Episódios de Política

‘50 Debates Para o Brasil’: direito de decidir ou dever de preservar a vida? Especialistas debatem eutanásia

27 de julho de 202613min
0:00 / 13:12
Luciana Dadalto, advogada, bioeticista e presidente da Associação Eu Decido, defende a regulamentação da morte assistida; Alexandre Kalache, médico gerontólogo e presidente do Centro Internacional da Longevidade, rejeita a eutanásia e defende cuidados que preservem a dignidade no fim da vida

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Participantes neste episódio2
A

Alexandre Kalache

ConvidadoMédico gerontólogo, presidente do Centro Internacional da Longevidade
L

Luciana Dadalto

ConvidadoAdvogada, bioeticista e presidente da Associação Eu Decido
Assuntos3
  • Morte e RessurreiçãoDireito do paciente de decidir sobre a própria vida · Preservação da vida pela medicina · Sofrimento em casos terminais · Regulamentação e salvaguardas · Diferença entre eutanásia e ortotanásia
  • Teoria de Valores e DignidadePerspectiva biográfica versus biológica da vida · Cuidados paliativos e testamento vital · Dignidade humana no processo de morrer · Formação de profissionais de saúde em bioética
  • Envelhecimento e LongevidadeAumento de doenças incuráveis em idosos · Necessidade de debate social sobre fim da vida · Custo social e ético de prolongar a vida artificialmente
Transcrição18 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

— Anúncios inseridos dinamicamente —

?Voz A

Why wait? Ask your doctor, visit botoxchronicmigraine.com, or call 1-800-44-BOTOX to learn more.

?Voz D

50 debates para o Brasil. A forma como uma sociedade encara o fim da vida revela muito dos valores que escolhe preservar. Quando um paciente enfrenta uma doença irreversível, sem perspectiva, submetido a sofrimento intenso, quem deve ter a palavra final sobre a interrupção da vida? O próprio paciente, família, os médicos, a lei. Hoje, na série 50 Debates para o Brasil, nós vamos discutir um tema polêmico, tanto quanto sensível: a eutanásia em casos terminais.

Paciente deve ter o direito de decidir pelo encerramento da própria vida com assistência médica, ou a preservação da vida precisa prevalecer independentemente das circunstâncias? Para esse debate Convidamos Luciana Dadalto, advogada, bioeticista e presidente da Associação Eu Decido, e o Doutor Alexandre Kalash, médico gerontólogo, presidente do Centro Internacional da Longevidade. Luciana Dadalto, muito obrigado pela sua gentileza ter aceitado o nosso convite. Um bom dia.

LDLuciana Dadalto

Bom dia, eu que agradeço a oportunidade. É um tema delicado, complexo, mas absolutamente necessário. De conversar não some.

?Voz D

Doutor Kalash, muito obrigado pela sua gentileza de ter aceitado participar também aqui dessa discussão no Jornal da CBN. Um bom dia para o senhor.

AKAlexandre Kalache

Bom dia, Milton, sempre às ordens e apóstolo para a CBN.

?Voz F

Bom dia a todos.

?Voz D

E eu lembro aos dois que, conforme o combinado, não tem mais ou menos 2 minutos para suas respostas, seus argumentos. Serão feitas perguntas pela Cássia e por mim. Começo com você, Luciana. Na sua avaliação, em que circunstâncias O direito do paciente de decidir sobre a própria vida deve prevalecer sobre o dever da medicina de preservar a vida?

LDLuciana Dadalto

Bom, eu acho que a gente tá num momento de repensar esse desejo da medicina de preservar a vida, né? A gente fala sempre na necessidade de pensarmos a vida não só sobre a perspectiva biológica, mas também sobre a perspectiva biográfica do paciente. Tá vivo não é só estar biologicamente vivo, mas é estar também biograficamente, né? É a gente conseguir ser um sujeito biográfico até o final da nossa vida. Então esse debate sobre a morte, sobre a morte assistida, a eutanásia e o suicídio assistido, é um debate que envolve a gente ouvir mais as pessoas que estão gravemente doentes e que já estão com a morte chegando perto, não porque a pessoa quer, mas porque ela tem uma doença que é uma doença incurável, uma situação de terminalidade.

?Voz D

Doutor Kalash, e como é que o senhor avalia essa questão? O que que deve pautar uma decisão como essa?

AKAlexandre Kalache

Em primeiro lugar, a gente deve colocar tudo isso no contexto do envelhecimento. Nós vamos ter o dobro de pessoas idosas nos próximos 25 anos, e com isso nós vamos ter também o dobro, talvez mais, de pessoas que vão ter doenças incuráveis. Esse debate é absolutamente imprescindível. Não é o que eu acho, o que a Luciana acha, mas sim debater de forma honesta, aberta, uma questão que a sociedade exige, como já exigiu em outros países.

Segundo, é preciso discernir o que que a gente tá falando. Eutanásia, que vem do grego eu, que é o bom, bem, é a morte no passado, antes do século 20, era a morte tranquila. Ela não tinha a conotação que nós temos hoje, que é uma morte precipitada intencionalmente por um profissional de saúde, em geral médico. E isso é diferente da ortotanásia, que é a morte correta. A morte ocorre no seu tempo certo, sem prolongar artificialmente o processo de morrer por meios de tratamentos desproporcionais.

E tem ainda a morte assistida, que pode abranger essas duas modalidades. O paciente solicita que um médico forneça os meios em geral, um medicamento letal, mas é a própria pessoa que administra aquele medicamento, não o médico, não o profissional da saúde. Nós temos que discutir isso, nós temos que discutir isso com questões biomédicas complexas, mas que a sociedade exige. Mas, Milton, o que eu gostaria de colocar é que todo dogma Toda discussão que é dogmática, toda discussão que diz nós temos que prolongar a vida acima de tudo, num país em que nós temos cerca de 6.600 mortes por policiais, assassinatos, sobretudo de jovens, sobretudo de negros, e são em geral as mesmas pessoas que defendem bandido bom é bandido morto são aquelas que são dogmáticas e não querem que isso seja discutido de uma forma honesta, aberta, porque essas questões vão aumentar, como eu disse, com envelhecimento populacional.

?Voz F

Luciana, para você, quais critérios, salvaguardas, mecanismos de controle seriam indispensáveis para evitar abusos caso a morte assistida fosse autorizada?

LDLuciana Dadalto

A gente tá falando, né, em um tema em que a regularização, a regulamentação é extremamente importante. As pessoas costumam dizer assim, ah, o debate é sou contra ou sou a favor. Esse não é o debate. O debate é quando a gente regulamenta a morte assistida, seja via eutanásia, que é a administração por do fármaco letal, seja via o que normalmente se chama de suicídio assistido, que é administração pela própria pessoa, a gente precisa dizer para quem que a gente tá regulamentando, que paciente é esse.

É um paciente que tem uma doença grave, incurável, terminal, que causa um sofrimento que para aquele paciente é considerado insuportável, intolerável. A gente tá falando, via de regra, de pessoas com mais de 18 anos de idade, maiores, que vão passar por avaliações médicas, no mínimo por 2 avaliações com intervalo de tempo, que vão ser avaliadas do ponto de vista psíquico e também do ponto de vista da doença de base que vai atestar essa irreversibilidade.

E quando você diz das salvaguardas, isso é algo extremamente importante. Salvaguardas. Em todas as leis, as salvaguardas acontecem com a criação de organismos de regulamentação e de verificação. Então a gente vai estar falando na necessidade de criar um comitê que vai revisar os procedimentos. Isso é muito importante, né? A proteção dos vulneráveis é uma proteção, preocupação de países que regulamentam a morte assistida. É isso, a gente só consegue chegar nesse debate e pensar nessas propostas se a gente sair desse lugar ambíguo, desse lugar bilateral, né, que a gente vai do eu sou contra, eu sou a favor.

Essa não, esse não pode mais ser o debate. O debate no Brasil precisa ser O direito à morte assistida é um direito de quem? Como é que a gente protege esse direito e ao mesmo tempo a gente protege pessoas que são vulneráveis ao que a gente chama, trazendo aí as definições do professor Kalash, ao que a gente chama de misericórdia, que é a morte social, é aquela morte porque o Estado, é mais barato para o Estado deixar uma pessoa morrer do que ajudar essa pessoa a viver dignamente.

Não é sobre isso que a gente está falando. A gente está falando de uma pessoa que já está morrendo quando a gente fala de morte assistida. E essa pessoa quer abreviar o sofrimento dela, entendendo que naquele momento o sofrimento é mais— para ela, acabar com o sofrimento é mais importante do que continuar biologicamente viva.

?Voz F

Professor Kalachi, é possível criar essas salvaguardas e esses critérios para garantir que a morte assistida seria aplicada de uma forma justa, de uma forma digna no Brasil?

AKAlexandre Kalache

É possível e desejável, é necessário, é imperativo. E eu chamo atenção aqui para a importância de colocar o estudo da biomédica no currículo dos profissionais. Nós não temos também, na maioria das vezes, médicos competentes que não foram treinados para lidar com a morte. É absolutamente indispensável que os futuros profissionais da saúde, porque muitos dos que já foram formados já perderam talvez essa oportunidade, e eu chamo aqui atenção para contribuição fantástica de uma geriátra que morreu precocemente no mesmo ano passado, a Doutora Cláudia Burlá.

Ela dizia, em essência, quando a cura já não é possível, o dever da medicina continua sendo cuidar com competência, compaixão, respeito à dignidade humana. E para isso é necessário que a gente difunda mais a importância do tratamento, do testamento vital, das diretrizes antecipadas de vontade. O que que eu gostaria que ser feito se eu estiver numa fase terminal, que já não tenha mais discernimento cognitivo, que um representante meu e que os meus médicos, meus familiares estejam todos informados da minha vontade.

Isso não é para passar adiante daquilo que é legal ou deixa de ser legal. Eu não estou defendendo eutanásia, eu não estou defendendo morte assistida, eu estou defendendo a importância de nós tratarmos com muito cuidado, com ética, questões que são necessárias de serem discutidas, sempre em defesa, como a Cláudia Burlá dizia, da defesa da dignidade no fim da vida, uma referência em biomédica, em bioética que ela foi, e da importância de formar profissionais de saúde que não sejam radicais dogmáticos, regidos por princípios religiosos.

Como eu disse, defendendo a morte dos potenciais assassinos pela polícia, mas não defendendo a vida daqueles que merecem viver.

?Voz D

Doutor Alexandre Kalash, Luciana D'Adalto, muito obrigado pela gentileza e pelos argumentos que vocês trouxeram aqui para essa discussão. Nossa ideia é exatamente essa, as pessoas que nos acompanham tenham uma base para poder tirar a sua própria conclusão, desenvolver o seu próprio pensamento crítico sobre os temas que estamos apresentando aqui nesta série 50 Debates para o Brasil. Muito obrigado pela gentileza de vocês. E aos nossos ouvintes que nos acompanham aqui, esse debate fica à sua disposição, aplicativo da CBN, no site.

E o nosso convite sempre é para que você participe também dessa discussão. Aliás, pode participar, inclusive nos oferecendo aqui propostas de assuntos para serem discutidos, já que essa série se estende até a semana da eleição.

— Anúncios inseridos dinamicamente —

‘50 Debates Para o Brasil’: direito de decidir ou dever de preservar a vida? Especialistas debatem eutanásia | Castnews Index — Castnews Index