Lula erra ao não ir ao debate da Globo, avalia professor do Insper
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Ary Jorge Nogueira
Leandro Consentino
- A ausência de Lula no debate da Globo e suas implicações eleitoraisdebate fundamental para o eleitor·dever de prestar contas à população·estratégia equivocada da campanha·dar palco para ataques adversários
- A polarização entre Lula e Bolsonaro e o cenário para o segundo turnodistância nas pesquisas·migração de votos da terceira via·terceira eleição polarizada·vitória apertada no segundo turno
- A importância do voto para o Legislativo e a fiscalização do Executivomau hábito de não prestar atenção·Congresso cada vez mais forte·fiscalizar bem o Poder Executivo·escolha consciente para deputado federal
- A necessidade de atenção redobrada na escolha para o Senado Federalpoderes de impeachment de ministros·julgamento de impeachment de presidente·renovação de dois terços do Senado·mandato de 8 anos dos senadores
- A importância da colinha e da fiscalização pós-eleiçãopesquisar candidatos e propostas·exercer o direito de voto·fiscalizar os eleitos·premiar ou punir na próxima eleição
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Muito bem. Aqui no CBN Madrugada, espaço para a gente falar um pouco mais aí sobre as eleições que estão chegando próximo domingo. E o nosso convidado é é o professor Leandro Concentino, que é professor de graduação e pós-graduação em ciência política no INSPer. Leandro, muito bom dia, sempre um prazer tê-lo conosco aqui na CBN.
Bom dia, Galvão, prazer estar aqui com você e com todos os ouvintes da CBN.
Bom, vamos começar com o debate na TV Globo marcado para hoje, para esta quinta-feira. Candidato Flávio Bolsonaro confirmou presença e o candidato Lula presidente Lula, candidato à reeleição, informou que realmente não estará presente. Queria que você falasse como que você avalia essa ausência do presidente Lula e a importância deste debate há praticamente 3 dias aí do pleito, hein?
Acredito, Galvão, que é um debate fundamental para que o eleitor consiga agora, né, passada toda a campanha, fazer um balanço e compreender melhor as propostas aí de cada candidato, entender melhor o que que cada candidato tá buscando aí para o país. E lamento muito que o atual presidente não esteja se propondo a participar. Acho que é um dever de todo político, de toda pessoa que se dispõe aí a ocupar um cargo político. Lula não é nenhum neófito nesse caso, né, a prestar contas à população, ao eleitor.
Então acho que é ruim do ponto de vista da própria democracia, mas também acho que é uma estratégia equivocada da própria campanha, dado que seu principal adversário prometeu ir. Acho que deveria ali também tá participando, porque agora vai dar palco para que os demais ataques, ele não vai ter a possibilidade de qualquer defesa aí nesse sentido.
Bom, e não precisa ser nenhum especialista para imaginar como é que vai ser o debate com ausência do presidente Lula, não é, Leandro? A gente imagina que os 4 candidatos ali vão aproveitar para fazer críticas. É o que você falou, o presidente Lula não vai ter espaço para se defender, né? Você acredita que essa estratégia então é equivocada? Seria melhor do ponto de vista da campanha dele que ele estivesse lá para para se defender?
Acredito que sim, Galvão, como você bem pontuou. Acho que o modus operandi todo vai ser todos contra ele, sobretudo pela questão até ideológica. A gente não tem outro candidato ali à esquerda, o próximo ideologicamente de Lula. Todos os candidatos postos ali provavelmente estarão atacando o atual presidente. É comum quando é o incumbente, quando é o presidente em exercício, ainda mais divergindo ideologicamente. E aí não ter a possibilidade de poder refutar esses ataques, dado que Lula tem uma larga experiência aí como candidato, até mesmo como presidente, poderia muito bem fazer do limão uma limonada e devolver, né, responder esses ataques.
Não vai ser o caso, não vai ter possibilidade de fazer isso, e sequer vai ter tempo aí em horário eleitoral para isso também. Então acho que é uma estratégia bastante equivocada e complicada aí da campanha dele não comparecer esse último debate.
Bom, as últimas pesquisas, a gente vai ter nesta quinta-feira uma última pesquisa também do Datafolha, mas os últimos levantamentos têm indicado ainda uma distância muito grande do presidente Lula e Flávio Bolsonaro para os demais candidatos. Presidente Lula aí na faixa dos 40 pontos percentuais, o Bolsonaro no primeiro turno um pouco menos, mas no segundo turno aquele empate técnico. Você enxerga um outro cenário para essa eleição que não seja um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, Leandro?
Acho que não, Galvão. Na verdade, essa polarização já tava ditada há um bom tempo. A gente imaginava que seria assim. E aí, durante a campanha, isso só foi se consolidando, sobretudo nas últimas semanas. Aí houve uma migração importante dessa chamada terceira via para as principais candidaturas, uma espécie de movimentação aí para o voto útil. Então acho que esse cenário se consolidou. Acho que a gente vai ter mais do mesmo, uma terceira eleição polarizada entre o bolsonarismo e o lulismo, o lulopetismo, como quiser chamar.
E aí acho que a gente caminha aí para mais essa etapa aí de confrontação. E a gente vai ter mais uma, se tudo não acabar no domingo agora com o primeiro turno, a gente vai ter mais um mês aí para ver essa polarização aí, enfim, dando a sua cara aí até o final de outubro.
Bom, a gente não tem bola de cristal, né, mas queria que você traçasse alguns cenários aqui para o segundo turno no que diz respeito a apoio ou neutralidade desses demais candidatos, né. Estamos falando aí do Augusto Cury, do Ronaldo Caiado, do Zema e do Renan Santos. Qual que é a sua estimativa aí em relação a como devem proceder esses candidatos, se vão apoiar alguém ou se vão manter neutralidade, e a importância desse apoio ou não de um candidato, e se isso determina ou não.
A gente sabe que não determina, né, que os eleitores deles vão para o candidato que ele vai apoiar ou não, mas queria que você falasse um pouco dessa possibilidade desses candidatos transmitirem ou não os seus votos para um outro candidato.
Galvão, vamos lá. Acho que tem 3 coisas importantes para a gente pontuar. A primeira delas é com relação a para onde vão esses apoios dos candidatos. Acho que Zema e Caiado aí finalizaram anistia ao ex-presidente Bolsonaro uma vez que assumissem. Portanto, na minha leitura, estão mais próximos aí de um apoio a Flávio Bolsonaro. Renan e Cury talvez pendam mais para declarar, né, neutralidade, dizer que estão em cima do muro, apesar do eleitorado de Renan Santos, na minha leitura, ser um eleitorado mais à direita, portanto mais próximo de cair aí para o bolsonarismo do que para o lulismo numa segunda volta.
Do Cury, realmente é um candidato novo, é um candidato sem lastro partidário, fica difícil a gente interpretar. E aí vem a segunda parte importante daquilo que você tá dizendo: nem sempre a manifestação do candidato é para onde o eleitor vai. O candidato não é dono dos votos do eleitor. Então Por vezes o candidato pode manifestar uma preferência e o eleitor ir em sentido contrário. E aí uma terceira parte que tem tudo a ver com isso é o seguinte: essa vitória no segundo turno muito provavelmente será muito parecida com a vitória que Lula obteve em 2022, ou seja, uma vitória por uma margem muito pequena, seja para qual lado for.
E aí essa é a importância de garimpar esses votos aí da chamada terceira via, dos demais candidatos. Apesar de eles não sinalizarem propriamente no primeiro turno para onde vão no segundo turno, é importante que os dois candidatos façam esse esforço na segunda volta, porque aí é uma nova eleição, e aí eles vão ter que buscar a vitória, e essa vitória deve ser bastante apertada esse ano novamente.
Estamos conversando aqui no CBN Madrugada com o Leandro Concentino, cientista político, professor de graduação e pós-graduação no INSPE. Leandro, a gente foca normalmente a nossa maior atenção na eleição para presidente, para governador, mas queria reservar um espaço aqui para a gente falar sobre as eleições, a eleição para Senado e também deputado federal, deputado estadual, focando principalmente no deputado federal e Senado, né, focando em Brasília.
Queria que você falasse da importância desses votos também diante desse ambiente que a gente tá vivendo, né, Congresso Nacional cada vez com mais poder, com mais possibilidade de gerir o orçamento, e o Senado né, com essa expectativa aí de até uma possível votação de impeachment de ministro do Supremo. Queria que você falasse da importância da nossa ouvinte, o nosso ouvinte aqui do CBN Madrugada, prestar atenção também para os votos para o Congresso Nacional.
Galvão, você tem toda razão em duas afirmações que você faz. Na primeira é que nós brasileiros temos o mau hábito de não prestar atenção nos votos para o Legislativo. A gente se lembra de quem a gente votou para presidente, para governador, ou para prefeito nas eleições municipais, mas a gente acaba esquecendo ao longo do tempo para quem a gente depositou o voto, para vereador na municipal ou para deputado federal ou para senador.
Isso é um vício muito ruim, porque aí vem a segunda parte que tá correta da sua afirmação. O Congresso tem se tornado, o Legislativo tem se tornado um poder cada vez mais forte no nosso sistema político. Já era antes, já era, já havia um entendimento de que ele era o centro político. Vamos lembrar que, por exemplo, o presidente pode vetar uma lei, mas o Congresso pode derrubar esse veto, né? Então o Legislativo já tinha um poder grande, mas tem aumentado cada vez mais as suas prerrogativas, sobretudo desde o orçamento ter se tornado impositivo ali no finalzinho do governo Temer.
Tem também a chave do cofre nas mãos agora. Então escolher o seu parlamentar para que ele faça primeiro um bom dever de casa do ponto de vista legislativo, né? Criar leis de interesse geral, compreender ali a negociação junto ao Executivo. E segundo, fundamental, fiscalizar bem o Poder Executivo, entender, né, o que que tá acontecendo no Palácio do Planalto, que tá acontecendo nos respectivos palácios estaduais, e aí poder fiscalizar, ofertar uma boa fiscalização para o eleitor.
É prerrogativa dos parlamentares, é fundamental que a gente faça essa escolha muito conscientemente para deputado federal. E lembrando que para o Senado Federal, nesse momento, a gente tem que inclusive ter poderes aí inclusive de impeachment do Ministro do Supremo, de julgamento de impeachment até de presidente da República, a gente tem duas escolhas a fazer esse ano. Então a gente tem dois votos porque o Senado vai ser renovado em dois terços.
Precisa ser muito bem refletida essa escolha. Lembrando que o mandato de cada um desses senadores é de 8 anos. Então a gente precisa ter uma atenção redobrada aí para essa escolha também ao Senado Federal e para deputado federal também, sem dúvida nenhuma, dado que são 4 anos, mas também mexem aí com todo o sistema político e as decisões que dizem respeito a nós eleitores aí na ordem do dia.
Para a gente fechar nosso papo, professor Leandro Conzentino, a gente tem mais 2 minutinhos aqui, é falar do aspecto prático da eleição, né, a importância de cada um de nós, e eu me incluo, é claro, nisso, levarmos a nossa colinha lá na hora de votar, né, porque ninguém vai decorar o número de todo mundo, são muitos candidatos. E é sempre um alerta para nosso ouvinte, o nosso ouvinte, a gente sabe, né, que às vezes a pessoa pessoa não leva e de repente, ah, vou, quero, não quero deixar de votar, pega lá um papel, alguma coisa, acaba votando e nem sabe quem tá, quem tá votando. Então queria que você falasse exatamente desse aspecto prático da eleição.
Galvão, acho que o aspecto prático é dever de casa do antes, durante e depois. Antes, pesquisa direitinho quem são seus candidatos, faz a colinha bem feita, pesquisa biografia, pesquisa as propostas. Com a sua colinha na mão é o durante, é ir votar. É não deixar que os outros façam a escolha por você, nem que você vá anular um voto ou outro porque você não concorda com os candidatos postos, mas vá exercer o seu direito de voto que foi conquistado a duras penas.
E depois, lembrando que tem uma tarefa posterior, né? A gente vê ali escrito fim na urna eletrônica, tem o vício de achar que agora só vale voltar na urna eletrônica daqui a 2 ou 4 anos e pensar nisso depois. Não, aí nós temos dever de fiscalizar os eleitos, entender quem foi eleito e tá ali pronto a cobrar desses políticos aí, que afinal são pagos com nosso dinheiro público, são nossos representantes. Então tem esse dever também de fiscalizar e aí premiar ou punir na próxima eleição o político, sendo ele do bem ou mal.
Professor Leandro Cosentino, mais uma vez muito obrigado pela gentileza aqui com a CBN. Um bom dia e até uma próxima oportunidade.
Eu que agradeço. Um bom dia a você e a todos os ouvintes da CBN.