FABRÍCIO CARPINEJAR - Flow #649
Papo profundo com um dos maiores poetas do Brasil.
- A escrita como exorcismo e a busca por um livro que seja para sempretestamento·imortalidade·exorcismo·sofrimento
- A superação de mágoas passadas e a importância de deixar irobsessão·perdão·esquecimento·bullying
- O sedentarismo digital e a perda de memórias pessoais na era do avatarmetaverso·redes sociais·memórias coletivas·Alzheimer digital
- O sucesso como miragem e a importância da paz e das raízesreconhecimento·depressão·ansiedade·paz·família
- A diferença entre opostos e diferentes nos relacionamentos amorososamor romântico·ciúme·comunicação·afinidades
- A importância de honrar o presente e não sofrer pelo incontrolávelpromessas·debate público·ideologia·controle
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Salve, salve, família! Bem-vindos a mais um Flow. Eu sou Igor. Hoje eu vou conversar com Fabrício Carpinejar. Obrigado por vir aí, cara.
Eu que agradeço o convite, Igor.
Muito estiloso esse teu óculos aí.
Para quem tem olhos caídos, é o único jeito de ficar de pé.
Deve ser curioso também, os cara te encontra na rua e te vê de costas, ele deve ficar tentando ler o que que tá escrito na tua cabeça.
Não sei, mas deve ser. Eu não me preocupo com o que acontece nas minhas costas.
Cara, isso daí...
Eu estou às costas.
Entendi. Bom, a gente vai trocar uma ideia aqui hoje, obviamente. Tem o livro aqui do Carpinejá que a gente vai falar um pouco sobre ele também. Tu vai assinar para mim, porque aí eu não posso vender depois.
É o único jeito.
E se você quiser participar da conversa, quiser mandar alguma coisa, vai que ficou faltando falar de qualquer coisa, Tem o QR code do LivePix aqui, tem também aqui na descrição o link. Pode mandar tua mensagem para gente que aí eu vou ler aqui no final, tá bom? Então vai escolher as 5 melhores aí para gente e a gente dá ele aqui. Mas Fabrício, antes da gente começar aqui, tu me perguntou se eu escrevo. Eu disse que não e te perguntei se eu deveria.
Porque, cara, isso já me incomodou. Isso, escrever me incomoda desde que eu sou um adolescente, né? E aí eu lembro de eu indo trabalhar, e aí eu ia muito andando, então eu ia muito de bicicleta, e eu ia pensando, pô, numa história. Não sempre, não era um troço que vivia na minha mente, mas eu pensava, pô, quando eu escrever um livro, cara, pô, quero contar uma história assim, não sei o quê. Eu acho que eu quero escrever uma alegoria para dizer o que que eu penso sobre algum aspecto, não sei o quê.
Sempre fui nessa onda, mas sempre entrei numa de deixa eu viver um pouquinho mais Eu acho que eu ainda não tô pronto, sabe, para tentar dizer para as pessoas o que que eu acho da vida. Porque sei lá, eu cheguei à conclusão que jovem demais eu tinha umas certezas que se eu tivesse posto no mundo ali, entendeu, talvez fosse melhor eu viver um pouco mais. Aí eu, pô, pera aí, eu falava, eu era esse babaca aqui, né, porra, caralho, acho que eu vou ver um pouco mais aqui e ver qual é.
E Sei lá, não sei se— espero que chegue a hora. E aí comprei já caderninho para fazer de diário, para começar de algum ponto e tudo mais. Já vi umas palestras lá da professora Galvão lá falando sobre escrever diário e tal. E eu comecei e acabo não me interessando, não sinto tesão de escrever, cara. Para tu é diferente, né?
É, talvez você entenda o livro como se fosse um testamento, não uma fase da vida. Mas quando você vai se relacionar com alguém, você pensa que será para sempre?
Olha, depende. No meu caso, com a minha esposa, eu espero muito que seja para sempre. O resto, tirando a minha esposa e as minhas filhas, eu sei que não é para sempre, na verdade.
Pois tu carrega para o livro a certeza que você tem com a sua esposa. Você quer um livro que seja para sempre, e isso paralisa qualquer um. É verdade, toda imortalidade adoece. O ideal é pensar: vou fazer o livro para me expressar agora, para tirar as tralhas do que eu tenho os destroços, a bagunça, a sujeira. É um exorcismo.
Funciona assim para tu sempre.
Eu, se eu pensar, vou escrever o livro da minha vida, eu não vou escrever esse livro nunca, porque eu sempre estarei corrigindo, eu sempre estarei alterando. Ainda mais porque você vai mudar de opinião. Tem livros meus passados que revelam a minha versão do momento, não tem nada a ver comigo. Aliás, tem livros que eu escrevi que são muito diferentes de quem eu sou.
Mas no momento de escrevê-lo, tu confiava?
Ah, confiava, e precisa confiar. Precisa amar com toda intensidade. Mas escrever é terrível, porque não é agradável, não é confortável. Você mexe com fantasmas, com terror, com a fronteira, com desconhecido. Tem coisas que você escreve que você ainda não está maduro para ler a seu respeito, porque a escrita antecipa passos que você ainda não deu. A escrita é breu, é noite sem estrelas, sem guia também. Sem guia, você escreve por um incômodo.
Você escreve com a tinta que foi das suas próprias feridas. A tinta é o sangue das suas feridas. Se você não sofreu, se você não teve percalço, se você não tombou, se você não caiu, vai escrever sobre o quê? Você não entende nada da vida.
Porque viver é sofrer, carpinejar.
Escrever é sofrer e viver. Viver é se recuperar de tudo que você escreveu.
Eu gosto dessa ideia. Eu acho que, eu acho que esse exorcismo que você tá descrevendo aí, que tu coloca nas tuas páginas, cara, acho que me falta colocar nas páginas só, porque ele tá todo aqui.
Sabe o que que eu faria a princípio? Um livro de entrevistas do Flow. Faria uma enciclopédia do pensamento contemporâneo.
Isso dá para fazer.
E colocaria como enciclopédia do pensamento contemporâneo. Cara, tu vai ter frases tuas que você não imagina. Porque veio do atrito, veio da provocação, veio do desafio de estar vivo e de fazer algo ao vivo. É, depois que você fizer isso, você vai tomar gosto. O que que dá é cachaça.
O que dá, o que dá essa cachaça, ela vem a partir do momento que os outros leem, ou quando você terminou de de pôr no mundo aquilo que tava na tua cabeça. Tipo, o que que te dá mais tesão é realizar o livro ou o livro se tornar um best-seller?
Escrever.
Pô, mas um best-seller te deixa fortão.
Reconhecimento, velho, passa rápido, caduca. E nenhum amigo verdadeiro vem com sucesso. Nenhum amor verdadeiro vem com sucesso. No fim, é você e sua família. Se você adoecer, só terá sua família, não sobra nada. Se você acredita que escreve ou trabalha para ter sucesso, Você vai ser demolido por uma miragem. Todo mundo que encontra o sucesso fica deprimido, tem crise de ansiedade, entra em pânico, adquire fobia do público. Se o sucesso fosse bom, As pessoas iriam melhorar com ele.
Elas pioram. O sucesso é como se fosse uma morte. Ninguém volta para contar como foi.
Tem uns caras que voltam. Dá para voltar, não dá? Porque assim, o que que a gente tá chamando de sucesso?
Sucesso mesmo. Tá, eu tenho certeza que as pessoas mais sequeladas que você conversou foram quem teve sucesso absurdo.
Olha, eu vou te falar que todas as pessoas que fizeram coisas impressionantes, todas as pessoas que mudaram algum jeito de fazer alguma coisa, ou todos os principais caras que são geniais, cara, eles estão todos meio malucos mesmo. Não tem nenhum que é legal da cabeça, não tem não.
Mas é uma solidão, você fica numa solidão. Estar na multidão é a maior solidão que existe.
Estar na multidão, no meio da multidão, ou sendo idolatrado pela multidão.
Ser idolatrado por uma multidão, você não tem mais com quem repartir os seus tormentos, falar bobagem, tudo se torna decisivo. Inteligente, sublime. Você perde o bastidor da vida, a coxia, a ribalta.
Você fica tudo num palco.
É, não tem como tossir, não tem como espirrar, não tem como suspirar. Sucesso para mim Não me interessa. O que me interessa é paz. Não me incomoda, é paz. É o que a gente tem de mais valioso. Para ter paz, primeiro enxugar a vida. Poucos e leais amigos. Confiança no casamento. E fale com frequência com seus filhos, com seus pais, com seus irmãos, para que você não perca as suas raízes.
É, esse livro aqui é o Deixe Ir, Desapego. Pois é, cara, é, tu me disse já que escrever para você funciona um pouco como um exorcismo, né? Tirar o entulho da cabeça. O que que te motivou a escrever esse aqui, Deixe Ir?
O fato de ser obcecado com todo mundo que zombou de mim. Procurando um pedido de desculpa e de retratação. Eu perdi grande parte da minha vida imaginando um encontro redentor, pessoas me pedindo desculpa. Ah, eu não sabia que você era tão bom, eu não queria ter magoado você. Nunca aconteceu. Tá rindo, mas é isso.
Eu tô rindo um pouco porque, desculpa, desculpa, mas é, porra, desculpa, cara, mas é que parece meio infantil, porra. Não parece meio infantil?
Todo sofrimento, Igor, é infantil. Todo sofrimento vem de uma criança machucada. Você pode ser adulto, velho, não importa. Se você chorar, é sua criança chorando.
O que que a gente faz com essa criança, Carpinejar?
O que eu fiz? Como eu desperdicei tanto da minha atenção imaginando quem não ligava a mínima para mim. Esses agressores não têm a sua consciência, não têm a sua sensibilidade. Eles fizeram o que fizeram porque eles não são como você. Eles não prestam. Deixa ir. Quem é machucado lembra sempre, quem agride esquece na hora. E isso eu vi quando eu publiquei meu primeiro livro e veio um dos, um dos autores do maior bullying que eu sofri na minha vida.
Veio na minha direção pedir meu autógrafo. Eu pensei, agora sim, agora vem! Eu não sabia se eu batia ou esperava, humilhava ou constrangia. Ele estava feliz comigo, ele tava eufórico comigo, e ele me disse Ai, que alegria ter sido seu colega, que orgulho de você, cara.
Você sabe quem eu sou, você sabe o que você fez comigo.
Ele não lembrava.
Eu falei, sofreu tanto tempo, cara.
Eu falei para ele e ele Mas não foi assim tão grave. Para ele não era grave, não era grave. Então você carrega uma culpa pelo outro, você paga a pena pelo outro.
Tanto faz, tu é meio que vítima e depois tu que ainda paga a pena pelo outro.
Você faz o serviço comunitário de lembrar todo dia do que aconteceu. E fica empacado, fica estacionado naquele passado, não evolui, não muda. Isso não vai acrescentar nada, é uma dor mofada. Você tem dificuldades para se aproximar dos outros, para confiar nos outros.
Em função de uma praga que você não deveria nem pensar mais.
O que eu fiz? Amnésia, lobotomia, apaguei da memória.
Isso é a mesma coisa que perdoar?
É melhor que perdoar esquecer. Esquecer é muito melhor do que perdoar, porque esquecer é seguir a vida. Perdoar é ser fiador de quem não fez por merecer a sua companhia. Eu não compreendo e nunca vou compreender perdoar como reboque. Ah, você perdoa para ficar junto, para ficar ao lado. Você pode perdoar e não querer mais o contato com aquela figura.
Perfeito, perfeito, é possível. Eu acho às vezes muito saudável, né?
Como você vai confiar?
A confiança é frágil, a confiança é uma cola, não é nem pónder. Tu tem que botar um pouco de guspe. Para fortalecer a cola. Se quebra a confiança, é irremediável, não tem conserto. Reconciliação. A reconciliação, você sempre volta para o relacionamento acreditando que terá a mesma potência do início.
Pode até ter no comecinho, não pode?
Só no início.
Depois, se nada mudar, vai ter o mesmo resultado, né?
Quer saber se a outra pessoa mudou?
É, olha, eu gosto da— dependendo, é claro, do tamanho do crime cometido contra você.
Verdade, verdade.
Eu curto a ideia do— dependendo do ir embora ou do, cara, deixa eu trocar uma ideia contigo aqui, deixa eu te falar o que que tá me— o que que tá pegando.
E uma ideia meio sinistro é esse trocar ideia.
E a ideia às vezes resolve, dependendo do tamanho do vacilo e tudo mais, né? Só que eu não sei, o problema é a falta de disposição dos envolvidos em se adequarem a uma— vamos pensar aqui num casal, né? Os casais não são perfeitos, né? Eles brigam o tempo inteiro, especialmente não brigam o tempo inteiro, mas eles não necessariamente concordam o tempo inteiro, né? Especialmente porque as pessoas são complexas, cada uma é de um jeito, e por mais que você fique um tempão com a outra pessoa, ela, sei lá, sempre surpreende, né?
Então eu nesse caso eu curto a ideia de, cara, precisamos todos nos adequar dentro do que somos. Por exemplo, eu sou um pouco, sei lá, eu não tenho muito, eu não preciso tampar o vaso depois que eu urino, tá bom? Como ser humano assim, mas eu tampo o vaso depois que eu urino porque eu sei o quanto que isso incomoda. Por exemplo, vou tomar meu café aqui, por mais que ele esteja quente, eu vou evitar tomar chupando porque incomoda, entendeu?
Faz um barulhinho realmente.
Então eu vou evitar.
De sopa, né? O barulho de sopa.
Então é, mas isso não diminui quem eu sou.
Mas você sabe tomar café fazendo esse barulho?
Não, justamente isso. Não, eu consigo fazer de outra forma.
Me assustou, velho.
É difícil.
Deixa eu ver se eu faço isso.
Esse já tá frio, pô. Já tá frio, tá fácil.
Mas o barulho que tu faz, nem todos escutam.
É, o ponto é, dentro do que sou, tá tudo bem. Mudar para acomodar, sabe?
Eu, para não discutir, para não brigar, inclusive. E característica, isso não é mudança, isso é adaptação.
Então, mas existem características que são, que é foda eu dizer para as pessoas ou aconselhar as pessoas que troca uma ideia, espera mudar, porque mudar depende de querer mudar.
Né?
Então é uma decisão pessoal, não tem nada a ver com outro.
Exato. Se eu te peço para mudar, você pode achar o que eu pedi, não acho, não vou mudar.
Eu vou achar até uma pretensão sua.
Quem é ele para ficar querendo que eu mude?
Agora, agora, existem pessoas que estão dispostas a, sei lá, transformar algumas características, outras não. Características que são inclusive mutuamente entendidas como ruins, né?
Eu acho que tem uma boa base para descobrir se a mudança é verdadeira verdadeira ou não. Se a pessoa tem pressa, é falsa. Se a pessoa tem paciência, é uma mudança verdadeira. Se a pessoa se dispõe a esperar o tempo que for, ótimo. Você traiu alguém, se separaram, você pede desculpa, Mas diz: não quero voltar, seja o tempo que for para o nosso reencontro. Se você faz essa aposta com o destino, costuma dar bom resultado. Isso é interessante e é totalmente contra-intuitivo, totalmente, porque você quer resolver rapidamente, Você quer ser anistiado, você quer aquela proteção, quer o retorno da rotina.
A mudança é ir para o deserto sozinho. Ninguém muda acompanhado. É um retiro. Você descobre o quanto que magoou o outro e sofre tudo que o outro sofreu. É uma telepatia do sofrimento. Você reconhece mesmo que não tem contexto e não tem desculpa. Você errou, você assume que errou e não fica tentando descobrir atenuantes. Qual que é o risco de perdoar alguém e trazer de volta para o convívio? Você vai ser o fiscal, você vai ficar vigiando, vai ficar controlando horários, vai ver se a pessoa está disposta ou não, como ela acorda de manhã.
Aí você vai fazer o trabalho para o outro? Eu não sirvo para fiscal. Aí isso me cansa, velho, cansa. Não, isso eu não gosto. Isso é Eu não gosto dessa creche. Casamento precisa maturidade. Quer ficar comigo, fica comigo. Não quer ficar comigo, tá tudo bem. Esse amor romântico me noja, porque os piores gestos estão escondidos do romantismo. A pessoa mandando várias e várias mensagens: eu estava preocupado com você, com a sua segurança. Que nada, não é preocupação, controle, é controle.
Você quer saber se eu estou fazendo algo de errado, é isso?
O que a gente usa de bons sentimentos para fazer péssimas ações não tem cabimento.
Diga que tá com ciúme, desembucha que tá com ciúme, mas não me enrola.
Esses livros que tu escreve, é a partir do momento que tá aqui, isso que tu sentiu ao escrever fica mais brando. Tipo, agora, agora isso aqui tá no mundo, é assim?
Boa, boa. É uma anestesia, mas anestesia sempre acaba.
É, que bom, porque isso não faria de você, sei lá, menos humano, né?
Não continuo sentindo aquilo que eu escrevi. Mas você se torna uma porta para quem sofreu algo parecido. Você traduz o que uma outra pessoa não conseguiu falar. Escrever é ajudar o outro a falar.
Interessante.
É um impulso terapêutico, é um conforto. Eu também, como leitor, quando eu lia algo pesado, eu sentia que, nossa, esse livro está me curando porque ele me deu as palavras certas para algo que eu julgava indizível. Quando você organiza suas emoções Você não resolve as suas emoções, mas você tem como encontrá-las dentro de você. Não vai ficar perdido, solto. Deixa de ser trauma. O trauma é quando você não encontra a lembrança. Quando você encontra a lembrança, já é uma experiência esclarecida. Foi ruim? Foi. Doeu?
Foi.
Mas você sabe onde fica.
Pior que é verdade, pior que é verdade. E sobre, você tava falando que, pô, se eu for escrever o livro da minha vida, eu nunca vou escrever. Inclusive tem livros que eu escrevi que eu já mudei. Essa mudança ao longo da vida, cara, é para algumas pessoas ela é indesejada. Tem gente que diz que tem orgulho de dizer que eu nasci assim e ficou assim sempre e morrerei assim.
Mas que falta de criatividade, mesmo. Eu acho uma falta de criatividade quem É aquilo que sonhou na infância, cara. Da infância até a maturidade, você só desejou uma coisa, só uma: alienação.
Eu já desejei ser tantas outras coisas e Eu não gosto de, ah, eu tenho um sonho, porque você deixa de olhar para os lados. Eu prefiro a atenção do que sonhar.
Mas isso não te coloca num lugar de pode ser bom e ruim?
Depende, tudo pode ser bom, tudo pode ser bom e ruim.
Mas bom, se você, se você, vamos lá, eu não tenho objetivos que estão muito distantes, né? No meu caso eu tenho, mas eu tenho esse objetivo extremamente distante que eu tava te falando antes aqui, que eu não vou alcançá-lo, especialmente acabou.
Você vai publicar essa série de entrevistas, espero que pelo menos aí coloque a nossa, né?
Tá, tá bom, pelo menos isso.
É, mas vai ver como vai mudar tudo.
É.
É porque todo sonho precisa de ponte. Talvez seja mais gostoso atravessar a ponte do que chegar até o outro lado.
Exato.
Porque a ponte, você vê o melhor do riacho, o melhor do rio, o melhor do mar.
No meu caso, eu curto a ponte porque eu tinha um objetivo que era um pouco mais perto, só não sabia. Porque de onde eu vinha, eu achei que, putz, a hora que eu não precisasse mais me preocupar em pagar aluguel que eu ganhei, entendeu? E aí chegou essa hora que eu não precisava mais me preocupar em pagar aluguel. E aí eu passei por isso, não era isso. E aí quando eu vi que não era isso, eu me vi sem saber o que fazer, sabe? Tipo, tá, agora tá, e agora?
Então aí eu fui sonhar com um troço um pouco mais longe para eu poder ficar a vida inteira na ponte.
É, mas Eu sempre penso que as pessoas que estão próximas continuam nos enxergando como da primeira vez. Isso é bonito. Você não muda para certas pessoas. Você muda sempre, mas para certas pessoas você não muda. Você não vai mudar para os seus filhos, nunca vai mudar para eles. Você não muda para quem tem grandes esperanças de você.
Nossa, isso é ruim, na verdade. Não, eu acho que é bom, é uma certa lealdade, mas não me coloca uma pressão de suprir essa necessidade do outro sobre o que eu faria ou diria ou como eu agiria. Tipo, imagina que um, vamos dizer assim, no meu caso mesmo, eu tenho, vamos dizer que eu tenho aqui uma galera que assina o meu conteúdo e ela, e porque eu tenho uma opinião específica sobre um assunto X, eu acho que essa água é a água mais gostosa do mundo e tem uma comunidade que acredita nisso também.
E agora eles me seguem muito e são meus fãs e tal, a ponto de assinar meu conteúdo, eu falando que essa água aqui é a melhor do mundo. Se eu experimento a tua água e, putz, meu irmão, não sei, aquela ali é igual. Então não é que essa é a melhor do mundo, putz, se tem uma outra igual, já não sei. Pronto, os cara aqui já, porra, cara, eu tinha uma expectativa em tu que tu ia achar essa água aqui é a melhor do mundo, pô. Agora tu mudou, porra.
Mas isso vai acontecer com todos os outros, menos com quem você realmente ama. Entendi. Eu envelheço para você. Você já me viu há 3 anos, pode me olhar, eu envelheci para você. Você pode ter envelhecido para mim, mas eu não envelheço para minha esposa de modo nenhum.
A minha esposa continua me olhando como se eu fosse aquele cara jovem que conheceu ela, com cabelo, com cabelo inclusive. Ela vê cabelo em mim. Eu não sou careca para minha esposa, velho.
Ah, eu entendo. Sei lá, eu tô entendendo que eu tô fazendo aqui a relação com meus pais. Faz sentido que você tá falando.
Não, os pais.
A minha mãe não enxerga quem eu sou. A minha mãe me olha como se eu fosse um menino.
E ela me fala coisas absurdas. Não vá se gripar. Mal sabe ela. Leva o guarda-chuva, avise quando você chegar. Eu nem moro mais com ela há muito tempo.
Né?
E ela me vê como menino, eu não envelheço para mãe.
Mas como você vê tua mãe? Ela muda para você? Que eu tava pensando nesse ângulo também. Eu pensando aqui na minha mãe e no meu pai, por mais que tenham mudado ao longo do tempo, eu não vou saber te dizer.
Minha mãe pode estar no último dia da sua vida Para mim é como se eu estivesse nascendo e ela me recebendo nos braços. A vida é generosa nos ciclos, porque foi minha mãe que colocou meu nome na certidão de nascimento. E eu que serei o filho que vai ter que assinar a sua certidão de óbito.
Mas que bom que seja assim, né?
Ela escutou meu primeiro grito, eu vou escutar seu último suspiro. E quando você realmente ama alguém, não existe mais o tempo. É isso que acontece. O tempo morre e o amor vence. Mas aquele amor romântico Não, amor, amor de respeito, o amor da gentileza, o amor da atenção, o amor do cuidado, o amor. Não aquele amor que quer algo em troca, não aquele amor do sacrifício e da renúncia, aquele amor que você precisa deixar de fazer algo pelo outro, em nome do outro, com provas e provas e provas.
Amor que se prova é idolatria, é obsessão, não é amor. Você não precisa provar que ama o outro, você ama o outro. Se você tem que provar, existe um tal grau de insegurança que você vai querer do outro também outras provas. Outras demonstrações, e é uma competição. Daí vem algo que eu acho fundamental: os opostos não se atraem. Você não pode ficar com quem é seu oposto, não tem cabimento. Os diferentes se completam. Vocês precisam ter projetos e sonhos em comum.
Você precisa ter afinidades. Tem as diferenças. Um pode ser mais calmo, outro pode ser mais ruidoso, um pode ser mais introspectivo, outro mais extrovertido. Isso são diferenças que se completam, mas não é oposto.
Me dá um exemplo de oposto, Carpine, já.
O oposto é: você é carinhoso, gentil, suave, e a outra pessoa só dá coice, é grosseira, grita. A comunicação é oposta. É o oposto.
Entendi.
A comunicação não tem como dar certo, não tem como dar certo.
Se a maneira de resolver os problemas é no diálogo e o diálogo é impossível, já era.
O poço você não consegue trocar ideias, a pele aceita qualquer argumento. A pele é facinho. É, você pode ter química com alguém, o quarto ficar em chamas, fogaréu, mas vai para sala, vocês não conseguem nem riscar um fósforo, não consegue falar nada. Não tem encaixe. Você pensa: quem é essa pessoa? Você se sente mal, você quer sair dali correndo ou mandar outra pessoa embora. É quando você fica arrependido rapidamente da transa.
É porque é melhor ir para a próxima tentativa aí, né?
Não porque a transa foi ruim, mas porque agora eu vou ter que conversar. Isso é isso, Igor, pegou!
Quando você pensa vou ter que conversar, você só pensa nisso quando o outro é muito desagradável.
E pode ser desagradável para você, pode ser agradável para outras pessoas.
Para você não tem, não tem a física, não tem, não tem ponto em comum.
Você não consegue rir. A pessoa conta uma piada e você acha sem graça.
A pessoa fala de uma música que não tem nada a ver com você. Não existe o lastro geracional. Aí é muito constrangedor.
Imagino que sim, é um vexame. Eu não tenho que lidar com isso, né?
Nem eu tenho que lidar com isso.
Agora, a pessoa que se encontra numa situação como essa, cara, é: será que tem alguém que realmente não tá vendo que isso tá acontecendo? Especialmente porque, puta, se a primeira coisa que tu pensa é: pô, vou ter que conversar, mané, ou então: puta, vou ter que ir num jantar com— puta que pariu. Porra, só queria transar. Isso, se isso não é um alerta vermelho gigantesco, pelo amor de Deus, meu irmão.
Tem quarto que sai muito caro para a saúde mental. Essa história, ah, eu só quero ter uma noite, você vai pagar um pedágio de tensão de constrangimento, de falta de jeito, de atrapalhação incalculável, incalculável. Não deveria existir aplicativo de sedução, tem que ter Cabal Tinder total.
Não deveria existir porque as pessoas deviam ser amigas primeiro. Seja amigo, velho. Se conversar e depois tiver o lucro, melhor. Mas se não tiver o lucro, tem amizade. Você não poderia sair com quem você não pode ser amigo.
Regra, regra para você mesmo não se ferir, né?
Exato, exato.
Não tem essa regra, mas cria você mesmo então, para você.
Vai querer um corpo, gente?
Trocar uma ideia, entender melhor o que que o outro pensa e tal.
Porque nesse aplicativo, muitas vezes você quer alguém que escute, alguém que incentive, alguém que diga isso não é nada. Só, velho, Tu não tá procurando na noite a salvação da lavoura.
É verdade.
Isso também é uma ideia infantil, né? Eu vou ficar com todo mundo, ah, colecionar, coisa de jovem. É, não. E quando você tem essa paz de saber o que você não quer, é meio caminho andado.
Você não precisa saber o que você quer, desde que você saiba o que você não quer. Vai ficar muito mais fácil, leve a vida.
É, eu gosto dessa ideia, eu gosto de saber, eu gosto de quando alguém me pergunta uma coisa mais absurda, aí eu, a primeira, o que eu pergunto é: por que não? Por que não vai produzir umas respostas mais curiosas, né? Eu gosto do por que não. Porra, vamos saltar de paraquedas?
Por que não?
Por que não?
Aí tu, porra, caralho, aí faz outro pensar.
Aí tu até pondera legal, né? Por que não? É melhor do que só assim ou então só não. E como eu gosto da ideia da— esse, para esse tipo de pergunta eu tendo a responder sim, porque eu gosto de dar— a galera vai ficar bolada aqui, porra, tá maluco, cara, se morrer não sei o quê. Pô, mas eu só vim para esse planeta como Igor do Flow uma vez, malandro. Eu não sei se numa próxima vida eu vou ter oportunidade de trocar ideia com os cara que eu troco ideia, de fazer as coisas que essa vida tá me dando oportunidade, manja?
Sei nem se tem outra vida. Então, porra, se saltar de paraquedas, tu garante que eu não vou morrer? Garanto. Então eu acho que eu quero ir. Curto essa ideia das experiências.
Mas você sabe que você criou isso aqui? O quê? Você não tá recebendo as pessoas, você fez com que as pessoas viessem até você.
É, mas não é legal isso aqui?
É um metaverso, velho. Eu nem sei se eu estou aqui, tá?
Você tá aqui, porra. Manoel, olha só, então Cara, eu vou te pedir, olha isso, a vida me deu essa oportunidade aí.
Mas tu entendeu o que eu disse?
Tô entendendo.
Por que não?
Tô entendendo. Então aí agora eu tenho a oportunidade, eu, puta, cara, eu queria trocar ideia com o Carpinejara, eu chamo ele, ele vem, porra.
Então eu quero—
Mas viu a doideira, né?
É uma doideira, claro que é uma doideira, pô.
Não, a doideira é isso, é você chamar as pessoas e elas virem.
E elas virem, eu sei, eu sei, é uma doideira.
Porque ninguém te conhece, velho.
Todo mundo pensa que te conhece.
Você também não tá aqui.
É, como assim eu não tô aqui?
Você não tá aqui, você também é o metaverso, tá?
Porque eu não sei o que que você faz depois daqui.
Você, você é uma entidade aqui.
Tu ia descobrir que é bem parecido. Talvez eu vou falar um pouco mais de palavrão e fumar mais cigarros, mas é bem parecido na verdade, porque eu tento tomar esse cuidado. Eu sei que Não vou dizer para você que eu sou o mesmo cara aqui e no meu quartinho lá de madrugada e tal, mas tá o mais próximo possível, manja? Tem um monte de câmera ligada e apontada para gente, tem o lance do sucesso que você falou, que eu não posso—
também não se interessa mais.
Olha, mas independente do que eu acho do sucesso, é, ele— e isso é verdade para várias coisas, independente da minha opinião sobre elas, elas são algo. Então, independente do que eu, de como eu lido com o sucesso, o sucesso espera algo de mim. Então a minha galera espera algo de mim. Por exemplo, se eu tivesse, se a gente tivesse lá no meu quartinho trocando uma ideia, provavelmente eu ia soltar umas coisas que eu não tenho tanta certeza.
Vou falar umas burrice aqui, a gente, e aí a gente pesquisa aqui, vê na hora e tudo bem. Aqui eu vou dizer, eu vou dizer com menos intensidade. Eu não vou deixar de dizer para mim que aqui você é covarde. Eu tô dizendo para você que você tá sendo Tá sendo cagão aqui. Aqui eu tô dizendo para tu que eu vou falar para tua sigla.
Vamos para o cortinha agora.
Tu fala para minha sigla, o que que tu acha do aborto?
Aí eu vou falar assim, cara, olha, eu entendi, mas é bem legal isso que tu tá dizendo. Você exercita seus rascunhos fora daqui?
Fora daqui eu sou a mesma coisa, a letra feia, a letra Legerro, uma letra feia com pouco, com pouco mais de menos, deixa eu pensar, com, eu vou ser um pouco mais cuidadoso. Isso é diferente de fujão e cada um, mas eu vou ser mais cuidadoso. Eu vou falar as coisas para você aqui é um pouco mais de lastro, entendeu? Se eu for contar para você o que eu tava falando aqui para o cara do, do cara falando do cara da pipa com a chave que cai um raio e ele descobriu a condução elétrica e tal, eu falei que era o Foi o Benjamin Franklin, mas eu falei que era outro cara.
Puta, esqueci. Não, não era o Tesla, falei que era outro cara e falei com uma puta convicção. Mas como eu fiquei, pô, pera aí, é isso mesmo? Eu mesmo fui olhar e eu mesmo falei, ó, fake news, é o Benjamin Franklin. Mas se fosse ao vivo, eu ia falar, não sei quem foi, entendeu? Mas eu ia falar. Onde? Então é mais ou menos a mesma coisa, só que com um pouco mais de lastro na realidade. Então, de novo, porque tem um monte de câmera ligada e apontada para gente.
E eu, e espera-se de mim que eu não vá disseminar uma mentira, uma fake news e tudo mais. Eu espero isso de mim, inclusive, entendeu? Então é aqui, tu tem uma responsabilidade, mais ou menos isso, mais ou menos isso, é que eu mesmo construí para mim, tá? Que no fim das contas, ela não, eu não acho que ela me poda, eu acho que ela me arma. Quer um outro exemplo? Eu não posso. Eu tô vendo lá o escândalo que tá acontecendo no Supremo Tribunal Federal, né?
E eu venho há um tempo, desde que ficou público que haveria um contrato— acho que isso é fato, na verdade— que um contrato do Banco Master com o escritório da esposa do Ministro Alexandre de Moraes. Eu não digo que ele é um criminoso nem nada, eu só quero que ele me explique isso aqui. Então não deixe de falar, mas eu também não dou mole para ele falar que eu sou um criminoso, entendeu? É porque na internet espera-se que você seja muito mais agressivo, enfático, pular no pescoço.
Eu, eu posso te envenenar em vez de pular no teu pescoço, entendeu? Então eu posso cobrar de um jeito, eu posso falar.
E isso que você faz, eu julgo absolutamente empático. Porque como alguém acuado vai dizer verdades? É, como alguém que tá sendo agredido vai se abrir? As entrevistas precisam de um mínimo grau de cumplicidade para que a outra pessoa se sinta à vontade para falar até aquilo que ela não tem certeza. Nesse sentido, você faz muito bem, você cria uma atmosfera. Mas quando você fala do sucesso, o sucesso para mim de verdade é ajudar outro, tá?
Então o sucesso sempre é passado, já aconteceu. O sucesso não pode ser para você. Se você entende sucesso para ser beneficiado, não vai durar. Mas se você consegue tirar uma pessoa da depressão, da solidão, regular a ansiedade, dar motivos para que ela não se abandone.
Esse sucesso você conseguiu, em boa medida tu também, com teus livros, tuas palestras e tal.
Mas eu, quando eu encontro meus leitores, faço questão de abraçar. Não são números, não tem aqueles exemplares, entendeu? Há números vendidos e tal. São pessoas que eu posso aprender igual. Eu posso aprender a todo momento.
É, mas tu tá pronto para aprender a todo momento?
Todo momento tô pronto. Eu faço assim, sabe por quê?
Conversa à toa.
Eu acho que eu vou chutar o porquê. Sim, conversa à toa. A conversa à toa ao longo da vida vai te mostrando. Eu vou te falar, tô te falando aqui como se fosse você, mas é o que para mim foi assim. Isso que ainda, com todo respeito, falo, preciso viver mais um pouco para chegar em você, com todo respeito. Mas para mim, trocando ideia com os outros, e o flow me proporcionou isso, eu tive oportunidade de entender cada vez mais que Essa pedra aqui, ela é, ela é de um jeito para mim que tô olhando daqui, de um jeito para você que tá olhando daí.
Então, um problema, como eu disse aqui, o exemplo do aborto, eu posso pensar de uma forma por conta da minha vida, de onde eu vim, da minha história, experiências que pessoas ou eu tive, e por aí vai. E você também pode chegar a uma conclusão absolutamente diversa, ou às vezes até igual, por meio de uma ótica completamente diferente. Então Conversar com outro acaba sendo acessar um universo e uma percepção de vida que demonstra que as coisas têm, elas têm muitas faces.
Eu posso olhar, e por mais que a verdade, na minha opinião, seja a verdade, os caminhos de chegar nela, é difícil a gente identificar que desde que, vamos lá, cheguei no ponto A, todas as outras tentativas de chegar no ponto A estão erradas, porque é a minha a certa. E ao ver e entender que existem outros pontos de vista perfeitamente racionais, perfeitamente embasados, inteligentes, que as pessoas refletiram e chegaram numa opinião absolutamente diversa da minha, para mim é fascinante, porque eu considero, eu considero que eu refleti um tanto para chegar na conclusão, por exemplo, que existe uma verdade absoluta.
Mas aí um cara que vai— eu respeito muito o cara que desenvolveu, que falou: não, não é por causa— eu pensei assim, assim, assim, assim, assim, e eu corro risco de mudar de ideia, sabe? Eu adoro ideias incríveis porque elas são transformadoras, né?
São, são. E você Curioso, você é doce no ambiente hostil, né?
Tento.
Mas você é doce mesmo, não é? Eu tô falando alguma coisa errada? Não, não, você é eterno.
Eu tento porque faz parte não só do cara.
Você é afetuoso.
Tá bom, não vou perguntar para minha equipe depois.
Mas não precisa perguntar, eu sinto, eu vejo. Você é afetuoso.
Isso é uma vantagem ou uma desvantagem no mundo de hoje?
Eu acho que você precisa ter essa desproteção para viver. Você vai sofrer mais, vai, mas vai ser feliz como nunca. Está desarmado, desprotegido, vulnerável, faz com que você sinta a vida numa outra frequência. E você nunca deixou de ser afetuoso, porque foi uma escolha. Você sabe que da mesma forma que você fica triste, é por ali que você fica feliz. E eu não iria renunciar a isso nunca na vida. Ser uma fruta amarga, pessimista, indolente, inacessível.
É tão bom quando você não sabe o que vai acontecer, mas sabe que você nunca vai deixar de ser gentil.
Eu tento não ser um cuzão, Carpinejar, sinceramente.
Que que seria um cuzão?
Olha, esse é um outro jeito.
E assim eu falo, cuzão é o quê? É passivo?
Não, ele é um grande otário.
Ah, tu tem medo disso?
É, eu não quero atrapalhar. Ó, não seja um cuzão. É, em outras palavras, não quero atrapalhar a experiência de ninguém nesse mundo. E um monte de gente já falou isso que eu tô falando com outras palavras, não é nada muito inteligente não. Inclusive, tem outros jeitos muito melhores de dizer, como ame o próximo como a ti mesmo, entendeu? Não seja um cuzão é só para intencionalmente, porque às vezes eu acabo sendo um otário. Não seja um otário intencionalmente.
Eu prefiro ser um otário.
Mas o que é um cuzão? O que é um otário?
Eu prefiro ser um otário.
Otário é ser enganado por alguém.
Não, não é disso que eu tô falando.
Ser otário é confiar e ser afetuoso com quem não é.
Não é isso que eu tô falando.
Não demonstrou, não deu na mesma moeda.
O cuzão é o cara, é o contrário disso. O cuzão é o cara que ele vai te trair. O cuzão é o cara que ele vai te contar uma mentira para ganho próprio.
Não, não, isso é o cara que eu também não fico perto dessas pessoas.
Então, eu partindo da ideia, eu não fico, eu tentando não ser um cuzão acabo parecendo talvez afetuoso, como tu tá dizendo, entendeu? Tô tentando não ser um cuzão a minha vida, a minha vida é perfeito, entendi. Não quero atrapalhar a experiência, não quero ser esse tipo, é, não quero que você não queira de mim como um cara escroto, entendeu? Eu não preciso fazer as tuas vontades para isso, eu posso me manter eu mesmo. Eu agora, a partir do momento que eu não sou Por exemplo, se tu vier falar comigo e tu me pede um troço, por exemplo, ó, um exemplo.
Vamos dizer que você é um político e você quer voto, tá bom? Aí tu chega em mim e fala assim, Igor, grava um vídeo pra mim aqui, comigo, com um negócio colado na tua roupa aí com o meu número. Eu vou falar pra você, cara, não vou gravar. Não vou gravar por isso, por isso, por isso, por isso, por isso. Eu acho que se eu mentisse pra você era pior. Porque a partir do momento que eu tô te falando qual é a real, o papo reto logo, Isso te ajuda a compreender a realidade, porque, cara, tu também não vai pedir isso para o outro cara ali.
Isso é uma verdade: não existe mentira educada. Toda mentira é nociva. Ah, eu menti para te proteger, eu menti para não ser desagradável. A mentira é sempre A maior falta de educação. Você só educa pela verdade, pela sinceridade. É encontrar o melhor jeito de falar, a hora certa de falar, o melhor jeito.
Era isso que eu tava, era isso que eu tava te falando.
O jeito tem que ter as palavras certas. Vai ler, gente, não tem as palavras, leia. Fique um pouco em silêncio lendo, você vai saber falar melhor.
Isso é um fato.
A pior coisa é magoar alguém pelas palavras erradas.
Me dá esse café aí que tá contigo. Ah, tá aqui já.
É magoar alguém pelas palavras erradas, ou seja, você não tem os instrumentos básicos para socializar o seu pensamento.
Quis dizer um troço, disse outro.
Não, né?
Volta para escola, perdeu a carteira de motorista, vai ter que fazer uma reeducação.
Isso é interessante porque, olha só, parte do entendimento também tá no ouvinte, não tá? Tipo, eu ainda posso dizer uma coisa com todo cuidado do mundo, com refletir, tá?
Mas tudo bem, mas aí tu não é ele, deixa para lá. Eu não sei como as pessoas pensam a meu respeito ou o que que elas vão lembrar de mim, eu não tenho nem noção.
Quanto que isso te incomoda?
Quanto que nada, zero.
Se eu morro hoje Estou de boa. As pessoas têm medo de morrer porque elas deixaram de fazer algo. Eu faço aquilo que eu quero no dia a dia, acabou. Vou fazer hoje, amanhã não sei, amanhã não é meu ainda.
Eu não ganhei a garantia do amanhã, eu não sei se o amanhã vai existir.
Eu não faço promessa porque o amanhã não é meu. Eu só posso honrar o que eu falo agora, mas amanhã eu não sei. Você tem o hoje. Prometer é um estelionato amoroso, porque você não tem condições de garantir, de fazer um seguro das suas palavras. Não vai ter reembolso para ninguém.
Mas eu sinto um mal do debate público no Brasil. Todo mundo só leva para o lado pessoal. Não temos Essa sofisticação, essa inteligência de tratar um tema por todos os lados e pontos de vista de modo abstrato. Se você vai falar de pena de morte, você não vai pensar nas suas experiências, você vai pensar: é bom ou não é bom para o nosso sistema? Me diga os prós, me diga os contras.
Mas não, você faz inimizade com quem está falando. Você não consegue pensar diferente.
A experiência no Brasil limita as pessoas. Você não consegue enxergar fora da sua experiência.
Se você é um pensador, você precisa ter liberdade de ser também o veneno, porque a cura, vacina, só virá do veneno. O soro, o antídoto, só virá do veneno. Tudo que você fala, você tem que acreditar. Da onde Que pensamento atrofiado é esse? Não exercitamos o mínimo da hermenêutica, o mínimo da interpretação. Somos literais. Por isso que as pessoas brigam por ideologia.
Brigar por ideologia, gente, meu Deus do céu, né?
Brigue pela sua família. Brigue pelos seus amigos, brigue pelo seu trabalho, mas ideologia por representantes?
Não.
Isso me assusta, isso me assusta, me assusta, porque não exaltamos a inteligência, a gente exalta a malandragem. A gente exalta o oportunismo. A inteligência é alguém que estudou a fundo um assunto e é capaz de trazer perspectivas diferentes.
É ciência, é conhecimento, capacidade, vontade pessoal de ser melhor, por aí vai.
Exato. E aí você não pode se responsabilizar por aquilo que o outro entende.
A gente vive num— você falou aqui, bom, eu concordo que a gente acaba se colocando— o mundo vai— a maneira como as relações são hoje, especialmente as digitais, acabam colocando a gente numas câmaras de eco que os pensamentos são sempre os mesmos e sempre sou alimentado pelos mesmos, pelo mesmo viés, porque é assim que funciona a lógica das redes sociais, né, ou das plataformas de vídeo, por aí vai, com a intenção de manter o usuário ali tendo mais do que ele gosta cada vez mais, né.
E assim a gente vai se isolando e se enfiando cada vez mais nesses, nessas, vou chamar de bolha, como todo mundo chama, cara. Tu é otimista que isso tem chance de mudar? Porque ao que tudo indica, as coisas estão se aprofundando para esse lado. Ou tu é pessimista? Tu acha que a gente vai ter mesmo que lidar com isso e vamos eu e você e quem tiver a fim ficar gritando para galera, sei lá, pensar crítico?
O avatar me dá um medo, que você deixe de habitar o seu próprio corpo. Você alimenta um avatar e não olha mais o seu próprio corpo. O único lugar que não estamos mais é o próprio corpo. A nossa mente voa, vai para diferentes lugares, Estabelece os mais inacreditáveis contatos e você não tem mais o corpo. Eu sou de uma geração dos anos 80, 70, tudo eu tinha que me levantar, trocar canal da TV, não tinha canal da TV, gente, eu tinha que ligar e desligar a TV, não tinha como descongelar a geladeira.
Não era, não tinha degelo automático. Você precisava abrir toda a geladeira e deixar, tirar tudo que tinha dentro numa operação familiar, esperar que a geladeira não soubasse toda a cozinha. Tudo a gente, para botar uma música, tinha que ir lá botar agulha, o toca-disco. Eu me levantava, tinha iniciativa, e não tem mais isso. Estamos no sedentarismo digital. Isso faz com que você não tenha memórias pessoais.
A gente vai ter uma geração afetada por isso, sem memória.
Serão memórias coletivas e não memórias pessoais e individuais.
Eu lembro de criança brincando na rua, com a idade da minha filha mais nova hoje, de 11 anos, ela não brinca na rua. De que será que ela vai lembrar?
Ela vai lembrar daquilo que circula nas redes sociais. Ela vai ter uma memória coletiva e não vai ter mais a memória pessoal.
Isso é uma constatação, na tua opinião, Carpineja? Assim, veja, é um Alzheimer digital. Tem o que fazer?
Tem.
Ficar offline, ir para praia e deixar o celular aqui.
Precisa pelo menos umas 2, 3 horas por dia sem celular.
Eu sou bom nisso e me causa problemas.
Não, não precisa. As urgências são inventadas, as emergências são imaginárias. A pessoa só entrou em contato com você porque você respondeu ela. Você responde mais rapidamente, a pessoa responde mais rapidamente, e vocês ficam num frenesi, um respondendo o outro como se fosse urgente. Mas se você não tivesse respondido com tanta rapidez, não teria acontecido isso. Você atiça o outro.
E acha que o outro que está procurando você, você criou esse cenário ansioso. Deixa estar, não precisa ser agora, nada vai mudar.
Aquele monte de notificação no Instagram, todo mundo tem.
Não se sinta preso às notificações. Você quer limpar tudo, quer estar atento a tudo, quer saber de todas as notícias. Não, não interessa.
Recuse-se a fazer isso.
É paz novamente.
Para mim foi, eu te disse que eu sou ruim com celular, né? Foi no passado uma escolha consciente, porque por um tempão eu trabalhei, eu dizia que eu trabalhava em casa, mas na verdade eu morava no trabalho, né, criando conteúdo para internet, só que em casa. Então a minha vida, eu ia, eu ia, sei lá, cara, eu ia cagar, eu ia com o celular ver o que que tá rolando, não sei o quê, internet e tal.
E esse é o principal indício da dependência. Só consegui ir para o banheiro com o celular. Eu, se você não consegue isso, todo mundo vai no banheiro com celular.
Para quê?
Que nojento, velho!
Tu não vai jogar um Clash Royalezinho não?
Não.
Então aí foi aí que eu, pô, pera aí.
Tá muito, tá muito, mas tá muito mesmo.
E aí eu, só que aí eu fui para um outro lado que talvez eu tenha ido demais também, entendeu? Que aí se tu pegar aqui meu celular e for ver as notificações aqui, talvez tu se assuste.
Mas tu tá falando isso só para poder olhar o celular, né?
Não, não, não, brincadeira.
Viciado é fogo, cara.
Então eu acho que eu sou pouco, graças a Deus. Eu acho que eu sou pouco. Vira e mexe os caras são testemunhos que esquecem em casa. Eu venho para cá, esqueci em casa. Cara, cadê meu celular? Esqueci em casa. Eu sou pouco, na verdade.
Eu vou parecer onipresente nas redes sociais, e sou eu que cuido das minhas redes sociais, mas tenho horários. Eu não estou lá sempre, são horários. E também é não ficar sofrendo com falta de resposta.
Acho que o cara sofre, né?
Sofre, entendeu? Não me deu bola.
A nossa geração não tinha telefone para ser encontrado. Você saía de manhã, voltava de repente de noite, ninguém pensava que você tinha morrido.
Verdade.
Hoje, se você não responde uma mensagem em 10 minutos, Você já manda: o que aconteceu?
Você está bem?
Quantos gatilhos disparam por dia de perdas e paranoias?
Enquanto isso, lá no— quando eu era adolescente—
é uma energia gasta, né?
Total. Eu gosto dessa ideia, cara, onde empregar energia.
Isso, né?
Então tem lugares que não adianta empregar energia.
Se tu parar para pensar, É tipo Romário, tipo Romário, é o Romário, tá na área, tá bem posicionado, não vai correr todo o campo, nem treinava, e fazia o gol. É isso, tu vai ter que saiba qual é o seu lugar, não fica em todos os lugares.
E o cara que tá— e aí eu tava falando esse lance da energia para dizer que tem várias coisas no meu dia a dia que eu controlo, que tem a ver com o que a gente faz, tem a ver com como a gente faz, tem a ver com tudo isso.
Isso.
E tem várias coisas do nosso dia a dia que a gente não controla. As coisas que a gente não controla, cara, a melhor, a única coisa que eu posso fazer para isso é estar perfeitamente preparado.
Não sofra com aquilo que você não tem controle. É regra de ouro: não sofrer. Você não tem controle daquilo. Por que que você está sofrendo? Aquilo que você pode influenciar, pode intervir, tudo bem, pode sofrer, está ao seu alcance. Mas sofrer por aquilo que as pessoas pensam, por aquilo que as pessoas esperam, não tem nada a ver com você, nada. E quanto mais você se preocupa com outro mais você decepciona o outro.
Aí tu vai ter que elaborar, porque é tipo se preocupar com o outro, não é?
É, quanto mais você faz para o outro, mais você vai decepcionar o outro, porque eu vou ter mais chances de decepcionar o outro, tá? Porque o outro vai ficar insaciável, vai acreditar que você faz, entendi, por obrigação. Que para você é fácil, e se você deixa de fazer ou faz de outro jeito, a outra pessoa já vai colocar você sob suspeita. Aí ele não me ama mais como antes. É a mesma coisa, só diga eu te amo, não diga eu te amo muito.
Se você colocou uma vez o muito, A outra pessoa vai esperar sempre. E se você voltar a falar eu te amo, você deixou de amar. Aí você vai dizer eu te amo muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito.
E cada muito que você falar, você estará amando menos, porque você estará forçando um sentimento que não foi espontâneo. É muito comum amar contrariado quando você ama, porque você precisa exagerar. Fale aquilo que você acredita. Se eu te amo surgir uma vez a cada 2 dias, ótimo. A cada 3 dias, tudo bem. É falar sem acreditar. É a mesma coisa que regurgitar. Você é um bebê regurgitando, então ande com avental, vai ficar com aquela babinha.
Aí eu gosto de pessoas com personalidade, Igor. Gosto de pessoas que tenham opinião, que se arriscam, que são ousadas, que querem viver de verdade, que não ficam esperando ter uma companhia para sair, um amigo para ir numa festa. O que mais tem amigo de aluguel?
Você não se dá com aquela pessoa, mas você chama aquela pessoa porque é a única que sai com você.
Não, né?
Também perde a carteira?
Perde a carteira, sai sozinho.
Entendi. É, cara, eu, eu em geral, mas é o amigo Uber, né? Será que isso vem só com a experiência, o carpinejar? Como é que a gente— vamos lá, cara, tu com 25 anos, tu ainda vai passar por essas coisas aí, não vai? Tu não tem o repertório ainda. Ó, eu com 41, eu já, eu sinto muito menos obrigações. Por exemplo, isso que você falou do cara, se ama, se ama, né? Ama, pronto, pronto.
É isso, nós vamos discutir isso.
Eu entendi isso, e só que eu precisei ficar velho. É outra coisa, às vezes eu pego o meu celular e falo assim, pô, esse moleque aqui, meu amigo e tal, pô, queria trocar uma ideia com ele, mas pô, Eu também já entendi que nós dois temos as nossas próprias vidas e nós dois entendemos isso. Quando for para conversar, conversaremos como se tivéssemos conversado ontem, sabe?
Esse é um amigo atemporal.
Esse é um amigo atemporal.
Não precisa ficar falando sempre, parecer junto.
Um salve para ele lembrar de mim, ele não precisa.
Sumido, ele não vai mandar para você sumido.
Mas precisei viver para entender isso.
Não, você retoma o assunto de onde se parou, mesmo que tenha passado semanas ou meses.
Mas aí o garoto, amigo atemporal, entendia isso. Como é que a gente vai falar para um jovem adulto, sendo uns cara que nos isenta, que, que, putz, cara, ó, tem um jeito melhor de tu olhar a vida? A gente não, tu acha que a gente consegue fazer com que as pessoas Por meio do que a gente tá falando, despertem para o que entendam, realmente entendam o que você tá falando. Porque eu tenho, eu acho que precisa de um estofo, um repertório, viver um pouco. Tu não acha? Tu acha que ler um livro, por exemplo, pode surgir?
É, acho que o repertório faz com que você se identifique com o que o outro está sentindo, tá? Você teve uma experiência e sabe que vai ser difícil para o outro atravessar isso, mas não é necessário repertório. É necessário que você perceba o que a outra pessoa está realmente querendo. Igor, o chato quer sempre. Quem não é chato vai querer em alguns momentos. Fazendo essa distinção, está resolvida a equação. O chato é impertinente.
Então eu evito os chatos. O chato é você faz um favor, faz uma concessão, o chato esquece e tá pedindo novamente. E aquilo que foi uma exceção se transforma em regra.
Esse é o chato.
O chato é um pedinte, ele fica com chapéu a todo momento esperando as tuas moedas. Aí você dá moeda, ele vai querer notas. Você dá notas, ele vai querer ter Pix. E assim vai, não vai ter fim. Eu, depois que eu envelheci, amadureci, só tem uma preocupação mesmo, um objetivo: não brigar com meus pais. Eles estão com 87 anos. Eles podem falar mais absurdo para mim, não vou brigar, não vou corrigir, não vou censurar, não vou fazer fofoca.
Eu respeito meus pais. Eu lembro que a minha mãe me fez uma pergunta mórbida: o que eu gostaria de herdar dela quando ela morresse? E não estamos falando de herança. Herança é aquilo que você herda de material do outro. Estamos falando de legado. Legado é o que você escolhe ter do outro. Você assume algo que tem conexão. E quando ela me fez essa pergunta, eu fiquei pensando o que que eu queria herdar da minha mãe. E não é o imóvel, o carro, a biblioteca, as esculturas, a mesa de demolição, a cristaleira, nada disso.
Eu vi que o que eu mais gostava da minha mãe é ridículo, é uma caixinha de botões. Ridículo.
Mas ela deve ter alguma coisa de especial.
Nenhum irmão vai querer a caixinha de botões. É porque sempre que eu perdi um botão na camisa da escola, não é a camiseta, a camisa mesmo branca, a minha mãe tinha um botão reserva. E eu podia perder um botão de qualquer camisa, podia ser amarelo com 3 furos, minha mãe tinha um botão, a cópia, o gêmeo, o clone.
Minha mãe tinha todos os botões do mundo, era um pote com todos, é um museu de botões.
E aí eu dizia para mãe: perdi um botão. E ela: ah, vou costurar. Eu fazia menção de entregar a camisa para ela e ela: não fica aí. Ela puxava um banquinho de madeira Porque na minha casa tinha muitos filhos, né? Então banquinho de madeira no lugar da cadeira, e ela sentava na minha frente e costurava a roupa no meu próprio corpo. E eu queria sair para brincar, ela não deixava. E eu olhava aquela mãe agachada costurando a roupa.
E ela sempre fazia o mesmo ritual: teus olhos são melhores que os meus, pode colocar a linha na cabeça da agulha. Eu colocava, dá uma lambidinha, sempre, sempre lambida, sempre, para ajeitar a linha. E a minha mãe fez com que eu aprendesse a olhar nos olhos do outro nisso. Eu não tinha como sair dali. O que eu quero é a caixinha de botões dela. Aí a minha mãe: como você espera ser amado? Principalmente mãe e pai. Mãe e pai são mais carentes do que os filhos.
Os filhos querem descobrir se são desejados, mas eu acho que os pais querem descobrir sempre se são amados. E nesses dias eu fui jantar com a minha mãe, ela fez um movimento brusco e soltou um botão da manga da camisa dela. Eu olhei para ela e disse, fica aí. E fui buscar a caixinha de costura. E eu que costuro porcamente, eu que costuro grosseiramente, olhei para minha mãe e disse, teus olhos são melhores que os meus, pode colocar a linha na cabeça da agulha.
E ela colocou, eu costurei. Igor, você não tem noção da alegria da minha mãe vendo que eu não esqueci o que ela fez por mim.
Ficou bem costurado?
Porcamente.
Eu tenho certeza que ela arrancou aquele botão para costurar de novo.
Duvido, aposto que ela amou aquele botão porcamente costurado como nenhum outro botão.
Amar é ser lembrado. Quer emocionar o teu velho e a tua velha? Lembre de algo que eles ensinaram a você. É o maior presente que você vai dar.
É um bom jeito.
Amarrou o cadarço com um deles? Ah, você que me ensinou a amarrar o cadarço. Aprendeu a dançar com um deles? Você que me ensinou a dançar. Aprendeu a falar em público com um deles? Foi você que me ensinou. Porque quem envelheceu quer se sentir útil, quer se sentir importante, fazer parte da vida de, sei lá, inclusive do filho. Quanto mais importante e útil seus pais se sentirem, mais eles vão viver.
Um bom jeito de olhar para isso.
Você garante a longevidade.
Bom, gente, tu tem que ir embora, cara. Me mandaram aqui um—
ah, é? Tô sendo dispensado?
Não, calma, é que tu tem que— deve ter que pegar um voo para algum lugar. Tem mensagem para a gente aí, Vitão? Tem. Deixa eu ver aqui, deixa eu ver o que que eu—
uma só?
As pessoas estão com vergonha, pode ser. Vamos ver, tu mandou para mim aqui, tá bom. Bom, não tem nome aqui, ó. Luiz Felipe Carpinejar: resolva uma lenda da internet, você é pai do Lucas do A Profundo?
Não, não sou pai.
Tu também parece, sei lá, tu lembra o Professor Nóslen, tu lembra uns cara, né?
Quando você— eu sou um ex-feio, não sou mais feio, tá?
Eu gosto de acreditar que eu sou um ex-feio também.
Eu já fui muito feio, já fui feio, e agora eu sou um ex-feio e não fiz harmonização facial. É quando você é estranho, você é parecido com todo mundo.
Por isso que todo mundo me confunde com todo mundo então.
É, e você tem óculos grande, todo mundo que põe óculos grande diz, ah, é o Caio Penejan. Você tem um nariz acidentado, todo mundo que tem nariz acidentado é o Caio Penejan.
Entendi.
Tu tem um rosto ovalado, todo mundo que tem um rosto ovalado, eu sou estranho, então só tem os Ozias.
Eu não sei por que que eu não fui ator.
Se eu fosse ator mesmo, nossa, como seria fácil encontrar um sósia para o Perigo.
É, no meu caso, arruma um gordinho barbudo, meio carequinha também, que passa batido.
Mas é bonito, bonito. Quando a pessoa é bonita, aí é difícil de encontrar.
Bom, aí ele continua dizendo, bom, um dos melhores criadores hoje. Abraço, sou seu fã. É isso. Bom, Carpinejar, cara, muito obrigado pela moral, obrigado pelo teu tempo, obrigado por vir trocar essa ideia comigo, que a gente acabou indo fundo.
Nossa, né?
Bom, mas isso aqui é a tua câmera. Como é que as pessoas te encontram na internet?
Carpinejar, fácil. Instagram, YouTube, TikTok.
E lá eles vão encontrar uns bilhetes escritos nos guardanapos, as máximas. No meu veio assim: encerrar às 17 horas. Família, muito obrigado pela moral aí. Espero que vocês tenham curtido o episódio. Segue o Carpinejá, a gente vai deixar aqui no comentário fixado, vocês encontrarem facinho com um clique só, tá? E vira, e sei lá, se inscreve aqui no Flow. Eu sei que você tem 60% de chance de não ser inscrito aqui no Flow, então se inscreve aí, vira membro do canal, cara.
A gente cria conteúdo aqui de backstage o tempo inteiro, várias coisas legais. Solta os vídeos primeiro para os membros, inclusive, e custa menos de R$8, dá nem para comprar uma seda, tá bom? Dá o like nesse vídeo, manda nos grupos aí da vida, e a gente se vê depois. Carpinejar, mais uma vez obrigado pela moral. Obrigado, e a gente se vê depois. Tchau!