‘50 Debates para o Brasil’: privatização tornaria os Correios mais eficientes ou ameaçaria a universalização do serviço?
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
Gesner Oliveira
- PrivatizaçõesEficiência e competitividade · Universalização do serviço · Custos e prejuízos fiscais · Governança e interferência política
- Correios· NegociosFunção social da empresa · Atendimento em emergências sanitárias · Entrega de vacinas e medicamentos · Território continental e heterogêneo
- Situação financeira dos CorreiosPrejuízos acumulados · Redução de investimento · Modelo insustentável
- Eficiência de Políticas PúblicasExperiências internacionais · União Postal Universal · Melhores sistemas postais do mundo
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Why wait? Ask your doctor, visit botoxchronicmigraine.com, or call 1-800-44-BOTOX to learn more.
50 debates para o Brasil. Os Correios têm somado prejuízos nos últimos anos. Em 2025, o rombo total foi de R$8,5 bilhões. Previsão é que deve piorar neste ano. Ao mesmo tempo, Os Correios continuam responsáveis por prestar o serviço postal em todas as cidades brasileiras. É justamente o equilíbrio entre sustentabilidade financeira e universalização do atendimento que alimenta um debate recorrente no país. Hoje, na série 50 Debates para o Brasil, nós vamos discutir a privatização dos Correios.
A empresa deve ser transferida para iniciativa privada ou deve permanecer sob controle do Estado? Para debater o tema, convidamos o economista Gesner Oliveira, professor da Fundação Getúlio Vargas, sócio da Geo Associados, e o economista David Ekach, diretor do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento. Professor Gesner, muito obrigado pela gentileza ter aceitado o nosso convite. Bom dia. Professor Gessner, acho que não está nos escutando.
O senhor tá nos escutando, professor? Então, enquanto a gente espera aqui— David Ekach, você nos escuta? Bom dia. Nenhum dos dois estão nos ouvindo aqui, ou pelo menos o som deles não está saindo aqui enquanto a gente tenta fazer esse conserto aqui. Para que a gente possa começar a conversa. Lembrando sempre que a ideia aqui é fazermos duas perguntas a cada um dos nossos entrevistados, cada um tem cerca de 2 minutos. Mas por algum problema técnico, infelizmente a gente não tá conseguindo ouvir nenhum dos dois aqui nessa nossa conversa.
Agora eu já tô vendo aqui, tal, Davi, o Davi, Davi De Castro já tá nos ouvindo, né, Davi? Bom dia! Perfeito, tá bom.
Bom dia, Milton.
Tá certo, obrigado.
Hoje é para vocês, né?
Então, o quê agora?
Acho que eu tô ouvindo a voz do Jezner também. Jezner Oliveira, bom dia.
Bom dia, obrigado.
E obrigado a vocês, tanto Jezner Oliveira como Davi de Castro, aí pela gentileza de vocês terem aceitado participar aqui dessa nossa conversa. Tenho certeza que o tema aqui é mais complexo até do que tentar colocar vocês no ar aqui, pode ter certeza disso. E eu vou começar com o professor Gessner, com o senhor então. À medida que os defensores da privatização sempre afirmam que ela tornaria os Correios mais eficientes, mais competitivos, na prática, que mudanças concretas o cidadão perceberia no seu dia a dia?
E por que que essas melhorias não poderiam ser alcançadas mantendo a empresa pública?
Veja, Milton, Cássia, Davi, muito bom dia, parabéns pelo debate. Na verdade, a Constituição, no artigo 137, estabelece o seguinte: se não há um problema de segurança nacional e se não há um interesse relevante, um interesse público relevante, o Estado não deveria atuar. Qual que é o interesse coletivo? Qual que é o interesse público aqui, Milton, Cássia e Davi? Nós temos 3 coisas: primeiro, qualidade do serviço; segundo, qual é o custo; e terceiro, qual é a governança.
Vamos olhar, primeiro, qualidade do serviço. Quando a gente olha o índice de entrega no prazo do Correio, ele está abaixo da meta estabelecida pelo próprio Correio, 88,62% contra 95,54%. Em dezembro de 2025, Newton em casa chegou a 74,15%, ou seja, um quarto das entregas não chegou no prazo. Quer dizer, basta ver o reclame aqui para ver avaliação ruim que é do consumidor em relação ao Correio. O que que acontece? Os mercados onde o Correio tem atuado, eles mudaram.
Os mercados dinâmicos da economia digital Nesses, o Correio não tem competitividade com os operadores privados, portanto pode ser servido pelos operadores privados. Segundo, o custo fiscal, os prejuízos acumulados desde 22 somam a mais de R$20 bilhões. Quem paga a conta é o Tesouro. Quem é o Tesouro? Somos nós, os contribuintes, todos nós aqui. Aliás, como a arrecadação no Brasil é predominantemente de imposto indireto, é proporcionalmente mais pesado para os mais pobres.
Terceiro, a governança. O Correio está marcado, infelizmente, a belíssima história do Correio, que começou no século 17 e foi formalizado como empresa em 1969, foi manchada por vários escândalos de interferência política. Então é preciso privatizar naqueles mercados onde há concorrência, e já há operadores privados competentes. Segundo, ter uma boa regulação, uma boa regulação que, aliás, foi prevista quando se fez a privatização das telecomunicações.
Há uma agência natural para fazer essa regulação, que é a Anatel, e naturalmente com toda a transparência e garantindo a universalização do serviço. Aquela, por exemplo, a população ribeirinha no Amazonas, pode ser servida por uma concessão patrocinada a um custo muito menor do que o verdadeiro ralo fiscal que representa uma empresa que perdeu mais de R$20 bilhões nos últimos 5 anos.
Professor Gessner, me permita então trazer aqui o David De Castro também para essa nossa conversa. Deixei o professor Gessner estender um pouco mais o seu raciocínio, até para que o nosso ouvinte também tenha essa ideia completa. Por isso também fique à vontade. Aí devido ao encaixe, até porque eu queria entender da sua parte, porque hoje quem defende a permanência dos Correios sob controle do Estado costuma destacar a função social da empresa, né?
Como é que a gente garante que ela continue cumprindo esse papel sem perder eficiência, nem depender no futuro de recursos públicos para se manter?
Bom dia, professor Gessner, bom dia, Milton, bom dia, Cássia. Um grande prazer conversar com vocês e com os ouvintes da CBN. Parabéns por trazer um debate tão relevante para a sociedade nesse momento. Bom, as experiências internacionais apontam que o modelo estatal, ele não é só viável como ele pode ser de excelência. Uma agência integrada à ONU, a União Postal Universal, ela estabelece um ranking dos melhores sistemas postais do mundo desde 2017.
Hoje, o melhor sistema postal do mundo há 9 anos seguidos é o da Suíça, o Swiss Post. Ele é um sistema 100% estatal de ponta a ponta. Não há nem bases logísticas da Amazon na Suíça, por exemplo, tá? Dos 7 melhores modelos postais do mundo, 5 são estatais. Agora, temos que separar, portanto, problemas setoriais, desafios, limites, problemas de gestão, de problemas decorrentes da forma de propriedade. Ou seja, há de se separar o que tem como origem o fato dos Correios serem públicos, e as soluções não podem ser encaminhadas a partir de um diagnóstico equivocado da natureza do problema, tá?
Bom, é, por fim, os Correios no Brasil, eles são elogiados por essa agência ligada à ONU, né, que é a maior autoridade do mundo no assunto, como o melhor sistema postal da América Latina. Perfeito. No último relatório de 2025, a ONU coloca o Brasil como referência e aponta que mesmo com todos os problemas financeiros, fiscais e inclusive de gestão Os Correios no Brasil, dados os desafios enormes que nós temos, consegue manter a universalidade do sistema.
Então nós temos que ter orgulho do nosso sistema, ele é melhor visto fora do que dentro. E finalizo dizendo que os dados dos Correios, professor Gessner, melhoraram bastante nos últimos meses, tá? Mais de 90% das entregas estão no prazo e o índice de satisfação do consumidor subiu. Então o que nós precisamos é recuperar os Correios e ter orgulho, orgulho das nossas estatais. Por fim, sempre haverá algum tipo de participação estatal, mesmo no sistema que o professor Gessner diz, por conta da natureza do setor e não pelo fato dele ser público. Há falhas de mercado que não se dão por conta de direito de propriedade.
Nós recebemos muitas dúvidas de ouvintes sobre essa questão. Eles propuseram muitas questões aqui, então gostaria de encaminhar uma delas para que vocês respondessem, que é do nosso ouvinte Douglas Nascimento. Ele pergunta assim: gostaria de ouvir a opinião de vocês sobre o papel estratégico dos Correios. É de fato estratégico ou não? E em sendo estratégico, quais os riscos que o país correria ao privatizar os Correios? Começando por Gesner Oliveira.
Veja, eu acho que é uma pergunta ótima que o ouvinte nos encaminha. Queria chamar a atenção para o seguinte: há um papel estratégico justamente na universalização do serviço. Essa universalização é restrita àquelas regiões, mercados que não são devidamente atendidas ou não são de interesse de operadores privados. Então as encomendas, as entregas ligadas pelos mercados digitais e tal estão plenamente atendidas. Para esse papel de universalização, uma concessão administrativa, ou seja, uma parceria público-privada, poderia ser feita, estabelecida, estabelecida estabelecidas as obrigações a serem cumpridas e com uma boa regulação, uma regulação com excelência técnica, com independência.
Isso garantiria que toda a população fosse atendida, não a um custo como nós estamos observando hoje, com grande ineficiência. Eu chamei atenção para esses prejuízos acumulados por uma redução do investimento de mais de 60%, o que o modelo atual é insustentável. Porque o Correio não tem condições de competir nos mercados onde há operadores privados e, consequentemente, não gera os recursos necessários para atender o conjunto da população.
Então, é algo absolutamente insustentável e que é algo do qual nós, brasileiros, temos razão de nos orgulhar historicamente. O Correio tem uma bela tradição. No entanto, no período recente, nas últimas décadas, ele infelizmente já não cumpre mais o seu papel, tá completamente superado. O Davi mencionou a Suíça. Vamos e venhamos, Davi, a Suíça e o Brasil são países completamente diferentes. Experiências de serviço postal privado na Alemanha, nos Países Baixos, na Áustria, na Bélgica, são todas experiências positivas.
Então, é possível ter uma privatização com sucesso, obviamente bem planejada, gradual e, sobretudo, com boa regulação buscando eficiência e cumprimento de metas, algo que infelizmente, apesar de algumas melhoras nos meses recentes mencionadas pelo Davi, os Correios não têm cumprido.
Agora, Davi, na sua avaliação, papel dos Correios é estratégico? E em sendo estratégico, quais seriam as consequências de uma privatização?
É perfeito, é estratégico no sentido que o professor Gessner falou. Os serviços postais, eles são um serviço público, isso é reconhecido pelo STF. Então há uma necessidade de se universalizar. E qual é o desafio do setor? Isso é importante ficar claro. O setor tem desafios que não tem a ver com ser privado ou estatal, tá? E é muito barato o custo unitário de entregar 100 encomendas em um quarteirão em São Paulo, em Copacabana, é extremamente baixo.
O custo de fazer 3 entregas em centenas de quilômetros na região norte é extremamente alto. Então é um sistema que precisa ter preços uniformes por ser um serviço público. Ele deve avançar na integração regional e ele tem esse problema: se os Correios se concentram especialmente nas regiões de altíssimo custo, tá, eles, ele obviamente ele terá um problema de caixa porque a operação se torna insustentável. Então você tem que fazer subsídios cruzados, sejam entre segmentos mais lucrativos, que é o segmento de encomendas, tá?
E entre rede de baixa e alta densidade. Então essas questões, elas têm a ver com o setor. Por fim, os Correios, eles são importantes, por exemplo, em uma emergência sanitária, na entrega de vacinas, de medicamentos. É importante ter estruturas estatais prontas para atender necessidades emergenciais, entregas de provas de concursos como o ENEM. O Brasil, ele possui muitas especificidades, um território continental altamente heterogêneo, que precisa de um planejamento estatal robusto.
E finalizo agora dizendo e reforçando: a maior parte das experiências positivas no mundo, os melhores sistemas no mundo, eles são estatais, e os privados de excelência são exceções. Dos 7 melhores modelos, 5 são estatais e 2 são privados. Então não se pode associar os problemas do setor ao direito, a forma de propriedade, perfeito? Setor passa por uma crise no mundo.
David Ekach e Jezner Oliveira, quero agradecer a gentileza de vocês de terem aceitado trazer alguns dos argumentos para isso, que não é um debate como todos os demais que tem um ponto final. Pelo contrário, esse é o ponto inicial, porque são argumentos para que você que está nos acompanhando aqui na CBN possa levar à frente, buscar buscar novas informações e tirar sua própria conclusão a propósito desse assunto que hoje se dedicou a falar sobre privatização ou não dos Correios.
Muito obrigado a vocês pela participação. Gesner Oliveira, professor da Fundação Getúlio Vargas, sócio da Geo Associados, e o economista David De Castro, que é diretor do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento. Todo esse material fica à sua disposição na página da CBN, no YouTube, nos nossos aplicativos, enfim, para que você possa compartilhar também e discutir temas importantes para o Brasil. 8:50.