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Discurso de vingança contra Trump marca nova fase no Irã

11 de julho de 202620min
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Em entrevista ao Revista CBN, Uriã Fancelli destaca que o Irã vive uma nova fase após o enterro de Ali Khamenei, com sucessão, aumento da tensão com os Estados Unidos e discurso de vingança. Trump afirmou que, se for morto pelo regime, os militares americanos já estariam prontos para 'dizimar' o Irã.

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Participantes neste episódio2
B

Bianca Santos

HostJornalista
U

Uriã Fancelli

ComentaristaAnalista de política internacional
Assuntos5
  • Invasão do IraqueMostafa Khamenei · Ali Khamenei · Regime dinástico · Guarda Revolucionária Islâmica
  • Tensão EUA-IrãDonald Trump · Discurso de vingança · Ataque de precisão · Israel
  • Cúpula CELACUcrânia · Mark Rutte · OTAN 3.0 · Groenlândia
  • História da RússiaGuerra na Ucrânia · Países Bálticos · Polônia · Sabotagem
  • Rusia e China como beneficiáriosAndrei Melnichenko · Kremlin · Sanções ocidentais · Dependência da China
Transcrição23 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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?Voz C

Uriel Fancelli na ponta da linha para a gente falar sobre o noticiário internacional. Boa tarde, Uriel.

UFUriã Fancelli

Boa tarde, Nadédia. Boa tarde a todos, tudo bem?

?Voz C

Tudo certo. Vamos começar falando, claro, sobre o Oriente Médio, né? Retomado o conflito e com mudanças, né? Agora oficialmente nós tivemos o funeral, o enterro de Ali Khamenei, e agora o filho dele fica no lugar, né? E a gente se pergunta o que que vai mudar. O regime continua, né? Isso não mudou com a ofensiva militar dos Estados Unidos, mas agora temos um novo líder supremo no país.

UFUriã Fancelli

É isso aí, o Mostafa Khamenei, filho do Ali Khamenei. É bastante irônico isso que acontece porque durante a Revolução Islâmica na década de 70, quando o regime do xá é derrubado, qual que era o objetivo ali? Era acabar com essa ideia de que existe um poder dinástico, de um poder que é hereditário, que passa de pai para filho. Então, o fato disso ter acontecido agora é bastante irônico, porque você tem aí pela primeira vez na história um líder supremo que é filho de um ex-líder supremo.

Então, isso mostra como o Donald Trump, ao dessas operações acabou inclusive dando legitimidade para isso que acontecesse, né? Eu diria até que essas ameaças que têm sido feitas publicamente de que morte aos Estados Unidos, morte ao Irã, que é algo que ao Donald Trump, que é algo que já acontecia lá atrás, tem como pano de fundo talvez uma necessidade desse novo líder supremo que não tem a legitimidade religiosa para atuar nesse cargo, que tem toda essa dificuldade também de ter sido filho de um outro líder supremo, ele precisa de certa maneira vir com esse discurso de martirização do próprio pai, falar para dentro para poder de certa forma também projetar força para fora.

E é um regime hoje que passa a ter algumas características muito mais de um regime militarizado do que de uma teocracia, até mesmo porque a Guarda Revolucionária Islâmica, ela teve ali seu poder praticamente consolidado desde fevereiro desse ano.

?Voz C

Chamou atenção o luto coletivo, né, as manifestações ali durante o funeral do aiatolá. E acho que até por isso, né, pela forma como, enfim, os xiitas passam por esse luto, o filho dele tá numa toada de buscar vingança, né. Isso já era dito desde que ele foi morto, e agora com esse clima de oficialmente um novo regime, oficialmente uma sucessão aconteceu, e com essa prioridade, né, de dizer que vão buscar vingança pela morte do líder supremo.

UFUriã Fancelli

E eu acho que com uma dificuldade bastante grande, porque ele não apareceu no funeral do próprio pai, e é uma ausência que acaba se tornando um problema estratégico. Desde a nomeação em março desse ano, o paradeiro dele É basicamente um mistério, tanto dentro quanto fora do Irã também. Durante essas cerimônias fúnebres que aconteceram, não é que nem uma mensagem lida dele aconteceu. Ele nunca mais foi visto, a voz dele nunca mais foi ouvida.

Existem algumas especulações, mas aí, Nadeja, a gente tem que esclarecer aqui que beiram as teorias conspiratórias, né? De algumas pessoas que dizem que ele sequer estaria vivo, mas eu não acredito que esse seja o caso, tá? É mais uma cautela extra que o regime precisa tomar nesse contexto, porque entende toda a preocupação de segurança. O pai foi morto por um ataque de precisão no próprio gabinete, e os Estados Unidos e Israel demonstraram a capacidade de decapitar essa cadeia de comando.

Então, ele não pode basicamente aparecer em público, mas isso tem um custo político que é um custo bastante grande de uma pessoa que de certa forma precisa governar, mas ninguém sabe de onde governa em um país, em um regime onde tudo isso importa, né? Porque um líder supremo invisível, ele transforma a suprema liderança quase que numa forma de ficção jurídica. E essas ficções jurídicas, elas não arbitram disputas de facção. E é exatamente essa leitura que os Estados Unidos têm nesse momento, de que que hoje existe uma divisão dentro do próprio regime em que sem um árbitro visível, que era então o papel principal da liderança suprema, isso acaba dificultando tudo.

E aí os Estados Unidos, eles basicamente falam o seguinte: olha, existem figuras mais razoáveis ali dentro, a gente pode falar com essas figuras também. Basicamente o que eles querem dizer com isso é O que eles querem fazer com isso é pintar quem, quem é o outro lado com quem eles estão negociando.

?Voz C

E Uriã, quando se fala em vingança, já se pensa em algo contra o que seria o equivalente, né, ao líder do país nos Estados Unidos, que é o presidente americano Donald Trump, que já se apressou em dizer que se houver algum plano contra ele, o revide vai ser muito forte, né?

UFUriã Fancelli

Pois é, o Trump, ele publicou que 1000 mísseis estão apontados para o Irã e com milhares outros de reserva que as forças armadas, elas, assim que elas receberem uma ordem, isso tudo vai arrasar o país. Isso acontece também porque Israel teria passado para os Estados Unidos a informação de que existiria um plano para matar o Donald Trump. Agora, Agora, algumas pessoas dentro da administração norte-americana têm olhado para isso com um pouco de desconfiança.

E por que essa desconfiança? Porque Israel, que tem se afastado dos Estados Unidos, o próprio Netanyahu e o Trump, eles estão aí agora talvez no pior momento da relação entre os dois, com uma visita que vai acontecer em breve, nos próximos dias, então um encontro que tenta salvar isso. Os israelenses, eles têm medo que algum tipo de acordo não abordem as questões que, pelo menos do ponto de vista do Estado, são questões centrais.

E não permitir, por exemplo, que aquela ofensiva contra o Hezbollah continue seria uma ameaça dessas pessoas seguirem se sentindo ameaçadas. E existe um dado que diz que mais de 50% de toda a população israelense apoia uma continuidade dessas operações no Líbano e que a maioria inclusive aprova uma ocupação mais prolongada desse território do sul do Líbano. Em relação ao Irã, a mesma coisa. As pessoas sentem que aquilo que havia sido prometido no começo não foi alcançado.

Sequer a gente ouve falar agora da questão nuclear, porque tudo passa a girar ali em torno do Estreito de Ormuz. Então há quem interprete essas informações como uma tentativa israelense de manter os Estados Unidos numa posição mais agressiva contra o Irã e apoiar e dificultar um processo de negociação, o processo de paz. E é importante salientar uma coisa: apesar de tudo isso, negociações continuam acontecendo. Existe toda uma sinalização dos dois lados, do do iraniano e do norte-americano de que existe uma prontidão para aumentar os ataques.

E de fato, os ataques, eles têm acontecido dos dois lados, mas nenhum dos dois até agora rasgou aquele memorando de entendimento. O Trump, ele diz que não existe mais um cessar-fogo, mas fato é que existem conversas acontecendo. E o fato dessas conversas acontecerem, ela sinaliza que tanto um lado quanto o outro precisa mostrar publicamente essa disposição, mas que não seria de interesse de nenhum dos lados voltar para um conflito em larga escala como estava acontecendo em fevereiro.

O regime, porque ele tem desafios internos, e o Trump tem sua própria impopularidade por conta dessa guerra também.

?Voz C

Enquanto isso tudo acontece, autoridades disseram reservadamente, autoridades americanas, que acreditam que esteja acontecendo uma disputa de poder no Irã.

UFUriã Fancelli

Pois é, isso tem a ver com essa questão aí de você ter diferentes facções de dentro do regime. Uma delas dos moderados, que seria ali na figura do presidente do país, o Massoud Pezeshkian, com o presidente do parlamento também. E outra mais ali de uma, de uma facção mais radicalizada da Guarda Revolucionária Islâmica. Até mesmo a escolha do Mostafa Khamenei como líder supremo, ela teve também ali, além do objetivo de mostrar continuidade do regime, né, por ele ser filho de quem era, mas um critério que foi levado em conta foi a proximidade dele com a Guarda Revolucionária Islâmica.

Ele nunca teve um cargo oficial, mas ele trabalhava no gabinete do pai dele e ali uma das principais funções dele era de servir como articulador com a Guarda Revolucionária. Agora, a pergunta que fica em aberto agora e para a qual a gente não tem a resposta é até que ponto, ou qual a capacidade real dele de continuar como uma, com essa articulação. Mas eu entendo também que parte dessa acusação norte-americana de haver uma, e eu entendo que tem, tá, até certo ponto existe sim uma disputa de poder dentro do regime.

E o fato de ter havido essa nova rodada de escalada, ele pode ser em parte explicado por conta disso, por essa divergência. Porque quem assinou aquele memorando de entendimento foi o governo civil iraniano, do presidente do país, do Massoud Pezeshkian. E quem começou os últimos ataques talvez não tenha sido o governo civil, Talvez tenha sido sim a Guarda Revolucionária Islâmica, que enxerga no Estreito de Ormuz a sua única, o seu único seguro de vida, a sua última garantia que resta depois de ter tido de fato grande parte da sua força militar degradada.

Então, quando rotas alternativas passam a ser usadas tanto ali mais ao centro quanto também mais perto de Omã, e a rota iraniana que é controlada pela Guarda ela passa a ser ignorada, a Guarda sente que é o momento de agir. Mas é isso, essa acusação, então uma coisa é isso existir, a outra coisa é esse atrito ser usado pelos Estados Unidos para pintar publicamente uma desordem maior de dentro do regime do que de fato essa desordem é, porque com isso ele consegue projetar ou tenta projetar a imagem de fraqueza do outro lado.

?Voz C

Outro ponto importante da semana de Donald Trump, Uriam, foi a participação na cúpula da OTAN, né? Ele deu algumas sinalizações positivas para aliados, criou alguns climões também, como costuma fazer em eventos internacionais. O que que essa cúpula alcançou?

UFUriã Fancelli

Primões, o Trump na DEGEA. Que que é isso? Você acha que ele vai deixar algum aliado desconfortável? Bom, ele fez isso apenas em basicamente todas as outras cúpulas que ele participou também. Essa cúpula que aconteceu agora na Turquia reuniu 32 lideranças, estavam todos os líderes dos países que fazem parte da OTAN. Algumas promessas de fato conseguiram sair do papel. Então você tem ali a promessa de 70 bilhões bilhões por ano em equipamento militar, assistência e treinamento à Ucrânia, com compromisso do nível equivalente em 2027.

Então, 140 bilhões em 2 anos, o que é bastante, financiado principalmente— aí a gente vê que alguns resultados começam a ser alcançados— financiados principalmente pelos europeus e pelo Canadá. Então, a gente vê que algo que incomodava bastante o Trump já começa a ter consequências na prática, que é talvez uma saída cada vez maior dos Estados Unidos para uma posição mais de retaguarda da aliança da Ucrânia. É aquilo que tem sido chamado pelo secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, de OTAN 3.0, que é uma OTAN cada vez menos dependente dos Estados Unidos.

Os climões todos, eles estavam lá. Trump chegou já falando logo de cara em anexar a Groenlândia, que a Dinamarca, que é membro da OTAN, que inclusive enviou soldados para lutar ao lado dos Estados Unidos no Oriente Médio depois dos atentados no começo dos anos 2000, morreram muitos dinamarqueses, talvez proporcionalmente mais do que norte-americanos nessas operações no Oriente Médio. E o Trump com muita ingratidão ele chega lá dessa forma, né?

Mas eu não diria que ele conseguiu azedar o clima como um todo na aliança, tá? Eu acho até que os resultados alcançados, promessas de investimentos na indústria de defesa também, eles foram bastante relevantes e dado o contexto geral, não pode ser ignorado.

?Voz C

E Uriel, falando sobre Ucrânia, tá muito em destaque esse fim de semana na imprensa internacional, né? O The Times está projetando inclusive a possibilidade de um conflito mais amplo com a Rússia, envolvendo a União Europeia, envolvendo a OTAN.

UFUriã Fancelli

É um artigo que saiu no The Times, que é um jornal inglês, e é uma reportagem que mostra que ela, OTAN, que a OTAN estaria se preparando para um cenário em que a Rússia possa apresentar uma ameaça maior à Europa pelo menos até o fim dessa década, ou seja, até 2030. Mas 2030 não aparece como uma data certa para a guerra, é mais ali um prazo que os países estão usando, porque no cenário em que você tem que se preparar para algo nessa magnitude, os analistas, os especialistas, eles sempre vão tentar pintar qual seria o pior cenário possível e aí se preparar para esse cenário, porque qualquer coisa menor que vier, isso aí poderia ser considerado como ali basicamente o lucro.

E o temor na Dédia é que depois, e aí é basicamente sobre isso que a matéria do The Times fala, o temor é que depois de um eventual fim da guerra com a Ucrânia, da guerra contra a Ucrânia, aí a Rússia ela poderia continuar com essa economia militarizada que ela tem hoje. Então ela basicamente ela precisa manter a guerra da maneira como ela tá, ou ela precisa manter guerras, e aí usaria de toda essa militarização para testar os limites da OTAN.

E um teste, ele poderia começar com um, não com uma grande invasão, até porque também não teria capacidade para isso, mas com algumas provocações, com algumas sabotagens, campanhas de desinformação. Alguns, alguns exemplos disso já têm sido observados em países principalmente mais próximos ao leste europeu. A fronteira com a Rússia, é o caso dos países do Báltico, Estônia, Letônia, Lituânia, a própria Polônia também, é o caso de operações de sabotagem que acontecem, trilhos de trem que descarrilham ali sem nenhuma explicação, incêndios que começam de maneira misteriosa.

E o fato, e aí casando isso também com a cúpula da OTAN, o fato disso acontecer explica justamente por que que esses países do leste da Europa são os países que proporcionalmente ao PIB investem mais em defesa. A própria Polônia, ela já investe hoje ali algo em torno de 4,5%, o que é proporcionalmente falando mais até que os Estados Unidos.

?Voz C

E a questão Rússia em destaque também na capa do The Economist, né, Uriane? O homem que mudaria a Rússia. Quem é o homem?

UFUriã Fancelli

Pois é, né, o que essa capa mostra é que começa a surgir dentro da Rússia uma elite econômica com uma preocupação muito grande com o rumo do país. Então não é uma crítica feita de alguém da oposição, mas uma pessoa que sempre conviveu com o sistema e que agora percebe que a guerra ela tá cobrando um preço cada vez maior. A Rússia ela corre o risco de ficar mais isolada, mais pobre, A dependência extrema da China é algo que tem sido olhado com bastante preocupação pelos oligarcas, né?

Então o alerta da capa, ele é que talvez a pressão por mudanças ela não venha tanto das ruas da Rússia, até mesmo porque a gente sabe que os protestos muitas vezes eles acabam sendo, eles acabam sendo Eles são, as manifestações elas são impedidas pelo regime, né, por conta de todo esse autoritarismo que existe lá. Mas uma pressão maior poderia vir a partir dos oligarcas. E aí a pessoa que tá nessa capa nesse momento é o Andrei Melnichenko, que é um dos empresários mais ricos da Rússia, que ele é dono de impérios em fertilizantes, em carvão.

Ele nasceu de uma família, de uma família da Bielorrússia. Ele é sancionado pelo Ocidente desde 2022, desde depois da invasão da Rússia à Ucrânia. E aí ele deu uma entrevista de mais de 60 horas para o The Economist escrever um ensaio online. Então o próprio Economist está falando desse ineditismo, porque é a primeira vez que um oligarca em atividade na Rússia ele fala de maneira tão extensa e ainda avisa que existe toda uma discordância cada vez maior de pessoas como ele em relação à política que está sendo feita pelo Kremlin nesse momento.

?Voz C

Perfeito. Uriam Fancelli, nosso comentarista de política internacional, sempre destrinchando os fatos mais importantes aqui no Revista CBN. Obrigada por hoje, Uriam.

UFUriã Fancelli

Obrigado. A gente traz só para essas coisas ficarem no radar. Depois que acontece, a gente desenvolve mais.

?Voz C

Boa, um beijo para você, até logo.

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