Lula tenta 'virar o disco' e 'recolocar o debate eleitoral' durante discurso na ONU
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- O discurso de Lula na ONU e a crítica ao Conselho de Segurançadefesa do multilateralismo·perda de relevância da ONU·reféns de um Conselho de Segurança·crítica a intervenções militares
- Lula usa a ONU para reposicionar o debate eleitoral brasileiroBrasil não cabe no quintal de ninguém·disputa entre democracia e extremismo·adversário como ameaça ao regime·tentativa de virar o disco
- A homenagem a Zuenir Ventura e seu legado no jornalismocolega de página no O Globo·amor pela cidade do Rio·livro Cidade Partida·jornalista não é notícia
- A estratégia de Lula de acusar interferência externa na eleiçãodemocracia versus negacionismo·ameaça à democracia no mundo·ingerência externa em processos eleitorais·acusar americanos de interferir
Conversa de Bastidor com Bernardo Melo Franco.
Bernardo com a gente aqui no estúdio em São Paulo. Bernardo, boa tarde, tudo bem?
Boa tarde, Sardenberg. Boa tarde, Cássia. É um prazer estar aqui pela primeira vez nesse estúdio da CBN.
É verdade, pela primeira vez ao vivo, in loco, né, no nosso estúdio.
Demorou. Boa tarde, Bernardo. Você trabalhou com Zuenir Ventura?
Olha, Sardenberg, eu não tive a oportunidade de trabalhar na mesma redação fisicamente, mas eu fui colega de página dele na página 3 do jornal O Globo e tive uma correspondência com Zuenir muito frequente por email e também o encontrava bastante em eventos, enfim. Coisas no Rio, né? Ele compartilhava comigo o amor pela cidade, né? Ele foi um grande cronista do Rio de Janeiro, além de um grande jornalista de cultura, um grande jornalista que cobriu todos os assuntos.
Ele também foi um grande cronista da cidade, como a Miriam lembrou, não só da cidade que sai no cartão postal, mas da cidade partida, né? Eu fiquei muito marcado ainda estudante, ainda na escola, pela leitura do livro Cidade Partida, que é o livro dos anos 90, pro qual o Zuenir passou um grande tempo ali visitando diariamente favela, vendo como é que os movimentos comunitários se articulavam depois de um período que o Rio ficou marcado por chacinas, né, por crimes, enfim, bárbaros cometidos por forças de segurança do Estado.
E o Zuenir foi ver quem eram aquelas pessoas no momento em que a imprensa dava pouca voz às vítimas desse tipo de situação. E eu separei aqui para ler rapidinho um trecho de um livro dele chamado Minhas Histórias dos Outros. Esse livro acho que diz muito sobre quem era o Zuenir, né? Ele era uma pessoa muito simples no teatro, muito humilde para o tamanho que ele tinha na nossa profissão e até no cenário geral do Brasil. E ele escreveu um livro de memórias onde ele não era o protagonista, ele era aquele que contava as histórias dos outros, daí esse título.
E ele tem uma frase ali que eu acho que serve como ensinamento para nós no momento que às vezes as pessoas confundem o papel do jornalista, acha que o jornalista é notícia, né? E o nosso papel é outro, é dar a notícia e estar com as pessoas que são notícia. E ele dizia o seguinte: não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou condenar. Viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos promotores, somos jornalistas.
Somos testemunhas do nosso tempo, uma testemunha crítica, não necessariamente de oposição, mas implacavelmente crítica. Acho que serve um pouco como farol para gente num dia triste que nossa profissão perde um dos maiores.
Gostei desse final, não necessariamente de oposição, mas sempre muito crítico, né? É isso que é o ideal de jornalismo que a gente deve seguir. Bom, ainda temos tempo. Queria uma palavra sua sobre o discurso do Lula na ONU. Teve questões nacionais eleitorais e questões internacionais.
Pois é, Sardenberg, começando pelas internacionais, que foram as questões que abriram o discurso, o Lula repetiu algo que ele vem falando há bastante tempo e que é a linha tradicional da diplomacia brasileira, da defesa do multilateralismo, quer dizer, das soluções negociadas e da participação de todos os países, especialmente os países em desenvolvimento, que é o nosso caso. Então ele volta a criticar a perda de relevância da ONU, ele diz que todos hoje somos reféns de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel.
E ele critica as intervenções militares apoiadas por superpotências, citando ali nominalmente o caso da guerra da Ucrânia e o caso do conflito Israel-Palestina. Agora, me parece que o ponto principal para nós aqui, claro que é o ponto em que ele fala do Brasil. E aí o presidente Lula foi com um discurso muito ensaiado ali, muito pensado, de dizer que o Brasil não cabe no quintal de ninguém. E de tentar circunscrever ou retratar a eleição presidencial de daqui a 2 semanas como não só uma disputa entre esquerda e direita, mas também uma disputa entre democracia e extremismo.
Ele, claro, se colocando no lugar da democracia e passando a imagem de que o adversário principal dele, Flávio Bolsonaro, representaria uma ameaça a esse regime político, ao regime das liberdades. O Lula tentou passar essa esse enquadramento da eleição brasileira para a comunidade internacional. Então ele diz que os brasileiros não vão só eleger um presidente, vão decidir entre democracia e negacionismo, e fala sobre interferência externa na campanha.
Me pareceu ali, Sardenberg, que ele usou esse discurso na ONU para tentar virar o disco, mudar o assunto da eleição brasileira, que nas últimas semanas foi muito capturada, óbvio, pela crise no Supremo Tribunal Federal. Não poderia ser diferente. E ele tenta recolocar o debate eleitoral em cima da discussão da soberania e da resistência à tentativa de interferência americana. Esse é o discurso do Lula, foi a mensagem que ele tentou passar na ONU.
A ver como é que isso repercute aqui. Lembrando que é tradicional é que os presidentes que disputam a reeleição acabem usando esse palanque, essa tribuna da ONU, como espécie de um palanque, né? Assembleia Geral é sempre em setembro, ela coincide com a reta final das eleições. Foi feito isso pelo Bolsonaro, foi feito pela Dilma, tá sendo feito novamente pelo Lula agora.
Tá certo. Ele usou a expressão: é uma eleição, a democracia versus o negacionismo, né?
A democracia versus o negacionismo. E antes ele falou também sobre o extremismo e sobre a ameaça à democracia no mundo todo, né? Ele fala que a democracia está novamente em xeque e que voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. Então, se no ano passado a ideia era se reaproximar do Trump, né, dizer que rolou uma química, né, que eles ficaram amigos, agora não. Agora é demarcar posição, acusar os americanos de tentar interferir a favor do adversário dele, do Flávio Bolsonaro, e se colocar para o eleitor e para a comunidade internacional como aquele que vai defender a soberania do Brasil.
Foi esse um pouco o contorno desse discurso, né. Ele termina dizendo que o Brasil continuará a ser um país soberano. Mas dando a entender que se ele perder a eleição pode ser diferente.
Presta aqui, sabe, Cássia, que o Bernardo é um jornalista moderno.
Entretanto, olha como é que ele trabalha, ó, no bloquinho.
Eu não saio de casa sem bloquinho e canetinha aqui, ó.
Olha aí, bloquinho de nota.
Cuidado com o que você tá mostrando aí nessas notas, hein?
E é aquele bloquinho, esse bloquinho aqui que os ouvintes estão vendo aqui pela nossa nas nossas imagens. Esse bloquinho é uma coisa mais típica do jornalismo, é sem pauta, um bloquinho que cabe no bolso do paletó e que dá para—
que tem aquela capa mais firme que sustenta as páginas e você consegue anotar mesmo sem ter um suporte.
E é papel de rotativa, né? O papel que sobra da impressão do jornal, eles botam aí uma espiralzinha e distribuem para gente.
Bernardo Mano Franco, muitíssimo obrigado, Bernardo, e até a próxima.
Obrigado a vocês, prazer estar aqui.
Até mais, Bernardo.