Episódios de Política

‘50 Debates para o Brasil’: privatização tornaria os Correios mais eficientes ou ameaçaria a universalização do serviço?

03 de agosto de 202617min
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Gesner Oliveira, professor da FGV e sócio da GO Associados, defende a transferência das operações competitivas para a iniciativa privada; David Deccache, diretor do IFFD, sustenta que o modelo estatal pode ser eficiente e é necessário para garantir atendimento em todo o país

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Participantes neste episódio1
G

Gesner Oliveira

ConvidadoVencedor do Prêmio Jabuti 2022
Assuntos4
  • PrivatizaçõesEficiência e competitividade · Universalização do serviço · Custos e prejuízos fiscais · Governança e interferência política
  • Correios· NegociosFunção social da empresa · Atendimento em emergências sanitárias · Entrega de vacinas e medicamentos · Território continental e heterogêneo
  • Situação financeira dos CorreiosPrejuízos acumulados · Redução de investimento · Modelo insustentável
  • Eficiência de Políticas PúblicasExperiências internacionais · União Postal Universal · Melhores sistemas postais do mundo
Transcrição21 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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?Voz A

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?Voz C

50 debates para o Brasil. Os Correios têm somado prejuízos nos últimos anos. Em 2025, o rombo total foi de R$8,5 bilhões. Previsão é que deve piorar neste ano. Ao mesmo tempo, Os Correios continuam responsáveis por prestar o serviço postal em todas as cidades brasileiras. É justamente o equilíbrio entre sustentabilidade financeira e universalização do atendimento que alimenta um debate recorrente no país. Hoje, na série 50 Debates para o Brasil, nós vamos discutir a privatização dos Correios.

A empresa deve ser transferida para iniciativa privada ou deve permanecer sob controle do Estado? Para debater o tema, convidamos o economista Gesner Oliveira, professor da Fundação Getúlio Vargas, sócio da Geo Associados, e o economista David Ekach, diretor do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento. Professor Gesner, muito obrigado pela gentileza ter aceitado o nosso convite. Bom dia. Professor Gessner, acho que não está nos escutando.

O senhor tá nos escutando, professor? Então, enquanto a gente espera aqui— David Ekach, você nos escuta? Bom dia. Nenhum dos dois estão nos ouvindo aqui, ou pelo menos o som deles não está saindo aqui enquanto a gente tenta fazer esse conserto aqui. Para que a gente possa começar a conversa. Lembrando sempre que a ideia aqui é fazermos duas perguntas a cada um dos nossos entrevistados, cada um tem cerca de 2 minutos. Mas por algum problema técnico, infelizmente a gente não tá conseguindo ouvir nenhum dos dois aqui nessa nossa conversa.

Agora eu já tô vendo aqui, tal, Davi, o Davi, Davi De Castro já tá nos ouvindo, né, Davi? Bom dia! Perfeito, tá bom.

?Voz 1

Bom dia, Milton.

?Voz C

Tá certo, obrigado.

?Voz 1

Hoje é para vocês, né?

GOGesner Oliveira

Então, o quê agora?

?Voz C

Acho que eu tô ouvindo a voz do Jezner também. Jezner Oliveira, bom dia.

GOGesner Oliveira

Bom dia, obrigado.

?Voz C

E obrigado a vocês, tanto Jezner Oliveira como Davi de Castro, aí pela gentileza de vocês terem aceitado participar aqui dessa nossa conversa. Tenho certeza que o tema aqui é mais complexo até do que tentar colocar vocês no ar aqui, pode ter certeza disso. E eu vou começar com o professor Gessner, com o senhor então. À medida que os defensores da privatização sempre afirmam que ela tornaria os Correios mais eficientes, mais competitivos, na prática, que mudanças concretas o cidadão perceberia no seu dia a dia?

E por que que essas melhorias não poderiam ser alcançadas mantendo a empresa pública?

GOGesner Oliveira

Veja, Milton, Cássia, Davi, muito bom dia, parabéns pelo debate. Na verdade, a Constituição, no artigo 137, estabelece o seguinte: se não há um problema de segurança nacional e se não há um interesse relevante, um interesse público relevante, o Estado não deveria atuar. Qual que é o interesse coletivo? Qual que é o interesse público aqui, Milton, Cássia e Davi? Nós temos 3 coisas: primeiro, qualidade do serviço; segundo, qual é o custo; e terceiro, qual é a governança.

Vamos olhar, primeiro, qualidade do serviço. Quando a gente olha o índice de entrega no prazo do Correio, ele está abaixo da meta estabelecida pelo próprio Correio, 88,62% contra 95,54%. Em dezembro de 2025, Newton em casa chegou a 74,15%, ou seja, um quarto das entregas não chegou no prazo. Quer dizer, basta ver o reclame aqui para ver avaliação ruim que é do consumidor em relação ao Correio. O que que acontece? Os mercados onde o Correio tem atuado, eles mudaram.

Os mercados dinâmicos da economia digital Nesses, o Correio não tem competitividade com os operadores privados, portanto pode ser servido pelos operadores privados. Segundo, o custo fiscal, os prejuízos acumulados desde 22 somam a mais de R$20 bilhões. Quem paga a conta é o Tesouro. Quem é o Tesouro? Somos nós, os contribuintes, todos nós aqui. Aliás, como a arrecadação no Brasil é predominantemente de imposto indireto, é proporcionalmente mais pesado para os mais pobres.

Terceiro, a governança. O Correio está marcado, infelizmente, a belíssima história do Correio, que começou no século 17 e foi formalizado como empresa em 1969, foi manchada por vários escândalos de interferência política. Então é preciso privatizar naqueles mercados onde há concorrência, e já há operadores privados competentes. Segundo, ter uma boa regulação, uma boa regulação que, aliás, foi prevista quando se fez a privatização das telecomunicações.

Há uma agência natural para fazer essa regulação, que é a Anatel, e naturalmente com toda a transparência e garantindo a universalização do serviço. Aquela, por exemplo, a população ribeirinha no Amazonas, pode ser servida por uma concessão patrocinada a um custo muito menor do que o verdadeiro ralo fiscal que representa uma empresa que perdeu mais de R$20 bilhões nos últimos 5 anos.

?Voz C

Professor Gessner, me permita então trazer aqui o David De Castro também para essa nossa conversa. Deixei o professor Gessner estender um pouco mais o seu raciocínio, até para que o nosso ouvinte também tenha essa ideia completa. Por isso também fique à vontade. Aí devido ao encaixe, até porque eu queria entender da sua parte, porque hoje quem defende a permanência dos Correios sob controle do Estado costuma destacar a função social da empresa, né?

Como é que a gente garante que ela continue cumprindo esse papel sem perder eficiência, nem depender no futuro de recursos públicos para se manter?

?Voz 1

Bom dia, professor Gessner, bom dia, Milton, bom dia, Cássia. Um grande prazer conversar com vocês e com os ouvintes da CBN. Parabéns por trazer um debate tão relevante para a sociedade nesse momento. Bom, as experiências internacionais apontam que o modelo estatal, ele não é só viável como ele pode ser de excelência. Uma agência integrada à ONU, a União Postal Universal, ela estabelece um ranking dos melhores sistemas postais do mundo desde 2017.

Hoje, o melhor sistema postal do mundo há 9 anos seguidos é o da Suíça, o Swiss Post. Ele é um sistema 100% estatal de ponta a ponta. Não há nem bases logísticas da Amazon na Suíça, por exemplo, tá? Dos 7 melhores modelos postais do mundo, 5 são estatais. Agora, temos que separar, portanto, problemas setoriais, desafios, limites, problemas de gestão, de problemas decorrentes da forma de propriedade. Ou seja, há de se separar o que tem como origem o fato dos Correios serem públicos, e as soluções não podem ser encaminhadas a partir de um diagnóstico equivocado da natureza do problema, tá?

Bom, é, por fim, os Correios no Brasil, eles são elogiados por essa agência ligada à ONU, né, que é a maior autoridade do mundo no assunto, como o melhor sistema postal da América Latina. Perfeito. No último relatório de 2025, a ONU coloca o Brasil como referência e aponta que mesmo com todos os problemas financeiros, fiscais e inclusive de gestão Os Correios no Brasil, dados os desafios enormes que nós temos, consegue manter a universalidade do sistema.

Então nós temos que ter orgulho do nosso sistema, ele é melhor visto fora do que dentro. E finalizo dizendo que os dados dos Correios, professor Gessner, melhoraram bastante nos últimos meses, tá? Mais de 90% das entregas estão no prazo e o índice de satisfação do consumidor subiu. Então o que nós precisamos é recuperar os Correios e ter orgulho, orgulho das nossas estatais. Por fim, sempre haverá algum tipo de participação estatal, mesmo no sistema que o professor Gessner diz, por conta da natureza do setor e não pelo fato dele ser público. Há falhas de mercado que não se dão por conta de direito de propriedade.

?Voz F

Nós recebemos muitas dúvidas de ouvintes sobre essa questão. Eles propuseram muitas questões aqui, então gostaria de encaminhar uma delas para que vocês respondessem, que é do nosso ouvinte Douglas Nascimento. Ele pergunta assim: gostaria de ouvir a opinião de vocês sobre o papel estratégico dos Correios. É de fato estratégico ou não? E em sendo estratégico, quais os riscos que o país correria ao privatizar os Correios? Começando por Gesner Oliveira.

GOGesner Oliveira

Veja, eu acho que é uma pergunta ótima que o ouvinte nos encaminha. Queria chamar a atenção para o seguinte: há um papel estratégico justamente na universalização do serviço. Essa universalização é restrita àquelas regiões, mercados que não são devidamente atendidas ou não são de interesse de operadores privados. Então as encomendas, as entregas ligadas pelos mercados digitais e tal estão plenamente atendidas. Para esse papel de universalização, uma concessão administrativa, ou seja, uma parceria público-privada, poderia ser feita, estabelecida, estabelecida estabelecidas as obrigações a serem cumpridas e com uma boa regulação, uma regulação com excelência técnica, com independência.

Isso garantiria que toda a população fosse atendida, não a um custo como nós estamos observando hoje, com grande ineficiência. Eu chamei atenção para esses prejuízos acumulados por uma redução do investimento de mais de 60%, o que o modelo atual é insustentável. Porque o Correio não tem condições de competir nos mercados onde há operadores privados e, consequentemente, não gera os recursos necessários para atender o conjunto da população.

Então, é algo absolutamente insustentável e que é algo do qual nós, brasileiros, temos razão de nos orgulhar historicamente. O Correio tem uma bela tradição. No entanto, no período recente, nas últimas décadas, ele infelizmente já não cumpre mais o seu papel, tá completamente superado. O Davi mencionou a Suíça. Vamos e venhamos, Davi, a Suíça e o Brasil são países completamente diferentes. Experiências de serviço postal privado na Alemanha, nos Países Baixos, na Áustria, na Bélgica, são todas experiências positivas.

Então, é possível ter uma privatização com sucesso, obviamente bem planejada, gradual e, sobretudo, com boa regulação buscando eficiência e cumprimento de metas, algo que infelizmente, apesar de algumas melhoras nos meses recentes mencionadas pelo Davi, os Correios não têm cumprido.

?Voz F

Agora, Davi, na sua avaliação, papel dos Correios é estratégico? E em sendo estratégico, quais seriam as consequências de uma privatização?

?Voz 1

É perfeito, é estratégico no sentido que o professor Gessner falou. Os serviços postais, eles são um serviço público, isso é reconhecido pelo STF. Então há uma necessidade de se universalizar. E qual é o desafio do setor? Isso é importante ficar claro. O setor tem desafios que não tem a ver com ser privado ou estatal, tá? E é muito barato o custo unitário de entregar 100 encomendas em um quarteirão em São Paulo, em Copacabana, é extremamente baixo.

O custo de fazer 3 entregas em centenas de quilômetros na região norte é extremamente alto. Então é um sistema que precisa ter preços uniformes por ser um serviço público. Ele deve avançar na integração regional e ele tem esse problema: se os Correios se concentram especialmente nas regiões de altíssimo custo, tá, eles, ele obviamente ele terá um problema de caixa porque a operação se torna insustentável. Então você tem que fazer subsídios cruzados, sejam entre segmentos mais lucrativos, que é o segmento de encomendas, tá?

E entre rede de baixa e alta densidade. Então essas questões, elas têm a ver com o setor. Por fim, os Correios, eles são importantes, por exemplo, em uma emergência sanitária, na entrega de vacinas, de medicamentos. É importante ter estruturas estatais prontas para atender necessidades emergenciais, entregas de provas de concursos como o ENEM. O Brasil, ele possui muitas especificidades, um território continental altamente heterogêneo, que precisa de um planejamento estatal robusto.

E finalizo agora dizendo e reforçando: a maior parte das experiências positivas no mundo, os melhores sistemas no mundo, eles são estatais, e os privados de excelência são exceções. Dos 7 melhores modelos, 5 são estatais e 2 são privados. Então não se pode associar os problemas do setor ao direito, a forma de propriedade, perfeito? Setor passa por uma crise no mundo.

?Voz C

David Ekach e Jezner Oliveira, quero agradecer a gentileza de vocês de terem aceitado trazer alguns dos argumentos para isso, que não é um debate como todos os demais que tem um ponto final. Pelo contrário, esse é o ponto inicial, porque são argumentos para que você que está nos acompanhando aqui na CBN possa levar à frente, buscar buscar novas informações e tirar sua própria conclusão a propósito desse assunto que hoje se dedicou a falar sobre privatização ou não dos Correios.

Muito obrigado a vocês pela participação. Gesner Oliveira, professor da Fundação Getúlio Vargas, sócio da Geo Associados, e o economista David De Castro, que é diretor do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento. Todo esse material fica à sua disposição na página da CBN, no YouTube, nos nossos aplicativos, enfim, para que você possa compartilhar também e discutir temas importantes para o Brasil. 8:50.

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