Episódios de Política

Os bastidores da recusa de Lula ao debate na TV Globo

30 de setembro de 202612min
0:00 / 12:12
O presidente Lula, candidato à reeleição, decidiu não participar do debate da TV Globo marcado para esta quinta-feira (1º). Segundo fontes da campanha ouvidas pela CBN, Lula deve conceder uma entrevista ao podcast Flow no mesmo horário. Maria Cristina Fernandes traz os bastidores da decisão do presidente.

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Participantes neste episódio2
C

Carol

HostApresentadora
M

Maria Cristina Fernandes

ComentaristaEspecialista
Assuntos4
  • A recusa de Lula em participar do debate da TV Globoargumentos de Lula para não ir·medo da cadeira vazia·adversários batendo em Lula
  • Fatores que influenciam a decisão de Lula de não debateridade e desempenho de Joe Biden·dificuldade de Lula com regras fixas·experiências passadas em debates
  • Precedentes históricos de recusa a debates eleitoraisLula em 2006 contra Alckmin·Fernando Henrique Cardoso em 1998·impacto da ausência nos debates
  • Lula busca controlar a narrativa com entrevista em podcastentrevista em podcast de grande audiência·ocupar o horário do debate·controlar a própria narrativa
Transcrição11 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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MCMaria Cristina Fernandes

Tudo é Política com Maria Cristina Fernandes.

CCarol

Maria Cristina, boa tarde.

MCMaria Cristina Fernandes

Boa tarde, Tati. Fernando, boa tarde, ouvintes.

CCarol

Boa tarde. Bom, presidente Lula, candidato à reeleição, confirmou, bateu o martelo, não vai ao debate entre os candidatos à presidência promovido pela TV Globo na noite de amanhã. E aqui eu poderia dizer, conforme adiantado pela nossa reportagem, né?

MCMaria Cristina Fernandes

Pois é, Tati. Na segunda-feira eu conversei com algumas pessoas que passaram, se reuniram com ele último do fim de semana. E lá me disseram, eu escrevi na coluna que saiu ontem no Valor, que o argumento dele, a maioria dos assessores queria que ele fosse, temia a cadeira vazia, que é o que vai acontecer, e ele sendo atacado. Mas ele disse o seguinte: olha, eu já sei como é que vai ser, vão fazer uma pergunta e eles vão passar meia hora batendo em mim, aí vou fazer mais outra pergunta, eles vão passar mais meia hora Eu vou passar mais meia hora só apanhando.

E aí os adversários teriam uma coleção de cortes contra si, contra ele, Lula, e ele ia ficar com imagem de acuado, né? Foi isso que ele disse. E no relato que eu tive ali, ele disse, eu não vou. Mas ainda se tentou ali uma Se tentaram apelos de última hora e ele fincou o pé. E por que que o presidente fez isso? Foi argumentado inclusive que em 2006 o Lula disputava contra aquele que hoje é seu vice, Geraldo Alckmin. Ele também era uma candidatura à reeleição.

E havia inclusive a perspectiva de terminar no primeiro turno aquela eleição. Só que ele não foi ao debate do primeiro turno. O Alckmin foi, quer dizer, confirmou que ia e atribui-se. E no final, no segundo turno, o Alckmin, o desempenho do Alckmin naquele segundo turno foi a única vez na história que um adversário passa para o segundo turno e tem uma votação menor do que no primeiro. Sim, o que significa isso? O que se concluiu depois é que ele ia de fato perder no primeiro turno, e a ausência dos debates foi muito explorada como uma recusa do então presidente a dar explicações sobre o seu mandato.

Mas o fato, ele ganhou aquela eleição no primeiro turno, no segundo turno, e e seguiu para o seu segundo mandato. Mas nem assim o Lula arredou o pé. Ele sabe que ele perde indo e ele perde saltando ao debate, né? O eleitor tem direito de ver seus candidatos que estão aí na cartela de de opções para presidência da República, vê este confronto de ideias e decidir a partir desse confronto de ideias, né? É um direito do eleitor e uma obrigação dos candidatos prestar favor.

Agora, prestar esses esclarecimentos. Agora, esta decisão do Lula não é apenas a primeira vez, não é a primeira vez que ele deixa de outros, em outras campanhas de outros candidatos, isso também aconteceu, né? Em 1998, Fernando Henrique Cardoso, então candidato à reeleição, disse que só participaria de debates no segundo turno. Como a eleição terminou no primeiro, ficou por isso mesmo. O que que tá pesando? Bem, a idade pesa. Vamos lembrar o antecedente do ex-presidente americano Joe Biden no debate que aconteceu em junho de 2024, nas eleições americanas, ele contra o atual presidente Donald Trump.

Lembrando que as eleições americanas são em novembro, né? Então foi um debate super antecipado. Ele tava gripado, tava demonstrando pouca energia, não obedeceu às marcações de tempo. Ele ficava fechando os olhos em busca de palavras, fazia pausas longas. Ele se atrapalhou quando ele falou do programa público lá de saúde. E aí o Trump, que sempre é muito beligerante, né, nesse dia ele tava sarcástico, mas ele ficou sob controle, deixou o Biden se enrolar nas próprias pernas.

E foi um desempenho tão desastroso que houve ainda tempo, e como que foi muito cedo, houve tempo de substituí-lo pelo vice Kamala Harris, que acabou perdendo. O Lula hoje ele tem um ano a menos do que o Biden tinha naquela disputa, né? 80 anos, Biden tinha 81. Agora, o Lula é um contador de histórias e ele também tem dificuldade, já demonstrou isso em 22, ele tem dificuldade de se adaptar a regras muito fixas de tempo e Em 22, por exemplo, ele ficou irritado com Padre Kelmo, né, aquele candidato escada do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O Bolsonaro o chamou de presidiário e ele ficou hesitante em responder. Então não foi um bom desempenho aqui. Agora, ele, Lula, tem comportamentos, digamos assim, alternados em em debates ao longo de sua carreira. Eu não sei se você e o Fernando acompanharam, porque vocês são novinhos, mas eu assisti o debate de 89, que eu já era jornalista, e ele carimbou o Paulo Maluf quando ele disse, olha, quando o Maluf fala em competência, é importante que o telespectador saiba porque ele é competente.

É porque ele compete, compete, compete e nunca ganha. Ficou na história essa frase. Mas foi naquele debate também, o último debate que a Globo fez, no que era o último grande ato do segundo turno, continua sendo, é que ele se deixou desequilibrar. Porque 2 dias antes, uma Ibope tinha trazido Lula e o então candidato Fernando Collor em empate técnico. E aí o Collor exibiu no seu horário eleitoral a mãe da filha mais velha de Lula e o acusou de tê-lo, tê-la pressionado para que abortasse.

Bem, ele assumiu a paternidade da Lúria, ele pagava pensão, e os avós da filha Lúria apoiavam o Lula. Então era uma mentira deslavada, mas ele ficou tão abalado emocionalmente Ele não quis. A campanha insistiu e ele se recusou a falar mal da mãe da sua própria filha e não quis também. A Lúria queria gravar um depoimento e ele também não deixou que isso acontecesse, só permitiu que ela ficasse ao lado dele. E ele gravou sobre um tema sem atacar a mãe dela.

A gente sabe disso porque o Paulo de Tassi, que era o marqueteiro da época, fez um livro, tá tudo lá. Lula lá e outras histórias. Então ele já tava abalado emocionalmente por essa história. E naquele dia do debate, ele fez uma viagem às 5 da manhã para Brasília, só voltou à noite, e não teve preparação nenhuma. Ele praticamente voltou, tomou banho, entrou no estúdio, não se preparou, não teve essa coisa: vão falar isso, você vai responder isso.

Nada. E aí ele ficou meio sem ação quando o Collor disse, olha, bem, o Collor é filho da elite usineira de Alagoas, disse que o Lula tinha um aparelho 3 em 1, o antigo toca-fitas, toca-disco, rádio, como ele mesmo, filho de usineiro, não possuía. E o Lula não conseguiu responder a isso. Ele tava ali sob a tensão de que o Collor trouxesse novamente essa história no debate. Então tem o acúmulo dessas histórias, sabe? Mas não é só a idade que pesa, que pesa sobre um candidato, porque eu vou trazer aqui a lembrança do ouvinte, porque essa talvez a maior parte lembre, ainda que nem todo ouvinte nosso mora no Rio de Janeiro.

Mas há 10 anos atrás, o principal adversário do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, tinha 35 anos de idade e disputava a Prefeitura do Rio. E aí no segundo bloco ele pediu para o apresentador repetir uma pergunta porque disse que tava com a pressão baixa, não tinha ouvido direito. Mas aí ele não conseguiu, ele fechou os olhos, ele fez que ia caindo. A deputada federal Xandira Feghali, que era adversária dele à época, do PCdoB, segurou e agarrou pelo braço.

E aí chamaram intervalo. Ele acabou sendo levado para o hospital, disseram que ele teve uma intoxicação alimentar. E o pai, Jair Bolsonaro, foi para cima dela, né, que comunista não põe a mão no meu filho, né. Jandira tinha segurado o filho dele para ele não cair ali no ar. E eis que o Flávio Bolsonaro ficou em quarto lugar naquela disputa. Boas memórias, hein, Maria Cristina.

CCarol

É o famoso recordar é viver, né. Maria Cristina, agora, além de decidir não participar do debate, Lula fechou a entrevista? Ele deve falar nessa, nesse mesmo horário ou não?

MCMaria Cristina Fernandes

Pois é, Tati, a informação que a gente tinha era que ele daria uma entrevista para um podcast de grande audiência. Esta informação eu procurei confirmar e ainda não a tenho, mas essa era a expectativa que se tinha é que ele fizesse essa, desse essa entrevista para não ficar fora e de alguma maneira ocupar ali o horário com o que ele quiser, né?

CCarol

Porque aí de alguma maneira ele controla a narrativa dele também, né?

MCMaria Cristina Fernandes

Exatamente.

CCarol

Muito bem. Maria Cristina Fernandes conosco diariamente em Tudo é Política. Obrigada, Maria Cristina, um beijo para você, até amanhã.