Interferência dos EUA e crise no STF expõem vulnerabilidade do Brasil na reta final da eleição, diz analista
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Nadege
João Paulo Charleaux
- A interferência eleitoral dos Estados Unidos no Brasil é um evento bastante novopressão americana sobre o processo eleitoral·foto de Donald Trump com Flávio Bolsonaro·taxações contra o Brasil como propaganda política·classificação de cartéis como narcoterroristas
- A vulnerabilidade institucional brasileira é exposta pela pressão americana e crise no STFfragilidade institucional brasileira·crise no Supremo Tribunal Federal·ministro do TSE sob suspeição·declarações perturbadoras de Gilmar Mendes
- A minuta americana com demandas para eleições livres trata o Brasil como governo autoritárioexigência de compromisso para eleições livres·não limitar participação de dissidentes políticos·pressão para Bolsonaro concorrer·risco de não reconhecimento do resultado eleitoral
- A interferência americana é uma faca de dois gumes para a política brasileiragalvaniza discurso patriótico de Lula·Lula recupera discurso nacionalista·política de morde-assopra dos EUA·vantagens comerciais como objetivo principal
- A Estratégia de Defesa Nacional Americana de 2025 revela a visão dos EUA para a América Latinadocumento oficial americano·menções à Doutrina Monroe·América Latina como quintal americano·acesso econômico como prioridade
- Eduardo Bolsonaro planeja assumir o Itamaraty em caso de vitória de Flávio Bolsonarointenção de assumir o governo·aproximação incondicional com os Estados Unidos·credenciais para cumprir o papel·projeto de interesse nacional
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Revista CBN Brasil e Mundo, porque a gente fala agora sobre indícios, acho que já evidências de porções intervencionistas dos Estados Unidos na nossa política, no nosso processo eleitoral, e ainda sobre a crise no Supremo Tribunal Federal, que é o grande assunto do noticiário, da campanha, de tudo. Nas últimas semanas. Com a gente aqui no estúdio da CBN, ao nosso lado, jornalista, escritor e analista político João Paulo Charlot. Muito bem-vindo, Charlot.
Obrigado, Nadege. Tudo bem? Obrigado pelo convite.
A gente que agradece a sua presença. A gente trouxe agora há pouco reportagem de Brasília com informações da coluna da Mônica Bergamo na Folha sobre um relatório da ABIN que, enfim, despertou algum nível de preocupação, embora o Tribunal Superior Eleitoral diga não ver sinal concreto Queria te ouvir um pouco sobre isso, se é um padrão histórico, se é uma coisa nova, se é pressão diplomática normal, se é que isso existe, ou é mesmo interferência eleitoral.
É interferência eleitoral e é um evento bastante novo. Nunca antes a gente teve uma interferência americana tão evidente, tão perturbadora na eleição americana. Quem duvida disso deve dar uma olhada no dia em que o Donald Trump publicou uma foto com o Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca. Isso nunca aconteceu, né? Um presidente americano publicar uma foto com um candidato à presidência da República, seja ele quem for.
E não só isso, como o Donald Trump escolheu publicar essa foto uma semana depois que essa foto foi feita. Então não foi um gesto tão espontâneo, foi um gesto na verdade bastante calculado, porque o dia que ele publicou foi o dia em que os Estados Unidos anunciaram novas rodadas de taxações contra o Brasil. Que foram utilizadas de maneira muito enfática pela família Bolsonaro como instrumento de propaganda política dentro do Brasil.
Então, o que a gente percebe por esse simples fato, e tem uma coleção de muitos outros fatos semelhantes, é uma intenção deliberada de alguma maneira influenciar o debate eleitoral brasileiro. Então, quando a gente fala de interferência, tem várias gradações possíveis. Simples fato de um presidente estrangeiro mencionar predileção por um candidato Já é uma interferência. Isso não é comum na relação entre os países. Os processos eleitorais são entendidos nas relações internacionais como processos domésticos, né, internos, embora os resultados tenham consequência internacional.
Mas no momento em que o país atravessa uma eleição, os demais países, os demais presidentes costumam se abster de fazer declarações. Não é que nunca tenha acontecido. O próprio presidente Lula já se manifestou sobre preferências em relação a presidentes de outros países. Mas não da forma incisiva como os Estados Unidos têm feito. Eu mencionei essa fotografia com o Flávio porque ela é muito visual, é um exemplo muito irrefutável.
Mas a gente tem uma série de outras medidas. A própria forma como a taxação sobre as exportações brasileiras vem sendo feita. Essas taxações não são exclusivas contra o Brasil, elas são feitas inclusive contra parceiros de blocos econômicos privilegiados dos quais os Estados Unidos fazem parte, por exemplo, Canadá, por exemplo, Chile. Que são parceiros mais privilegiados economicamente dos Estados Unidos do que o Brasil. Mas no Brasil a gente nota essa intenção deliberada de sobrepor as duas agendas.
Então são taxações econômicas, mas que vêm acompanhadas de um discurso muito forte de punição ao Brasil. E o terceiro elemento, eu diria que é a questão das facções criminosas. Então, embora os Estados Unidos estejam classificando cartéis de drogas latino-americanos como organizações narcoterroristas internacionais, e o Brasil nesse sentido seja parte desse grupo, aqui a atitude também vem revestida de uma intenção de interferência maior.
Quando, por exemplo, na semana passada a gente vê o presidente americano entregando ao Congresso dos Estados Unidos um documento no qual critica o atual governo brasileiro por, segundo ele, não dar combate, não enfrentar essas facções criminosas. O que primeiro não é verdade e que segundo não deveria ser um assunto dele, porque assuntos de criminalidade são da esfera doméstica. E só interferem realmente na questão americana quando dizem respeito às fronteiras americanas.
E esses grupos criminosos brasileiros, embora tenham atuação internacional, estão longe de ser os principais grupos envolvidos na exportação de drogas para os Estados Unidos. Então esse conjunto de fatos demonstra um comportamento incomum, anômalo dos Estados Unidos, que demonstram preferência por um dos candidatos, que é o Flávio Bolsonaro. Mas isso a gente pode explorar aqui na conversa. Essa interferência é uma faca de dois gumes, porque se por um lado no início ela parecia muito promissora para o Flávio Bolsonaro, em seguida o que se descobriu foi que o Lula teve uma chance muito grande de retomar para si um discurso patriótico, soberania, de soberania nacional.
O programa de governo do Lula desse ano, ele tem, salvo engano, 42 menções às palavras soberania, soberana e soberano. E isso é muito maior do que o programa da eleição passada. A ênfase da eleição passada no programa de governo era democracia, defesa da democracia. Então a gente tem um fato novo aí, e o fato de o presidente plasmar isso no seu plano de governo demonstra o quanto esse assunto se tornou preocupação. E finalmente a gente tem, eu diria, o ápice desse assunto, que é a esfera militar.
A gente tem o ministro da Defesa, José Múcio, fazendo declarações a respeito da capacidade que o Brasil teria ou não de repelir uma eventual ação militar americana. Isso também é extremamente anormal, para não dizer único na história. O Brasil e Estados Unidos têm mais de 200 anos de relações diplomáticas e nunca, que eu tenha informação, um ministro da Defesa do Brasil veio a público avaliar a capacidade que o nosso país teria de resistir a uma invasão americana.
Então você percebe por essa declaração Que é um nível de deterioração na relação muito grande, porque não é comum que um país venha publicamente avaliar que capacidade ele teria de fazer uma guerra com outro país irmão, vamos dizer assim, um país com o qual se mantém relações, né?
E a gente teve a minuta que foi entregue aos negociadores brasileiros com demandas de compromisso para fazer eleições livres em 2026, que é algo que você poderia ter feito pouco tempo atrás. Aliás, se fez na eleição da Venezuela, que era de fato uma ditadura, tanto que aí naquela ocasião a demanda não partiu só dos Estados Unidos, veio também, por exemplo, da União Europeia. Mas quando você fala que o Brasil precisa se comprometer a não limitar a participação de dissidentes políticos, em alguma medida você tá tratando o governo brasileiro como um governo autoritário, o que não é.
Exatamente. Essa expressão dissidente político, ela é usada normalmente nas relações entre os países para se referir a grupos que são perseguidos por ditaduras. Exatamente. Não é o caso do Brasil, que nós temos 3 poderes funcionando de maneira livre e autônoma, temos eleições regulares com pluralidade partidária, com liberdade de imprensa. E com liberdade de candidaturas, exceto daquelas pessoas que atentaram contra o Estado Democrático de Direito.
Então houve um grupo político brasileiro que se excedeu na luta política e que no 8 de janeiro de 2023 efetivamente protagonizou uma tentativa de reverter o resultado eleitoral, manifestamente de impedir que uma pessoa eleita, no caso era o Lula, tomasse posse. Isso para todo efeito se chama tentativa de golpe de Estado. A prisão dessas pessoas está prevista no ordenamento jurídico brasileiro, a inelegibilidade também. Então não é um governo ditatorial inventando regras individualíssimas contra pessoas, contra adversários.
Por isso não são dissidentes políticos, assim como Lula, por exemplo, quando foi preso não poderia ter sido chamado de dissidente político, muito embora depois o rumo da discussão tenha sido outro, né, e ele tenha sido libertado e tenha podido concorrer. Mas enfim, mesmo quando estava preso na Lava Jato Qualquer pessoa que chamasse o Lula de dissidente político estaria errado. Não é verdade. E não é verdade sobre o Bolsonaro. Agora, os Estados Unidos acharam por bem, na negociação com o Brasil, se referir a essas pessoas como dissidentes políticos.
E mais do que isso, colocou como condição para tirar as tarifas do Brasil a permissão para que essas pessoas pudessem concorrer. Então, dizendo de forma muito clara, os Estados Unidos pressionaram o Brasil para que Bolsonaro pudesse concorrer à eleição, e eventualmente Eduardo Bolsonaro, que também tá nos Estados Unidos, não pode concorrer a um novo mandato como deputado, qualquer outro deputado. Essa é mais uma interferência.
Agora, olhando para o futuro, Nadede, o que eu acho preocupante é que os Estados Unidos dizem que vão reconhecer o resultado da eleição brasileira se a eleição for livre e justa. Agora, se eles consideram que o Brasil tem dissidentes que foram impedidos de concorrer, um resultado eleitoral que não contempla esses chamados dissidentes vai redundar numa eleição que não será livre e justa do ponto de vista americano. Então isso aumenta o risco de que o resultado da eleição não seja reconhecido pelos Estados Unidos, que evidentemente criaria um impasse político muito grave caso o presidente Lula venha a se reeleger.
Então é uma sinalização de que lá na frente a gente pode ter problemas. Qual é a ressalva que pode ser feita sobre isso? A informação que eu tenho do Itamaraty e que conheci de cooperação de alguns colegas, é de que a inserção dessa exigência sobre dissidentes políticos foi um balão de ensaio. Não foi, vamos dizer assim, a sério, não foi para valer, não foi com tudo. Tanto assim que ela logo caiu da pauta. Então foi como se algum ator no governo americano, e a gente sabe que esse governo americano é muito loteado por pequenos grupos com seus próprios interesses, tivesse como que contrabandeado essa exigência extremamente superlativa.
E ela não tivesse durado muito. Ela caiu logo no início da conversa com o Brasil. Por isso chamam de um balão de ensaio, colocaram para ver no que vai dar. Agora, o que eu digo assim, se existem esses atores capazes de agir com essa petulância, com esse nível de interferência agora, nada impede que na posse eles também voltem a aparecer com exigências semelhantes. Então é algo que deixa um sinal de alerta piscando para nós.
Alerta é a palavra usada pelo Celso Amorim, né, que falou para ficar alerta sem ficar apavorado.
É difícil tratar desse tema sem ser alarmista. Eu tomo muito cuidado com isso porque quando a gente fala de defesa, quando a gente fala de guerra e coisas desse tipo, é normalmente um assunto muito alarmante. E quando a gente fala de uma interferência sem precedentes e tal, as pessoas tendem a achar que o Brasil pode ter o destino da Venezuela. Isso é muito comum, essa comparação. Eu sempre digo que a gente não tem a capacidade, não tem a função, não deveria ter a ambição como jornalista de prever o futuro.
Eu pelo menos não tenho essa capacidade. O que a gente pode fazer é olhar os fatos passados, distantes ou recentes, e tentar interpretar os fatos atuais à luz dessa história, né? Então assim, a existência dessa deposição e da prisão do Nicolás Maduro na Venezuela de fato é uma coisa preocupante para nós aqui no Brasil. Por quê? Porque é a primeira vez que os Estados Unidos fazem isso num país vizinho, um país que faz fronteira com o Brasil, né?
É uma interferência extremamente violenta. É a primeira vez que os Estados Unidos começam a metralhar e bombardear embarcações na região, na América Latina. Os Estados Unidos vêm apoiando, vem fazendo operações militares conjuntas na Colômbia, no Equador. Colômbia faz fronteira com o Brasil, Equador não faz, mas são países da região. Isso tudo é muito novo, isso tudo é extremamente violento, isso tudo é amplamente ilegal, porque mesmo no direito internacional não há previsão para esse tipo de ataque em países que não estão em guerra.
E quando vem somado ao tipo de inferências que são feitas sobre o Brasil, naturalmente acende esse alerta. Mas a gente tá distante de um cenário em que isso esteja sendo planejado, em vias de execução. Não tá no nosso radar. Isso figura como o pior dos temores, mas a gente não tem efetivamente sinalizações que vão por aí. O que a gente tem, inclusive, é um bom ambiente entre o Lula e o Trump. Isso é um pouco surpreendente, porque se a gente sente uma pressão muito grande do governo americano castigando a economia nacional, tomando essas atitudes invasivas sobre a classificação das facções, publicando foto com Flávio, tudo isso que eu mencionei.
Por outro lado, o último sinal que a gente tem do contato entre os dois presidentes foi muito promissor. 1 hora e 20 de conversa por telefone é bastante coisa, né? Outro sinal, mesmo depois que inseriram na negociação essa questão dos dissidentes políticos, logo em seguida os Estados Unidos suspenderam, levantaram a aplicação da Lei Magnitsky contra autoridades do Judiciário brasileiro, percebe? Então tem uma política um pouco de morde-assopra, ou de policial bom, policial ruim, no qual a pressão se alterna com um certo alívio.
E isso é parte de uma negociação que talvez no fundo nem esteja visando exclusivamente a eleição, mas vantagens comerciais. E nesse sentido, tanto faz se é um governo ou outro, se é um governo Lula ou um governo Flávio, desde que os Estados Unidos consigam ter acesso econômico ao que eles pretendem fazer aqui. Ah, como é que a gente pode saber disso? Porque isso foi feito na Venezuela. O governo venezuelano não foi trocado, eles trocaram uma pessoa.
Todo o regime venezuelano tá intacto, seguiu a linha de sucessão. Exatamente. Em vez de investir numa oposição pretensamente democrática, autodeclarada democrática, eles preferiram seguir com uma ditadura. Então não necessariamente precisa trocar o governo. O que precisa é os Estados Unidos conseguirem acesso às vantagens econômicas que eles querem, que eles pretendem. E onde tá dito isso? Da onde a gente tira isso? De um documento muito importante de novembro de 2025 chamado Estratégia de Defesa Nacional Americana.
Tem acho que 39 ou 26 páginas, nem é um documento extenso, que é mencionado pela ABIN, pela inteligência brasileira, na qual os Estados Unidos expressam de maneira muito clara, muito didática, qual é a visão para América Latina. Então não é nenhuma teoria conspiratória que eu tô dizendo, é uma intenção manifesta e plasmada no documento oficial americano disponível na internet. No qual mencionam 4 vezes a Doutrina Monroe, que é a doutrina do século 19 dos Estados Unidos que fala da proeminência americana, do imperialismo americano sobre a América Latina.
Por isso, o secretário de Estado americano Marco Rubio se refere frequentemente em entrevistas sobre a América Latina como um quintal americano, e fala isso sem muito pudor.
O fato de você ter citado guerra, você escreveu As Regras da Guerra, né? A gente tem muita coisa para discorrer sobre cenários de guerra, mas você não poderia, por exemplo, ter escrito As Regras para Intervir na Eleição do dos outros. Então é meio complicado analisar no discurso porque não tem mecanismos para isso, né?
É, aí as pessoas, os teóricos da guerra vão falar sobre guerra híbrida e outras expressões que dizem respeito a esses eventos de menor intensidade do que o conflito armado, mas que caracterizam invasão. Porque a legislação que trata de guerra, ela é fundamentalmente construída no século 19, final do século 19, a partir de 1864, e uma grande parte, claro, depois da Segunda Guerra em 45. Mas é muito fundamentada na ideia da fronteira nacional, do Estado-nação e da territorialidade.
Então a ideia da guerra é quando existe uma intrusão dentro de um território de um país, aí você tem uma situação de guerra. Então quando uma força armada estrangeira entra no seu país sem a sua autorização, isso já é uma guerra, é um conflito armado internacional, é o termo técnico, né? Então, por exemplo, Venezuela e Estados Unidos estiveram em guerra, embora as pessoas não usam essa expressão, mas o fato de helicópteros americanos terem entrado do espaço aéreo venezuelano, fato de os Estados Unidos terem matado a guarda presidencial venezuelana e capturado o presidente da Venezuela, o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, isso é uma guerra entre dois países, né?
Agora, quando essa intrusão é cibernética, por exemplo, ou por meio de declarações políticas, né, aí a gente tem um terreno mais cinzento, porque não há uma intrusão geográfica no espaço físico do país, mas existe uma perturbação da soberania, por exemplo, do processo eleitoral. Eu não chamaria de guerra. A gente pode chamar de guerra política, de guerra de, né, outras expressões leigas, né, mas do estrito senso do direito não caracteriza como uma guerra, né.
Me chamou atenção que de tudo isso que tá acontecendo, a gente tá vendo notícias sucessivas de indicação de tentativas de interferência americana. Eles ainda não tentaram usar para isso a grande crise que a gente tá vivendo agora, que é a crise do Supremo Tribunal Federal, né. E até haveria elementos no discurso para se argumentar que a democracia do Brasil tem problemas. Enfim, poderia se tentar fazer uma intervenção com base nisso e os Estados Unidos ainda não embarcaram nesse assunto.
Pois é, toda a debilidade brasileira interna institucional, todo o divisionismo dentro da sociedade de um país, no caso aqui estamos falando do Brasil, enfraquece esse país internacionalmente, né, torna ele mais vulnerável a essas interferências estrangeiras. Então evidentemente que um Supremo Tribunal Federal cindido, dividido, no qual os seus membros se atacam mutuamente, na qual metade ou mais dos membros são suspeitos de envolvimento com casos de corrupção ou com pessoas corruptas e presas.
Tudo isso enfraquece demais. Eu acho que um elemento adicional que passou a enfraquecer na semana passada e que vai se radicalizar agora é o fato de o presidente do TSE, do Tribunal Superior Eleitoral, Ministro Cássio Nunes Marques, estar aparecendo cada vez mais em informações cada vez mais numerosas que apontam para possível envolvimento dele com Daniel Vorcaro. Então, se você pensar que a autoridade máxima do processo eleitoral brasileiro tá sob suspeição, se não legal, mas pelo menos moral, essa é uma posição de vulnerabilidade numa pessoa que ocupa um cargo nevrálgico estratégico.
Eu, antes de entrar no ar, tava vendo o Twitter agora e vendo o post do Gilmar Mendes, do Ministro do Supremo, falando sobre o Tribunal Superior Eleitoral e levantando dúvidas sobre a idoneidade das pessoas que estão na Justiça Eleitoral. Isso é muito preocupante, porque isso já não tá vindo de um candidato insatisfeito com o processo ou que visa minar de alguma forma a confiabilidade na eleição, como fez a família Bolsonaro, como fez o Trump nos Estados Unidos.
Isso tá vindo de parte de um presidente do Supremo Tribunal Federal. São declarações perturbadoras que tumultuam a reta final da eleição num momento muito indesejado, em que a gente deveria estar numa situação de coesão nacional, de confiança no processo, né? De confiança numa possível alternância de poder, no sentido de que ela acontece dentro das normas, dentro das regras. Agora, se nem os brasileiros estão conseguindo ter coesão em relação a isso, o que dirá uma potência estrangeira?
E não é que os Estados Unidos não tenham tentado interferir na justiça brasileira, porque a aplicação da Lei Magnitsky contra o Ministro Alexandre de Moraes é uma interferência brutal, porque ele é um ministro legítimo que ocupa legitimamente o cargo, tomou decisões inamistosas aos amigos do Trump no Brasil, foi a condenação dos envolvidos no 8 de janeiro, e uma potência estrangeira veio tentar forçar ele, demover ele de suas decisões.
Decisões foram inclusive encaminhadas para o colegiado e referendadas pela instância máxima do Judiciário brasileiro, né? Então a gente já tem uma interferência em curso e não é nova. O que pode acontecer é que ela pode se radicalizar. Por que que ela não se radicaliza? Bom, Pelo que eu tava dizendo, os Estados Unidos também perceberam que essa interferência tem um lado negativo. Ela galvaniza o discurso patriótico soberanista do Lula, um discurso que o Lula tinha perdido, PT, as esquerdas tinham perdido pelo menos desde 2015, quando as pessoas começaram a sair às ruas com camisa da CBF para tirar Dilma Rousseff do poder.
Ali se cristalizou uma ideia de que a direita e a extrema-direita eram os únicos campos nacionalistas do Brasil, e que o outro lado era o lado vermelho, lado traidor da pátria. Agora, com essa manobra que fizeram de convidar os Estados Unidos para intervir aqui, deram de presente para o Lula a oportunidade dele, do PT e da esquerda, recuperarem parte desse discurso nacionalista e soberanista que tinham perdido. Agora, tudo isso tem um limite.
Eu conversei com José Feliciano, que é um professor de relações internacionais da USP, que costuma fazer pesquisas sobre percepção em relação à política externa. E ele dizia que qualquer interferência estrangeira costuma amalgamar apoio em torno do presidente, seja ele quem for, porque as pessoas se preocupam com interferência estrangeira. Mas que se o presidente tarda em resolver o problema, tarda em debelar essa interferência estrangeira, ele passa a ser percebido como fraco.
Então essa é uma situação que dá oportunidade para o Lula Mas que se ele não consegue se livrar dela, debelar essa ameaça, seguir em frente, ele pode passar a ser percebido também como fraco. Então nem o Lula nem o Flávio tem na interferência americana um fator decisivo em favor ou contra si. Tudo depende do tempo e da forma que acontece.
Teria mais 38 perguntas, mas acho que dá tempo de uma em um minuto, e é a que nem tava na pauta. O nosso colunista Lauro Jardim trouxe essa semana que Eduardo Bolsonaro tem dito a aliados que gostaria de assumir o Itamaraty em caso de vitória de Flávio Bolsonaro.
Quem disse?
Desculpa. Lauro Jardim trouxe que Eduardo Bolsonaro quer comandar o Itamaraty em caso de vitória do Flávio.
Ah, é natural, claro, evidente. Eu acho que a família toda planeja assumir o governo, né? Inclusive o pai. É uma intenção manifesta desse setor libertar o Jair Bolsonaro. Não tá claro ainda de que maneira poderiam fazer isso dentro da lei ou se pretendem fazer isso fora da lei, mas é evidente que é um plano da família de assumir o protagonismo político de forma completa, né, um plano familiar, eu diria. E o Eduardo, claro, nesse setor da extrema-direita, é o mais credenciado para cumprir os desígnios desse setor hoje, que são os desígnios de aproximação incondicional com os Estados Unidos, né.
Ele morando nos Estados Unidos, estabelecendo os contatos que tem estabelecido, se credencia para cumprir esse papel. Se esse papel corresponde ou não às prioridades de política externa brasileira se correspondem ou não aos desejos brasileiros de soberania, de autoafirmação, é uma questão para o eleitor decidir. O eleitor decide se esse projeto que a família Bolsonaro representa é um projeto de interesse nacional ou não. Por isso existe eleição, né?
Agora, o Flávio eventualmente vencendo a eleição, eu não tenho nenhuma dúvida de que Eduardo faria o papel que o Ernesto Araújo fez no mandato passado do Jair Bolsonaro.
João Paulo Charlot, jornalista, escritor, analista político, diariamente no UOL News. Obrigada por topar essa conversa aqui com o ouvinte da CBN hoje.
Volte sempre. Obrigado, Nadeja. Obrigado pela conversa, pelo convite.
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