'Diplomacia está sob ataque da ideologia e do partidarismo', diz ex-embaixador do Brasil nos EUA
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Bruna Barbosa
Rubens Barbosa
- Crise diplomática Brasil-EUAataque da ideologia e do partidarismo · Marco Rubio · Mauro Vieira · Lula · Washington Post · Itamaraty · suspensão dos vistos · Palácio do Planalto
- Praxe diplomática e agrémentpedido do novo embaixador · aprovação no Senado americano · governo brasileiro · Posicionamento do governo americano · demora na concessão do visto
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E nós temos a oportunidade agora de conversar com o embaixador Rubens Barbosa, que foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos, é presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior. Embaixador Rubens Barbosa, obrigado pela sua gentileza de nos atender mais uma vez aqui no Jornal da CBN. Um bom dia para o senhor.
Bom dia, muito obrigado pelo convite.
Embaixador, nós ouvimos agora mesmo as questões diplomáticas que envolvem Estados Unidos e Brasil. E um pouco antes Estados Unidos e França. A diplomacia está sob desafio nesse momento?
A diplomacia está sob ataque, né, ataque da ideologia e do partidarismo, né. Nós estamos vendo isso acontecer na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos, outros países europeus, aqui na região, né, com a Argentina, e aqui no Brasil também, né. Nós estamos com uma atuação ideológica, partidária, no momento crítico da política nacional, às vésperas da eleição. Mas eu acho que essa crise, eu acho que nesses últimos 30 dias, 40 dias, eclodiu uma crise político-diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos que vem se agravando, né?
Houve manifestações muito duras do Marco Rubio contra o Lula, contra o governo brasileiro, do Mauro Vieira chamando de grosseiras e de desarrasoadas e que o Brasil não vai se curvar diante das pressões americanas. Houve esse artigo do presidente Lula no Washington Post, muito crítico da política americana, dizendo que o Brasil não ia aceitar essa questão da área de influência que está na lei de segurança americana. Houve um incidente que você foi tratar na nota do Itamaraty, né, da suspensão dos vistos, né, de altos funcionários americanos.
E houve um problema que eu acho que foi a gota d'água do lado americano foi o vazamento de informações do Palácio do Planalto, segundo publicado, né, de assessores do presidente que diziam que para evitar influência americana na eleição, o agremã do embaixador americano só seria concedido depois das eleições. Eu acho que isso não devia ter sido divulgado. Pode ser até uma decisão política do governo, mas que não deveria ter sido divulgado, porque deu motivo para os Estados Unidos reagirem com essa medida que impossibilita a saída da embaixadora nossa lá em Washington do território americano, porque se ela sair e quiser voltar Não pode porque não tem visto, né?
Então são pequenas sutilezas diplomáticas que não estão sendo observadas, né? A principal delas foi a maneira como o governo americano submeteu a indicação do novo embaixador americano aqui, sem seguir a praxe diplomática estabelecida há séculos, há 200 anos, em que o pedido do novo embaixador para trabalhar no novo país tem que ser submetido previamente ao país que vai acreditá-lo. E não houve isso. Eles anunciaram o nome do embaixador, tomaram providências para aprovação no Senado americano, e só depois disso é que comunicaram ao governo brasileiro.
Quer dizer, isso deixou o governo brasileiro certamente surpreso, né? E agora eu devo dizer que a demora que ainda está ocorrendo, ela não é exagerada. Eu, quando fui nomeado embaixador em Washington, o meu agrément foi concedido depois de 30 e tantos dias pelo governo americano. O meu sucessor, a mesma coisa. Mais de 30 dias. Então está ainda dentro do período normal de demora do governo americano e do governo brasileiro. Mas o governo americano forçou a barra, como tá forçando a barra agora em relação à França, com um assunto que não tem nada a ver com a operação diplomática.
Agora, embaixador, considerando toda essa necessária contextualização, né, que o senhor nos trouxe em relação à postura americana, não só em relação ao Brasil, mas a outros países também, como a própria França, Qual seria a postura ideal do Brasil em um momento como esse?
Bom, como eu disse, nós estamos vivendo um momento pré-eleitoral em que as decisões estão subordinadas à política doméstica, né? Eu acho muito difícil que o governo americano, que o governo brasileiro acelere a concessão do visto, porque isso ia aparecer uma concessão e seria muito criticado pela oposição. Vai depender muito do governo brasileiro. É muito difícil você especular sobre o que é melhor, porque como não está havendo uma racionalidade, está havendo uma narrativa político-eleitoral, é muito difícil você imaginar uma solução razoável para eliminar essa crise diplomática.
Agora, a gente tem que ficar bem claro que a crise diplomática não tem nada que ver com a negociação comercial, a crise comercial por causa do tarifário. São duas áreas separadas, eu acho que não vão interferir uma na outra e passado o momento eleitoral, depois da eleição, os dois governos vão ter que se sentar para equacionar todas essas disputas.
Embaixador, muito obrigado pela sua análise no Jornal da CBN. Um ótimo dia para o senhor.
Muito obrigado pelo interesse de vocês. Vamos esperar que a situação melhore e seja encontrada uma forma de compromisso para resolver esse problema.