MAURO RAMOS [DUBLADOR DO SHREK] - Flow #616
O dublador do Shrek, Pumba, Jinbe, Sullivan, Jet Black e vários outros personagens maneiros.
- Jornada Profissional de Fernanda MeirellesInício na dublagem · Trabalho no rádio · Teatro · Primeiros personagens · Pumba · Shrek · Jinbe · Sullivan
- A profissão de dubladorDesafios técnicos e artísticos · Adaptação de personagens · Trabalho com diretores · Remuneração · Ética profissional · Dubladores funcionais · Glamour vs. realidade
- O mercado de dublagem no BrasilHistória da dublagem · Herbert Richers · IC · Álamo · BKS · AIC · Star Talents · IA na dublagem
- O impacto da dublagem na vida das pessoasReconhecimento e gratidão dos fãs · Momentos emocionantes · Alcance do trabalho
- Dublagem internacional e adaptaçãoDiferenças entre dublagem e versão brasileira · Influência da cultura local na dublagem · Dublagem italiana · Dublagem alemã · Dublagem portuguesa · Mel Blanc
- O papel dos Star Talents na dublagemContratação de celebridades · Impacto na percepção pública da dublagem · Substituição de dubladores
- O processo de dublagem de filmes e animesAdaptação versus tradução · Desafios da dublagem de animes · Dublagem de One Piece · Dublagem de Johnny Quest · Dublagem de O Rei Leão
Voz A:You have one new message. Ring, ring, ring, ring. Translating. Disney and Pixar's Hoppers is now available on Disney+. You could say that again. Critics are calling it Pixar's funniest movie ever and a wildly entertaining ride. Blizzard potato. It's certified fresh and verified hot.
Voz B:Woo!
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Voz B:Salve, salve, família! Bem-vindos a mais um Flow.
Mauro Ramos:Eu sou Igor.
Voz B:Hoje eu vou conversar com Mauro Ramos.
Mauro Ramos:Obrigado por vir aí, cara. Obrigado a você por me chamar, pelo amor de Deus, cara.
Voz B:Eu te falei antes assim, mas vou ter que falar de novo, que é muito estranho ficar, ouvir você falar, entendeu? Olhar para tua cara, tipo, você falando normalmente. Mas em geral eu sinto isso com dubladores, né? Sim, a gente já ouviu a voz de vocês em tanta, com tantos outras faces, né, que é estranho, sei lá, é o Pumba que tá falando.
Mauro Ramos:É, o pessoal acha que quando conversa comigo que a conversa tá sendo dublada, mas para mim é natural, é normal. Então eu acho meio estranho, mas eu também, como um consumidor da primeira geração da babá eletrônica da televisão, eu também curti muito o produto dublado. E eu sei como o fã sente, porque eu senti isso quando comecei a dublar e encontrar os caras com aquelas vozes que eu ouvia na televisão, entendeu? Túnel do Tempo, Aventura Submarina e Perdidos no Espaço, aquela coisa toda. Então eu sei exatamente como ele sente no início mesmo.
Voz B:Calma aí, esse início foi quando?
Mauro Ramos:89.
Voz B:Tá bom, eu tinha 4 anos de idade.
Mauro Ramos:Deus te abençoe.
Voz B:Amém.
Mauro Ramos:Eu já era casado, tinha 2 filhos pequenos. E naquela ocasião eu fiquei completamente desestruturado porque eu ouvia as pessoas e sabia exatamente como o fã se sente hoje.
Voz B:Ó, puxa o microfone para tu aqui, Maurão.
Mauro Ramos:Eu puxo o microfone para mim então? Não, eu não puxava o microfone. E aí eu Eu sei exatamente como se sente por causa disso. Até um fato aconteceu, que foi numa greve, greve de 97, 98, em que nós, o pessoal de São Paulo, eu trabalhava no Rio, nós nos juntamos no Princesa Isabel, no teatro lá, e eu vi o cara que fazia a voz do Doutor Smith do Perdido no Espaço, Borges de Barros. Eu fiquei assim, a Ah, não saía nada. Aqui, quando eu comecei a trabalhar aqui, esbarrei na Dona Gessy, que é uma dubladora da antiga que dublava, sei lá, A Feiticeira e um monte de coisa. E eu não consegui chegar perto dela para cumprimentar. Então eu sei exatamente como fã se sente. Só que eu queria Escolhi não só a dublagem porque tinha uma constância de trabalho, mas porque eu ficava na minha, ninguém me reconhecia.
Voz B:Mas tu gostava disso mesmo? Porque tem uma galera que diz que, bom, no teu caso você acaba ficando, quer dizer, tem dubladores que conseguem, que fazem uns personagens e o fazem tão bem. Vamos lá, o Shrek já era um puto, já ia ser um puto sucesso, ainda tem um puta bom trabalho em cima do troço e aí fica tudo famoso.
Mauro Ramos:Sim.
Voz B:Vai ficar tudo famoso. Então, é dizer que é o dublador do Shrek e numa rede social, por exemplo, traz alguma atenção para você. É, e o que eu quero dizer é que assim, tem algum reconhecimento com esse, com essa exposição, né? E eu, se você for falar para mim que você é famoso, é meio chato, não dá para fazer umas paradas, não sei o quê, às vezes eu quero jantar e é difícil, aí eu vou concordar contigo. Por outro lado, tem, pô, É assim que tu mede que a galera tá curtindo o teu trabalho.
Mauro Ramos:Sim, exatamente. Só que na época que eu comecei, ali pelos anos 90 mais ou menos, a gente ficava na incógnita da vida.
Voz B:Tu queria isso?
Mauro Ramos:Não, não queria, tá? Não, eu era— tinha uma frase feita por um comediante chamado Alegria. Que era um comediante de teatro de revista, mas ele não era um bom dublador, mas ele cunhava umas frases maravilhosas. E ele dizia assim: o dublador é um astro que desponta para o anonimato. E a gente vivia no anonimato. Você chegava no mercado lá e tal, foi fazer as compras, e a caixa falava assim: conheço essa voz, o senhor trabalha em que novela? Porque para eles a relação era: é um ator, sai da televisão, "Então só pode estar fazendo novela, porque voz brasileira..." Porque ninguém tinha noção de como era dublagem realmente, entendeu? Então a gente se acomodava naquela. "Ah, o pessoal não sabe que eu faço a voz de fulano, que Beltrano..." Que bom.
Voz B:Mas como é que tu foi parar nessa? Tua voz, ela é uma puta voz, né?
Mauro Ramos:Tu se envolveu com rádio.
Voz B:O que que tu fez antes? Tu queria ser ator? O que que tu queria fazer?
Mauro Ramos:Bom, eu sou ator desde 1979. Esse ano vai fazer 47, mês que vem, que eu sou ator.
Voz B:Então, de moleque, tu queria ser ator?
Mauro Ramos:Sim, fiz teatro. Os 10 primeiros anos da minha carreira foram fazendo teatro e trabalhando em coisas que eu tinha que me sustentar, porque teatro, se você não é figurão, você não garante nada, né?
Voz B:E aí, papel meio escroto, tipo uma árvore?
Mauro Ramos:Fiz cachorro, por exemplo. Fiz um cachorro no Rápido das Cebolinhas em que eu não falava nada, eu só latia. Eu usava uma fantasia de astracã que só ficava a cara para fora e ainda por cima pintada. E aí tinha uma cena em que eu latia na coxia, corria por trás, latia aqui, corria por trás, latia aqui, entrava, dava uma volta e caía no chão. Meio desacordado. Teve uma vez, rapaz, que na hora escorreguei, pá, bati com a cabeça no chão do palco. O resto da peça, o cachorro, eu fiquei mal, fiquei mal mesmo.
Voz B:Só tinha um cachorro nessa festa?
Mauro Ramos:Só tinha, só tinha, graças a Deus.
Voz B:Ainda bem, né?
Mauro Ramos:Senão ia ter disputa de território.
Voz B:Ele queria cheirar teu cu.
Mauro Ramos:Pelo amor de Deus. Que que é isso? Mas aí eu trabalhei em várias outras coisas para poder continuar fazendo teatro.
Voz B:Eu passava na, quando eu tava no quartel, a gente já volta aí, quando eu tava no quartel eu servi no Forte do Leme, né? E para passar para o, bom, para chegar lá eu pegava o 474 que eu morava na Zona Norte, e aí eu soltava na, porra, atravessava a Princesa Isabel pelo Leme ali, passava numa galeria que tem um teatrinho É para cortar caminho. E nesse teatrinho eu ficava pensando, cara, porque era umas peças infantis assim, meio baixo orçamento, e eu ficava: caralho, mané, porra, imagina tu ter que se fantasiar de um bagulho aqui tipo 5 vezes por dia fazendo, né?
Mauro Ramos:Pois é, meu camarada, toda vez que eu fazia essa peça do cachorro, quando acabava eu tava desidratado, companheiro. Dava vontade de baixar o hospital, pronto-socorro e tudo.
Voz B:Puta merda! Mas tá vivo, né?
Mauro Ramos:Tô, tô vivo. Isso daí, se a gente se não mata, cria resistência, né?
Voz B:E aí tu tava falando do teatrinho, dessas coisas?
Mauro Ramos:Ah, eu fiz bastante peça, né? E aí, mas ao mesmo tempo eu trabalhava em outras coisas. Fui auxiliar de orçamentista em oficina da GM, fui office boy de agência de publicidade, fiz o diabo. Trabalhei.
Voz B:Tu morava onde nessa época?
Mauro Ramos:Eu morava em muitos lugares, não morava em lugar nenhum. É mesmo? É, porque a minha sede era na casa da minha mãe em Coelho Neto.
Voz B:Mãe de Coelho Neto, minha tia mora lá.
Mauro Ramos:Isso. E aí eu ficava na casa da minha tia em Rocha Miranda, ou morei durante muito tempo dentro do teatro do colégio onde eu trabalhava, e ali em Cascadura, que hoje em dia já não existe mais, o Arte e Instrução. Foi ali inclusive que eu comecei a trabalhar. E aí eu acabei, para ganhar uns trocados, cantando na noite com primos e colegas, né? E como eu sabia as letras naquela época e eles tocavam os instrumentos, então eu ficava na frente e tal, e a gente cantava músicas engraçadas. Essa era a proposta, chamava-se Sam Brincando. Grupo, mas depois a gente teve música própria, tipo paródias. Não, era músicas engraçadas do repertório de compositores brasileiros, não é? O Rosa, Sim Valente, entendeu? Do Nirã Barbosa. E aí a gente, para poder continuar e ganhar algum dinheiro, a gente ampliou o repertório e tal, teve que começar a cantar outras coisas. E nessa eu conheci um camarada, um jornalista, um repórter na época, Marcos Sales, que hoje faz biografia do pessoal de samba. E ele me chamou para trabalhar no jornal onde ele trabalhava, Jornal Dia, no caderno de televisão do Jornal Dia. Eu fui secretário, eu acho que fui o único secretário homem naquela época. E aí eu conheci lá uma repórter, e ela trabalhava com a Cidinha Campos na Rádio Tupi, tá? E aí, como eu ali no jornal tinha feito arquivo organizado, arquivo fotográfico, de texto e tal, aquele negócio todo, a Cidinha tava querendo que alguém tivesse a paciência para resolver o arquivo dela lá da produção. Aí a Eliane Martins, que era repórter, me sugeriu meu nome, ela pediu para me chamar. Ok, fui lá, não trabalhei uma semana no arquivo. Ela me deu coisa para fazer completamente fora do que havia pedido para eu fazer. Comecei a escutar rádio de polícia e tal. Daqui a pouco eu tava atendendo o pessoal, é, dando dentadura, perna mecânica, cadeira de rodas, essas coisas, resolvendo problema de luz. E essas coisas, e sempre usando o nome dela na frente para poder conseguir as coisas, né? E aí até que eu comecei a trabalhar lá num quadro humorístico que tinha, que era de um repórter gay, o Gugu, e eu passei a escrever nas férias do produtor. E depois os caras se desentenderam, aliás, ela se desentendeu com o ator que fazia o Gugu. Gugu também deu um shillique no ar. E fiquei sozinho no lance. E aí passei a criar determinadas coisas. E vou lhe dizer uma coisa, foi um período onde eu aprendi muito, mas muito mesmo. Eu fiz de tudo no rádio por causa da Cidinha. Cidinha Campos foi uma grande professora. Ela não era uma professora de chegar e ficar te carregando no colo. Ela era aquele tipo de professora que dizia assim: ah, quer aprender a voar? 'Vai!' E aí você, né, opa, aí você acabava aprendendo a voar. Fiz muitas paródias com ela, fiz personagens. E aí fui chamado para fazer um outro programa que era logo em seguida, chamado Patrulha da Cidade.
Voz B:Caralho, então acertei! Eu não fazia ideia que tu tinha passado pelo rádio.
Mauro Ramos:Olha aí, aí fiz Patrulha da Cidade, acabei sendo redator e tudo mais durante anos. Ali era tudo ao vivo. Aprendi muito também e trabalhava ao mesmo tempo no Rádio Teatro da emissora, que se reunia às quartas-feiras.
Voz B:Tu curtia essa época? Aí tava feliz?
Mauro Ramos:Tava muito. Era uma coisa que eu adorava fazer porque eu era um consumidor de rádio.
Voz B:Mas não foi para— não foi, não era aquele teu sonho?
Mauro Ramos:Não, não, não era. Eu queria naquela época fazer, aparecer em televisão e aquela coisa toda, como todo ator. Mas era bonito. Eu não.
Voz B:Então não tinha como, né, meu irmão?
Mauro Ramos:Não, então por isso é que eu me tarraquei, entendeu? Nunca fui chamado.
Voz B:Pô, tem uma galera, se tu se tarraqueou, imagina, tem uma galera que queria ter tua carreira, porra.
Mauro Ramos:Pô, pelo amor de Deus, coitados, iam se foder. Mas então eu ali...
Voz B:Entendi, o rádio foi foda na tua vida e tu tava feliz pra caralho nessa época.
Mauro Ramos:Tava.
Voz B:E aí, tu tinha quantos anos?
Mauro Ramos:Aí eu tava com 21, 22.
Voz B:Já tinha encontrado a tua esposa?
Mauro Ramos:Não, só os 25.
Voz B:Tá bom, tá bom.
Mauro Ramos:E ainda tava trabalhando no rádio, trabalhava com a Cidinha, trabalhava com a Patrulha da Cidade. E aí aparece para cobrir as férias de um colega da Patrulha da Cidade o sujeito que me colocou na dublagem, que foi Mário Monjardim Filho, Monja. Que fazia o Salsicha, né, o Perna Longa e tal. E ele, por causa de Cordélia Santos, que era uma companheira de programa, ela sugeriu sem eu saber, enfim, mas dá uma oportunidade para ele. Eu fui na Herbert Richa, cheguei lá, nunca tinha visto aquela coisa.
Voz B:Mas como é que tu recebeu esse convite? Tu recebeu esse convite com algum nível de confiança? Pô, legal, quero fazer isso aqui, ou não?
Mauro Ramos:Não. Tudo que eu fiz na minha vida de ator foi para ganhar dinheiro, para me sustentar. Então eu vi assim, opa, uma oportunidade, será que isso dá dinheiro? Se dá um pouco, vamos nós. Eu fui lá 3 vezes.
Voz B:Eu consigo entender, meu irmão. Coelho Neto, Cascadura, que mais que tu citou aí? Eu consigo entender.
Mauro Ramos:Madureira, entendeu? Jacaré Paguá e tal. E aí eu fui, cheguei lá, na terceira ele me puxou pelo braço, eu fiz um teste, achei que foi uma merda, aí ele me puxou, me chamou lá para o superintendente, que era um dos filhos do Herbert, falou: "Ó, pode contratar." E aí, no dia 15 de março de 1989, eu passei a ser funcionário da Herbert Richer como dublador. Tudo que eu aprendi na dublagem, eu aprendi ali. Trabalhando o dia inteiro, ficando mais tempo dentro da empresa do que propriamente dentro de casa.
Voz B:O que mais que tinha de escritório, escritório não, mas de estúdio de dublagem nessa época? Esse era o maior de todos, Herbert Richter, né? Todo filme que a gente via de sessão da tarde, versão brasileira Herbert Richter.
Mauro Ramos:Mas tinham outros que viviam perifericamente de produtos que sobravam. E inclusive quando eu virei diretor de dublagem eu trabalhei em alguns deles também, né? Mas tinha também concorrentes aqui em São Paulo, a Álamo, a BKS, a AIC tinha se transformado em BKS e tinha a Álamo e outros que perifericamente gravavam coisas poucas ali, né? Vivendo da órbita do trabalho, né? Então foi ali que eu aprendi, que eu tive contato com um monte de gente. E hoje em dia eu faço algumas coisas para internet, e uma das coisas é reconhecer o pessoal que, do qual eu sinto falta, que já morreu. E proximamente eu vou fazer o, aquela Gratidão, né? Que eu acho que a gente tem que ser grato. A gente nunca faz as coisas sozinho, não adianta. A gente consegue as coisas porque em torno da gente tem gente nos ajudando a fazer. Então isso eu vou fazer. E tô até hoje na dublagem porque dá dinheiro, porque me sustenta. Tem períodos baixos, tem períodos altos, mas eu fui famoso.
Voz B:Dublagem, pô, olha que legal!
Mauro Ramos:É, eu não tinha ideia.
Voz B:Então, qual foi o teu primeiro personagem que os cara começaram a falar assim: "E ali é o dublador de tal." Foi o Shrek ou não?
Mauro Ramos:Não.
Voz B:Foi quem?
Mauro Ramos:O primeiro que eu fiz foi que eu passei para Disney, que foi o Pumba do Rei Leão.
Voz B:Tá, é verdade, Pumba veio bem antes, na real.
Mauro Ramos:É, 94 foi quando ele veio. Depois vieram outros, graças a ele depois vieram outros. Então tem uma sucessão de coisas. Para mim, o Pumba é importante inclusive porque é o único, a única tatuagem que eu fiz, ó, é o Pumba. Foi o cara que deu o pontapé inicial, né? E o que eu gosto com relação ao meu trabalho, eu espero que não acabe, é que cada pessoa que me aborda ela fala de um personagem diferente. É um, fala de um personagem só que eu tenha feito.
Voz B:Então, tô entendendo, tô entendendo.
Mauro Ramos:Sullivan é o Shrek, é o Coisa, é o Capitão Barbosa, é, entendeu? E isso para o ator Mauro Ramos é gratificante para caraca, porque é sinal de que eu tenho um certo talento para fazer a coisa e que o pessoal gosta do que eu tô fazendo.
Voz B:Para mim é o que eu tava te falando antes, é o Akudo Samurai Jack.
Mauro Ramos:Exato, entendeu? Que aliás foi uma coisa muito curiosa. Uma convenção, um rapaz foi fazer uma pergunta para mim e disse assim: o senhor estudou teatro no japonês para fazer o Abu? Eu falei: "Não, meu filho." "Por que o senhor interpreta como um ator do teatro, no?" Eu falei: "Não sei, meu filho, não sei. Eu não posso ficar perdendo tempo como você perde vendo esse tipo de coisa. Eu tenho que trabalhar, tenho que sustentar filho." E ele me acompanhou durante muitos anos em várias convenções. Sabe como é que eu reconhecia ele? Que era o único que estava vestido de Chapolin Colorado.
Voz B:Porra, um salve para o Chapolin Colorado aí, viu? Pô, esse cara gostava de tu mesmo, né? Cara, tu assiste coisas, tu já ouviu, tu já viu dublagens de outros países?
Mauro Ramos:Muitas vezes.
Voz B:É material de estudo em alguma medida?
Mauro Ramos:Não, ainda não é. Mas eu gostaria que fosse. É, quando eu participei de uma comissão nos idos de 2010, por aí, lá no sindicato dos atores lá do Rio, eu tive contato com colegas de outros países, tá? E nós somos muito, mas muito é elogiados por todo mundo, né? E eu não posso dizer para você que a gente não seja a melhor dublagem do mundo, mas uma das melhores nós somos.
Voz B:Então, e o que que faz, o que que produz uma dublagem tão foda assim? Ó, é, qual que é o contexto que gera uma dublagem tão tão bem feita. A gente tem, eu não assisto, tem filmes que são muito marcantes para mim, sabe? Eles são, eles são, é, o A Nova Onda do Imperador, por exemplo, é um filme que, porra, caralho, isso daí tem um monte, né? Tem uma porrada. Mas o ponto é que parece que tem algum tempero extra, parece ter um cuidado extra, eu não sei o que que é.
Mauro Ramos:O grande problema é que hoje em dia os clientes não estão deixando a gente fazer o nosso trabalho, que é uma versão brasileira. A gente faz uma adaptação das coisas que estão ali na tela. Você citou um que foi adaptado pelo Garcia Júnior, você deve conhecer, e ele foi interpretado pelo Selton. Então são pessoas criativas que pegavam determinados contextos da história e transformavam para um modo brasileiro de falar.
Voz B:É o Celton Mello e Humberto Martins, né?
Mauro Ramos:Isso.
Voz B:E, cara, verdade, verdade, o modo brasileiro, né?
Mauro Ramos:Exatamente. Por isso é que não é tradução brasileira e sim versão brasileira.
Voz B:Mas precisa de uma, precisa que o cliente te dê a liberdade.
Mauro Ramos:Exatamente. Há coisas, há produtos que lá fora ninguém acha que são, nem, nem acham que são bons produtos, mas aqui se tornaram bons produtos. Como por exemplo, As Branquelas. A dublagem das Branquelas é incensada pelo Brasil inteiro por causa dessa adaptação. Os dois filmes daquela animação deu a louca na Chapeuzinho.
Voz B:Isso eu não vi.
Mauro Ramos:Virou meme, tem memes na internet com trechos do filme, entendeu? Então deixa a gente fazer o nosso trabalho.
Voz B:Sabe, eu também gosto de falar isso para os meus parceiros.
Mauro Ramos:Deixa a gente fazer o nosso, sabe, porque a gente é que sabe fazer. Eu tava conversando hoje, trabalhando, né, com colegas, e a gente tava citando alguns colegas da antiga, né, da época dos anos 60, início dos 70, que não, eles trabalhavam com telas grandes, não tinha som de referência, você tinha som para ensaiar, mas não tinha som para gravar. Os caras inventaram tudo da dublagem, tudo. Você vai ver ali, tudo que a dublagem tem foi feita ali. Por quê? Porque permitiram a eles fazer versão brasileira. Hoje em dia a gente não inventa mais nada na dublagem, a gente só presta homenagem, entende?
Voz B:Entendi. Então Mas isso ficou assim faz tempo?
Mauro Ramos:Algum tempo. É uma visão de pasteurização mundial, entendeu?
Voz B:Deixa tudo meio médio, né?
Mauro Ramos:Exatamente. Não vamos fazer nenhum destaque, vamos procurar imitar o que foi feito no original.
Voz B:Isso acontece nos jogos. Como assim? Quase todos os jogos de grandes produtores e tudo mais, eles são tudo muito parecido. Eles pegam a fórmula que eles sabem que dá certo mais ou menos, dá menos chance de dar muito ruim, aqui, né, e faz um troço que tu já viu um milhão de vezes. É legal, mas aqui tem um negocinho diferente, aqui tem um negocinho diferente, mas em essência é a mesma coisa, é médio, é a mesma coisa.
Mauro Ramos:É, isso torna a coisa medíocre, né, a coisa mediana. Não há, não há uma forma de destacar, que teria oportunidade se deixasse a gente fazer o nosso trabalho, tanto no jogo quanto na dublagem de filmes e animações, entendeu? Como no live action. Hoje em dia a gente perdeu muito trabalho para estúdios da Argentina que fazem reality shows e fazem documentários lá mais barato. A gente não tem garantia, reserva de mercado, entendeu? E a gente também tá batalhando Tem a IA que tá por aí rondando a gente, que eu não acredito que vai terminar com a dublagem.
Voz B:Eu também não acho que vai terminar com a dublagem.
Mauro Ramos:É teatro amador, existe, não acaba com teatro profissional, entendeu? É cinema amador, existe e não acaba com cinema profissional. Então dublagem é a mesma coisa, só que vão se adaptar, as coisas vão se adaptando ao longo do tempo. A gente já passou por tantas fases diferentes de modificação que a gente, né, vai se adaptando e vai ficando. Eu, quando comecei, a gente ganhava X, né? Eu me lembro, cara, que eu trabalhava naquela época que eu comecei também vendendo jornal Gazeta Mercantil. Olha só que roubada! Puts, só vendi, passei lá 6 meses, fiquei segurando porque o plano de saúde deles era maravilhoso, e nasceu meu filho logo depois, né? Mas eu só vendi uma assinatura, e quando eu tava indo embora, o cara tava reclamando que ainda não tinha recebido nenhum jornal. Para você ver o nível, entendeu?
Voz B:Que pariu, cara!
Mauro Ramos:Aí eu ganhava salário mínimo. E ganharia comissão se tivesse vendido. Eu fazendo uma hora de dublagem durante 4 semanas, ou seja, um mês, só uma hora, eu ganhava o dobro do que eu ganhava. A gente ganhava bem. Hoje a coisa, a gente foi perdendo, foi perdendo, negociações mal feitas, é uma série de discussões. E aí agora a gente Para ganhar o que a gente ganhava e ter aquele poder aquisitivo que a gente tinha há 30 anos atrás, a gente tem que trabalhar o triplo para ganhar metade. Não é sacanagem.
Voz B:Ainda, tu acha que isso acontece porque tem muito mais profissional hoje chegando também?
Mauro Ramos:E isso acontece sempre. Antigamente era o rádio que era o celeiro da dublagem. O pessoal chamava o pessoal de rádio. Mas o próprio mercado penera o profissional. Só fica quem é funcional, companheiro. Quem é que trabalha conforme o mercado precisa, entendeu? Quem não precisa vai ficar com dois de cotovelo em casa dizendo que é uma panela, quando não é. Porque às vezes o cara não tem aquela visão pessoal e humilde de reconhecer que não tem queda para fazer aquilo. Entendeu? Porque não é fácil, vou confessar para você que não é fácil. A vida foi me preparando sem eu saber para ser dublador. Então, para mim foi razoavelmente fácil porque a vida me preparou. Mas tem muita gente que segue outro caminho, entende? Então, eu não sei, mas o mercado ele penera as coisas. E tem que ter uma renovação. Sai um monte de gente de curso, mas não fica trabalhando nos próximos 10 anos todo aquele pessoal que fez o curso, porque o próprio sistema vai lá e peneira para saber quem é funcional.
Voz B:Até porque é, é. E como é que tu, como é que adapta então a visão? Bom, já entendi que boa parte das motivações é para pagar o boleto. Mas como é que fica a visão artística daquele moleque que queria ser ator numa, num trabalho, por exemplo, que tu, puta, tu vai ter que fazer de um jeito que tu sabe que é uma merda, que o cara quer desse jeito merda e não tem jeito?
Mauro Ramos:A gente faz porque é profissional. Né, não tenho, mas a gente vai procurar fazer aquilo da melhor forma que puder. Eu não, desculpe, mas eu não trabalho com mediocridade. Não é querendo ser melhor que os outros, não. É porque eu vou me esforçar, eu vou fazer o que eu puder para aquilo ali ficar uma coisa decente para o o ouvinte, o espectador poder apreciar, mesmo que seja uma bosta. Mas eu vou fazer o quê, cara?
Voz B:Que é o cara que é comer cocô, né?
Mauro Ramos:Exatamente. Não posso fazer nada. Agora, quando a gente pega um trabalho em que a gente pode fazer um bom trabalho de ator, aí, cara, quando a gente consegue e o pessoal tem uma receptividade boa Puts, aí é maravilhoso.
Voz B:Bom, o Pumba foi o que tu tatuou, entendi, foi onde tudo começou, foi foda demais. Mas me dá um exemplo, sei lá, recente de um que tu pôde fazer isso que tu acabou de dizer aí, que é poder atuar, poder ser ator. Um, sei lá, dá para fazer isso em jogo? Acho que em jogo menos ainda, né?
Mauro Ramos:Não, jogo não dá porque a gente não vê boca nem interpretação do cara em movimento. A gente só vê as ondas sonoras, então a gente passa a ser meio que surfista de onda sonora, né? Mas é na dublagem, dá esquisito, é muito esquisito. A gente escuta, tem 3 tipos de áudio: é aquele que você tem que fazer certinho, com, tem uma pausa aqui, você tem que dar uma pausa, e aquele não. Tem outro que tem, você pode fazer direto, mas tem uma, né, um rabinho ali que você pode passar. E tem um outro que é de qualquer jeito, não tem preocupação de tempo, entende?
Voz B:Então é difícil, sem ver o que que tá acontecendo e tudo mais.
Mauro Ramos:A gente depende exclusivamente da direção. A direção dá realmente a direção para o ator, senão já era. Você dá uma inflexão que não tem nada a ver com o que tá se estruturando no enredo do jogo.
Voz B:Como é que é o aparato para tu fazer uma dublagem profissional hoje? Eu sei que dá para fazer em casa, não dá?
Mauro Ramos:Dá para fazer com equipamento normal.
Voz B:Mas como é que é? Porque eu quero saber como é que é em comparação com como é que era, né? Quando tu chega lá na Herbert Richards, meu irmão, estamos falando de outra realidade.
Mauro Ramos:Sim.
Voz B:Fala de fita, não falando de outra coisa, né?
Mauro Ramos:Hoje isso já tava em fita comumente, fita magnética, mas antes era com película 16mm. O que é isso, irmão? Filme, filme 16mm. E aí passava no projetor, por isso que precisavam os estúdios ser amplos. Para ter tela e para poder ter espaço para o projetor. E a bancada era só o microfone e o texto. Você ouvia o original e ensaiava 3 vezes, mas na hora de gravar não tinha áudio, não tinha som de referência. Você tinha que fazer o que tava ali. Por isso é que naquela época, quando você errasse, o companheiro que dividia a bancada com você olhava para você como se você fosse o pó do cocô do cavalo do bandido, com a vontade de te enfiar uma tijolada no meio dos cornes. E tem que começar tudo de novo, vai ter que fazer outra vez, porra, por causa desse filha da mãe, entendeu?
Voz B:E aí, quando já foi esse arrombado muitas vezes, claro, lógico.
Mauro Ramos:Aí, quando aí passa para a fita magnética, o matique, VHS, aquela coisa toda, Você passa a ter som de referência. Tinha dois canais, som de referência, mas você não podia usar os dois canais, porque se você usasse o segundo canal, você apagava o original e tinha que recompor o original. Então, mas ali a gente tinha som de referência, mas era tudo junto, o gravado junto, todo mundo junto. Tinha 6 personagens naquele trechinho, aí você tinha que colocar 6 atores na bancada fazendo aquilo ali. Eu fiz uma série chamada Plantão Médico.
Voz B:Tô ligado, porra, cara.
Mauro Ramos:Bicho, imagina, tinha cena de atendimento pronto-socorro com 16 personagens. A direção ficava louca porque tinha que ter 16 atores e atrizes ali para gravar. E se um errasse, bicho, os outros queriam comer ele de porrada. Entendeu? A direção, principalmente, porque esse esquema de entrada e saída de ator e atriz era feito pelo diretor gastando os miolos ali para fazer de uma forma que não ficasse muito caro, porque o Herbert exigia, né? A visão dele era uma visão cinematográfica, de rolo, aquela coisa toda. Quando passou as coisas serem feitas no computador, Aí, ao longo do tempo, foi melhorando as condições, né?
Voz B:Quando elas começaram a fazer no computador, os estúdios começaram, eles se adaptaram rápido? Como é que foi?
Mauro Ramos:Aí pulverizou. É, o pessoal começou a precisar de pouco espaço, né? Só uma tela de televisão, o microfone e o texto, e com computador ali para poder rodar o filme e Hoje em dia a gente vê o texto na tela também, mas o texto tava ali e tal. Então isso ficou mais barato, o que fez com que as empresas grandes que precisavam de muito espaço, que tinham equipamentos caros, que o cara para investir em dublagem tinha que ter grana para investir, porque o equipamento era muito grande, esse pessoal começou a tomar na tarraqueta por causa da pulverização. E aí, hoje em dia, você pode gravar com, sei lá, um laptop assim ligado ao microfone. Na época da pandemia, eu tive que fazer um estúdio, né, improvisar um estúdio dentro de uma banheira de hidromassagem velha que tinha no apartamento, em que aí eu botava erva e isopor e não sei o quê, e aquele negócio de de, parece caixa de ovo, né, aquela espuma e tal, cobertor, e aquela, e a empresa Vox me emprestou um telefone, um telefone, um microfone que ligava direto no computador e eu gravava ali. E aí, é, e a plataforma que hoje já tá desenvolvida tava iniciando, né, para gravação. Então era um tormento. Fora que vazava um monte de coisa, pipoqueiro, sorveteiro, o cara que 5 horas da tarde resolvia praticar o saxofone, pessoal que resolveu fazer obra na época da pandemia, entendeu? Então ainda tinha isso. Hoje ainda se grava remotamente, mas os estúdios, por causa da dificuldade que o mixador enfrenta porque cada local que é captado, se for fora, é um microfone diferente e uma ambiência diferente. Então, o cara, para nivelar aquilo ali, nem no chicote consegue. Então, ele, os clientes estão dizendo: olha, a gente prefere presencial, no mesmo local, com o mesmo microfone, com a mesma ambiência, porque fica mais fácil. Então faz sentido, é isso. O mercado tá assim por causa disso, mas antes Era restrito porque o equipamento era grande, precisava ter bala na agulha para poder.
Voz B:E Mauro, agora tá tendo, agora tem, hoje em dia, agora não, né, mas hoje em dia a gente tem uma porrada de streaming, né, a gente tem um monte de coisa, a gente tem, a gente tem mais volume de trabalho para o dublador?
Mauro Ramos:Deveria ter, mas com esse desvio, né, é para Argentina e tudo mais, e a divisão Rio-São Paulo, a gente tem por períodos. Tem períodos assim, tem uma série, chegou a série, o pessoal de streaming quer tudo para ontem. Então vai fazendo a série, a série faz 12 episódios, pronto, acabou. Aí fica esperando para ver se tem mais um outro que chega. Entendeu? Porque o streaming quer as coisas muito rápido e ele vai distribuindo. Ele não coloca como era antigamente a Globo colocando todos os ovos na Herbert Richa. Hoje em dia ninguém faz isso, ele distribui Rio, São Paulo e tal, e não bota os ovos na mesma cesta.
Voz B:Até porque tem de agilizar.
Mauro Ramos:Exato, exatamente.
Voz B:Então Entendi. Tá assim, tem que trabalhar pra cacete, mas como tem muita gente fazendo, daí acaba tendo menos trabalho.
Mauro Ramos:É, exatamente, exatamente.
Voz B:Entendi, entendi. Mas e palco e cinema, ainda te brilha os olhos?
Mauro Ramos:Como assim?
Voz B:Fazer, sim, estar na frente da câmera.
Mauro Ramos:É, eu andei fazendo algumas coisas, mas muito curta-metragem e tudo mais.
Voz B:Mas o que que você sente? É isso, isso te realiza? É isso que eu tô te perguntando.
Mauro Ramos:Sim, me realiza. Claro, eu sou ator. Eu outro dia tava conversando com os meninos e a gente foi assistir uma peça musical.
Voz B:Ah, tu é desse que vai ao teatro, caralho.
Mauro Ramos:Mas eu até hoje, cara, eu vou, assisto porque tenho necessidade de assistir, mas me dá um bicho de carpinteiro que meu lugar não é na plateia. Durante os primeiros 10 anos da minha carreira, eu assistia os colegas da coxia. Para mim, assistir teatro é ver o teatro lateralmente com os colegas. Eu não sou plateia, entende? Eu faço mais ou menos isso na dublagem. Por exemplo, quando eu dublo uma coisa, eu não vejo imediatamente depois. Eu dou um tempo, sabe, para ter distanciamento, para poder analisar, porque senão eu fico muito exigente comigo mesmo. Então, eu fiz um filme com Gary Oldman, que é um ator que eu adoro dublar, em que ele fez o Winston Churchill. Eu levei uns 8 meses para ver o filme, porque eu não queria saber. Tem que ter distanciamento para isso. Então O teatro, se eu pudesse fazer de novo, é porque fisicamente eu não posso mais, eu ia adorar, porque é uma grande satisfação. O teatro é o templo do ator. Ali é onde o ator é total, esplêndido, entendeu? Que ele atinge a pessoa, e é uma coisa que fica na tua memória, companheiro, você que vai lá assistir. Que outra pessoa que foi na outra sessão não vai lembrar do mesmo jeito que você. Então são coisas que não se repetem, são momentos que não se repetem. Então o teatro para mim é isso, essa satisfação. Só que eu não sou plateia, então, mas tenho que ver teatro. Então a gente faz um sacrifício, vai lá, senta, fica lá esperando, vendo colega e tal. Né, mas descarrega tudo na dublagem.
Voz B:E quando foi que tu parou, que tu teve que começar a usar bengala, cara?
Mauro Ramos:É, eu tenho neuropatia periférica. E tem uma coisa, neuropatia são doenças que atacam os nervos da periferia do teu organismo, pés e mãos, tá bom, né? Vai comendo a mielina dos nervos, porque a diabetes gera isso. E aí eu comecei a ter esse negócio, comecei a tomar remédio para isso. E aos 46, 47 anos eu tive a primeira crise das hérnias, que eu não sabia que tinha. Tava fazendo café para esposa da ocasião E aí, tá, qual é, Mauro? É, casei 3 vezes. Eu sou um cara que acredito no casamento, cara. A instituição casamento, acredita, acredita. E aí eu fiz lá um cafezinho e tal, um pão na chapa para levar no quarto para companheira. Aí, cara, quando eu fui pegar a bandeja, a perna direita fez assim, poim! E eu, plaf, no chão, desloquei a bacia. Hospital, coloca a bacia no lugar, tira, faz raio-x, tá, não sei o quê, faz ressonância, vai não sei o quê. Você tá com 3 hérnias de disco na região lombar, uma com 50% de compressão, que a essa altura deve estar em 65%, e as outras 15%, as outras seguintes. E eu fiquei acamado durante uns 4 meses, não tomava banho sozinho, não conseguia andar direito.
Voz B:E por quê?
Mauro Ramos:Porque estava travado, travado, travado. E aí depois eu passei a ir trabalhar porque eu precisava, né? E aí eu comecei a andar com as minhas mulatas canadenses, que eram as muletas canadenses. E aí depois eu passei a andar de bengala. Hoje em dia eu não trabalho usando bengala. Por quê? Porque eu sento. Ah, vou pegar o carro, a condução, vou para o estúdio, salto, vou, ando, sento, trabalho, sento. Quando eu vou andar um monte, aí eu ando com— ah, vamos no shopping? Vamos, bengalinha, companheira, vamos nós. Ah, vou ter que viajar para o Rio. Ok, bengalinha, companheira, vamos nós.
Voz B:Entendeu? Então tu tá falando que isso daí, quando teve a tua primeira crise, tinha 40 e pouco?
Mauro Ramos:É, tô com 65.
Voz B:Tem uns 20 anos que tu tá sofrendo essa porra.
Mauro Ramos:Exatamente.
Voz B:E tem jeito não?
Mauro Ramos:Os médicos disseram para não operar. É, faz isso não, vai fortalecendo a musculatura em torno e deixa para lá, vai vivendo a tua vida, porque é uma região muito, muito vascularizada, tem um nervo ciático. Vai que eu dou uma picadinha errada e aí o senhor fica de cadeira de roda. Aí eu digo: é melhor mesmo. Então pronto.
Voz B:Mas tu tá fortalecendo os músculos da região?
Mauro Ramos:Sempre. Você não vê essa barriga aqui? No momento não, mas já fortaleci bastante. Vou voltar para o Pilates assim que tiver um dinheirinho sobrando, porque Pilates é caro para caramba. Mas eu tô mantendo a minha, entendeu? E eu, sabe por que que eu ando aqui? Não é só por causa do equilíbrio, é porque a compressão faz com que eu, andando 100 metros direto, começa a ficar dormente da cintura para baixo. E aí, bicho, você vai perdendo, sabe, o comando das pernas. E eu não quero Não quer cair, né? Pelo amor de Deus! Já teve ocasião em que eu quase dei com os cornes, né?
Voz B:Meu Deus, cara!
Mauro Ramos:Num carro. E sujeito foi lá, me ajudou e tal. Eu falei: nunca mais vou andar de bengala quando precisar fazer isso. Então é uma companheira, eu não renego mais, entendeu?
Voz B:Entendi, entendi. Bom, quanto a isso, tu tá, como dizer, aceitou essa condição numa boa?
Mauro Ramos:Sim, claro, tem muito que fazer, né? E não tem problema. Tudo aquilo que o pessoal pensa, ah, vai estar com meia-cinco, toma muito remédio para pressão, para diabetes, não deve estar fazendo aquilo, faz. Com pressão no nervo ciático não elimina, é mesmo, é, não elimina.
Voz B:Então tu não tá fortalecendo os músculos das costas, mas aqui o abdômen, né?
Mauro Ramos:É claro, né? A gente tem que fazer face a demanda, entende? Porque, uai, uai, né?
Voz B:Acho justo, acho importante inclusive. Sim, tá, sobre dublagem, cara.
Mauro Ramos:Sim, pois não, diga lá. Voltemos ao assunto. Pessoal gosta lá, tudo cara de safado.
Voz B:Imagina o Pumba transando, cara.
Mauro Ramos:Para você ver, é, ele deve chegar para fêmea e dizer assim: "Viscoso, mas gostoso." É bom.
Voz B:Pois é, fico imaginando Shrek e a Fiona também, né, cara? Arrancando aquelas coisas horrorosas do ouvido e tudo mais, né, cara?
Mauro Ramos:Puta que pariu, pelo amor de Deus! Mas diga lá, então a gente tava voltando a falar sobre dublagem, né?
Voz B:Você me falou que tu encontrou no começo com os cara que eram teus ídolos e tal. Sim, né? E aí a gente tava falando sobre como a dublagem no Brasil é fodona, né? Quem são as maiores referências? Existe isso?
Mauro Ramos:Existe?
Voz B:Por exemplo, a gente vai falar assim: quem são os principais atores do mundo, ou, sabe, atores e atrizes, a gente consegue nomear alguns de diversos lugares do mundo, né? Também existe uma, também você também olha para dubladores do mundo e tal, ou os ídolos estão aqui no Brasil mesmo?
Mauro Ramos:Olha, eu tenho, eu tenho admiração por vários profissionais daqui e tenho admiração por profissionais dos Estados Unidos que faziam animação até metade dos anos 60. Tá, porque a partir dessa época começaram a fazer antes a voz, como se depois fazer animação. Aí nos anos 90 você fala, que é a voz original, e depois o animador vai lá com um programa de computador e mexe a boca no desenho exatamente como você tá falando. Mas antes o animador fazia animação e movimentava mais ou menos como ele achava que ia ser aquela fala. E tinha um dublador original para poder dublar, cobrir aquele movimento labial. E tem um cara que para mim é o máximo dos máximos, chama-se Mel Blanc. Mel Blanc é um americano que ele teve a incrível capacidade de fazer as vozes, os tipos de quase todos os principais personagens da Warner, tá? Então ele fazia a voz do Pernalonga, fazia a voz do Patolino, fazia a voz do Frajola, fazia a voz do Piu-Piu, fazia Frangolino e tal. Todo mundo era ele que fazia. E ele chegava ali, como não tinha esse negócio de dividir canal, ele dublava sozinho ali. Cara, que doideira! Era O cara era o cara. Hoje em dia o pessoal faz o que ele fazia antes sozinho. Então são 4, 5, 6 atores fazendo e fazem antes animação, depois o cara anima a boca. Exatamente. Naquela época ele não, e outros profissionais daquela área. E aqui no Brasil tem muita gente, muita gente que eu Tenho admiração.
Voz B:A gente não tem a moleza de falar e depois o cara anima.
Mauro Ramos:Tem quando o desenho é feito no Brasil, mas quando tá sendo dublado e vem de outro país, não tem essa, entende? Então eu tenho vários colegas que eu admiro, eu posso falar que fui muito ajudado por eles, entende? Mas aqui tem um grupo de pessoas Por exemplo, os Irmãos Casarré. Os Irmãos Casarré foram uma coisa absurda na IC com desenhos da Hanna-Barbera, entende? O Roberto—
Voz B:Qual que era o teu favorito desenho da Hanna-Barbera?
Mauro Ramos:Da Hanna-Barbera era Johnny Quest.
Voz B:Johnny Quest era foda mesmo.
Mauro Ramos:Me deram uma caixa no Natal, os meus filhos, de Johnny Quest. Até hoje eu vejo. É? A dublagem brasileira da IC, mesmo aquela dublagem radiofônica meio dura, É muito melhor do que a original, cara. Você precisa ouvir original. Eu também não tinha ouvido. Aí quando eu resolvi, por curiosidade, ouvir, é uma bosta, é uma merda. Não, não é, não tem interpretação natural, é tudo uma coisa assim, sabe? Pessoal fala sempre desse jeito, como se todo mundo falasse dessa maneira, quando na verdade não. A gente colocou o modo coloquial de falar na dublagem. Accompanhando, né, o modo de interpretação de novelas e casos especiais ao longo do tempo. Foram mais naturalistas, saíram daquela coisa radiofônica. A dublagem também era radiofônica e passou a ser mais naturalista a partir daí, na televisão.
Voz B:Entendi. É, nessa época aí da Hanna-Barbera, eu gostava do Space Ghost.
Mauro Ramos:Space Ghost. É, olha, é bastante. Mas eu via tudo isso e via outros também. Você pode dizer: ah, qual foi o primeiro da Ana Barbera para televisão? Eu sei, não sabe? Jambo e Ruivão.
Voz B:Esse eu acho que eu não conheço.
Mauro Ramos:Dos anos 50. Aí depois veio Zé Comei Catatau, Dom Pixote, Manda Chuva. Manda Chuva dos anos 60. Ainda vim Farofino e Olho Vivo. Bimbo Pai, Bimbo Filho, e um monte deles. Aí depois veio Johnny Quest em 64, entendeu, que era o máximo. Porra, o moleque passava por aventuras pelo mundo inteiro, cara. Você queria, é, você queria ser o amigo dele, fazia mágica. Olha, os cara voavam, os cara esquiavam, os cara fazia o diabo. Era o sonho de todo moleque daquela época. É por isso que Johnny Quest E aí eu chego na Herbert Richer, um camarada falando ali, um senhor, a voz do Dr. Benton Quest, que é o pai do June Quest. Caraca, o cara que fazia a voz do robô do Perdidos no Espaço. Aí, cara, aquela criança de quinta série ficou: ah, que maravilha!
Voz B:É, eu imagino que— bom, agora tem os Star Talents também. Eu aposto que os Star Talents Quando eles encontram o Mauro e ouvem a voz do Mauro, também ficam, cara, eu não sei, eu aposto qualquer pessoa, né, tirando os cara da tua família e você mesmo.
Mauro Ramos:É a minha filha, ri para caramba, porque quando diz, você filha do Mauro Ramos, puxa, deve ser um máximo ficar ouvindo ele falando. Ela disse, não, é a voz do meu pai. Mas Star Talent foi essencial para nós num sentido.
Voz B:No começo, aposto que tu odiou.
Mauro Ramos:Não, não odiei não.
Voz B:Fala a verdade.
Mauro Ramos:Tô falando a verdade, sabe por quê? Se são atores registrados, sim, aí a gente fica puto, tá? Mas se são atores e são adequados para o papel, por que não?
Voz B:Total. Mas é que tem vários que não, e eu diria, eu não sei nem se eu Quem sou eu para dar alguma opinião nesse sentido aí? Mas eu diria, se eu, que, por exemplo, a Peach no Mortal Kombat, coitada da Peach, eu sinto, sabe?
Mauro Ramos:Ela não foi bem dirigida, então tudo foi estranho.
Voz B:Ela tem uma linha lá que é: eu vou equalizar a sua cara, que é pegar uma parada da Peach e colocar no personagem, nada a ver com personagem, a parada.
Mauro Ramos:Exato.
Voz B:Então assim, os cara fala: pô, a Peach não sei o quê. O cara foi tratar a Pitty para fazer um trabalho, né?
Mauro Ramos:Foi mal orientada, foi mal dirigida. Desculpe, porque a função do diretor é extrair o melhor do camarada que tá ali, e o cara não fez isso.
Voz B:Então é o diretor ou é o cliente?
Mauro Ramos:O cliente dá muito pitaco. Pois é, seu cliente fala: não, vamos colocar, vou equalizar sua cara. E o diretor: pô, tá merda. Bom, é porque não são Mauro Ramos, porque a gente quando faz uma coisa e o cliente começa a dar pitaco sem ter razão, a gente reage, entende? Do tipo: ah, faz todas as suas frases, você bota alguma coisa engraçada. Não, não, não é assim que se constrói a coisa para se chegar uma coisa engraçada, entende? Não é desviando. A pessoa tá rindo e aí vai ver outra piada em cima, ela ainda não acabou de rir. Tem um caminho a se seguir. Então a gente reclama, mas às vezes fica até mal visto pelos clientes. Os Star Talents, eles foram necessários para que a população visse o que é realmente a dublagem. Entendi. A chamar os Star Talents e o pessoal de nicho, principalmente o pessoal de anime, fãs de anime, através da internet levou a dublagem ao patamar que nós estamos tendo hoje, que é de celebridade mesmo. Não tem, não vou enganar papai, é celebridade, só que com uma visão meio distorcida. É um glamour que não existe. A gente pega um ônibus, a gente pega trem, a gente pega metrô, a gente acorda às 5 horas da manhã, entendeu? A maior parte começa a trabalhar às 8, e se é uma fase boa, você trabalha de 8 indo de um lugar para o outro até as 10 horas da noite, chega em casa acabado. Não tem glamour, entende? Mas foi essencial esse negócio do Star Talent para que a população de um modo geral tivesse conhecimento de como é dublagem e o que é dublagem. Porque muita gente achava que dublador era o cara que substituiu o ator nas cenas perigosas. Porra, era dublê, não era dublador, entendeu? Então, cara, teve uma senhora que, para minha esposa no casinhão, falando: "Minha filha, vem cá, não tem uma... Você não, quando seu marido sai, você não fica preocupada dele vir quebrado, perna quebrada?" E aí ela ria e dizia: "Não, ele não é dublê, ele é dublador." "Ah, o que que é dublador?" E aí a gente explicava. Entendeu? Então foi isso, foi muito importante para nós. E também o reconhecimento da própria categoria.
Voz B:Como assim?
Mauro Ramos:Porque a categoria achava que quem fazia dublagem era ator fracassado, que era molinho dublar, né? Tá, vai lá, então vai lá fazer, entende? O pessoal achava que era ator frustrado, quando na verdade não, eu não sou um ator frustrado. A minha vida leva a ter certas dificuldades em que eu não faço determinados nichos do meu trabalho de ator, mas eu sou um ator, continua sendo ator, continua a atuar dentro da dublagem. Agora tem narração de livros em que eu adoro fazer, que é contar história para as pessoas, entende? Então eu adoro fazer o meu trabalho, não sou frustrado por causa disso. Vou morrer com uma satisfação enorme caso o que eu faça não seja esquecido.
Voz B:Só isso.
Mauro Ramos:Eu sou ator. Agora, o pessoal hoje em dia, os star talent, muitos deles já sabem que a coisa não é assim como a banda toca, entende?
Voz B:Mauro, o Bussunda era considerado um star talent?
Mauro Ramos:Era considerado um star talent.
Voz B:Tu substituiu ele, não foi isso?
Mauro Ramos:Sim, eu fiz primeiro, ganhei o o cachê. E aí o pessoal daqui da distribuidora achou por bem utilizar a figura do Bussunda, que tava muito parecido com o Shrek. E aí botou o cara para fazer o Shrek que eu já tinha feito. Normal, isso acontece. A gente é substituído por star talent numa boa, entendeu? É só avisar o que não, o que é combinado. Não fiquei puto não, eu só não falava sobre o assunto para não dar merda. Aí sim, outras pessoas ficaram mais putas do que eu, é, é, reclamaram e tudo mais, mas eu não. Aconteceu, já tinha, já ganhei meu cachê, ok, tudo bem, falou, tchau e tal. E ele fez o dele lá, entendeu? Então, para mim foi ótimo. Eu trabalhava no Cassete Planeta fazendo vozes, eu, Márcio Simões, Mário Jorge Andrade, Mônica Rossi.
Voz B:Tu já conhecia o cara e tudo mais?
Mauro Ramos:Já, a gente se encontrava em festa de final de ano. E ele, e a gente fazia aquelas vozes do, eu e Márcio Simões, a gente fazia o Fuckers Suckers, aqueles policiais, é, mexe esse traseiro gordo, sucker, entendeu? E aí a gente tava habituado com o pessoal, então não tinha problema nenhum, pelo amor de Deus, que isso. Mas O que é combinado não sai caro, companheiro. Era só avisar, entende? E eu fiquei na minha durante um tempo e tal. Agora não. Tem gente que fala assim aquela bobagem: ah, você não gosta do Bussunda? Quem disse? Não, não tem nada contra ele.
Voz B:Então o Bussunda acaba sendo o cara que foi contratado para desempenhar um trabalho também, né? Eu aposto que ele foi lá pedir para te substituir.
Mauro Ramos:Não, né? Ele não tem culpa de porra nenhuma. Se é que alguém tem alguma culpa, não. É o meio, é assim, não é o primeiro. Não fui o primeiro a ser substituído e não vou ser o último a ser substituído. Isso acontece quando o cara chega e diz assim: ah, é melhor chamar fulana para fazer no lugar da dubladora, que vai chamar mais bilheteria. Produto da pessoa, o dono da bola é ele. Quem vai escalar o time do, da pelada de Várzea é o cara que é o dono da bola, pô.
Voz B:É verdade, é verdade.
Mauro Ramos:Era assim no meu tempo, não sei agora, né?
Voz B:Mas ainda tá no teu tempo. So good, so good, so good.
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Mauro Ramos:Mas a lata, eu vou ter que fazer golfe com lata, aí fica meio difícil, né?
Voz B:Fica meio difícil, fica chato. É, mas tá bom. Mas aí a gente teve, bom, aí o Bustunda falece, né? O Shrek, ele fez Shrek 1 e 2, ele fez 1 e o 2. Isso, tá, entendi. Aí tu volta no 3, é isso?
Mauro Ramos:É isso. Isso porque queriam fazer na ocasião um concurso usando todos os meios de comunicação, a mídia de um modo geral, para o público escolher quem é que ia substituir o Bussunda no Shrek. Só que o pessoal que tinha me escolhido na primeira, da DreamWorks, falou: ué, o cara morreu? Já não sabia. Não, quem morreu foi fulano. Mas não é esse? Não, não é esse, é o Ah, ué, então não precisa fazer isso, chama o cara. Pô, a gente já escolheu. E aí eu passei a fazer, fiz o 3, fiz o 4, fiz o de Natal, fiz o de Halloween, e espero que se lembrem de mim para fazer o 5º, né?
Voz B:Toda vez que tiver Shrek, espero que lembrem de tudo, mesmo de mim, né?
Mauro Ramos:Pô, pelo amor de Deus, eu preciso pagar meus boletos, companheiro, pelo amor de Deus.
Voz B:Aí muda alguma coisa, é Vamos lá, é, os projetos pagam diferente? Eu não tô perguntando valores, mas os projetos pagam diferente?
Mauro Ramos:Cinema paga diferente, paga mais, é, é, porque aí você acopla esse valor do cinema, valor que vai passar para outras mídias. Então acaba que a hora da dublagem—
Voz B:Ah tá, tu ganha por hora de dublagem.
Mauro Ramos:Isso, cada hora equivale a 23 xinhos de 20 segundos do filme para poder pagar a gente. Então, para televisão só, para o streaming, hoje DVD não tem mais, mas para streaming é um preço, é um valor mais baixo, e para cinema é um valor mais alto. Entendi.
Voz B:Bom, mudando um pouco de assunto, cara, qual que é, na tua opinião, qual que é o teu trabalho nota 10? Esse é o que tu, é o teu trabalho de referência que tu foi lá assistir de novo e tu falou, porra, Esse aqui, esse tá lindo, perfeito. Esse aqui foi foda. Eu tenho um, o meu é um episódio com o Ciban. Esse daí eu tirei nota 10, tá? E tu, tu tem um? Não, Pumba, não vai citar o Pumba, vai.
Mauro Ramos:Não, não, outras coisas. Eu tenho um orgulho enorme ter feito a voz do Capitão Barbossa do Piratas do Caribe.
Voz B:Foda, foda.
Mauro Ramos:No primeiro e no terceiro, ele, eu olhei assim, caraca, ele não sou eu, é ele, entendeu? Isso é o máximo que o ator dublando consegue, tirar o foco dele e achar que aquilo que tá ali é o personagem falando, entendeu? Isso eu tenho com relação a cinema. E tem o mais difícil para mim, que eu olho hoje em dia e eu falo assim: caramba, como é que eu fiz isso? O quê? É um filme com o mesmo ator que fez o Capitão Barbosa. Ele fez um filme chamado Shine, sobre um pianista que tem problemas mentais. E que existe, ele tá vivo e tudo. E ele até, o ator ganhou até o Oscar por isso. E que foi o trabalho mais difícil que eu já fiz na minha vida, porque ele falava tipo assim um minuto sem pausa. Ele falava, ria, reagia, falava, ria, reagia, falava, ria, reagia. Se eu errasse Eu tinha que voltar e fazer tudo de novo. A concentração era tão grande que eu ficava nervoso, eu suava nas mãos, cara, de pingar. Era uma— disso eu tenho orgulho. O Gary Oldman fazendo o Winston Churchill, que eu vejo, eu falo assim: caramba! E eu tenho orgulho disso. Cacetada! Maneiro! E outra coisa, da animação, uma coisa que eu tenho muito orgulho é o Planeta do Tesouro, tá, em que eu fiz o pirata que era androide e tal, que era o cara, o bom canalha, né. Eu falo assim, porra, aí tô bem para caraca na vida. Tem muito orgulho. É, tem uns que a gente realmente olha e fala, pô, esse aqui foi foda, né, bicho.
Voz B:Tu já fez daqueles do Discovery Channel também?
Mauro Ramos:Já, a gente faz isso, National Geographic, Discovery Channel.
Voz B:Mas tu fala que nem os cara fala?
Mauro Ramos:Não, não falo, não falo.
Voz B:Tem que falar daquele jeito.
Mauro Ramos:Não, não falo. O difícil é acompanhar uma pessoa que não é ator, que não tem tempo de ator, e falar em português como se fosse uma pessoa normal. Imagino que esse é que é o problema, e é desafiador.
Voz B:Bombeiro, né, pô?
Mauro Ramos:E o bombeiro, pô, Eu fiz na Herbert, aliás, vários colegas fizeram, um programa que o SBT tinha comprado na época, nos anos 90, chamado Geraldo, que era uma coisa assim, tinha uns fatos e que a plateia dava pitaco na vida do sujeito, tinha quase porrada um com o outro, aquele negócio todo. E a gente tinha que dublar. O SBT pediu: não, dubla. Mas não são ator, dupla, e a gente, o cara não tem tempo de ator, e a gente tinha que ficar, mas é que como uma pessoa fala, e é difícil para Dedé, o companheiro, muito difícil, mas tem outros que são funcionais, né, outros colegas que são funcionais, mas que fazem aquilo "Tem que ganhar o meu dinheiro." Faz daquele jeito e o pessoal sacaneia a gente, né, por causa disso.
Voz B:Então é que aquilo lá não é nem dublagem, é dublagem? Não é uma tradução simultânea?
Mauro Ramos:Quando chama-se voiceover, que é uma prática de jornalismo em que você escuta ao fundo o que o cara tá falando, mas você apenas traduz, aí sim. Mas muitos clientes hoje em dia querem que a gente duble sem o áudio, como era. Então acaba sendo dublagem mesmo.
Voz B:É, mas eu realmente, eu tenho umas que são muito divertidas, mas eu acho que as mais divertidas elas não são nem brasileiras, cara. É, já ouviu falar em Dragon Ball Z?
Mauro Ramos:Já.
Voz B:Então o Vegeta português, cara, é muito engraçado, né?
Mauro Ramos:Pois é, meu amigo. Pois é.
Voz B:Então assim, tem uns que são realmente muito divertidos, e é foda porque tu sabe que a intenção não era ser divertido.
Mauro Ramos:É a grande satisfação que um dia na internet botaram várias pessoas de vários países para ouvir determinadas dublagens de vários países, e aí botaram trechos do Timão e Pumba. Norte-americano ouvindo o trecho comigo e com o falecido Pedro Lopes, ele ficou encantado. Ele disse: esse cara que faz o Pumba aí é o melhor para mim no mundo inteiro. E aí eu falei assim: porra, se eu convenci americano e o cara não sabe o que que eu tô falando, porra, é porque eu tô bem na fita para caraca. Mas é isso, é a satisfação do nosso trabalho, entendeu? Muito que a gente vê, mas a gente viu de fora, alemão falando, dublando, é um mercado enorme, é o maior mercado de dublagem da Europa, é Alemanha. Mas, cara, puta que pariu! Porra, o quê? Bom, se tu reclamar que tu não tá entendendo nada, tá de sacanagem.
Voz B:Pô, não é isso que tu tem que julgar, né, Mauro? Não, por isso é que meu pai fala: porra, meu irmão, eu tô falando alemão, cara. Os cara usa isso como referência de coisa que ninguém entende nada, porra.
Mauro Ramos:É que nem o quê? O quê é isso? Eu tô falando grego?
Voz B:É similares.
Mauro Ramos:É, porra, tô falando grego por acaso?
Voz B:Mas os cara são bons lá na Alemanha?
Mauro Ramos:São, é. A Alemanha já resolveu o problema de IA e de mercado, reserva de mercado, já há algum tempo já. A Itália, por meio de leis, e tem funcionado, tem funcionado.
Voz B:E o mercado não diminuiu nem porra nenhuma?
Mauro Ramos:Não, não, tá funcionando direitinho, entendeu? E agora aqui é que tá um negócio meio brabo, né?
Voz B:Putz, e vou te falar que provavelmente os cara, na hora que eles forem olhar para dublagem, porra, meu irmão, tu já vai estar de saco cheio de aceitar, né? Porque primeiro eles têm que, sei lá, chegar a eleição de ano sim, ano não, né?
Mauro Ramos:É verdade.
Voz B:Então aí fica difícil de os cara prestar atenção nas nossas paradas, né?
Mauro Ramos:Mas, por exemplo, Portugal tá passando por um processo de brasileirização muito forte, mas eles têm uma dublagem de filmes para cinema muito boa, muito boa mesmo.
Voz B:O que a Itália, por exemplo, deve ser muito divertido ver um filme dublado em português.
Mauro Ramos:Português tem na internet, tem na internet, é só você ver lá no YouTube que você cai na gargalhada. É muito interessante. Não é que eles sejam incompetentes, não, é porque é engraçado para nós, né? É engraçado. Na Itália, por exemplo, não tem nenhum produto que não seja dublado. É, tudo é dublado. E lá os italianos consomem, consomem, eles consomem porque eles têm uma valorização da própria cultura muito grande, e o idioma faz parte da cultura deles. Então eles valorizam isso. Eles não querem que você vá lá como turista falar em inglês para tentar se comunicar com eles. Eles querem que você mostre a decência, conforme eles falam, de procurar saber algumas expressões ou palavras no idioma deles. Aí eles vão te tratar direito, entende? Por quê? Porque é uma valorização muito grande da própria cultura. Francês é a mesma coisa. Se você fala em francês, o cara tira a calça para você.
Voz B:Agora, se você fala em inglês, aí, cara, tem a possibilidade de ficar Eu não falo francês, eu também não fui muitas vezes à França não. É, evitei falar com franceses lá.
Mauro Ramos:Ah, eu já tinha visto como é que era o francês quando eu assistia filmes que passavam nos anos 60, 70, de um comediante de lá chamado Louis de Funès, que fazia o francês médio do interior, é aquele cara mal-humorado, entende? Que o cara—
Voz B:Mr. Bean francês?
Mauro Ramos:É, não. Não, era pior, era pior. Era um cara mal-humorado mesmo, que xingava. E então eu já vi, pô, lá na França os caras são meio grossos, então tá ok.
Voz B:Mas tu já viajou para vários lugares maneiros?
Mauro Ramos:Quem sou eu, bicho? Quem sou eu? Eu não tiro férias há 39 anos, meu filho. É, 39 anos, contei recentemente. Desde que saí da emissora lá da Rádio Tupi. Então eu gostaria muito, nem que fosse para Buenos Aires, mas fazer o quê?
Voz B:Tá barato para Buenos Aires, tá barato.
Mauro Ramos:O negócio é que eu tenho muita dívida, casamento é uma merda, 3 então, né, porra. Aí a gente, a gente tem que pagar as dívidas, né, para não ficar com todo respeito, sem querer me intrometer, mas neste momento tá casado? Não, tá? Não, estou sozinho. Não, chega.
Voz B:Tem certeza absoluta? Falou isso na segunda vez?
Mauro Ramos:Não, não falei isso não. Eu tava com esperanças, mas agora, bicho, eu tenho muita dívida para pagar. Então até 2028 eu tô pagando o boleto, companheiro. Não tem outro jeito. E isso que foi Foi o que restou do casamento. Mas tudo bem, a vida é assim, uma novela da Janete Clare, né? Pois é. Mas muito então, às vezes sim. Uma água para mim aí, Bruno, por favor.
Voz B:Porra, mas é, tu tá dublar, cara, é um— você falou, você não é um ator frustrado, você tá no lugar legal fazendo uma parada legal e tudo mais. Tu me falou que fez uns curta aí, então tu também de vez em quando aparece ou apareceu na frente das câmeras?
Mauro Ramos:Não, para você ter uma ideia, a novela mais recente que eu fiz uma participação foi Barriga de Aluguel. Ah, conta aí, viu? Tinha cabelo? Tinha, tinha cabelo e o bigode era preto. Bigode era preto, companheiro, era aquele bigode mesmo de Porteiro, uma boa, com orgulho.
Voz B:E o cabelo era como, cara? Repartido no meio?
Mauro Ramos:Não, era encaracolado. É mesmo? Meu sobrenome é Ramos, então não cresce para baixo, cresce para cima, em ramos. É isso, entendi, entendi.
Voz B:E como é que tá o mercado agora, cara? A gente tava falando aqui que tem muita coisa que É, tem muito mais trabalho, mas tem muito mais gente também. Então as coisas estão mais pulverizadas e acaba não tendo muito trabalho no fim das contas, né? Mas ele tá mais decente ou não? Decente no sentido, ele é mais ou menos ético do que era no passado? As pessoas se matam mais ou menos hoje em dia, mais ou menos leais. Como é que, como é que tá ser um dublador hoje do ponto de vista humano?
Mauro Ramos:A ética é uma coisa da qual a dublagem não se serviu muitas vezes. É, mas não, não ri não, companheiro. Mas existe um número, principalmente do pessoal da minha geração, que tem um comportamento ético. Aliás, a Dos anos 70, 80 e até metade dos 90, a gente tinha um companheirismo muito maior que gerava um movimento sindical muito melhor. Hoje tá tudo muito dispersado. A gente não tem acordo coletivo de trabalho em vigência. A gente tem uma série de pessoas que chamam gente com pouquíssima experiência para ser diretor. Para poder pagar pouco, né, para esse diretor. Então a ética é uma coisa muito relativa. A nossa geração foi uma geração bastante ética. Por quê? Porque a gente trouxe a ética dos antigos, entendeu, e colocou atualizando o comportamento ético dentro da própria dublagem. Antigamente, o captador de áudio, técnico de áudio, Ele era tratado como cachorro de rua. Hoje em dia, cachorro de rua tá até sendo tratado melhor do que era antigamente. E porque vinha de comunidades, não entendia o negócio, era forçado. Então a direção humilhava, e ele não era— ele tentava participar dentro do contexto do dia a dia e era rechaçado pela direção e pelos dubladores. Mais top, porque achava que isso, técnico não tem que dar pitaco. A nossa geração, minha, de Márcio Simões, de Manolo Rey, de Marco Ribeiro, de Mário Jorge, essa é quando chegou a direção, a gente começou a tratar com dignidade o companheiro que tava ali. É um companheiro que tá ali para somar, porque até o ator, o atriz chegar e dizer gravando É um trabalho de equipe, porra, entende? E esse trabalho de equipe precisa ser feito com dignidade. E a gente começou a tratar o pessoal assim. E quem chegava, a gente começou a tratar de uma forma legal, de uma forma educada, né? A gente não era tratado como— a gente não começava a tratar como era tratado quando a gente começou. Pelo pessoal da antiga, que queria que primeiro você tem que provar o seu talento, a sua capacidade, para depois você dizer que é dublador. A gente sempre tratou as pessoas com dignidade. E aí, hoje em dia, tem um certo problema com quem tá começando, porque aí perdeu um pouco as estribeiras. É, o pessoal é assim, ele tá naquele mês, ele foi chamado para fazer um pouco de vozerio, aí chamou o cara para fazer o Garçom 6, o capacete 235 da guerra e tal. Aí o que que ele faz? Pega o título dos filmes, vai na internet, procura a ficha técnica. Quem foi que fez o Garçom 6? Ator fulano de tal. Vai na internet, pega a foto daquele ator, compõe um cartaz, um posterzinho com a foto dele, com a foto do ator. Aí coloca: eu sou fulano de tal, dublador do Beltrano. E aí, pá, bota na internet. O cara nem um ano tem de atividade e já acha que é dublador. Desculpe, mas não é. Para se formar um bom dublador, um dublador funcional, entre 4 e 5 anos.
Voz B:O que define um dublador funcional?
Mauro Ramos:É um dublador que faz o seu trabalho com capacidade artística e técnica, que chega na hora, ou no mínimo ele não atrasa, e ele cumpre com rapidez.
Voz B:Caralho, então pera aí, se tem, se faz parte das regras, é porque a história é extensa, os cara atrasa muito.
Mauro Ramos:Tem algumas rapaziadas que atrasam sim e que ferram com o esquema da direção, né? Porque se você chega atrasado, fatalmente você vai começar atrasado e vai terminar atrasado e vai começar a atrasar todo o esquema do diretor e dos colegas que estão vindo posteriormente. Então é que nem dominó, aquele negocinho de dominó que você, eles vão Caindo, a mesma coisa. De repente, às vezes, no meio desse caminho, você pega um colega que é safo, e aí ele bota no horário. Opa, legal, tudo bem, tirou o negócio do, né, a dificuldade do diretor e do técnico de áudio. Mas o cara, o cara que atrasou, tá nem aí, ele não quer saber.
Voz B:E esses caras que não são, vamos lá, tu tá falando que tem os dubladores funcionais, então tem também os que não são funcionais. Dos que não são funcionais, aí eles estão fora. Então, e qual que é, qual que tu diria que é a principal dessas três falhas? Qual que é a mais recorrente que os caras, os caras, eles percebem que eles estão vacilando? O cara que tá cometendo esses vacilos aí, não, que isso é uma outra coisa. O cara, ele nem sabe que ele tá vacilando, às vezes, o que é péssimo, né?
Mauro Ramos:Péssimo. E geralmente você reconhece uma pessoa Dessa, quando ele reclama que a dublagem é uma panelinha e ele não é chamado para fazer o principal de um filme. O cara tem 6 meses de atividade, vai fazer principal de filme onde? Que capacidade tem ele para fazer isso? Ele ainda não passou nem por metade dos desafios que um profissional passa semanalmente dentro da dublagem. Até hoje eu passo por situações desafiadoras dentro da dublagem. E olha, eu tô com 37 anos de trabalho. Como é que o cara com 6 meses? Aí ele passa de uma panela. Panela tem em qualquer lugar. Isso eu aprendi com Garcia Neto, pai de Garcia Júnior. Panela tem em qualquer profissão. Agora, Você, numa condição de direção, você que faz o tamanho da sua panela. Ou a sua panela é do tamanho de uma panela para esquentar uma madeira ou para fazer feijoada. Depende de você como diretor. E antigamente os diretores tinham uma visão de função social da função de direção. Eles ficavam preocupados em que a maior parte dos profissionais procurassem trabalhar pelo menos 1, 2 horas naquele mês com ele. Hoje não, não é o diretor que escala mais. Ah, não é a produção? E a produção às vezes não diminui a qualidade da coisa.
Voz B:Tem que dizer, pera aí, isso não tem o potencial de diminuir?
Mauro Ramos:Porque o diretor, não manjo, tá, mas me parece que o diretor é o cara que mais O diretor é o camarada que devia ter o que ele falar sendo respeitado de uma forma definitiva. Mas algumas coisas que ao longo do tempo foram colocadas por diretor, é que diretor parece funcionário de empório de secos e molhados, que o cliente tem sempre razão. Dublagem não é quitanda. Dublagem é um negócio artístico e técnico, um trabalho artístico e técnico em que o diretor precisa pesquisar, precisa ver o trabalho, o produto que ele vai dirigir. E hoje em dia quase nenhum diretor faz isso. Não tô dizendo que diretores não façam em alguns estúdios, mas a maior parte é a produção que faz. E a produção é que escala, e vão sempre apertando a quantidade de anéis, de loops, entendeu? Cada vez você tem menos tempo para fazer uma coisa que, por exemplo, te escalam para fazer uma hora para o equivalente a fazer 2 horas e meia. Não vai dar, principalmente se é difícil. Então fica meio complicado, né? Por isso é que o diretor É, tem diretor em algumas empresas que recebem menos, aceitam receber menos, porque ele tem a possibilidade de ser diretor e ele não precisa assistir o produto, ele não precisa fazer levantamento, ele não precisa fazer nada disso, a produção faz por ele, entendeu?
Voz B:Entendi. Nossa, tem tanta coisa assim que quem a gente que tá só assistindo, a gente não faz ideia. Bom, É, eu sei um pouco disso também, porque também tem um monte de coisa sobre o que eu tô fazendo aqui que as pessoas também não fazem ideia. Exato. Tipo, o cara fala: pô, por que tu nunca levou o Neymar?
Mauro Ramos:Ué, calma, pô, não é bem assim.
Voz B:Tu nunca falou com ele? É um monte de coisa em volta.
Mauro Ramos:Exatamente.
Voz B:Tem circunstância, né? Tem o que pode, quando, não sei o quê. A gente tá falando de uns cara, né? Então, é que são umas coisinhas ocultas do trabalho que no nosso caso nosso trabalho é público, né?
Mauro Ramos:Exato.
Voz B:Então, e as pessoas olham e aí, por exemplo, imagina que tu vive, pô, tu é o dublador do Shrek, como assim tu não tem um jato? E os cara não faz ideia, né?
Mauro Ramos:É o glamour. Pessoal acha que a vida do dublador é puro glamour, não é não, companheiro. A gente leva marmita, entendeu? A gente tem que passar fio dental porque fica com negócio nos dentes. A gente é um ser humano normal. Pôr. E rala pra cacete trabalhar indo de um lugar para o outro, às vezes 6 estúdios num dia só, onde você leva mais tempo se deslocando de um estúdio para o outro do que propriamente trabalhando. Cansa pra dedéu, cansa demais. E a gente não sabe o que vai fazer só sabe quando chega lá. O pessoal acha que a gente leva o texto para casa, estuda. Não, a gente só sabe quando chega lá. E a gente tem que trabalhar, não sabia não, é intuitivo. O nosso trabalho é um trabalho intuitivo de atuação, de interpretação. A gente vê ali rapidamente, tem que decidir com rapidez o que que a gente vai fazer, qual é o tipo de voz que a gente vai empregar e tal, que que esse 'Ah, quer dizer por aqui essa cena, o cara fala desse jeito, o cara fala assim, então vou adaptar para isso.' Tudo isso se passa na tua cabeça quando você tá na bancada olhando o trecho que você tem que dublar e olhando o script. E aí, o que dificuldade que você tem, você tem que perguntar para direção, que supostamente viu o produto. Se ele chegar para você e disser assim: vamos descobrir juntos, ele não viu. E aí tu fica: caraca, vou ter que me virar aqui para fazer alguma coisa que seja crível para o espectador, entendeu? Então não tem glamour nenhum, não tem mesmo. Pega atraso de metrô, pega problema de trem, não chega na hora por causa do problema de trem. Entendeu? O ônibus enguiça no meio do caminho, você tem que ficar ligando, entendeu? Porra, não tenho dinheiro para pegar um Uber, cara, vai ser foda, entendeu? Tudo isso a gente passa. Não é uma coisa: bom, vou chegar, vou chegar lá, tem champanhe, tem não sei o quê para me esperar, eu estudei a noite inteira. Não é nada disso, meu irmão.
Voz B:Caralho, meu irmão, que maneiro ele falando assim, maneiro ele falando assim. Eu pensei que tava aqui viajando. Se eu fechasse o olho era uma, sei lá, um...
Mauro Ramos:É, tem um personagem que o pessoal gosta muito chamado Bundowski, que é daquele Meu Malvado Favorito. Ele fala desse jeito para você: "Eu sou o Bundowski e toda a programação que nós vamos fazer contra fulano de tal..." Ele é inglês, então o pessoal fica até: "Ah, Bundowski, ah!" Mas é, o sujeito tem uma bunda gigantesca mesmo. Eu adorei fazer, não por causa do nome, mas porque era, porque porra, o cara tem uma bunda gigantesca lá.
Voz B:Qual foi o dia que tu foi mais feliz, cara, na tua profissão?
Mauro Ramos:O dia que fui mais feliz? Que excelente pergunta, cara. Não vou dizer o mais feliz, mas vou dizer o mais emocionante.
Voz B:Serve.
Mauro Ramos:Eu estava em São José dos Campos numa convenção.
Voz B:Convenção de quê?
Mauro Ramos:De dubladores, de dublagem de anime, essas coisas todas. E aí tem aquele momento lá que o pessoal chama de meet and greet. Eu tava lá sentando, tirando fotografia com o pessoal que chegava. Dava autógrafo. E teve uma senhora que chegou para mim, pediu autógrafo, tiramos foto. E aí ela falou assim: eu posso falar uma coisa para o senhor? Eu: claro, minha filha, tudo bem. Aí ela: o senhor foi muito importante para minha vida recentemente. Eu já fiquei meio, né, que porra é essa? Aí ela É porque eu perdi meu filho de 8, 9 anos, depois da gente tratar câncer, ele não resistiu, e ficamos só eu e meu filho mais velho, e eu entrei em depressão, eu fiquei deitado, eu não queria fazer nada, eu não queria tomar banho, eu não queria comer, meu filho é que me obrigava a fazer as coisas, ele dava comida na minha boca, E quando ele não tinha o que fazer, ele ligava a televisão e ele é muito fã de One Piece. E o senhor faz o Jinbe. Eu falei: faço sim. Teve uma sequência de cena em que o Jinbe chama, dá um sacode no Luffy, porque o Luffy tava se entregando a uma depressão por causa da morte do irmão. 'Eu ouvi aquilo que o senhor falou e foi a coisa que me despertou para eu sair da cama e sair daquela condição.
Voz B:Então, muito obrigado.' Pisse sempre salvando os outros, tá aí, né, cara?
Mauro Ramos:Aquilo, pô, eu abracei a moça chorando, porque, pô, não dá, você não tem a ideia do que o seu trabalho atinge nas pessoas. É impressionante, impressionante. Então foi, para mim, foi o momento mais emocionante que eu tive na dublagem.
Voz B:Melhor feedback da sua vida.
Mauro Ramos:Porra, pelo amor de Deus, que isso! E aí eu até hoje eu lembro, fico emocionado e tudo mais. Porque a gente não tem ideia das coisas que, de como a gente atinge o público, né? O Samir Murad, que é um colega nosso lá do Rio de Janeiro, grande ator, ele uma vez foi fazer a peça dele na Ilha de Marajó. E aí fez no dia lá, no sábado e tal, e ele tinha que ficar na ilha porque não tinha outra coisa para fazer, era só um espetáculo, e ele tinha O ônibus que tinha que pegar o barco, uma coisa assim, saía de segunda de manhã para ele poder ir para Belém, para poder pegar o avião. E aí ele ligou, era domingo de noite, acabou o Fantástico, ele ligou a televisão e começou a assistir um filme no Domingo Maior. E aí ele teve uma epifania, como o pessoal fala. Ele falou: cara, eu tava na Ilha de Marajó Eu tava assistindo um filme que a gente dublou na ilha de Marajó, cara. O mesmo filme que o cara lá no Rio Grande do Sul, que o cara lá no Amapá, no Acre, tava assistindo na televisão. Olha só o alcance que a gente tem. A gente não tem ideia. E é verdade, o alcance que a gente tem e a frequência com que a gente entra na casa das pessoas emocionando as pessoas, entendeu? Então é uma responsabilidade, não é um glamour, é uma responsabilidade enorme.
Voz B:Tu toma cuidado com a tua voz, porra, falando de responsabilidade aí, Mauro, porra.
Mauro Ramos:Eu tenho responsabilidade para pagar boleto, vergonha, porque boleto não se paga sozinho.
Voz B:Então, mas tu tá aí tomando cervejinha zero.
Mauro Ramos:Eu tô tomando porque é raro, inclusive, né? É raro, inclusive. Mas o que eu posso fazer é evitar ter gripe, não ficar pegando muita friagem. Depois dos 60, qualquer ventinho você já: ai, meu Deus, vou ficar gripado. Agora, aqui em São Paulo Eu tô há 10 anos, tive 8 rinites, enquanto que no Rio com 30 anos eu tive 3 ao longo desses 30 anos. Então eu tento, sabe, mas esse negócio de tomar gelado, sem problema, não é gelado que vai ficar, eu vou ficar gripado por causa disso, eu vou ficar rouco. Se eu quiser cantar ou fazer alguma dublagem com um tipo mais agudo, eu bebo gelado. Se eu quiser fazer uma coisa, um personagem, uma canção mais grave, eu tomo uma coisa quente. É, é, e ajuda porque as pregas vão ou esticando ou murchando e facilita para a gente o trabalho. Só isso. Eu sou do tempo que fumava, eu fumava, cara. Eu não fumo há um tempão, mas eu fumava. E antes da gente fumar fora do estúdio, o pessoal lá nos anos 60, início dos 70, fumava dentro do estúdio. Imagina a boate que não era.
Voz B:Tem uns cara que fuma dentro do estúdio em 2026, tu acredita, cara?
Mauro Ramos:Ah, não brinca, cara. Não brinca.
Voz B:Eu também acho um absurdo.
Mauro Ramos:É, sei. É aquele cheirinho que eu senti aqui quando cheguei, né? É, mas tem que chamar atenção dessa criatura, pô. Tem, cara.
Voz B:Não é assim não. Tem mensagem para gente, Vitão. Vamos ver o que que os caras estão mandando para gente aí. É, antes disso, deixa eu falar, deixa eu mandar um salve aqui, é para o parceiro de hoje, que é a ACD. Inclusive, a gente começou falando diretão e eu esqueci de falar para os cara mandar mensagem, mas mandaram. Né? Então obrigado aí por mandar mensagem mesmo sem eu falar.
Mauro Ramos:Eu quero falar um negócio, fazer um pedido para galera. É rapidinho, eu preciso ir no banheiro fazer xixi.
Voz B:Vai lá, vai lá. E o cara esqueceu a bengala.
Mauro Ramos:Tá bom, tá bom, vamos lá.
Voz B:Ok, bom, aí família, é o seguinte, ó, é o parceiro que tá com a gente hoje aqui é a CD, cara. E a ACD tá rolando aí uma nova campanha de doações. Eu não sei se você sabe, mas mais de 80% dos atendimentos da ACD é no Hospital Ortopédico e nas outras unidades é pelo SUS. E o valor que o governo repassa não cobre o valor que acaba custando cada consulta lá pela ACD. Então, cara, a tua doação faz toda a diferença para eles continuarem ajudando a galera que eles já ajudam mesmo. Então, a ACD, qual que é, cara? A galera que tem dificuldade com movimento em geral, né? Então, se você tem aí um problema nas costas, se você tem um problema na perna, se você tem de qualquer idade, de qualquer classe social, a ACD, ela tá aí para atender essa galera, tá? E como eu tava dizendo, tá rolando uma nova campanha de doação aí. Se você puder ajudar, cara, está pensando, pô, R$5 não ajuda, R$10 não ajuda, com certeza ajuda. Então, se você tiver, puder dispor aí e ajudar lá a CD a continuar ajudando as outras pessoas, seria incrível. E tem um QR code aqui, o link aí na descrição para você fazer a tua doação, tá bom? Então, muito obrigado inclusive pela moral. Tá aqui as mensagens, Vitão. Deixa eu ver aqui.
Mauro Ramos:Olha, chame o SUS porque eu fiquei desidratado, né?
Voz B:Mijou bastante, tá bom, cara. Vamos lá, o Pedro B mandou aqui, ó: Salve, Igor! Salve, Mauro!
Mauro Ramos:Salve!
Voz B:Por que se dava o monopólio da Herbert Richards antigamente? Eram contatos? A estrutura era a melhor de todas? Esse monopólio deve ter falido vários outros estúdios na época, não?
Mauro Ramos:É bom, aí é contigo. Bom, não, o Herbert ficou com essa hegemonia.
Voz B:O Herbert era um cara, existia um cara, era um produtor de cinema, tá?
Mauro Ramos:Fez cinema. Ele era brasileiro, ele era brasileiro com descendência alemã, tá? Ele fez, produziu filmes nos anos 50 e 60 e início dos 70. E aí, como ele tinha todo um equipamento cinematográfico, ele começou a, nos anos 60, fazer lentamente coisas de dublagem. Nos anos 60, quem imperava era a IC aqui de São Paulo. Não era Herbert. Nos anos 70, ele passou a ser a menina dos olhos da TV Globo porque ele era amigo de todo mundo de direção do departamento de cinema e do Boni.
Voz B:Família é que aí, porra, se tu não apertar a mão dos amigos certo, tá lascado.
Mauro Ramos:Então ele jogava golfe, ia beber vinho ou uísque com fulano, com Beltrano e tal. E aí a Globo chegou a um nível que era assim: ah, é para dublar? Compramos esse pacote, manda tudo para Herbert. O Herbert dubla. Então ele era distribuidor da Warner, ele fazia toda a parte de dublagem dos produtos que a Globo comprava, porque a emissora é que pagava dublagem, e ele fazia depois, com o advento do VHS, copiagem para todas as distribuidoras. Legendagem para todas as distribuidoras e fazia dublagem para ele. Pô, então, bicho, por isso é que é, é que a Globo era a hegemônica da televisão aberta do Brasil. Então ele ganhou muito dinheiro, muito dinheiro, e era por isso que ficava concentrado.
Voz B:O troço, porque assim, o que eu ouço dizer é que o cara era chato com a qualidade do troço.
Mauro Ramos:Sim. Mas quem entendia mesmo era o irmão dele, o Eurico, que era um cinegrafista e técnico maravilhoso, infelizmente falecido. Mas ele é que segurava a parte de trabalho mesmo da Herbert Richards.
Voz B:Mas se não tivesse o Herbert apertar a mão do cara da Globo, não tinha trabalho.
Mauro Ramos:Não tinha trabalho, exatamente. E ainda por cima ter a distribuição da Warner. Tudo que era da Warner no Brasil passava pela mão dele, então ele ganhava em cima disso. Por isso é que essa era a razão porque ele ficou hegemônico na dublagem naquela época.
Voz B:Entendi, tá explicado. O Lúcio mandou aqui, ó: Boa noite, Igor e Mauro Ramos. Mauro, como foi dublar o Jinbe em One Piece? E tem muita diferença em dublar animes e filmes?
Mauro Ramos:Não, não tem diferença não, não tem diferença porque você corre atrás de boca de qualquer jeito, né? Você faz adaptação de qualquer jeito.
Voz B:Agora dublar, eu tô olhando aqui uma mensagem aqui que vai ser a próxima, que eu vou, tá bom, o Jim B.
Mauro Ramos:é, foi legal, mas eu só descobri que eu gostava depois de ter dublado porque eu não fazia ideia. A maior parte do pessoal que curte One Piece já curtia nos mangás. E nos produtos que vinham do Japão.
Voz B:E é um troço, é um anime com, porra, sei lá, 1500 episódios?
Mauro Ramos:Exato, sei lá, por aí.
Voz B:Nenhum, eu não sei se tem outro anime com 1500 episódios, acho que não, cara.
Mauro Ramos:Não sei, não sei. Então eu só fiquei conhecendo o personagem quando eu comecei a fazer ele. E é um cara que repete a tipologia vocal que o pessoal me dá na dublagem, que é voz de papai. Voz de pai, voz de, sabe, o camarada que é compreensivo, o tio, né, o cara gordo. Teve uma época na minha vida lá na Herbert Richa que eu fiz só 3 tipos de trabalho. Eu fazia carecas, gordos e negões e suas variações.
Voz B:Pô, tirando o negão, tu fazia tu mesmo, né?
Mauro Ramos:É, mas é, o pessoal escala pelo físico, companheiro. Isso é que me enlouquece, rapaz. Pelo físico, como assim? É, pô, qual é?
Voz B:Quer dizer que se eu for careca, eu tô pronto para dublar um careca?
Mauro Ramos:É, o Sérgio Sterne, que fez a voz do Wazowski no Monstros S.A., ele falava: pô, é o terceiro careca que me chamam, cara, essa semana, entendeu? Ficava revoltado e com razão, caraca.
Voz B:Mas ele é peludo.
Mauro Ramos:Ah, o Sully é, mas é o paizão, sabe? No primeiro filme ele é o paizão, que é um clichê de dublagem que onde me colocam sempre, né? Voz de paizão compreensivo.
Voz B:Entendi. E o Jim B tá aí?
Mauro Ramos:É, o Jim B é um paizão compreensivo. O engraçado é que ele não aparece muito durante a série inteira, mas quando aparece, ele é extremamente bem quisto pela comunidade do One Piece por causa dessa postura dele de protetor, de pai, de guia, entendeu? Então é isso. Diga lá.
Voz B:Bom, tem um aqui que vai falar de um monte de coisa que a gente já falou, mas o mais importante é: faz o urro.
Mauro Ramos:Ah, o pessoal pede para falar isso, e eu já botei até na internet o negócio. Não posso fazer o urro porque o urro é original, é uma junção de vários sons, pô. Não dá para fazer o urro, cara. Que isso?
Voz B:Faz o urro.
Mauro Ramos:É, pô, faz o urro. Pronto, foi isso que tu falou.
Voz B:Faz o urro.
Mauro Ramos:Pronto, acabou.
Voz B:Bom, mas eu vou ler a mensagem dele, é que a gente já falou muito sobre o que ele quer ver. Ó, olá Igor e Mauro, pergunta para ele o que ele acha do mercado de trabalho hoje para novos dubladores. É, pontuação tá estranha. Boa noite Flo e Mauro Ramos, amo seu trabalho, você é fera demais, faz o urro. Essa mensagem dele, a gente já falou muito sobre o mercado de trabalho. Se quiser adicionar alguma coisa.
Mauro Ramos:Não, a gente já respondeu bastante, falamos bastante, né?
Voz B:O Beuzebu do Software mandou aqui, ó. Beuzebu do Software, ele mandou aqui: Mauro, te conheci através do áudio do livro Quem Pensa Enriquece. Foi o livro que virou a chave na minha cabeça. Como foi para você narrar esse livro tão aprofundado, dando mais de 13 horas de livro? Ué, aprende alguma coisa mesmo, cara, fazendo essas porra aí.
Mauro Ramos:Pior que aprendo, aprendo. E mais, eu faço qualquer tipo de literatura, literatura religiosa, literatura de negócio. Por quando eu li esse livro, por exemplo, eu interpretei um coach. Eu olhei e falei assim: esse é um coach, eu tenho que passar para o ouvinte o que um coach passaria. E aí eu passei o tempo todo do livro interpretando destravando a mente do cara. Isso e tal, vamos embora.
Voz B:Você aproveitou, vendeu um curso no meio.
Mauro Ramos:É, segue em frente, companheiro. Só que eu não ganho porra nenhuma, só aquele dinheirinho do livro, né, da narração.
Voz B:Mas faz um OnlyFans.
Mauro Ramos:É com isso?
Voz B:É com qualquer coisa, OnlyFans.
Mauro Ramos:Não, não vou fazer OnlyFans porque imagina eu.
Voz B:Vai, tem, tu não falou que o bagulho é doido?
Mauro Ramos:E aí? É. Mas vai ficar esquisito, companheiro, vai ficar esquisito. Eu tô com, né, tá bom.
Voz B:O Leonardo Emílio mandou: Boa noite, senhor Mauro, é um grande prazer poder ouvir a sua belíssima voz ao vivo.
Mauro Ramos:Obrigado, querido.
Voz B:A minha pergunta é: qual foi o seu maior desafio na dublagem e o que o senhor aprendeu no processo?
Mauro Ramos:Eu aprendi que é difícil para cacete, e foi o que eu falei para você daquele filme, que eu era tão difícil que eu suava nas mãos, entendeu? Então esse foi a coisa mais difícil que eu já fiz na minha vida.
Voz B:Cantar um Hakuna Matata é moleza. Ah, cantou muito ao longo da tua carreira também, na dublagem?
Mauro Ramos:É razoável. O pessoal é porque eu acho que eu sou um bom ator. O pessoal pensa que eu canto e todo mundo acredita porque eu sou um bom ator, entendeu?
Voz B:Entendi.
Mauro Ramos:Então, desde eu comecei a cantar com o Pumba do Rei Leão, Hakuna Matata, que o Drummond uma vez falando, a gente tava na Delarte lá no Rio de Janeiro, e aí uma criançada que foi, era um sábado de manhã, uma coisa assim, E a gente tava esperando na recepção, aí a criançada veio: "Ah, não, esse aí é o que faz a voz do Pumba e tal, ah, não sei o quê, não sei o que lá, e vai, e aí canta Hakuna Matata." Aí eu cantei Hakuna Matata, as crianças: "Ei, vai, não sei o quê, tchau, tchau." Foi embora. Aí o Drummond olhou pra mim e falou assim: "É, meu filho, o seu Scooby-Doo é o Pumba. Vai cantar essa merda até morrer." E riu pra caralho. E eu ri mais ainda, porque ele não era de falar palavrão, mas ele encheu a boca de uma forma, puta, foi ótimo.
Voz B:Vai cantar essa porra até a morte.
Mauro Ramos:É, uma vez eu fui em 3 aniversários, um no sábado e dois num domingo. Nos 3 eu tive que cantar Hakuna Matata. É lindo de ser, mas Hakuna Matata, o que eu aprendi, meu filho? Hakuna Matata.
Voz B:Papo reto, né, cara?
Mauro Ramos:É, ué. Sim, vai entender, vai aprender.
Voz B:Mauro, muito obrigado pela moral, cara. Obrigado pelo teu tempo, obrigado por vir aí trocar essa ideia, foi incrível, cara.
Mauro Ramos:É mesmo? Muito obrigado a você. E ainda por cima com uma cerveja zero, que me fez voltar a beber. Muito obrigado.
Voz B:Calma aí, cara. Me fez voltar a beber, vai pegar mal pra mim. Mas, cara, obrigado mesmo. Essa aqui é a tua câmera. Se quiser falar mais alguma coisa, como é que as pessoas te acham na internet aí?
Mauro Ramos:Bom, eu tô no Instagram e se Deus quiser vou criar um canal no YouTube, mas tô no Instagram, Mauro Ramos Dublagem. De vez em quando eu apareço aí falando algumas coisas, algumas merda lá e tal, e me prestigiem. Tô no Threads, tô no não sei de onde, não sei o quê, TikTok também, obrigado, entendeu? Então tô aí, tô começando com esse negócio. Me dê o prestígio da sua audiência, por favor. Isso é tão antigo, né? Me dê o prestígio da sua audiência.
Voz B:Mandou uma carta lá para onde era mesmo?
Mauro Ramos:O estúdio da Xuxa? Era no Jardim Botânico. É, Von Martius. Então, muito obrigado pela oportunidade de eu estar aqui. Valeu mesmo. Espero que o pessoal tenha gostado e que renda alguns trechinhos bons aí para vocês passarem na internet. Porque eu sou isso, normalmente eu sou isso. Não tô fazendo gênero, não tô fazendo nada. Eles sabem disso, eu sou isso. Então tô aqui, qualquer coisa é só me chamar. Viscoso, mas gostoso. Essa daí já valeu, meu irmão. Pois é, então. E era assim, pessoal chora quando eu falo isso. É impressionante. Ou então aquele, como é que é, é, ah, Timão, podemos ficar com ele? Aí o pessoal chora para caraca. Eu gosto desse, do, com ele.
Voz B:Obrigado, Mauro. Ó, já deixar aqui no comentário fixado todos os links para todas as redes sociais do Mauro, é você, para você alcançar com um clique só, se tiver aqui assistindo no YouTube, tá bom? E bom, entra no Discord que tá aqui na descrição também para você sugerir novos episódios e novos convidados. E vira membro do Flow também, que a gente tá fazendo conteúdo exclusivo para os membros aí, só conteúdo maneiro, e custa menos de R$8, meu irmão. Dá nem para comprar uma seda, tá bom? Obrigado pela moral e a gente se vê depois. Beijo, tchau!
Voz A:Your next chapter in healthcare starts at Carrington College's School of Nursing in Portland. Join Join us for our open house on Tuesday, January 13th from 4 to 7 PM. You'll tour our campus, see live demos, meet instructors, and learn about our Associate Degree in Nursing program that prepares you to become a registered nurse. Take the first step toward your nursing career. Save your spot now at Carrington.edu/events. For information on program outcomes, visit Carrington.edu/sci.
ACD
Doações para atendimento médico