Governo Trump tenta questionar sistema eleitoral brasileiro em meio ao tarifaço
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Leandro
Uriã Fancelli
- Darren Beatty e Interferência EleitoralSistema eleitoral brasileiro · Donald Trump e a NASA · Papel do Estado
- Alinhamento hemisféricoJavier Milei · Confronto com Flaviano · Governo Trump
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Revista CBN Internacional.
Uriam Fancielli com a gente. Boa tarde, Uriam.
Tudo bem, Leandro? Boa tarde, boa tarde a todos.
Boa tarde. Nós falamos com a nossa reportagem há pouco sobre uma reportagem que veio lá dos Estados Unidos a respeito de uma possível interferência dos Estados Unidos na eleição aqui no Brasil. Reportagem do Washington Post falando que dois funcionários, dois diplomatas do Departamento de Estado americano viriam para o Brasil para questionar a integridade, a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. E o Itamaraty já negou os pedidos de visto desses dois diplomatas, Uriano, no momento em que a gente tem falado muito justamente da influência aí dos Estados Unidos sobre eleições em toda a América Latina, né?
Exatamente. É essa, o que essa reportagem trouxe, Leandro, é na verdade os detalhes de uma, como se fosse uma operação que tava sendo montada pela, pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, então com dois nomeados políticos do Trump vindo para o Brasil. Primeiro é o Riley que é o secretário assistente para a democracia, olha que ironia, né, para democracia, direitos humanos, trabalho, chefe do Biro, conhecido como DRL. E ele acumulou tanto poder que o Marco Rubio ainda entregou para ele a coordenação especial para o Tibete, as atribuições de embaixador para liberdade religiosa.
Então é um quadro de carreira republicana, né, que ele tem aí de ex-redator de discursos de senador. Ele Enfim, ele tem um histórico bastante grande. E a outra figura é um pouco mais interessante, que é o Samuel Sampson, que ele tem só 27 anos, é vice-secretário assistente. Ele veio de indicação do J.D.
Vance.
Então ele tem um discurso muito alinhado com aquele discurso mais conservador mesmo do movimento do MAGA, do Make America Great Again. E eles já fizeram coisas parecidas em outros lugares do mundo também. Fizeram ali viagens internacionais para diversos países do mundo. Foi o caso, por exemplo, do Sampson, ele nesse ano ele usar a conta oficial do Substack, que é uma plataforma de publicação de textos do Departamento de Estado, para escrever um texto sobre a necessidade de aliados civilizacionais na Europa.
Então nesse texto ele chega inclusive a defender o partido AfD, Alternative für Deutschland, da Alemanha, que foi classificado pela inteligência alemã como movimento extremista, defendeu a Marine Le Pen também, que foi condenada na França. Então é todo já um preparo, todo um padrão que aconteceu em diversos países do mundo e que agora chega também no Brasil, né? E a tarefa dele seria de chegar aqui e tentar produzir algum tipo de documento oficial, dialogando sempre com aquelas figuras que são mais céticas ao sistema eleitoral brasileiro, ao uso das urnas eletrônicas, eletrônicas para produzir algo que eventualmente pudesse ser usado tanto para disseminar essas teorias conspiratórias quanto também para, no caso ali, de ser usado também pela administração norte-americana para atacar o sistema eleitoral brasileiro.
E aí tudo isso acontecendo também em paralelo a toda aquela outra ofensiva que ocorre em outra frente por meio do Javier Milei, que tá visitando São Paulo nesse fim de semana.
É, já participou de um evento aqui no estado de São Paulo com o governador Tarcísio de Freitas. Ele até pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas a justiça não permitiu. E a gente não via, não sei se tem precedente isso, né, a interferência internacional assim, talvez não interferência, mas participação. Aí se a gente levar em conta aí o envolvimento do presidente Milei numa convenção partidária, né? Não lembro de acontecer isso.
É algo que a gente não pode separar, eu digo, essas duas frentes, porque o que a gente tem aqui é a mesma operação em duas frequências: a coercitiva e a cerimonial. Então você tem de um lado os Estados Unidos que estão apertando o cerco contra o Brasil, seja com tarifação que a gente viu nessa semana, na semana passada também, que chega a 37,5%. Agora com essa ofensiva eleitoral também, né, enviando ou tentando enviar esses dois representantes para cá.
E do outro lado você tem o Milei desembarcando em São Paulo exclusivamente para participar dessa convenção do PL, né? Ou seja, é isso com direito a cafezinho com Tarcísio, café da manhã, enfim, toda uma recepção pomposa. Então são dois braços, eu diria, do mesmo projeto, né? Aquilo que é a estratégia de defesa americana batizou no começo do ano, que é a chamada doutrina de alinhamento hemisférico, ela acontece de maneiras diferentes.
Então você tem por um lado o Donald Trump com a sua ofensiva e do outro talvez o que a gente pode dizer que é o Milei fazendo aqui aquele serviço que o Trump não pode fazer pessoalmente, que é emprestar um corpo presidencial latino-americano à candidatura do Flávio para meio que colocá-lo ali oficialmente como o herdeiro da aquilo que seria, entre aspas, a nova onda azul, a nova onda de direita na América Latina, né? Não à toa, a própria imprensa brasileira já lê essa visita como a inserção do Flávio nesse movimento regional.
Então sim, é uma interferência ideológica que tem como consequências diversos problemas muito graves, sem precedentes, algo que acontece, né? O Milei basicamente esnobando as relações entre Brasil e Argentina e esnobando não o presidente Lula, que é de esquerda, não é isso, mas esnobando uma escolha soberana do Brasil de representante para apadrinhar aqui um candidato à oposição. Então não é um desrespeito ao presidente Lula. Eu diria que é um desrespeito contra todos os brasileiros que tomaram uma decisão soberana em 2022 e que agora enxergam atores externos tentando de certa forma também interferir nesse processo e influenciar, ter apoios, demonstrar apoio é legítimo, né?
A questão é colocar em dúvida o sistema eleitoral de um país soberano.
Eu diria que até mesmo essa questão do apoio, dependendo da maneira como isso é feito, assim, porque eu não acho que cabe, por exemplo, ao presidente Lula dizer, e ele já chegou a cometer esse equívoco no passado, dizendo que preferiria que a Kamala Harris vencesse as eleições nos Estados Unidos do que o Donald Trump. Mas não acho que cabe a essas pessoas destruírem essas pontes que são existentes entre os países. Então, um presidente de um país não tem que declarar voto, não tem que declarar torcida para um presidente de outro.
Pelo contrário, quem tem feito isso e de maneira institucionalizada é o Donald Trump, com essa cruzada que ele tem promovido com essas figuras da administração dele agora que viriam para o Brasil, que já foram para diversos países europeus. Mas isso não ajuda em nada, porque na eventualidade de que a figura que foi aí apadrinhada pelo Trump ou pelo Lula ou por qualquer pessoa não vença as eleições, o que que acontece com as relações entre esses países?
E esses países, eles precisam de pontes para conseguirem dialogar, para conseguirem construir agendas conjuntas. O Lula, se ele for eleito novamente, ele vai precisar estar alinhado com o Milei no momento de negociações de acordos do Mercosul, acordos que são extremamente importantes no momento de protecionismo do Donald Trump. E a gente viu que esse alinhamento, ele é fundamental no caso, por exemplo, do acordo que foi assinado entre o Mercosul e a União Europeia.
Então esse tipo de atitude eu vejo que ele, ele não ele acaba mais atrapalhando do que ajudando, porque a gente nunca sabe o resultado das eleições. E eu diria até mesmo que o Milei, ele tá, tanto Milei quanto Trump, eles estão nesse momento apostando as suas fichas em um candidato que, de acordo com a maior parte das pesquisas que nós temos observado, é o candidato que tá em segundo lugar. Então é extremamente preocupante para as relações entre os países.
É importante notar isso, né, de que a relação diplomática, comercial, deve prosseguir independente de quem seja o presidente, de direita ou de esquerda, e que no caso desses apoios declarados vem da maior potência mundial, né? Então tem um peso diferente. Uriel Fancelli, obrigado pela participação mais uma vez aqui no Revista CBN. Ótimo fim de semana para você.
Eu que agradeço. Bom fim de semana.
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