'Brasil não pode mergulhar nesse conflito', diz especialista sobre tensão entre EUA e Irã
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- Relacoes EUA-IraEscalada de ataques · Retaliações iranianas · Ataques preventivos americanos · Possibilidade de cessar-fogo · Impacto na região
- Geopolítica do Estreito de OrmuzLocalização estratégica · Capacidade de bloqueio · Importância para energia global · Manipulação de decisões internacionais
- Preços de Combustíveis e PetróleoControle do Estreito de Hormuz · Abastecimento global · Pressão econômica · Leverage diplomático iraniano
- Mediação InternacionalFalha das negociações EUA-Irã · Reunião cancelada · Estratégia diplomática horizontal vs vertical · Negociadores em círculos
- BRICSChina como líder dos BRICS · Interesse da China no Irã · Monetarização com países membros · Pressão sobre China · Mediação China entre Irã e Arábia Saudita
- Conflito EUA-IrãPressão na economia mundial · Risco sistêmico · Abastecimento de energia · Volatilidade de mercados
- Dinâmica de inteligência e oportunidade táticaLocalização de líderes iranianos · Coordenação de ataque · Inteligência de espionagem · Oportunismo estratégico · Falha de segurança iraniana
Temos a oportunidade agora de conversar com Tiago de Aragão, CEO da Arco Advice International e professor de Relações Internacionais da Marymount University nos Estados Unidos. Tiago de Aragão, muito obrigado pela sua gentileza de estar conosco. Bom dia. Bom dia, um prazer. Considerado esses primeiros impactos que temos dos conflitos que se iniciaram no final de semana e essa escalada que está ocorrendo, que olhar nós devemos ter nesse momento para a influência de que esses ataques podem ter na economia.
de uma maneira geral? Olha, esses ataques eles já estão tendo um impacto muito grande e vão ter um impacto ainda maior, porque até o momento onde tivemos um colapso total do atual regime governo iraniano, nós vamos ter retaliações constantes. Tudo vai depender da velocidade dos ataques americanos e israelenses contra o Irã e se isso vai ser suficiente para desmantelar toda a estrutura do governo e desmantelando
quando a estrutura do governo você eventualmente consegue paralisar os contra-ataques que o Irã pode fazer, mas até que isso aconteça, é aquela velha frase de morrer atirando. O Irã vai seguir gerando dano na região e ele tem esse ponto que é extremamente forte, que é a capacidade de fechar e manipular o trânsito no centro de Hormuz. Nada afeta mais a energia no planeta,
cada carro no planeta do que o Irã com essa capacidade no Estreito de Ormus. E qual pode ser o impacto a partir do fato de esse conflito inicial estar se espalhando com as retaliações que são feitas pelo Irã e também com os novos ataques que estão sendo realizados hoje de Estados Unidos e Israel contra o país? A sequência de ataque dos Estados Unidos e Israel contra o Irã era algo programado.
tinha uma janela de que não havia, não é que ele estava marcado para acontecer nesse final de semana já há muito tempo, o que aconteceu foi também um ataque de oportunidade, o ataque ele estava pronto para acontecer, mas não sabia exatamente quando que ele ia acontecer, mas o fato de você ter pela primeira vez em anos a união de vários líderes iranianos, mais o Ayatollah, no mesmo local,
foram alertados por espiões que eles tinham no solo. Então, essa situação gerou uma oportunidade de aceleração do ataque que aconteceu no final de semana, porque eles sabiam que não teriam uma oportunidade em muito tempo de ver e saber onde estavam todos os líderes ou os principais líderes ao mesmo tempo. Há uma previsibilidade aí. O que não há previsibilidade é a forma como o Irã rebate, porque o Irã, ele acaba envolvendo, obviamente,
vários outros países da região e a partir do momento que ele envolve vários outros países da região, isso é um caminho sem volta. Ele, ao invés de gerar uma situação onde o ambiente no Oriente Médio vai forçar um pedido de cessar fogo, quando ele envolve o Catar, o Bahrein, os Emirados Árabes, a Arada Saudita, a Jordânia, entre outros, ele se isola completamente e esses países que normalmente pediriam cessar fogo para
manter as suas próprias estabilidades, eles acabam também partindo pro ataque contra o Irã. Então, aí sim, a instabilidade é muito grande. E é como que o Irã e quanto que o Irã vai continuar retaliando em cima dos outros países. Jair de Aragão, logo na sua primeira fala, você chamou atenção pra importância do Estreito de Hormuz. Eu queria pedir a sua gentileza até pra descrever o porquê dessa importância geopolítica dessa região, que dominado ali pelo Irã, pode causar um tremendo problema de abastecimento
no mundo? Uma grande, grande quantidade do petróleo mundial, ele passa pelo Estreito de Hormuz. Você tem o Estreito de Hormuz, que é um pequeno corpo de água que está entre o Irã e a Arábia Saudita, com o Bahrein, com o Catar, com os Emirados Árabes, nessa proximidade. E o Estreito de Hormuz, como o nome diz, ele é um estreito onde você tem uma capacidade de bloquear com uma certa facilidade.
Irã, ele aposta nisso há anos como uma forma de chamar atenção no mundo e de manipular as decisões no mundo pra que você tenha um engajamento maior de outros países tentando buscar alguma solução diplomática pra um problema. Então, é basicamente um refém. O Irã, ele tem uma capacidade de pegar a energia global, que é o trânsito desse petróleo que passa pelo Estreito de Hormuz, obrigatoriamente, e colocar como refém nessa situação.
Então, a partir do momento que o Irã demonstra uma capacidade de fechar esse estreito e pedir que navios entrem e saem, ele pode, os preços disparam e isso coloca uma pressão muito grande em outros países para tentar negociar algum acordo diplomático aí. É a única chance que hoje o regime iraniano tem de sobreviver, porque ele está já desmantelado, sem o Ayatollah, os ataques vão continuar, o Irã vai resistir,
E essa é a grande oportunidade que eles têm de tentar algum tipo de cessar fogo e eventualmente uma negociação. Como que fica agora essa questão da negociação quando nós sabemos que havia uma negociação em curso, um diálogo aberto entre Estados Unidos e Irã, inclusive tinha reunião prevista para esta segunda-feira e mesmo assim houve um ataque no sábado. Isso é também um baque não apenas em relação às estruturas de poder no Irã, mas em relação à própria diplomacia?
Sim, é. Agora, não existe uma... Essas negociações e a estratégia adotadas por um país, ela não funciona de uma forma vertical, onde a diplomacia está sempre no topo. Ela muitas vezes funciona de uma forma horizontal, onde a diplomacia é a forma preferida, mas mais uma forma de você buscar o seu objetivo nas relações internacionais. Nesse caso, o que aconteceu era que a diplomacia estava em curso,
havia um prognóstico para essa reunião. Você tinha, por um lado, o governo dos Estados Unidos interessado em manter uma reunião, o governo de Israel interessado de uma forma secundária, não com tanta ênfase quanto o governo dos Estados Unidos. E o que aconteceu é que as negociações não estavam andando muito bem. Havia uma percepção por parte de negociadores americanos que os iranianos estavam andando em círculo para ganhar tempo.
de frustração. E aí, como eu falei anteriormente, uma oportunidade que eles não haviam visto há anos acabou surgindo, que é nós sabemos o horário, o local e quem vai estar nessa reunião. Então isso foi uma oportunidade que surgiu que o Israel estava buscando já há um tempão e mostrou um erro momentâneo, brutal por parte dos iranianos que não foram capazes de manter a sua
principais lideranças escondidas, que é o que eles vinham fazendo há um tempo. Então, essa oportunidade gerou o ataque, você teve mais uma sequência de outros ataques que visavam as defesas do país pra evitar ou diminuir a capacidade de contra-ataque, aí entrou no espiral, porque era natural que o Irã iria retaliar. Tiago de Aragão, do ponto de vista político e olhando aqui para o Brasil, como é que fica a relação do Brasil com o Irã e colocando nessa nossa discussão e nesse olhar também o papel dos BRICS nesse cenário?
Olha, a questão dos BRICS, isso acaba botando uma pressão muito grande sobre a China, porque a China é a dona dos BRICS. Se você observar a formação, principalmente a segunda formação dos BRICS, depois da entrada de novos países como o próprio Irã, são países que satisfazem interesses chineses. Em que sentido? Se você olhar a nova leva de países que entraram nos BRICS, a maioria desses países ou tem dificuldades de obter dólar ou são proibidos em obter dólar.
Então, isso é algo que satisfaz a China, onde ela gera cada vez mais uma capacidade de swap monetário com vários outros países, inclusive com o Irã, e para eles é o interesse de internacionalizar o Yuan. Então, os BRICS acabam sendo um conjunto de países que, de uma forma ou outra, não interagem muito entre si,
Então, nesse sentido, os BRICS acabam não mudando muito, mas colocam uma pressão muito grande em cima do que a China vai fazer. A China vinha fazendo uma aproximação entre o Irã e a Arábia Saudita, que agora vai tudo colapsar por conta disso e desses ataques. Então, esse é um ponto importante. Em relação ao Brasil, o Brasil sempre manteve uma relação aberta, um diálogo forte com o Irã. É natural que esse governo vai tentar se colocar novamente como um eventual mediador
os Estados Unidos não vão aceitar, Israel também não vão aceitar, mas desde que o Brasil entenda que isso não deve afetar os objetivos maiores que ele possui hoje, com outros países, principalmente com os Estados Unidos, esse é o ponto mais importante. O Brasil não pode mergulhar nesse assunto do Irã de uma forma buscando algum tipo de protagonismo de negociação,
prejudicar alguns outros objetivos que nós temos. É natural que o governo faça um comunicado aqui e acolá, mas se envolver de uma forma mais profunda não deve acontecer e se acontecer é um erro muito claro. Tiago de Aragão, muito obrigado pela sua análise aqui no Jornal da CBN, nos ajudando a compreender melhor todo esse contexto. Um bom dia. Um bom dia, obrigado a vocês. Tiago de Aragão é CEO da Arco Advice International, professor de Relações Internacionais de Marymount University nos Estados Unidos.