Episódios de Política

Apatia política, e não apenas migração, pode explicar queda de eleitores, alerta professor

21 de julho de 202616min
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Uma das hipóteses para a redução do número de eleitores no Sudeste é o desânimo com a política de uma parcela da população que, simplesmente, não se preocupa mais em votar, avalia o cientista político Hilton Fernandes. Para o professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, o cenário é prejudicial, pois, segundo ele, quem não participa da política tem de aceitar o resultado de quem escolheu.

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Participantes neste episódio1
H

Hilton Fernandes

ConvidadoCientista político
Assuntos4
  • Calcificação do eleitoradoAumento de eleitores 60+ · Queda de eleitores jovens (16-18 anos) · Envelhecimento da população brasileira · Falta de campanhas para atrair jovens
  • Participação política das mulheresDesigualdade de gênero nas instâncias de poder · Cultura de indicação masculina em campanhas · Voto em mulheres como mudança
  • Regulação das redes sociais e fake newsOportunismo e disseminação de notícias falsas · Risco de manipulação por fontes únicas · Importância de verificar múltiplas fontes
  • Cenário eleitoral em São PauloConcentração de eleitores em SP e MG · Poder econômico e político de São Paulo · Histórico de candidatos presidenciais de SP
Transcrição18 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Muito bem, aqui no CBN Madrugada, espaço para a gente falar um pouco mais aí sobre eleições. Nesta segunda-feira, o Tribunal Superior Eleitoral divulgou muitos dados aí relativos aos eleitores que estão aptos a votarem este ano. São 158 milhões e 700 mil brasileiros e brasileiras, um aumento de 1,46% em relação às últimas eleições gerais. A gente vai conversar aqui no CBN Madrugada com o professor Hilton Fernandes, que é cientista político, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pesquisador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais. Professor Hilton, muito bom dia, é um prazer tê-lo conosco aqui na CBN.

HFHilton Fernandes

Olá, bom dia, é um prazer estar aqui com vocês.

?Voz A

Hilton, tem vários dados aqui que eu gostaria de abordar, que foram divulgados nesta segunda-feira, Tem algum aspecto que você tenha observado aí que tenha chamado mais a atenção em relação a essas informações que foram transmitidas pelo TSE nesta segunda?

HFHilton Fernandes

A divulgação do TSE chamou atenção principalmente em dois pontos. Um deles foi um aumento grande no número de eleitores registrados no exterior, e o outro ponto foi a diminuição do número de eleitores no Sudeste, enquanto as outras regiões cresceram. Isso tem provavelmente explicação tanto na migração como na atualização dos registros do TSE, mas também a gente pode acreditar que no caso do Sudeste tem uma parcela da população que já não se preocupa em participar das eleições.

Já não tem mais ido votar. E depois de 3 faltas, né, 3 turnos que a pessoa não vota, o título pode ser cancelado. Essa é uma hipótese da diminuição dos eleitores em São Paulo, no Sudeste, em São Paulo também.

?Voz A

O que é bastante preocupante, não é, professor Hilton Fernandes? Eu tenho destacado aqui no CBN Madrugada, praticamente não posso dizer que é todo dia, mas quase todo dia, infelizmente, a gente recebe participações de ouvintes tanto pelo WhatsApp, pelo YouTube, pessoas dizendo: ah, eu não voto mais, eu não acredito mais em política, eu não voto mais. E essa apatia política, esse momento em que as pessoas acabam desistindo mesmo de exercer a sua cidadania, é algo bastante preocupante, não é, professor?

HFHilton Fernandes

Sem dúvida. Quem não participa da política tem que aceitar o resultado de quem participou. Quem foi lá votar escolheu. E se você não acredita na política, ela ainda continua fazendo muito efeito, tendo muito impacto na vida de todos. Não adianta não acreditar. A gente entende que diante de denúncia de corrupção, de agressividade, tem aparecido muito nos discursos políticos e também no período de eleição, É comum, né, que a pessoa, os eleitores, fiquem desanimados.

Eu acho que isso até a gente consegue entender, mas esse desânimo ele pode prejudicar ainda mais e se transformar num afastamento. A pessoa se afastar da política, isso prejudica ainda mais, porque aqueles que pregam mais agressividade que ficam ali o tempo todo brigando pela política, eles vão continuar participando e vão tomar as decisões. Então, por mais que seja algo que traga desânimo para gente, né, e principalmente para quem não vê mudanças na política, a participação é importante, né.

Ainda que a pessoa não se informe muito, é importante ir lá votar, saber o nome dos candidatos, porque assim ela consegue pelo menos colocar a vontade dela. E agora não mudou, quem sabe no futuro, né? Mas se ela não participar, aí não muda mais.

?Voz A

E falando em participação, né, professor Hilton Fernandes, destacar aqui a questão da participação da mulher. Brasil tem mais mulheres do que homens, se não me engano tá em cerca de 6 milhões, número a mais de mulheres em relação a homens hoje no Brasil. E os dados do TSE mostram que no eleitorado, que é mais ou menos a proporção da população, né, são 52 2,8% de mulheres eleitoras. E aí a pergunta que fica é, né, o que que falta para a gente ter uma maior representatividade das mulheres nas instâncias de poder?

Se a gente olhar para o Congresso hoje, o Congresso brasileiro é formado por 18% apenas de mulheres. Se a gente voltar umas duas eleições, tava em 10%, 11%. Ainda aumentou bastante aí nos últimos anos, mas ainda assim, né, de cada 5 parlamentares, só uma é mulher. O que que falta para a gente mudar essa situação, professor Hilton Fernandes?

HFHilton Fernandes

Eu diria que essa é a principal pergunta que o eleitor deveria fazer esse ano: por que tem tão poucas mulheres na política? Não é porque a mulher não quer participar, é porque esse é um processo cultural em que os homens dominaram durante muito tempo, e aí fica mais difícil de abrir espaço para as mulheres. É como se fosse um O emprego, né? O emprego, quando você, quando surge uma vaga, as pessoas indicam os amigos, né? Os homens levam os homens para as campanhas eleitorais.

Então as mulheres precisam brigar mais para conseguir esse espaço. Infelizmente a gente ainda vive isso, né? Uma dica que eu daria para o eleitor que está descontente com a situação é votar em mulheres nessa eleição. Não importa se é de esquerda, direita, qual que é a ou a ideologia, ou a proposta. Votar em mulheres já é uma mudança que a gente sabe que vai fazer efeito nas câmaras, nas assembleias, porque tem ali um papel importante de agenda, né?

As necessidades, as demandas das mulheres são diferentes das dos homens. Quanto mais mulheres, melhor para o equilíbrio da política no Brasil.

?Voz A

Até na questão da corrupção, né, professor Hilton? Há pesquisas que mostram que as mulheres se envolvem menos em corrupção do que os homens, né?

HFHilton Fernandes

É isso. Eu diria que tem mais a ver com aquilo que eu falei anteriormente, né, da relação dos amigos, porque a corrupção precisa ali de um ajudando o outro para esconder. E aí, como isso tá muito entranhado na nossa sociedade, Quem está lá mais tempo é quem pratica mais. E como tem muito mais homens mais tempo na política, é natural que esteja mais relacionado a homem. Então isso já seria também uma forma de melhorar a nossa política, né?

Porque quando você coloca pessoas novas, e aí entrando mais mulheres, você quebra essa rede de apoio de corrupção.

?Voz A

São Paulo, voltando à questão regional, professor, São Paulo, apesar de ter tido uma redução na parcela do eleitorado de 22, 1 em 2002 para 21,4 agora em 2026. Teve uma redução. Apesar disso, é o estado de longe que tem mais eleitores, né? São mais de 34 milhões de eleitores. O segundo é Minas Gerais, tem praticamente a metade, pouco mais de 16 milhões. O Rio de Janeiro, 12 milhões. E aí vem Bahia com 11, Paraná com 8. Se a gente pegar esses 5 estados juntos eles têm metade, mais da metade dos eleitores no Brasil. Em que medida esses dados influenciam as campanhas, professor?

HFHilton Fernandes

Isso é um dado que às vezes esconde um pouco o poder político desses locais, desses estados. No caso de São Paulo, o estado de São Paulo, ele tem na história indicado o nome que foram de governadores ou até prefeito da capital para serem candidatos a presidente. Tem muitos candidatos a presidente que foram candidatos antes aqui na cidade de São Paulo ou no estado de São Paulo, porque a visibilidade é muito grande, os meios de comunicação aqui são muito fortes, né, o poder da região, porque tem muitos recursos aí falando de economia, né.

Tirando o primeiro orçamento que é o do Brasil, segundo é o estado de São Paulo. E a cidade de São Paulo, não lembro agora se estava ali em terceiro ou quarto, mas também só uma cidade com orçamento muito grande. Então isso faz diferença no poder político, no poder de visibilidade e até no controle dos partidos. A gente vê nas grandes lideranças dos bastidores, que são os presidentes de partido, muitos deles são de São Paulo. E isso faz diferença, né?

E aí quando a gente pensa São Paulo, Rio, Paraná, Bahia, Minas, que é praticamente um conjunto ali, não é à toa que a gente teve um período na nossa história do café com leite, ficava ali São Paulo e Minas trocando quem era o presidente, né? É um poder econômico, um poder de influência muito grande.

?Voz A

A gente tá conversando aqui no CBN Madrugada com o professor Hilton Fernandes, cientista político, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Hilton, eu achei Foi muito interessante também a divulgação dos dados sobre a questão da faixa etária dos eleitores, que mostra um aumento significativo de eleitores 60+, 13,9%, e uma queda significativa também de eleitores com menos de 18 anos, aquela garotada ali entre 16 e 18 que já pode votar, pode optar por votar ou não.

Houve uma queda de 14,5% em relação à última eleição. A explicação para essa queda, né, dos jovens e aumento dos mais idosos tem a ver somente com a questão demográfica, ou os jovens estão menos interessados e os idosos mais engajados, professor?

HFHilton Fernandes

É, na questão dos idosos tem a ver bastante com as gerações, né, com o movimento demográfico que é esperado. A população brasileira tem envelhecido, então esse aumento no número de eleitores com mais de 60 anos a gente tem visto seguidamente porque a população está envelhecendo. Isso é uma coisa esperada. E curiosamente, o número de mulheres, né, a gente comentou antes, que chega a 53, quase 53, né, 52,8% dos eleitores, Nessa faixa de 60 a mais, ela ainda é maior, porque a gente sabe, né, as mulheres conseguem viver mais que os homens.

Os homens têm uma capacidade incrível de morrer antes. E aí, por causa disso, esse grupo mais idoso aumenta o efeito da participação, da quantidade de mulheres no total. Sobre jovem, sempre tem também de eleição para eleição uma diferença, porque 16, 17 anos não é obrigatório. Então, se não houver uma campanha para chamar os eleitores, para chamar os jovens a participar, eles não são obrigados. Então eles podem não se registrar.

Em 22, na última eleição nacional, houve uma campanha E aí a gente pode perceber ali um movimento em 22 de mais participação dos jovens. Neste ano não aconteceu. Isso provavelmente é um dos grandes fatores de explicação, ainda que a tendência demográfica agora talvez seja de que não tenhamos tantos jovens daqui para frente porque a população está estão aumentando mais devagar, né, as famílias estão tendo menos filhos. Ainda assim, a diferença foi grande em relação a 22, e provavelmente tem a ver com essa falta de campanha para trazer, atrair o jovem, como aconteceu na última eleição.

?Voz A

A gente tem mais 2 minutinhos aqui, professor Hilton, e agora eu faço uma pergunta ao pesquisador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais. Você falasse da importância das redes sociais nestas eleições, da responsabilidade que cada um de nós temos que ter, né? Porque eu sou um comunicador de rádio, mas a população brasileira e mundial que tem um perfil em rede social também é comunicadora, né? Então a responsabilidade que tá intrínseca a essa questão.

E sobre as medidas que foram adotadas aí pelo Supremo Tribunal Federal para tentar de alguma forma evitar fake news, evitar problemas maiores, né? Nas eleições, professor?

HFHilton Fernandes

A internet, principalmente as redes sociais, permitiram a inclusão de muitas pessoas. Agora a gente consegue se comunicar com mais facilidade, a gente consegue conversar com pessoas que antes a gente não teria acesso, a gente consegue divulgar nossas ideias. Mas por outro lado também tem ali sempre os oportunistas que utilizam essas facilidades para proveito próprio. E o período eleitoral já faz um tempo que a gente tem percebido o quanto é importante a gente ficar atento ao que sai nas redes sociais, ao que sai na internet, o que é publicado, porque tem muitas notícias falsas.

E aí não é só em redes sociais, né? A gente usa muito ali aqueles serviços de mensagem, WhatsApp, Telegram, que também é de certa forma uma rede social E é onde mais se divulgam notícias falsas. Infelizmente, essas notícias vêm acompanhadas daquelas frases de querem esconder de você, não acredite na imprensa tradicional, não acredite nos meios de comunicação, e para dizer que é para acreditar só naquela pessoa ou só naquele email que passou informação para ela.

Isso é o pior. Porque a gente sempre tem que ver mais de um meio, mais de uma fonte de informação para não ficar ali num risco de manipulação. Se tem alguém dizendo não acredite nos outros, já desconfie. Esse é um risco real que a gente já viu acontecer em vários países, não só no Brasil, mas informações estão falsas e que atrapalham a vida das pessoas, mas são divulgadas de forma como se fosse um segredo e que você não pode acreditar nos outros, só pode acreditar naquela fala.

Isso é o pior. Nós temos sim que ouvir os outros para entender melhor o que tá acontecendo na nossa volta, nossa realidade.

?Voz A

Muito bem, professor Hilton Fernandes, cientista político da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Obrigado mais uma vez pela gentileza aqui com a Rádio CBN. Um bom dia e até uma próxima.

HFHilton Fernandes

Até a próxima, foi um prazer.

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