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Na ONU, Lula diz que 'Brasil não cabe no quintal de ninguém'

22 de setembro de 202624min
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O presidente Lula abre os discursos de líderes na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (22). O evento acontece em Nova York, nos Estados Unidos. Ouça o discurso completo.

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Participantes neste episódio1
L

Lula

EntrevistadoPresidente
Assuntos8
  • A crítica de Lula à falha da ONU em evitar guerras e sua baixa credibilidadeindignação com a falha da ONU·credibilidade da ONU em baixa·imobilismo do Conselho de Segurança
  • A posição do Brasil contra a ingerência externa e o neocolonialismoBrasil não cabe no quintal de ninguém·ingerência externa em processos eleitorais·divisão do mundo em zonas de influência
  • A defesa da democracia brasileira contra inimigos internos e externospleito transparente e competitivo·redes de desinformação·sistema eleitoral moderno e robusto
  • A crise de liderança global e o aumento de conflitos armados no mundomaior número de conflitos desde a Segunda Guerra·trilhões de dólares em corrida armamentista·tensões geopolíticas ameaçam conflitos globais
  • A defesa da diplomacia como única opção para a guerra entre Rússia e Ucrâniaguerra se arrasta há 5 anos·não haverá vencedores no campo de batalha·Grupo de Amigos da Paz
  • O compromisso do Brasil com o desenvolvimento sustentável e a redução do desmatamentocrescimento econômico com redução de emissões·autossuficiência em petróleo·redução do desmatamento na Amazônia
  • O combate ao crime organizado no Brasil e a cooperação internacionalenfrentamento às organizações criminosas·cooperação para estancar fluxo de armas·Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia
  • A necessidade de regulamentação das big techs e da inteligência artificialrevolução tecnológica sem precedentes·neoliberalismo digital sem regras·corrida sem freios éticos
Transcrição3 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Estamos na Rede CBN agora acompanhando o discurso do presidente Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU. Vamos ouvi-lo.

LLula

Dirijo-me em particular ao secretário-geral das Nações Unidas. Ao longo de seus dois mandatos, António Guterres foi testemunha direta dos crescentes desmandos da superpotência. Seu presidente, Essa é a décima ocasião em que abro o debate geral desta Assembleia. Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas. O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas.

A de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército nem arsenais, nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto.

Esse vício deu origem da Carta da ONU, conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez. A esse pecado original Soma-se agora uma profunda crise de liderança. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de proporções globais. Os que têm, os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência.

Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir. Não desconheço a realidade do poder, mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites. Isto não é idealismo, é o mais puro realismo. A guerra não é a continuação da política por outros meios, é a falência total da política. No mundo interdependente, liderar é conciliar interesse da pátria com o da humanidade. Essa é a constatação de alguém que representa uma nação amante da paz e da liberdade.

Alguém que lutou contra uma ditadura militar e defendeu o seu país contra um golpe de Estado. É a convicção de um operário eleito 3 vezes presidente e que retirou o Brasil do mapa da fome. Esta Assembleia corrigiu recentemente distorções históricas, reconheceu o tráfico de escravos, reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. Aprovou a representação, aprovou a representação mais precisa do mapamundi.

Agora deve se debruçar sobre temas determinantes para o futuro da humanidade. Somos chamados a optar entre o multilateralismo e o unilateralismo, democracia ou extremismo, soberania ou subordinação. Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Então, o que se espera de um estadista? Yasser Arafat e Rabin foram estadistas. Desafiar o passado para projetar um futuro de paz. Foram derrotados pelo ódio.

Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixado pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas. Perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes é um estímulo para que estes crimes fiquem impunes. A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser silenciada por dizer a verdade.

Os assentamentos ilegais na Cisjordânia tornam cada vez menos viável a solução de dois estados, essencial para que israelenses e palestinos possam viver em paz. Ameaçar civilização em extinção não trará estabilidade para o Oriente Médio. O Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional. Famílias em todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia se arrasta há 5 anos em um drama humanitário que continua a ceifar vidas. Todos sabemos que não haverá vencedores no campo de batalha. A diplomacia é a única opção. Iniciativas como o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil e China, revelam que a força na comunidade internacional dispostas a trabalhar pelo diálogo. Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas.

O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos, precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomenta o desenvolvimento. Diferença ideológica não deve ser obstáculo para maior integração entre vizinhos. Os países da região reconheceram os horrores do regime de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular. A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais.

A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constitui gestos anacrônicos. O povo venezuelano merece definir o seu próprio destino. A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições. A crise no Haiti continua a testar os limites da indiferença da comunidade internacional. Em Cuba, o mundo assiste estarrecido a punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais.

Senhor presidente, o Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. Trabalhadores são roubados, mães perdem seus filhos, policiais não voltam para suas casas. As pessoas estão cansadas da violência, mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo.

Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos. Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior. Por muito tempo, os estados brasileiros atuaram cada um à sua maneira. O crime se aproveitou da falta de coordenação, mas isso está mudando.

Criamos em Manaus, no Amazonas, o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, reunindo autoridades de segurança pública dos 9 países amazônicos. Em 2025, realizamos a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil. Batemos recorde de apreensão de drogas e de bens e recursos ilícitos. Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime. A lei antifacção que acabamos de aprovar impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o terrorismo.

Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável. Doa a quem doer, ninguém está acima da lei. Senhoras e senhores, os pilares do multilateralismo estão sendo corroídos. A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos. Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como arma de coerção, e chantagem, as consequências são nefastas. Na era da desinformação, os obscurantistas resistem às evidências da ciência.

Nunca esqueceremos das milhões de vidas perdidas pelo descaso no enfrentamento da COVID-19. Campanhas contra vacinas estão trazendo de volta doenças que julgávamos erradicadas. Enfraquecer a Organização Mundial da Saúde torna todos mais vulneráveis. Até pouco tempo, a resposta à mudança do clima estava consolidada no centro da agenda internacional. Este ano, o tema desapareceu dos debates do G7, dos debates do G20, fóruns que reúnem os maiores emissores de carbono do mundo.

É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao negacionismo. A natureza nos recorda a cada dia que o planeta é um só. As geleiras do Himalaia estão derretendo. Um super El Niño pode provocar chuvas torrenciais, secas, incêndios florestais em diferentes partes do globo. Seus efeitos golpearão sobretudo os mais vulneráveis. O Brasil vem demonstrando que é possível aliar crescimento econômico com redução de emissões. Conquistamos nossa autossuficiência em petróleo e seguiremos pesquisando o potencial de novas reservas como a da Margem Equatorial.

Não renunciaremos à agenda ambiental. Levaremos adiante o mapa do caminho para descarbonização da economia brasileira. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30 em Belém, mostra que é possível mudar antigos paradigmas. A floresta vale mais de pé do que destruída. Continuaremos reduzindo o desmatamento, que caiu pela metade na Amazônia e atingiu o menor desmatamento em nível de 11 anos. Temos autoridade moral para rejeitar medidas protecionistas disfarçadas de apego à causa ambiental.

O Brasil é referência mundial em energia verde. Temos os minerais críticos e as terras raras de que o mundo precisa para realizar a transição energética. Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro e é em benefício dele que serão exploradas. O acesso aos nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais.

Senhor presidente, Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com grandes riscos e oportunidades. Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da inteligência artificial. Um punhado de técnico-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital sem regras nem transparência. Estão promovendo uma corrida sem freios éticos, à revelia da ONU e do painel científico sobre inteligência artificial.

Como adverte o Papa Leão 14, as decisões sobre tecnologia nunca devem ser separadas da consciência e da responsabilidade. Empresas que conhecem os riscos de seus produtos transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos. A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro. Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo milhões de lares. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio.

Aprovamos uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger crianças adolescentes e mulheres no ambiente digital. Vamos assegurar ajuda à remuneração de artistas, músicos e criadores de conteúdo audiovisual. Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros e brasileiras.

Senhoras e senhores, os objetivos de desenvolvimento sustentável são alvo de ataques de forças reacionárias que desejam naturalizar injustiça. A desigualdade, o subdesenvolvimento resultam de escolhas políticas. É possível colocar pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem a sua parte. É necessário cortar o privilégio E investirei em educação e saúde gratuitas e de qualidade. Existe em todo mundo um anseio legítimo por mudanças, mas mudar não é retroceder, mudar não é subtrair direitos, não é reeditar teoria de supremacia racial ou de submissão feminina, não é recolonizar o sul global.

Mudar é avançar para um futuro de mais participação e mais socialistas. É criar e compartilhar soluções públicas efetivas para os desafios do desenvolvimento por meio de um Estado democrático, forte, eficiente e capaz. É apostar no espírito de solidariedade e na cooperação com a África, a Ásia e América Latina e Caribe. Iniciativas como Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza e o Painel Internacional sobre Desigualdade nascem dessa vontade política.

O Brasil tem pressa de se tornar uma nação desenvolvida e socialmente justa. Adotamos um modelo econômico que se assenta na distribuição de renda, na geração de empregos e na valorização do salário. Apostamos na melhoria da produtividade, na ampliação do crédito e na construção de uma rede robusta de proteção social. O Brasil voltou a crescer de modo sustentado. Somos o terceiro maior destino de investimento estrangeiro direto.

Apesar do tarifação contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações. Ainda há muito a ser feito. O mundo do trabalho está em transformação. Pessoas idosas querem permanecer ativas, jovens desejam empreender, o trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família. No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da chamada escala 6 por 1, para garantir ao trabalhador 2 dias livres por semana.

Esta mudança é fundamental para aliviar a sobrecarga doméstica que ainda recai sobre as mulheres. Estamos construindo um Brasil onde as mulheres não precisam pedir licença para ocupar espaços de poder ou se inserir no mercado de trabalho. Um país livre do feminicídio, onde nenhuma mulher, dentro ou fora de casa, onde nenhuma mulher, dentro ou fora de casa, viva sob ameaça da violência. Esta é uma causa que o mundo precisa, e o mundo todo precisa abraçar.

Senhor presidente, ao receber o Nobel da Paz, Martin Luther King afirmou, abre aspas: Aquilo que pessoas voltadas para si mesmas destruíram, outras pessoas voltadas para o próximo podem reconstruir. Fecha aspas. A ONU nasceu sob o signo da esperança. Ao longo de 8 décadas, contribuiu com a descolonização, descolonização, promoveu os direitos humanos e apoiou o desenvolvimento sustentável, protegeu imigrantes e refugiados. Condenou o racismo, o antissemitismo e a intolerância religiosa.

Essas foram conquistas de lideranças que ocuparam este cargo, este pódio, movidos pela indignação diante das injustiças de seu tempo. Homens e mulheres que se recusaram a aceitar a guerra como destino, o colonialismo como direito, o apartheid como sistema legítimo. Foi desta capacidade de dizer não às desigualdades que nasceram algumas das maiores transformações que vivemos. Diante da paralisia das Nações Unidas, precisamos reencontrar a vontade política para que volte a ser o templo da paz.

Quero concluir com uma mensagem sobre o meu país. A todos os que nos ouvem, no dia 4 de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo, se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão.

Teremos um pleito transparente e competitivo, que em todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão. Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país. Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha, mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto. Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular.

A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém, ninguém nos afastará desse caminho. Que Deus nos abençoe a todos e muito obrigado.

?Voz A

Fala do presidente Lula no discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU em Nova York. O presidente brasileiro é o primeiro a discursar na Assembleia, como manda a tradição, um discurso de mais ou menos uns 20 minutos por aí, que já foi aberto pelo presidente Lula com críticas ao Conselho de Segurança da ONU. Abre aspas: essa é a décima ocasião em que abro o debate geral dessa Assembleia. Este é o momento mais crítico das Nações Unidas.

O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas. De livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa, fecha aspas. Lula criticou o imobilismo do Conselho de Segurança, que não cumpre este papel, de acordo com ele. Presidente cobrou uma atuação mais efetiva das Nações Unidas na prevenção e na solução de conflitos durante esse discurso de abertura.

Neste momento, quem fala daqui a pouquinho no no Conselho de Segurança, ou melhor dizendo, né, na abertura dessa Assembleia Geral, é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que foi citado no discurso do presidente Lula. Lula falou sobre as guerras, falou sobre soluções importantes, citou Palestina, falou em genocídio praticado por Netanyahu, falou em civis israelenses pagarem pelo radicalismo e a intolerância do grupo terrorista Hamas.

E falou em solução de dois estados, assim como o próprio secretário da ONU, secretário-geral da ONU, António Guterres.