uma neurologista que diz pra ela talvez o seu filho seja o mais saudável da sala, porque ele tá dizendo que tem alguma coisa de muito errado com essa escola.
que obriga que uma criança de 5 pra 6 anos esteja totalmente alfabetizada. Talvez ele seja o único ali levantando a mão e dizendo vocês estão tudo doido, né? Então essas duas cenas me marcam muito. E nosso papo de hoje é um pouco pra entender o que que tá acontecendo com tantas pessoas desesperadas procurando psiquiatras, neurologistas, com crianças tão pequenininhas. Claro que muitas dessas crianças estão realmente...
Tem o TDAH, tem o espectro autista. Mas muita gente indo atrás pra receber, procurando, caçando um diagnóstico apenas como a criança tá tímida numa festa. E isso eu vi, eu sou mãe e eu vejo isso o tempo inteiro. O que que tá acontecendo, Patrícia?
muita mãe te procura com esse desespero? Exatamente. Os casos das mães que estão desesperadas, curiosas, eu acho ainda mais tranquilo do que as que já vêm convictas. Já com crianças portando crachás e laudos e coisas do gênero. Isso eu acho muito pior, muito mais grave. Por onde começamos?
A gente está num momento da humanidade cuja informação virou órgão de consumo, virou produto de consumo. Então, todo mundo hoje consome absurdamente informação sem entender que informação não é conhecimento.
Então, assim, uma criança de 3 a 4 anos que tem um comportamento distinto de outras crianças, essa criança pode só estar dentro de um núcleo familiar problemático, por exemplo.
Essa criança pode ter só ansiedade de separação. Ou essa criança pode ter uma síndrome genética. Ou essa criança... Enfim, eu posso passar aqui os próximos 15 minutos. Ou ela pode ser tímida, por exemplo. Ou ela pode ser tímida. Eu posso passar 15 minutos elencando problemas que podem levar a uma mudança de comportamento.
de uma criança muito jovem. Isso é um problema muito sério. O outro problema é que a informação médica técnica que hoje está vigente, principalmente nas Américas, eu vou chamar assim, é uma visão muito baseada em critério. O que é um critério? Você cita um monte de fatores que, uma vez atendidos a esses fatores, você tem um diagnóstico.
Aí qualquer coisa, por exemplo, que andar em cima de duas pernas e tiver dois pés é gente. Não, mas tem outros bichos que andam em dois pés e não são gente. Mas o que a gente tem feito na saúde mental, principalmente na psiquiatria, e na psiquiatria infantil isso é um problema muito sério.
É olhar essas crianças e achar que aquele comportamento que você está vendo só pode estar relacionado a uma causa. Então, quanto mais jovem é a criança, mais indiferenciado fica seu comportamento. O que quer dizer isso?
Quer dizer que qualquer comportamento pode estar relacionado a mil e umas possibilidades e causas, entendeu? Porque a criança tem o psiquismo, não está pronto, não tem linguagem, não tem desenvolvimento cognitivo ainda, neurologicamente ela é imatura, biologicamente é uma máquina que não funciona do mesmo jeito que vai funcionar daqui a 5, 10 anos. Então, você inferir.
que aquele comportamento naquela idade é necessariamente igual a problema X ou Y, você está cometendo um erro. É como dizer, olha, esse vestido que é número 44 vai servir no meu filho de 3 anos.
Não vai, não vai, porque aos três anos é outro modelo. Então esse é um outro aspecto muito sério. O último manual de classificação de diagnósticos que a Associação Americana de Psiquiatria lançou e a Associação Americana de Psiquiatria.
Eu costumo dizer que fez um desserviço para a psiquiatria infantil. Por quê? Coloca no mesmo grupo de problemas, principalmente aqueles que começam na infância, coisas que vão depender da idade da criança.
da idade possível de aparecimento daquele problema, do ambiente que essa criança está inserida, da sua carga genética e seus fatores biológicos, enfim. Tem um monte de variáveis que, a cada momento do desenvolvimento da vida da criança, esses fatores mudam.
Então, até mesmo o diagnóstico de autismo, que hoje as pessoas acham que é muito fácil de fazer, ele se transforma, a apresentação vai se transformando à medida que a criança está crescendo. Então, uma criança de 4 anos pode, a um olhar clínico, a um olhar sem grandes aprofundamentos, ter todos os sinais e sintomas de autismo. Aos 6 anos, a hora que ela entrar numa outra fase neuropsíquica...
Ela tem outra apresentação, o próprio autista, o autista clássico, aquele não verbal, aquele que é da onde originou o diagnóstico. Esta pessoa que, aos seis anos, vai ter todas as características, não se comunica, não fala, não interage, blá, blá, blá, blá, blá.
Essa criança, se for aos 6 anos, e obviamente iniciando precocemente, mas se começar mesmo aos 6 anos, um trabalho de estimulação global, esse menino com 16, 18 anos, todo mundo vai olhar e falar, não, esse menino não é autista. Eu tenho alguns pacientes assim, que vieram pra mim com 3, 4 anos, com um quadro muito evidente de autismo, com toda a sintomatologia, e que foram...
precisa e largamente trabalhados. Um deles, outro dia, me mandou um vídeo que ele vai ser estagiário do SBT porque ele resolveu fazer teatro e ele quer ser ator. Insacional. E ele mandou esse vídeo e, nossa, doutora, olha só. E as pessoas não aceitam que ele é autista. Uma pergunta ignorante. E ele deixou de ser ou tá ali, só que... Tá ali e se apresenta como?
Exatamente, ninguém deixa de ser o que é, a gente se transforma. Você é a mesma Tati que você era com 4, 5 anos, com 12, com 15? Não. Você se transforma, as pessoas se transformam. Então essa visão muito instrumentalizada, muito... Eu não queria usar termos políticos, mas muito voltada às necessidades do capitalismo, ingesta as pessoas num rótulo que depois...
As pessoas mudam, a gente muda, todo mundo muda. Então, assim, sugestão que eu sempre faço para alunos, pacientes, seja lá quem for. Quanto mais jovem for a criança, mais atenção a gente tem que ter para todos os aspectos.
do desenvolvimento desta criança. E associar aquilo, o nosso parâmetro de comparação não pode ser o checklist dos manuais. E das redes sociais. Não, das redes sociais. Isso é terrível. Você sabe, a minha mãe, quando tá uma fofoca aqui, ela vai ficar brava. A minha mãe, depois que ela aposentou, com, sei lá, 60 e poucos anos, ela ficou, adora ficar dentro de casa, não quer sair. Ela também tem fibromialgia, muita dor.
E aí, calhou de aparecer um desses testes de redes sociais pra testar se a pessoa é autista ou não. Ela me ligou desesperada. Sou autista, aos 70 anos de idade ela descobriu. Agora ela tá com 78. Sou autista, minha filha. Eu cheia de trabalho, 78 anos de idade. Eu falei, opa, sério, mãe? É, porque eu não quero sair de casa. E tem um teste aqui de 10 perguntas e 5 eu tenho. Não quero sair de casa. Se a pessoa falar muito perto de mim, me dá aflição. Eu falei, bom.
então, se a gente for pegar esses testes, que nem teste pra saber se a mãe é narcisista, que também, toda mãe agora é narcisista, né? Sim, sim, sim. Eu tenho pavor desses testes de redes sociais. É curioso isso, outro dia eu tava pensando sobre isso, né? Isso já acontece desde a década de 50, porque a Cosmopolitan, por exemplo, lançava em todas as suas edições questionários com sugestões.
Do tipo, ah, você é o tipo da esposa não sei o que, não sei das quantas. Então, essa cultura de questionários rasos para detectar e diagnosticar problema já acontece há muito tempo.
O problema é que com a internet e a velocidade da divulgação dessas coisas, virou uma epidemia, né? Então, infelizmente, isto não é novo, isso não é novidade. Mas agora o negócio pegou uma dimensão, assim, incontrolável. Tem um outro caso também que eu lembro de uma menina da escola da minha filha que andava na ponta dos pés.
E aí, torraram a paciência dessa mãe, que tinha que investigar, você ainda não foi no médico certo, você ainda não foi no médico certo. Com certeza, ela tá no espectro autista. Essa mãe enlouqueceu de investigar com o psiquiatra, com o neurologista, e esqueceu de levar no ortopedista, que era onde tava o problema.
Ela tinha um encurtamento, não sei o que acontecia ali, que ela fez um pouco de fisioterapia e sarou, que andava na ponta do pé. Não, uma criança absolutamente normal, normal, por volta do terceiro, quarto ano de vida. Se essa criança, por exemplo, for uma criança que fica confinada, com pouca estimulação, que a gente chama de psicomotora,
Essa criança vai ter o que a gente chama de estereotipia, vai ter maneirismos, vai ter uma série de alterações motoras por falta de estimulação. Tem uma história aí. Eu fui diretora de um serviço de saúde mental num hospital pediátrico durante 11 anos. E na minha equipe tinha um neurologista que era mais velho que eu.
Tinha mais experiência, eu era mais jovem, eu era bem mais jovem. Aí um dia chegou uma criança lá por dois, três anos. E todo mundo, a equipe, ah, ó, é autista, é autista, é autista. E eu falei, não, é autista. O neurologista olhou assim pra mim e falou, não é, essa criança é mal estimulada.
Dito e feito, a criança ficou internada um, dois meses, porque tinha uma pneumonia grave e tal, não sei o quê. Qual era o contexto? Era uma família carente, uma família de baixo nível socioeconômico, a mãe tinha sete crianças, era só ela para cuidar. Então, esse bebezinho, que era o mais jovem, ficava deitado numa cama, num quarto, numa penumbra, recebendo alimentação de tempos em tempos.
Mas o resto do dia completamente fechado. Então, dois meses internada num hospital onde ela recebia estimulação 24 horas por dia, cerou o autismo. Acabou o autismo. Então, assim, as pessoas têm que entender que esse diagnóstico...
Não é só uma coisa rasa e plana baseada em comportamentos ou em inabilidades ou dificuldades. Esse diagnóstico tem que ser tridimensional. O que é isso? Essa criança tem que ser vista. Desde a sua história de gestação, de parto, de desenvolvimento, a sua história biológica, seus aspectos...
bioneuropsíquicos, seus aspectos psicológicos, seus aspectos familiares, sociais, ambientais. Então, você até falou uma coisa interessante, foi submetida a uma bateria de testes. Outro dia eu ainda discuti isso. Alguém me procurou, me indique uma neuropsicóloga porque eu estou suspeitando que meu filho de 12 anos e eu estou suspeitando que meu filho de 12 anos.
tenha autismo. Daí a minha resposta foi, para avaliar uma pessoa de 12 anos, essas escalas muitas vezes sequer são recomendadas. Porque aos 12 anos, você tem tanta alteração
própria da puberdade e da adolescência, que mudam significativamente o comportamento da criança, que dependendo do que se vê na avaliação clínica, o psicodiagnóstico ou a avaliação com as escalas fica secundário, porque esta criança pode ter sintomas claros de transtorno do humor. Essa criança pode ter sintomas claros de um transtorno psicótico.
que as pessoas não falam. De desejo de isolamento, que tá passando por angústias imensas. Exatamente. Questões psicodinâmicas que imobilizam essa criança. Enfim, a depender do que é visto durante a avaliação clínica...
avaliação neuropsicológica, isso acontece comigo diariamente. Eu atendo num ambulatório de um operador aí de convênio, que eu faço um ambulatório duas vezes por semana só de crianças e adolescentes. E eu vejo situações semelhantes toda semana. Toda semana tem no mínimo duas ou três crianças ou adolescentes que estão apresentando alterações, que a gente chama de alterações psicopatológicas, e que não tem nada a ver com...
Alteração do neurodesenvolvimento. Então, as pessoas, o senso comum, graças à informação sem conhecimento, esquece que problemas do neurodesenvolvimento, primeiro, não é só autismo. Autismo, se você for pegar uma avaliação epidemiológica, autismo é 1% dos distúrbios do neurodesenvolvimento. Então, só dentro do olhar médico, psicopatológico, você tem...
Um monte de possibilidades de alteração. O autismo é uma delas. Mas o povo acha que tudo e que qualquer coisa... Qual é o sírico? Dá exemplo de alguns outros. Transtorno do humor. Transtornos mentais relacionados a ambiente. Falta de estimulação.
alterações genéticas, alterações que eu chamo de congênitas. O que é isso? As pessoas esquecem que filho de peixe é peixinho, né? Às vezes eu recebo pacientes que esse dia mesmo teve um pai, um pai completamente, eu vou usar o termo comum, ele é desfluente, ele é gago, completamente gago, ou seja, um homem que aos 45 anos de vida ainda tem algumas...
peculiaridades do desenvolvimento. E a queixa era que o filho dele era autista, e o filho também era gago, também tinha uma dispraxia, uma dispraxia de fala super importante. E eu falei, este moço não é autista, este moço é seu filho.
Então assim, herança de características genéticas que no adulto às vezes desaparecem, mas na criança aparece. Eu uma vez falei pra pediatra da minha filha que eu achava que ela tava um pouco ansiosa. A pediatra falou, o que você esperava?
Porque não sei o que você estava esperando que acontecesse. Pai e mãe super ansiosos, avós ansiosos, uma vida ansiosa, mora em São Paulo. Exatamente, exatamente. Eu tive uma discussão muito séria com a psiquiatra americana, porque é nessa, os conceitos dentro da saúde mental. Transtorno afetivo bipolar.
que, teoricamente, só pode ser identificado a partir do final da adolescência para frente. Antes da adolescência, os códigos, no máximo, apontam um transtorno disruptivo do humor. Um humor explosivo, intermitente, blá, blá, blá, blá. Como eu sou psiquiatra há muito tempo, já avaliei muito, criança, né, eu só faço isso.
Eu já vi e continuo acompanhando crianças que muito precocemente...
tem sinais e sintomas de transtorno afetivo bipolar. E você acompanha essas crianças e, dito e feito, quando entram na puberdade e na adolescência, está lá o quadro bem florido. Atualmente, eu tenho uns 4 ou 5 pacientes que eu acompanho desde os 4 anos, que estão chegando na casa dos 20 atualmente, e que o percurso é esse.
Então, lá atrás, todos esses que eu tô mencionando, receberam diagnósticos. Um era autista com DDA, a outra era... DDA é distúrbio do déficit de atenção. A outra era hiperativa e os outros dois eram ansiosos graves, com 3, 4, 5 anos. Então, transtorno do humor grave...
é uma outra possibilidade. Aí, alguns colegas falam, não, mas isso é comorbidade, que é um outro problema da medicina, principalmente da psiquiatria. O conceito de comorbidade, quer dizer, duas patologias que coexistem. Então, por exemplo, você é autista, isso é outra coisa que nos moldes atualmente está totalmente possível. Ah, meu filho tem autismo, tem transtorno de conduta.
e tem transtorno de hiperatividade com déficit de atenção. Aí eu falo, ó, provavelmente o seu filho não tem nenhuma dessas coisas e o que ele tem é a reunião de sinais e sintomas que aparecem dentro dessas coisas. Porque assim, não dá pra gente pegar a mente do sujeito que a gente nem sabe direito o que é, né, a função, enfim.
E dividir em pedacinhos. Pra caber no DSM ali, pra tirar 10 no DSM. Eu tenho dermatite, mas aqui eu tenho um tumor. Isso é possível, na pele é possível. Você tem uma área com uma patologia e outra área com outra patologia. Você pode ter no seu pulmão uma área de fibrose e uma outra área cometida por um tumor.
Isto é possível dentro da filosofia anatomobiológica. A mente é um órgão, não é? A mente tem uma anatomia? Não tem.
A existência humana, a subjetividade, o que me faz ser Patrícia e você ser Tati? A gente consegue palpar, mensurar? Não. Não aparece em ressonância, nem em tomografia. Não aparece em lugar nenhum. Então, a pessoa, sob o ponto de vista da mente, tem que ser avaliada no conjunto da obra.
Inclusive, levando em conta o hardware, que eu costumo dizer, que é a parte biológica que sustenta esta função que eu vou chamar de software. Entendeu? Então, não dá para você ter no mesmo software abstrato pontos de coisas.
né? Agora, como o diagnóstico é feito em cima de critério de sinalzinho e sintoma, de checklist... Exato, o checklist é um problema. Aí você pode fazer o checklist e checar tudo. Aí é a vida muito... É uma vida de um psiquiatra que vai pra casa mais cedo que você, né, doutora?
Ele medica e boa sorte, tá? No DSM, boa sorte. Sem dúvida. Essa é uma briga, é uma briga minha já há muitos e muitos anos. Principalmente com os psiquiatras mais jovens. No ano passado, eu tava num evento social de colegas e tal, aí encontrei um outro colega renomado.
obviamente, não vou citar nomes, de uma instituição renomadíssima, cuja consulta é dez vezes, literalmente, dez vezes mais cara que a minha, né? E conversando, o comentário dele foi, ah, você é dessas que só o DSM não basta, né?
Eu falei, sou. Exatamente, sou dessas que só o DSM não me basta de forma nenhuma. Porque eu tô tratando de gente, de gente que não pediu pra nascer, que não escolheu família, que não veio num corpo que foi escolhido e que vai ter que sobreviver e se adaptar pra poder se individualizar, pra se tornar uma pessoa, então.
Eu levo muito a sério. A história que te contam ali, individual. Tudo. Eu me levo muito a sério a criança. Eu me levo muito a sério. Eu levo muito a sério o adolescente, a criança, enfim. Quem estiver ali na minha frente que depende do meu olhar pra abrir e oportunizar.
Um caminho pra que essa pessoa leve uma vida normal. Se é que isso existe. Sim. Então eu falo isso todo dia. Olha, a gente não precisa ser normal pra levar uma vida normal. Mas para levar uma vida normal, eu tenho que ser portadora de condições pra...
Me adaptar pra sobreviver, pra ter autonomia, pra me relacionar, etc, etc. Então eu sempre digo que o diagnóstico na infância e na adolescência, principalmente o diagnóstico médico, tem que ser um ponto de partida. Não pode ser um rótulo, não pode ser um fim, não pode ser um instrumento que vai se sobrepor à pessoa. Não pode.
E tem uma coisa também de uma cobrança por alta performance, que eu só me liguei depois que eu me tornei mãe. Eu não tive essa cobrança, acho que meus pais não eram ligados nisso, eu também fui criança em outro momento do país e do mundo. E eu era cobrada a passar de ano, não dê trabalho pra gente. Eu tinha as matérias que eu gostava, eu ia muito bem, tinha as que eu detestava, a média era cinco, eu tirava cinco e passava de ano.
E acredito, lendo muito sobre TDAH, por exemplo,
Que eu criança, se tivesse essa… Que é perigoso falar, né? Usar a palavra hiperdiagnóstico. Não é hiperdiagnóstico, é assim que fala. Eu não gosto dessa palavra, não. Se tivesse essa moda, eu acho que é uma moda. É, é. É uma moda de… Eu acho que eu teria, talvez… Eu era muito ansiosa, eu tinha fobias e manias e coisas… Enfim, tinha várias questões ali.
Meus pais… Era outra época. Não tinha essa coisa também de olhar pra criança com uma lupa. E eu sinto que hoje em dia tem isso de olhar pra criança como uma lupa. Por um lado, bom. Porque a criança… A gente tá…
mais afetuoso, mais atencioso. Eu recebi muito amor, não tô reclamando disso, mas as questões todas subjetivas de saúde mental, elas não eram tão importantes quando eu era criança, ou seja, há 40 anos atrás. O importante era eu ter todas as vacinas. Meus pais, meus avós vieram de épocas que as crianças morriam com febre, né? Então é...
Tem que comer, tem que dormir e se tirar cinco e passar de ano, tá bom. Não tinha uma cobrança de alta performance. Isso é uma coisa de agora, né? Das crianças de agora. E eu lamento muito isso, porque se por um lado tem esse olhar afetuoso de o que você está sentindo, vamos procurar um terapeuta. Tem um outro lado dessa cobrança que é assim, já me fala logo o que você está sentindo desde os três, quatro anos de idade, porque já começou a competição.
O fulaninho de quatro anos não pode alfabetizar antes de você. Então, é uma competição. Essas escolas que se vendem como forme o próximo CEO, traga seu filho. Então, já bota o menininho lá de dois anos pra fazer a escola que aprende oito línguas desde dois anos de idade.
Que é já formando o próximo, sei lá, dono de… O próximo Faria Limer. Eu acho isso terrível, né? Então, tem essa… E eu acho que essa loucura dos diagnósticos…
E acho também que esse pavor de que o filho tenha qualquer déficit de cognição, claro que tem o olhar de carinho e de amor e de atenção, mas tem essa loucura por botar no mundo crianças para competir com outras crianças.
Quem vai ser esse adulto que vai levar o nome dessa família e que precisa ser melhor do que o filho do vizinho, sabe? E eu acho que muito dessa cobrança por alta performance é que faz ter tanto diagnóstico. Porque é isso, né? A mãe de um menino de cinco pra seis anos desesperada que ele não alfabetizou.
Ainda bem que ela caiu numa neurologista que falou bom, talvez seja a criança mais saudável da sala. Sim. Você tá falando, eu não sou muito jovem. Eu me formei muito jovem, eu me tornei psiquiatra muito jovem. Então, eu, durante a minha vida até hoje,
de assistência, de docência, enfim, de pesquisa e tal, eu já vi vários momentos, várias modas. Porque eu me tornei psiquiatra, pra você ter uma ideia, meio da década, em 95. Em 95, eu já era psiquiatra, aí fui pro mestrado, doutorado, tudo em psiquiatria, sempre atua em psiquiatria. Então, eu tô na ativa, digamos assim, tratando crianças objetivamente, desde 98.
Desde 98. São vários anos. E aí eu vi várias modas. Várias modas. Nesse percurso que você está falando. Agora, uma coisa que me chama muito a atenção. Eu sempre falo isso. A criança foi descoberta meados do século XIX, 18 e 19. Até então não tinha infância. Você nascia, você tinha que sobreviver. Tinha que vingar. A hora que tivesse os primeiros sinais.
de desenvolvimento sexual, tanto masculino quanto feminino, você já ou ia casar, ou ia trabalhar, ou virava herdeiro de alguém, na Europa virava, enfim.
A infância, enquanto um período da nossa existência, com as características que tem e que deveria ser avaliada, nunca foi de fato reconhecida. E aí, a psicopatologia, os diagnósticos, chegaram num momento no qual a gente ainda não é muito...
Não é muito público, não é muito divulgado o que é esperado, o normal. Então, hoje as pessoas estão muito mais movidas com o fato de querer identificar o que não é normal do que pensar no que é normal.
Uma coisa. A segunda coisa é essa coisa da demanda, da exigência. Se eu não estou preparada para entender que aquele ser humano que acabou de nascer tem um percurso e qual é o meu papel diante desse percurso do desenvolvimento, aí essas coisas começam a pipocar. O Bauman falava isso, que filho hoje, no século XXI, se tornou um objeto de consumo.
Então eu tenho um filho para fazer o que eu não fiz, para ser quem eu não fui, para estender o meu ego narcísico. Então, na verdade, tudo conflui por causa disso. Porque eu não ponho uma pessoa no mundo para dar um suporte para esta pessoa se transformar numa pessoa. Eu ponho alguém que vem de dentro de mim, que é a minha extensão e que vai ser o que eu não fui e o que eu não quero.
Então, tudo que vier falando esta mesma língua, será muito bem-vindo. O que vier tem que ser medicado. O que vier contrário tem que ser medicado. Você entendeu? Então, tudo que não é aquilo que tá dentro do roteiro pré-estabelecido, tá errado, é patológico, tem que receber um diagnóstico, tem que tomar um remédio. Porque as pessoas que, né, você é mãe, todo mundo sonha com alguma coisa para o seu filho. Tchau.
O problema é que a gente vive num tempo e numa sociedade que este sonho alguma coisa para o meu filho se tornou... Meu filho é um objeto do meu desejo. É o meu falo, né? Entendeu? É a minha extensão. É como se fosse um braço. Então, toda e qualquer divergência que aquele ser humano que está ali, crescendo, precisando de você para sobreviver, apresentar em relação...
ao meu roteiro pré-estabelecido, ao meu sonho, pronto, tá errado. Tá errado, tem que ser consertado, isso é um diagnóstico, entendeu? Na minha opinião, trata-se disso. E é uma coisa assim, né? Eu tô me lembrando do... O Elon Musk tem 14 filhos por inseminação artificial. O que você acha que é isso?
Empresas, pequenas empresas. Entendeu? 14. E aí, um deles veio transgênero. Pois é, aí não é. Ele já não conseguiu. Jogou fora. Falou que morreu. Jogou fora. Eu acho isso um exemplo tão concreto. Essa mãe que tá preocupadíssima que seu filho de 5 anos não tá competindo.
ela devia pensar o papel dela como mãe desta pessoa. O que ela quer desta relação? É uma relação maternal ou é uma relação de consumo? Não, ele é a minha extensão. De poder, de consumo. Ela é a minha extensão, tem que ser o que eu quero. Tem que ser o que eu espero.
Então, essa cobrança das escolas, essas escolas que, como você falou, eu falo quadrilínguas, que oferecem essas estratégias, na verdade, é uma resposta à cobrança desses pais, ao problema original, que é essa distorção do seu papel enquanto mãe e pai e oportunizador de vida para uma outra vida.
Outra cena também que eu não esqueço, agora uma cena boa. Minha filha, uma época, fez teatro. Daí chegou uma mãe lá no teatro com um menino, um pouco mais novo que a minha filha. E ele era assim, só de olhar, você já falava, nossa. Porque subia em cima de tudo, falava com todo mundo, uma coisa extremamente intensa. E queria saber tudo, perguntava tudo e...
Aí a mãe falou que a escola em que ele estudava chamava ela o tempo inteiro pra falar que ele atrapalhava a aula, porque ele não conseguia parar quieto. E que ela tava quase medicando, mas como uma última alternativa ela ia colocar ele no teatro.
E aí, ele se apaixonou rapidamente ali, um menino de cinco anos. Começou em todas as aulas e no final do ano teve uma apresentação. A hora que esse menino subiu no palco, eu chorava. Mas eu chorava, eu falava que coisa linda. Que bom que essa mãe trouxe esse menino pra cá. Antes de já dar um monte de sossega leão no menino, sabe?
Ele é assim, as outras crianças, eu até comentei depois com a minha filha, eu falei, desculpa, mas não consegui olhar pra mais nenhum outro lugar. Porque assim, eu não sei nem explicar o que era aquilo. O menino nasceu pronto, ele é um artista, não sei se ele vai seguir carreira, mas era uma coisa, ela tinha uma joia na mão, que falaram pra ela que era um problema.
Isso é muito lindo dessa mãe ter levado esse filho pro teatro. Ou, sei lá, pra uma ginástica, ou pra um… não sei. Ela falou, essa é a última medida antes de medicar. Porque é a escola falando que eu tenho que medicar. É a minha família falando que eu tenho que medicar. Porque ele não cabe nos lugares, né? Ele vai continuar não cabendo medicado.
Tem isso também, né? Quando medicar? Quando que você, você como psiquiatra... Tá, vou falar o meu posicionamento que eu adoto. Eu sou médica, né? Eu não sou psicoterapeuta, não sou psicanalista, eu sou médica. Então, o que norteia o meu trabalho é o que eu, como na medicina, chamo de doença. O que é uma doença? Aí, agora, os politicamente corretos vão me...
crucificar, porque transtorno mental hoje chama transtorno porque não é visto como uma doença. Só um parêntese. O que eu concordo, eu acho algo hipócrita, mas eu concordo porque se você não tem uma causa definida, uma progressão pré-estabelecida e uma cura, fica muito difícil mesmo usar o nome doença.
mas pra não ficar falando patológico que eu acho meio arrogante eu uso o termo doença então remédio trata e melhora doença remédio não trata e não melhora problema
Então, se a criança tem uma doença... E seria o quê, por exemplo? Transtorno depressivo, transtorno ansioso, transtorno psicótico, transtorno obsessivo compulsivo, transtorno... Deixa eu ver se eu me lembro mais alguma doença. Tem várias patologias dentro da psiquiatria.
O transtorno do neurodesenvolvimento, principalmente para a psiquiatria infantil, ele está em outra esfera, ele está em uma esfera de alterações inatas. Por quê? A criança que aos 3, aos 4, aos 8, aos 12, apresenta algum tipo de alteração comportamental, que não é patológica, mas é diferente,
Essa criança já veio assim. Eu, inclusive, use, já fui muito criticada por isso, que eu falo, olha, é um defeitinho que veio de fábrica. Não é uma doença. Doença é quando quebra, quando estraga, quando a coisa para de funcionar. Não é aquela criança que é diferente. A criança diferente, ela não é doente. Ela só é diferente.
Agora, a criança diferente pode adoecer e a criança não diferente também pode adoecer. Entendeu? Então, por exemplo, uma criança inquieta, que tem um destempero de humor junto, que tem uma distorção da realidade junto,
Isso não está no pacote da diferença. O destempero de humor e a distorção da realidade está na esfera da patologia. Então, esta criança provavelmente precisa ser medicada, porque ela tem coisas que são patológicas, que não são...
um defeito ou uma alteração inata. Porque, assim, se remédio mudasse características estruturais, psíquicas, a gente tomava remédio e ficava outra pessoa.
Ah, eu vou tomar aí um lítio para ver se eu me tempero um pouquinho mais. Você toma um pondera para ver se baixa o faixa um pouco. Isso não acontece. Pelo contrário, toda vez que as pessoas vão buscar resolver problemas com remédio,
Dá ruim. 98% das vezes dá ruim. Ah, eu não durmo. Tá, vou tomar remédio pra dormir. Se o seu problema de dormir não estiver no início do sono, então no meio do sono, o remédio que você vai tomar vai funcionar um mês, depois não funciona mais.
Então, em que momento medicar a criança? No momento em que ela apresentar alguma psicopatologia. Ah, mas então você não dá ritalina para os hiperativos? De jeito nenhum. Eu dou ritalina, vem vã, se atenta e seja lá o que for, que os americanos tentam nos convencer que é o tratamento correto.
Eu dou caso todas as estratégias adaptativas tenham falido. Então, essa mãe, por exemplo, que foi primeiro para o teatro, ela com certeza podia ser a minha paciente, porque meus pacientes eu mando para a psicomotricidade, eu mando para os esportes, eu mando para as artes, para o teatro, mando mudar de escola, arranjo uma escola diferente, né?
Ah, meu filho não tá se adaptando à escola. A escola não serve pra ele, não é seu filho que não serve pra escola. Isso é uma coisa que eu penso o tempo inteiro. As mães às vezes me perguntam, como que eu escolho a melhor escola? A escola que for parceira com você pra dar o que a criança precisa. E não cobrar dessa criança o que ela não tem pra dar. Então, escola boa é aquela escola que tá junto com a família pra dar o que a criança precisa, do jeito que a criança precisa.
entendeu? E não o contrário. Então assim, medicação hoje na minha clínica, por exemplo, que segue um processo de investigação super profundo. Então eu não faço só bateria de teste pra ver a performance da criança.
Essa criança eu tenho que ver o cérebro dela, eu tenho que saber como é que ela dorme, eu tenho que fazer uma avaliação dos indicadores hormonais, porque tudo que interferir na máquina biológica, no hardware, vai impactar no software. Então, por exemplo, tenho inúmeros pacientes que eu identifico epilepsia do sono.
Apneia do sono, enurese, enfim, enurese é fazer xixi na cama. Inúmeras condições biológicas que geram comportamentos muito parecidos com o transtorno de hiperatividade com déficit de atenção. O próprio transtorno de humor intermitente explosivo é o que é o transtorno de hiperatividade.
É muito parecido com hiperatividade. Muito parecido. Então, se você dá estimulante para essas crianças, que está linda, vem, vem, vem, não sei o que, não sei o que.
elas viram, assim, umas máquinas mortíferas de irritação. Aí, o que os protocolos sugerem que a gente faça? Ah, então agora você dá de noite um calmante. Aí começa um remédio pra melhorar. Um pra dormir, outro pra acordar. Eu sou... Vou ser cancelada por todas as farmacêuticas.
Depois da nossa entrevista. Eu sou veementemente contra essa história de remédio para mudar comportamento. Remédio muda meus rendimentos mentais e não o meu comportamento. Porque o meu comportamento depende da minha pessoa, dos meus valores, do meu ambiente, da minha personalidade.
você foi criado, da tua infância. De tudo. Agora, os meus rendimentos mentais, ou seja, minha atenção, meu raciocínio, meu humor, tudo isso muda com remédio, né? A gente toma um gole de uísque, nossa, tamo num outro...
Num outro estágio. Isso que eu chamo de rendimento mental. Então, o rendimento mental é como eu estou. Isso muda com remédio. Quem eu sou e as dificuldades que eu tenho, não muda com remédio. O estimulante, por exemplo, para o transtorno de hiperatividade. Na criança jovem, ele ceda a criança porque ela tem um efeito contrário.
O estimulante na criança jovem, ele ceda, então a criança para. Ah, mas melhora a função executiva. Sim, melhora a função executiva, mas piora a memória, piora a abstração, piora a elaboração. Criatividade. Criatividade. Tudo fica sedado. Então, lançar mão de medicação é pra agradar a família e a escola.
Doutora, você atende adulto? Ah, mas já vou marcar, mas já tô até nervosa. No consultório eu atendo. O consultório, é assim, eu sempre fui, eu vim até pensando sobre isso, a minha vida sempre foi na infância. Eu sou pediatra de formação, aí fiz psiquiatria geral, depois fui pra psiquiatria infantil.
Trabalhei muitos anos na PAI de São Paulo, numa época que a PAI tinha uma outra abordagem, era uma outra instituição. Aí fui diretora de hospital público, fui de CAPS, enfim. A minha vida sempre foi na assistência lato senso, né?
atendendo crianças e adolescentes. Então, hoje eu sou o resultado, como eu disse, de vários momentos, várias modas. Sim. Por exemplo, quando eu defendi meu doutorado, meu doutorado é sobre crianças com dificuldades para aprender. Justamente isso. Na época...
As exigências e assim, foi pré-internet. Meu doutorado eu defendi em 2002. Então, antes da internet. Então, era um panorama a dificuldade de aprendizagem. Nossa, isso aumentou tanto, isso piorou tanto. E sabe, uma das...
isso é uma opinião minha, não é um trabalho científico um dos motivos pelos quais se agravou a dificuldade de aprendizagem, porque as crianças, como você muito bem disse hoje, não estão expostas a atividades precursoras das ferramentas necessárias para aprender
Brincar, se mover, interagir, lidar com temperatura, com desconforto, com adversidade, ter que resolver problemas. Por exemplo, a gente ia, eu sou mais velha que você, mas a gente ia brincar na rua, ali tinha uma treta, você tinha que resolver. Hoje as crianças são isoladas, confinadas, super protegidas. E na tela que onde tudo é perfeito. Enfiadas num mundo bidimensional.
E pra piorar, uma coisa que eu tenho percebido também Pais e mães Familiares Familiares Que deixam a criança Nas telas, vendo por exemplo O TikTok ou o YouTube Eu percebo Alguns coleguinhas da minha filha Que não tem paciência de desenho da Disney Porque dura uma hora e meia Eles estão acostumados com vídeos de 3 segundos Vamos lá
A minha filha fica tranquilamente vendo um filme de duas horas. Ela, inclusive, às vezes, vai em musical comigo, de adulto, que ela gosta. Claro que se tá ok pra idade dela, que às vezes dura três horas o negócio. Ela tem paciência. Não fica. Porque eu nunca deixei ver coisa curtinha. Que isso também vicia o cérebro a suportar uma história longa, né? Sim, exatamente. Essas ferramentas foram desenvolvidas.
utilizando de uma tecnologia, de um conhecimento de neurociência e de neuropsicologia, muito, muito, muito eficiente, muito eficiente. Até o tamanho da tela, o tamanho da tela, a intensidade, a luminosidade, a velocidade das imagens, tudo isso entra numa frequência.
eletromagnética visual de luminosidade que ativa diretamente algumas regiões do nosso cérebro. De recompensa. São as regiões que trabalham com a saciedade, a recompensa, a regulação inibitória. Nossa, que desgraça. Então, assim, essas pessoas desenvolveram uma droga e escrevem um pouquinho para a perna.
Uma droga psicoativa extremamente rentável, extremamente eficaz. E viciante. Como qualquer tipo de substância psicoativa que se propõe a ser recreativa. Por que há 15 anos atrás, mais ou menos...
Falava-se tão menos em autismo e agora o espectro autista e o TDAH é o tempo inteiro. Então... Matérias e assunto e pessoas fazendo teste. Tem vários aspectos, né? Primeira coisa, a questão do diagnóstico. O DSM-5 foi lançado em 2013. Não sei, devo estar falando besteira.
Mas nesse momento, nesse momento, houve uma mudança em toda a classificação. Então, coisas que eram muito distintas, por exemplo, o transtorno de fala e linguagem. O transtorno de fala e linguagem é toda e qualquer criança que sofre qualquer atraso.
da fala e da linguagem por algum motivo que está relacionado ou ao desenvolvimento psíquico ou à própria articulação da fala. Isso não existe mais, ou existe num capítulo bem pequenininho. Então, todo mundo que tem qualquer problema de fala e linguagem...
É autista. Isso já faz o diagnóstico começar a abarcar um número gigantesco de pessoas. A outra coisa é assim, desde que eu tô nativa, desde que eu era da pai, sempre existia um movimento dos familiares de crianças com autismo.
Porque estas pessoas até meados dos anos 70, 80, no Brasil até os anos 90, essas pessoas eram literalmente confinadas, escondidas e execradas da sociedade. Não importa o nível socioeconômico. O que eu acho que foi muito pertinente, um movimento...
para transformar isso, tirar literalmente essas pessoas do armário. Então, passou-se a ver muito mais. Eram os filhos escondidos, né? Eram os filhos escondidos, exatamente. Então, a gente passou a fazer mais diagnóstico, porque as ferramentas para fazer diagnóstico ficaram muito frouxas. Houve esse movimento realmente com um propósito inclusivo.
E é um tipo de público que não escolhe, por exemplo, deficiência intelectual, síndrome genética. Tem países que nem existem essas pessoas.
A China, por exemplo, eu sempre falo, alguém conhece algum Down chinês, alguma pessoa que tenha Down que seja chinesa? Não conhece, porque lá não nasce. Eles fazem rastreamento genético. Na Escandinávia, por exemplo, problemas relacionados ao parto que gere uma criança deficiente também não existe.
Tamanha é a especificidade do monitoramento deles. Agora, autismo é um problema que vai aparecer independente de você ter pré-natal, de você fazer exame de sangue, de você controlar o parto, blá, blá, blá. O autismo não tem uma prevenção como a deficiência intelectual tem.
Entendeu? Então, essas coisas se confluíram e obviamente impulsionadas um pouquinho pela indústria farmacêutica, que ganha muito dinheirinho com remédios para autismo, o que é um absurdo na minha concepção. E aí...
2025, 2026, nós estamos com esse aumento absurdo. Agora, tem uma coisa. O autismo é um problema do neurodesenvolvimento. Essa coisa que as pessoas acham que eu posso me descobrir autista com 40 anos sem ter nenhuma história de neurodesenvolvimento, isso é de uma ignorância. Por quê? Existem outros problemas que aparecem na adolescência e na vida adulta e na vida adulta.
que geram comportamentos muito semelhantes ao autista, que as pessoas não falam. Por exemplo, tem um transtorno de personalidade que chama-se esquizotípica, que é um perfil muito semelhante com o autista. E esse transtorno de personalidade aparece no início da vida adulta. Que é o quê, por exemplo? O que é? Isolamento, falta de...
Empatia. De empatia, dificuldade pra compreender coisas abstratas, né? A diferença é que ele não tem isso desde que nasceu. Isso é uma coisa que vai se construindo ao longo do desenvolvimento e aparece lá na vida adulta.
Uma senhorinha como a sua mãe de 70 e tantos anos, com esses comportamentos, nossa, tem assim uma lista de coisas que podem estar acontecendo com ela que levam a esse tipo de sintoma. Então, o que acontece é isso. Dentro da psiquiatria, as classificações, ao invés de se tornarem mais específicas,
elas vão se tornando mais aglutinadoras. Então, você tem meia dúzia de possibilidades para explicar a diversidade de 8 bilhões de pessoas. A própria classificação não deixa claro, por exemplo, qual é o conceito de saúde e não saúde.
Porque isso é fundamental. Você avaliar a pessoa diante das características dela sabendo até onde é saúde dali pra lá onde não é mais saúde. O que é diferença e o que é patologia. O que é saúde, o que é doença, entendeu? É que eu acho que pra algumas pessoas o ser doença traz um alívio porque existe o remédio. Uma justificativa. Existe uma justificativa.
essa é a doença é, exato, essa é a doença da sociedade é o preconceito a doença não é ter a doença a doença é precisar de uma doença pra poder existir e se justificar essa é a patologia e que ao invés das pessoas e da própria
comunidade médica, psicológica e dos psicólogos, ao invés de combater isso, não endossam. Então, hoje em dia, eu tenho alguma dificuldade de interlocução com pares dentro da medicina, com alguns psicólogos, graças a Deus, eu tenho muita sorte, os psicólogos que me rodeiam, falam a mesma língua que eu, mas eu sei que... Porque, ao invés de... Tá, então vamos falar sobre...
à doença, e não vamos ficar só dando diagnóstico, rótulo e crachá. Essas ferramentas midiáticas, os testes, isso dá muita audiência. Os blogs, né? Os blogs...
da moçada que, enfim. Uma mãe sem nenhuma condição de gastar dinheiro pra que o filho que é autista possa receber um tratamento que desenvolva ele. O que que acontece? Como que tá hoje a situação no Brasil pra isso?
Você sentiu melhora com o governo Lula? Ai, nossa senhora. Deixa eu ver. É assim, eu era da vida pública, eu atendi em CAPS até 2017. Aí em 2017, graças às intempéries...
políticas, a minha vida no SUS se tornou inviável. Por quê? Cada vez mais eu fui evoluindo no sentido de lançar mão de recursos, primeiro, para fazer uma avaliação diagnóstica decente. Então hoje, por exemplo, uma criança que eu atendo lá no convênio, eu peço.
eletroencefalograma, eu peço ressonância nuclear magnética, eu peço polisonografia, avaliação genética, às vezes uma avaliação de processamento auditivo central, enfim. Hoje, a medicina me instrumentaliza com muitos recursos que eu acho extremamente úteis para a gente chegar a uma conclusão. O SUS não avançou nesse sentido, infelizmente.
Até 2010, mais ou menos, a gente não tinha acesso a esse tipo de recurso, nem na rede particular. Só quem tivesse muito dinheiro que a gente conseguiria. Hoje, qualquer pessoa que tem um convênio medíocre tem acesso a essas coisas. No SUS não tem.
Então, eu acho que sob o ponto de vista de realização de diagnóstico, hoje o SUS tá muito carente. Por quê? O povo que tá no SUS tá tendo que fazer diagnóstico como eu fazia em 1998. Antes da fluxetina chegar no Brasil. Nossa, sim. Entendeu? Então, isso eu acho lastimável.
Como as políticas têm obrigado tanto o serviço público quanto a saúde suplementar a oferecer tratamento especializado para autista, então, por exemplo, no município de São Paulo, a gente tem alguns núcleos públicos de atendimento específico para autista, o que é alguma coisa. A questão é, se você pegar 10 crianças com atraso do neurodesenvolvimento,
Quem vai se beneficiar desse atendimento de autista que o SUS está oferecendo, dessas 10, são 3.
As outras sete precisariam de outra coisa. Por exemplo, psicopedagogia. Psicopedagogia, psicomotricidade, fonoaudiologia. Fisioterapia. Fisioterapia, terapia ocupacional. São áreas de atuação que ajudam muito essas crianças. Mas no SUS e no convênio também, elas só vão ter acesso se elas forem autistas, porque a lei manda pagar tudo para autista.
Então, se você não tem autismo, você não tem direito. E isso não é só do SUS, não. Isso na rede suplementar também. Mas aí, são crianças que, não sendo autistas, precisariam disso por quê? Não entendi. Porque elas têm algum outro tipo de atraso do neurodesenvolvimento. Entendi, entendi.
Entendeu? Tem outro tipo. É aquilo que eu falei. Os problemas do neurodesenvolvimento, eu posso fazer uma lista de 50 problemas do neurodesenvolvimento. Autismo é um deles. É um deles. Por exemplo, criança que nem esse menino que eu atendi, que tem uma apraxia de fala. O que é isso? Ele não é gago. Ele não consegue...
articular a fala, mas ele se comunica perfeitamente bem, ele tem contato, ressoa o afeto, ele só tá recebendo terapias de fono, seja lá do psicólogo, etc, etc, porque ganhou o diagnóstico de autista, mas ele não é autista. Entendi. Entendeu? Então, hoje, o acesso às terapias, tanto no SUS quanto na rede suplementar,
dependem da pessoa ter o diagnóstico de autismo. No convênio, que o convênio que eu atendo é bem pobrinho. Que não tem grana. Que o cara vai ficar. Eu entro, inclusive, em conflito com os administradores, com a galera lá do convênio. Eu falo, galera, é assim, pra esse cara, daqui a um ano, receber alta...
Ele precisa disso, disso e disso. Ah, mas só se for autista. Então pronto, tá aqui. Dou o diagnóstico de autista pra ajudar ele. Pronto. Ele é autista. Eu faria a mesma coisa.
A mãe que não fizer isso pelo filho, é óbvio, gente. Pois é, em contrapartida, isso dá margem pra galera que não quer, por exemplo, dou aula numa faculdade de medicina particular caríssima, né? Aí tem umas criaturas lá que tem poder aquisitivo, que compram laudo pra poder fazer prova com mais tempo, numa sala sozinha. Ai, gente, que depressão, que depressão.
Você entendeu? São as duas faces da mesma moeda. Nossa, que tristeza. Doutora, adorei conversar com você. Maravilhoso e já vou marcar minha consulta. Muito obrigada. Foi um prazer. Valeu, gente. Foi incrível.
Este foi o Meu Inconsciente Coletivo, o podcast pra onde a sua neurose sempre vai querer voltar. Eu sou a Tati Bernardi e a edição de som é da Zamunda Estúdio e a coordenação é da editoria de podcasts da Folha de São Paulo. Escute o seu inconsciente e siga a gente pra não perder nenhum programa. Até semana que vem!