Michelle se 'construiu como peça política importante' por transitar entre religião e politica, avalia antropóloga
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Lívia Reis
- Evangélicos e PolíticaVoto evangélico · Voto católico · Lula · Flávio Bolsonaro
- Atuação de Lucia na políticaGramática religiosa e política · Mulher virtuosa · Michelle Bolsonaro · Bolsonarismo
- Voto FemininoVoto familiar · Segmentação do eleitorado feminino · Michelle Bolsonaro
- O Papel da Mídia e da Comunicação na Expansão EvangélicaPolíticas públicas · Pânico moral · Lula
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Vamos falar sobre eleições e sobre a disputa pelo voto de grupos de eleitores no Brasil. A gente tem visto um racha na extrema-direita, de olho nos votos dos conservadores, de olho nos votos das mulheres, vamos de olho nos votos dos evangélicos, dos religiosos. Vamos falar um pouco sobre esse assunto agora. A gente tem o prazer de receber aqui no Estúdio CBN a antropóloga, coordenadora da área Religião e Política no Instituto de Estudos da Religião, professora da PUC no Rio de Janeiro, Lívia Reis. Bem-vinda, Lívia!
Boa tarde, prazer falar com vocês.
Boa tarde.
Vamos lá, se a gente olhar para a população religiosa do nosso país, de acordo com os números da pesquisa Datafolha, último censo, os religiosos, as pessoas que se identificam como cristãs somam 86%, ou seja, uma maioria absoluta. Se a gente olhar para o universo dos evangélicos no Brasil, sempre considerando que há diferentes tradições, pentecostais, neopentecostais, enfim, diversas subdivisões, esse público representa cerca de 30% da população.
E por causa dessas vertentes todas, acho que fica claro que não é, não se trata de um grupo homogêneo. Lívia, quero começar te perguntando quais são as características desse eleitorado, sobretudo quando a gente olha para as crenças políticas e ideológicas.
Você tá falando do eleitorado evangélico, né? Olha, a gente aqui no Ize costuma dizer que voto evangélico não existe, né? Mas não porque pessoas que se declaram, né, evangélicas não têm se mostrado mais alinhadas à direita nos últimos anos e nas últimas eleições. Mas porque mesmo dentro do segmento evangélico a gente precisa olhar para recortes, para marcadores sociais, né, de raça, de gênero, de renda, de região. Isso tudo faz muita diferença, impacta no voto.
Então, quando a gente fala de voto conservador de uma maneira geral, a gente precisa justamente incluir nessa conversa não só os evangélicos, mas também o eleitorado que se declara católico, né, para falar de um voto religioso do campo que tá sendo direcionado para o campo conservador. Embora justamente, né, a gente tem aí os dados que mostrem que o eleitorado evangélico vote em massa na direita desde há muitas eleições já.
Bom, e nós tivemos recentemente uma pesquisa Quest, foi divulgada nessa semana inclusive, que mostra que o presidente Lula lidera com folga as intenções de voto para presidência entre os eleitores católicos, enquanto senador Flávio Bolsonaro desponta em primeiro no segmento evangélicos, como você sinalizou. E nós temos visto uma pequena melhora, uma pequena redução da rejeição de Lula por parte dos evangélicos, e também Temos visto que o governo Lula tenta dialogar mais com esse público, tem também apresentado políticas públicas que beneficiam camadas populares que são também do universo evangélico ou universo religioso, como você disse. Na sua avaliação, Lula tem conseguido esse diálogo?
Tem.
E quais são os empecilhos que existem aqui neste diálogo?
Olha, gente, justamente era o que eu tava falando para vocês, né? Por conta, a gente olhar para a população de uma forma geral, a partir de diferentes, de múltiplos recortes, né? Sendo religião um marcador importante que se alia a outros, né, como renda, raça, gênero, etc. Então justamente o Lula tá conseguindo melhorar um pouco a sua avaliação entre o público evangélico muito por conta das políticas públicas que tem promovido em seu governo, né?
De fato, a gente vê uma melhora, mesmo que tímida, dos números na economia, etc. Isso ao longo do tempo, a longo prazo, impacta na vida das famílias, né? Então, se por um lado a gente tem lideranças religiosas, né, católicas, evangélicas e cristãs, fazendo, né, sempre atribuindo, né, ao governo, aos governos de esquerda de uma maneira geral, né, uma perseguição ao povo cristão, uma ameaça às famílias, por outro na prática, no cotidiano, essas mesmas famílias veem a sua vida melhorar, mesmo que timidamente, né?
E isso de fato vai impactar na avaliação que essas famílias fazem do governo Lula. O que eu quero dizer com isso é o seguinte: se por um lado a gente tem lideranças religiosas o tempo inteiro, né, promovendo pânico moral nas igrejas, e não só nas igrejas, né, eu acho que é muito importante a gente pensar em igrejas de uma forma ampliada, porque hoje o papel das mídias sociais e as formas de você ser religioso também mudaram com o advento de novas tecnologias, né, o acesso à internet, etc.
Por outro lado, a vida cotidiana é muito importante para essas pessoas balizarem a sua própria percepção da política. O que eu quero dizer mais uma vez é isso: não dá para atribuir a esse eleitorado uma pecha de que é ovelha, uma ovelha, um rebanho que está sendo levado pelas lideranças religiosas. A experiência cotidiana, a vida real também é muito importante para essas pessoas formarem a sua percepção política. Mas aí, por outro lado, também eu acho que é importante reforçar que de fato a cruzada, né, contra lideranças e figuras de esquerda do campo progressista de fato são efetivas, né?
A promoção desse pânico moral também tem algum efeito na formação política desses fiéis que se convertem em eleitores a cada 2 anos, né, justamente. Então, por quê? Porque essas lideranças, elas estão ali no dia a dia das pessoas, no cotidiano, tem uma relação de confiança. Então, se elas estão ali também falando, né, que o governo vai fechar a igreja ou que não sei, enfim, isso de alguma forma tem aderência no público. Então são as duas coisas juntas.
É o que eu quero dizer, o seguinte: tem a importância da vida cotidiana, essas pessoas formam suas percepções políticas a partir do cotidiano, que também não exclui a importância da relação de confiança das pessoas com as suas lideranças religiosas.
Lívia, a gente tem acompanhado nas últimas semanas, acho que desde que Michele Bolsonaro divulgou aquele vídeo acusando o enteado pré-candidato do PL à presidência, Flávio Bolsonaro, de, enfim, desrespeitá-la. E eu vou resumir assim: a gente tem acompanhado uma movimentação de racha político na família entre Flávio e Michele. Te pergunto: como Flávio Bolsonaro é visto por esse grupo de eleitores? E como Michele Bolsonaro, que é uma liderança religiosa, é vista por esse mesmo grupo?
Olha, essas pesquisas aí que mostraram, né, tanto a Atlas quanto a Quest, mostraram que as pessoas, por um lado, entendem que o vídeo enfraquece a candidatura do Flávio, mas por outro, inclusive dentro do segmento que se declara bolsonarista, a Michele é mal vista por ter exposto o desentendimento familiar a público. Então eu acho que tem duas coisas aí para a gente pensar. Por um lado, a Michele É uma, desde 2022, né, quando ela entra de fato ali no final já do mandato do Jair Bolsonaro, né, para assumir esse lugar de balizadora, de salvadora da imagem do Bolsonaro pós-pandemia, já se vendo ali um pouco ameaçado, ela se construiu muito rapidamente como uma peça política muito importante.
Tanto para o bolsonarismo, mas para o PL também, né, para estrutura partidária. Então aos poucos ela foi adicionando a sua gramática religiosa, gramática política, e hoje ela faz essa passagem de um para o outro de uma forma formidável. Faz muito bem, aprendeu muito rápido o jogo político da estrutura partidária assim, né. Então a Michele, ela ali, ela é a própria mulher virtuosa, né, que tá ali descrita na Bíblia, né, que é muito diferente da mulher feminista, né, que na visão, né, do campo conservador é aquela mulher, tem aquela imagem mais estereotipada, né, a feminista abortista que pede liberdade sexual, tá com os peitos de fora e o sovaco cabeludo na rua marchando, né.
A Michelle, ela não é essa pessoa, né, ela entende a importância da igualdade de direitos, né. O campo conservador tem essa coisa do voto, do lugar das mulheres, né, mas tem um papel social muito específico de complementaridade ao homem, né? São papéis sociais distintos que se complementam, se ajudam mutuamente. Então a Michelle, nesse lugar, né, ela é uma mulher, é uma boa mulher, ela é uma boa esposa, ela é uma boa mãe, ela é uma boa cuidadora, ela é uma boa religiosa, uma mulher forte, fiel, sincera.
Ela bota o joelho no chão e vai ali orar pela sua família, pela nação, e vai balizar inclusive os defeitos de seu marido Jair Bolsonaro. Em 2022 ela vem construindo essa imagem mobilizando uma gramática política que é religiosa e que faz sentido sobretudo para um público mais conservador, tá? O que a gente viu de fato é que esse capital político, de fato, com as últimas pesquisas, no caso, esse capital político ele não se converte necessariamente em preferência eleitoral, tá?
E eu acho que aí entram outras questões mais estruturais da nossa própria sociedade, né? Então o que ela tá, é o que a gente vê também de fato. E aí tá aí a fala do Paulo Figueiredo, né, posterior ao vídeo da Michelle, para provar isso para gente, é que por mais que ela tem exposto, né, de uma forma aparentemente sincera, e a sinceridade é um elemento que é muito valorizado público conservador. É uma, é um elemento que inclusive humanizava a figura do Bolsonaro, de acordo com as pesquisas que faz aqui no Iserc, com mulheres evangélicas.
Essa coisa de falar sem pensar, de expor, isso aí é visto como uma questão que humaniza as pessoas, né? As pessoas erram, as pessoas são humanas, e isso é sinceridade, não é essa coisa montada, pensada, que o Lula é, sabe? Tem essa diferença. Mas mesmo entre esses eleitores, muita gente não acreditou nela, né? Os eleitores de Bolsonaro, segundo a própria pesquisa do Atlas, não acreditaram na Michele Bolsonaro, né? No conteúdo do que ela tava falando ali, que era como verdade, né?
E a gente tá, é isso, né, numa sociedade profundamente machista que tem a violência de gênero como um dos elementos mais presentes na nossa política partidária.
E aí eu te pergunto, bom, parece que lembraram que a mulher vota, né, em ano de eleição. E a gente tem visto essa gramática de que você fala também voltada às mulheres. Como é que você vê essa disputa pelo voto das eleitoras nesse campo político? E quem são elas?
Todas as mulheres desse Brasil, porque a maioria dos eleitores brasileiros são mulheres, né? Então todo ano a gente vê essa disputa infindável pelo voto feminino. São as mulheres que decidem a eleição no Brasil, né? Quer queiram, quer não queiram, né? E aí a gente tem, né, não é à toa que a gente tá vendo todo esse movimento pelo voto familiar, né, do campo conservador, né?
Tirar o direito de voto da mulher.
Isso, tirar o direito de voto da mulher e transferir para o chefe de família, né? No caso seria um homem. Mas ao mesmo tempo, no Brasil, os lares também são muito chefiados por mulheres, né? Então a gente também vê também importação de movimentos transnacionais norte-americanos para o Brasil, ao mesmo tempo que aqui as realidades sociais são bem diferentes, né? Então essa mulher eleitora, ela é disputada toda eleição. Isso não é novidade, a cada pleito eleitoral isso acontece.
É o que a gente precisa entender, como que a gente vai segmentar esse voto. A gente vai ter, por exemplo, as mulheres 70+, as mulheres evangélicas negras, as mulheres evangélicas brancas, do Sudeste, que são diferentes das mulheres evangélicas do Nordeste. Enfim, tem uma forma, tem uma segmentação desse eleitorado. O que a Michele faz, e faz muito bem, é tentar compor o eleitorado feminino a partir justamente da reivindicação do direito à participação política.
Ela tenta ampliar essa segmentação a forma como fala para esse eleitorado feminino. Ela não quer falar só com a mulher evangélica, ela quer falar para as mulheres mais conservadoras e mais preocupadas com a família de uma forma geral. Então ela tá ampliando aí, a partir de uma gramática própria e que é compreendida por essas mulheres, tenta ampliar o seu capital político para além do eleitorado evangélico segmentado e feminino.
Eu acho que de certa forma ela consegue muito bem, ela transita muito bem, inclusive entre setores católicos do campo conservador. Né, tem aliadas no campo católico conservador. Então ela transita e tá aí ampliando esse espectro do eleitorado feminino conservador para além do eleitorado evangélico. Você fez entender, Lívia?
Uma outra questão é o eleitorado que tende a apoiar pautas mais conservadoras, e parece que a corrupção voltou ao centro do debate, principalmente pelo fator Banco Master, @danielvorcaro. Essa é uma preocupação, esse eleitorado coloca esse assunto em que lugar?
Olha, eu diria que a corrupção nunca saiu do centro do debate, né? Eu acho que desde que isso foi o mote para eleição do Bolsonaro ali em 2018, né, depois de alguns governos do PT, a corrupção ela sempre cola muito bem, sempre colou muito bem ao governo Lula e a imagem do Lula, né, é desde o Mensalão, amplas campanhas midiáticas também atribuindo aos governos do PT a questão da corrupção. Isso tá muito incutido na memória dos brasileiros de uma forma geral.
Mais uma vez citando aqui a pesquisa, as pesquisas qualitativas que a gente faz com mulheres evangélicas no Izeé. Quando a gente pensa numa figura de corrupção, as pessoas associam ao PT e ao Lula. Isso não é novidade. As pessoas também querem votar em pessoas que acreditem ser honestas e mais incorruptíveis. O Bolsonaro até então, né, hoje Bolsonaro, a família Bolsonaro de uma forma geral, passava a imagem, né, uma imagem mais incorrompida, mais longe desses esquemas de corrupção até então.
Mesmo quando teve, né, o escândalo das joias, das joias da própria Michele Bolsonaro, que foram dadas a ela, inclusive, isso não foi percebido como corrupção pelas pessoas de uma forma geral, tá? Corrupção é a corrupção do Lula, é a corrupção estrutural. Isso aí é uma outra coisa. O que muda de figura agora com o escândalo do Banco Master, é que tá completamente ligado, né, ao Flávio Bolsonaro, a família Bolsonaro, mas não a Michelle.
E também Por outro lado, né, essa série de prisões de aliados da família Bolsonaro aqui no Rio de Janeiro, né, aliados que estão ligados tanto às milícias quanto ao tráfico de drogas, isso tem impulsionado as pessoas a pensar um pouquinho mais sobre a ligação da família Bolsonaro com corrupção. Isso até então era impensável, não existia rachadinha, compra de imóvel com dinheiro vivo, nada disso parecia um problema. Agora eu acho que a coisa começa a mudar um pouco de figura porque a gente tem provas, né, provas que são factíveis, que estão aí circulando no mundo, que começa-se um pouco a pensar que a família Bolsonaro também pode ser corrupta.
E isso tem, como a gente viu nas últimas pesquisas, se refletido na queda da intenção de voto para o Flávio Bolsonaro.
Tudo bem. Lívia Reis é antropóloga, coordenadora da área religião e política no Instituto de Estudos da Religião, E professora da PUC-Rio. Lívia, obrigada por estar aqui conosco hoje. Venha sempre ao Estúdio CBN. Uma boa tarde.
Obrigada, boa tarde.
Obrigado.
E claro, daqui até as eleições a gente vai voltar a falar sobre as movimentações em torno da busca do voto, do seu voto, voto do eleitor. Back.
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