Episódios de Política

CBN Rio faz um balanço da campanha eleitoral no RJ, projeções e expectativas na reta final; acompanhe

02 de outubro de 202634min
0:00 / 34:54
O CBN Rio faz uma análise da campanha eleitoral de 2026 para o governo do Rio de Janeiro e a expectativa para o primeiro turno, no domingo (4). O repórter do jornal O Globo Bernardo Mello falou sobre a disputa entre Eduardo Paes (PSD) e Douglas Ruas (PL), além da situação de Anthony Garotinho (Republicanos). A definição do futuro político de Garotinho pode influenciar na realização ou não de um segundo turno no estado. Outra participante, a professora de Ciência Política da UFRJ, Mayra Goulart, falou, entre outras coisas, sobre a preocupação com a segurança pública na mobilização do voto e faz uma projeção de um cenário de continuidade na Alerj. Ouça.

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Participantes neste episódio4
C

Carlos Alberto Sardenberg

HostJornalista
B

Bianca Santos

Co-hostJornalista
B

Bernardo Melo Franco

ConvidadoJornalista
M

Mayra Goulart

ConvidadoProfessora de Ciência Política da UFRJ
Assuntos6
  • Judicialização da eleição do Rio e a situação de Anthony Garotinhonegativa de registro de candidatura·recursos ao TSE·votos subjúdice e anulação·pedido de julgamento antecipado pelo TSE
  • Apoios políticos a Eduardo Paes e Douglas Ruas na campanha do RJexpectativa de vitória de Eduardo Paes·transferência de apoio de prefeitos·Rogério Lisboa apoia Eduardo Paes·Douglas Ruas pode crescer nas pesquisas
  • Crescimento da campanha de Douglas Ruas e sua associação com Bolsonarovinculação com Flávio e Jair Bolsonaro·escolha de Douglas Ruas por Flávio·Douglas Ruas como opção para eleitores anti-Paes e anti-Lula·teto de crescimento de Douglas Ruas
  • Segurança pública como tema central na campanha eleitoral do Riodiscurso de Douglas Ruas sobre atuação policial·acenos de Eduardo Paes para segurança·preocupação determinante no estado·políticos em cargos de segurança e suas soluções
  • Denúncias de envolvimento da família de Altineu Cortes com Douglas Ruasproximidade entre Douglas Ruas e Altineu Cortes·Mineração Santa Edwiges forneceu material para obras·pagamentos na gestão de Douglas Ruas·Ministério Público abre investigação
  • Impacto do governador Ricardo Couto na política do Rio de Janeirodesbaratamento da máquina do PL·troca de cargos comissionados·impedimento de Douglas Ruas na Alerj·criação de lacuna política
Transcrição47 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
CACarlos Alberto Sardenberg

CBN Eleições 2026. Com muita alegria para a gente fazer o nosso primeiro bate-papo aqui, nossa primeira parte da nossa mesa redonda sobre eleições. Recebo aqui no estúdio um grande repórter do Jornal O Globo, querido amigo, grande fera que tá todo mundo acostumado a ler nas páginas de O Globo, e hoje tá aqui com a gente, repórter Bernardo Mello. Tudo bem, Bernardo? Bom dia para você.

BMBernardo Melo Franco

Com essa apresentação, melhor ainda. Bom dia, Leandro. Bom dia, Bianca. Bom dia aos ouvintes, espectadores da CBN. Prazer estar aqui com vocês hoje.

BSBianca Santos

Prazer é nosso, Bernardo. Bom tê-lo aqui mesmo. Já já chega também nossa próxima convidada, Maíra Goulart, que é professora de ciência política da UFRJ e coordena um laboratório de partidos, eleições e política comparada, com muito levantamento para trazer aqui para gente, né? Mas já para começar, queria retomar uma reportagem sua, e a gente vai passear por algumas, né, reportagens, entender também bastidores de apuração, né, onde você fala sobre a questão da ligação de prefeitos, inicialmente com Douglas Ruas, depois uma transferência para Eduardo Paes, e os motivos disso, uma explicação sobre isso. Conta um pouquinho para gente, por favor.

BMBernardo Melo Franco

É, Bianca, a gente viu ao longo dessa campanha, né, uma expectativa da classe política do Rio de vitória do Eduardo Paes no começo da campanha. Então isso explica ali no, lá no começo do ano, se a gente voltar um pouco mais atrás, a gente vai lembrar que partidos ali com grandes bancadas na Assembleia Legislativa do Rio, grande quantidade de prefeitos como União Brasil, PP, Republicanos, eles estavam mais próximos do Douglas Ruas.

Que não conseguiu assumir o governo do estado, que era o plano todo da candidatura dele desde a renúncia do Cláudio Castro. E isso atrapalhou os planos do Douglas Ruas, fez com que a expectativa de vitória migrasse muito para o Paes, né, da expectativa da classe política. O Paes, ele foi se aproximando de deputados, de lideranças desses partidos que eu citei, e isso se refletiu no apoio de prefeitos ali. A gente teve um caso acho que bem emblemático, foi Nova Iguaçu, né, um dos maiores colégios eleitorais do estado, na Baixada Fluminense.

O ex-prefeito de Nova Iguaçu, Rogério Lisboa, ele foi anunciado inicialmente como candidato a vice do Douglas Ruas, desistiu de ser vice e passou a apoiar o Eduardo Paes, assim como o atual prefeito do Reina, que é do PP, mesmo partido do Rogério Lisboa. Então esses movimentos, eles foram acontecendo. Só que a gente chega numa reta final de campanha em que não tá claro, né, se o resultado vai primeiro se definir em primeiro turno e segundo se o Douglas Ruas não pode crescer ainda mais nas pesquisas, como veio crescendo ao longo da campanha, eventualmente até ameaçar uma vitória do Eduardo Paes.

Então a gente vê, pelo menos a minha impressão nesse momento, é de uma prefeitada ali da classe política um pouco não quer colocar os dois pés na mesma canoa, sabe? Tá todo mundo um pouco estudando o cenário e vendo para onde vai se tiver segundo turno.

BSBianca Santos

Só é para completar aqui, eu puxei esse fio e a resposta veio muito dentro do que eu esperava, né? Para mostrar, Leandro, que você já vem trazendo também aqui dentro do Conversa de Bastidor, como é que é uma eleição complexa, não só para eleitor, mas inclusive para essas alianças, esses apoios, né?

CACarlos Alberto Sardenberg

Bernardo faz uma lembrança de um— essa é uma movimentação em algum sentido histórica, né? O sujeito é anunciado como vice de um candidato e passa para o extremo oposto, né? Não que o Eduardo Paes seja extremo em nada, mas assim, o extremo oposto do outro lado da política, o principal adversário. Esse movimento do Rogério Lisboa sem dúvida é emblemático. Quero insistir com você aqui um pouco na figura do Douglas Ruas, Bernardo, que você conhece bem.

Um candidato que o PL inventou em 6 meses, né? Você sabe bem também que acompanhamos muito isso nas páginas do Globo, que o Douglas Ruas não era a primeira opção, né? Mas em 7 meses aí ele consegue hoje ter 30% do eleitorado. O que que você atribui esse sucesso até aqui da campanha do Douglas Ruas? É um sucesso mensurável. Ele sai de total, um total desconhecido, para ter quase um terço do eleitorado. Por que que você entende? Por que que isso aconteceu?

BMBernardo Melo Franco

É minha impressão, Leandro, e acho que de muita gente que acompanha a política do Rio, é que o primeiro passo para esse crescimento do Douglas Ruas foi a vinculação que a campanha dele procurou a todo momento fazer da imagem dele com a do Flávio Bolsonaro, também com a do Jair Bolsonaro, né? O material de campanha do Douglas Ruas, a propaganda de TV, as entrevistas dele, participações em sabatinas, ele fez questão de mencionar com muita frequência que a escolha dele como candidato a governador foi do Flávio, o que é verdade.

Havia uma resistência ali inicialmente do Cláudio Castro, de outras figuras ali da política fluminense, de apoiá-lo. Douglas Ruas, ele é muito próximo a um deputado federal que é o presidente do PL no estado do Rio, que é o Altineu Cortes, e muita gente resistia a apoiar um nome do Altineu, achava que isso daria muito poder para esse personagem. Então o Douglas, ele Voltando aqui a tua pergunta, ele acho que conseguiu essa associação ali fazer com que fosse bem-sucedida, né, a vinculação do nome dele ao nome do Bolsonaro.

Eu acho que também passa por um lugar esse crescimento do Douglas Ruas, de uma candidatura em que você não tem um terceiro nome ali despontando com muita força. A gente viu o Garotinho nas pesquisas sendo esse terceiro colocado, mas com toda uma discussão desde o início da campanha sobre as condições de elegibilidade dele, se ele estaria na urna, se não estaria. E isso ainda tá dando pano para manga até às vésperas aqui do primeiro turno, né?

Então assim, acho que para o eleitor que por algum motivo não gosta do Eduardo Paes e não gosta do Lula, que é o atual presidente da República e aliado do Eduardo Paes, esteve com Eduardo Paes no Rio em mais de uma ocasião, O Douglas Ruas também ali foi a opção que despontou quase naturalmente assim como destino desses votos. Então acho que o crescimento dele passa um pouco por isso. A dúvida agora é qual é o teto, né? Até onde ele pode crescer estando a 2 dias do primeiro turno.

BSBianca Santos

E sobre o Garotinho, você também fez uma reportagem sobre isso ouvindo especialistas, né? Traz um pouco pra gente análise deles pelo que você apurou. Porque se os votos dele forem anulados, aí muda completamente a dinâmica dessa disputa, né?

BMBernardo Melo Franco

A gente tá tendo assim nos bastidores ali do Tribunal Regional Eleitoral do Rio e do Tribunal Superior Eleitoral, TSE, movimentos muito intensos nessa reta final de primeiro turno envolvendo a situação do Garotinho, porque o pedido dele, né, de registro de candidatura foi negado aqui no Rio, como vocês estavam explicando mais cedo aqui no CBN Rio. Ele entrou com recursos, o julgamento no nível estadual, né, acabou essa semana, poucos dias atrás.

E o próximo passo para o garotinho é recorrer ao TSE. A lei eleitoral diz que enquanto o TSE não se manifesta, né, sobre o assunto, não tem uma manifestação definitiva, os votos dele ficam ali subjúdice, mas são computados, ou seja, são usados para definir os percentuais Como o Leandro tava falando um pouco aqui mais cedo, tava acompanhando o programa, é o que tá acontecendo agora é que a defesa do garotinho está pedindo, está se movimentando para que o TSE julgue esse recurso o quanto antes, se possível antes do primeiro turno, que vai ser já no domingo.

A campanha do Eduardo Paes também fez um pedido ao TSE para que isso aconteça, para que esse recurso seja julgado antes do primeiro turno. E aí, se for julgado antes do primeiro turno e a candidatura e o recurso não for aceito, né, for indeferido, como se diz aí no jargão jurídico, os votos do Garotinho são anulados, sequer são computados no domingo, não são computados ali no percentual dos votos válidos, que é o que define, né, se um candidato tá eleito, não tá eleito.

Agora, tem a possibilidade, tudo é possível, né, que o TSE dê alguma decisão liminar validando esses votos do garotinho no domingo. E aí os votos seriam, não ficariam ali com asterisco de, seriam votos normais, seriam votos normais como de qualquer outro candidato. É tudo isso para mostrar que assim, é uma eleição que passou muito, a eleição do Rio, né, por decisões de tribunais, por pedidos de candidatos a tribunais. E esse vai ser mais um episódio aí da judicialização da eleição do Rio.

CACarlos Alberto Sardenberg

Bernardo Melo, repórter do Jornal Globo, segue conversando aqui com a gente. São 10 horas e 21 minutos. O CBN Rio hoje tá, claro, se dedicando a fazer um balanço sobre a campanha eleitoral de 2026. Bernardo tá aqui explicando para gente todas as minúcias da questão envolvendo Antony Garotinho, que é, como não poderia deixar de ser, uma última polêmica, né, na eleição do Rio de Janeiro. De tantas, faltava umazinha, faltando 2 dias.

Pro pleito. A gente faz uma rápida pausa agora, são 10 horas e 21 minutos, e já voltamos. CBN Eleições 2026. De volta aqui no nosso Papo Dentro do CBN Rio. A gente tá fazendo uma análise aqui sobre as eleições, a campanha até o presente momento. Faltam 2 dias para todos irmos às urnas. Estamos recebendo aqui nesse bloco Bernardo Melo, repórter do Jornal O Globo, que segue conversando conosco. Daqui a pouco, no próximo bloco, a gente vai vamos já conversar com a cientista política, professora da UFRJ, Maíra Goulart, que já tá aqui no nosso estúdio também.

Agora, Bernardo, bom, a gente acabou de acompanhar aqui na reportagem do Diogo Bugalho um caso super grave envolvendo a morte de um casal na Baixada Fluminense. Segurança pública é a grande preocupação do eleitor do Rio de Janeiro. Olhando para campanha, para os programas eleitorais, como é que esse tema apareceu nos discursos, principalmente do Douglas e do Eduardo Paes?

BMBernardo Melo Franco

Acho que ambos procuraram explorar bastante sobre esse tema, né, Leandro? Entendendo ali, como você falou, que é um dos, talvez a maior preocupação do eleitorado na eleição do Rio. Eu vejo por parte do Douglas Ruas, especialmente mais nessa reta final de campanha, um discurso ali mais defendendo uma atuação mais ostensiva da polícia, mais firme da polícia, que é um pouco ali a cartilha do bolsonarismo, né, dos candidatos mais à direita.

Mas o Eduardo Paes, ele também procurou ali fazer acenos construção de presídios, novos batalhões. Ele procurou em viagens pelo estado trazer esse tema sempre ali à tona, em entrevistas e declarações, para justamente não deixar o adversário navegar sozinho. Então, de fato, é um tema ali que foi muito presente na campanha do Rio esse ano.

BSBianca Santos

E Bernardo, você recentemente trouxe em reportagem no Globo a história de que a empresa ligada à família de Altineu Cortes forneceu 300 mil toneladas de material para obras da Secretaria de cidades no período em que Douglas Ruas comandava a pasta. Traz um pouco para a gente também o bastidor dessa reportagem, da sua apuração, por favor.

BMBernardo Melo Franco

Esse, Bianca, é um dos casos que mostram ali a proximidade que eu citei, né, entre o Douglas Ruas e o Altineu Cortes, que é um deputado do PL aqui do Rio. A gente teve acesso ali alguns documentos que tramitam no sistema de processos administrativos do estado, que é um, a consulta é pública, né, qualquer pessoa pode procurar. E tem os relatórios ali de atividades da pedreira, né? O nome da empresa é Mineração Santa Edwiges, que é uma pedreira da família do Altineu.

Eles precisam entregar esses relatórios para o INEA, que fiscaliza a licença ambiental, né? Fiscaliza para ver se a operação da pedreira tá toda certinha, uma atividade ali, enfim, precisa de várias autorizações para não fazer besteira ali no meio ambiente. E aí, dentro desse relatório que eu consegui acessar, tinha informação, né, de que a pedreira ela informa os principais clientes que ela teve. E aí os clientes são consórcios que são criados para obras da Secretaria de Cidade.

Quando a Secretaria de Cidades contrata uma obra, né, de pavimentação em algum lugar, ela pode contratar diretamente uma empresa, ou mais uma, duas, três empresas podem se juntar, formar um consórcio para tocar exclusivamente essa obra. Nos relatórios da pedreira, ela traz o nome dos consórcios que tocavam obras específicas. Então assim que a gente consegue identificar exatamente a quantidade de pedra, granito, saibro, que a pedreira mandou para essas obras, que foram os pagamentos dessas obras, né, foram feitos quase todos na gestão do Douglas Ruas na Secretaria de Cidades.

Então é um exemplo ali que a gente conseguiu trazer nas páginas do Globo e no site do Globo dessa proximidade entre esses dois personagens que são super relevantes na eleição desse ano.

CACarlos Alberto Sardenberg

E que teve um desdobramento, né? Reportagem do Bernardo Melo serviu para que o Ministério Público abrisse uma investigação a partir dessa denúncia contra o candidato ao governo do estado, Douglas Ruas. Essa investigação foi revelada ontem pelo RJ2, que teve acesso à portaria de instauração de procedimento investigatório criminal. Claro que é um dos temas também da campanha. Eduardo Paes bateu muito nisso. E agora a gente chega aí nessa reta final Bom, é, não é bolão, né, não é futebol, que enfim nos une porque gostamos, mas nos separa porque sou Vasco, você tricolor.

Mas para domingo, o que que a gente pode esperar? Vai ter segundo turno nesse estado, Bernardo?

BMBernardo Melo Franco

Olha, Leandro, é, não é fugir da pergunta não, mas é porque realmente para mim vai depender muito da situação dos votos do Garotinho. Assim, vai depender se o TSE vai analisar o caso antes de domingo. Eu acho que fazer uma sessão extraordinária ainda Eu acho muito improvável, mas assim, com justiça a gente é melhor não descartar nada. Mas assim, eu acho muito improvável haver uma sessão do TSE. Então assim, acho que vai ter segundo turno, não vai depender muito do destino desses votos do Garotinho.

O que eu acho é que se os votos do Garotinho não forem anulados definitivamente nós teremos segundo turno. Não acho que o Eduardo Paes vai conseguir, pelo que a gente tem visto da campanha até agora e pelo andamento das pesquisas, acho muitíssimo pouco provável que o Eduardo Paes consiga 50% mais 1 dos votos, se a gente contar os votos do garotinho. Então essa é a previsão que eu deixo aqui.

BSBianca Santos

Muito bom. Bernardo Melo, repórter do Jornal O Globo, das editorias de Política e Brasil, formado em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ, esteve aqui com a gente. Nessa véspera de eleições, quase véspera, faltam 2 dias. Eu acho que agora tá todo mundo entendendo que domingo tem que votar, né? Obrigada, Bernardo, um abraço para você e bom trabalho.

BMBernardo Melo Franco

Obrigado, Bianca, Leandro, abraço para vocês.

CACarlos Alberto Sardenberg

Bem-vindo sempre. CBN Eleições 2026. Seguindo nosso papo sobre eleições, o CBN Rio de hoje se dedicando a fazer aqui uma discussão, um balanço do que foi a campanha, do que a gente pode esperar para este domingo. Tenho imensa alegria que a gente recebeu o Bernardo Melo, querido repórter do Jornal Globo, e agora a gente conversa com Maíra Goulart, professora de ciência política da UFRJ e coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada, o LAPCOM.

Maíra, grande alegria te receber aqui no CBN Rio. Eu que já te entrevistei, já fui lá no LAPCOM, agora receber você aqui no programa ainda mais especial. Bom dia para você, tudo bem?

MGMayra Goulart

Oi, gente, bom dia! Ô, Leandro, é quase um e-commerce.

BSBianca Santos

Bom tê-la aqui, professora Maíra, muito bom mesmo. Bom, já dissemos aqui mais cedo, mas vou relembrar o cenário para o nosso ouvinte eleitor. O Rio tá chegando a essa eleição depois da saída de Cláudio Castro, numa crise institucional envolvendo a LERJ, STF, governo interino, né? E aí eu queria entender um pouquinho pelos seus estudos o quanto que desse ambiente político extraordinário tá influenciando a eleição deste ano, professora.

MGMayra Goulart

Bem, o Rio de Janeiro, ele pode ser um laboratório de um processo de desgaste do bolsonarismo, né? A gente ainda não tá vendo se isso de fato tá conseguindo impactar, porque estamos num processo de aceleração da identificação dos eleitores de direita ou bolsonarista com descobrindo quem é o candidato bolsonarista dessa eleição. Que diferentemente de nós que vivemos atrás de notícia, O eleitor normal, ele não tá nem aí.

BSBianca Santos

É verdade, né? Isso aí é importante a gente pontuar, porque a gente tem uma visão daqui que é muitas vezes, e também temos que saber disso, Leandro, diferente da de quem tá na rua, de quem não tá nada envolvido com jornalismo, né?

MGMayra Goulart

Então ele não tá nem aí. Aí agora que ele falou, e é, vai ter eleição, então quem é o candidato bolsonarista mesmo? Aí foi se informar, descobriu Douglas Ruas, e aí começa a se identificar com ele. De fato, Douglas Ruas tá fazendo uma campanha expressiva, não cometeu nenhum erro, e tá precipitando essa identificação e transferência de voto do campo bolsonarista para ele. Porém, há um obstáculo aí, que são as inúmeras denúncias de envolvimento de políticos desse campo com o crime organizado e denúncias de corrupção.

Então acredito que boa parte desse campo bolsonarista vai ter que lidar com essas evidências que são trazidas por um sistema de justiça. Esse é o segundo ponto, cada vez mais atuante na nossa dinâmica eleitoral, como o Bernardo falou antes de mim.

CACarlos Alberto Sardenberg

E Maíra, essa, essa questão dessa identificação do eleitor, né, que passa nessa reta final a perceber que o Douglas Ruas é o candidato bolsonarista. Eu quero pegar aqui contigo um estudo que o LAPICOM fez mostrando um avanço muito expressivo da direita na composição da Alerj e na bancada do Rio de Janeiro na Câmara dos Deputados nos últimos 20 anos, né. Quer dizer, o nosso querido Jairo Nicolau, cientista político, ele fala lá, ele tem um livro, Brasil Virou a Direita, O Rio de Janeiro virou à direita também, né?

Porque hoje, nessa atual legislatura, a direita tem quase 70% da bancada fluminense na Câmara dos Deputados. É essa associação, embora ela seja feita na reta final com Douglas Ruas, mostra uma reconfiguração dos padrões de votação do Rio de Janeiro?

MGMayra Goulart

Em parte. Se a gente só utilizar duas categorias, direita e esquerda, a gente tem taxas que se mantêm de maneira muito constante desde 2002. Qual é a diferença? A diferença é uma recomposição da direita. A direita que antes era hegemonizada por partidos como PSDB, MDB e outros menores, né, ela passou a ser hegemonizada pelo PL e União Brasil em segundo lugar. O PL com muita força nos cargos de deputado estadual, deputado federal e prefeituras.

União, PP e Republicanos com muita força nos cargos de vereança. Então são os partidos mais municipalistas e que conformam essas máquinas que muitas vezes estão a serviço do PL. Mas outra evidência que a gente extraiu num estudo nosso, essa é muito interessante, é que esses políticos do PL, que é o maior partido do estado, que tem um quarto das cadeiras do Legislativo estadual e federal e um quarto das prefeituras, eles não são propriamente criados com o bolsonarismo.

Eles não são aquele bolsonarista tipo ideal, que é o que surge a partir de 2018, quando o Bolsonaro se lança, ganha essa proeminência. Eles são políticos anteriores que tinham trajetória em outros partidos antes e se filiam e entram na onda bolsonarista conforme ela vai ganhando fôlego no estado do Rio. Então eles são mais expressão dessas elites tradicionais que sempre estiveram e continuam estando lá, só que agora elas mudaram de partido.

BSBianca Santos

Professora Maíra, vou partir aqui de um relato que ouvi para tentar ouvir a sua opinião também. Eu ouvi uma pessoa dizendo que vai votar no senador do PT e no outro senador do PL. Esse voto cruzado de alguma forma foi detectado em algum estudo de vocês ou é uma exceção? O que que diz sobre o comportamento do eleitor fluminense?

MGMayra Goulart

A gente não faz estudo de— a gente não faz survey no LapiCom. Mas o que a gente observa é que no Rio de Janeiro as linhas da polarização nacional, embora alguns candidatos no debate queiram rebater essas linhas da polarização nacional no Rio de Janeiro, não cola. Não só pela figura do Eduardo Paes, que de fato é um player que desafia a polarização nacional. Eduardo Paes não é um político de esquerda de modo algum, nunca esteve em partido de esquerda, nunca compôs um governo de fato com partidos, lideranças de esquerda.

Mas não é um político bolsonarista, e isso desafia a hegemonia que o bolsonarismo tem na direita por fora. Então ele de fato é algo que bagunça esse rebatimento. Outra figura que bagunça: Antony Garotinho. Antony Garotinho não bagunça só porque ele não tá alinhado no plano partidário, ele bagunça porque o discurso dele ora é muito progressista em termos de mobilizar ideia de social, né, políticas sociais. Ora ele caminha para uma direita muito agressiva quando fala de valores tradicionais, mas sempre muito ambíguo e não se adere, não se adequa a essa polarização nacional.

CACarlos Alberto Sardenberg

São 10 horas e 44 minutos aqui dentro do CBN Rio. A gente segue tendo uma conversa sobre eleições agora com a cientista política da UFRJ, coordenadora do LAPCOM, professora Maíra Goulart, tá aqui no estúdio conversando conosco sobre o que foi a campanha até aqui E o que que a gente pode esperar para esse domingo agora, Maíra? Bom, tem um aspecto, né, que eu queria colocar para você, que nessa é uma eleição que nós não temos um candidato à reeleição, porque o governador não tá no cargo, ele tá no cargo ali em exercício, ele tá totalmente fora da disputa política eleitoral.

Uma eleição diferente se a gente comparar com 2022, que era o Cláudio Castro, um governador desconhecido, mas um governador com um projeto ali de reeleição. É uma lógica totalmente diferente do restante do Brasil, né, nesse sentido. Quanto que a figura do governador influencia ou não influencia na eleição desse ano do Ricardo Couto, né? Enfim, o eleitor tá entendendo que estamos com governador em exercício? Como é que você tá olhando para essa dinâmica muito específica da eleição desse ano?

MGMayra Goulart

Olha, se eu tivesse que escolher um personagem do ano no Rio de Janeiro, seria o governador, o desembargador e governador Ricardo Couto. Por quê? Porque ele fez algo impensável no início do ano. Isso a gente não passava no nosso horizonte de pensamento, que alguém ia conseguir de maneira, ainda que não completa, desbaratar a máquina que o PL construiu, em que havia, né, uma disseminação de recursos através das secretarias e cargos do governo do estado em várias prefeituras, vereanças, e com isso alimentava-se uma rede de apoio e retroapoio que garantia uma certa proeminência ao PL no estado.

E foi isso que o governador em exercício começou a desbaratar, trocando esses cargos comissionados que não tinham nenhum valor técnico. As pessoas nem iam trabalhar. Vocês trouxeram várias notícias sobre isso. Elas não tinham nenhum tipo de aparato técnico, estavam ali apenas para garantir apoio em eleições futuras. Então, é, acho que esse papel que o governador exerceu, ele é muito interessante. E isso criou uma lacuna, isso vai ser mantido de alguma maneira, porque ele mostrou como que isso tá.

Mas tem um segundo fator que eu acho importante, que é impedir que Douglas Ruas fosse o presidente da Alerj e com isso conseguisse, a partir dessa máquina, se tornar mais conhecido. Eventualmente fazendo uma mega operação como fez Cláudio Castro, tinha acabado de fazer e viu o resultado disso nas intenções de voto, viu que ele se cacifou a partir disso. E era o caminho que eu esperaria que o Douglas Ruas fizesse, mais uma matança. E o desembargador impediu que isso acontecesse.

BSBianca Santos

Maíra Goulart, professora de ciência política da UFRJ, tá conversando com a gente nesse programa especial antes das eleições.

CACarlos Alberto Sardenberg

Vamos às 10:47 fazer uma pausa aqui no papo, mas eu já quero fazer o mesmo link que a gente fez no bloco anterior para voltar aqui a falar de eleições, voltar aqui a conversar com a cientista política da UFRJ, Maíra Goulart, que tá aqui no CBN Rio de hoje, para tentar pensar um pouco, Maíra, no tamanho do impacto da preocupação com a segurança pública na mobilização do voto, né? A gente tem Entre vários aspectos que a gente pode olhar, eu quero te ouvir aqui, mas só vou jogar um que me parece fundamental, que muitas vezes nos escapa.

Um grande número de candidatos ligados às forças de segurança, policiais. Os dois ex-secretários de Polícia Civil e de Polícia Militar do Rio de Janeiro, há meses, até abril, são candidatos. Um é deputado federal, um é deputado estadual. Enfim, como é que essa preocupação com a segurança pública, ela de alguma maneira aparece nas angústias dos eleitores na eleição desse ano, Maíra?

MGMayra Goulart

Me parece ser a preocupação determinante, né, no estado do Rio de Janeiro. Essa preocupação já é muito longeva, atinge índices cada vez mais alucinantes, né, só se fala nisso. Mas acho interessante que nacionalizou essa preocupação que antes era característica do nosso estado. Ela hoje, ela perpassa os mais diferentes estados. O Rio de Janeiro sequer capital tá entre o top 10 de capitais, de cidades mais violentas do Brasil. Mas mesmo assim a gente observa o quanto que é discurso sobre a segurança pública, ainda que pouco amparados em políticas públicas referendadas, já estudadas, já aplicadas, casos concretos passíveis de serem rebatidos no universo como do Rio de Janeiro ou do Brasil.

Porque volto a lembrar a experiência de El Salvador. El Salvador não é um país que tem a diversidade, a complexidade, o tamanho do Brasil, sequer do estado do Rio de Janeiro. É um país muito pequeno, pouco articulado. As máfias locais, elas não são máfias articuladas internacionalmente como são os nossos criminosos aqui, né, que eles são internacionais, fazem parte de máfias globais e que dificilmente vão ser combatidas sem uma grande articulação com a Polícia Federal e com o Plano Nacional.

Então essas iniciativas muito pouco amparadas, né, naquilo que já é documentado, naquilo que já é feito, naquilo que já tem resultado, me parece um pouco sem sentido. Assim como me parece sem sentido políticos que estavam em cargos de segurança pública ou que são do PL, que governavam o estado, se apresentarem como portadores de soluções para segurança pública. Que se eles tinham essas soluções, por que que eles não as implementaram quando estavam no poder, quando estavam com a máquina?

Então isso me parece um pouco inusitado, né, esses políticos se apresentarem como se eles tivessem nascido agora e não tivessem responsabilidade pelas coisas como estão.

BSBianca Santos

E há um risco há um tempo que o eleitor tá convivendo é de campanhas estarem transformando esse problema que é extremamente complexo da segurança numa disputa por quem apresenta um discurso mais duro, né?

MGMayra Goulart

Tem um ponto aí que eu acho muito interessante, que é: o que que é o extremismo? Extremismo é uma convicção muito simples e, portanto, capaz de provocar esse grau de adesão pela sua simplicidade. Porque com propostas complexas tem reentrâncias, elas não geram o mesmo nível de adesão. Mas qual o problema de soluções muito simples? É que elas não funcionam, elas não aderem a uma realidade que é complexa e multifacetada. Então, gente, toda vez que alguém te apresentar uma solução muito simples, ah não, resolver a segurança pública no Rio de Janeiro é fácil, é só prender todo mundo.

Já tá todo mundo preso, gente. Não é por falta de encarceramento e não é por falta de violência policial que a gente tá assim.

CACarlos Alberto Sardenberg

O Moreira Franco prometeu acabar com a violência no Rio de Janeiro em 6 meses, né, quando era governador. Bom, não conseguiu, né? Aparentemente não houve sucesso. Né, nessa missão. 10:54 agora. Vamos seguir conversando aqui com a Maíra Goulart nesse nosso especial de eleições dentro do nosso CBN Rio. Bom, eu preciso pedir uma projeção aqui, né, Maíra? É, vou ter que pedir. Não faz essa cara para mim não. Bernardo fez a mesma cara.

Não é bolão de Copa do Mundo, mas alguma projeção a gente tem que tentar colocar. Mais uma. Essa do Bernardo foi mais difícil. A sua vai ser mais tranquila, tá? Amparada em dados, pode ser? Então tá, então vou.

MGMayra Goulart

Presidente Lula proibiu as bets, gente, sem aposta.

CACarlos Alberto Sardenberg

Agora, só assim, numa projeção baseada em dados, né, considerando o perfil de parlamentares que nós temos hoje, que que sai no domingo para Alerj e para Câmara dos Deputados? A gente deve continuar com maior número de partidos ligados à direita. O PL, que é o partido mais forte hoje do Rio de Janeiro, deve sair do mesmo tamanho ou maior? O que que você tá observando para as casas legislativas aqui do Rio de Janeiro?

MGMayra Goulart

Essa é fácil, baseada em dados. Posso estar completamente errada porque a realidade sempre pode ser completamente amalucada, mas com base nos dados que a gente tem, que dizem o seguinte: deputados federais têm por ano cerca de R$50 milhões para gastar com emendas. A lógica das emendas é rebatida para os parlamentares em âmbito estadual, ainda que não com o mesmo montante. O que que eu tô querendo dizer? A minha aposta é, embora esteja proibido apostar, na continuidade.

Quem tem mandato continua no mandato. É muito difícil alguém com mandato e com esse montante de recurso competir em situação de igualdade com alguém que não tenha mandato. Então esse é um ponto que a gente tem que refletir enquanto sociedade, se a gente quer emendas parlamentares que acabam com um pressuposto básico da eleição, que é uma igualdade mínima mínima entre os concorrentes, a paridade de armas, né? Não temos isso, não temos isso.

Mesmo com fundo público de campanha, né, que seria distribuído de maneira minimamente igualitária entre os candidatos, os partidos poderiam exercer isso. Só que o que adianta o fundo público se esses parlamentares têm dinheiro para executar, fazer pracinha, fazer asfaltamento o tempo inteiro nos territórios? Mesmo aqueles que deveriam estar em Brasília pensando em coisas, em dinâmicas nacionais, eles estão aqui inaugurando pracinha, inaugurando qualquer coisa, porque eles estão com muito dinheiro e eles podem namorar eternamente.

BSBianca Santos

Agora, ah, então vou pedir, já que o Leandro não pediu, é também uma projeção é sobre a questão de primeiro e segundo turnos, né? Dentro do que você tá avaliando, dentro de todo esse cenário de muita pesquisa também de angústias e anseios da população, É, a eleição deve ser estendida ou não?

MGMayra Goulart

Olha, meu principal, minha principal angústia é a gente ter na eleição estadual o que a gente pode ter na nacional, que é um acionamento do sistema de justiça, mais um acionamento numa dinâmica que ele está sendo acionado o tempo inteiro, está se manifestando o tempo inteiro para recontagem dos votos do Garotinho. E isso mudar primeiro turno e segundo turno vai ser uma confusão danada na cabeça do eleitor. E é mais um episódio que pode desgastar um sistema de justiça que já tá na boca do povo, que já tá no esgarçamento completo.

BSBianca Santos

Sim, Maíra Goulart.

CACarlos Alberto Sardenberg

E não só para fechar, né, essa questão do sistema de justiça, é o TSE aprontando de novo, né. Nós comentamos ontem aqui no CBN Rio, o TSE ao demorar para julgar a questão da sucessão do Cláudio Castro, criou esse cenário de vazio de poder que foi depois preenchido pelo Ricardo Couto, porque demorou para julgar a cassação do Cláudio Castro lá atrás. Esperou, esperou, esperou, esperou, esperou, e aí deu ruim. Mesma coisa agora, a gente tá 2 dias da eleição sem saber exatamente o status do garotinho, né, Maíra?

MGMayra Goulart

Exatamente. E essa dinâmica em que as eleições passam a ter uma eminência parda que não é eleita, que não tá submetida ao crivo da soberania popular, sendo determinante para dizer que candidatura é válida ou inválida, que política a gente pode votar ou não. Funciona como um filtro prévio, não submetido à democracia, mas que condiciona o exercício da própria democracia.

BSBianca Santos

Quem pode ou não pode participar de um debate. Tivemos ontem o debate da TV Globo com os presidentes cancelado.

CACarlos Alberto Sardenberg

Isso por conta realmente desse, desse problema. Bom, Maíra Goulart, quero te agradecer aqui por você ter vindo conversar conosco aqui no nosso CBN Olha, ela, ela rala, tá? Porque além de tudo, além do Lapconda, tem o fixo, né, que não é, que não é brincadeira. Bernardo também já saiu daqui, foi direto trabalhar. Então todo mundo que tá mobilizado com política, que tira um tempo para vir aqui conversar conosco, a gente agradece demais. Obrigado, Maíra.

MGMayra Goulart

Eu que agradeço, gente, por vocês estarem sempre informando a gente sobre Rio de Janeiro. Esse programa é muito importante para quem estuda Rio.

BSBianca Santos

Obrigada, obrigada, Maíra Goulart. Uma honra ter você aqui. Como explica fácil, desenha, né?