‘50 Debates para o Brasil’: uso medicinal da cannabis deve ser ampliado ou restrito a tratamentos específicos?
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André Malbergier
Pedro Braga
- Doenças e sintomas onde a cannabis medicinal pode ajudardoenças neurológicas neurodegenerativas·dor crônica e neuropática·autismo em todos os graus·pacientes com câncer em quimioterapia·epilepsias refratárias e raras
- Confusão entre uso recreativo e medicinal da cannabisusuários jovens justificam uso abusivo·problemas psicossociais pelo uso recreativo·analogia com morfina e heroína·separar indicação terapêutica de uso recreativo
- Riscos psiquiátricos e efeitos colaterais da cannabis medicinalTHC e contraindicação para psicose·história individual e familiar de psicose·começar com pouca dose e aumentar devagar·produtos isolados de CBD sem risco psicótico·segurança dos canabinoides a curto prazo
- Evidências científicas e o uso medicinal da cannabisevidências limitadas para muitas doenças·evidência sólida para epilepsias refratárias·evidência em construção para dor·evidência boa para tratamentos oncológicos·centenas de ensaios clínicos acontecendo
- Regulamentação e acesso à cannabis medicinal no Brasilprodução nacional regulada·controle para evitar desvio de finalidade·acesso a substâncias controladas com prescrição·evitar a informalidade no acesso·automedicação deve ser evitada
50 debates para o Brasil. Hoje na série 50 debates para o Brasil vamos falar sobre o uso medicinal da cannabis. O acesso a derivados da cannabis sativa para fins terapêuticos deve ser ampliado com produção nacional regulada? Ou restrito a medicamentos específicos aprovados e com controle para evitar o desvio de finalidade? Para discutir o tema, nós convidamos Dr. Pedro Braga, médico de família, mestre em saúde pública e coordenador médico da Associação de Apoio à Pesquisa e a Pacientes de Cannabis Medicinal, e o Dr.
André Malbergier, professor colaborador médico do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. E gerente médico do Instituto Perdizes do Hospital das Clínicas. Doutor Pedro Braga, muito obrigado pela sua gentileza ter aceitado o nosso convite. Bom dia.
Bom dia, Milton. Bom dia, Cássia. Bom dia, André. Eu que agradeço o convite, um prazer participar aqui com vocês.
Obrigado. Doutor Maubergier, muito obrigado pela sua gentileza ter aceitado participar desse debate. Um bom dia.
Bom dia, Milton. Bom dia, Cássia. Bom dia, Pedro. Prazer é meu.
E conforme nós combinamos, serão feitas duas perguntas por Cássia e por mim para cada um de vocês, e vocês terão até 2 minutos para responder cada uma destas perguntas. Começo com o Dr. Braga. Dr. Braga, em quais doenças e sintomas há evidências mais consistentes de que os derivados da cannabis podem ajudar? E como é que o paciente e o médico avaliam se o tratamento está funcionando?
Bom, a gente tem hoje em dia uma enorme gama de doenças que a gente usa medicamentos à base de cannabis como adjuvante, principalmente. A gente não tem evidência muito sólida de que os derivados da cannabis sejam primeiras opções de tratamento para grande parte das coisas que a gente usa. Isso é uma, precisa pontuar a discussão desde o início, porque existe uma confusão entre o que a gente espera desses tratamentos, né? Muitas pessoas usam essas medicações como uma espécie de uma panaceia, como se servisse para tudo e para qualquer coisa, e não é bem assim.
No entanto, a gente vê que são ferramentas que podem ajudar a melhora de qualidade de vida para muitas doenças diferentes. Eu acho que o nascimento do entendimento dessas intervenções como potenciais benéficos nasce muito da neurologia. As doenças neurológicas neurodegenerativas saem ali, eu acho, como a mãe, né, a mãe de estudo ali dentro dos canabinoides. Depois disso vai aumentando para algumas outras doenças. Então assim, dor crônica, autismo, né, em todos os seus graus de complexidade, doenças de ordem neurodegenerativa, tanto as neuroinflamatórias quanto, né, de ordens, mas as neuropatias periféricas, demências, né, paciente com câncer em quimioterapia, por exemplo, com dificuldade de se alimentar, com dificuldade de ganhar peso.
Então é uma gama bem ampla de doenças, na verdade. Então o pacote completo ali daquilo que a gente pode acessar, né, para gerar benefício é bem extenso. No entanto, as evidências ainda são bem limitadas, né. Quando a gente vai olhar para o que a gente tem de evidência sólida, a gente vai falar de algumas doenças de ordem epileptiforme, ou seja, epilepsias refratárias e mais raras. E aí para essa a gente tem uma evidência mais sólida.
Pra dor, a gente tem uma evidência se construindo, né, e dor de origem principalmente neuropática. E pros tratamentos oncológicos, a evidência também é boa, né, principalmente como adjuvante ali pra evitar efeitos colaterais de quimioterapia. No mais, a gente ainda tem muita evidência em construção, né, a gente tem centenas de ensaios clínicos acontecendo no mundo nos tempos de hoje, mas a gente já tem uma evidência empírica muito larga, que eu acho que é onde a gente merece depositar atenção, inclusive pra desenhar melhor ensaios clínicos que venham à frente.
Então, o fato é que as pessoas estão usando, né, estão usando privada de maconha, seja por via formal com receita médica, seja por via informal, né? As pessoas têm acesso, a maconha tá aí na sociedade e as pessoas conseguem acessá-la de um jeito ou de outro. É a discussão de hoje, né, com a regulamentação que tá para chegar, é se a gente quer, né, dar um acesso a substâncias controladas com prescrição médica, né, com organização, ou se a gente vai deixar as pessoas na informalidade.
É isso, para a gente dividir melhor aqui o tempo, imagina. Repasso agora a pergunta aqui para o Dr. Maubergé. O senhor considera que as evidências ainda não justificam ampliar o uso medicinal da cannabis?
Então, as evidências, como o Dr. Pedro falou, eu acho que elas são consistentes para algumas indicações médicas. Eu acho que a grande questão é que eu acho que esse tema ele se tornou muito polêmico à medida também que se misturou o chamado uso recreativo com o uso medicinal. Então eu trabalho com pessoas que são dependentes de drogas, então a gente tem visto muitos usuários jovens e que trazem ou eles acabam, vamos dizer, se apropriando do conceito do uso medicinal e justificam um uso recreativo muitas vezes abusivo, ou seja, as pessoas usam de manhã, de tarde, de noite, começam a ter problemas de ordem principalmente psicossociais, né, têm dificuldade de frequentar a escola ou a faculdade ou o seu trabalho e de alguma forma dizem que estão usando de uma maneira medicinal, né.
Então eu acho que esse é um grande alerta que a gente tem que fazer para a sociedade. Eu acho que a cannabis é uma droga muito interessante, né, a cannabis agora eu tô falando no sentido terapêutico, Ele é um medicamento muito interessante porque a gente sabe hoje que os chamados, o chamado sistema endocannabinoide, ou seja, os receptores para receber os canabinoides, eles estão localizados em áreas bastante interessantes no nosso cérebro.
E como o Dr. Pedro falou, eu tenho um potencial terapêutico enorme. Ainda falta uma consistência em relação a pesquisas, mas a gente tem sim Desde que a gente saiba separar o que é uma indicação terapêutica do que é um uso recreativo. Então eu acho que nesse sentido às vezes a gente faz uma analogia meio exagerada com a morfina. A papoula oferece ao mesmo tempo a heroína e ao mesmo tempo ela oferece a morfina, o oxicodona, as drogas que ajudam no combate à dor. Então eu não posso misturar esses dois conceitos.
E agora, Doutor Pedro, gostaria de saber mais a respeito de como lidar com a cannabis medicinal do ponto de vista dos possíveis efeitos colaterais e dos riscos psiquiátricos para alguns pacientes que podem existir e podem ser desconhecidos, e a pessoa pode acabar conhecendo esses riscos apenas quando faz uso da substância. Como lidar com essas questões?
Perfeito. Essa é uma pergunta muito comum, inclusive pelos próprios pacientes, né? A gente sabe que o THC especificamente, um dos compostos da cannabis, ele tem ali, né, um, ele pode configurar uma contraindicação, talvez a única contraindicação grave dentre os efeitos colaterais, né, possíveis ali que a gente pode encontrar. Então todos os pacientes que têm alguma questão esquizofreniforme, alguma questão psicótica envolvida na tua história individual ou envolvido na história de parente de primeiro grau, por exemplo, paciente que tem vários parentes próximos com esquizofrenia, com bipolaridade psicótica, outros diagnósticos que, né, façam caminho em direção à psicose, a gente precisa pisar em ovos com muito cuidado para usar THC especificamente.
E esse risco existe. A gente vai tentar mitigar colhendo a história bem feita, né, uma boa coleta de história com uma boa coleta de uma história social também e familiar. Ainda assim, a gente não consegue garantir que essa pessoa não pode, né, eventualmente enfrentar algum efeito colateral mais importante. É uma regra que é importante a gente lembrar, que quando a gente decidir começar uma medicação, né, à base de cannabis que tenha THC, é começar com pouco e aumentar devagar, né?
E, né, salvando essas restrições que, se existirem na história da pessoa individualmente, podem configurar talvez a única contraindicação absoluta para que uma pessoa use um produto de cannabis que tenha, né, THC em quantidades mais altas. Existem produtos que essas pessoas podem acessar, por exemplo, como produtos isolados de CBD, que não vão ali trazer esse risco. Mas isso é talvez ali o maior sinal de alarme que a gente precisa olhar para trabalhar com produtos à base de cuidados, assim, mora aí o maior cuidado que a gente tem quando a gente vai, que a gente deve ter quando a gente vai prescrever esses derivados, tá? Mas é possível a gente trabalhar com segurança sendo bem cuidadoso.
Professor André, quero te ouvir também a respeito dessa questão, né, dos efeitos colaterais, dos riscos psiquiátricos. O Dr. Pedro lembrou até da questão dos remédios que tem, ou das substâncias que tem, o CBD isolado. Isso seria uma alternativa Porém, nós sabemos também que existem riscos ligados a cultivo caseiro, a extração caseira, e que aí as pessoas estariam mais expostas a todos os componentes da cannabis, inclusive aqueles que podem ser deletérios para algumas pessoas.
Sim, eu acho que esse é um ponto, né, à medida que a gente vem trabalhando com os canabinoides, né, de uma maneira terapêutica, A gente tem percebido que eles são bastante seguros assim, né? A gente acabou de fazer um estudo aqui com canabinoides para dependentes de cocaína, né? Ou seja, são pacientes extremamente difíceis no sentido de uso de drogas e com às vezes comorbidades, ou seja, doenças clínicas. E a taxa de efeitos colaterais foi muito baixa, no máximo uma sonolência, uma sedação e uma pessoa que teve algum problema intestinal.
Então eu acho que a segurança dos canabinoides no sentido de curto prazo, eu acho que ela é bem estabelecida. É claro que você tem que pensar que na indicação existem fórmulas onde existe uma quantidade maior de THC, que eu acho que a gente tem que cuidar para que, principalmente em pessoas jovens, que isso não venha a ser um risco de dependência. Então, acho que tomadas essas precauções, vamos dizer assim, É uma droga bastante segura, né?
É claro que a gente tem que ter esse cuidado. Muitas vezes o CBD isolado, como a gente tava falando, ele pode ter algumas questões ligadas a fígado, principalmente se a gente considerar o CBD hoje como algumas pessoas já falam, como um suplemento alimentar, né? Muitas vezes, até nos Estados Unidos, muitas vezes o CBD já tá sendo vendido como suplemento alimentar, só que aí você não tem controle sobre essa prescrição. De quantas pessoas vão usar, de qual a dose que ela vai tomar e se ela tem uma indicação real.
Então assim, parece ser uma droga segura quando bem orientada, né, com uso parcimonioso, com o médico acompanhando. Como qualquer remédio, essa automedicação ela deve ser bastante cuidada, assim, deve ser evitada na verdade, né.
Doutor André Maubergier, Doutor Pedro Braga, muito obrigado pela presença de vocês aqui nesse debate, por trazerem argumentos para que as pessoas também possam desenvolver o seu próprio pensamento crítico sobre este assunto também. Muito obrigado, um bom dia, até uma próxima oportunidade. Eu lembro a você que esse debate completo fica à sua disposição no canal da CBN no YouTube, já vai recortado para lá. Você pode compartilhar com outras pessoas se quiser ampliar ainda mais essa discussão.
Nós nos propusemos a 50 debates. Este é o número 48, faltam mais 2 e contamos sempre com a sua audiência nos próximos dias, amanhã e na sexta-feira ainda.
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