Às vésperas do 1° turno, quem são os eleitores independentes? Especialista explica
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Carol
Renato Meirelles
- A eleição do cansaço e a polarização não radicalizada no Brasilqueda de indecisos na pesquisa Datafolha·eleição dividida mas não radicalizada·população sem perspectiva de futuro·chuva como fator de interferência
- O voto feminino da classe C no Sudeste como decisivo na eleiçãomulheres preocupadas em pagar boletos·busca por tempo com a família·redução da jornada de trabalho·Estado que funcione e não atrapalhe
- O perfil e a importância dos eleitores independentes na eleiçãonão se consideram parte de tribos políticas·representam um terço do eleitorado·eleitor nem-nem·interessados em propostas reais
- A falta de alternativas para o sonho e a esperança da populaçãoimpacto das bets na vida das mulheres·bets como falsa esperança de renda·fim da jornada 6 por 1 como proposta·escuta radical para políticas públicas
- A mudança na percepção do trabalho CLT pelas novas geraçõesCLT como 'Corno, loser ou trouxa'·precarização do mercado de trabalho formal·ampliação das plataformas de trabalho·valorização do tempo pessoal
São 3 horas 4 minutos, 3 e 4. Essa é a segunda hora do Estúdio CBN desta sexta-feira, antevéspera de eleições presidenciais no Brasil, 2 de outubro de 2026. Esse é o nosso assunto agora, 2 dias antes dos brasileiros irem às urnas. A gente tem o prazer de receber aqui no nosso Estúdio CBN o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles. Oi, Renato, bem-vindo!
Nossa, que prazer estar de volta aqui com vocês para comentar um pouquinho como é que tá a cabeça do brasileiro nessa véspera das eleições.
Estávamos sentindo sua falta para nos ajudar a entender um pouco melhor. Bom, vamos começar com a última pesquisa Datafolha, que dá um bom termômetro para gente a respeito do número de eleitores indecisos. Pesquisa foi divulgada ontem E mostra que o número de indecisos caiu de 18% para 13% na intenção de voto espontânea para presidente, ou seja, 5 pontos percentuais a menos em relação à pesquisa anterior que foi divulgada no dia 24 de setembro. 17% ainda podem mudar de voto e 19% não sabem o número do candidato em quem pretendem votar.
A partir desses números, o que é que a gente pode ler? O que é que esses números indicam? Quem são esses eleitores?
Em primeiro lugar, indica algo que eu tenho repetido já há algum tempo, inclusive aqui na CBN, de que eleição chatinha, né, no sentido de pouca, de pouca empolgação nisso. Escrevi essa semana no Globo um artigo que fala que chama eleição do cansaço. O que que é isso? Vamos lembrar um pouquinho. A gente tava aqui conversando na eleição passada, 4 anos atrás, em que você tinha uma situação de polarização. Fernando, você vai lembrar que teve gente que morreu na última eleição.
Sim, teve casos de assassinato no Paraná, assassinato em Salvador, famílias esfaceladas, mães de família sem conseguir juntar os seus filhos, os seus netos, para conversar. Era uma eleição muito polarizada. Se você olha na frieza dos números, era uma eleição tão dividida quanto essa, né? Tinham dois candidatos ocupando basicamente o topo das intenções de voto, números muito parecidos com os números que temos agora, né? O Lula nos dois casos, antes o Jair e agora o Flávio, Bolsonaro.
Só que tem uma diferença enorme, você vai entender o porquê que é importante isso para responder a sua pergunta, Janaína. A gente tem, Tatiana, desculpa, a gente tem essa eleição, uma eleição dividida assim, mas não radicalizada. Apesar da fala do Flávio ontem, a gente já conversa disso, mas não radicalizada. A eleição passada era uma eleição que se matava e morria pelos seus candidatos. Essa eleição, o máximo que as pessoas querem é que o seu candidato morra.
São coisas muito diferentes dessa situação. Por quê? Porque a população não tá conseguindo enxergar nas duas candidaturas uma perspectiva de futuro. Isso faz com que tenha um grau grande de indecisos ainda no voto espontâneo na véspera da eleição. E não é indeciso porque tá em dúvida entre um ou outro, tá na dúvida se vai votar ou não vai votar. Talvez na história recente do Brasil seja eleição em que a chuva tem o maior potencial de interferência da eleição da história, porque vai chover no Nordeste ou vai chover no sul do país, que vai fazer com que seus eleitores deixem de comparecer à urna.
Né, exatamente porque é uma eleição que não se discutiu proposta, é uma eleição que não se teve debate, é uma eleição em que tem um candidato que disputa a liderança das pesquisas, que não apresentou algo para o país que não seja a defesa do legado do pai. Tem um outro candidato que não conseguiu mais prometer o futuro, como comecei, é um futuro melhor, como conseguiu nas outras passadas. Então a gente pega o eleitorado do Lula, o eleitorado do Lula não vota no Lula porque acha que vai ter um futuro melhor a partir da eleição do Lula, ele vota no Lula porque eu pelo menos sei o que que vai ser, né?
Então é uma eleição morna. Vamos dizer assim, eu sei que falar isso depois do dia de ontem parece meio estranho, né, já que teve toda a, os 48 segundos do tempo, não tem debate, interferência da justiça e tudo mais. Mas é uma eleição em que a pauta era o STF, não era eleição, não era a vida dos brasileiros, não era o que se pretende fazer com esse país nos próximos 4 anos, que tipo de melhorias e de possibilidades vão ser oferecidas para essa população nos próximos 4 anos.
Passamos longe disso, passamos muito longe disso. E se a classe política passa longe disso, o pragmatismo do eleitor passa a passar também longe disso, tá? Por isso que ele não se empolga, ele não acha que vale a pena romper com uma amizade para defender a proposta de um determinado candidato.
Renato, agora muito se fala também nessa eleição sobre eleitores independentes. Quem são eles? Qual que é a importância deles nesse pleito?
E eles são diferentes dos indecisos?
Eles fazem parte dos indecisos. Independente é uma classificação que a Quest colocou, uma segmentação que a Quest do meu amigo Felipe Nunes fez para segmentar os eleitores. E é aquele sujeito que não morre de amores nem pelo Bolsonaro, nem pelo qualquer Bolsonaro que seja, nem pelo Lula, né? Então aquele eleitor, digamos assim, pouco engajado na defesa dos candidatos, que não, que não se considera parte de nenhuma das tribos que estão sendo colocadas.
E esses eleitores são um terço dos eleitores brasileiros. É óbvio que você também tem independentes um pouco mais propensos a um candidato, independentes mais propensos a outro candidato, mas não são, não são candidatos, não são eleitores que efetivamente vestem a camisa com orgulho. Você tem dentro dos independentes também o nenhum nem outro, né, o eleitor nem-nem, o eleitor que não quer nem Flávio nem Bolsonaro, mas que também não enxerga na terceira via uma solução, uma boa representação para que essas pessoas, para que eles tenham seus pleitos atendidos.
Em geral também é uma pessoa que gosta menos de política do que a média, tá, do que a média nacional, tá mais interessada nas questões do dia a dia. Mas é um eleitor que, por exemplo, se sensibiliza com a proposta, com as críticas que o Flávio Bolsonaro faz aos preços do supermercado. E também é um eleitor que se sensibiliza com o aumento do Bolsa Família, com as canetas emagrecedoras, com o banimento das bets. É um eleitor que tá sem vestir a camisa de um lado ou de outro, mas que tá mais querendo saber de propostas reais do que de propostas, vamos dizer assim, mais teóricas do que presas na realidade concreta do dia a dia.
Renato, as mulheres são a maior parte do eleitorado. O voto feminino ali lá no começo da campanha, antes da gente se ver às voltas com crise institucional, casos de corrupção envolvendo autoridades e o candidato do PL, as mulheres pareciam ser um dos alvos dos candidatos. Eles pareciam ali no começo empenhados a conquistar os votos das mulheres. Maria Cristina Fernandes ontem falava de um perfil específico a ser disputado entre os que ainda não definiram o seu voto, de acordo com as pesquisas: mulheres no Sudeste, classe C.
O que é possível observar e dizer desse contingente do eleitorado, as mulheres? Mulheres é muita gente, eu sei, mas dizer do voto feminino nesse contingente de indecisos?
Tanto a Maria Cristina quanto O Pedro Doria tem falado muito sobre essa segmentação aí de um eleitor que tá na região metropolitana das grandes cidades do Sudeste. Esse é o eleitor da classe C. Eu estudo há 25 anos a classe C, é um eleitor que eu tô, e uma eleitora que eu tô absurdamente mergulhado aí nesse entendimento. E é um eleitor que na verdade tá mais preocupado em pagar boleto. Então vamos lá, a gente tem uma eleitora que depende muito, absurdamente, de todos os serviços do Estado, que recebe Bolsa Família.
Essa é uma eleitora que já tá dada para o Lula, essa é uma eleitora muito mais lulista. Essa outra eleitora, a que tá em disputa, a que definitivamente vai ganhar a eleição, muitas vezes ela tá nas regiões metropolitanas e não nas cidades pequenas. Ela tá muito preocupada em ter tempo com a família. Ela tem a busca pelo tempo como seu grande ativo, como a sua grande preocupação, né? Então, Tati, ela quer saber, por exemplo, o que que vai ser feito para poder melhorar o trânsito das pessoas.
É porque uma hora a mais que ela usa para ir para o trabalho ou para não ir ou para voltar do trabalho são horas que ela não ganha nenhum dinheiro. Mas ela tá, mas ela não tá conseguindo estar junto com a sua família. O tempo, né, o tempo é o grande ativo econômico aí da população da classe C, e poder escolher o que fazer com tempo é algo importante para ela. Então, se ela tá no mercado formal, ela é a grande defensora da redução da jornada 6 por 1, do fim da jornada 6 por 1.
Ah, Renato, mas ela também não pode ser uma empreendedora? Ela é uma empreendedora. E daí o que ela quer? Que de um lado o Estado não atrapalhe, mas o filho dela tá trabalhando no 6 por 1 como atendente de lanchonete ou vendedor de loja de departamento. E o filho ter mais um dia para trabalhar é algo bastante importante para ela, ou para ficar com a família é algo bastante importante para ela. Então quem conseguir organizar o tempo Organizar o tempo dessa mulher, fazendo com que ela rentabilize cada vez mais a sua hora, vai conseguir contribuir muito para conquista da dignidade e, portanto, para fidelização do voto dessa mulher. Não tem a ver com esquerda ou direita, tá, filho?
É a necessidade desse contingente, é uma necessidade.
Então ela é uma mulher que quer o Estado que funcione grande e presente. Na hora de ter creche, na hora de ter um posto de saúde, e quer um Estado que não atrapalhe na hora que ela for abrir o seu próprio negócio.
Perfeito, bom resumo.
Então, ela defende, por exemplo, Fernando, que o Brasil hoje está tendo uma crise de violência, uma epidemia de violência. Mas diferente do homem da classe C, que acha que a solução pra isso é andar armado, ela acha que a solução pra combater a violência é iluminação na rua e rota de polícia na porta da escola. Porque fala que se for liberado o porte de armas, por exemplo, ela tem medo que um coleguinha do filho roube a arma do pai e dê um tiro numa briga de escola, ou ela mesmo ser vítima de feminicídio por conta do seu companheiro.
Entende? Assim, ela vive problemas concretos, mas a mulher tem um jeito, aí a julgamento meu, mais civilizado do que o homem. De conseguir lidar com essas coisas no dia a dia sem que para isso ela tenha que acabar com todo mundo, né? Ela não quer. É ela que leva a briga ao fim das brigas de família, por exemplo, né? Ela não quer um discurso. Tem um detalhe interessante só, desculpa, eu sei que eu me alonguei, mas essa mesma eleitora de classe C foi muito contra o Lula em 89.
Por quê?
Porque o Lula tinha um discurso radical, tipo radical no sentido do grito, da briga, do confronto, da forma.
Depois ele foi ser paz e amor, né, expressar suas ideias.
Conforme o Lula foi virando Lulinha paz e amor, ele foi conquistando maior parcela do voto dessas mulheres de classe C. Então tem a ver com proposta, tem a ver com a vida real, mas também tem a ver com a forma de se colocar. Quando a Michele Bolsonaro soltou aquele vídeo criticando o Flávio Bolsonaro, ela olhou para Michele e falou: nossa, o meu marido faz a mesma coisa comigo, não dá para votar nesse cara. Eu tô dando um exemplo concreto aqui, vocês podem reparar que colocando prós e contras dos dois lados, das duas grandes candidaturas aqui, para tentar mostrar que ela quer paz.
Então essa mesma mulher que vai decidir a eleição aparece nas pesquisas do Instituto Locomotiva como o único caminho efetivo para o fim da radicalização na política brasileira.
Queria compartilhar com você uma história recente que aconteceu em casa. Eu tenho um filho, tem 16 anos. Ele chegou um dia em casa tirando onda de quem é CLT. Provavelmente viu algum vídeo no TikTok, chegou em casa tirando onda. E eu sou CLT, sou nessa emissora aqui há quase 30 anos. E eu indaguei sobre, você sabe o que que é CLT? Você sabe o que que é essa lei? Sabe como é que foi? Ele sabia quase nada, na verdade. O que que tem nessa geração que critica uma, entre aspas, possível estabilidade, uma possível segurança numa futura aposentadoria?
Que entendimento você acha que eles têm do que é um trabalho CLT ou não ser um autônomo e fazer outra coisa?
Tem 25 anos que eu estudo a classe C brasileira. Lançamos agora O Brasil da Maioria. Vou mandar para vocês, 25 Anos da Classe C, que é o que eu condenso muito das mudanças da classe C nos últimos 25 anos. E o que que a gente viu? Eu lembro no começo da minha carreira, Fernando, as mães de classe C, quando o filho tava saindo de casa, ela pegava a carteira de trabalho do filho, colocava no bolso da camisa, de bolso dele, colocava numa pasta na mochila e falava: olha, leva, não esquece de levar sua carteira. Se a polícia Ai, apareceu alguém aqui! Olha o susto!
Oi, querida!
Eu tomei um susto aqui, mas vamos lá, já falo, filha, deixa eu terminar aqui. O que que acontecia? A criança saía de casa, criança não, o filho, o jovem saía de casa e se parasse a polícia na rua, ia vir com uma carteira de trabalho falando: olha, eu sou trabalhador. Eu sou policial, eu sou honesto. Era motivo de orgulho, era o retrato da dignidade. A estética da dignidade passava pelo azul da carteira de trabalho. Isso é que eu classificava 25 anos atrás.
A classe C hoje, quando você fala você é um CLT, que é o que aconteceu com seu filho, Fernando, você é um CLT, aparece como Corno, loser ou trouxa. Outro dia tava falando, ah, Renato, trabalhar, você sabe o que é uma máquina de passar, uma tábua de passar roupa? Ah, eu sei o que é uma tábua de passar roupa, né? Serve para deixar a camisa, você pega um ferro, passa a camisa. Não, não, não, uma tábua de passar roupa é uma prancha de surf que foi trabalhada em CLT.
O que que eu tô querendo dizer com isso? A provocação é que para essa nova geração trabalhar de CLT é ganhar pouco e não ser dono do próprio tempo. Muita gente fala isso como se fosse— só falam sobre a crítica ao trabalho de plataforma, alguns chamam de trabalho precarizado e tudo mais, mas não esquece que o que houve foi uma precarização do mercado de trabalho formal também. Onde você não teve nenhuma flexibilização do ponto de vista de horas.
Você teve uma reforma trabalhista que diminuiu direitos, uma reforma previdenciária que deixou a aposentadoria mais distante. Então você teve uma precarização na CLT de um lado e uma ampliação das possibilidades de se conseguir dinheiro rápido através das plataformas, né? Porque você, para trabalhar com CLT, você precisa ter segundo grau completo. Pra entregar lanche, não. Você não precisa ter segundo grau completo, você precisa ter uma moto.
Então, isso faz com que se mude muito da relação de trabalho, da forma que eles enxergam o trabalho. E o que acontece é que o valor da hora dessas pessoas passou a valer muito mais. Ela quer ganhar dinheiro, sim, mas ela também quer poder acompanhar a reunião escolar da filha.
Você sabe que hoje passou na minha, na minha rede social um vídeo? Eu parei para ver, era um gringo que fala um português muito bom dizendo que ele tinha feito um vídeo, ele tava falando sobre um vídeo que ele tinha feito anteriormente e virou uma guerra a caixa de comentários dele. Ele falava, eu tô aqui dizendo que eu não consigo compreender, peraí, é para eu ir trabalhar nessa empresa? Essa empresa vai me dar, vai me ajudar no transporte até lá?
Quer dizer, vai me dar um vale-transporte? Vocês acham isso ruim? Aí ele falava, vale alimentação. Então, para eu passar 8 horas nessa empresa, a empresa vai me ajudar a me alimentar? Porque isso não é um benefício 100%, mas uma parte desse valor é bancado pela empresa, tanto do transporte quanto da alimentação. E vocês estão achando isso ruim? Aí eu abro a caixa de comentários, vocês estão lá brigando direita e esquerda? Gente, eu tô tentando entender a consolidação das leis do trabalho.
Então quer dizer que você trabalha 12 meses, mas você ganha 13 salários? Você tá achando isso ruim? Você sai de férias e ganha um dinheiro a mais, você tá achando isso ruim? Quer dizer, os valores se transformaram de tal forma nos últimos anos que sim, as pessoas estão achando isso ruim, Renato Meirelles.
É porque o dinheiro tem uma série de garantias de um lado, mas essas garantias são engessadas, certo? São garantias em que você tira autonomia da pessoa. Tanto que você, por exemplo, a gente no Instituto Locomotiva tem o privilégio de atender as maiores empresas do país, e a nossa principal fonte de dinheiro são empresas privadas para desenvolver estratégias de marketing, de negócio, fazer pesquisa de consumo, né? Você sabe que mais de 30% vendiam ticket de refeição?
Sabia. Quer dizer, eu não sabia que o percentual era esse, mas essa é uma prática corriqueira.
E por que isso? Porque é engessado o benefício, tá? E não deixa a pessoa pegar esse dinheiro e comprar. Não deixava até pouco tempo atrás você comprar no supermercado, fazer a sua marmita e levar para o seu trabalho, tá? Aí a pessoa tinha que perder 10% vendendo o dinheiro de refeição para um bunker de dinheiro, né? Para o cara que repassava, porque não podia comprar direto no supermercado. Agora pode os benefícios. Mas o que eu tô tentando provocar é que uma série de de direitos não se podia, eram tão engessados que essa pessoa não podia, ela podia tirar 30 dias de férias, mas tinha que ser 10 e 20, e também não era exatamente quando ela quer, o que significava que podia não bater com as férias escolares do filho.
Perfeito. Então, benefício por um lado, perda por outro lado, na medida em que a sociedade e o mercado de trabalho também foram se transformando, né? Né? E as necessidades foram aparecendo. O Renato, eu queria— acho que a gente tá indo meio para o fim, mas eu queria retomar uma palavra que você falou no começo da nossa entrevista, que é sonho. Queria falar sobre esperança, queria falar sobre sonho, sobretudo para mulheres e jovens.
Recentemente, as fundadoras do Instituto Clarice, com o comando da Open Society Foundations também, 3 mulheres Vou pegar o nome delas já já. Escreveram um artigo na Folha de São Paulo baseadas numa pesquisa que o Instituto Clarice fez sobre o impacto das bets na vida das mulheres. Não é sobre isso que eu quero falar, mas elas argumentam que é fundamental acolher e entender as necessidades da população vulnerável que passaram a enxergar nessas plataformas de aposta uma falsa esperança ou uma última alternativa desesperada de gerar renda para fechar as contas do mês, ou até para além de fechar as contas do mês, sonhar.
O que também acontece com boa parte dos jovens que viram nas bets uma possibilidade de prosperidade rápida. Em época de propostas para o futuro do país, que era o que a gente tinha que estar discutindo nessa época, véspera de eleição, com a proibição das bets, o que é que tá sendo oferecido para esses grupos como imaginário de uma vida digna, de realização de sonhos, de mobilidade social, de prosperidade?
Infelizmente nada. E é isso que precisa ser dito do ponto de vista do poder público ou dos agentes públicos ou de quem pretende ocupar o cargo público. O que se começa a oferecer, e essa é sem dúvida nenhuma a mais popular das propostas, é o fim da jornada 6 por 1. Eu falo, eu dificilmente tomo opinião ou partido. O meu papel é ser o intérprete da sociedade brasileira. Mas eu fui, eu fui conversar com as pessoas sobre o que que significava trabalhar 6 por 1.
Trabalhar 6 por 1 significa você não ter direito a folga, porque o único dia de folga que você tem é para você arrumar sua casa. Se você for mulher, isso é mais sério ainda. Porque as mulheres foram para o mercado de trabalho, mas os homens não foram fazer a sua parte na divisão das tarefas domésticas. A jornada 6 por 1 faz com que as pessoas não consigam estudar, o que traz um impacto direto na produtividade do que é trabalhado.
Porque boa parte da jornada 6 por 1 inclusive trabalha com o horário de trabalho flexível. A partir disso, então você tem hoje, quando você olha para as bets, a gente foi o primeiro instituto de pesquisa a pesquisar bets no Brasil. Assim que o Temer legalizou a prática, autorizou a operação no Brasil, é a operação no Brasil, e durante todos os anos do governo Bolsonaro que correu sem regulação das bets. As pessoas começaram, as bets começaram nos boleiros.
Boleiros são aquelas pessoas que se reúnem de quarta-feira e no final de semana com os amigos para tomar cerveja, já apostavam cerveja, e eles acham que tem um grande talento que é entender de futebol. Quem aqui já não ouviu que no Brasil tem 200 milhões de técnicos de futebol, né? Então esse cara, ele achava que do mesmo jeito que um corretor de bolsa de valores sabe aplicar dinheiro, ele sabe entender de futebol e tava tentando monetizar o dinheiro.
E ela oferecia uma perspectiva de futuro porque sempre ganhava um pouquinho. Não ganhava no final, dava prejuízo no final, porque se não desse prejuízo, elas não iam lucrar, ok? Só para quem tá nos ouvindo entender, as bets lucram a partir do prejuízo de quem aposta. Se você ganhasse mais do que perdesse, as bets não teriam dinheiro a partir disso. E aí, com a regulação, isso começou, por exemplo, a tirar crianças da aposta. Sim, né, através de reconhecimento de biometria facial, impediu crédito, porque antes você podia apostar com cartão de crédito e com a regulação deixou de poder.
Só que mesmo assim cresceu muito esse processo, que na busca de algum dinheiro mais imediato sacrificava o dinheiro do dia seguinte. Algumas vezes eram as mulheres, mas muitas vezes eram os homens que, antes de repassar o dinheiro para mulher fazer administração do orçamento familiar, gastava, gastava esse dinheiro. Não, isso não tá sendo uma— qual é a alternativa às bets?
Sim, essa é a pergunta.
Alternativa não às bets, alternativa à demanda de voltar a sonhar a longo prazo. Hoje não tá sendo dada. Qual é a alternativa que tá sendo dada, que é possível de ser dada? Tem um processo que nós chamamos aqui no Locomotiva de escuta radical, que é trazer as lógicas dos aplicativos para decisão de políticas públicas. Eu vou dar um exemplo para isso. Se você Hoje, Tatiana, chega numa repartição pública, você vai ver uma placa escrito: agredir funcionário público é crime previsto em lei.
Você não vê: ter direito à saúde de qualidade é uma garantia prevista em lei. Se você tem um QR code e que a pessoa pega um celular com aplicativo e dá nota para o serviço público que ele teve, que ele recebe informação, aqui deve ter 3 médicos, e se não tiver 3 médicos ele reporta que não teve 3 médicos, você não vai conseguir chamar o cidadão de volta a confiar no poder público e entender que ele também faz parte do Estado. A mesma coisa é um orçamento, a possibilidade de um orçamento participativo através de votação para saber se é melhor ter um centro de qualificação profissional ou uma creche no bairro onde ele mora.
Né, então a única forma é reconectar governantes e governados. E para isso você precisa ter um processo de escuta radical para um eleitor que também é consumidor. E como consumidor aprendeu a votar, a dar nota para uma compra que ele faz, a fazer o reporte se um produto é bom ou ruim, aprendeu a escolher o que é melhor ou que é pior até no tipo de cupom que ele utiliza na hora de fazer uma compra, é natural que essa pessoa queira poder votar entre uma creche ou um posto de saúde.
Perfeito, perfeito. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, conversando conosco hoje aqui nessa antevéspera de eleição, sobretudo a respeito do sonho, da esperança, do que anseia o brasileiro e o que tá sendo oferecido para nossa população. Obrigada, Renato, por estar aqui com a gente nos ajudando a ler o Brasil. Bom domingo de eleição para você.
Obrigado, Tati. Obrigado, Fernando. É um privilégio estar aqui com os ouvintes da CBN. Até já, grande abraço, até a próxima.