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FERRUGEM - Flow #646

10 de setembro de 20261h24min
0:00 / 1:24:03

Fenômeno do pagode romântico

Participantes neste episódio2
I

Igor 3K

HostComediante
F

FERRUGEM

ConvidadoCantor
Assuntos8
  • A estética dos anos 70 e o pagode romântico no álbum SentimentoSentimento·anos 70·pagode romântico·Soul Train
  • A transição de Ferrugem de uma vida precária para o sucesso na músicainfância·carreira musical·sucesso
  • A importância de Lincoln e Sérgio para o início da carreira de FerrugemLincoln·Sérgio·cavaquinho·Alexandre Pires
  • A experiência de Ferrugem em grandes festivais e o reconhecimento do públicoRock in Rio·Réveillon de Copacabana·reconhecimento·Samba Recife
  • A homenagem a Alcione e o novo projeto musical de FerrugemAlcione·homenagem·Sentimento·Rio de Janeiro
  • A importância da Baixada Fluminense para a carreira de FerrugemBaixada Fluminense·pagode romântico
  • A influência de Thaís na organização financeira e pessoal de FerrugemThaís·organização financeira·relacionamento
  • A busca por simplicidade e beleza na produção musical de Ferrugemprodução musical·simplicidade·pagode·mixagem
Transcrição338 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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I3Igor 3K

Salve, salve, família! Bem-vindos a mais um Flow. Eu sou o Igor e hoje eu vou conversar com Ferrugem, cara.

FFERRUGEM

Ah, moleque, obrigado por vir aí, pô. Obrigado você pelo espaço.

I3Igor 3K

A gente veio combinando, né?

FFERRUGEM

Era uma paleta anos 70, uma coisa mais romântica, mais sentimento. A gente vai falar de sentimento também. Essa aqui é minha. Salve, rapaziada! Mó prazer estar aqui, um programa que Assisto para caramba, já vi inúmeras entrevistas, sou fã. Teu jeito de conduzir é muito bacana, deixa o convidado muito à vontade. Eu já tô assim à vontade.

I3Igor 3K

Ah, que bom, que bom, que bom.

FFERRUGEM

Obrigado pelo carinho, tá, irmão?

I3Igor 3K

A gente, a verdade que a gente já tá trocando ideia aqui faz um tempo, né?

FFERRUGEM

Antes tivesse gravado, já teria terminado o programa.

I3Igor 3K

Bom, por outro lado, a gente é bom porque vai destampando a panela. Isso, vai destampando a panela. Exatamente, exatamente. Mas essa roupinha aí, tu tá cafajeste, hein, meu irmão?

FFERRUGEM

Entendeu?

I3Igor 3K

Tu fez um showzão, inclusive, assim, né?

FFERRUGEM

Pois é, esse Esse figurino, ele é do Sentimento, que é o meu álbum mais recente, já é o 11º álbum que a gente lança. E aí, junto com o Jay, que é o nosso criativo, assim, é a grande cabeça pensante, a gente conseguiu trazer essa ideia de ter os anos 70 de volta, essa coisa mais romântica, coisa dos programas de auditório, é um pouco do Soul Train. E a gente fez uma encenação de uma representação de um show de rádio ali, e ficou tão bonito que eu resolvi levar a turnê de fato para fora também.

A gente fez um show apenas essa turnê. Foi tão bonito um show que a gente fez na Baixada Fluminense lá no Rio, assim, com mais de 10 mil pessoas, que a gente ficou tão bom que a gente vai dar uma segurada, vai maturar ele um pouco melhor, inclusive maturar mais o álbum para poder no ano que vem vir com mais 18 datas aí para galera.

I3Igor 3K

Por que que tu fez esse show lá na Baixada Fluminense? Esse show aí que é o seguinte, 10 mil pessoas, é um show, tu disse até agora, o único show desse álbum, desse disco, né? É um show especial então, de certa forma, né? Tu tava medindo alguma coisa ali, com certeza.

FFERRUGEM

Tu escolheu fazer na Baixada Fluminense porque é um bom crivo, sabe, para você passar. Porque a galera da Baixada Fluminense é de fato, respira o pagode romântico. E como é a minha, a minha linha, por mais que eu grave alguns sambas, a minha linha é o pagode romântico. E é quando eu quero uma resposta, eu busco lá toda vez, sacou?

I3Igor 3K

E o que que Tu só tem a estética dos anos 70 nesse teu trabalho? Por que tu foi nessa?

FFERRUGEM

Tem texturas musicais também, tem coisas inseridas ali desde a abertura do show até os nossos arranjos que a gente modificou para trazer uma onda mais soul, mais pop. Tem essa coisa.

I3Igor 3K

Isso é você procurando um outro jeito de ser romântico? Porque já, bom, esse é o 11º, já foram 10 gêneros.

FFERRUGEM

Já falei bastante de amor, é, pra caralho. Inclusive, Mas é um assunto que eu tento sempre inovar. Às vezes a gente fala a mesma coisa, mas a forma de você se comunicar é diferente, né? Porque as histórias se repetem, né? Essa é a grande verdade. O que que você pode falar numa história de amor? É você conhecer a pessoa, você se apaixonar, você namorar, você casar, você trair, você ser traído, você se arrepender, você separar. Ponto.

Então, em 11 discos, né, em 13 anos, eu poderia não falar mais disso, mas eu insisto em falar nas mesmas coisas, mas de forma diferente.

I3Igor 3K

E eu imagino, cara, que você falou aí de alguns aspectos de contar umas, ou algumas histórias de amor possíveis, né? Cara, tem algumas que terminam bem, em sucesso, né? Ó, a minha dá para dizer aqui, a minha, a minha.

FFERRUGEM

Opa, então muita coisa.

I3Igor 3K

Mas tem algumas que não, e alguns finais Vários finais não são tão felizes assim. E nas músicas, as músicas que contam as piores histórias provavelmente são as que a galera mais gosta, né? Não tem mais gente curtindo o pior corno possível, cara.

FFERRUGEM

Às vezes a gente tem que ser também portador de más notícias, não tem jeito. E eu acabo levando isso também. E é foda porque, por incrível que pareça, eu sou um cara que até 2 álbuns atrás, eu sempre busquei falar mais dos amores que dão certo. E quando eu me dei a oportunidade de falar dos amores que não dão certo, a minha carreira deu uma— isso é doido, né? É meio triste se falar, mas é verdade que andou, não é verdade? A carreira, ela deu um— quando eu comecei a falar de umas paradas assim mais baixo astral, aí andou.

Mas não que não sejam músicas bonitas, mas acaba retratando uma história que não deu certo, que não era coisa que eu apostava assim durante anos. Eu apostei completamente contrário, mas tô me dando oportunidade e tá dando bom, né, cara? Tô feliz, tô rodando o Brasil para caramba aí.

I3Igor 3K

Pô, cara, se tu parar para pensar que tem gêneros inteiros baseados em sofrimento, né? Gêneros inteiros, porque as pessoas se identificam muito, cara.

FFERRUGEM

E principalmente por esse álbum se chamar Sentimento. Essa palavra sentimento, ela é abrangente demais. Então ela me abre a oportunidade de falar de todos os sentimentos. Eu falo ali de Felicidade, eu falo de paixão, falo de amor, falo de raiva, tá ligado? Então dá pra falar de tudo. Esse álbum, ele me dá essa licença poética também, né? E eu acabo trazendo músicas de outros artistas também nesse show, de amores que dão certo, de amores que não dão certo, participações que eu fiz em álbuns de parceiros, de músicas que dão certo, que não dão certo.

Então acredito que seja o álbum que me deu mais liberdade assim, tanto de escolha do que eu queria cantar e de como eu queria representar isso também.

I3Igor 3K

E fazer um showzão desse aí, como esse último, esse que tu me mostrou, de 10 mil pessoas, com 10 mil pessoas lá. E aí, antes de começar aqui, eu tava te falando que, porra, outro dia tu tava catando cobre para bancar o fato de ser pai, né? Isso parou de passar pela tua cabeça em algum momento?

FFERRUGEM

Nunca, nunca. Acho que é isso que me mantém nessa busca incessante por tentar acertar sempre que eu posso. E assim, com a certeza de que eu vou errar também para caramba, vou seguir errando. Mas eu acho que quando você busca sempre o melhor caminho, você consegue se manter nele, né? Por mais que os percalços da vida vão te jogando para um lado, te joga para o outro, mas você sabe voltar para o lugar. E eu acho que o que faz eu voltar para o lugar toda vez é lembrar do meu passado, sem dúvida alguma, é da minha infância.

Eu tive uma infância muito bacana e tal, com muito amor, com muita felicidade, mas precária também. Meu pai corria atrás para caramba, caminhoneiro por mais de 30 anos na vida dele, pô, ganhando um salário que era muito pouco. Eu lembro disso, se eu não me engano, era, sei lá, mil conto. E eu lembro que era por quinzena, eu buscava R$500 no banco. E aí mais 15 dias buscar R$500. Éramos em 3 irmãos, somos em 3 irmãos. Então tudo sempre foi muito difícil, é tudo muito no sufoco, a corda no pescoço sempre.

E vem o cara do frango e tem que falar que, pô, meu pai não tá aí, semana que vem ele vem. Meu pai em Recife rodando de caminhão. Aí vem o cara que vendia as panelas, eu tinha que dar uma desenrolada. Aí vinha o cara da Light, aquela coisa. E mete gato, aquela coisa toda, né, cara, que você tá ligado. Então poder viver o que eu vivo, proporcionar o que eu proporciono, sentir o que eu sinto toda vez que eu subo no palco, cara, tudo isso é muito valioso, né, e foi muito custoso.

Então não tem como voltar atrás, porque esse passado ele vai seguir sendo presente, porque eu faço questão de lembrar sempre dele, de relatar sempre, porque também me dá muito orgulho saber de onde eu vim e onde eu tô hoje, né.

I3Igor 3K

Mas quando é que, quando que tu se ligou que virou, cara? Quando é que tu, porque assim, teve um momento que tu Tu falou que quando tu foi pai pela primeira vez, tu já tava procurando o teu caminho na música, né?

FFERRUGEM

Então, tava muito tempo já procurando. Comecei a tocar, tu foi pai com 22, tu falou, né? E eu comecei a tocar com 12, assim, com 15 eu já tava tocando valendo profissionalmente, profissionalmente tocando em coisas pequenas, mas assim, já tinha minha agenda, já tinha o meu compromisso com a música, né? Vamos dizer assim.

I3Igor 3K

E aí, então tu trabalhava ali com música, então basicamente tu sempre trabalhou com música no fim das contas.

FFERRUGEM

É, o que eu sempre quis foi música. As outras coisas foram bico. Trabalho, trabalho valendo mesmo, nunca tive. É assim, emprego, carteira assinada, não, nunca, nunca, nunca. Eu já entreguei um lanche para um parceiro que tinha uma lanchonete lá, que era o Felipe. Aí vendi um jornal no sinal com o Leque, que era outro parceiro que me dava uma moral. Assim eu ia indo devagarinho. Mas o samba, a música sempre foi o meu ponto, o meu ponto de mira, minha alça de mira, né?

Onde eu queria acertar era era na música. Então sempre busquei fazer uma coisinha ali ou outra para poder ter um dinheirinho, mas ter tempo suficiente para me dedicar à música.

I3Igor 3K

Mas demorou uns 10 anos desde tu começar até virar.

FFERRUGEM

Exatamente. Até eu ter uma certa esperança. Não, com 22 eu ainda não tinha não. Foi com, cara, virou legal com 28.

I3Igor 3K

Entendi. Então demorou, se tu começou com 15, demorou 13 anos para virar legal.

FFERRUGEM

Exato.

I3Igor 3K

Mas em algum momento antes de virar, o que que é virar legal?

FFERRUGEM

Virar legal é você escutar tua música no rádio, você ter pelo menos uma agenda aí de, sei lá, 10 shows no mês, coisa do tipo. Tudo ainda era muito pequeno se comparado ao que eu tô vivendo hoje, óbvio. Mas se comparado ao que eu vivia antes disso, porra, era algo, né, maravilhoso de grande. Todo final de semana tinha show, sabe? Eu consegui já sair de onde eu tava para um outro estágio, né?

I3Igor 3K

Porque eu achava que tava no auge ali, não achou?

FFERRUGEM

Achei para caralho. Vivia duro, vivia duro, gastava tudo, vivia devendo banco, todo enrolado. Mas acontece, né, cara? Pô, não tinha nem uma gotinha de mel, mandaram um pote, eu me lambuzei inteiro. Normal, é normal, não é?

I3Igor 3K

Qual foi a primeira merda que tu fez com dinheiro?

FFERRUGEM

Comprei um carro assim e sem ter dinheiro, não tinha nem como dar entrada, não tinha como dar nada. Eu nem lembro como é que eu comprei esse carro, que é uma BMW. Eu nem lembro como é que comprei essa porra desse carro, cara. Era uma 320, era uma 320, o sonho de todo mundo, né? E aí eu não lembro como eu comprei esse carro, juro por Deus. Depois vou perguntar meu pai, que meu pai sabe história legal. Mas eu vivia duro. E aí assim, a chegada da Thaís, minha esposa, na minha vida foi para me trazer esse alerta também.

É porque ela, na época assim, eu tirava ali limpinho, limpinho, uns 20 conto, vamos dizer assim, e eu conseguia, e eu devia eu devia menos 5, menos 10 no banco, tá ligado? Então era vendendo almoço.

I3Igor 3K

Mas o pau tava fino.

FFERRUGEM

Não, nessa época não tava assim, porque tu tava gastando, não tava não? É, não, tava fazendo merda para caralho, tava, tava. Mas aí depois que eu conheci a Thaís, eu parei. Isso. Não, fiz merda também para caralho, porque era no início do namoro, eu era bem merdeiro.

I3Igor 3K

O ponto não é esse, o ponto é tu tava vivendo uma vida de um cara famoso com dinheiro.

FFERRUGEM

Eu não dormia, eu não ia em casa, só em casa tomar banho.

I3Igor 3K

Isso, esse que é o ponto.

FFERRUGEM

Só em casa tomar banho. E aí precisou da Thaís chegar. Aquele cara que guarda as coisas no carro, caralho, era esse cara. Precisei a Thaís chegar para ela falar assim, cara, deixa eu te fazer uma pergunta, desculpa me meter na tua vida, quanto você ganha no mês? Eu falei assim, cara, tenho tirado limpo assim uns 20 conto. Ela falou, como você consegue não ter nada? Desculpa. Eu falei, cara, não sei. Ela falou, não, se você me permitir, eu vou organizar tua vida.

A partir desse momento eu comecei a ver dinheiro na minha conta. Eu comecei a ter uma roupinha mais maneira porque eu não queria saber de nada, irmão. Gastava, era noite, pagode, moral para todo mundo. Quem me pedisse coisa, eu não sabia dizer não, não sabia pensar no futuro. Ela chegou para trazer essa consciência.

I3Igor 3K

É, meu irmão, precisa mesmo, né?

FFERRUGEM

Precisa, precisa. Porque tu, vamos lá, tem gente que não precisa, tem gente que não precisa, mas a grande maioria dos moleque assim, quando ganha uma grana de início, dá uma pirada, não tem para onde correr. E eu admiro quem não pirou.

I3Igor 3K

Mas o que que aconteceu, cara? Porque assim É, tu, para tocar, quando tá tocando tua música na rádio, tu falou que tu tinha uns 28 anos, né? Significa tu tinha vivido já maior tempão vendo o mundo da música, não sei o quê e tudo mais. E aí tu virou, o que que aconteceu, o que que precisa acontecer para tua música tocar na rádio?

FFERRUGEM

Precisa de um empresário, é de um investimento, com certeza precisa de investimento, ou de repente a rádio te ver em algum lugar e apostar em você, apropriar.

I3Igor 3K

Um cara te encontrou, te achou bom, me achou.

FFERRUGEM

O Sérgio, que tá comigo até hoje, que é meu sócio, meu empresário, meu parceiro, um dos melhores amigos que eu tenho, foi esse cara. Na verdade, ele era amigo assim, somos em 3, tá, os sócios: eu, o Lincoln. Tudo começa com o Lincoln, topo da nossa pirâmide, começa com o Lincoln. Porque o Lincoln, ele é um cavaquinista, é dos melhores, na minha opinião, o melhor do Brasil, porque o jeito de tocar dele é muito característico. Muita gente depois dessa vinda dele para música, começou a tocar com essas características também. Então vale frisar isso. E ele era um cara assim, ele é ídolo de todo mundo.

I3Igor 3K

Tu manja de cavaquinho?

FFERRUGEM

Eu toco, tiro um som no cavaco.

I3Igor 3K

Então o que tem de especial no cavaquinho dele?

FFERRUGEM

Cara, o jeito de tocar é cristalino, é leve, é de uma precisão, de uma fluidez diferente. Ele trouxe uma batida diferente das outras que já aconteciam na época. Ele modernizou o instrumento, vamos dizer assim. Depois a gente pode dar uma olhada em algum vídeo dele, aí tu vai entender o que eu tô falando. Tá bom, tá bom. É muito louco.

I3Igor 3K

Tá, aí esse cara fez o quê?

FFERRUGEM

Ele foi contratado para produzir o disco de um grupo que era de um empresário, que era empresário de artista de funk também, que o irmão desse empresário tocava. E aí eles tinham um grupo que era lá de Campo Grande, chamava No Clima, que é o Léo, o Imbica, uma rapaziada que já era da antiga lá da minha área, que eu os conhecia, mas a gente não tocava junto. Por fim eu comecei a tocar com esse Imbica, que é um parceirão meu, e ele me convidou para entrar nesse grupo.

Falou, cara, o Lincoln vai produzir e tal. Eu de fã falei, Porra, vou lá no estúdio lá em Pilares. Aí fui lá nesse estúdio, conheci o Lincoln. Dali, cara, daquele momento se criou uma sinergia assim muito foda, sabe, de identificação musical e tal. A sensação é que eu precisava dele para andar para frente, ele precisava de mim também para a gente caminhar. Assim aconteceu. A gente gravou esse disco com um grupo, o grupo não aconteceu, as coisas não rolaram.

A gente fez até um show, depois o grupo acabou e tal. E eu fiquei. O Lincoln não me deixava mais sair dali de perto dele. Falou, cara, vamos ficar aqui que a gente vai arrumar um cara para poder botar um dinheiro para a gente produzir um disco de verdade, chamar uns cara foda para tocar e tal. Falei, não, beleza. Nessa tinha o Sérgio, que já era empresário de um grupo lá do Rio de Janeiro que chama Imagina Samba. Deve estar ligado nesse nome desse grupo.

E aí ele foi apresentar para o Sérgio, porque o Lincoln na época era músico do Alexandre Pires. Tá conseguindo? Montar o quebra-cabeça. Eles se encontraram no aeroporto e o Lincoln falou, cara, eu tenho um moleque para te apresentar que é o Ferrugem, pô, tô com uma música aqui e tal. O Sérgio falou, pô, mano, eu não quero nem ouvir porque eu não vou ter, eu não tenho tempo, não tenho grana para cuidar de outro cara por enquanto, tô começando minha parada, pô, tô tentando levantar o grupo lá e tal.

O Lincoln não falou. Mais uma vez ele tentou e o Lincoln não conseguiu. Por fim, eu já tava aqui em São Paulo com outros empresários tentando fazer um corre, indo nas casas pedindo para fazer participação, aquela coisa toda. E aí o Lincoln que me ligou e falou assim, cara, vamos lá no Sérgio que ele vai te dar uma atenção. Eu falei, eu não quero nem esse babaca não, não vou falar que esse otário, porra, toda vez tu só quer mostrar o som, o cara não quer nem ouvir.

Ele falou, cara, me dá uma última chance assim, por amor, vem para o Rio, pega um ônibus e vem. Eu fui. E aí a gente se conheceu, foi amor à primeira vista, fechamos uma trinca que dá super certo até hoje, sabe, que a gente se respeita, cada um respeita o espaço do outro, cada um entende a soma do outro no projeto, e a gente se dá muito bem por conta disso. E depois dele entrou, né, o capilé, que é importantíssimo. A gente sabe que o talento ele vai ser sempre o carro-chefe, o trabalho que o artista apresenta é o carro-chefe de tudo.

Mas antes de você ser alguém, porque você precisa primeiro ser alguém para a galera começar, né, a reconhecer de fato, porque aí a mídia começa a explanar o teu som e a galera na rua vai. Então você precisa de um megafone, de um alto-falante. A gente precisou gravar um disco, entrar numa gravadora, as coisas aconteceram, mas para isso precisou de um investimento mínimo, que foi ele que chegou para fazer.

I3Igor 3K

Entendi. E esse, quando o cara— tu já deve ter visto alguns artistas nascendo e desaparecendo ao longo da tua carreira com mais atenção do que eu, vai?

FFERRUGEM

Sim.

I3Igor 3K

A pergunta é, os cara, vamos dizer que o cara tem um investimento e ele faz um trabalho meio merda, Mesmo assim ele tem chance de virar? O meu ponto é, é um jogo pay to win, entendeu?

FFERRUGEM

Tu sabe que dá, tu tem ouvido. Tu sabe que dá, tu tá ligado que dá.

I3Igor 3K

Assim, isso te deixa puto?

FFERRUGEM

Não.

I3Igor 3K

Isso diminui o teu valor, será?

FFERRUGEM

Não, não, porque eu tô fazendo uma parada que é para ficar para sempre, tu sabe? Minha preocupação maior é essa. Fazer uma parada que daqui 10 anos, 10 é pouco, eu quero trabalhar mais. Daqui 20 anos eu falo assim, Igor, tô de boa, tô só de marola curtindo, e o meu som tá tocando na casa de todo mundo até hoje. Porque eu fiz uma construção, sabe? Porque eu tento fazer músicas que toquem na casa das pessoas sem que as incomodem, sabe?

Uma música que a criança, que adolescente esteja ouvindo e cause uma sensação de bom gosto no pai, na mãe, sabe? E é isso que a gente tem esse reflexo quando eu tô no show. Ali eu tenho o casal, aí tem os filhos que vão, os avós e os netos, tem todo esse tipo de público, seja em qualquer lugar que a gente faça show, cara, que tem criança. Por isso que eu tenho procurado inclusive fazer shows em horários mais cedos para que os pais possam levar os filhos, porque tá acontecendo essa parada, essa renovação de público.

Eu acredito que seja por conta do conteúdo que a gente coloca nas músicas. Essa preocupação é importante, sabe? Já cantei umas paradas antes assim que de repente eu não cante mais hoje, que eu não goste mais, que eu me arrependa. Mas hoje o foco principal é tocar na casa de todo mundo, agradar todos os ouvidos, sabe? Quem conhece, quem não conhece, quem gosta de pagode, quem não gosta de pagode. É tentar juntar todo mundo.

I3Igor 3K

Isso vai interferir só no jeito que tu faz a letra ou vai interferir também no jeito que tu faz a música? Porque eu vou chutar que parte importante de uma música fazer sucesso, de um trabalho musical fazer sucesso, tem a ver com o que ou como as pessoas estão consumindo música ou aquele gênero ali naquele tempo, né? Hoje a gente tem, por exemplo, o TikTok, que tem um jeito de fazer funcionar as coisas.

FFERRUGEM

Mais objetivo assim, né?

I3Igor 3K

Digamos. Às vezes sim, às vezes mais raso, mas só porque ele precisa ser objetivo mesmo, né? E você tá falando que não, eu quero fazer uma parada que todo mundo vai ouvir. Isso, então a pergunta que eu queria te fazer é: como é que isso impacta no teu trabalho? É só na letra?

FFERRUGEM

Não, acho que impacta em tudo, de certa forma, em tudo. Porque, e também é muito relativo ao mesmo tempo, essa é só minha opinião, deixa claro aqui que eu não sou o dono da verdade nem da razão. Mas pra gente, a gente tem o nosso laboratório e a gente enxerga dessa forma, é fazer, como é que eu posso explicar assim, vamos juntar o futebol, futebol do Ganso é simples e é bonito. Então a gente tenta simplificar o produto pra que seja de fácil entendimento tanto pro adulto, que já entende muita coisa e de repente pode ser um cara muito mais aprofundado em música, quanto uma criança que tá ainda digerindo música, né, tá começando a gostar de certas coisas.

Então a gente tenta fazer uma coisa que é simplificada, mas tem beleza, sabe? E você sabe que foi feito assim por pessoas que sabem fazer música de verdade. E a gente fica nessa busca. De repente não é um solo difícil que vai trazer beleza pra música, de repente é um timbrezinho, um sino, uma coisa, um detalhe. E na letra, a mesma coisa, a gente procura cantar letras menores. Isso é uma busca nossa de muito tempo já, e o Lincoln me ensinou isso.

Ele colocou essa minhoca na minha cabeça, eu acredito nessa verdade até hoje. A gente faz músicas menores, tenta diminuir isso entre o início da música e o refrão. É uma coisa minha também, várias pessoas fazem de outra forma. E a gente tenta também é buscar melodias mais simples. Se a gente recebe às vezes dos compositores que são os nossos parceiros e dão liberdade para que a gente mexa nas músicas, a gente pega uma melodia que tá muito torta, a gente tenta desentortar.

A gente sempre fala dessa forma: tá torto demais, tenta deixar um pouquinho mais reto e tal, para que fique de fácil entendimento, para que agrade o máximo de pessoas possíveis, e a gente continue fazendo com a sensação de que a gente tá fazendo música de verdade, música boa. Porque a gente também não simplifica a ponto da gente achar ruim. Sabe, a gente tá tirando a música de contexto. Então, como a música tá em primeiro plano, que ela seja bonita.

Se for simples, é bonita, né? Aquela coisa que o cara mete uma calça jeans, a camisa branca, já tá bonita. É isso, pô.

I3Igor 3K

Entendi.

FFERRUGEM

Mas precisa ser tipo na época o Paulinho Vilhena. Paulinho Vilhena era bonito para caraca, ele metia uma camisa branca, calça jeans, havaiana. Então, o que a gente tem que fazer? Tem que cantar bonito, entendeu? Tem que cantar maneiro. Na hora de tocar o simples, tem que tocar bonito. A gente procura muito isso. Os músicos não se atrapalham.

I3Igor 3K

Pensa comigo, pagode, eu acho que você tem menos janela do que muita gente para errar, né? Porque se tu tá fazendo um troço que, olha, é só por falta de uma palavra melhor, tá bom? Se o que tu tá fazendo é de certa forma simples, sim, errar o simples é escroto.

FFERRUGEM

Mas eu não acho que, exatamente, eu acho que tem, eu acho que, mas sabe qual é a grande parada? Fazer o simples é que é foda. Olha, isso é dificílimo, irmão. É verdade, dificílimo. Porque a ideia é fazer o simples e fazer a pessoa, sabe, suspirar, sentir a música de forma simples. Eu posso te provar isso assim, teoricamente, a gente ouvindo uma música minha. Eu vou te mostrar o quanto é simples. Tem músicas nossas, tipo uma música nesse disco chama Arco e Flecha.

Ela tem uns acordes assim liso, sabe? É um sol maior e para e bate o caco, escrito ré maior, tipo, para qualquer pessoa aprender a tocar, para qualquer banda poder reproduzir. A gente não quer dificultar o trabalho de ninguém. E pensando como eu tava te falando antes, o pagode, diferente do pop, que é muitas das vezes, né, baixo, batera, guitarra, teclado e por aí vai, no máximo outra coisinha, um eletrônico, o pagode tem Tantã, pandeiro, surdo, repique, baixo, batera, teclado, violão, cavaquinho, guitarra.

São muitos instrumentos. Se a gente coloca muita informação, fica uma zona, bicho.

I3Igor 3K

Que que tu usa no show?

FFERRUGEM

Tudo isso, tudo isso e mais um pouco, tudo isso e mais um pouco, que a gente coloca umas coisas no VS, uns detalhes e tal, que a gente já bota no palco ali 11 músicos, né? Já é coisa para caramba. E a gente vai complementando o VS, mas tudo no seu devido lugar. Tudo aparece no seu devido momento e sai depois para não atrapalhar, porque já são muitos instrumentos. Mixar pagode já é difícil para caramba. Assim, eu passo mal, você paga o maior pau para os cara que mixam pagode.

Gabriel Vasconcelos, Saboia, tem uma rapaziada que faz um trabalho assim que é sensacional, porque, pô, o cara mixar aquele tanto de frequência grave que tem ali, o tantã é grave junto com surdo, que é grave junto com repique de anel, que é um outro instrumento que é grave. Junto com baixo, que é grave, junto com a bateria, que tem no mínimo ali 3 ou 4 tambores que são graves, mais o bumbo que é grave.

I3Igor 3K

Imagina mixar essa porra toda, tem que saber muito, cara, tem que saber muito mesmo.

FFERRUGEM

É difícil mixar tudo, já é difícil, mas o pagode, na minha opinião assim, é um dos mais difíceis, se não for o mais difícil, sem dúvida alguma.

I3Igor 3K

É, eu tô pensando até agora aqui o que que tu quis dizer com simples, e eu acho que é um troço mais fácil de ser reproduzido e de ser entendido. E de ser entendido, sim. Porque eu já vi tu cantando, pô, já fui no teu show, não é simples.

FFERRUGEM

Não, mas aí é que tá, a banda faz o simples para eu deitar os cabelos, entendeu? O grande lance é esse. Agora imagina eu cantando, largando aço agudo e melisma nisso aqui, porque eu sei que no show é diferente, eu canto no disco é É o pouco do pouco, é o brando do brando. Já no show eu perco a linha mesmo, eu largo aço. Só que a banda tá ali segurando a onda, sabe?

I3Igor 3K

E tu gosta mais de fazer música ou de fazer show?

FFERRUGEM

Eu gosto mais de fazer música, de estar no estúdio e tal. Eu curto mais, é mesmo, curto mais. Mas show, cara, é difícil assim. O show é maravilhoso, estar nas cidades, receber o carinho da galera, tudo isso é bom para caraca. Ruim é sair de casa e deixar minha família, essa é a parte ruim. Sacou da parada? Mas quando eu subo no palco, tudo isso deixa de existir naquele momento. Naquela 1 hora e meia, 2 horas, eu esqueço de tudo.

Eu sou só o Ferrugem. Aquilo ali é o meu sonho que tá acontecendo, sacou? Acabou aquilo ali, é foda.

I3Igor 3K

Volta para o mundo real, né?

FFERRUGEM

Volta para o mundo real, sente saudade da família, chora às vezes no quarto do hotel, aquela coisa toda, né?

I3Igor 3K

Tô entendendo, sei qual é.

FFERRUGEM

É, e todo artista é meio assim, é meio sozinho, né? Você pode ter família, você pode, mas tu é meio sozinho. Principalmente nos finais de semana, ou às vezes até mais. Tem dia que a gente sai de casa quarta-feira. Pô, saí agora na semana retrasada quarta e voltei só na terça-feira. Pô, tu fica mal para caralho, né, sem a família.

I3Igor 3K

Isso é ruim demais, isso é ruim demais. Ainda mais com esse tempão que tu tem de carreira aí, que tá fazendo isso há muito tempo já, né? E vai ficar mais um tempo, tu falou, né? Vai ficar mais um tempo. Então é, então entendo. Então, mas teve um momento que fazer o show era mais maneiro? Porque, cara, A energia daquela galeraça ali te tratando como, cara, você é a razão pela qual muitas vezes você é a razão pela qual aquela pessoa saiu de casa aquele dia.

Sim, né? Então tem uma energia muito sinistra ali, né? Assim, de foda, de boa, né? Então deve ser sensacional também.

FFERRUGEM

Eu deixo bem claro assim, quando dou boa noite no show, eu falo, pô, obrigado vocês que saíram de casa para vir me ver, decidiram de alguma forma, porra, vou sair de casa hoje. Mesmo na chuva, mesmo no frio, sei lá, porra, mesmo triste, vou lá ver o Ferrugem. Pô, isso aí é foda. Imagina se tirar o cara de casa, irmão. Eu amo ficar em casa, eu sei como eu vou ficar em casa. E quando alguém me tira de casa é porque é uma parada muito foda, tá ligado?

Então você sobe no palco, tá cheio, você, porra, é maravilhoso. Mas assim, eu curto mais hoje o que eu tô vivendo hoje, nesses últimos 3, 4 anos, vamos dizer assim, do que antes. Curtia já também, mas eu sentia que quando eu tava no palco eu tava sendo passado por um crivo ali, tava sendo provado ainda, sabe? Ainda tinha alguma coisa para provar. Hoje eu já não sinto isso, eu sinto mais leveza. A receptividade do público e tal, os gritos, os aplausos no final das músicas, tudo isso prova que, porra, aconteceu, a galera tá consolidou. Consolidou, exatamente, essa é a palavra.

I3Igor 3K

Quando tu sacou que consolidou? Porque assim, são vários momentos na carreira Primeiro, é um momento que tu tava ganhando 20 conto, que já é uma puta virada do caralho.

FFERRUGEM

Mudou tudo, irmão. Já muda tudo.

I3Igor 3K

Outro momento é esse que você tá vivendo agora.

FFERRUGEM

Então, que é depois de vários momentos. Assim, a minha carreira, não sei se é na carreira de todo mundo assim, mas acredito que seja. A cada subida de degrau, você toma aquele beliscão da vida e tipo, pô, presta atenção, olha o que você tá vivendo aí, você. Dar uma clareada. Então as coisas foram acontecendo, tipo, a primeira vez que me chamaram para fazer o Réveillon de Copacabana, tipo, porra, meia-noite, os cara confiaram 1 milhão de pessoas a mim, sabe?

Então fiquei aí. Depois fui convidado para fazer o Rock in Rio e a gente fez o Espaço Favela, que era um espaço, é um espaço dedicado à nossa música, né, a música de periferia, o samba, o pagode, o rap, o funk, por aí vai. E aí no ano seguinte de Rock in Rio, 2 anos depois, me chamaram para fazer o palco Sunset. Aí eu falei, porra, beleza, já tô com o palco Sunset na mão, mas fudeu, né? Que que eu vou fazer lá para prender aquele público?

Foi no dia, tinha o Ed Sheeran, é, no dia tinha Mariah. Falei, caralho, mano, que que eu vou fazer? Mas beleza, montei o show, a gente fomentou para caramba as coisas acontecendo e tudo mais. Dia do show, eu e esse cara lá no camarim, tive até falando, né, disso, esse cara no camarim e ele nervoso. Eu falei, porra, cara, não fica nervoso, minha mão tá pingando e tal, aquela coisa. Vamos subir no palco, vamos subir no palco. A gente preparou um elevador para subir no elevador, cara.

Quando apertaram o elevador, a sensação que eu tinha, a vontade que eu tinha era de sair e deixar o elevador subir sozinho para não ver a praça vazia, a Cidade do Rock, aquela parte vazia. Meu medo era esse. E a gente vai subindo. Aí quando eu subi, assim que eu vi aquela cena de filme mesmo, assim, uma galera assim, uma galera com cartaz com meu nome, crianças, famílias, e o Rock in Rio inteiro virado para o meu palco assim, sabe?

Aí fizemos o show, foi foda pra caralho e tal. E no dia seguinte acordei e as colunas, né, tipo o Barney, a rapaziada, os cara todos, todos eles falando, as revistas de música falando que foi o melhor show da noite do Rock in Rio, foi feito por um brasileiro, pagodeiro, não sei o quê, pra ele enaltecendo o samba e tal. Então, porra, assim, são os beliscões que a carreira vai dando na gente. E agora as coisas têm acontecido também de uma maneira muito grande, né, todo fim de semana, sabe.

Eu tenho que admitir que, porra, não é normal, irmão, para mim, sabe? Eu vivia assim, era um show pequeno, aí um show na casa de alguém, e acontecia de uma vez no mês, de repente, ter um show grande abrindo o show de alguém. Hoje todos os shows do fim de semana, 3, 4 shows, são grandes para 10, 20, 30, 100 mil pessoas, e são meus shows, sabe? É mó loucura, mó parada, caralho. É foda, né?

I3Igor 3K

Consolidado então é a palavra mesmo, né?

FFERRUGEM

Graças a Deus, irmão. Graças a Deus. E desacreditado até hoje assim, porque eu não sou um cara que— eu, o Jason, não é consolidado com o Ferrugem. Ele não entende o Ferrugem consolidado, ele ainda tá no sonho. Mas é legal saber que as pessoas me veem como artista consolidado, que me respeitam, que me tratam com carinho, que me admiram, sabe? Que cantam as minhas músicas. Pô, subo no palco, pô, Tudo que a gente canta, a galera canta.

Isso é bom pra caralho, né, cara? Sabe, tentei isso a minha vida inteira, porra. Não ser famoso, não é sobre ser famoso. Se eu conseguisse de repente não ser famoso e as minhas músicas serem cantadas, de repente eu até preferiria isso na época. Mas hoje eu entendo que uma coisa é atrelada à outra e é maravilhoso, brother. Porra, fiquei a minha vida inteira, a minha infância, minha adolescência, eu perdi muitas coisas na minha vida porque a minha cabeça ela tava, sabe, igual um cavalo, né?

Só conseguia enxergar a música o tempo inteiro. Assim foi, assim é desde os meus 12 anos de idade. E minha mãe sempre falou, não tem outro jeito. Falava para o meu pai, esse garoto aí vai ser da música, deixa ele. E aí meu pai saía para trabalhar, caminhoneiro, pegava o caminhão, saía. E eu de madrugada eu saía para pagode. Minha mãe não contava para o meu pai nessas.

I3Igor 3K

Ah, teu pai não gostava?

FFERRUGEM

Não, meu pai tinha pavor, ele ficava com medo. Eu, moleque, né, ele na rua, eu na rua e tal.

I3Igor 3K

Ele falava, morava onde?

FFERRUGEM

Campo Grande.

I3Igor 3K

E num lugar sinistro?

FFERRUGEM

Não, não era assim, não era suave onde eu morava, era suave, mas eu onde eu ia de pagode só ia em lugar sinistro, tá ligado? E aí eu ia com meus irmãos, às vezes eu ia sozinho, a minha mãe é confiável e tal, as coisas foram indo.

I3Igor 3K

É que se tu já morasse no lugar sinistro, talvez ele não ligasse tanto que já tava no lugar sinistro.

FFERRUGEM

Exato, exato. Por mais que eu fosse molecão de rua, eu era um molecão de uma rua tranquila, tá ligado? Campo Grande sempre foi de boa, né? Agora que o bagulho ficou um pouco mais doido.

I3Igor 3K

É, o tempo foi passando, foi mudando esse aspecto aí. No entanto, tu me falou que o teu pai, que depois que tudo deu certo aí, que tu já botou ele para morar lá perto de tu, gostou muito.

FFERRUGEM

Ele tá lá em Campo Grande? Não, voltou, voltou. Ele até gostou uma época, mas ele falou, pô, essa porra aqui não é para mim não.

I3Igor 3K

Como é que foi o papo para levar ele para lá, para o Recreio?

FFERRUGEM

Não, o que aconteceu ao longo de tudo que aconteceu, eu perdi a Juliana, a gente perdeu a Juliana, que era mãe da Júlia e tal, ela faleceu. E aí eu nessa correria de viagem, então eu não conseguia levar minha filha para viajar com 4 para 5 anos. Aí eu falei, mãe, pai, vem morar comigo. Primeiro começou assim, meus pais morando comigo. E olha o tamanho da novela. E aí se passaram anos, a gente se mudou, continuamos morando juntos e tal, já tava com a Thaís.

E aí meus pais se separaram depois de velho, se separaram. Aí foi minha mãe para um canto e meu pai para o outro, os dois ainda lá comigo.

I3Igor 3K

Minha mãe, meu pai, eles tinham quantos anos quando separaram?

FFERRUGEM

Puta, eu acho que meu pai devia ter, bom, se tu tem, meu pai devia ter uns 58, tá? Foi depois de velho, 59, é, se eu não me engano.

I3Igor 3K

Beleza, foi uma bad trip dentro de casa para tu, a tua perspectiva, né?

FFERRUGEM

Eu fiquei igual criança mesmo, tá ligado? Quando os pais se separam, fiquei mal, fiquei mal, senti, senti. Mas eles brigaram, brigaram, brigaram, senti, porque não foi maneiro, é, não foi maneiro, não foi legal. Mas hoje eles estão, são muito amigos. Não, são muito amigos. Meu pai leva, carrega minha mãe para tudo que é lugar. Minha mãe usa meu pai.

I3Igor 3K

Então talvez tenha melhorado, né?

FFERRUGEM

Aí fala, Luiz, me leva em tal lugar. Ele vai lá e arrasta ela para tudo que é lugar.

I3Igor 3K

Salve, seu Luiz!

FFERRUGEM

Assim, e aí ele depois morando sozinho lá no recreio e tal, mesmo morando de frente para praia e tal, uma hora ele falou, porra, vou voltar lá para Campo Grande. Pegou e voltou e tá lá, tá feliz. Tá com a rapaziada dele, me liga final de semana com os amigos dele fazendo churrasco e tal, para mostrar o filho.

I3Igor 3K

Tu ainda sai para— é bom, tu sempre tocou, né? Daí, como sempre tocou, tu saía para curtir show ou música para tu era mais trabalho do que qualquer outra coisa? Fazer música era mais importante?

FFERRUGEM

No início, no iniciozinho ali de molecão empolgado e tal, com 15, 16 anos por aí, eu saí bastante, fui muito show, muito show do Exalta, os Travessos. Depois vi o Rodriguinho solo. Curti muita coisa, mas logo que eu comecei a tocar valendo assim de maneira mais profissional, muda essa, já fica mais querendo curtir outras paradas. É diferente, tipo assim, vamos supor, imagina você faz o podcast aqui toda semana e tal, imagina se no teu dia de folga ao invés de você curtir você vai fazer um podcast, não faz sentido.

Você quer fazer outras paradas, você quer viver outras coisas. Tipo, eu de repente quero até estar em contato com música, Mas de repente não seja na noite, no estúdio. Aí já é um puta lazer para mim. Tá em casa ali, eu gosto o dia inteiro de ficar segunda-feira em casa, dou atenção na patroa, nas crianças, leva ela na escola, aquela coisa. Todo mundo foi dormir de noitinha, eu janto, tomo meu banho, vou para o estúdio. Aí só volto para cama 4, 5 da manhã.

Isso aí para mim é um puta de um lazer, muito melhor do que tá na rua hoje em dia também, né?

I3Igor 3K

Caralho, mané! É, para mim também é um puta de um lazer, mas eu acho meio É um lazer que eu queria mudar, mané.

FFERRUGEM

É mesmo?

I3Igor 3K

Sabe por quê? Mas no teu caso lá, tu não existe dormir cedo para você.

FFERRUGEM

Não existe. Eu até tentei por um período, mas o que acontece, chega no final de semana, quem dorme cedo, pô, subo no palco às vezes porque tenho tocado cedo, como eu venho pedindo para os contratantes e tudo mais, e a galera tem me atendido muito. Mas tem alguns lugares que não tem para onde correr, já é de praxe do local ou da casa de show ser mais tarde. Tem lugar aqui em São Paulo que eu subo 3 da manhã. Pô, se eu durmo cedo, chega 3 da manhã, eu tô morto.

Aí eu já não entrego para galera também. Então uma escolha que eu tive que fazer para poder me manter bem para o meu trabalho, que é super importante.

I3Igor 3K

Cara, boa desculpa, cara. Boa desculpa.

FFERRUGEM

Caralho, fui convincente agora para caralho.

I3Igor 3K

Eu não serve para mim essa daí, cara. É porque assim, eu realmente chego em casa todo dia tarde, mas não é tarde 3 horas da manhã. Todo dia eu chego em casa, sei lá, meia-noite no máximo, né?

FFERRUGEM

Às vezes esse espaço um pouco, consegue meio que manter uma vida normal. Eu conseguiria se eu dormir que horas?

I3Igor 3K

Eu vou dormir tarde para caralho também. Todo dia eu vou dormir 2, 2:30, quando não é 4 horas da manhã.

FFERRUGEM

Isso na cama?

I3Igor 3K

Na cama.

FFERRUGEM

Eu também na cama. Pô, Thaís dorme, quando vê eu tô lá no celular e tal.

I3Igor 3K

Quando vê, não, eu não, eu tô no meu computador, é pior ainda. Puta que pariu, sentado, sentado, curtindo, fazendo, jogando um troço, fazendo um troço, fazendo um troço.

FFERRUGEM

Como eu te falei, eu Eu faço isso no estúdio segunda-feira, ponto. Só segunda-feira, entendi, sacou? E eu tenho buscado também, mesmo dormindo mais tarde, eu tenho buscado treinar quando eu acordo e tal. Então tô tentando manter as horas que eu tenho acordado saudáveis, né?

I3Igor 3K

O que que tu fez para emagrecer para cacete?

FFERRUGEM

Caí para dentro do treino, não tomei Monjaro, não fiz redução. Diante de Deus, tentei tomar, pô, passei mal para caralho. Passei mal, me senti meio depressivo assim, meio para baixo, triste.

I3Igor 3K

Fez mal para tu?

FFERRUGEM

É, não tô, ó, antes que vire corte, não tô dizendo que o Monjaro faz isso, tô dizendo o que eu senti, tá ligado?

I3Igor 3K

Tem gente que sofre.

FFERRUGEM

É, perdi tudo, irmão, perdi tudo assim. Perdi apetite sexual com a minha mulher, perdi tudo. Pô, parei de tomar, voltou tudo. Então me fez mal, logo me fez mal. E aí eu gosto de comer, eu como bem, mano, como maneiro assim. Então tô tendo que treinar para pelo menos ficar ali no meio termo, né? Perdeu peso para cacete, bastante, bastante. Fiz um super tratamento no início com o Dr. Rainer, que é um parceiraço da nossa família, assim, na minha opinião, um dos melhores cardiologistas do Brasil, cara fera, que me trouxe a realidade à tona, sabe?

Falou assim, porra, tu tem quantos anos? Na época eu tinha, sei lá, devia ter 33, 32 anos, se eu não me engano. Aí ele falou assim, é, mas a tua idade biológica é de 78 anos. Aí eu, porra, queimava para caralho, né? Falou, tu vai morrer semana que vem, cara, se tu continuar assim. Tem 3 filhas, tu não quer ver tuas filhas crescer e tal? Joga aquele peso na consciência, né? E aí fiz os exames e tal, viu tudo que eu precisava, os, como é que fala, os suplementos, me passou as dietas corretas.

Aí tentei entrar no remedinho, no Monjaro, e aí não me senti bem. Aí tô tendo Tô tentando ir na raça, tá acontecendo. Não tô, vamos dizer assim, não tô emagrecendo rápido para caramba, mas pô, como eu tô malhando, tô ganhando uma massinha e também não tô ganhando peso. Tô me sentindo bem, tô conseguindo correr. Eu todo dia eu malho e corro, todos os dias assim, é intransferível. Hoje eu não fiz nada, quando eu chegar em casa eu vou fazer, é certo, independente do horário, independente do horário.

Não tem assim, não nem durmo, juro para você. Lá na tua casa tem um negocinho, tem uma esteirinha É, tem um montinho, um espacinho que a gente se mudou recentemente. Aí eu dediquei um espaço mesmo, construí uma academiazinha, é onde eu fecho. Ele é de vidrozinho, isola o som, aí dá para assistir um YouTube, uma parada, enquanto eu tô malhando.

I3Igor 3K

Maneiro! É, lá em casa eu tô querendo montar um cantinho desse para mim também.

FFERRUGEM

Vale a pena, cara. Eu achava que se eu montasse eu não ia usar, tipo aquele cara que fala assim: quando eu tiver piscina em casa, vou tomar banho todo dia. Nunca entra na piscina. Eu sou esse cara, na academia já não sou assim. Eu só vou na academia, como eu não gosto de ir para rua assim. Duas vezes na semana eu tenho ido lá na fábrica do Léo Stronda, tem uma lá no Recreio. E aí a rapaziada me recebe bem, vou junto com o Leônidas, que é o meu treinador, ele passa treino lá também.

Eu vou com ele lá porque tem uma máquina de body shape, tá ligado? Uma esteira. A máquina de body shape é uma esteira que você entra nela, é tipo uma cabine mesmo, tipo um cockpit, tá ligado? Você entra e coloca uma saia de neoprene assim, e você meio que envelopa, meio que tipo uma torta de maçã, tá ligado? Você envelopa assim e ela faz vácuo. Ou seja, você corre como se tivesse com peso a mais, tá ligado, na esteira. Ou seja, meia hora de caminhada naquela esteira você gasta em média 800 calorias, cara.

Pô, meia hora de caminhada na esteira comum você não perde 150 calorias, sacou? Aí eu saio de casa para ir lá, mas assim, é uma rapaziada boa, então tá ligado, seca para caralho. Isso tá me ajudando muito. Mas assim, se eu tivesse essa em casa, eu ficaria em casa, porque eu não gosto mesmo de ir para rua, sou um cara que gosta de ficar em casa. Mas a rapaziada me recebe bem para caramba lá, os caras, os donos da academia são bem legais.

Eu gosto, tenho gostado de ir lá, tenho gostado, a rapaziada de boa e tal, eu fico tranquilo, consigo treinar, é pertinho de casa.

I3Igor 3K

Mas ficar em casa é tão gostoso, né, velho?

FFERRUGEM

Maravilhoso. É bom, cara. Ó, para ter noção, eu não boto nem a cara no portão, juro por Deus, e não é por mal, é o meu jeito. Eu sou assim desde moleque, não boto nem a cara no portão. Às vezes quando eu vou pegar um iFood, pegar qualquer coisa, se uma entrega, os cara fala: tu mora aqui, Ferrugem? Ou quando eu vou numa padaria, vou na rua, nego me encontra e fala assim: tá fazendo o quê aqui, cara? Eu falo: pô, eu moro aqui há 11 anos, cara, pelo amor de Deus.

Eu só não vou na rua, tenho pedido tudo pelo celular e tal. E a Thaís é quem gosta de ir para rua, né? Ela tá na rua todo dia, né, João?

I3Igor 3K

É, lá em casa, lá em casa eu até vou buscar as paradas com frequência, porque eu moro em casa.

FFERRUGEM

Sim, eu também moro em casa.

I3Igor 3K

Eu gosto para caralho. Na minha opinião, muito melhor que morar num apartamento, né?

FFERRUGEM

Eu tive a experiência de morar no apartamento primeiro, morando a vida inteira numa casa. Quando eu fui para um apartamento, eu me senti mal para caramba, não consegui. E aí hoje, graças a Deus, a gente tá conseguindo morar na casa grande, com espaço, né, com os nossos cachorros, nossas filhas, para todo mundo curtir aí. Por isso que não dá vontade de ir para rua. Tudo que eu quero tá lá, irmão, pelo amor de Deus. Internet é boa, água é forte, moleque.

Água é forte, é um cara que é forte, pô. A internet é boa, água é forte, a comida é gostosa.

I3Igor 3K

Os amigos lá de Soruí lá que vai entender essa aqui, que você realmente é uma vantagem quando a água é forte.

FFERRUGEM

É uma vantagem, eu gosto, irmão. Pô, eu fico mal quando a gente tá viajando assim, pega um hotel, quando abre o chuveiro, aquele conta-gotas, né? Fala, puta, como é que eu vou me banhar aqui? E o foda é que se o cara cagar, fodeu também, né? Como é que, pô, é horrível, irmão. Mas assim, troca de assunto.

I3Igor 3K

É maneiro que tu tá lá muito tempo nessa casa?

FFERRUGEM

Um ano, um ano contadinho. Entendi.

I3Igor 3K

Porra, bom demais, né? Tá no lugar que, sei lá, que tu quis estar.

FFERRUGEM

Por um tempão. Não, a gente sonhou, a gente planejou muito isso, sonhamos muito, muito, muito, muito. Então hoje a gente tá conseguindo desfrutar, né? Porque o início, né, obra é foda. A gente teve uma série de problemas e tal, aí depois a gente conseguiu resolver.

I3Igor 3K

Tu que construiu então?

FFERRUGEM

Construímos. A gente comprou uma casa que era construída em dois terrenos, sacou? E aí a gente olhando casas, vimos essa, gostamos. E aí a ideia era fazer um retrofit nela. Por fim a gente derrubou tudo e levantou outra casa. Sacou? E aí demorou um pouco mais, foi um pouco mais estressante, mais desgastante. Tão desgastante ao ponto da gente não conseguir curtir quando a gente entrou. Hoje que a gente já tá bem, bem situado ali, já tá, né, dentro da nossa casa com as nossas coisas, que a gente já tá conseguindo decorar de outra forma.

A Thaís até esse final de semana saiu para comprar algumas coisas para deixar mais a nossa cara, tá construindo história ali. Agora a gente tá curtindo mais assim.

I3Igor 3K

Agora que é tua, né, cara? As coisas são muito mais É muito mais gostoso de fazer as coisas. E bom, eu já entendi que tu é um cara caprichoso para fazer as músicas. Tu precisa ser caprichoso no fim das contas, como tu tava dizendo aí, para fazer quanto para escolher, né?

FFERRUGEM

Porque a gente também, eu sou um cara que eu sou bem servido de parceiros, de compositores que mandam músicas para gente. Tem que ter um, pelo menos para mim, eu tenho faro para o que eu quero, sabe? Não é que eu tenho faro para música, mas para o que eu quero, para onde eu quero acertar, eu tenho faro.

I3Igor 3K

Como é que chegam as músicas? O cara chega, a música chega música pronta, chega faltando um arranjo?

FFERRUGEM

Como é que, cara, agora tá diferente, né? Agora chega com Suno, os cara mete no Suno, a música vem produzida, aí fica foda, aí fica indefensável. Se a música for boa, chega produzidinha, bem feita no Suno, porque não é só tacar lá, tem que saber fazer. Aí, porra, chega legal para caramba. Eu tô gostando, tô gostando. Só não façam a letra no Suno, pelo amor de Deus, porque aí tu não tá fazendo porra nenhuma. Mas os meus parceiros assim, Cleitinho Persone, Eliseu Henrique, Rodrigo Oliveira, Bruno Gabriel, Gabrielzinho, Cauí, que tem uma gama de compositores, são meus amigos, meus parceiros, me priorizam para caramba e me mandam músicas que eles já enxergam que sejam direcionadas para mim, ou que eles fazem pensando em mim, sabe?

Então, irmão, é muita loucura. Olha quanta música que eu recebo, dá uma sacada aqui. Esse moleque aqui trabalha, Júnior Garça, porra, trabalha, mano. A gente não conversa, ele só manda música.

I3Igor 3K

Entendi. Não tem como mandar música, não.

FFERRUGEM

Ele é foda e é um super compositor. Então a gente vai já fazendo devagar, às vezes até sem comunicar para eles, uma certa escolha ali, uma peneira. A gente, vamos supor que a gente separe de tudo que a gente ouve, a gente separe 50 músicas. Aí de 50 a gente vai ouvindo de novo entre nós ali, eu, o Lincoln, Sérgio, o José, que ajuda a gente pra caramba, o Valério, que é o nosso diretor musical. A gente vai em casa também, eu boto pra galera de casa ouvir, pra minha esposa, pras crianças.

Opinião de quem tá com a gente ali, de quem me conhece, é importante, né? E aí a gente vai, separa de 50, separa 20. Quando é um CD, um disco, um álbum, né? Pra poder de 20 separar 12. Quando é um projeto audiovisual, a gente grava 22, aí a peneira é um pouco mais light, né? Quando você tem que tirar de 50, 12, é um pouquinho mais pegado, rola as brigas, o couro come.

I3Igor 3K

Tá, daí tu tem quantas músicas lançadas?

FFERRUGEM

Caralho, mano. Caralho, né, meu irmão?

I3Igor 3K

É música pra caralho.

FFERRUGEM

Não faço ideia, irmão. Cara, fazendo uma conta de bobo aqui, você que é bom de matemática, vamos lá hoje. Vou tacar aqui os números. São 11 álbuns, sendo que 6, 7 deles são de 12 faixas e 5 deles são de 22.

I3Igor 3K

É música para caralho.

FFERRUGEM

Pronto, 4, na verdade, 4 deles são de 22.

I3Igor 3K

É música para caralho, certo, Vitão?

FFERRUGEM

Certo, é muita música, né? E sem contar as participações, single que eu gravei solto de outros estilos, que eu já gravei música de outros estilos também, outros artistas, tem muito. Só minha é isso aí.

I3Igor 3K

Daí show, quando tu vai fazer o show, tu tem que—

FFERRUGEM

aí é que é o problema, esse que é o problema, né?

I3Igor 3K

Tirar o filé, música para cacete, porque às vezes não tem tempo. Mas tu tira o filé baseado nas músicas que viraram ou nas músicas que tu gosta?

FFERRUGEM

Nas músicas que viraram. E assim, Depende do show também. Quando é um show de festival, vamos supor, os festivais de samba hoje recebem 10 artistas, vamos supor. Tem o Samba Recife, vai acontecer agora nesse mês de setembro, que é muito foda. É um festival de 2 noites para 40, 50 mil pessoas por noite.

I3Igor 3K

Porra, maneiro!

FFERRUGEM

Muito legal, muito legal. E aí é 1 hora de show, 1 hora e 10. Aí fica mole, só vou botar o que tocou no rádio.

I3Igor 3K

Entendi.

FFERRUGEM

Aí é só canhão, uma atrás da outra. Quando é o meu show normal assim, porque tem o show de festival, o show de estrada e o show que a gente fala que é de turnê. O show de estrada é 1 hora e meia. Aí a gente separa um pouco do filé, um pouco do que aquela pessoa de repente que não me conhece vai gostar de ouvir, que aí eu canto uma música da Alcione, eu canto uma outra do Alexandre Pires, assim a gente dá uma, que a gente consegue agradar todo mundo.

Às vezes é show de prefeitura. Quando é show de prefeitura de graça na rua, Vai quem é meu fã e vai quem nunca me viu na vida. Então tem que agradar todo mundo. E quando é o show de turnê, eu posso cantar até de trás para frente, sacou? Lá eu tenho o meu público 100% e lá eu tenho todo tempo do mundo. Se eu quiser fazer 6 horas de show, a galera vai ficar lá comigo. Então eu tenho tempo tranquilamente, fico tranquilo para escolher o repertório.

Um show que normal que eu faço 22 músicas, vamos dizer assim, nesse aí eu faço 50, pô. Sacou?

I3Igor 3K

Entendi. E aí esse é o que tu vai fazer conscientemente.

FFERRUGEM

Foi 48 músicas, né? 48 músicas é música para caralho. E não foi tudo, tipo, tudo, não tudo que eu gravei, mas não foi tudo que a galera queria.

I3Igor 3K

Entendi.

FFERRUGEM

E reclamaram comigo ainda, falou assim, faltou tal música, faltou tal música. Pô, já tava rouco, mas esse aí vai faltar, né, meu irmão? A graça é essa, eu falo para eles que a graça é essa, é faltar uma música, que assim depois cria expectativa de no próximo rolar, né?

I3Igor 3K

E porra, como é que o capricho para fazer esses diferentes shows aí, ele acaba sendo necessariamente diferente? Porque vamos lá, se um show você vai ter, sei lá, uma hora para tu cantar, tu vai, tu tem que entregar uma parada específica, compacta, não sei o quê. Agora, num que você tem o tempo que você quiser para tocar o que você quiser, ali tu consegue se programar e criar um troço muito mais direcionado.

FFERRUGEM

Sendo bem sincero, esse é o único show no qual a gente para para ensaiar.

I3Igor 3K

Entendi.

FFERRUGEM

Os outros saem na veia, tá ligado? É no 3, 4, vai música tal, a gente sabe. Os moleque da banda estão com tudo, como a gente diz, embaixo do dedo. Falou que a música contou 3, 4, sai tocando. Esses shows assim, no qual a gente vai fazer no ano que vem, pelo menos aí 14 a 18 datas, que é a nossa ideia. Esse show, ele é um show com uma dedicação maior de entrega, tanto no musical quanto na cênica quanto na cenografia. É um show de mais tempo, na verdade, o tempo que a gente quiser fazer de show, que a gente aguentar, ou que a agenda permitir, ou que a casa, né, porque tem um limite dentro de cada uma casa que a gente toca.

Mas ele dura em média 2 horas e 40, 3 horas de show. Foi 2 horas e 40, não foi? Esse último lance é nesses shows aí que corre risco de errar alguma coisa, que como tu disse, é certo de errar, ao ponto que a gente acha graça, tá ligado? É, não, nada me abala, irmão, nada. Mentira, porque eu era moleque, eu era esquentadão quando eu era moleque de grupo assim, porra. Se meu grupo errasse na hora da gente tá tocando, eu queria dar esporro no final, falava para caralho, porque eu nunca, eu na infância eu nunca fui solo, sempre fui de grupo, né?

E grupo é foda. Briga no ensaio, briga no show, briga no camarim, briga em tudo. Quando é moleque, óbvio, né? E aí hoje eu acho que o ambiente que a gente criou—

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FFERRUGEM

Também com a minha rapaziada lá da banda, que graças a Deus são todos amigos, somos todos amigos. A gente se frequenta a casa, a gente está junto, a gente se gosta, a gente se conhece. Pelo menos o que eu conheço há menos tempo ali, eu conheço há dez anos. Tem gente que eu conheço ali há vinte e cinco anos. Então se tem um ambiente muito leve, então errar no meio do show, eu errar, alguém da banda errar, não é problema algum. Muito pelo contrário, tá fodido você errar, porque a gente vai zoar pra caralho na frente de todo mundo.

Porque a galera, é legal, o público sente que ao mesmo tempo que a gente tá tocando, eles conseguem sentir e ver que a gente resenha o tempo inteiro. Todo mundo tem liberdade em cima do palco, sabe? Não é aquela coisa, eu sou a grande estrela e a galera fica limitada a certos movimentos, ou não, não existe isso. Todo mundo à vontade. Como é um artista solo, mas é no palco, é como se fosse um grupo, tá ligado?

I3Igor 3K

Não é um, não tem um erro comum, né? Erra, imagino, cada vez uma paradinha diferente, um vacilinho. Vocês são tudo experiente para cacete, né?

FFERRUGEM

Sendo bem sincero, às vezes o público nem repara, porque são coisas que só a gente, só a gente tá ligado. Então passa batido e acaba sendo divertido. Porque cria assim uma resenha ali, né? Eu tenho um microfone guia, então toda hora eu vou lá, dou uma zoada em quem errar, não sei o quê. A gente se diverte um monte.

I3Igor 3K

É para tu falar só com os caras?

FFERRUGEM

Para eu falar só com os caras. Eu não curto muito talkback, né?

I3Igor 3K

Que é um botãozinho.

FFERRUGEM

Porque acontece, eu, porra, já tive um teste com talkback aí, fui falar uma parada com a rapaziada e o talkback não funcionou, vazou lá no PA uma parada, porra, não vale nem a pena falar, tá ligado? Mas quem ouviu, ouviu. Entendeu? Eu falei, acabou essa porra.

I3Igor 3K

PA é o som que vai para multidão.

FFERRUGEM

O PA é aquelas, só aquelas torres gigantes ficam na lateral do palco para mandar o som para galera, sacou?

I3Igor 3K

Então fica um microfone inclusive fisicamente separado do outro para tu não fazer merda.

FFERRUGEM

Ele fica junto na minha bandeja onde tem uma água, onde tem uma toalha, e tem ele acopladinho ali igual isso aqui.

I3Igor 3K

Daí tu vai lá e fala uma paradinha, né?

FFERRUGEM

Peço uma música ou dou uma zoada nos cara e tal, não sei o quê. Zoada é certo, muito, tempo inteiro. Eu tenho microfone, o Lincoln tem um microfone porque ele dirige metade do show ali também, e o Valério também tem um microfone porque dirige. E aí fica a zona do caralho, um zoando o outro e tal, mas é isso que torna o nosso ambiente leve, sacou? Só que tudo com moderação, entendeu? Não é uma coisa que, porra, vai ficar ridículo De repente você tá assistindo o show ali e fala, caralho, os cara não tão levando a sério.

A gente consegue brincar sem perder o foco do trabalho, a ponto de ninguém reparar que a gente tá na sacanagem brincando. Mas a galera repara que a gente tá se curtindo. E é isso que eu quero tentar sempre transparecer pro público, que a gente tá leve. Que quando eles veem que eu tô leve, que eu tô curtindo, consequentemente a gente contagia a galera. E aí todo mundo vem junto. Quando você tá muito ali, ou de repente sendo artificial numa de querer pegar a galera, de trazer eles para você, a coisa não rola.

Quando você tá natural, à vontade, quando o palco é sua casa, quando você não tem obrigação de ficar olhando para as pessoas, eles estão de fato te vendo se divertir em cima do palco. Isso contagia muito mais, na minha opinião, né?

I3Igor 3K

Já teve que ficar olhando para as pessoas?

FFERRUGEM

Eu já achei que era esse o caminho, achei que era esse caminho, com certeza, quando eu era mais novo. Só que a gente vai aprendendo, né, cara? Vai maturando. O palco também vai deixando de te assustar. Devagarinho você vai.

I3Igor 3K

Deve ter tido várias coisas que tu achou que era o caminho e viu que era diferente, né?

FFERRUGEM

Não, fiz muita besteira, pô. Tentar, sei lá, falar alguma coisa que você acha que a galera vai, de repente—

I3Igor 3K

Eu só tô pensando que assim, imagina que tu ficou um tempão trabalhando na parada desde criança. Sim. E aí tu vai tocar, aí beleza, aí toca uma música na rádio. A partir do momento que toca uma música na rádio, um monte de coisa muda. E um monte de coisa que muda baseado numa experiência totalmente diferente que tu tinha, que era completamente, tu achava que era assim e é assado, tá ligado?

FFERRUGEM

Igual a isso deve ter uma porrada de coisa, porque também se cria, se cria uma expectativa dentro do que você escuta. Tá na rua, tá no meio da molecada da música, aí rola um papo que, sei lá, que pô, lá no flow é assim, assim, assado. Então eu já chego aqui achando que é um, eu tenho que ter uma abordagem contigo, e é completamente diferente. Ou eu tentar, que a gente fala, era eu tentar de repente falar alguma coisa, alguma frase de efeito no palco e achar que vai pegar a galera e ficar aquele—

I3Igor 3K

se fudeu.

FFERRUGEM

Aconteceu para caralho até pegar a manha mesmo de você conseguir ser convincente no que você tá falando, né? Você conseguir de fato entrar em todas as pessoas sem que você olhe para todas elas, né? Porque não tem como ficar assim o tempo inteiro. Então você consegue se conectar através das palavras. Até eu chegar nesse ponto, até eu entender o que a galera de repente precisava ouvir naquele momento, no meu show, é algo que condizesse com as músicas que eu canto e tudo mais.

Demorou para caralho, fiz muita merda, cara. Fui muito sem graça já. Hoje eu tô engraçadinho.

I3Igor 3K

Hoje tu já é o Ferrugem, já passa batido, pô. Já pode até se vestir de anos 70, que vagabundo engole.

FFERRUGEM

Eu também não tô nem aí para nada, nem para porra nenhuma. Vamos ver o que vai vir no outro álbum aí, né?

I3Igor 3K

Outro jeito de falar de amor, no fim das contas, muito provavelmente, né? Não tá cansando não, cara?

FFERRUGEM

Não, não cansa, porque a gente vive o amor, né, cara? Thaís é pagodeira agora? Sim, se converteu, né?

I3Igor 3K

Não era?

FFERRUGEM

Não, não sabia nem que era eu quando a gente se conheceu. Ela gostou de mim, isso que me deixa bom para caralho, porque ela gostou de mim por eu ser eu mesmo. Ela não sabia. A gente sentou para conversar, ela falou: qual é a tua, cara? Falei: qual é a minha? O quê? Ela falou: o que que tu faz? Falei: eu canto. Ela: o quê? Pagode. Ela falou, porra, não tô ligada. Aí eu falei, mostrei para ela, falei, eu canto isso aqui, não sei o quê e tal.

Aí ela curtiu, ela conhecia, sei lá, Sorriso Maroto, famoso para caralho. Eu, a verdade é que eu tocava no rádio, mas muita gente ainda não me conhecia porque a imagem ainda não tava indo forte para rua. Isso foi bacana para caralho.

I3Igor 3K

Como é que você apresentou para ela? Tu era o Jay-Z ou tu era o Ferrugem?

FFERRUGEM

Vou te contar como a gente se conheceu para você entender a loucura da parada. Ela tinha me visto ali no escritório onde era a Gold, que é o nosso escritório, onde era o antigo prédio. E aí ela me viu, ela perguntou para menina da portaria quem eu era, a menina mandou meu Instagram para ela.

I3Igor 3K

Ela gostou de tu então?

FFERRUGEM

Exato. Quando eu tava chegando nesse prédio, engraçado que eu não tinha postado que eu ia para lá, não sei o quê, ela mandou um direct. Aí eu olhei, solteirão voando, Baixo, arrastando o peito no chão. Aí eu falei, porra, gatinha. Ela falou, você tá aqui no prédio? Eu falei, tô. Você tá onde? Quem é você? Não sei o quê. Comecei a tentar trocar uma ideia e ela parou de falar. Beleza. Nessa que eu desci pra ir embora, a menina da portaria falou assim, a Thaís quer falar contigo, a Thaís quer falar contigo.

Eu falei, a Thaís? A menina, pô, cadê ela? Ela tava lá embaixo. E ela tentou sair assim meio sem graça. Eu falei, não, vem cá. Quando ela chegou, eu falei, pô, quer tirar uma foto comigo? Ela falou, não, sou tua fã.

I3Igor 3K

Eu falei, caralho.

FFERRUGEM

Mandei mal, né? Mas beleza. Aí troquei uma ideia com ela, não sei o quê.

I3Igor 3K

Eu falei, pô, você deu uma das piores sensações, bad trip mais, mano.

FFERRUGEM

Pô, já começou bem, comecei bem, né? Aí eu falei, tô indo nessa e tal, que a gente tava saindo para uma outra reunião. Aí eu não lembro onde tava indo. Aí eu falei assim, vou mandar o meu telefone, manda teu telefone no direct para mim. Ela falou, se você quiser, anota agora, cara. Eu falei, caralho, maneiro. Anotei o telefone dela. Ok, depois, mais tarde, eu fui lá no escritório e quando eu tava indo embora, ela tava bem na calçada assim.

Eu falei, porra, é a hora, eu com a minha BMzinha, pá, aquela coisa toda. E aí, tá indo para onde? Aí ela, tô indo lá para Irajá. Eu falei, vai com Deus, tamo junto. Mas, cara, Irajá, plena sexta-feira.

I3Igor 3K

Calma aí, né?

FFERRUGEM

Nem te conheço, pô. Nem conhece, né, pô? Vou lá para essa boca quente, não posso. Brincadeiras à parte, não levei mesmo porque, pô, eu tava ocupado. Depois, isso era na sexta, no domingo teve mesmo esse diálogo? Teve mesmo esse diálogo. Eu posso ligar para ela aqui agora, ela vai falar, vai me xingar para caralho, mas vai falar. Ela é foda. Coirajara é foda, irmão. Ô rapaz, eu tenho uma, eu tenho um bagulho com lugar longe, cara.

Eu tenho um negócio, ó, eu ficava com uma menina quando eu era moleque, ela ia, eu ia fazer show na Ilha dos Pescadores e ela ia para me ver. E eu só ficava com ela lá, beijava na boca, ganhava um carinho dela e tal. Ela metia o pé, o molecote, eu devia ter 16 anos, porra. Quando ela quis assumir um namoro sério, ela falou que morava na Freguesia, eu morava em Campo Grande. Falei, porra, não dá. Aí eu terminei, eu não quis namorar porque era longe.

Eu tenho um bagulho com lugar longe, só que a Thaís me pegou de jeito. Depois eu comecei longe buscar ela, levar. Mas assim, isso era na sexta. No domingo ela falou que tava indo na casa da vó dela, que era do lado da minha casa, no recreio, do lado, um condomínio do lado. Eu falei, pô, vem aqui em casa. Aí, pô, ela foi. Quando ela foi, eu tava com dois amigos lá e tal, não sei o quê, mandei a rapaziada embora. A gente assistiu o filme ali, a gente ficou, beijou na boca e tal.

No dia seguinte já pedi ela em namoro, e assim a história aconteceu desse jeito. E com um mês de namoro ela tava grávida da Sofia já.

I3Igor 3K

Tu é tudo, toda vez tu é rápido, né, cara?

FFERRUGEM

Tirando para dar certo, ligeirinho, ligeirinho, né? Tirando essa parte aí, para dar certo demorou para caralho, demorou muito, demorou muito. Mas assim, com relação até aí foi engraçado assim, a nível de identificação, porque rápido a gente já tinha um comportamento de namorado que namorava muito tempo mesmo, sabe? Não era aquela coisa de você olhar e falar, ei, tá no início do namoro. A gente não tinha isso, sabe? Era uma coisa muito sólida que imprimia para as pessoas que a gente de fato ia estar junto para sempre.

I3Igor 3K

Interessante mesmo, caralho. É, mas esse lance de— tu falou que tem, eu vi na real que tu tem uma, que a tua filha tá indo fazer um intercâmbio.

FFERRUGEM

Foi, foi, voltou.

I3Igor 3K

Então foi, voltou, cara. Tu já tem uma filha, já tem um ser que meio que saiu de tu e que já tá desgarrando de mim, já tá fazendo um intercâmbio, moleque. Isso é mó doideira, né? Eu fico vendo a minha, a minha mais velha tem 13, já tem um monte de coisa mudando. A gente conversa sobre, sei lá, uns troço que a gente já se interessa sobre umas coisas parecidas, sabe?

FFERRUGEM

Com certeza, a gente conversa de muita coisa igual, e muitas coisas, e muitas coisas eu já aprendi com ela também. Porque tem uma porrada de coisa assim, principalmente com relação à tecnologia, eu sou um zero à esquerda com tecnologia, a não ser que seja coisa de estúdio. Fora isso eu não saco nada. E ela me ensina um monte de coisa, a gente conversa assuntos onde a gente encontra afinidade nas ideias e tal, é muito bacana. E o engraçado, curte Curte, ela curte música boa, ela ouve Djavan, ela ouve umas parada maneira, ouve bastante samba, ouve Gal Costa para caramba.

Ela tem um bom gosto musical, escuta uns rap maneiro e tal, ela tira onda no gosto musical, porra. Ela inclusive me apresenta um monte de coisa também para eu poder ouvir. E o engraçado é que eu consigo lembrar exatamente da sensação que eu tive quando a Juliana, mãe dela, falou que tava grávida. Isso é engraçado, parece que foi ontem. E ela já tá uma mulher. Muito louco, né?

I3Igor 3K

Quando ela falou que tava grávida ou quando ela nasceu?

FFERRUGEM

Não, quando ela falou que tava grávida foi, pô, na época não teve como pensar assim, caralho, que maneiro! Eu só pensei assim, ferrou, mano, fodeu! E agora, o que que eu vou fazer? A sensação era essa. Quando ela nasceu, já tipo assim, eu continuava tudo fodido, mas eu já tava com a ideia já tinha ingerido essa ideia, sabe? Ingerido essa ideia para fora. E agora ela tá vivendo, construindo as coisas dela. Maneiro, né? Maneiro para caralho.

Ao mesmo tempo é triste, né? Aquela coisa assim que é bonito, mas tem um quê de tristeza, né? Porque tá saindo, vai escorregando da sua mão, e você olha, tem mais duas na fila que daqui a pouco vai fazer eu sentir a mesma coisa. Daqui a pouco vai assim. Graças a Deus, elas também, a escolha vai ser delas. Elas têm a grande possibilidade de me encher de orgulho. Aí é com elas.

I3Igor 3K

Tá ficando velho, hein, cara.

FFERRUGEM

Porra, que papinho, hein? Que papinho de coroa.

I3Igor 3K

Tá ficando velho, isso que é verdade. Mas acontece com todo mundo, né? Não tem. E tu ainda tá até bem, pô. Olha lá, tu pinta o cabelo?

FFERRUGEM

Não. Então pinta não, entendeu? Mas tô começando a ficar com grisalhinha na barba aqui, ó, de levinho. Tá começando aqui, ó, pé de galinha. Tá foda.

I3Igor 3K

Isso daí é porque tu emagreceu muito.

FFERRUGEM

É pé de avestruz aqui já, vou gritar. Tá no nível, tá foda. Mas eu não Vou te falar legal, não me importo com essa parada, meu. Eu enxergo beleza em envelhecer, mano. Pô, é maneiro ruga. Eu vou deixar acontecer naturalmente. Somente quando a mulher ela fala deixa rolar, mano. Já fico feliz.

I3Igor 3K

Eu acho até importante. Eu acho eu até eu entendo os cara que quer aparecer jovem e tal. Eu entendo uns cara que é feio e quer ficar bonito.

FFERRUGEM

Sabe o que que eu quero, irmão? Eu quero sempre me colocar na caixa em que eu couber. Não me bota na caixa apertada demais nem numa muito larga. Bota na caixa certinha. Se eu tenho 37, vou fazer 38 anos, pô, que eu seja visto como um cara de 38 anos. E quando eu tiver 50, quero que seja assim e assim.

I3Igor 3K

E pronto, né? É só o que me cabe mesmo, né?

FFERRUGEM

É só o que me cabe. Não quero levar nada além do que é meu. Tá tudo certo, irmão. Vamos embora.

I3Igor 3K

É um jeito fácil, leve de olhar para a vida, né?

FFERRUGEM

É o simples que a gente começou lá na conversa, tanto na música quanto na vida. Eu prefiro viver de maneira simples, resolver as coisas de maneira simples. Sabe, não complicar as soluções e não enxergar os problemas como coisas tão complicadas. Se não dá para resolver hoje, a gente resolve amanhã. Se não der amanhã também, fazer o quê? E vamos assim, mas tentando, óbvio, não cagando. Não é sobre isso, sabe? O Ferrugem também, aí é mole, Ferrugem, você é rico, você não é isso. Pera aí, calma, calma aí.

I3Igor 3K

Até ficar rico foi quanto?

FFERRUGEM

Enxergar o copo meio cheio sempre. Foda-se, é isso aí, cara. É a melhor forma de viver. Porque se eu enxergar ele meio vazio todo dia, porque todo dia vai ter uma coisa que pode fazer eu enxergar a situação como copo meio vazio, mas a escolha é minha, pô, entendeu? É só olhar para o outro lado, eu ver que tem mais coisas positivas do que coisas negativas, e a gente vai resolvendo as negativas depois. Vou dar atenção porque é bom.

I3Igor 3K

É, e mesmo que haja mais coisas negativas que as positivas, qual que é a vantagem prática de se apegar às negativas?

FFERRUGEM

Nenhuma. Não tem uma vantagem prática, vai te deixar doente, mano.

I3Igor 3K

Só vai te deixar doente.

FFERRUGEM

Exatamente. Então não é ficar despreocupado, então eu fico longe de preocupação, irmão.

I3Igor 3K

Se tu ficar doente, tu para de fazer as músicas, tu para de fazer teus shows, fudeu.

FFERRUGEM

Obrigado. Vou parar de fazer a coisa que eu mais amo na minha vida? Não, não posso. Prefiro acordar todo dia, cuidar da minha saúde, porra, beijar minha mulher, beijar minhas filhas e tal, e a luta mesmo, brigar pelo que eu quero. Às vezes eu me aborreço durante o dia, mas eu que eu não posso é levar isso, arrastar isso o dia inteiro. Me aborreci ali, resolvi, resolvi, não deu para resolver, passa a página, depois você volta lá, beleza.

Porque se arrastar o dia inteiro o problema, é foda, irmão. Eu já fui um cara assim, sabe? Já tive momentos, acho que todo mundo tem, né, momentos na sua vida onde você é mais negativo. E eu vi o quanto eu perdi, sabe? Na minha casa, em mim mesmo, eu comigo mesmo, na minha carreira, pô, perdi coisa para caralho. E hoje eu consegui recuperar tudo que eu tinha e perdi e consegui ganhar, adquirir mais coisas. E a coisa mais importante que eu consegui adquirir sendo um cara mais leve com tudo, principalmente fora de casa, foi o respeito das pessoas.

Pô, então não posso perder essa parada assim na altura do campeonato, fazendo 38 anos daqui a pouco, sabe? Um cara que tá, pô, ficando mais velho, sabe? Eu tenho que demonstrar experiência. Eu acho que a tranquilidade e saber saber lidar com as coisas que acontecem, né, na vida. Acho que é uma boa demonstração de maturidade, né?

I3Igor 3K

É, eu acho que, eu acho que sim, cara. Maturidade não tem muito a ver com ficar mais velho, tem a ver com, sei lá, refletir sobre o que aconteceu até aqui, né?

FFERRUGEM

Porque dá para tu ficar mais velho e continuar ignorante, só tu não prestar muita atenção no que o tempo também ele te mostra, outras soluções, outros mecanismos de soluções para aquele problema que de repente tu não resolveu lá no passado. Relaxa, Cara, relaxa, tem muita vida pela frente. Se eu ficar pensando no que eu tenho que resolver o tempo inteiro, a vida passa, chegou lá na frente, eu não fiz porra nenhuma, não vivi. Aí eu olho, minhas filhas tão grande, aí eu me olho no espelho, tô mais velho, aí já não canto do mesmo jeito que eu cantava.

Tudo isso vai acontecer, eu tô super certo dessa parada, e de boa. Então por isso que eu quero aproveitar agora, entendeu? Porque esse momento aqui contigo, amanhã não tem, irmão, amanhã eu não aproveito. Então tô curtindo essa parada aqui contigo.

I3Igor 3K

E deve ser parecido, deve ser na verdade mais intenso ainda quando tu tem oportunidade de encontrar uns cara que tu admirou ao longo da tua carreira, da tua vida, no mesmo lugar, na casa de vocês, né? Abrir um show de um cara, ter um parceiro que tu curte num show contigo, um cara desse na minha casa jantar, um cara desse, você consegue entender? Pois é, ou te chamar para ir tomar um vinho depois.

FFERRUGEM

Exatamente. Esses caras, tem um momento assim de intimidade com o cara que de repente às vezes eu imaginava dele escutar uma música minha e tecer qualquer elogio assim, pô, gostei do teu som. Esse tipo, Péricles, o cara virou meu amigo, pô, sabe? Eu tá no mesmo lugar que o Péricles, que o Thiaguinho, que o Belo, e os caras me tratarem como igual, me respeitarem, sabe? Me fazer enxergar que eu sou do grupo deles, sabe? Isso é foda, isso é maravilhoso.

Assim, uma das maiores bênçãos que a música pôde me trazer é ter a amizade e o respeito dos meus ídolos, dos caras que me respeitam, pô.

I3Igor 3K

Qual que foi? Teve alguém que foi chocante de verdade? Que nem eu te contei, acho que antes de começar aqui, do Adriano, né? Que o Adriano tinha uma história que, pô, quando a gente começou, o Adriano era um cara que lá em 2018 eu achava que Era um dos que eu queria, era o cara que eu queria, que eu citei.

FFERRUGEM

E ele é muito foda, e ele é foda, é maravilhoso.

I3Igor 3K

E aí foi uma, eu te contei, foi toda uma construção, não sei o quê, enfim, rolou, né? Tem, teve alguém assim na tua carreira, ou tu ainda tá construindo para encontrar alguém?

FFERRUGEM

De conhecer ou de cantar? Eu acho que tem um momento, acho que de cantar, cara. Cara, de cantar foi com o Péricles. A primeira vez que eu cantei com o Péricles assim, na verdade eu nem cantei. Só chorei, tá ligado? Tem esse registro assim bem antigo na internet. Ele foi participar de um pagode de um grupo que eu tocava e os moleque não disseram que ele ia participar porque sabia que eu era muito fã. E quando chegou, era todo domingo, quando chegou no domingo que antecedia esse próximo domingo que eles anunciaram a próxima atração, pô, eles olharam pra mim e falou assim, agora a gente vai te contar uma surpresa.

Convidado da semana que vem e tal é o Péricles. Eu falei, pô, fodeu. Cara, eu fui no shopping, comprei roupa nova e tal assim, parecia de fato que eu ia viver.

I3Igor 3K

Pelo menos te deram uma semaninha, né, pra se preparar.

FFERRUGEM

Eu vivi ali o Aqueles 7, aqueles 6 dias ali numa intensidade fodida assim de expectativa e tudo. E quando a gente foi cantar, eu nem consegui cantar direito, mas aí depois ele me deu uma outra chance, aí eu cantei e tal. Tem esse momento registrado. De lá pra cá, tantas coisas aconteceram. Ele em seguida me colocou pra cantar no show dele, que eu fui assistir, e ele me deu uma oportunidade. Aí logo depois ele começou de fato a se aproximar de mim, e a gente já trocava uma ideia assim quando se encontrava na estrada.

A coisa foi se— os laços foram se estreitando. Aí a Thaís conheceu a esposa dele, que é a Lidiane. Elas começaram a trocar uma ideia mais próxima. Isso fez a gente se aproximar mais. E hoje a gente tem uma turnê, a gente tá na rua rodando com uma turnê, eu e ele, que chama As Vozes. A gente tocou em São Paulo, inclusive na semana retrasada, no CTN ali, cara, foi muito foda. A gente tem um show agora no mês que vem em Salvador também, que já tá praticamente esgotado.

E poder subir no palco Tá do lado dele, que é o cara que eu sempre mirei assim, que eu queria ser igual a ele quando eu cantar, quando eu comecei a cantar. E poder hoje estar do lado dele, tendo aprovação dele, porra, o cara tendo prazer em cantar comigo, sabe? A gente dividir uma música, eu cantar os sucessos dele, ele cantar meus sucessos, isso é muito grande. Então acho que o maior dos encontros da minha vida que eu tive foi com o Péricles. Mas o que mais me assustou mesmo assim foi o Roberto Carlos, cara.

I3Igor 3K

Isso aí deve ser maluquice.

FFERRUGEM

Eu fui cantar lá no navio dele, eu nem naveguei, na real.

I3Igor 3K

Esse tu nem sabia que dava, vai. Não é verdade?

FFERRUGEM

Não, eu tinha certeza que não dava, isso é real. É tipo, eu acho que se acontecesse, foi sempre um comentário que eu fiz assim dentro do escritório, capaz, eu falei, pô, Roberto Carlos é impossível, né? Os cara fala, não, calma, cara. Então tu pensava assim, mas aí assim, conhecer para mim já seria foda. Ou, tudo bem, prazer, eu sou Ferrugem. A grande parada foi a seguinte, eu cantei no navio dele, tava atracado ali no porto no Rio, e aí depois eu terminei de cantar e Foi um pessoal da produção perguntou se eu queria ir lá assistir o show dele.

Eu tava com a Thaís, a gente foi lá, ficou vendo de cantinho assim da coxia. Quando acabou, o produtor dele falou assim, vou te levar lá para conhecer ele. Pô, quando eu abri a porta para entrar no camarim, ele me atendeu e falou assim, porra, moleque, tu canta para caralho, cara!

I3Igor 3K

Nossa, sabe?

FFERRUGEM

Me colocou dentro de uma intimidade ali que eu sabia nem como agir. Me tratou bem para caralho, tratou a Thaís bem para caramba, tudo mais. Então foi o encontro mais— falei, caralho, velho! Aí Você sente tipo assim, pô, sou ouvido por esse cara. Caetano Veloso, cara, Caetano, porra, Caetano Veloso, irmão, gigantesco assim. O cara, o cara abriu as portas da casa dele para mim. A gente teve junto em várias oportunidades. A gente ensaiou no estúdio dele uma apresentação que ele ia fazer no TVZ, porque eu fui apresentador do TVZ durante 8 meses.

E aí quando eu saí do TVZ Chamaram ele para fazer um especial de Natal. Eu saí no mês de dezembro mesmo. E aí já seria um outro apresentador, não me recordo quem. E aí ele falou assim, tudo bem, eu vou fazer, mas eu só faço se for com Ferrugem. Aí me botaram de novo para apresentar o programa, só aquele programa, para fazer junto com ele. Pô, o cara me priorizar nesse nível, nessa forma, sabe? O cara passou uma madrugada com violão e eu pedindo música para ele, ele tocando para mim.

Então tem coisas que só a música poderia me proporcionar e que E que eu vivo assim. E de repente, não, com certeza não teria a menor chance de vivenciar tudo isso se não fosse a música.

I3Igor 3K

Essa do— tu mencionou uma com Péricles, que tu foi assistir um show dele, ele te chamou para cantar.

FFERRUGEM

Foi.

I3Igor 3K

Tu já foi na Maldade?

FFERRUGEM

Não, mano. O que acontece, o Guga é um parceiro meu que era produtor do Péricles na época. E aí eu vi que tinha um show do Péricles lá em Guaratiba. Perto de onde eu morava. Eu falei, pô, caralho, vou chamar o Gugu, eu posso ir aí? Não, pode vir, cara. Eu peguei e fui e fiquei assim de cantinho na escada vendo o show, bem escondido. Na minha cabeça, o Péricles não tinha nem me visto, cara, só que eu tava ali no sapatinho. Aí o cara simplesmente parou o show.

Rapaziada, pô, tem uma música que eu tô escutando, toca no rádio e tal, não sei o quê. Tocava só aqui em São Paulo. Inclusive, quando ele puxou lá, ninguém nem cantou porque a galera nem conhecia. Aí quando ele puxou minha música, eu falei, caralho, Ele falou, e o cantor tá aqui, chega aí, Ferrugem, vem aqui. Porra, mano, minha perna foi tremendo, né, meu? A bexiga enche na hora, dá uma vontade de mijar na calça, um bagulho. Aí eu fui, sentei, cantei com ele e tal.

Essa foi a primeira oportunidade valendo assim. Não, mesmo, mesmo, não tinha como, irmão. Não era nada, ninguém assim, era mais um no meio daquela galera ali, não tinha como. E aí o Guga, né, já tinha cantado essa pedra pericão e tal, me ajudou para caralho. É um cara que no início ali também correu comigo, é um grande amigo que eu tenho. E o Pericão, pô, topou, me chamou ali na hora, me deu uma puta de uma oportunidade. E a primeira valendo assim, né, que eu tive de cantar relaxado depois e tal, cantar uma música inteira ali, consegui cantar sem chorar, sem me emocionar.

E dali para frente o nosso laço foi estreitando. Hoje em dia a gente tira a maior onda junto assim, uma brincadeira gostosa para caralho no palco, uma sacanagem só, um brinca com o outro e tal, a gente se desafia. Fica duelando um com o outro, cada um manda um agudo e tal. Porra, quando que eu imaginei, sabe, que eu ia ter esse tipo de oportunidade, né, de ter ele do meu lado, da gente se tratar de igual para igual e dele me respeitar da mesma forma que eu respeito ele, sabe, dele valorizar minha música. Pô, isso é muito bom.

I3Igor 3K

E os outros Coroa, os outros cara do—

FFERRUGEM

eu amo todos os Coroa, cara, amo todos os Coroa, todos, todos, dos que já se foram, que deixaram saudade para caramba. Todos eles sempre me trataram com carinho. Arlindão sempre me tratou com carinho, presidente sempre me tratou com carinho, o Birani sempre me tratou com carinho. Então assim, eu sou fruto desses caras, sabe? E graças a Deus eu tive assim, mesmo que pouco, a oportunidade, tive tempo de estar com cada um deles, de ter momentos especiais com cada um deles, de ser querido, respeitado, ser lembrado por eles em entrevistas, em coisas assim que eles tivesse oportunidade de falar de mim, eles sempre falaram de mim com muito respeito, muito carinho.

Fui muito aconselhado pelo Bira presidente várias vezes. Tive oportunidade de ir no Cacique de Ramos, recebi um prêmio lá, sabe? Tipo meio que uma condecoração dos inscritos. Porra, isso daí é brabo!

I3Igor 3K

Esse talvez seja uma das paradas mais braba, não é?

FFERRUGEM

É muito! É, não, pra mim é o melhor. Eu sou um cara assim que eu não ligo pra prêmio, irmão. Não é uma coisa que eu foquei pra minha carreira e tal. Isso não de forma alguma vai conseguir me colocar acima de qualquer outra pessoa. E ganhar e não ganhar não me coloca também abaixo de qualquer outro artista. Então, se vier, valeu, mas não é uma coisa que eu almejo. Mas aquilo ali era uma coisa que eu sempre almejei, ser reconhecido por eles dentro do Cacique de Rampa.

I3Igor 3K

É ser recebido, não é?

FFERRUGEM

Esse prêmio aí, você vira um cavaleiro da Távola Redonda na hora, tá ligado? Assim, foi uma das coisas mais emocionantes que eu já vivi na minha vida. Então Então poder viver, vivenciar coisas com esses caras foi maravilhoso com os que já se foram e continua sendo maravilhoso com os que estão aqui ainda.

I3Igor 3K

Deve ser muito gostoso mesmo poder ver uns cara que além de não só conhece, te viu e tudo mais, o cara gosta do que tu faz.

FFERRUGEM

Exatamente. Às vezes acontece, o grande lance tá aí, não é aquela coisa do fala, garoto, aí beleza, não é sobre isso. É o cara falar assim, porra, aquela música que tu lançou lá é boa, sabe? E você tá conversando com um artista de 50 anos de carreira, pô, e o cara te dá esse valor. Pô, irmão, é para ser muito grato, sabe? É para entender que de fato Deus me colocou no lugar muito especial, que muitas pessoas queriam estar. Então por isso eu tenho que valorizar e fazer por onde manter tudo isso, né?

E deixar um legado para que outras pessoas possam ver a forma que eu fiz, de repente se espelhar em alguma coisa, algum passo que eu dei. Se acontecer apenas isso, para mim já tá de bom tamanho, já tá bonito. Acho que é isso que a gente tem que deixar, né?

I3Igor 3K

Eu também acho. 11 álbuns é o quê, um por ano? Quase isso, cara.

FFERRUGEM

Não sei se são 11 não, mano, de repente eu tô errando.

I3Igor 3K

Tá bom. É o quê, tu solta um álbum por ano?

FFERRUGEM

Não, fiquei 2 anos uma vez sem lançar.

I3Igor 3K

Tá, mas geralmente, em média, vai. Esse ano tu vai soltar quantos álbuns?

FFERRUGEM

Soltei agora o Sentimento e a gente vai gravar mais uma parada para sair depois. A gente vai gravar, vou falar logo aqui, irmão, canalzão desse aqui eu lá, Galápagos. A gente vai gravar, a gente vai gravar o ao vivo do Sentimento com todas as músicas do álbum e mais 10 músicas inéditas lá no Rio de Janeiro, no dia 5 de dezembro, tá? Vai ter essa gravação. E a gente vai gravar uma parada agora nesse mês para lançar em dezembro também, que é uma homenagem a uma grande voz da música e tal.

Vou falar também, vamos homenagear Alcione. Vai ser uma parada assim sensacional, cantando os grandes sucessos dela. E ela vai estar lá comigo em algumas músicas, ela vai cantar em outras músicas. Eu vou ter a honra de ter a Alcione me assistindo e as pessoas vão conseguir contemplar, porque a gente vai montar dessa forma: a Alcione assistindo um fruto dela que sou eu, que é minha madrinha, minha tia, que tem o maior carinho assim.

Em 2015, quando eu lancei meu primeiro álbum, ela participou comigo e é uma das músicas de mais sucesso que eu tenho, que é Paciência. Eu acho que eu devia isso a ela. O Reinaldo, que é o príncipe do pagode, que já se foi também, Foi o primeiro cara a me dar a minha grande oportunidade assim, e eu pude homenageá-lo. Lancei um álbum cantando as músicas dele, foi um grande sucesso também. A gente rodou, fizemos turnê rodando as escolas de samba aí pelo Brasil afora, foi muito legal.

E agora é a vez de homenagear a Tia Alcione também, e da melhor maneira, sabe? Em vida, com ela lá comigo, vai cantar comigo. Eu vou ter todo esse registro eternizado. E a galera que curte o som dela e o meu, que eu acredito que quem curta ela acaba curtindo meu som também, porque eu sou fruto dela, eu nasci daquele tipo de música. Eles vão curtir também.

I3Igor 3K

5 de dezembro?

FFERRUGEM

5 de dezembro.

I3Igor 3K

Onde?

FFERRUGEM

Não, 5 de dezembro, Sentimento.

I3Igor 3K

Tá aí esse teu Dalcione aí, não sei.

FFERRUGEM

A gente vai, é fechadinho, tá bom? Mas tu tá convidado, pô, pelo amor de Deus.

I3Igor 3K

Eu quero ir.

FFERRUGEM

Inclusive, se a rapaziada do Flow pudesse ir, seria maneiro, irmão, seria maneiro, porque vai ser uma celebração muito bonita. Eu quero pessoas assim que eu considero de grande importância, ou na minha carreira ou na minha vida. E o Flow tem influência nas duas coisas, sabe? Na minha opinião, vocês têm influência em tudo.

I3Igor 3K

Depois a gente troca o contato porque eu quero ir. Minha esposa vai se amarrar, inclusive.

FFERRUGEM

Vai ser foda, irmão. A gente tá preparando uma festa daquelas, vai ser linda.

I3Igor 3K

Nossa, pra tu deve ser também um marco maneiro na tua carreira, né?

FFERRUGEM

Óbvio. Imagina, eu tive que ir lá na casa— tive não, né? Eu me propus a ir na casa dela pra poder fazer o pedido na casa dela. Acho que era de, né, era de bom grado eu fazer isso, era de no nível respeitoso assim. Que ela merece. E aí fui lá, ela me recebeu assim, o papo não durou 5 minutos, ela falou assim: qual a roupa, qual o dia, qual a hora, eu tô contigo, eu vou qualquer lugar, não sei o quê. Ali a gente fechou e ela também vai estar me ajudando em questão da curadoria das músicas, que eu quero lançar só o filé, não vou passar pela carreira inteira porque é uma coisa gigantesca.

A gente vai lançar aí pelo menos umas 15 músicas, acredito eu, e a gente quer pegar só o filé, só aquelas de rasgar o coração para poder ficar bem bonito. E algumas delas ela vai cantar também.

I3Igor 3K

Nossa, moleque, que maneiro! Vai ser bom para tu, deve ser maravilhoso também.

FFERRUGEM

Maravilhoso para mim, para minha história, para minha mãe. Minha mãe sempre cantou Alcione na noite, ela vai se realizar com essa parada. E para mim vai ser um marco na minha carreira, de fato, né? Gravar, lançar. E assim, é Alcione, cara, a gente já lança sabendo que é sucesso, entendeu? Então a gente vai ter um produto assim pro final do ano, pro ano que vem, né, pro Réveillon, pra galera curtir em casa com a família, que eu tenho certeza que vai ser um grande sucesso.

I3Igor 3K

Porra, que maneiro, cara. Bom, e aí tu sente que falta alguma coisa na tua carreira, cara? Tá assim de grande realização, troço que tu ainda sonha?

FFERRUGEM

Porra, não, cara.

I3Igor 3K

Não me parece realizado não, mané.

FFERRUGEM

Eu não vou mentir não, eu acho que o que vier, óbvio, né, Graças a Deus, e a gente aceita. Mas eu acho que o meu maior desejo é manter tudo isso que eu tenho vivido pelo máximo de tempo possível, sabe? Maior tempo possível que eu conseguir manter essa parada, esse olhar que o público tem por mim, pela minha música. E quando isso deixar de acontecer, beleza também, porque o público tem todo direito, sabe? E a gente também tem a obrigação de tentar se renovar, se remoldar.

Mas enquanto eles me quiserem assim, eu tô muito feliz, porque eu tô adorando ser do jeito que eu sou, porque eu não preciso mudar. Tá ligado? Não preciso mudar. Eu sou quem sou aqui contigo, sou quem sou em casa, numa entrevista mais séria, mais pautada, ou em cima do palco. Eu procuro ser sempre a mesma pessoa para evitar surpresa, né, do público. Quero surpreender ninguém negativamente. Então eu já sou isso aqui. Se você me ver errando, eu sou isso aqui.

Se tu me vê acertando, eu sou isso aqui também, sabe? Nada é inventado na hora. E a minha pauta na minha cabeça, ela não vai mudar de acordo com a pessoa que eu tiver lidando.

I3Igor 3K

É muito mais fácil manter a verdade.

FFERRUGEM

É óbvio, pô. É óbvio. Inclusive você dorme leve com isso, é maravilhoso. E você não me pega na mentira em momento nenhum também, sacou?

I3Igor 3K

Mesmo que seja uma vacilação, uma vacilação honesta, irmão.

FFERRUGEM

Não, porque acontece, quem nunca vacilou? Então pronto. Então se for para falar de vacilação, a gente fala claramente, tal. A grande parada é vacilar no mesmo vacilo, irmão. Tem aquela história, tu cagou num buraco, irmão, tampa. Porra, não caga no mesmo não, faz outro buraco.

I3Igor 3K

Pronto, vacilou. Tu viu que é um vacilo, todo mundo achou que era um vacilo, você olhou, considerou e, puta, isso aqui foi um vacilo, e tu não aprendeu nada, porra, então é burro. Então não seja burro, aprenda com seus vacilos.

FFERRUGEM

Simples assim.

I3Igor 3K

Ferrugem, obrigado por vir aí, cara.

FFERRUGEM

Eu que te agradeço.

I3Igor 3K

Obrigado pela moral. Porra, foi muito gostoso trocar essa ideia contigo, cara.

FFERRUGEM

Para mim também.

I3Igor 3K

Mais bem vestido assim, a camisa foi desabotoando ao longo do tempo.

FFERRUGEM

Mas assim ficou mais sexy, mano. Dá um liga lá na câmera, dá um liga lá, chama legal aqui. E o bom é que a gente é do mesmo time, peludão.

I3Igor 3K

Eu sou mais.

FFERRUGEM

É, não, tu é foda. Mas eu tenho meu valor, pô. Pera aí, deixa eu botar meu óculos para a gente fechar do jeito certo.

I3Igor 3K

Então obrigado pela moral aí. Para as pessoas te encontrar na internet, pesquisa Ferrugem.

FFERRUGEM

Ferrugem, tá tudo lá, irmão, tá tudo lá. É só na internet que me encontra, na rua é difícil, só no palco. E é isso, obrigado, sucesso, meu irmão.

I3Igor 3K

Te agradeço, cara. Obrigado pela moral mesmo. Vocês que assistiram aí, segue o Ferrugem, a gente vai deixar tudo aqui no comentário fixado para você encontrar com facilidade, tá bom? Se tu tiver no YouTube, é com um clique só. Se inscreve aí no canal, dá o like nesse vídeo, manda lá no grupo dos pagodeiros, manda no grupo daquele, sei lá, da galera que tu sabe que é fã do Ferrugem, para entender um pouco mais aqui sobre o que que trouxe esse moleque até aqui, tá bom?

FFERRUGEM

Moleque, cara da minha idade, pera aí que eu não vou te—

I3Igor 3K

pô, pera aí que agora eu me atrapalhei, porque tu sendo da minha idade com essa lata e eu com a minha aqui, eu tô perdendo, pô.

FFERRUGEM

Não, mas tua carcaça tá boa.

I3Igor 3K

Não tá.

FFERRUGEM

Já foi, foi. Vamos mudar de assunto.

I3Igor 3K

Obrigado mais uma vez, vocês muito obrigado também. Vira membro aí, custa menos de R$8 e a gente se vê depois. Beijo, tchau.

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