Episódios de Flow Podcast

WENDEL BEZERRA + MAURO RAMOS - Flow #628

31 de julho de 20262h31min
0:00 / 2:31:27

Simplesmente o Shrek e o Goku juntos.

Participantes neste episódio3
F

Felipe Moura Brasil

HostJornalista
M

Mauro Ramos

HostDublador
W

Wendel Bezerra

HostAtor, diretor e dublador
Assuntos10
  • Influencia Dragon BallDesconhecimento sobre o sucesso de Goku · Primeira morte de Goku na dublagem · Impacto do mangá e anime · Influencia Dragon Ball · Akira Toriyama
  • A dublagem como trabalho artístico e a relação com outros atoresA arte da interpretação e o talento · A importância do trabalho em equipe · O impacto emocional do trabalho · Profissionais acomodados vs. dedicados · O papel do dublador na cultura
  • Desafios e particularidades da dublagemDublagem com tela preta (sem imagem) · Perda de informações em dublagens · Segurança digital e vazamentos · Adaptação de piadas e trocadilhos · Dublagem de placas e sons ambientes · Voiceover vs. dublagem tradicional
  • Producao AudiovisualInterpretação em audiobooks · Narração de livros técnicos vs. ficção · Dificuldades técnicas (dicção, respiração, saliva) · Criação de vozes para personagens · Literatura de fantasia
  • Desafios do Mercado de DublagemIntegração entre Rio e São Paulo · Greve de dubladores em 1997 · Reconhecimento profissional e fãs · Anonimato vs. exposição · Impacto da internet e eventos
  • Atuacao e DublagemEmoção real durante a dublagem · Filmes que emocionam (Titanic, Bambi, Túmulo dos Vagalumes) · Dublagem de desenhos animados e infantis · Cinema e Memória Afetiva
  • JoJo's Bizarre Adventure e suas partesJonathan Joestar e a primeira parte · Joseph Joestar e a segunda parte · O caso Vampiros de Niterói · Stone Ocean e a sexta parte · O estilo de arte e referências
  • Mídia e EntretenimentoPreferência por filmes e séries antigas · Séries com muitos episódios (24h, Prison Break) · Streaming e maratonas · Classificação de séries · Filmes favoritos da Disney · Comédias e humor pastelão
  • Validação e Critérios ProfissionaisPedidos de áudios personalizados · Trabalho gratuito vs. remuneração · Meet and greet e interação com público · Plataforma Nossas Vozes Insiders
  • Declínio do gênero super-heróisCiclos de popularidade no cinema · Filmes de super-heróis em baixa · Avatar · Crítica Cinematográfica
Transcrição604 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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FMFelipe Moura Brasil

Salve, salve, família! Bem-vindos a mais um Flow.

MRMauro Ramos

Eu sou o Igor e hoje eu vou conversar com Mauro Ramos. Tudo bom, cara? Tudo bem. Pera aí que os meus fãs ficam sempre pedindo isso. Oi, eu sou Mauro Ramos e se erramos, voltamos e consertamos. O único ator dublador do Brasil com slogan rimado. Pronto, já me apresentei.

FMFelipe Moura Brasil

Nossa, entrou o Wendel também, né? Depois dessa aqui é só o Wendel.

MRMauro Ramos

É, eu boto umas coisas na internet e se eu não falo isso, o pessoal reclama. Pô, cadê a introdução, pô? Tem gente que só vê por causa da introdução.

FMFelipe Moura Brasil

Olha que fofinho, né? Fofinho isso.

WBWendel Bezerra

E quando já dirigi o Mauro, né, como diretor de dublagem algumas vezes, então já aconteceu eu e o técnico ali se atrapalhar e aí ter que gravar de novo e eu falar, Mauro, erramos.

FMFelipe Moura Brasil

Draga, eu caí nessa, cara.

MRMauro Ramos

Cadáveres do caralho.

FMFelipe Moura Brasil

Bom, e hoje teremos vários, né?

WBWendel Bezerra

Eu vou tentar me conter.

FMFelipe Moura Brasil

Não, não, não, não, por favor, cara. Acho que é parte integral do convite ao NWC, a parte que vem com os comentários. É, vamos chegar lá. Ó, se você quiser mandar mensagem em algum momento, quer participar do programa aí, ficou faltando falar de alguma coisa, tem o QR code aqui do Live Pix para tu mandar aí, e aí o Vitão vai escolher os 5 mais legais E aí eu leio ou a gente bota aqui uma IA para ler e aí você participa do episódio em alguma medida.

Eu queria também agradecer aqui a Fluency e o Que Vestir, de quem falarei já já, que são os parceiros de hoje. Obrigado, valeu pela moral. E também muito obrigado vocês, cara, porque como eu disse aqui antes da gente começar, a sensação é... Hoje eu estarei aqui vendo um filme dublado ao vivo. O que é... O Mauro em seguida logo disse, já escuto isso o tempo inteiro, mas eu tenho o privilégio de ter vocês dois.

MRMauro Ramos

Né?

FMFelipe Moura Brasil

Então eu acho que, porra, eu sou— tem gente que tá aqui só para esse evento também, não fica cheio aqui assim normalmente, entendeu?

MRMauro Ramos

Me sinto honrado, me sinto honrado em estar com vocês, me sinto honrado em estar ao lado dele.

WBWendel Bezerra

A recíproca é mais que verdadeira.

FMFelipe Moura Brasil

Nossa, vocês são todos muito boas pessoas.

MRMauro Ramos

Poucos se encontram, mas quando se encontram, as nossas pessoas se cumprimentam e parecem se querer bem.

WBWendel Bezerra

Exatamente.

FMFelipe Moura Brasil

Suas pessoas já se conhecem há muito tempo, eu imagino. Tu tem 47 anos de carreira de ator, e tu tem 48 anos de carreira também, né? Então, ou seja, vocês, por mais que fazendo algumas coisas aqui e ali, vocês já estão no mesmo mercado há muito tempo, então já se encontraram faz tempo, imagino.

MRMauro Ramos

Sim, mas faz não tanto tempo, não tanto tempo com relação à vida dos dois, porque eu trabalhava no Rio de Janeiro. E aí, 10 anos, há 10 anos eu vim trabalhar aqui a convite da Angélica. E a Angélica falou, vai para lá.

FMFelipe Moura Brasil

É, não, não, você tá aqui na mesa, desculpa.

MRMauro Ramos

Eu vim, a Angélica Santos, aí ela falou assim, vai lá porque tem um pessoal da sua faixa de voz que ou tá se aposentando ou tá morrendo. Aí eu falei, pô, que sacanagem, pô, vou tirar trabalho dos outros? Não, não, tá precisando mesmo. Aí eu vim. E foi aumentando, aumentando, pessoal me chamando, e eu tô aqui há 10 anos. Então a gente circula um com o outro há mais ou menos 10 anos.

FMFelipe Moura Brasil

Pô, mas 10 anos é um tempão do caralho mesmo.

MRMauro Ramos

É o tempo que eu tenho aqui morando.

FMFelipe Moura Brasil

É, que é interessante, porque quando a gente via, a gente já conversou isso assim individualmente, é sobre como era o mercado de dublagem, né, e como ele está hoje. Em boa medida ele tá muito mais integrado, não tá? Vocês dubladores, muito mais integrado, né?

WBWendel Bezerra

Eu tô dirigindo um filme, é o primeiro filme que eu dirijo no ano, que eu quase não dirijo mais, mas eu enfim tô dirigindo esse filme e eu escalei 3, escalei é cast, né, escalei 3 dubladores cariocas para estarem no filme estando em São Paulo. Exato, então isso é uma coisa que antigamente não acontecia. A gente falando desse negócio de TV Em 97 teve uma greve, uma greve nacional dos dubladores, que eventualmente São Paulo parava um tempo, aí o Rio parava, mas era assim.

E tinha aquela ameaça: São Paulo parar, trabalho todo vai para o Rio. Se Rio parar, trabalho todo— era isso. Aí um dia os cara falou: não, então vamos fazer uma greve junto. E aí parou, parou, parou, parou. E aí havia as assembleias, né, para discutir e tal. Então uma galera ia para São Paulo, Quer dizer, uma galera vinha para São Paulo, outra galera ia para o Rio. E aí, na primeira assembleia que eu fui, que o pessoal do Rio veio, cara, não prestava atenção em nada do que tava sendo dito, porque não tinha tanta internet, a gente não tinha esse intercâmbio.

Então era a primeira vez que eu tava vendo o rosto de várias vozes que eu ouvia há anos na TV, né?

FMFelipe Moura Brasil

Então, sei lá, cagou para assembleia, onde é tal os cara?

WBWendel Bezerra

Mas você falando lá, eu Eu nem sei o que ele falou. Você começa a lembrar dos filmes. Pô, Leslie Nielsen, pô, é o James Bond, é não sei o quê, é o Batman.

MRMauro Ramos

Então isso era uma coisa legal que aconteceu entre a gente nessa época na assembleia que a gente teve lá no Rio de Janeiro. Eu conheci o Borges de Barros, que eu era assim fascinado pelo trabalho dele, não só como ator, né, comediante, mas dublando. Ele era a voz do Doutor Smith, pomba, de Perdidos no Espaço, e eu era fã. Porque eu era adolescente naquela época, criança e adolescente, e eu ficava— não conseguia falar com ele. É maravilhoso, a gente fica ouvindo a voz desse.

Na Herbert também foi assim, porque tinha muito, muito ator que foi trabalhar no Rio numa época ali nos anos 70. E aí eu ficava assim, meu Deus, eu era o fã, né? Ah, a voz do robô do Perdidos no Espaço! Ah, a voz do sargento do Viagem ao Fundo do Mar! Meu Deus do céu! E hoje são, foram ao longo do tempo, muitos já se foram, mas hoje, por exemplo, Francisco José é meu amigaço. E quando que eu ia pensar quando era garoto e criança que aquela voz ia ser um amigo pessoal? É fantástico isso.

FMFelipe Moura Brasil

Eu tenho uma sensação parecida às vezes aqui, com frequência até. É que vem uma galera aqui que a gente acaba ficando se aproximando, uns cara que eu falo, caralho, quando na minha vida eu achei que eu fosse mandar uma mensagem no WhatsApp para esse cara? Caralho, que doideira! Isso é maneiro mesmo, né? Isso é uma parada que— mas agora vocês estão na posição de, vamos lá, quando vocês chegaram, que vocês olhavam os caras e, nossa, olha a voz desse cara!

Agora são vocês para os que vêm, né? Chamei de velho, isso, chamei de experiente. Porque são mesmo referências, né?

MRMauro Ramos

Minha filha diz que eu sou vintage.

FMFelipe Moura Brasil

Vintage é uma boa descrição.

WBWendel Bezerra

Caralho, tá.

FMFelipe Moura Brasil

Então, é, como é que é para vocês então estar na posição de vintage? Vocês viram isso acontecer, ou quando vocês se tocaram tinha uns moleque admirando?

MRMauro Ramos

Meu, olha, eu, eu é ali pela metade dos anos 90 Eu era um dublador típico, né? Então, para mim, seria assustador, como foi no início, as pessoas cercando a gente, falando e tudo mais. E aquilo me dava até medo. Mas ao longo do tempo eu fui fazendo a conexão. Pô, eu fui de uma geração que também era fã de gente que fazia dublagem. Então, que negócio é esse? Tá pensando o quê? Falta de hábito de lidar com o público. E aí cada vez mais eu fui lidando com os fãs e hoje em dia para mim é natural.

Tô andando numa rua e alguém chega e diz, o senhor é o Mauro Ramos? Eu não posso fazer mais nada, né, porque o pessoal já sabe até meu nome. Então filme, eu tô ferrado. Então eu trato com naturalidade. Que era uma coisa que o pessoal da antiga não sabia fazer porque ficava sempre ali quietinho na dublagem sem ter o trabalho dele reconhecido dessa forma. Para mim é maravilhoso. Eu já me habituei, graças a Deus. Pessoal é sempre muito legal comigo.

WBWendel Bezerra

Acho que é bem isso. No começo você estranha porque era uma profissão que é totalmente assim behind the scenes, né? Inclusive Quando eu decidi ficar só em dublagem, um dos principais motivos era o anonimato. Eu gostava disso. E só que aí depois os personagens, a internet, os eventos, isso foi mudando. Então no começo eu estranhava, resistia, não entendia. Depois é isso, você vai não só se acostumando, mas você vai entendendo os porquês, como as coisas funcionam.

E isso é legal que muda a tua percepção sobre a sua profissão, como você enxergava sua profissão e como você passa a enxergar depois. E aí eu passava isso para os alunos, para os diretores lá do estúdio, para os técnicos, enfim, para todo mundo. Eu passo uma experiência de vida que é diferente da que eu tinha quando eu escolhi ser dublador de fato, né? É, não sei se deu para entender.

FMFelipe Moura Brasil

Deu para entender, deu para entender, deu para entender, deu para entender. Eu tava aqui pensando, na real, ouvindo você falar, e não tem como, como assim, se fechar o olho é o Goku falando.

WBWendel Bezerra

Oi, eu sou o Goku!

FMFelipe Moura Brasil

E aí, aí nem tu também, né?

MRMauro Ramos

Eu sei.

FMFelipe Moura Brasil

E aí, e aí eu tava pensando, caralho, tem o Goku e o Gokuzinho na mesma família. Aí eu continuei pensando assim, caralho, eu não lembro se eu já perguntei pro Wendel.

WBWendel Bezerra

Que medo!

FMFelipe Moura Brasil

É, como é que assim, se ele sabia, tu sabia o tamanho do Goku quando os cara te chama? Como é que, eu não lembro se eu já te perguntei essa porra, é, se chegou assim, ó, toma aqui, ó, o Goku, tu sabia que diabo era isso?

WBWendel Bezerra

Ninguém sabia, ninguém sabia, ninguém sabe isso. E hoje em dia, se você sabe, só vai chegar uma série aí, né, que é celebrada, é papapi, foi feito por fulano, naquela época não. Porque isso foi 99 e foi um teste também. Eu fiz um teste com outros dubladores. Quando chegou lá que eu tinha sido escolhido, a única coisa honestamente que veio à cabeça é, pô, legal, peguei um trampo, é um trampo.

FMFelipe Moura Brasil

E uma coisa que ele me falou quando eu perguntei desse personagem, porque o ator ele é meio isso, né?

WBWendel Bezerra

Quando ele terminou uma novela, ele tá desempregado no dia seguinte. Então o ator vive desempregado. E naquela época não tinha um volume de dublagem que tinha, que tem hoje. Então, cara, você pegar uma cena— e eu sempre fui muito abençoado assim, eu era bom de teste, tinha minhas tecnicasinhas. Claro, eu tinha também minha capacidade, mas eu tinha as minhas, meus truquezinhos. Então pegar, sei lá, cara, eu devo ter pego 80, 90% dos testes que eu fiz.

E aí peguei um teste, tal, comecei a dublar. Para você ter uma ideia, como a gente não sabia, na primeira vez que o Goku morre, quando você tá ensaiando a cena, ele morreu.

MRMauro Ramos

Eu falei, ah, puta, acabou a série, acabou meu ganha-pão.

WBWendel Bezerra

Eu só pensei na grana. Ah, tá de sacanagem, porque eu peguei um teste, o cara morreu. Saiu da série, né?

MRMauro Ramos

É por absoluta necessidade financeira.

WBWendel Bezerra

Eu tinha fóruns, não tinha. Então a gente não sabia, a gente ali era muito desinformado sobre o mangá, sobre a história e tal. Então, que interessante, com o tempo, com os eventos, que a gente começou a conhecer uma pessoa ou outra que começava a ajudar. Ó, tal golpe é assim, tal. Eu comecei a assistir Dragon Ball Z com meu filho agora. A gente viu 4 episódios, cara. Que engraçado! Tá com 8.

FMFelipe Moura Brasil

Nossa, que experiência foda, moleque!

WBWendel Bezerra

Legal. E ele tá curtindo. Tem uns erros de nome, falei, caramba, falamos errado tal nome. Aí depois a gente deve ter arrumado lá para frente, mas é o que ficou gravado, já era, né? Hoje em dia com streaming dá para fazer. Tem um lance errado, se regrava, se coloca de novo na plataforma.

FMFelipe Moura Brasil

Hoje em dia é mais fácil.

WBWendel Bezerra

Quando alguém pega um erro, um ano depois, sei lá, Netflix, por exemplo, pede para arrumar e depois tá arrumado para o resto da vida. Agora essas coisas antigas, errou, errou, e vai para o resto da vida, né?

FMFelipe Moura Brasil

E nesse lance de o que dá para arrumar, o que não dá para arrumar, a complexidade do trabalho, acho que essa é mais para tu ainda, assim. Existe uma complexidade maior em gravar um filme, fazer um filme como A Odisseia com as câmeras do IMAX, né? Isso transfere em alguma medida para dublagem?

WBWendel Bezerra

Não. E nesse caso da Odisseia foi pior ainda, porque a gente recebeu aquele vídeo famoso preto onde só aparece a boca do ator.

MRMauro Ramos

É, eu já dublei assim.

WBWendel Bezerra

Então você nem vê a expressão facial.

FMFelipe Moura Brasil

Falar disso, como é que é essa porra?

WBWendel Bezerra

Por exemplo, confidencialidade, para ninguém ver, para ninguém vazar os comandos.

MRMauro Ramos

Quando é lançamento mundial, eles fazem isso, entendeu?

FMFelipe Moura Brasil

Só vê a boca.

WBWendel Bezerra

E se o cara tá falando, sei lá, de costas, aí tá tudo preto. Só que tem, você dubla o cara que teve essa ideia, não para o Odisseia. A primeira vez na vida tive uma ideia, para ninguém ver, vamos Porra, ele não sabe nada, não entende nada, não só de dublagem, mas de interpretação. Porque você não dubla a boquinha, você dubla a expressão facial, expressão corporal, cena, o todo. Teve um filme do Crepúsculo que veio assim, né, o 2, eu acho, o segundo filme do Crepúsculo veio desse jeito.

E aí quando eu fui ao cinema assistir, tinha um jornal, o cara pegava o jornal E tinha uma manchete que era importante e pertinente para cena seguinte, mas não apareceu, não apareceu. Então não foi traduzida, não foi legendada, não foi.

FMFelipe Moura Brasil

Puta que pariu!

WBWendel Bezerra

Aí a pessoa que não entende inglês, foda-se, ficou sem aquela informação.

MRMauro Ramos

O primeiro filme que eu fiz assim foi Transformers. É, depois o 2 também foi a mesma coisa. Eu chamava de dublagem espírita, você ia pelo pelo som. E Deus abençoe o mixador, entendeu? Para ele colocar no lugar. Meu Deus, Homem de Ferro 1 e o Homem de Ferro 2 também a mesma coisa. Abre uma boca, já é esquisito, né, preto. Aí abre um circulozinho na boca do sujeito que você vai dublar, independente se tá próximo da câmera, em close, se tá longe, em quarto, quinto plano.

Abriu lá uma coisa assim meio cinza, meio flu, e aí você tem que dublar aquilo e você acaba dublando o som. Mas você precisava, precisaria no caso, de toda a cena para você poder interpretar corretamente.

WBWendel Bezerra

Hoje mesmo aconteceu uma cena, só para exemplificar, que a menina falava assim: eu preciso apagar um incêndio. Só que é um lance que só eles dois sabem que tem a ver com incêndio, mas ela usou como se fosse uma Tem que resolver um problema. Só que a inflexão da menina em inglês não tava tão explícita, mas no fim da fala ela faz um lance assim. Aí eu falei, vamos usar essa expressão dela para falar. Até a gente até inverteu: eu tenho incêndio para apagar.

Então a gente usou essa inflexão no apagar, invertir a frase para pegar o gestual dela. Numa situação como essa você não vê. Você não vê, e aí você não pode dar algo a mais.

MRMauro Ramos

Isso é você fazer uma versão brasileira para o público que é do Brasil poder usufruir daquele produto da melhor forma possível. Então a gente não faz uma tradução se tá tudo escuro. Como é que você vai fazer o teu trabalho com clareza? Não tem como, não tem, não tem como. É terrível isso.

FMFelipe Moura Brasil

E isso é uma parada antiga, né? Você tá falando que Transformer, que é um filme das antigas, já tinha.

MRMauro Ramos

Isso daqui me dói. Para mim foi ontem.

WBWendel Bezerra

Mas tem grandes filmes que não fazem isso. Eu fazia tempo que eu não pegava um filme assim.

MRMauro Ramos

Normalmente é quando é lançamento mundial.

WBWendel Bezerra

Hoje em dia tem tantas coisas para evitar, os níveis de segurança são tão grandes nos estúdios, o cara tem que ser Talvez isso aí tenha até um sensor de entrada no estúdio para você acessar alguma coisa, é dificílimo, tem um monte de coisa na tela e tal. Então já tem, já é difícil o suficiente.

FMFelipe Moura Brasil

Antes desse, antes desse aí, qual foi um filme grande que chegou para tu lá?

WBWendel Bezerra

De com a tela assim?

FMFelipe Moura Brasil

Não, não, não, que não tenha, que tenha sido um filme grande, mas sem essa parada da tela escura.

WBWendel Bezerra

Ah, eu acho que talvez o último Por que que eu—

FMFelipe Moura Brasil

porque não importa muito. A ideia é quais são, como é que é a segurança, como é que o cara te envia esse filme. Porque é, quando era rolo tinha um esquema, agora que é digital é outro esquema. É digital, né?

WBWendel Bezerra

É só na plataforma X, é só fulano que tem acesso, a senha vai por outro lugar. Aí quando você recebe já tem que colocar a marca d'água, entendi. E a imagem ela tem uma várias listas, vários nomes da empresa, é zoado. E ela é meio embaçada, ela não é uma imagem boa. Então já é difícil e é bem suja para se vazar. Vamos supor, já sabe de onde vazou. Tanto que acontece assim mundialmente de eventualmente vazar e os caras sabem onde foi.

FMFelipe Moura Brasil

Justo. Então aí meio que tá meio obsoleto, né, esse lance de escurecer a tela.

WBWendel Bezerra

É meio demais.

MRMauro Ramos

É tudo um cuidado desnecessário.

FMFelipe Moura Brasil

Vocês, eu entendo o lance, vocês falaram aí sobre o personagem, como é que é botar piercing num Homem de Ferro. Eu entendo o lance de, pô, sei lá se o Goku era famoso, porque até porque ele, eu preciso, precisei dublá-lo para parada ficar famosa, e aí eu fiquei famoso junto. Eu entendo essa parada. Então vocês, o que que vocês assistem? Vocês são, ser dublador, ser ator, faz de vocês pessoas próximas até da, assim, da vontade?

Vocês têm, vocês vão ao cinema? Vocês são os caras que assiste série? Vocês troca ideia, sei lá, caralho, vi tal bagulho?

WBWendel Bezerra

Cara, eu adoro, tipo, adoro ir no cinema, adoro, adoro ver série, só que eu nunca vou e pouco vejo. Por falta de tempo, trabalhando bastante. Aí tem as crianças, a rotina da escola, da vida. Então eu não tenho muito tempo. Quando eu posso, eu vou. Mas é um lance que eu adoro, tá no meu plano de vida. Um dia, cara, só vou ver filme, cinema, série, desenho e foda-se o mundo.

MRMauro Ramos

É o velhinho da sala de televisão, porque eu adoro.

WBWendel Bezerra

Mas eu vejo, eu vejo, gosto de tudo. Nossa, meio não tenho assim um gosto musical.

MRMauro Ramos

Gosto, eu adoro música.

WBWendel Bezerra

Ah, eu gosto, tem uns que são bons.

FMFelipe Moura Brasil

Não, vocês têm que ser bom. Tu é o Pumba, né? Tu tem que gostar de musical, né?

WBWendel Bezerra

Ah, mas por exemplo, Moulin Rouge, você não gostou, cara?

FMFelipe Moura Brasil

É, esse eu nem lembro porque eu tava, eu assisti isso aí faz muito. Seu filme o quê, de 2000, alguma coisa assim? Então eu tinha 15 anos, não lembro. E nessa época era difícil para um moleque de 15 anos de onde eu tava ver qualquer filme, entendeu? Era um rolê. Eu lembro que foi um Matrix, para eu ver Matrix, um amigo meu alugou um DVD e eu não tinha nem onde pôr um DVD, mas ele tinha. Ele alugou um DVD e fez um piratão VHS para mim, entendeu?

E aí eu via em loop, porque eu tinha— eu terminei de ver Matrix, vou ver o quê agora?

MRMauro Ramos

Matrix.

WBWendel Bezerra

O meu problema é que o tempo que eu tenho, eu tô vendo coisas antigas. Porque é isso, como você tem pouco tempo, você fica com medo de perder 2 horas e ver um filme que é uma porcaria.

FMFelipe Moura Brasil

Total.

WBWendel Bezerra

Aí eu vejo filmes que eu já vi, mas aí eu uso o meu filho mais velho para, vem ver comigo aqui que isso é legal. Aí a gente caiu na besteira de assistir, porque as séries eram diferentes completamente. Então eu fui ver com ele 24 Horas, tá? São 24 episódios cada temporada, é uma hora. E aí a gente tinha que ver de noite, aí só tinha 1 hora, no máximo 2 horas, porque aí tem que dormir, tem escola, tem faculdade, tem não sei o quê.

Então não dá para tocar, vamos até as 2 da manhã. Então demorava um século e a gente viu todas as temporadas. Aí agora a gente tá vendo Prison Break, essa é foda. E aí estamos vendo, só que demora. E hoje em dia as séries têm 8 episódios, 6, né, são coisas mais reduzidas. E a dinâmica também é disso.

MRMauro Ramos

Ainda não vi nada disso, é porque eu tava trabalhando o tempo inteiro, chegava em casa, quero dormir.

FMFelipe Moura Brasil

Então Isso que você tá falando, essas séries aí em geral, quando tinha uma época que a gente ficava esperando as séries e tal, sobrenatural, não sei o quê, não era como é hoje, né? Sai logo uma temporada na Netflix, não tinha Netflix, ficava esperando, né?

WBWendel Bezerra

E perdeu, porque uma vez por semana você perdeu aquele episódio, já era, você não vai ver nunca mais, né?

FMFelipe Moura Brasil

No meu caso, no meu caso, eu Eu baixava no torrente, foda-se. Até porque eu não tinha TV a cabo, então tinha que baixar torrente de qualquer forma.

MRMauro Ramos

No meu caso, não. No meu caso, não.

FMFelipe Moura Brasil

Por quê?

MRMauro Ramos

Porque não tinha computador.

WBWendel Bezerra

Entendi.

MRMauro Ramos

Anos 60, 70, não tinha computador.

FMFelipe Moura Brasil

Perdeu, perdeu. É verdade.

MRMauro Ramos

Perdeu, perdeu. Só na reprise, sabe-se lá onde e quando.

WBWendel Bezerra

É.

FMFelipe Moura Brasil

E aí, o que eu tava falando? Fudeu.

MRMauro Ramos

Sim.

WBWendel Bezerra

Que sai tudo junto.

FMFelipe Moura Brasil

As séries, essas séries aí que têm esses 24 episódios antigamente, era porque era essa série da CW, era toda, ela tinha esse formato. Então eu sabia que a temporada Sobrenatural ia ter 24 episódios, entendeu? Só não teve, eu não lembro o ano, mas na terceira temporada que teve lá uma greve dos roteiristas e teve só 18. Mas eram os formatos, né? Eram assim diferentes mesmo. Hoje eu acho que eu prefiro quando sai tudo de uma vez, né?

WBWendel Bezerra

Eu também acho melhor.

FMFelipe Moura Brasil

É melhor para trabalho também assim.

WBWendel Bezerra

Olha, eu acho que sim, sim, porque de uma certa maneira você se livra daquele job mais rápido. Porque se é uma série que vai demorar muito, o ator tá comprometido, às vezes te atrapalha viajar, não sei o quê, é ficar doente, você fala, puta, tem a série, não posso furar. Então às vezes você consegue agendar, você já sabe que em um mês você vai dublar aquilo tudo. E que depois daquele mês você consegue, sei lá, fazer algum outro compromisso, uma peça de teatro, uma viagem, algo assim?

MRMauro Ramos

Eu já não posso falar porque, porra, eu faço um personagem que tá 22 anos na televisão, que é o Doutor Webber do Grey's Anatomy. Então, na verdade, se eu parar para pensar, é, se eu parar para pensar, outro dia eu tava, eu tava vendo, ah, eu tô com 37 anos de doblagem, vindo rádio. Aí eu parei assim, caraca, eu tô há 38 anos sem tirar férias de 30 dias, que coisa louca! Eu tô com 65, esse tempo todo eu fiquei trabalhando direto.

WBWendel Bezerra

Tá, você chama de trabalho que você faz?

MRMauro Ramos

Ora, é por absoluta necessidade financeira. O que não é trabalho É eu ficar o dia inteiro diante da televisão, é ir no cinema, aí não é, entendeu?

WBWendel Bezerra

Eu tava vendo o Vitor Sarro, tava gravando esses dias, tava dublando um projeto lá, e aí fui lá dar oi para ele, não sei o quê, e aí fiquei um tempo ali no estúdio. Aí uma hora ele falou, cara, isso é muito legal, os cara tão te pagando ainda, eu sei fazer.

FMFelipe Moura Brasil

É, é, tem uns cara que deve ser divertido para caralho mesmo no fim das contas.

MRMauro Ramos

E é assim, é, eu falo com os alunos exatamente isso, você tem que gostar da brincadeira. Enquanto você não gosta da brincadeira, você não se desenvolve como dublador, ator dublando.

WBWendel Bezerra

Para mim sempre foi o meu videogame, era um videogame para mim dublar, porque criança mesmo. E aí uma hora eu comecei a ver como joguinho. Eu tinha que pegar essas palavras aqui e encaixar na boca do moleque ali, naquele ritmo, daquele jeito, com aquela inflexão, não sei o quê. Então era um grande jogo e eu passei a me divertir desse jeito. E acho que até hoje eu tenho essa sensação de que eu tô jogando, de que eu tô, claro, com responsabilidade, tenso, nervoso, preocupado, querendo hoje querendo entregar um trabalho melhor do que antigamente, né?

Tem outras coisas por trás. Mas assim, eu dublo pouco hoje em dia porque eu trabalho muito tocando a empresa e tal. Mas cara, quando eu vou dublar, eu esqueço tudo, tudo. Os problemas, as tretas, o email que tem que responder, eu não sei. Eu fico bem focado. E aí eu tô realmente me divertindo, cara, mesmo, mesmo. Tanto que eu não vou nem te parar muito para ir no banheiro, tomar café, não sei o quê, porque eu quero estar ali, saca? Acho que é o videogame mesmo, o cara que fica 10 horas jogando.

FMFelipe Moura Brasil

É, para mim isso aqui é um tanto isso também. Tem vezes que eu fico, puta, vou ter que voltar para o mundo real, acabou, né? Vai ter que voltar para o mundo real. Mas é É, mas a vida real precisa estar aí também, né, meu irmão?

MRMauro Ramos

Exato.

WBWendel Bezerra

A gente não faz sentido também.

FMFelipe Moura Brasil

E assim, eu já sou feliz para caralho que no fim das contas o que realmente paga as contas é a parte mais legal. É, então tá bom, então tá tudo bem, não dá nada não. Mas é gostoso também chegar em casa e assistir umas paradas, né? O Mauro não consegue porque ele só trabalha, né? Agora tá mais suave, agora tá mais tranquilo, agora tô mais tranquilo.

MRMauro Ramos

Agora daqui a pouco eu vou colocar a televisão, os streaming e tudo mais aí. Eu vou me atualizar.

FMFelipe Moura Brasil

E qual que é então, na tua opinião, na opinião de vocês, qual que é a obra de todos os tempos? Aqui pode ser filme, série, assim, filme e série, tá? Para mim, a melhor série que já foi feita é Breaking Bad. Não é minha favorita, não é que eu mais, não é que eu sou mais apaixonado.

MRMauro Ramos

Concordo com você.

FMFelipe Moura Brasil

Eu sou mais apaixonado por Sobrenatural porque eu acompanhei por muito tempo, fez parte da minha vida muitos anos. E era aquele que eu ficava esperando. Eu já cheguei a comprar um fone de ouvido só para ver a série e tal. Eu gostava muito.

WBWendel Bezerra

Mas não— Vai ser a próxima que eu vou ver com meu filho, o Breaking Bad.

FMFelipe Moura Brasil

Porra, então Breaking Bad, mas como produto.

MRMauro Ramos

É maravilhoso.

FMFelipe Moura Brasil

Breaking Bad é uma parada toda. E se tu que já assistiu assistir de novo, tu vai ver outras coisas. Essa que é a verdade, né? E para vocês?

MRMauro Ramos

Para mim, Breaking Bad atualmente. Porque você comparar com uma antiga é meio difícil, né? Eu, por exemplo, adorava Batman. E levava a sério quando era garoto. Aí, anos depois, já casado, com filho, começou a passar no SBT com a dublagem daquela época e tudo. E eu comecei a ver que era uma enorme galhofada, era uma enorme brincadeira dos cara. E aí eu já não vi a série do jeito que eu via quando era garoto, entendeu?

FMFelipe Moura Brasil

É, eu vendo, eu vendo o Jaspion, meu pai, eu lembro de uma das Primeiras memórias que eu tenho é eu deitado num sofá que tinha lá em casa, sofá, enfim, é pequeno, um lugar só, eu deitado aqui assim vendo a televisão e tava passando o Jaspion. Aí meu pai veio aqui assim do fundo, passou, olhou para TV assim, olhou para mim, porra, cara, tu não tá vendo que isso aqui é coisa de idiota? E foi embora. Eu tinha 3 anos.

MRMauro Ramos

E você não esqueceu?

FMFelipe Moura Brasil

Eu tinha por volta disso aí, porque eu sei, eu sei, eu sei que foi numa casa Foi a primeira casa que eu morei. Aí depois eu me mudei de lá, devia ter uns 3 anos e pouco. Então, mas eu assim, eu lembro meu pai falando que isso era coisa de idiota. Quem é que vai ver depois, velho? Aí tu fica, caralho, vacilo meu pai falar isso para um molequinho, mas é coisa de idiota.

MRMauro Ramos

Tenho uma lembrança de garoto que meu pai não me deixava ver televisão a partir das 8 horas da noite, e a televisão ficava numa posição na sala em que do meu quarto e do quarto da minha irmã, que a gente dormia lá no mesmo espaço, eu abri a porta, me arrastava e ficava no cantinho assim do corredor vendo a televisão. Dava para ver tudo. E tinha uma série que eu senti um medo filha da mãe, e mas adorava porque a curiosidade era enorme, chamada Os Invasores, que eram Os alienígenas que substituíam a gente querendo dominar a Terra, aquela coisa toda.

Anos depois eu fui ver, passou também no SBT. Quando eu vi, eu falei assim, meu Deus, eu tinha medo dessa palhaçada, cara!

FMFelipe Moura Brasil

Bolha assassina, pelo amor de Deus!

WBWendel Bezerra

Como é que é o nome do filme? Acho que é Matador de Aluguel, com o Patrick Swayze. E aí um dia, eu era diretor de dublagem na Álamo, e aí um dia eu vi que chegou esse filme lá. Eu vi e fui falar com a Marinesca, era coordenadora lá, foi: cara, deixa eu dirigir esse filme, adoro esse filme, não sei o quê. Ela: tá bom, tá bom, beleza. Aí você vai, o diretor vai assistir primeiro, né, para escalar o elenco, ver o texto e tal. Cara, eu ia assistindo, parecia, manjo, o Chaves quando vai.

Cara, que merda, o filme é muito ruim e tudo é ruim, tudo. Os diálogos, a interpretação, o ritmo, as brigas acontecem meio que tudo. Eu falei, cara, não acredito que eu pedi ainda, porque eu achava o máximo o filme. É esse lance da perspectiva.

MRMauro Ramos

É por isso é que eu acho que a dublagem, a dublagem é uma coisa mental, cerebral coletiva, é um acordo, entendeu? Um ajuste cerebral coletivo. Porque você vê a dublagem daquela época, anos 60 e um pouco dos anos 70, além de ser radiofônica, interpretação era radiofônica, você não tinha muita preocupação com sincronismo como se tem desde os anos 90 até aqui.

FMFelipe Moura Brasil

Entendi.

MRMauro Ramos

Mas o pessoal não ligava, sim, o pessoal não tava nem aí, porque essa convenção cerebral coletiva, entendeu, se fazia É, não, eu quero saber o que tá acontecendo, eu não quero saber se tá certinho na boca.

WBWendel Bezerra

Mas você sabe o que é engraçado? Eu vendo o 24 Horas com meu filho, aí já tá no streaming, então a gente podia ver, né, cara? Que engraçado, mas engraçado demais, porque primeiro que eu conheço as vozes, então eu sei quem é quem, mas eu tô quieto, assisto com ele, não vou ficar, né, dando uma de crítico. Mas aí é muito engraçado, porque aí pinta um episódio, tá, episódio 1, 2, 3, aí no 15 ele fala: essa é a voz do cara lá que não sei o quê, que não sei o que lá.

Aí, ou às vezes, ah, e os termos? Porque o Brasil era diferente, nós éramos menos, o mundo era menos globalizado. Então eles estão lá pesquisando alguém, meu, quem é fulano e tal, não sei o quê, tô vendo aqui, ele é o CEO da empresa, não sei o quê. Pô, tem um lance que eles falam de UOL, ai, como é que é o nome de coisa de computador? Firewall, não sei o quê. Parece que ele quebrou uma parede de fogo. E, cara, o que tem de merda falada na, na, e essa série, e naquela a gente vai ver, e passa e passa e ninguém nunca falou nada.

E se falou, morreu em meia dúzia ali porque não tinha internet, não tinha não sei o quê, não tem um replay, né? Então, cara, a gente vai vendo. E tinha menos dubladores também, tinha bem menos. E como você via a cada semana, cada semana, você não lembra mais. Agora, quando você vê 4 episódios de sequência, você fala: opa, repetiu a voz!

MRMauro Ramos

Ué, esse cara aqui antigamente passava uma vez por semana num dia determinado, então você esquecia.

WBWendel Bezerra

Quando vem a segunda temporada no ano seguinte, pô, ninguém lembra de mais nada. Qualquer voz do presidente, qualquer voz aí troca, era uma farra, cara. Muito engraçado. E as placas, né? A gente chama de placas que que são tipo, nossa, no Prison Break eu quero morrer, porque as placas, cara, tá rolando o diálogo aqui e de repente Bardo John, só que o Bardo John tá lá atrás, não tem importância nenhuma, e toda hora entra uma voz do além anunciando um troço que é uma merda, que não tem nada a ver.

MRMauro Ramos

Eu me lembro num desenho Um desenho da Warner, o Mário Monjardim lá do Rio de Janeiro dirigindo na Herbert, tinha um, era o Pernalonga, então tinha uma série de placas, né? E as placas eram números, era desnecessário falar ali, entendeu? Mas aí foi para Globo, a Globo mandou voltar, mandou fazer a placa. E aí, cara, desde então ele fazia placa de tudo que é para Globo não encher o saco. Entende? Agora você tá ali, vê um número 6, aí aparece aquela voz: 6. Tá, ok, mas quem é que falou, pô? Sabe?

FMFelipe Moura Brasil

Vocês já dublaram placa?

MRMauro Ramos

Eu muito. Aliás, eu treinava isso. A minha ex-mulher, a gente no carro e tal, e eu ficava: açougue, não sei o quê, siga. Aí ela: para, porra, tá enchendo o saco!

WBWendel Bezerra

Eu fiz um lance muito legal num filme. Chamava Queer Duck, era uma animação, porra, zoeiro o tempo inteiro. Era um monte de esquetes e era uma história, mas, cara, era uma piadinha atrás da outra o tempo inteiro, bem, bem, bem engraçado. E aí tinham placas, e como era Queer Duck, e aí era história de um casal gay, era uma piração. Eu botei o Sérgio Moreno fazer as placas e eu falei, cara, eu quero que você faça as placas gay. Cara, o cliente adorou.

Ele disse que eles davam risada. Só no Brasil que fizeram isso. Então era tipo, duas horas depois, sabe? Ele fazia umas coisas assim, cara, e a gente ria. E foi uma pirata, e foi uma ideia que eu tive na hora de fazer as placas. Não foi um lance que eu pensei, foi na hora.

FMFelipe Moura Brasil

Falei, cara, faz tempo isso.

WBWendel Bezerra

Pergunta, fazia uns 20 anos, 25 anos.

FMFelipe Moura Brasil

Então, então o lance de tentar e ver se o cliente aceita é antigo.

WBWendel Bezerra

Sim, a história do, como é que é, Na Pegada do Zé Ramalho, do filme lá do Percy Jackson, foi isso. Falei, não, não, continua Na Pegada do Zé Ramalho. E aí eu dirigi esse filme, quando a cliente foi assistir para aprovar, eu tava do lado. Quando chegou nessa cena, eu só fiquei de olho nela, né? Falei, puta, ela vai entortar a cara, falar, não, não podemos falar Zé Ramalho. Ela não falou nada. Aí eu, e beleza. E aí eu fui no cinema assistir, e quando estreou, fui no Eldorado assim, tava lotada a sala.

E porra, eu fiquei muito feliz, porque nessa hora, as duas, três falas seguintes não se ouviu, porque o público tava rindo na pegada do Zé Ramalho. Que no original ele falava Mick Jagger. E então a gente fazia mais do que hoje. Hoje é mais difícil, hoje já vem meio muito determinado, muito mais difícil fazer esse tipo de adaptação, porque assim, a coisa se profissionalizou globalmente, vamos dizer assim. Então o cara fez um filme, vem para dublar, ó, dubla aí.

Aí nem todo mundo falava tão bem inglês, aí o tradutor esqueceu uma fala ou traduziu uma groselha, ninguém dentro do estúdio sabe. E vamos que vamos, quem tá assistindo também. Então tá tudo bem. Hoje tem um filme, então o filme tem já uma show guide dizendo o que que é o filme, como é que é o filme, por que que é o filme, cada personagem como é que é. Aí às vezes tem a bíblia dos personagens, o que é o personagem, qual é a caminhada dele, qual é o tipo de voz, o que que você espera.

Aí tem um negócio chamado CNP, que são Key Names in Phrase. Então, ó, isso aqui é uma referência a tal coisa, isso aqui é uma piada, isso aqui é um trocadilho, esse termo não pode mudar por causa disso, disso, disso. Isso aqui tem que ficar no original por direitos de, sei lá, do cantor lá que não liberou. Então vem muito já é isso aqui.

FMFelipe Moura Brasil

Por outro lado, a gente tem uma liberdade menor, mas por outro lado tu sabe pelo menos por que que aquela porra é desse jeito e pronto, né?

WBWendel Bezerra

Exatamente.

MRMauro Ramos

Eu dublei aquele, aquele animação Space Jam, tá? E eu fazia um cara que auxiliava lá o jogador. Então tem uma cena, Jordan, tem uma cena em que ele entra, né, bota a carinha assim pela porta e diz, olha, pega o teu tênis tal, teu short não sei o quê, teu casaco não sei o que lá, e vamos lá passar no McDonald's para você comer um Big Mac e a gente vai para não sei onde. Só que naquela época ninguém falava marca nem nada. Por quê? Porque a alegação era: peraí, não estão me pagando nada para fazer propaganda.

WBWendel Bezerra

Vocês já devem ter visto isso em filme, que o cara chega num bar e fala: me dá um refrigerante. Aí ela traz uma Coca. Ela definiu que o cara quer tomar. Era assim nos filmes antigamente.

MRMauro Ramos

Quem dirigia, quem dirigiu a dublagem daquele filme foi o Isaac Bardavia. E o Isaac: não, não fala não, ninguém tá pagando para gente. Ok, tudo bem. Semanas depois veio para fazer um retake do cliente. Aí eu cheguei lá e o Isaac se recusou a dirigir, mas aí vieram, né, dirigir. Falei, o que que é? Ah não, é que eles estão dizendo que essas marcas pagam para terem a propaganda mundial, então você é obrigado a fazer. Mas eu não tô ganhando nada.

Eles não estão nem aí para isso, você não tem que ganhar nada não. E aí eu tive que fazer isso, falar as marcas todas, entendeu? A partir dessa época, que foi mais ou menos ali 2001, 2002, mas a gente foi obrigado a falar. Tem ali McDonald's, a gente é obrigado a falar McDonald's.

WBWendel Bezerra

É, hoje em dia se fala o que tá sendo falado lá.

FMFelipe Moura Brasil

Eu achava, eu quando eu imaginei que hoje em dia era mais tranquilo de improvisar, é porque o linguajar me parece mais solto hoje em dia, não é?

MRMauro Ramos

A gente é mais naturalista na interpretação.

FMFelipe Moura Brasil

Dá para tu falar uns porra quando cabe?

MRMauro Ramos

Sim, sim, claro. Antigamente a gente nem droga falava. Nos anos, o início dos anos 80, nem droga a gente podia falar. Imagina um traficante não falar filho da mãe, nem droga. É filho da mãe, pelo amor de Deus, né?

FMFelipe Moura Brasil

Filho da mãe, que tira filho da mãe.

MRMauro Ramos

É uma expressão antiga, né? Eu fico dizendo pro pessoal, gente, antigamente se chamava policial de tira. Então, onde é que vai botar COP? Vai botar o quê? Polícia? Policial? Não dá.

WBWendel Bezerra

O dublador é o cara que consegue encaixar laboratório em lab.

MRMauro Ramos

É, exatamente. O cara que— André Filho foi o cara que eu vi que tinha capacidade de enfiar qualquer frase gigantesca em qualquer boca. Era uma coisa impressionante. Aí ele Aí, não, não é aí não, André. Ó, não é não? Onde é que é?

FMFelipe Moura Brasil

Ah, é aqui?

MRMauro Ramos

Encaixava de novo. Era uma coisa, rapaz, impressionante. Maneiro. Mas adaptação tem também uma certa coisa, que é a gente tem um jeito para poder atingir o público, né? Então eu dou como exemplo aquele da Chapeuzinho, Deu a Louca na Chapeuzinho. Onde a gente fez adaptações enormes para as piadas, né? E tem uma que virou meme, que é a do Lobo, o que eu dublei. Tava disfarçado de fiscal, chegou lá num lugar onde o cara vendia as coisas, e aí ele tava querendo saber algumas coisas, tirar informações do cara, e o cara ficava assim espantado.

Nunca bateu ali no meio da floresta, nunca bateu ninguém. Para fazer essa fiscalização. E aí ele dizendo assim, é porque a Dalva disse, a sua chefe, a Dalva, disse que— aí o cara diz assim, mas ela é Maria. Então foi o que eu disse, a Maria disse Dalva para você chegar aqui, entendeu? E virou um meme esse trocadilho, virou um meme. Por quê? Porque a gente teve liberdade. Para adaptar. Onde não dá para adaptar, ok, mas onde dá, por que que a gente não pode fazer, gente?

O público que vai apreciar o produto, ele vai ver e vai comentar, e mais gente vai querer ver. Então, para mim, não consigo entender isso, entendeu?

WBWendel Bezerra

Esse jogo de cintura, uma obra que a gente faz, exato, que a gente—

MRMauro Ramos

nossa, eu enfiei um caco lá. É viver, é aprender.

WBWendel Bezerra

Pronto, todo mundo sabe que eu já falei dublando o Sandy Eu acho que eu nunca falei na dublagem assim na vida, sabe? Tipo, ah, essa lambisgoia, sabe? Palavras assim.

MRMauro Ramos

Aliás, essas expressões eu anoto todas.

WBWendel Bezerra

Essa série te permite, os personagens te permitem, e o público ama. É a série mais comentada na plataforma da Netflix, a dublagem, né? A dublagem mais comentada. E eu acho que é muito porque a gente foi criar, e você foi percebendo que o público tá curtindo, que tá dentro do contexto. E os personagens foram tomando as suas características, então, porra, a gente se diverte.

MRMauro Ramos

Aí você vê o resultado, o público reage quando a adaptação é feita com qualidade.

FMFelipe Moura Brasil

Nem dá pra fazer isso quando chega um filme que é só um, só dá pra ver a boca do cara, né?

MRMauro Ramos

Não, nem dá nem pra gente fazer a coisa como tem que ser feita, às vezes.

FMFelipe Moura Brasil

Porra, que pena. E aí, agora eu vou fazer uma pergunta difícil então, tá? Eu entendi que dublar um filme desse aí é muito difícil. E às vezes, como no exemplo do Crepúsculo, lá no segundo filme, lá informações se perdem e tudo mais. Quando vocês assistem, vocês assistem o filme dublado mesmo sabendo que ele passou por isso e ele corre o risco de ter uma qualidade da coisa inteira, a experiência perder algo? É, como é que vocês lidam com isso?

WBWendel Bezerra

Ah, eu assisto, é, eu gosto. Eu gosto de ver os trabalhos maiores assim, tanto meus ou dos colegas, eu gosto de ver. Então eu assisto, vejo dublado, parte do meu cérebro analisa e parte curte mesmo. Eu consegui já também desconectar.

MRMauro Ramos

Que bom!

WBWendel Bezerra

Tem que estar muito ruim para eu tirar. Já aconteceu, eu falo, nossa, não, não dá, vou para legenda aqui. Mas os meus trabalhos maiores assim eu gosto de ver. Eu gosto de ver como é que ficou, se eu fiz o que eu achei que eu tava fazendo. Porque a dublagem é meio isso, você, você tá imerso no universo, parte de você tá lendo, parte tá falando, parte tá ouvindo, parte tá interpretando, parte tá preocupado com diretor, preocupado com barulho de boca, com estalo, com posicionamento do microfone, é muita coisa acontecendo.

Então você acha que está fazendo alguma coisa, só que aí depois é legal assistir para mim, deixa eu ver se eu fiz o que eu achei que eu tava fazendo. Eu, então, eu curto e ver.

MRMauro Ramos

Sou muito exigente comigo, então eu deixo um certo distanciamento, faço um trabalho, e se a direção e os colegas acharam que ficou legal, eu só vou ver dali uns 6 meses, para ter esse distanciamento de ver que não é eu, eu tô fazendo personagem, não sou eu.

WBWendel Bezerra

E já teve coisa que você assistiu e falou muita coisa?

MRMauro Ramos

Muita coisa.

FMFelipe Moura Brasil

O que que tu já pôs no mundo assim, do ponto de vista de trabalho de dublagem?

MRMauro Ramos

Putsgrilo, tem um monte de coisa da antiga Herbert Richa que hoje já tá apagada, graças a Deus. Que era uma que é com Nascido em 4 de Julho, né, que foi redublado aqui em São Paulo, foi dublado para televisão, para TV Globo, lá na Herbert. Eu tava completamente rouco, completamente rouco. Toda vez que eu vi aquilo, eu me revoltava não só comigo, que me permiti fazer aquilo daquela forma, como também me revoltei com a diretora de permitir isso, entendeu?

Ficou uma merda, uma bosta. E quando eu passava, eu, ah, não quero ver isso não. Por favor, não quero ver isso não. E ninguém sabia que era eu.

WBWendel Bezerra

Teve um filme, eu não sei se foi Eu Ainda Assio, que vocês fizeram, viram passar, é algum filme desses que nessa época aí teve vários, foi algum desses eu dublei. E eu fiz, eu era o assassino lá, né? E não era um, era o dois ou três. E aí, cara, tamo em casa, né, um casal e tal, pá. TV ligada, pô, você aí ficou movendo. E aí comecei a achar muito ruim o meu trampo, comecei a, caralho, tô cantando para cacete, puta, como é que eu falei essa frase assim duda desse jeito?

Aí eu comecei a, só faltou eu fazer malabares na sala, eu ficava puxando assunto para desviar atenção, né, que o meu personagem aparecia.

MRMauro Ramos

Putz, então cala a boca, Wendel, eu tô vendo Aí eu fiquei puto de ver.

FMFelipe Moura Brasil

Mas as outras pessoas se ligam?

WBWendel Bezerra

Não, não tanto, né? É verdade.

MRMauro Ramos

Eu, no, a minha ex-mulher, ela fazia tradução para legendagem. Então a legendagem você tem um número X de caracteres incluindo espaço e tal. Então você tem que condensar o que tá sendo dito para a pessoa poder apreciar um mínimo, né? E eu sendo dublador, a gente não assistia filme nem série junto, porque ela assiste dublado.

WBWendel Bezerra

Feitiço de Águila, sabe?

MRMauro Ramos

Exatamente, ela assiste dublado. E eu, enquanto tô assistindo dublado, eu começo a trabalhar. É uma coisa horrorosa. Eu tento evitar isso, mas eu fico. E ela: nossa, mas por que que ele escolheu essa voz? Cala a boca, Mauro! Pô, vamos ver o filme. Nossa, meu Deus do céu, que inflexão horrorosa, entendeu? E quando a gente via um filme legendado, ela que ficava trabalhando, ela dizia, nossa, mas não é assim e tal. Então a gente via separado.

WBWendel Bezerra

O lance que é legal é você ver o filme dublado, peraí, como é que é, né? Acho que é o filme dublado com a legenda. Que você consegue sacar às vezes quando tem uma discrepância quem errou, se foi a dublagem ou se foi a legenda.

FMFelipe Moura Brasil

É porque você tá vendo o filme, você tá entendendo o que tá acontecendo, e tem coisas que você deduz como é que foi dito em inglês.

WBWendel Bezerra

Então às vezes fala, porra, aqui foi um falso cognato ou foi uma tradução literal. Então é legal que você fica, dá para pontuar, é verdade, cada erro de um.

FMFelipe Moura Brasil

Caralho, você vê filme de jeito diferente, porque assim, em geral as pessoas estão vendo que tem assim, a linguagem é um meio para transmitir a mensagem do filme. Para vocês, a mensagem é o fim, né?

MRMauro Ramos

É exato, é o que a gente faz todo dia, toda hora.

FMFelipe Moura Brasil

Caralho, mano, entendi. É, então aí, aí, pô, fica um pouco mais difícil então de se perder num troço, de derreter o cérebro. Por exemplo, vê um, assistiu One Piece mesmo? Fica mais, fica menos gostoso porque vocês ficam sem querer.

MRMauro Ramos

Para mim, se tiver um distanciamento, é a mesma coisa que o público aprecia.

WBWendel Bezerra

Mesma coisa. Eu assisti as 9 temporadas lá do 24 Horas, porra, amarradão. Gostei para caramba.

FMFelipe Moura Brasil

Tudo bom.

WBWendel Bezerra

Acontece tanta coisa engraçada, cara. Tipo, no 24 Horas, quem começou a dublar, quem fazia o Jack Bauer, era o Tata em São Paulo. Ele teve um problema com a Fox e aí trocou a voz, trocou pelo Márcio Simões. E aí quando a gente foi ver no streaming, já tava tudo com Márcio Simões, porque eles regravaram, né? E aí de repente, tipo, no episódio 17 da segunda temporada, só naquele episódio tá o Tatá. Alguém esqueceu de trocar, alguém fez alguma lambança. Então tem essa parte divertida assim E o meu filho, ele demorou para perceber.

MRMauro Ramos

Ah, é?

WBWendel Bezerra

Ele demorou. Então você vê, o público realmente ele tá em outra vibe quando tá assistindo.

MRMauro Ramos

É interessante.

WBWendel Bezerra

Aí quando eu falei para ele, ele: ah, é mesmo? Aí, coitado, tá, tá. Ele até falou: eu gosto mais da outra voz.

MRMauro Ramos

Porque já tá mais acostumado.

WBWendel Bezerra

Mas que é natural. Exatamente.

MRMauro Ramos

Ele tá mais acostumado.

WBWendel Bezerra

É uma coisa emocionante. Você se acostumou com uma voz, pode sair um dublador série C e entrar um dublador série A, nunca vai ser tão bom quanto série C, porque você já comprou aquele personagem daquele jeito.

MRMauro Ramos

Eu, quando vim para São Paulo, eu fazia uma série chamada Lista Negra.

FMFelipe Moura Brasil

Essa é boa para caralho, porra!

MRMauro Ramos

Fazia o Reddington, Raymond Reddington. Isso, 4, as 4 primeiras temporadas fui eu que fiz. Aí eu vim para São Paulo, eles não quiseram mandar para cá e botaram o Percy, que é um Me ensinou profissional, um senhor ator maravilhoso. Mas a rejeição foi tanta. Úrsula chegou para mim um dia, eu tô passando assim pelo corredor, ela: por que que você não volta para dublar? E eu digo: como assim dublar o quê? O que que você tá falando?

Ela: eu estou assistindo Lista Negra, por que você parou de dublar? Tava tão bom, poxa! Eu digo: é por causa disso, porque Ah, meu Deus, por que que eles não mandaram para cá? Eu tô revoltado agora, tô vendo sem dublagem. Eu falei, não faz isso não, tem uns colegas lá que são legais.

WBWendel Bezerra

Game of Thrones é a mesma coisa no Rio. Um dia uma temporada, sei lá, quarta, não sei, veio para São Paulo, mudou todo mundo, mudou todo mundo. Aí você imagina um cego, uma pessoa cega, acabou, ela não consegue mais porque as referências que ela tinha eram auditivas. Você troca todas as vozes, você não sabe mais quem é quem.

MRMauro Ramos

Público que beira o público infantil com relação às coisas. Em narração, eu li muito para cego, e cara, se eu errava algum tipo de voz na hora que eu tava narrando para eles, eles paravam e diziam: ó, essa voz não é essa não, hein, você usou aquela voz de não sei o quê. Entendeu? Então a gente tinha que ter cuidado com isso, ter esse respeito.

FMFelipe Moura Brasil

Um monte de nuance, né, cara? Foda. Pois é. E assim, são coisas que não passam pela cabeça da maioria das pessoas. Será que isso é calculado? Eu acho que não. Eu acho que as pessoas nem se ligam, né, que tem um público que precisa que as coisas, no caso da dublagem, seja desse jeitinho, né? Por exemplo, no meu caso, Não posso, quando eu tiver, vamos dizer que a gente tivesse aqui um recurso visual, eu sei que a maioria das pessoas só ouve o flow, então eu não posso não descrever, né?

MRMauro Ramos

Exato.

FMFelipe Moura Brasil

Então são nuances que quem não tá fazendo com atenção, com capricho, não pega.

MRMauro Ramos

É o rádio que tá se transportando para a internet, o comunicador ele tem que ter essa visão Porque às vezes tá passando alguma coisa que o público de TV ou de internet tá vendo a imagem, mas o cara que tá te ouvindo no rádio não tá. Então ele tem que descrever aquilo para o ouvinte.

WBWendel Bezerra

Eu penso nesse pessoal de rádio também, que eles tinham a liberdade às vezes de estar completamente acabado, do jeito que hoje eles têm que estar meio arrumadinho, porque a área de som, isso eu vivenciei isso.

MRMauro Ramos

Porque eu trabalhei em rádio AM muito tempo, então a gente chegava esculachado mesmo, não tava nem aí. Faz o pessoal também que eu via, mas a gente tinha, a gente fazia as coisas ao vivo com plateia, que hoje já não existe mais. Era um palco com a mesa, com os microfones, e a gente que era ator ficava com a primeira fileira, sentados ali na primeira fileira com o microfone à frente. Então na hora que a gente entrar no script, a gente levantava, falava, fazia a nossa parte, depois sentava. Mas a gente não ia todo, né, emperequetado.

FMFelipe Moura Brasil

Então agora, pô, isso era tipo uma novela, Mauro?

MRMauro Ramos

Isso aí que tá falando, isso era um programa de rádio chamado Patrulha da Cidade, que era um programa policial que tava ao meio-dia.

FMFelipe Moura Brasil

E como que precisava de um ator que nem tu?

MRMauro Ramos

Porque eles descreviam as situações criminosas, criminosas, tipo Gil Gomes.

FMFelipe Moura Brasil

Isso.

MRMauro Ramos

Só que encenado. Eu cheguei a ser redator lá também, escrevendo algumas coisas, né? Você transformava notícia em rádio teatro, mas de uma forma amena, porque era na hora do almoço, bicho. Meio-dia uma. Então tinha que ser mais ou menos assim para o cara poder, né, ser palatável para o ouvinte. E era aí, a gente trabalhava ao vivo. E mas também tinha uma reunião quartas-feiras Às 10 horas da manhã, toda semana, do radioteatro da emissora.

E aí ia todo o elenco que estivesse vivo, entendeu? E a gente tava trabalhando lá. Eu era um, fui um dos últimos dinossauros de lá, do elenco que tava vivo, cara, porque muita gente do elenco já tinha morrido. Só tinha os velhos, só tinha coroa. Eu era o único ali, né? E depois eu fui trabalhar com Lauro Fabiano, que foi que fez a voz do Dumbledore, e ele era o diretor de radioteatro ali naquelas quartas-feiras. E foi ele, me ensinou tudo de radioteatro e tal.

E eu tinha com a mãe da Zilka Salaberry, eu tinha, ela não conseguia mais enxergar direito letras normais, né, de script. Eu era, quando ela tinha que entrar, eu é que escrevia em folha gigantesco e dava para ela e ficava atrás dela com o script assim no ombro. E na hora que ela, a personagem dela ia ter que entrar, eu apertava. E aí ela entrava certinho trabalhando. Tinha o quê? Tinha 80 e poucos anos de idade naquela época e ela já não enxergava muito bem.

WBWendel Bezerra

Eu não sei o nome do ator da época de novela de rádio, eu não sei quem é, mas Lembro dos coroas contando uma vez, e o moleque ali tava sempre no meio, né, da galera, e contando que tinha um cara que era o estrela. Então todo mundo lia o texto e tal, e ele não ensaiava, não sei o quê.

MRMauro Ramos

Sempre tem alguém assim.

WBWendel Bezerra

Aí chegou a hora dele dar a fala dele, né, ele chegou com o texto na mão: mas como é, menina? E aí, puta, ficou aquele silêncio no estúdio, passa, meteram música, não sei o quê. Tinha sido, a menina tinha sido atropelada. Então ele chegava perto e falava, mas como é menina?

MRMauro Ramos

E deu uma inflexão, ele não sabia o que tava rolando no meio.

WBWendel Bezerra

Mas como é menina?

FMFelipe Moura Brasil

Puta que pariu.

WBWendel Bezerra

E aí depois os cara tem que dar algum nó para continuar.

MRMauro Ramos

Por isso é que o rádio foi o celeiro principal da dublagem no início dela. Que eram os profissionais que sabiam interpretar sem precisar mover muito o corpo e diante de um microfone.

FMFelipe Moura Brasil

E essa, você estava falando aí como era a dublagem antes, um pouco menos com menos compromisso com sincronia e essas coisas, né? Mas em algum momento isso virou um padrão de qualidade. Sim, né? Esse movimento para isso virar um padrão de qualidade foi Vocês já estavam trabalhando, imagino, né?

MRMauro Ramos

Sim, eu já estava.

FMFelipe Moura Brasil

Como é que aconteceu isso? Isso alguém propôs? Isso foi, vou chutar, tinha o estúdio do Rio e de São Paulo e um queria fazer melhor que o outro para receber mais trabalho, sei lá. Como que acontece para o padrão de qualidade da dublagem brasileira ser esse ouro hoje?

MRMauro Ramos

Os departamentos de cinema das emissoras, que eram os clientes, Hoje são as distribuidoras, mas antigamente eram as emissoras de televisão que compravam os pacotes e elas pagavam a dublagem. Esses departamentos seguiram indicações de filmes que eles viam, que é onde a gente trabalhava fazendo para cinema, principalmente da Disney. Essa coisa do sincronismo é quase que perfeito, porque não existe sincronismo perfeito de uma língua com outra, Mas foi a Disney que botou, que foi como exemplo para eles, entendeu?

E aí então eles começaram a exigir que fosse mais ou menos como era o da Disney, o sincronismo ali certinho e tal. E a partir de então a gente tem um outro parâmetro.

WBWendel Bezerra

Acho que a França também, de que tem uma qualidade muito boa, também acaba quando a coisa vai ficando global, cada vez começam a se comparar, né?

MRMauro Ramos

E nós, nos anos 90, nós fomos considerados a melhor dublagem do mundo, como exemplo da Disney para o resto do mundo.

FMFelipe Moura Brasil

Animal, né?

MRMauro Ramos

É, hoje já não é mais, mas fazer o quê, né? Ah, não, não, não entendi o que que eu falei. Não falei nada depreciativo, não, porra, não, pô, normal, caralho. Pô, pelo amor de Deus! E aí, deu crise de bobeira? Não, não, nenhuma.

FMFelipe Moura Brasil

E aí, e aí, pô, e aí, isso você lembra mais ou menos? Porque assim, o primeiro filme que eu vi da Disney dublado foi a Branca de Neve. Eu lembro que eu tava em casa, a gente morava no apartamento lá no Roche, meu pai chegou um dia com um videocassete e uma fita do que aí é coisa de idiota.

WBWendel Bezerra

Assiste aqui Branca de Neve, porra.

FMFelipe Moura Brasil

E para mim foi o chocante. Olha que doido, é porque é difícil para você que tá vendo a gente agora, a gente que você que tá assistindo a gente no YouTube agora, é, talvez seja difícil de compreender isso, mas para mim foi, oi, o filme começou na hora que ele colocou o negócio ali. Eu não tive que ficar esperando a hora do filme. Foi a sensação quando meu pai colocou a fita dentro do videocassete. Ué, eu não tenho que ficar esperando a hora de passar o desenho, no caso?

Então foi o primeiro que eu vi, foi muito louco, muito massa. Mas dessa época que tá falando assim, de no final dos anos, vai, 95 por aí, Branca de Neve foi dublado bem antes, né? Então por isso que eu não sei de que filme que tu tá falando, de que época.

MRMauro Ramos

Ah, da época Pequena Sereia, final dos anos 80, O Rei Leão, A Bela e a Fera, entende?

FMFelipe Moura Brasil

Então Tá bom, tá bom.

MRMauro Ramos

Essa época, nessa leva, entendeu, foi que virou padrão, parâmetro. Hoje em dia não somos mais porque tem muitos que seguiram o nosso exemplo. Então é sim uma disputa correta, né? Alemanha também, ele falou da França.

WBWendel Bezerra

Alemanha é o maior, Alemanha, França e Brasil são as 3 melhores dublagens do mundo.

FMFelipe Moura Brasil

Eu já vi umas de Tem uma que eu vi do Vegeta português que é muito engraçado, cara. E eu não sei se é engraçado de tosco, se é engraçado de falta de costume, se é o que que é, mas é muito engraçado, cara. Parece que o Vegeta é um palhaço, muito engraçado, cara. E chama atenção essa diferença, sabe, do, de como, porque ainda é português e é uma interpretação tão diferente.

WBWendel Bezerra

Sim, eu fico Caralho, mané, nossa, eu acho do Brasil muito melhor.

FMFelipe Moura Brasil

Isso aqui parece galhofa, pô, parece que eu tô vendo um Jasper, eu tô vendo o Batman do Adam West. Então é, mas e aí, cara, esse padrão de qualidade, além dele ser, que bom que existem outras escolas no mundo que estão fazendo também, mas tem para onde evoluir. Se vocês fossem, vocês pegarem assim, cara, hoje a gente faz uma dublagem foda, meu trabalho é foda, faço da melhor maneira possível, mas dava para melhorar. Tem algum lugar ou já chegamos num patamar que tá todo mundo feliz?

WBWendel Bezerra

Bom, eu às vezes penso assim, eu não tenho essa, não faço dinheiro, hein, Mauro, essa capacidade assim criativa ou visionária, mas eu espero que o advento inevitável da inteligência artificial faça com que o nosso trabalho, puta, fique muito perto da perfeição. Isso é algo que eu sonharia em ver, sabe?

FMFelipe Moura Brasil

Você falar e a boca do boneco se acomodar à tua fala, por exemplo, ia ser legal.

WBWendel Bezerra

Nem sei como, quando, mas assim, que a gente pudesse interpretar talvez um pouco mais, com mais liberdade, e aí o troço encaixou, encaixou, sabe? Isso seria incrível.

FMFelipe Moura Brasil

Maior dificuldade é o encaixe, tô entendendo.

WBWendel Bezerra

É você, porque sincronizar é uma coisa técnica, é, e a outra coisa é interpretar. Então você aliar as duas coisas é difícil. Um ator, né, de teatro ou na TV, ele faz a cena, se ele for fazer de novo ele vai fazer um pouco diferente, né? A dublagem não, o troço tá feito. Então, 10 vezes que eu for fazer, eu preciso fazer aquela pausa, tem que ser naquele ritmo, a tal palavra tem que estar em tal lugar e tal.

MRMauro Ramos

Isso é que eu acho desafiante para o ator, sabe? É o grande desafio diário, é esse. Você pegar uma coisa de um colega de outro país, com outro idioma já feito, e a gente colocar ali a nossa correspondência no nosso idioma. Aí é que é legal. O que eu sou, eu sou solidário com ele nesse sentido. Eu acho que o que vai, o que a gente vai melhorar ao longo do tempo não é nem o sincronismo, porque vai ficando automático, ou o próprio, a própria inteligência artificial pode fazer articulação como se faz um desenho, né?

Mas é cada vez mais a interpretação ficar de uma forma melhor. A arte tá aí nessa interpretação.

WBWendel Bezerra

Ser babaca, mas o Mauro sabe bem do que eu tô falando. Você tem, sei lá, 10% dos dubladores que conseguem fazer isso maravilhosamente, mais 20 que consegue fazer muito bem, mais 30 que faz ok, e 40 que apanha para cacete. Se a inteligência artificial ajudasse ou ajudar nesse sentido, porra, aí você consegue elevar bastante o nível da interpretação. Porque a dificuldade, os realities, né, por exemplo, documentários, aqueles discoveries, né, que o pessoal brinca muito.

Então, quando eu fui a Massachusetts, foi lá que eu conheci, porque é uma pessoa normal falando espontaneamente, improvisando. Então o ritmo que a pessoa fala é escroto, as pausas são nos lugares errados. A pessoa não fala mal. E aí você tem que botar isso em português. Quem não tem muito controle técnico vai fazer isso, porque ele vai estar ouvindo, tentando encaixar. E aí então o bombeiro, a menina foi atropelada.

FMFelipe Moura Brasil

Eu acho que vocês nem conseguem imitar. Eu conheço uns cara, eu conheço uns cara, maluco não é dublador, mas faz outra coisa, uma Operador de câmera, outra coisa. É, mas aí imita, imita o documentário do Discovery. O moleque imita igualzinho de tão escroto que é.

WBWendel Bezerra

Mas eu já tive aluno que uma vez eu tava criticando isso, aí o cara falou, ué, mas não é assim que é para fazer? Falei, não, assim tá errado. Achava que era assim porque é tudo assim. Por quê? Porque é muito difícil fazer, é um produto com pouca verba, então o estúdio também tem que Cacetar, não dá para ficar, vamos de novo, não vamos trocar esse ó por á. E aí, e aí acontece o que acontece.

MRMauro Ramos

Minha filha perdeu a perna, e então acidente. É, meu filho, fazer o quê?

FMFelipe Moura Brasil

Mas são produtos e produtos também, né? Produtos e produtos. A gente já fez aqui uns episódios com pessoas que não falam português, né? Então vou usar de exemplo aqui o do Cibam, por exemplo, que é um maromba, o cara é Mr. Olympia, foi, agora ele está aposentado, enfim, em inglês. E aí a gente fez um stream que não era uma dublagem, era uma tradução, porque o cara não estava interpretando, nem eu, nem o Cibam. Tipo Oscar. Então poderia ser inclusive uma mulher me traduzindo, porque ela não está me dublando.

Ela tá traduzindo. Mas olha que interessante, não foi, esse não foi o primeiro episódio que a gente fez assim, a gente já fez alguns inclusive, mas os cara entra numa de que tá mal dublado. Calma, não, não estamos tentando dublar, até porque é ao vivo, tá ligado? Como é que nós vamos dublar um episódio? Estamos aqui, os cara conversa, tem um cara ali na sala aí embaixo, ele tá traduzindo que o cara tá falando, não é uma dublagem, né?

Mas é estranho comunicar isso para audiência, especialmente na internet, né, que o feedback é instantâneo. Então o cara—

WBWendel Bezerra

a Netflix é uma empresa que ela ouve muito e metrifica muito o comportamento do público. E existe um negócio chamado voiceover, né, que são esses documentários que eles normalmente ficam o inglês ali por baixo, e aí a gente vai fazendo por cima, semi-interpretado, né? Não pode ser muito nem menos e tal. E o público odeia isso num nível— tem gente que acha que tá mal dublado, que não entende a parada, ou que foi mal mixado. Eu tô ouvindo inglês, é um cara não entende, né?

E aí aqui no Brasil, e eu acho que é só no Brasil, a Netflix dubla. Tudo que é reality documentário. Aqui que, que que estende mais? Qual é o lance? O lance é que assim, por exemplo, a gente tá aqui, então caiu um negócio ali, eu mexo aqui, né, bate na mesa. Todos esses sons num filme, eles são feitos à parte e vem à parte. Então a gente só troca as vozes, pega as vozes em português e junta esses áudios que já existem. Né, que é AME, o canal de músicas e efeitos.

Um documentário ou um reality não tem isso à parte, tudo é som direto. Então a Netflix faz, ela recria os passos, as músicas, esses barulhinhos todos só para o Brasil, porque o público não gosta desse formato. E tá super funcionando. E para a gente é legal, porque a gente odeia também fazer voiceover. É mais rápido e mais fácil, é, do que sincronizar.

FMFelipe Moura Brasil

Mas assim, é mesmo, achei que vocês fossem, achei que fosse para vocês um dia fácil. Ah, é legal, mas assim, ah, que legal, mas é um dia fácil.

MRMauro Ramos

Mas é que a gente tem que dar um tempo, o cara começar a falar, para começar a falar a frase e terminar antes dele acabar. É voiceover, então isso é meio complicado de fazer.

WBWendel Bezerra

Tem gente, não é tão facinho assim, não é tão facinho assim, não tem a dificuldade de sincronizar, de pegar cada pausinha, detalhe, gaguejar. Mas é isso, você tem que começar depois, terminar antes. Esse é o ideal, né? E aí tem que ter a manhã, porque tem gente também que apanha fazendo voiceover.

MRMauro Ramos

Na época da Cortina de Ferro, os países da Cortina de Ferro, da União Soviética, qualquer produto, filme, animação qualquer, era feito nesse método. Era um narrador que fazia nesse estilo todos os papéis masculinos sendo velhos, novos ou crianças, e uma mulher fazendo a mesma coisa em contrapartida com mulheres velhas e crianças. Então eles se habituaram a fazer isso. A partir da queda do Muro de Berlim, aquela coisa toda, eles começaram a ter contato com a dublagem através, novamente, através da Disney.

Que a Disney pegou profissionais daquele lado da Cortina de Ferro para fazer dublagem. E aí agora eles querem dublagem para tudo, né?

FMFelipe Moura Brasil

Pô, imagina assistir um musical nessa vibe aí, deve ser— imagina assistir, vai, eu e todos os brasileiros que assistiram O Rei Leão, os cara sabe cantar Hakuna Matata, né? Podia errar as palavras Hakuna e Matata, mas saía alguma coisa parecida, né?

MRMauro Ramos

Sim.

FMFelipe Moura Brasil

E matou todo mundo, sabe que é lindo dizer. Agora, se tu for para uma parada dessa, que assim, dá para ter um filme lá com uma interpretação assim, é escroto, né? Mas e a música? A música vai ter que ser a original. Sim, né?

MRMauro Ramos

Como era que antigamente musical nem legenda tinha? A partir do final da década de 80 que o pessoal fala tem que legendar para saber o público saber o que que o cara tá cantando.

WBWendel Bezerra

Às vezes é pertinente a história.

MRMauro Ramos

Exato, tem a ver com aquilo. A origem de musical de cinema são as operetas, pô. Então tem uma história, e essas músicas nas operetas, elas tinham a ver com o desenrolar da trama, entende? E mas aqui antes era assim, ah, não vai traduzir porque não vai cantar, não vai traduzir a canção cantando. E deixava no original e a gente que se virasse para saber o que que era.

FMFelipe Moura Brasil

Mas aí vocês tiveram que aprender a cantar em algum momento também, não tiveram?

WBWendel Bezerra

Hoje em dia tem muitos dubladores que fazem, né, curso de canto e tal. E também teve muita gente que era, que veio do canto para dublagem, porque era minoria, né, dubladores que cantavam.

MRMauro Ramos

Era minoria porque a gente tava habituado a colocar um dublador ou dubladora num papel para dublar e para cantar um cantor ou uma cantora que tivesse o mesmo padrão de voz do ator e da atriz que tava dublando. Alguns começaram a cantar, né? E no meu caso, por exemplo, foi uma, foi assim, graças a Deus eu sou um bom ator e todo mundo pensa que eu canto e todo mundo acredita, mas eu tô lá atuando, né? Tô lá fingindo que tô cantando.

FMFelipe Moura Brasil

Gosta mais de dublar os que acha que tem música, vocês?

WBWendel Bezerra

Não, eu indiferente, mas é mais assim, às vezes que eu cantei e tal, pô, eu curti para caramba.

FMFelipe Moura Brasil

Qual foi o que tu mais curtiu? Ou fala aí um desse.

WBWendel Bezerra

Ah, eu fazia o Gatola da Cartola, o Cat in the Hat, e aí tinha sempre músicas. Eu curtia muito fazer Bob Esponja, eventualmente Cantou em alguns episódios, mas cantar como Bob Esponja deve ser uma experiência, porra, né?

FMFelipe Moura Brasil

Ficou meio patético.

WBWendel Bezerra

Estou em busca de um substituto.

MRMauro Ramos

Pelo amor de Deus, é muito difícil isso. Eu só fiz isso aqui só de sacanagem.

FMFelipe Moura Brasil

Pois é, tem isso que um dia, um dia Um dia vai acabar o Bob Esponja também, né? O Wendell não precisa dublar o Bob Esponja para sempre, né, cara?

WBWendel Bezerra

Será? Não sei, cara. Eu fico, eu entro numa noia dessa assim às vezes pensando, porque tem uns que são, um dia acaba.

FMFelipe Moura Brasil

Tem uns que são muito, é aquilo que a gente tava falando, os cara tão acostumadão com a voz daquele personagem daquela série que já tá um tempão, sei lá, o Doutor Webber, não é isso?

WBWendel Bezerra

Isso.

FMFelipe Moura Brasil

Puta que pariu, meu irmão, ninguém aguenta mais o Grey's Anatomy, não dá para trocar. Né? Se tu morre, é um rolê do caralho para substituir. Se tu morre, é um rolê do caralho para arrumar outro boxe bom.

WBWendel Bezerra

Se não, né?

FMFelipe Moura Brasil

Quando? É, que boxe bom já acabar antes de tu morrer, né?

WBWendel Bezerra

Sim.

FMFelipe Moura Brasil

Eu espero que o Grisanato também acabe antes de tu morrer.

MRMauro Ramos

Espero também, né?

FMFelipe Moura Brasil

Inclusive, sobre isso rapidinho, tu fica esperando assim, pô, será que meu personagem vai morrer, mano? Ufa, não morreu.

MRMauro Ramos

Olha, ele teve câncer na 20ª temporada. O ator mesmo teve câncer, eu falei, ferrou, não vai voltar na outra. E tô trabalhando, não tô nem ligando. Aí de repente alguém fala, o Agnes Anátomi tá no 21º ano. Opa, ele voltou! Ah, meu Deus, vamos lá.

FMFelipe Moura Brasil

Mas é, e aí fodeu, porque eu perdi o que eu tava falando.

MRMauro Ramos

Esses cenões assim, às vezes morrer do personagem, se morrer primeiro.

FMFelipe Moura Brasil

Como é que tu, assim, existe uma, será que existe alguém que aparece para fazer um teste para o Bob Esponja ou um cara que tu, pô, esse cara aqui acho que podia substituir, ou a voz do Mickey? A voz do Mickey é mais fácil.

MRMauro Ramos

Mas quantos já fizeram a voz do Mickey?

FMFelipe Moura Brasil

É, a voz do Mickey é mais fácil, a voz do Mickey é mais fácil, mas do Bob Esponja não é, caralho.

MRMauro Ramos

Não, entendeu? Mas eu fui um cara que dublei uma coisa que já tinha sido dublada e que era famosíssima no Brasil. Que era aquele De Volta para o Futuro. E porque já tinha morrido, infelizmente já tinha morrido o dublador, e quando a Warner foi lançar em DVD comemorativo, ela resolveu então redublar com pessoas diferentes. E eu fiz teste, passei. O pessoal teve uma parte que rejeitou. Por quê? Porque tava muito recente. A gente via isso quase que mensalmente o filme dublado aqui em São Paulo e tal.

O Vigiani fazia o Michael J. Fox, entendeu? Então aí passou a ser o Manolo. As gerações televisivas vão mudando e não vão ouvindo o das gerações passadas. Então daqui a pouco ninguém lembra mais do que foi feito antes pelos colegas antes de mim. E aí mais à frente eu também vou ser esquecido, é natural dentro da dublagem, é natural. Então faça o melhor que puder e vamos ver até onde vai, né? Por exemplo, os filmes da Disney, alguns são, viraram coisas eternas, mas outros não, tiveram redublagens e tudo mais.

Eu num desenho da Disney da minha vida que era Mogli, o Menino Lobo. Pô, para mim era o máximo. Fui chamado para fazer a redublagem dele, do Balu. Caraca, bicho, imagina como é que eu não fiquei. Volte, volte, vai indo, vai indo. Então, aí vai, vai esquecendo, vai sendo esquecido o dos colegas que fizeram antes e vai ser esquecido da gente também.

WBWendel Bezerra

Qual é o personagem da Disney que tem medo de tudo e de todos?

FMFelipe Moura Brasil

Não sei.

WBWendel Bezerra

É o bunda Mogli.

FMFelipe Moura Brasil

Ai, meu Deus do céu, isso não dá para adivinhar não. Assim, eu tentei ir pelo caminho do Mogli porque a gente tava falando dele, mas não fui capaz.

MRMauro Ramos

Me ajude.

FMFelipe Moura Brasil

Qual que é o teu filme favorito da Disney, Wendell?

WBWendel Bezerra

Cara, eu curto muito Rei Leão, bastante. E essa época que o Mauro falou desses filmes, Pequena Sereia, Rei Leão, teve um outro que você fez que era do tesouro.

MRMauro Ramos

É, Planeta do Tesouro.

WBWendel Bezerra

Cara, todos esses filmes eu tava começando a dirigir dublagem e eu ia assistir. Aí nessa época eu assistia as coisas tecnicamente. E eu gostava muito do resultado final, tanto de sincronismo quanto escolha de palavras, interpretação. E então esses filmes da Disney me moldaram como diretor. Eu falava assim, porra, eu quero, eu quero que meus filmes fiquem assim, eu quero isso e tal. Então assim, esse período engraçado me serviu muito mais profissionalmente do que como o Ender, como pessoa assim.

FMFelipe Moura Brasil

Eu acho que o melhor filme, tem 41, né, então não dá para eu falar Frozen.

MRMauro Ramos

O melhor filme da Disney que, pelo amor de Deus, que daqui a pouco me vem aquela música chiclete na cabeça que eu fico um dia inteiro pensando nessa porcaria.

FMFelipe Moura Brasil

Fica com vontade de cantar também? Fico.

WBWendel Bezerra

Let it go.

MRMauro Ramos

Não faz isso, meu Deus. Agora vai ficar na minha cabeça.

FMFelipe Moura Brasil

Bom, eu ia dizer, o meu favorito é A Nova Onda do Imperador. Acho que eu te falei isso. Ah, sim, esse é muito bom. Esse é, eu acho que o que mais me pegou nesse filme foi a liberdade que me parece que vocês tiveram para trabalhar para construção dele, que me parece ser uma liberdade fundamental da própria obra, sabe? A Nova Onda do Imperador é meio Porra, engraçado, não é necessário? Não, assim, dá para criança assistir, mas dá para um jovem adulto assistir e se divertir para cacete, né?

Eu era adolescente, eu era um moleque inclusive, eu devia ter 15, 16 anos nessa época aí. Porra, bom para caralho, me pegou muito assim. Tem coisas que a gente repete aqui no dia a dia, tá ligado?

WBWendel Bezerra

Era tudo mentira.

FMFelipe Moura Brasil

Não, não, não, não, não, não, não.

WBWendel Bezerra

Era, era.

FMFelipe Moura Brasil

Então tem uns amigos meus das antigas que quando eu vou dar feliz aniversário é cantando a musiquinha, entendeu? Feliz aniversário, que tudo esteja azul, tem muita gente fina, bacana para chuchu.

MRMauro Ramos

Olha só, bom demais.

FMFelipe Moura Brasil

Então, pô, tem, é, mas esse não é um musical, olha aí, né? Não, exato, musicais são chatos.

MRMauro Ramos

O que eu tenho mais orgulho com relação a cantar é Anastácia, da Fox, que agora é da Disney. Disney comprou.

FMFelipe Moura Brasil

Nunca vi filme.

MRMauro Ramos

Anastácia é uma história muito legal, mas é um baita musical. E foi onde eu, puxa vida, eu sou cantor! Olha só, consegui! Maestro Marcelo Coutinho conseguiu me fazer um cantor, e eu tenho muito orgulho disso. Muito mesmo.

FMFelipe Moura Brasil

E aí é bom, cantor Ator, dublador, né? Quase que tudo a mesma coisa no fim das contas, porque se mistura mesmo no trabalho.

MRMauro Ramos

Sim, né? Sim, é um nicho da profissão de ator, né? O ofício, eu gosto de chamar de ofício, o meu ofício de dublador. Aliás, ofício de ator e dublador é um orgulho que eu tenho. Tem muita gente que fala assim, ah, A maior parte do pessoal aí que faz dublagem é tudo ator frustrado. Só lamento dizer para eles que eu não sou frustrado, não. Eu tenho o maior orgulho do que a gente faz, cara.

WBWendel Bezerra

Mas eu acho que isso morreu hoje. Eu vejo muito, mas assim, muitas são muitas pessoas que vão fazer teatro para tirar o registro porque quer ser dublador.

MRMauro Ramos

Sim, isso acontece.

WBWendel Bezerra

Famosos batendo na porta das distribuidoras falando Me põe para dublar um negócio e tal. Então eu acho que isso meio que era um estigma, meio anos 80, 90, começo de 2000, que foi mudando e morreu graças ao público, principalmente o público de anime, que nos valoriza tremendamente.

MRMauro Ramos

E graças também à propaganda que nós tivemos com relação aos star talents sendo chamados. Né, que aí o nosso trabalho começou a ser mais visto pelo público através do jornalismo. Ainda tem uns jornalistas que são meio equivocados, que eles deviam perguntar para a gente as coisas, mas falando da gente, mostrando o nosso trabalho, tá bom demais.

FMFelipe Moura Brasil

Bom, é, no fim das contas, a gente também já conversou isso, é uma época que tem trabalho para cacete, me parece, porque tem uma porrada de streaming com uma porrada de material chegando. Não é mais ou menos assim? É mais ou menos assim, né? Então é natural também. Que bom que chega uma galera nova, porque sei lá, agora tá chegando na hora do Mauro colocar lá a TVzinha dele no canto da sala e assistir, né?

MRMauro Ramos

Ver pela 25ª vez Inferno na Torre, 30ª vez o—

WBWendel Bezerra

Não tem nada a ver, mas você falou Inferno na Torre, lembrei de um negócio. Os caras estavam dublando King Kong, né? O King Kong lá atrás, né? E aí tem o vozerio, que é quando junta, né, uma galera dentro do estúdio para fazer aquele burburinho de pessoas e tal. E aí, porra, tem uma cena que tá a polícia toda atrás do King Kong para matar, para derrubar, para prender e tal. E o vozerio é todo mundo: vamos, paraquedas! Você sai falando.

Não tem texto, tem a ideia, a cena, e você vai improvisando em cima da proposta. E aí teve um dublador que na hora de gravar, tão lá falando ali por aqui, puxa e pega, tira. Aí o cara manda: não percam o gorila de vista!

FMFelipe Moura Brasil

Caralho, impossível!

WBWendel Bezerra

É bom demais, é bom demais. Vozeria sai coisas maravilhosas.

MRMauro Ramos

Meu Deus do céu, caramba!

WBWendel Bezerra

Porque às vezes a cena tem 3 minutos, sai falando, aí demora você mandar uma groselha, demora tu falar uma merda, né?

FMFelipe Moura Brasil

Caralho, não perca o gorila de vista.

WBWendel Bezerra

Não é muito bom?

MRMauro Ramos

É ótimo, muito bom, cara.

FMFelipe Moura Brasil

Deve ter várias paradas assim no dia a dia de vocês assim engraçado mesmo. Mas tu falou que vai assistir Odisseia.

WBWendel Bezerra

Vou, vou pretender esse final de semana.

FMFelipe Moura Brasil

E filmes de super-heróis, vocês também assistem?

MRMauro Ramos

Eu assisto. Minha geração é uma geração Marvel, anos 60.

FMFelipe Moura Brasil

Ontem eu tava conversando com os cara aqui sobre isso, se o se, como é que tá essa, o hype do cinema e no que tem a ver com super-herói? Porque o que saiu, acabou de lançar, ou tá para sair, o filme do Homem-Aranha novo, né? Acho que saiu ontem, hoje, sei lá. Teve uma época que qualquer filme da Marvel movimentava uma galera e hoje tá mais suave, né? A galera tá, questão em relação ao trabalho de vocês, Isso tem, vamos lá, as pessoas assistirem em casa, as pessoas irem para o cinema, isso faz pouca diferença, eu imagino, para o trabalho de vocês, não é?

MRMauro Ramos

Sim, sim, a gente dublando é a mesma coisa, é a mesma coisa.

FMFelipe Moura Brasil

Mas vocês sentem que como audiência, tá? É que eu já entendi que tu não vê muita coisa como audiência. Os filmes de super-herói ainda estão pegando vocês?

MRMauro Ramos

A mim pega por uma questão de tradição de infância, né, que eu trago de infância, mas já não vejo com aquela coisa do ultimato, por exemplo. Não tem mais isso, não tem mais essa comoção. É, e é cíclico no cinema também, é cíclico.

FMFelipe Moura Brasil

Então vocês sabem, porque assim, tem aquela velha discussão do cinema, não, toda hora o cinema tá morrendo, que eu acho uma babaquice, mas Existem, são ciclos, né? E esse ciclo dos super-heróis tá numa fase não muito, não tá em alta, né?

MRMauro Ramos

Não.

FMFelipe Moura Brasil

O que que vocês acham que vem agora? O que que tem? Vocês que estão enfiados no, sei lá, porque ficar vendo filme numa porra de uma bolinha, né? Não dá para ver o filme. Mas vocês que estão no meio desse mundo aí, dá para ter alguma, algum algum vislumbre do que que os cara tão pensando para, entre aspas, ressuscitar o cinema?

MRMauro Ramos

Não, porque eu já trabalhava, por exemplo, como dublador, e apareceu Matrix, e ninguém iria imaginar aquele filme, entendeu, como um, ah, o cinema tá desaguando nesse tipo de filme. Não, a partir dele é que houve uma corrente gigantesca de filmes com ideias parecidas, mas Avatar também deu uma mexida na época que saiu o primeiro, né?

FMFelipe Moura Brasil

Acho que foi por causa do 3D.

MRMauro Ramos

Exato. Depois caiu.

FMFelipe Moura Brasil

Tu vê filme 3D?

WBWendel Bezerra

Não curto muito não.

MRMauro Ramos

Eu, na primeira vez que eu fui, foi numa pré-estreia lá no Rio, na Lagoa, né? No cinema que tinha lá na Lagoa Rodrigo de Freitas. Eu saí, cara, eu tava sozinho, não tinha ninguém comigo. Eu saí, saí completamente zureta. Aí eu fui para o ponto do ônibus para pegar, dei uma cacetada numa árvore, rapaz, porque eu não tava vendo mais. O meu cérebro não estava acostumado àquele tipo de dimensão, entendeu? Eu costumo evitar.

FMFelipe Moura Brasil

Eu conheço, é bom, a galera que usa óculos em geral gosta de evitar mesmo filme 3D, né?

MRMauro Ramos

Eu tenho que botar o óculos de 3D aqui, pô. E aí, olha, eu acho que a gente tinha que evitar Avatar, inclusive.

FMFelipe Moura Brasil

Aí tu viu esse aí, o Fogo em Cima? Meu Deus do céu, esse é um dos piores filmes que eu já vi na minha vida, cara.

WBWendel Bezerra

Sério?

FMFelipe Moura Brasil

Como esse cara consegue gastar um caminhão de dinheiro fazer um filme ruim daquele jeito?

MRMauro Ramos

Só que a tecnologia tá mais adiantada, né? Como assim? Serve como exercício de tecnologia melhorada.

FMFelipe Moura Brasil

É, mas é Tu viu esse filme?

MRMauro Ramos

Eu vi, mas não aguentei. É ruim, não aguentei.

FMFelipe Moura Brasil

É ruim de com força mesmo. Assim, antes da metade do filme já aconteceu um filme inteiro. Porque tem um personagem lá que é um moleque que ele a princípio não consegue respirar. Aparentemente eu devia ter visto os outros filmes, né? Não dá. E aí, antes da metade do filme, eles já resolveram o problema do moleque conseguir respirar o ar. Lá de Pandora. Eles já tinham sido capturados uma vez, eles já tinham escapado, o moleque já tinha quase morrido e ressuscitou.

Então isso tudo antes da metade. O vilão já tinha voltado, mudado de lado, ajudado os cara, e depois isso tudo antes do meio do filme. Então assim, é um, é o TikTok dos filmes, cara. É só que feito de um jeito, os cara misturam Por exemplo, tem lá os nativos de Pandora, né, que são aqueles, os avatares, né, aqueles seres. Esse aí tem esses seres lá, eles são muito sinistros, eles que mandam lá naquele lugar lá. No Arqui-Flecha muito brabo em cima de um dragãozinho.

Toma, Arqui-Flecha! Aí tem o Jake lá, o maluco com a arma, e os cara do Arqui-Flecha dá um pau em todo mundo, dos cara com explodindo os bagulho, e tu fica, não, Esse filme é ruim. E outra, vamos dizer que você fosse um ator no, e você fosse participar do filme Avatar. Eu tô olhando para o Wendell, você no filme é você só com filtro de gatinho azul do Snapchat, cara. Parece gráfico de PlayStation 3, cara. Não brinca, ruim demais.

Esse filme não dá. Se você vê esse meio, você sabe o que eu tô falando. Eu fui ver com minha filha, minha filha foi toda animada, se pintou de Avatar e o caralho. Meu irmão, eu tava no cinema assim, caralho, pô, tu não quer mijar não? Perguntando para ela. Puta que pariu, não dá não. Toma. E eu fiquei sabendo que o cara, ele queria ter feito esse filme, como é que é, esse filme era parte do outro anterior. E ainda bem que ele dividiu em dois.

Na minha opinião, tinha que ter dividido em mais três, virava uma minissérie. Desculpa, cara, toda vez que alguém levanta o assunto Avatar eu tenho que, eu acabo despejando essa.

WBWendel Bezerra

Vou parar, se tivesse a última vez eu parei, nunca mais.

FMFelipe Moura Brasil

Guardo leve, entendeu? Pô, você é bom demais. Qual foi o pior filme que tu já viu desses aí, dos últimos aí, filme ruim para caralho? Vou começar, hein, faz um tempo já. O Motoqueiro Fantasma 2, e Avatar é pior. Meu Deus, meu Deus, lembrar que Motoqueiro Fantasma 2 é ruim, tá ligado que eu tô falando?

MRMauro Ramos

Sei, eu sei, eu vi, eu vi.

FMFelipe Moura Brasil

O primeiro é ok, eu dublei o Fantasma, né?

WBWendel Bezerra

Segundo não dá não, porra, não vou lembrar. Foi um filme que eu vi no avião, acho que é um filme argentino ou espanhol, que eu gosto, costuma ser bacana, né, os textos. Só que aí, porra, é uma mulher, como é que é, é um filho e a mãe. O tempo inteiro. E eles falam, porra, aí vai, agora vai. Agora termina o filme, só, porra, não foi nada, lugar nenhum, o tempo inteiro. Ou eu sou muito burro, não entendi mensagem, não dá. Mas isso foi bem frustrante. A sorte foi que foi no avião, então não tive tanta sensação de perda de tempo.

FMFelipe Moura Brasil

E não é isso que faz a gente sempre voltar para o filme velho que a gente já viu um monte de vezes? E aí eu já vi Matrix Senhor dos Anéis, sei lá, 20 vezes, cara.

MRMauro Ramos

Conforto emocional que você tem para não ver aquelas merda que passam por aí.

FMFelipe Moura Brasil

Uma vez por ano eu tenho 12 horas que eu sei que eu vou curtir assistindo a trilogia do Senhor dos Anéis. Então, né, sei que eu vou curtir, não tem como dar errado.

WBWendel Bezerra

Sim, é exato, é prazer garantido.

FMFelipe Moura Brasil

No fim, o problema é que isso transporta para outras mídias também. Então Vou jogar. Nossa, vou jogar um jogo que eu já zerei 50 vezes.

MRMauro Ramos

É a mesma coisa, é conforto emocional.

FMFelipe Moura Brasil

Isso é coisa de velho, Mauro?

MRMauro Ramos

Não, porque criança vê 500 vezes a mesma coisa, velho não vê tanto, né? Mas se eu vi, a criança vai decorando as falas, a gente vai esquecendo.

WBWendel Bezerra

Então é legal, parece que tá vendo pela primeira vez.

MRMauro Ramos

Exato. Meu filho fazia isso com Aladdin, cara.

FMFelipe Moura Brasil

Aí vem o príncipe ali.

MRMauro Ramos

Ele fazia isso com Aladdin, minha filha fazia isso com A Pequena Sereia. Então, pô, não é, não é porque é velho que fica vendo, não. Se bem que a gente gosta bastante, né? Eu vejo muito musical ainda e vejo muito filme que não existe em streaming porque tenho guardado em casa.

WBWendel Bezerra

Eu sinto falta de comédia. É, tem umas comédias meio lascadas antigamente. Eu acho que eram muito mais legais assim, uns Mel Brooks da vida, os Monty Python.

MRMauro Ramos

Eu achava mais legal o Peter Sellers fazendo para aquele, né, um convidado bem trabalhado.

WBWendel Bezerra

Isso é maravilhoso.

FMFelipe Moura Brasil

Pantera Cor-de-Rosa é uma olhinha diferente disso que vocês estão falando, mas agora tá tendo, teve um novo filme do daquele de um humor pastelão que era Corra Que a Polícia Vem Aí. Não, também uma outra que é o— teve o do Corra Que a Polícia Vem Aí com o Leslie Nielsen?

MRMauro Ramos

Não, era o Liam Neeson.

FMFelipe Moura Brasil

Mas eu tô falando Todo Mundo em Pânico. Sim, que era uma paródia, que é uma série, é isso que é, o 4 agora, né?

WBWendel Bezerra

Acho que era 6.

MRMauro Ramos

6, filho?

FMFelipe Moura Brasil

Nossa, é Veloz e Furioso. Que é um Velozes e Furiosos 245, que é um estilo de comédia que foi comum lá nos anos 90 e tal. Tinha, lembra de The Big Lebowski? Lembra de Quem Vai Ficar com Mary? Lembra de, sei lá, American Pie?

WBWendel Bezerra

Top Gun. Top Gang, né?

FMFelipe Moura Brasil

Top Gang. Mel Brooks tinha um que eu gostava muito, que era Spaceballs.

MRMauro Ramos

Porra, é maravilhoso. Ele tá fazendo 2 agora.

FMFelipe Moura Brasil

Mentira.

MRMauro Ramos

Tá fazendo 2 e convocou o Rick Moranis, aquele ator que fazia o arremedo de Darth Vader.

FMFelipe Moura Brasil

E ele vai continuar fazendo da atmosfera.

MRMauro Ramos

1, 2, 3, 4, 5.

FMFelipe Moura Brasil

E ele vai continuar sendo a tua mala não, cara. Não é essa cena da parada. Caralho, toda tua mala igual da cena. Caralho, é o escroto! E o cara vindo andando lá da puta que pariu, correndo mesmo, muito escroto, vem correndo no corredor grandão, o cara correndo lá da puta que pariu, chega perto assim, ele fala um bagulho qualquer, que assim volta correndo lá da puta que pariu, muito escroto, mano. Nossa, meu, esse eu me amarro também.

WBWendel Bezerra

Não tenho visto muitas comédias mesmo, e quando tem, eu não sei se, enfim, os comediantes sabem mais assim, dizem que vai ficando cada vez mais difícil, né, o teu range de de piada, ainda mais se você quer comercializar. Então eu acho que isso deve atrapalhar bastante, né? E o que pinta eu não acho engraçado. Ah, e o que pinta eu não acho engraçado.

FMFelipe Moura Brasil

Então é, eu tenho comédia, eu vou mais no stand-up, sacou? Do que filme de comédia. Eu nem lembro o último filme de comédia que eu vi, cara.

WBWendel Bezerra

Também não é muito.

FMFelipe Moura Brasil

O que que é isso aí que tá na tua mão?

MRMauro Ramos

Eu, como estamos em época de eleição agora. Eu quero distribuir alguns santinhos para vocês.

FMFelipe Moura Brasil

Para votar em quem?

MRMauro Ramos

São Mauro Ramos, principalmente para fazer uma oração aos dubladores que precisam, necessitados.

FMFelipe Moura Brasil

Mas esse aqui não é, isso aqui não é o Mauro Ramos, ou então isso aqui é o Mauro Ramos jovem, né, que tem cabelo?

MRMauro Ramos

Sim, exatamente. Mas também isso foi feito nos anos 90, né, Ah, é?

FMFelipe Moura Brasil

É São Mauro Ramos, da Mauritânia Alta, padroeiro dos dubladores.

MRMauro Ramos

É uma brincadeira que a gente fez.

FMFelipe Moura Brasil

Ó Senhor, dai-me paciência para toda a vida. Que a tradução esteja perfeita e o fone esteja funcionando. Que a dicção jamais falhe e minha interpretação seja boa. Que a sua palavra, Senhor, não tenha barulho ou estalinho ou salivação. Que o filme não atrase. Na hora da dublagem.

MRMauro Ramos

Amém, amém. O pessoal gosta disso, então eu trouxe aqui para distribuir.

WBWendel Bezerra

Eu não sei se você lembra, uma das vezes você dublou comigo, faz tempo. Eu tenho umas idiotices, né, você sabe bem. E aí um dia eu achei lá no centro da Lapa uns bonequinhos desse tamanho, peladinhos assim, um boneco bem simples, bem tosco, quase sem pintura, de cor de boneca antiga, desse tamanhinho assim, tá no pacotinho com uns 20. E o dublador, ele chama aquele ator que você tá acostumado a dublar, aquela atriz, de boneco ou boneca.

Então você fala, sei lá, o Robert Pattinson é meu boneco, tipo assim que a gente fala. E aí teve um período em que tava uma treta na dublagem porque várias pessoas, pô, fulano gravou meu boneco, pô, não sei o quê e tal. E eu vi esses bonequinhos, comprei e deixei na minha gaveta quando eu dirigia, né? E aí fiz com algumas pessoas, fiz com o Mauro.

MRMauro Ramos

Eu tenho até hoje.

WBWendel Bezerra

Comecei a falar assim, olha, eu sei que tá rolando muito esse negócio de um pegar boneco do outro e tal. Fica tranquilo, aqui na Unidubs não vai acontecer, que inclusive tá aqui o seu boneco, nunca mais ninguém. Só que eu sempre falava sério, né, no começo assim, as Pô, realmente, puta babaca, né? Só eu me divertindo 20 vezes com a mesma piada, porque tinha 20 bonequinhos. Aí eu comprei também na rua uma violinha, sabe essas violinhas de criança pequenininha?

Também comprei, levei para o estúdio. Quando o dublador tipo fala, nossa, hoje estou tão cansado, aquela coisa da Discovery, né? A gente chama de cantar. Pô, você tá cantando na inflexão. E aí, porra, eu comprei a violinha. Então, quando era um dublador, uma dubladora que eu tinha uma razoável intimidade, porque eventualmente dublando você canta, é quase inevitável. Você tá fazendo o tempo inteiro, o tempo inteiro, o tempo inteiro, e você tá ouvindo outra prosódia aqui.

Então acontece de você dar uma inflexão às vezes meio cantada. Nossa, quando acontecia Eu abri a porta do estúdio, veio com a violinha, a pessoa ficava assim, falei, não, se você vai cantar, toca também. Eu gostava de sacanear.

FMFelipe Moura Brasil

Tem uns cara aqui que eu também tenho mais intimidade, eu acabo sacaneando os cara também, falar umas gracinhas. Quando é bom, né? Tem umas que a gente fica ensaiando, pô.

WBWendel Bezerra

As pessoas me levam muito a sério e nem imaginam como funciona o meu cérebro, saca? Tanto de bobagem. E eu adoro sacanear, dá um porra. E aí você falou quem vai chegando na dublagem ou quem dando não sei o quê, poxa, dublou isso, dublou aquilo, tal coisa dirigível da empresa, caralho, põe no lugar que você de fato não tá, não tá, exato. E tanto a Isaura Gomes era uma dubladora, já faleceu, pô, ela é incrível, ela era incrível, era mega fãzaço dela.

E aí uma vez conversando com uma dubladora e ela falou, eu não gosto da Isaura porque ela é assim, ela é assada, ela não sei o quê. Eu falei, ela não é nada disso que você tá falando. Porque quando a gente dublava junto, a gente tava junto, então as pessoas se conheciam mais. Depois passou a dublar cada um sozinho. Para Isaura, que já era uma senhora, quando ela chega e vê um monte de gente nova, ela não sai brincando, sacaneando, não sei o quê, ela fica na dela.

E ela era sisuda, ela tinha uma cara assim, mas era, cara, entendi o tanto de merda que ela falava. E faz ideia do que é a Isaura. E era engraçado que eu conheci ela criança e eu me sentia super à vontade de brincar com ela, mesmo ela sendo uma senhora, porque a relação profissional criou isso.

MRMauro Ramos

Ela e Lúcia Helena foram as primeiras a me tratar com normalidade quando eu comecei a trabalhar aqui.

FMFelipe Moura Brasil

Então, como assim?

MRMauro Ramos

Porque você ficava assim meio, sabe, alguns colegas ficavam assim meio receosos, não te conhece pessoalmente e tal, então ficavam na dele. Elas não, elas tratavam a mim normalmente, como se já me conhecessem há anos, entendeu? Isaura deixou uma saudade grande.

WBWendel Bezerra

Nossa, ela era demais, cara, fazia tudo, fazia vilã, a novinha, bonita, feia, velha, bruxa. Ela conseguia, ela tinha um negócio que era o seguinte: normalmente você vai fazer um papel grande, o diretor te conta a história, o perfil do personagem. Então a diretoria lá: ô, Elisauro, você vai fazer, ela é uma amada superior. Não, não, não, não quero saber, eu vou fazer igual ela lá, fica tranquilo, não precisa me contar. E as pessoas ficavam tipo: e aí, agora?

E ela era engraçada, ela criava um caos Então ela tá lá ensaiando. Nossa, nossa, para, para, para, para, não entendi nada, gente, tá muito confuso isso aqui. Você quer ver de novo, Isaura? Não, não, vamos tentar. Encaixava tudo. Vai se ferrar, Isaura, porra! Deixando todo mundo nervoso aqui. Mas não era de sacanagem, era o processo dela de: ai, meu Deus, tá difícil, tá difícil, não sei o que fazer. Encaixava tudo. E pegava os detalhes de movimento labial, de piscadinha, de Que nem o Damata, ele tinha isso.

Newton Damata, que fazia a voz do Bruce Willis, que para mim é o melhor casamento de voz com ator. Assim, para mim foi que ficou melhor, né? E porra, ele fazia uns lances que o Bruce Willis não fazia.

FMFelipe Moura Brasil

Tipo o quê?

WBWendel Bezerra

Sei lá, eu dirigi ele no filme, aí tem o Bruce Willis fazia assim Aí ele, senhor, o cara fez. Então parte do sarcasmo e do cinismo do Bruce Willis tava na interpretação do D'Amato e não no original. E eu dirigi ele 3 vezes dublando Bruce Willis. Eu falei, caralho, que filho da puta, tá enganando a gente aqui! E de um jeito era essa coisa, né? Por isso que é legal, que é importante não ter só a boquinha aqui, porque você preenche o gosto às vezes.

FMFelipe Moura Brasil

Faz todo sentido, cara. Caralho, é isso. Essas coisas estão falando aí, tanto da Isaura quanto do Newton da Mata, são características de atores sensacionais, não é? Que consegue fazer a bruxa, consegue fazer a mocinha, consegue fazer, consegue olhar para uma parada e, puta, eu acho que isso daqui adiciona. E adiciona no fim das contas, né? Isso é característica de É, isso não é— se vocês fossem colocar numa escala e de um lado tá técnica e outra tá, sei lá, talento, está muito mais talento, não tá? Total, total, total. A técnica não— a técnica vai mandar você fazer.

WBWendel Bezerra

A técnica é o sincronismo, entendi, que em tese com a repetição você vai aprendendo, vai aprendendo, mas a percepção do que você pode fazer dentro daquele sincronismo, aí é o talento artístico, que aí é mais difícil de—

MRMauro Ramos

a arte está aí na interpretação.

FMFelipe Moura Brasil

Mas também, ao longo de uma longa carreira, também vai se tornando mais natural se você tiver atento, não é? Sim, se você tiver a fim de se tornar um ator melhor. Por exemplo, se eu quiser me tornar um sucesso em qualquer nicho, se eu quiser fazer isso aqui melhor, eu vou prestar atenção onde eu tô vacilando, onde eu travo, é o que que faltou e tudo mais. Puta, esqueci de falar dessa parada aqui.

MRMauro Ramos

Exato.

FMFelipe Moura Brasil

Então é, e aí eu vou para o próximo, eu vou prestando atenção. Eu suponho que para um ator, olhando, por exemplo, para encaixar uma risadinha num Bruce Willis, ele antes deve ter dublado uma porrada de coisa ou atuou para cacete.

MRMauro Ramos

Ele já conhece a dinâmica do ator.

WBWendel Bezerra

Mas eu acho que tem um limite, tipo o Odivan treinando para cacete ia jogar igual Romário? Não, não entende. Tem, eu acredito muito nisso de você querer ver, que era tipo isso. Eu assisti os filmes da Disney, eu falo, porra, aquele é diferente, pô, aquilo ali foi coisa do dublador, pô, isso aí foi sacada do diretor. Então você, você querer ver, né, estar aberto para ver e aplicar, porra, isso sem dúvida vai fazer a diferença. Mas assim, o fato é que tem gente que dubla há 30 anos e dubla mal há 30 anos.

FMFelipe Moura Brasil

Mas aí vocês são, vocês que estão aí há muito tempo, 40 anos, já viram vários dubladores. E para vocês foi um, vou supor que senão vocês não estariam aqui, né, na posição que vocês estão. Vocês foram os cara que foram cuidando para ser melhor, que não sei o quê e tudo mais. Puta, queria, né, pô, tô sacando isso aqui, vou entendendo e tal. E aí dirigiram. Então, então vocês viram vários dubladores antes, durante e depois de vocês, né?

E a pergunta aqui é a seguinte: em média, existe mais o cara que é talentoso e preguiçoso, no sentido de ele é talentoso, se ele focasse, tu tá vendo que ele é bom, mas ele não quer, ele não, ele não é o cara que tá tentando fazer melhor todo dia, ele não quer, ou tem mais o cara que ele, porra, é ruim e queria e tenta ficar bom.

WBWendel Bezerra

O que que tem?

FMFelipe Moura Brasil

Porque a gente tá excluindo, é claro, as outras possibilidades, falando só dessas duas aqui.

WBWendel Bezerra

Cara, eu vou falar um negócio que eu vou chutar aqui, pode ser razoavelmente polêmico para algumas pessoas, e eu nem tô certo do que eu tô desenvolvendo aqui enquanto nós estamos conversando. Antigamente Porra, tinha 1, 2, 3 dubladores que tinham um carro, tá? E aí esse cara, caralho, cadê um carro? Todo mundo se locomovia de busão, todo mundo, porra, contava o dinheiro, às vezes não almoçava. Era, era, porra, era doído, era sofrido a parada.

E a gente dublava junto também, então não deixa de ser uma escola diária um com o outro. Hoje o dublador ganha muito mais do que ganhava antigamente. Então muita gente tem seu AP, sua casinha, só anda de carro ou de Uber ou não sei o quê, não sei o quê. Então eu posso estar falando uma besteira aqui, realmente não racionalizei a respeito, não tem essa teoria na cabeça, tá surgindo agora. Eu acho que é aquela coisa do medo de perder tira a vontade de ganhar.

E eu acho que a gente tinha vontade de ganhar todo dia porque precisava correr atrás do— então eu vi vários dubladores com muito potencial que se acomodaram e que hoje estão até um pouquinho pior do que estavam 5, 6, 10 anos atrás, porque, porra, tá bom assim, tô inteirando que tá legal. Por isso que eu queria dividir muito essa vivência que eu acabo tendo com o público. Com o máximo de dubladores possível. Porque, cara, eu sei que não é o meu trampo, o seu, de qualquer outro dublador, vai ajudar alguém sair da depressão, vai aproximar um pai de um filho, de uma mãe de uma filha, de um filho, vai trazer uma memória inesquecível, vai marcar a história de um casal, vai fazer uma pessoa vencer uma história de abuso sexual.

Vai fazer um autista não verbal conseguir falar. Então o nosso trabalho, ele impacta e gera tanta coisa que se as pessoas soubessem, talvez elas tivessem um comportamento profissional um pouco melhor, um pouco mais profundo, porque acaba ficando razoável. Tem cara que não tá preocupado em fazer o herói da Marvel, fazendo não sei o quê, ou melhorar não sei o quê, Tô ganhando meus 10, 12, 14 pau por mês, 15, às vezes até mais, e tá bom.

E aí, mas por quê? Porque não entende a profundidade daquele trabalho. Ele não é só você entrar no estúdio, gravar ou dirigir e ir embora. Primeiro que tem a ver com cultura, com você, porra, compartilhar histórias do mundo inteiro, compartilhar compartilhar histórias, marcar geração, mas tem muito mais a ver com o quanto aquilo pode ser transformador na vida de uma pessoa que você sequer imagina que tá no Acre, que não fala inglês, não.

FMFelipe Moura Brasil

E tá ajudando aquele cara a entender uma mensagem que vem de um lugar que de outra forma ele não entenderia.

WBWendel Bezerra

Então, porra, é muito, é muito maior do que entrar no estúdio, gravar e ir embora.

MRMauro Ramos

A gente a gente fica aí trabalhando e não tem a exata noção da repercussão do nosso trabalho junto ao público. Então você tá na Ilha de Marajó e aí liga uma televisão numa pousada e tal, e você vê um filme da gente dublando, e que o cara lá embaixo no Rio Grande do Sul também tá vendo ao mesmo tempo. Olha a dimensão da coisa. Essa é a dimensão física. E o que ele falou é a dimensão emocional. A gente tá sempre sendo ligado emocionalmente.

E se soubessem essa, essa responsabilidade que a gente tem, o cara talvez não cristalizasse a sua interpretação e não ficasse só naqueles, naquelas 35 inflexões que dão certo. Que tá aí, tô dublando até hoje.

WBWendel Bezerra

Mas que tem a ver com volume também, né? Uma novela, sei lá, uma TV tem 3 novelas lá das 6 às 7 às 8, né? Nem sei mais hoje quais são os horários das novelas ou quantas são, mas enfim, né? Tem 3 novelas, vão ter, sei lá, inventar aqui, 100 personagens naquilo ali. Então tem trampo para 450 atores por um determinado tempo. Filme tem 100, série tem mais 80. Então é um volume muito grande de trabalho. E aí acontece às vezes isso dessa acomodação profissional, porque, porra, eu tô garantido, eu não estou aqui, mas também não tô aqui.

Esse aqui para mim tá bom, não quero, não quero ir no flow, não quero. Mas não se trata disso, não. Estar aqui é um desdobramento daquilo que você exercitou.

FMFelipe Moura Brasil

Com certeza, pô.

WBWendel Bezerra

Entende? Não sei se eu tô me expressando bem.

FMFelipe Moura Brasil

Eu entendo pra caralho. Eu acho que, ó, é, vamos lá, eu, é meio ruim falar isso, né? Mas assim, no meu caso, assim, eu sou muito identificado com o meu trabalho. Quase que eu respiro isso aqui, muita coisa faz parte. Isso daqui é parte da minha identidade, no fim das contas. Sou eu que escolhi as pessoas que vêm aqui no fim das contas, né? Então é muito mesmo profundamente identificado, até porque não tinha como ser diferente, né?

Nesse sentido, isso aqui para mim é, e por conta de toda a história, né, de como isso daqui veio a ser o que é, é um, para mim é um, é um desrespeito a mim em primeiro lugar eu fazer isso aqui no foda-se, porque foi sinistro para caralho chegar aqui. Eu não posso... Teve um tempo que eu achava assim, não, somou flow, tá tranquilo, acho que dá para a gente... Não, não tem isso. Se eu parar, eu não vou me... Se eu parar, se eu não tentar, se eu me acomodar, se eu for...

Se eu deixar eu mesmo ser o merda que eu quero ser, eu vou ficar puto comigo, sabe?

MRMauro Ramos

Total. E vai parar.

WBWendel Bezerra

E a internet também.

FMFelipe Moura Brasil

E você, e você, e vou me foder ainda por cima.

WBWendel Bezerra

Eu acho que a internet foi muito legal nesse sentido, pelo menos falando da minha experiência pessoal. Eu fazia TV, fazia teatro, fazia coisa e tal. Então eu era o Wendell Bezerra aqui no teatro, Wendell Bezerra ali na novela, Wendell Bezerra aqui num filme de cinema e tal. E na dublagem é uma voz só, porque ninguém conhecia os dubladores. Então a dublagem permitia que se você tá cansado, tá irritado, se a tradução tá ruim, se você tá brigado com o diretor, tretou com aquele estúdio, os cara não te pagaram, permite você entregar 60%, 70% do teu trampo.

Ninguém vai saber, ninguém vai ver, ninguém vai te cobrar. Aí o Goku começou a fazer sucesso, e aí com isso as pessoas começaram a reconhecer a minha voz. Olha, é o Goku nesse filme! Olha! Aí falei, cara, tão reconhecendo a minha voz, já vamos saber que isso fica uma merda. Aí sai uma matéria aqui, uma matéria acolá, uma revista herói da vida e tal. Tem nome, é o Wendel Bezerra. Nesse dia eu falei, putz, agora eu preciso entregar sempre 100%, porque já sabem que é minha voz e já sabe que tem um nome.

Depois passou a ter rosto, aí muda mais ainda, né? Então eu acho que foi bom, e eu acho que é importante a dublagem, os dubladores terem essa cobrança, porque tem gente que esquece Porque assim, mas aí voltando de novo, o ator ele não tá trabalhando sempre, né? Acaba o teatro, acaba a novela, acaba o filme, Vacas Magras e tal. O dublador, apesar de ser também um trabalho com sazonalidade, em tese ele tá trabalhando sempre, tem sempre trabalho.

Então isso às vezes te traz para uma zona de conforto, de comodismo. Então, porra, eu vejo na minha história que foi absolutamente incrível, foi uma bênção que eu tive de ter tido esse personagem, de ter tido esse contato com as pessoas, de ouvir as histórias de várias pessoas em tudo quanto é lugar, de várias formas diferentes e tal, que isso me moldou. Eu falei, ah, porra, então agora— e aí eu comecei a gostar mais ainda da dublagem, porque é isso, passou a ter um propósito muito mais profundo do que simplesmente só jogar videogame, né?

E isso fez toda a diferença. A partir daí eu acho que eu me tornei um dublador melhor, depois um diretor melhor, conquistei um espaço de respeito, sei lá, no mercado interno, depois junto aos clientes. Aí quando eu montei uma empresa, ela já tinha um outro viés profissional, artístico, a equipe toda do técnico, todo mundo Então tudo foi montado pensando de, cara, olha como a gente mexe com a vida das pessoas. E se o banheiro tá bem limpo, tá com papel, tá limpinho, tá cheiroso, o dublador vai estar mais feliz de estar aqui dentro.

Ele tá mais feliz, ele vai realizar um trabalho melhor. Então, pô, você recebeu um email falando, ó, teu valor esse mês é tanto tal, emite a nota, em vez de você ter que Vocês vão me pagar? Então tudo que a gente ia fazendo na empresa era para o dublador se sentir mais feliz e respeitado. E isso gera um resultado final melhor. E o resultado final melhor, ele impacta na vida das pessoas. Então eu tento pra cacete transmitir isso para quando eu dava aula, para os diretores, quando eu dirijo, porque tem muitos pequenos detalhes.

Hoje eu dirijo uma criança, ele deu uma inflexão Eu não falei para criança, falei para o técnico, né? Falei, porra, ele tá dando inflexão de— eu falei Paul Patról, né, de Patrulha Canina, e nós estamos fazendo live action. Então ele deu aquela inflexão de criancinha que faz tudo quanto é desenho. Falei, não, é uma inflexão de criancinha que faz tudo quanto é desenho. Só que aí eu expliquei para ele de outra forma, né? Não falei assim, né?

Mas tipo, ó, não, aqui cuidado que tá caindo para o desenho animado, é um menino, ele é assim, assim, assado. Para ele ver, vamos ouvir, ouve o tom dele, percebeu? Ah, percebi, menino é bom, porra, na hora ele deu. Mas aí o diretor, ele tem que estar atento a isso o tempo inteiro, porque senão sai um troço, é, e grande parte do público nem percebe. Mas assim, é um movimento, é uma onda na qual você tem que acreditar, e acho que ela se replica.

MRMauro Ramos

E até bem pouco tempo o público achava que o dublador ficava na emissora de televisão esperando o horário do filme para dublar, pô. É, ou quando não pensava que dublador era dublê também. Aí para as mulheres, né, tu nem parece o cara. Vem cá, seu marido quando sai, você não fica preocupado que ele sai de manhã, pode voltar todo ferido, quebrado?

FMFelipe Moura Brasil

No teu caso não, né?

MRMauro Ramos

Não, né? Pelo amor de Deus, tá quebrado, mas por outra razão, né? Sim, claro. Senhoras e senhores, foi um prazer.

FMFelipe Moura Brasil

Tem mensagem para gente no fim das contas? Bom, antes da gente ir para as mensagens, era de falar para vocês dos parceiros que estão com a gente aqui hoje, começando pela Fluency, que é a maior escola de idiomas online da América Latina. E você aí que tá pensando, cara, eu queria, eu até entendo as pessoas falando inglês, mas eu não falo porque eu tenho vergonha, ou eu eu sei as regras, mas eu não me sinto seguro para falar, ou qualquer outra razão que te impeça de realmente se comunicar em inglês, cara, é bom.

O Flow fez uma parceria com a Fluency que vai te dar, ó, eles já são focados em conversação, tá? Então se você entrar lá na Fluency, já vai logo de cara ter acesso a 2 horas de conversação por semana, tá bom? Desde o começo, se você usar o cupom FLOW, você tem o dobro dessas aulas aí de conversação desde o começo. Então se você entrar nesse QR code aqui ou no link aqui na descrição, você vai usar o cupom FLOW e tu vai participar, vai ganhar esse presente aí, né, o dobro de conversação desde o começo.

E você vai entender o que que realmente faz você destravar no fim das contas, quando você vai viajar e você realmente consegue se virar com outra língua, que é realmente usando. E a Fluency tá aqui para te ajudar nessa missão de finalmente falar inglês, tá bom? Então o QR code tá aqui, o link tá aí na descrição, e vai lá porque eu acho que isso daí vai ter o potencial de, pô, mudar tua vida, cara. E ó, o outro parceiro tá com a gente aqui.

Deve ter percebido que eu tô com uma camisa diferente, meu irmão, a camisa aqui de marca. E tu sabe que eu não sou exatamente o cara que é muito cuidadoso, né, com o que que eu vou vestir no fim das contas. Mas ainda bem que existe o Que Vestir Porque tenho que ir num casamento, tenho que ir num evento, tenho que ir numa formatura ou numa festa de 15 anos de algum amigo, sei lá. Cara, lá no site do Que Vestir é o lugar perfeito para você montar o teu look, porque eles têm lá um monte de marca, um monte de roupa estilosa separada lá de forma que faça sentido e você pode com facilidade montar ali a maneira como você vai se vestir para o teu evento.

Então, se você não sabe o que vestir, o que vestir, tem o QR code aqui, o link na descrição aí. Isso vai, cara, facilita muito a minha vida. Eu aposto que vai facilitar a tua também, tá bom? E se você usar o cupom FLOW20, tu ganha 20% de desconto. Não é de se desperdiçar. Se eu fosse, tu ia lá conhecer. Tu mandou para mim aqui, Jean? Deixa eu ver. Ó, o Miguel Fernandes mandou aqui, ó: sou muito fã dessas vozes e desses caras que estão aí.

Quero começar esse ano teatro para depois fazer dublagem, mas o meu medo é— mas o meu medo é: vai ter mercado para mim quando eu me formar? Como vem o futuro da dublagem? Já falou um tanto aqui, mas tá aí.

WBWendel Bezerra

Eu acho que vai ter sim. Eu não vejo tão cedo a dublagem morrendo, diminuindo, muito pelo contrário, cada vez mais o público prefere ver dublado. Hoje é perto de 80% vê dublado, independentemente de idade, né, classe social. É um mercado que tem se profissionalizado muito, tem crescido bastante. Então eu não temo pelo futuro da dublagem, não.

MRMauro Ramos

Nem eu.

FMFelipe Moura Brasil

Tu já tá velho também, né?

MRMauro Ramos

Foda-se, só tem mais 10 anos de vida, ferra isso.

WBWendel Bezerra

Desculpa.

MRMauro Ramos

Tudo bem.

FMFelipe Moura Brasil

Ó, o Salsinha mandou aqui, ó: gostaria de saber a opinião do Mauro quanto ao novo Shrek que vem por aí, e se possível comentar algo a respeito. E também do Endel referente a Dragon Ball, agora que o Akira Toriyama se foi.

MRMauro Ramos

Muito bem, especificamente o que a gente viu foi um trailer, eu não posso falar de nada do filme que a gente ainda não dublou, né? Ah, o pessoal tá reclamando que o design do filme tá diferente. Ué, mas o do Gato de Botas também tava diferente, qual é o problema? Eu achei maneiro, eu também achei.

FMFelipe Moura Brasil

Não tem problema algum. Sonic, lembra do Sonic?

MRMauro Ramos

Lembro, o Sonic foi uma bosta.

WBWendel Bezerra

Até hoje eu tenho dúvida se não foi de propósito.

MRMauro Ramos

É, de repente era um tipo de marketing, porra, deu um tipo de marketing.

WBWendel Bezerra

Todo mundo queria ver depois quando não trocaram porque o pessoal reclamou. Porra, foi um puta sucesso absurdo.

MRMauro Ramos

Aí você para para pensar assim, pera aí, os caras com essa competência toda Iriam fazer essa merda? Não sei não, provavelmente não, né? Provavelmente não.

FMFelipe Moura Brasil

E o Goku, que agora que eu tô empolgado, né?

WBWendel Bezerra

Diz que eles anunciaram, né, que vai ter agora em outubro, novembro, um novo arco, né, do Dragon Ball Super e mais um monte de outras coisas e tal. A gente fica super ansioso, né? Fica, eu sempre fico sofrendo mesmo. E se eu ficar rouco? E se eu não sei? Eu fico meio tenso, engraçado. E fico preocupado também porque a expectativa é a mãe, né, da decepção. Então eu sempre fico pensando, pô, será que vão gostar? Vão falar, pô, Wendel não ficou legal dessa vez. Eu fico sempre meio nessas assim. Mas matou.

FMFelipe Moura Brasil

Já pensou? Imagina o dia que o Wendel Bezerra fica puto com os cara lá dos estúdios lá do Dragon Ball. Quem é que manda para tu essa parada do Dragon Ball?

WBWendel Bezerra

É a Toei, né?

FMFelipe Moura Brasil

O cara fica, briga com a Toei, não sei o quê. E aí vai, não tem mais.

WBWendel Bezerra

Como é que arrumar outro Goku com o Buu ainda vivo?

FMFelipe Moura Brasil

Difícil, né? Tem, mas não tem os personagens que são muito ligados que é difícil até para o cliente desvincular?

MRMauro Ramos

É, tem, tem.

FMFelipe Moura Brasil

Isso é bom ou ruim?

MRMauro Ramos

Por um lado é bom, por outro lado é ruim.

FMFelipe Moura Brasil

É bom porque tu tem um emprego meio que garantido ali, né?

WBWendel Bezerra

Mas tem vários bons e ruins. Às vezes pode ser ruim porque você fica marcado com aquele personagem. Para o cliente, às vezes pode ser ruim porque às vezes ele vira refém do dublador. Porque, cara, isso acontece bastante, dublador que falta, que atrasa, que dá canseira na produção, que começa a pedir isso, aquilo, aquilo outro, um cachê, começa a abusar do lance.

FMFelipe Moura Brasil

Porque ele é aquela voz.

WBWendel Bezerra

Exato.

MRMauro Ramos

Então tem os lados bons e ruins para os dois lados, eu acho.

WBWendel Bezerra

Mas via de regra eu acho que é bom.

FMFelipe Moura Brasil

Tenho certeza que chega uns trabalhos lá na produtora do Wendel que ele fica assim: não, caralho, não vai ter jeito, vou ter que chamar esse filho da puta de novo. Essa porra desse moleque não morre, cara. Porra! Morre, boneco! Não quero mais trabalhar com esse cara.

WBWendel Bezerra

Não, só falar, mas eu sei, na minha posição na empresa não faz diferença se alguém— tanto que às vezes alguém me pergunta, pô, posso chamar fulano? Você tem algum problema? Ninguém. Se eu vou dirigir alguma coisa, aí é claro, eu vou chamar via de regra pessoas com quem eu trabalho bem. Mas uma empresa que tem lá 10, 12, 14 diretores Vocês trabalhem com quem vocês quiserem. Eu quero todo mundo feliz, quero trabalho bom, quero diversidade de vozes. E então eu não tenho esse sofrimento.

FMFelipe Moura Brasil

É lindo no discurso, agora no dia a dia tem o filho da puta que chega atrasado toda vez, porra.

WBWendel Bezerra

Mas aí é problema do corno que escalou, a você que escalou.

FMFelipe Moura Brasil

O cara não teve escolha, teve que escalar aquele filho da puta.

WBWendel Bezerra

Isso acontece, entendeu?

MRMauro Ramos

E aí joga o abacaxi no colo do dono, que é a distribuidora, que é o cliente. Aí fala, ó, o que que a gente faz?

FMFelipe Moura Brasil

Em todos esses mundos aí tu tá em paz, né?

MRMauro Ramos

Lugar cômodo.

FMFelipe Moura Brasil

É bom. O Miguel Caxechém, sei lá, mandou aqui, ó, uma pergunta ao Mauro e o Endel. Já teve algum momento onde vocês estavam dublando e choraram em uma cena? Chorar de emoção real, tanto da história enquanto acompanhavam ou na hora dublando?

MRMauro Ramos

Já várias vezes, e disfarço para ninguém ver.

FMFelipe Moura Brasil

Que fofinho, cara!

MRMauro Ramos

Mas é porque a gente atua, porra. Eu choro, eu disfarço. A única vez que eu não disfarcei foi com Hélio Ribeiro dirigindo uma série em que eu e a Melise Maia, a gente tava fazendo pais que tinham que tomar decisão de desligar os aparelhos do único filho deles. E puta merda, cara, foi uma coisa tão emocionante. A gente, a gente trabalhou de uma forma emocional tão intensa que depois da cena a gente se debulhou. Tive que ficar uns 15 minutos para voltar o negócio porque não aguentava.

FMFelipe Moura Brasil

Era a primeira vez, assim, Titanic é de 97, 99, por aí. 97, né? Então, em 1997 eu fui ver Titanic no cinema. Como eu fui, na real, 1997 eu tinha 12 anos. Eu fui ver, eu queria ver mesmo, era um filme dos Trapalhões.

MRMauro Ramos

Ai, meu Deus do céu, tudo a ver!

FMFelipe Moura Brasil

Saí de casa para ver um filme dos Trapalhões, era o, era um que tinha alguma coisa a ver com convento. Eu não vou lembrar o nome do filme. É, beleza. E aí eu cheguei para ver o filme dos Trapalhões, tava cheio, não dava para ver o filme dos Trapalhões. Não, não sei se era, não sei. Aí eu tava no cinema, então vou ver o Titanic, foda-se. E essa foi, foi aí que eu descobri que dava para tu chorar vendo um troço, entendeu?

MRMauro Ramos

O filme que eu mais chorei na vida como espectador é Em Cada Coração Uma Saudade. Da década de 40, em preto e branco inclusive, em que a história era que um casal morre num acidente e os 8 filhos ficam órfãos. E aí o mais velho e a mais velha, para poder fazer com que os irmãos sobrevivam, sai distribuindo os irmãos em parentes, amigos e tudo mais. E cada ida Sabe aquela coisa de não, não me deixa. Caraca, bicho, eu fiquei desidratado vendo aquele filme. Toda vez que eu vejo esse filme, eu me desidrato.

WBWendel Bezerra

Eu choro dublando assim, quando pinta uma cena assim, eu choro. Aí tecnicamente, como é que eu faço? Quando, por exemplo, eu lembro uma bem claramente, que foi quando o Buddy Valastro fala para câmera que, pô, a mãe tá com ela, né, descobriu e bababiu. E aí ele fala, eu tô ensaiando o texto, né, papai, ele falando, eu vou marcando pausas, essa tá curta, essa tá grande, não sei o quê, vou arrumando. Aí, porra, ele começa a chorar, embargar a voz, encher de lágrima e tal, e dá uma leve chorada.

E aí, claro que ali eu já me emocionei. Então, por exemplo, às vezes eu falo, ah, deixa eu ensaiar de novo. Numa cena dessa, eu não, eu arrisco. Porque eu quero manter a emoção viva, porque senão você começa a chorar ali meio falso e tal. Mas eu choro contando a história para o dublador. Eu dirigi um filme simples, simples, Amigos Imaginários, é para criança, pré-adolescente, família, uma coisa super— só que tinha alguns detalhes do filme que eram, para mim, eram tão bonitos, eram tão poéticos Que aí os principais, você vai contar a história.

Então cada vez que eu contava a história para os principais do filme, eu chorava, era meio ridículo. Aí eu começava a rir e ficar com vergonha, vai, desculpa, eu tô chorando, não sei o quê. Aí quando terminava, dublador vinha, porra, é bonito mesmo e tal. Tem uma cena linda da avó que, pô, é maravilhosa. Ah, porque é o seguinte, amigos imaginários, não, os amigos imaginários é coisa que para criança ver. Então a história é meio isso: os amigos imaginários estão morrendo porque as crianças não estão mais naquela pilha e tal.

E quem era criança já é adulto hoje, então eles estão ali do seu lado, por exemplo, e você não vê mais. E aí o lance é esse, esse resgate dos amigos imaginários e tal. E porém, à medida que alguns adultos começam a ver É muito bonito, é muito bacana. E a da vó da menina lá, tudo, puta, eu ia acordar, chorava.

MRMauro Ramos

Alguém tem lenço de papel aqui, ó?

FMFelipe Moura Brasil

E chorar com desenhinho, chorar com desenhinho dá, pode também?

WBWendel Bezerra

Eu choro com comercial de xarope.

MRMauro Ramos

Eu chorei no Bambi, eu chorei no Bambi.

WBWendel Bezerra

É, esse eu dei uma bambiada também.

MRMauro Ramos

Mas olha, eu sou da geração em que o grande trauma infantil de desenho foi a mãe do Bambi morrendo, né? Na tua geração foi o pai do Simba morrendo, né? Então eu não sei agora.

FMFelipe Moura Brasil

É, ó, outro dia minha filha gosta de ver uns desenhos lá, de umas animações. Eu gosto de anime, né? Então ela tava vendo lá uns do Studio Ghibli, Túmulo dos Vagalumes.

MRMauro Ramos

Nossa, Que lindo!

FMFelipe Moura Brasil

Sinistro, sinistro para caralho. É, teve, porra, Toy Story 3, quem não chorou também não tá vivo, né? Essa que é a verdade. Então tem alguns que não tem como, né? Essa que eu acho.

WBWendel Bezerra

Dirigir a dublagem de um filme, é um filme chinês talvez, pô, de zumbis, é O Trem para Busan.

FMFelipe Moura Brasil

Ah, então é coreano, você conhece? Bom para caramba, bom para cacete, porra.

WBWendel Bezerra

Eu chorei 3 vezes no final, né, que está ali no trem, que tem a menininha. Eu chorei 3 vezes dirigindo o fundo, dirigindo o outro, dirigindo a outra. Eu chorei 3 vezes, cara.

FMFelipe Moura Brasil

Então, porque, porra, eu me envolvo.

WBWendel Bezerra

É muito louco. Então me envolvo com a parada. Tem que se envolver, cara, senão—

FMFelipe Moura Brasil

eu também acho, também acho. Acho que é por isso que eu não sirvo muito para essas parada não. O Miguel Fernandes mandou aqui, esse eu já li, já li. É o, como é que é? Bom, vou pular essa para eu entender depois, tá bom? Eduardo Shoes mandou: estou há 51 dias mandando mensagem na DM do Insta do senhor Wendel pedindo que ele me ajude no meu pedido de casamento. Eu só preciso de um áudio dele com a voz do Sanji. Me ajudem para ele, para que ele responda, por favor.

WBWendel Bezerra

Caralho, cara, porra, eu recebo muito, assim, um volume absurdo, né, de mensagens. Então amigos meus, às vezes eu respondo 5 dias depois. O cara fala, caramba, você me escreveu no Insta, cara, não dá, né?

MRMauro Ramos

A gente recebe isso todo dia, várias vezes. Agora eu gostaria que tivesse um pouco de respeito, né, porque querem sempre que a gente faça de graça o trabalho que a gente ganha dinheiro para viver.

WBWendel Bezerra

É Bibi Ferreira, né? Falou, você tá querendo que eu te dê a única coisa que eu tenho para vender? Claro que eventualmente a gente brinca, a gente faz, mas se você deixar virar uma regra, fez para aquele, não fez para ele.

FMFelipe Moura Brasil

Que nem, ó, o cara para, o cara, você que tá assistindo vai encontrar o Wendel ou Mauro em algum evento aí e tem lá aquele meet and greet, tá lá o cara lá tirando foto todo mundo, tem mó filão do caralho. Tu não é o único que quer um vídeo, porra, mas não pede a porra do vídeo, porque senão todo mundo vai pedir a porra do vídeo e vai demorar 10 vezes mais para todo mundo, né? Então aí quando a gente fala, pô, mané, não vou gravar vídeo não, o cara deve ficar puto.

Mas como eu vou parar para te explicar para todo mundo que vier pedir vídeo que, pô, não vou gravar um vídeo, então vai demorar 10 vezes para aquele cara lá eu conseguir tirar foto dele e curtir o evento, tá ligado? Não dá para fazer vídeo, por exemplo, essa é uma das coisas.

WBWendel Bezerra

Tivesse um celular para cada 1 milhão de pessoas, beleza. Mas como todo mundo tem, o cara viu o vídeo, ele também quer, o outro também quer, e tem a pessoa sem noção que faz um agora para minha mãe, puta, faz um para o meu tio, faz um para minha namorada. Aí não termina, é o que você falou. E porra, tá rolando, o evento tá rolando, a gente tem que objetivar.

MRMauro Ramos

E por isso é que eu encaminho sempre um pedido desse para o cara fazer o pedido através do site Nossas Vozes insiders.org, porque ele vai pagar R$35, eu vou poder fazer, tá resolvido, irmão, eu faço o que ele quer, entendeu? Só que com as distribuidoras dizendo não pode fazer, que é porque esse dinheiro vai se juntar a outros R$35, mais outros R$35, e vai ajudar colegas que estão passando necessidade, que estão passando dificuldade.

Quem normalmente é uma pessoa que realmente tá a fim do negócio, ele vai lá e paga 35 conto e pronto, eu gravo.

FMFelipe Moura Brasil

Provavelmente eu vou defender o Eduardo, que provavelmente ele nem sabia disso. Vamos colocar na descrição. Então, como é o nome disso aí?

MRMauro Ramos

nossasvozes.org.

FMFelipe Moura Brasil

Você chega lá, tem, provavelmente mandou R$20.000 para mandar essa Entendeu?

MRMauro Ramos

Então é legal fazer isso.

FMFelipe Moura Brasil

O Pedro B, Pedro B28 mandou aqui: Wendel, se puder responder, você e a Úrsula aparecem bastante na mídia, por que o teu irmão Ulisses não aparece tanto? Ele não gosta de redes sociais ou algo do tipo?

MRMauro Ramos

Ulisses tá na Odisseia, né?

WBWendel Bezerra

Eu acho que eu Viu?

MRMauro Ramos

Também fiz.

WBWendel Bezerra

Não estou aqui a passeio.

MRMauro Ramos

Claro que não. Aliás, eu vou dar um passeio.

WBWendel Bezerra

Eu acho que é o perfil do Ulisses. Ele é mais— ele sempre foi mais recolhido, mais recatado, mais fechado, mais tímido. Eu acho que eu sou tímido, mas Mas o Ulisses gosta mesmo do anonimato. Exato. Eu acho que ele, tanto que teve um período que, bom, se bem que eu me formei em Direito, mas assim, ele chegou a trabalhar de terno e gravata e tal. E aí acho que com a dublagem, ele vendo a possibilidade do que seria, do modus operandi da dublagem, aí ele voltou e aí se entregou só à dublagem, porque era isso, permitia ele trabalhar como ator mas com razoável discreção assim. Então acho que é mais a pegada dele, é essa, eu acho.

FMFelipe Moura Brasil

Tá, o Mr. Lucas Fer mandou aqui, ó: boa noite a todos, super fã de todos aí na mesa. Puta que pariu, vou pular. O Elrena manda aqui, ó: salve, Gão, Wendel e Mauro, contem um pouco sobre a experiência de dublagem de JoJo's Bizarre Adventure. Insiders. E se puderem, mandem um salve com as vozes dos personagens, que tem R$5 lá no org lá. Nossa, as vozes são muito boas. JoJo's Bizarre Adventure, não sabia que você estava envolvido no JoJo's.

WBWendel Bezerra

Ah, meu Deus!

MRMauro Ramos

É isso, pronto, pessoal gosta.

WBWendel Bezerra

Eu fiz o primeiro JoJo, né, o Jonathan, mas eu não sabia nada a respeito.

MRMauro Ramos

Aquilo é muito bizarro.

WBWendel Bezerra

E aí então eu demorei sei lá, tipo um episódio talvez para sacar que é meio novela mexicana. Eu demorei um pouquinho para sacar.

MRMauro Ramos

Então, com modelos masculinos, e o Jonathan, ele é super bonzinho.

FMFelipe Moura Brasil

Então, novela mexicana é só a primeira parte, tá? Eu vou defender aqui que você é fã de Jonathan, que depois Jonathan morre, fudeu, não tem mais Jonathan, né?

WBWendel Bezerra

E aí, então, aí eu saquei. Então eu fazia essa coisa meio over assim, do bonzinho, bonzinho, do dramático, dramático e tal, mas eu curti bastante. Eu queria ter tempo para assistir.

FMFelipe Moura Brasil

É muita bizarrice mesmo, achei muito louco. E chega na— é assim, o legal é que você consegue meio que assistir cada parte separado uma da outra, né? Então a primeira é uma novela mexicana mesmo, a segunda parece uma história de gangster meio na Inglaterra assim, que é legal para caralho. É o neto do Jonathan Que é o Joseph, para mim é o melhor de todos. Ele resolve os problemas dele com— ele é malandro de rua e ele resolve os problemas dele sendo malandro de rua.

Então tem hora que ele fala assim, caralho, já tentei de tudo, estouramos o cara com a granada, uma porra de um vampiro, demos tiro para cacete dele. Ele resolve os troços de um jeito assim, malandragem de rua, né, o jeito que ele resolve as coisas. Aí ele, pô, agora eu já sei o que a gente tem que fazer. Aí o Smoke fala para ele, o quê? Ele sai correndo, aí ele sai correndo, deixa para lá, foda-se, foge, que se foda o mundo. Ele várias vezes nessa, na segunda parte, ele foge.

A arma dele é um ioiô, cara, é mó doido, é bom para caramba, mas é bizarrice, entendeu? E agora na sexta parte, é uma obra dos anos 80. Sério?

MRMauro Ramos

Meu Deus do céu, é a mesma coisa que o cara vai assistir A Paixão de Cristo e o sujeito sai na fila e diz assim, ó, o mocinho morre, viu, crucificado. Pô, que spoiler é esse, caralho?

FMFelipe Moura Brasil

Eu preciso só ver aqui, vem para mim rapidinho.

WBWendel Bezerra

Eu só falei isso para vocês se esculacharem mesmo.

FMFelipe Moura Brasil

É que eu não sei de quando é Stone Ocean, tá ligado? Mas nem tem celular no bagulho, então é, eu acho que é antigo para caralho. É que é só a última parte que eles animaram, né? E aí, bom, no fim, na sétima, fica tão maluco o bagulho que tem que resetar.

WBWendel Bezerra

É mesmo?

MRMauro Ramos

Que coisa bizarra.

FMFelipe Moura Brasil

Começa a ficar bizarríssimo que tem que resetar. O jeito que reseta é bizarro.

WBWendel Bezerra

Me disseram que o Jonathan volta de alguma forma, em algum momento.

FMFelipe Moura Brasil

O Jonathan, o corpo do Jonathan— vamos lá, o primeiro inimigo do Jonathan é o Dio. O Dio vira um vampiro.

WBWendel Bezerra

Eu odio ele.

FMFelipe Moura Brasil

Todo mundo ama.

WBWendel Bezerra

Aí o Dio, o Tore ama. Que saco, né? Que saco!

FMFelipe Moura Brasil

Não, eu ia dizer, aí o Dio, na primeira parte, o Dio meio que é derrotado e ele morre, perde, fica só a cabeça. Mas essa cabeça mata o Jonathan. Com disparo de laser no pescoço. E aí o Dio toma o corpo do Jonathan, e aí tipo tira a cabeça do Jonathan e bota a cabeça do Dio, mas é o corpo do Jonathan. Então ele não volta, pelo menos não até onde eu vi, né? Mas essa é o máximo, mas é bom para caralho, mas é mó maluquice, mó maluquice. E as cenas, sabe como é que é, né?

MRMauro Ramos

Tudo é, eu acho foda.

FMFelipe Moura Brasil

E tem que ter uma mãozinha, a outra mãozinha tem que estar também aqui, tá ligado? Mas tu já viu como é que o cara desenha? É muito foda. Ele pega assim, ó, aqui eu já vi ele desenhando um painelzão com os personagens dele. Aqui ele coloca uma revista com Gisele Bündchen, desfile de modelos posando, não sei o quê. E do outro lado ele coloca uma, sei lá, uma estátua renascentista, tá ligado? E ele desenha baseado nisso. Tem um, eu já vi em alguns lugares assim, é o desenho dele, do lado a referência.

Então a referência era uma pose da Gisele Bündchen, por exemplo, e aí ele fez. Muito maneiro, eu acho maneiro para caralho. Não tem nada a ver com moda, mas eu acho maneiro para caralho porque é bizarro. Bom, O Mr. Lucas Fer mandou: boa noite a todos, super fã de todos aí na mesa. Mauro, sou muito fã das suas narrações de audiobooks, me aproximou dos livros depois de Velho KKK. Qual a maior dificuldade em fazer um trabalho como esse? É facinho, cara, é fácil. Idiota faz.

MRMauro Ramos

Exatamente, qualquer padeiro, coitado, né, acorda às 3 horas da manhã e vai fazer fazer uma narração. Não é assim, mas a dificuldade é mais de meta. Se é um romance, eu costumo interpretar para fazer com que o ouvinte imagine. O narrador de histórias, ele tem uma tradição de mais de 3.500 anos. Era aquele pessoal que contava determinadas coisas em volta da fogueira. E ao longo do tempo, todas as civilizações tiveram contadores de história.

Para mim, a minha visão é essa: é você fazer como no rádio se fazia, que era o ouvinte imaginar o que tava acontecendo. Só que a responsabilidade de imaginar o que tá acontecendo é sua. Não tem o recurso de barulho de porta, cavalo, essas coisas todas. Agora, quando é um livro técnico, por exemplo, não tem o que fazer, é ler de uma forma como se você tivesse fazendo uma palestra para alguém, porque você também tem que manter o interesse dessa pessoa e não pode ficar uma coisa monocórdia e tal.

Senão o cara ou dorme ou bate o carro. Então a grande dificuldade é essa, com a meta, conforme eu, como eu vou trabalhar, né, aquele texto.

FMFelipe Moura Brasil

Entendi.

WBWendel Bezerra

Daí tem outra parte que o Mauro não tá contando.

MRMauro Ramos

O quê?

WBWendel Bezerra

Não, mas que você vai concordar comigo, que quando você tá narrando um livro Cara, a tua dicção tem que— porque uma coisa é você interpretar, então eu posso falar porque uma coisa num filme. Você narrando, porque uma coisa, a sua dicção tem que estar muito boa, mas ao mesmo tempo ser natural, é fluir bem. E aí tem coisa de saliva, tem estalo de boca, tem o fôlego. Você não pode narrar o tempo inteiro Então você também tem que ter a manha de controlar a tua respiração pra cadenciar.

Então tem a parte técnica também, que é um puta trampo. E tem os personagens que vão surgindo ao longo da história, que aí você cria uma voz, cria um tipo que vai ser sempre a sua voz. Você não vai fazer uma voz, sei lá, completamente diferente. E nisso, e ele falou, então vocês estão aí, não sei o quê. Aí ele não sei o quê, quando o menino respondeu, mas senhor, essa brincadeira de ser o narrador, o personagem, né? Volta para o personagem daqui 2 capítulos, aquilo que ele falou, pô, como é que era a voz?

FMFelipe Moura Brasil

E eu fiz um que, porra, se fodeu então.

MRMauro Ramos

Imagina, não, eu fiz, o pessoal gostou.

FMFelipe Moura Brasil

Inclusive não ficou bom, mas foi um trabalho do caralho.

MRMauro Ramos

Pior para mim, sabe o que que foi? Aprendi a falar élfico. Que não existe.

FMFelipe Moura Brasil

É verdade, eu não— calma aí, tu teve que ficar cantando aquela musiquinha?

MRMauro Ramos

É, e eu tive que inventar. Vai lá, escuta, prestigia este pobre.

FMFelipe Moura Brasil

Então tá, então eu vou pela sala 6.

MRMauro Ramos

Toda vez eu fiz Senhor dos Anéis, Hobbit, tá, Silmarillion.

FMFelipe Moura Brasil

Hobbit é um bom lugar para começar porque é mais simples.

MRMauro Ramos

E a biografia do Tolkien, e fiz toda a coleção do The Witcher.

FMFelipe Moura Brasil

É muito, na real, esse eu nunca li, então ia ser legal.

WBWendel Bezerra

É, ficou legal.

MRMauro Ramos

Então vai lá prestigiar o velho, vou lá prestigiar.

WBWendel Bezerra

É, eu fico, é, eu fico.

MRMauro Ramos

Como é que não, não, é zoado teu Tom Bombadil? Só fala cantando, animado, pelo amor de Deus. É verdade, caraca, pelo amor de Deus. Chega uma hora que é chato pra cacilda.

FMFelipe Moura Brasil

Mas o que que você acha? No caso do Senhor dos Anéis, o Tolkien, ele era tão incrível que ele deixou escrito como era para chamar o Frodo Baggins em português, né? Que é Frodo Bolseiro. Ninguém traduziu, foi o Tolkien que disse que era Frodo Bolseiro.

MRMauro Ramos

Isso.

FMFelipe Moura Brasil

Eu não sei, no entanto, se esse nível de cuidado veio para música, para fala do Tombom Badil.

MRMauro Ramos

Veio, veio, veio. Outra coisa, barbávores, tá, sabe aquela coisa?

FMFelipe Moura Brasil

O entebate deve ter dado, deve ter demorado, né?

MRMauro Ramos

É muito, que eles são muito lentos para lá, né? E eu não podia deixar de fazer dessa forma porque tá no imaginário popular do mundo, né?

WBWendel Bezerra

Então, e teve um livro que eu narrei que quando a gente foi começar o trabalho, aí eu tive que parar, perdemos alguns dias, porque até meio delicado, né, você falar com cliente porque você não quer, enfim, detonar ninguém, mas assim, tava mal pontuado.

MRMauro Ramos

Ah, mas isso é importante, eu recomendo.

WBWendel Bezerra

Aí não dá para eu ler, você tá fazendo, fazer, não, espera aí, essa frase não faz sentido, não tá faltando, porra, aqui tá a conjugação tá errada. Aí eles tiveram que fazer uma revisão e aí veio direitinho, aí você consegue fazer o teu trabalho e o trabalho do cara, né?

FMFelipe Moura Brasil

Aí é foda.

MRMauro Ramos

Eu li um livro que ganhou inclusive o Prêmio Nobel de Literatura no esse ano aí em que o cara não faz pontuação nenhuma, é direto, você que tem que adivinhar. Aí você vai, você, pera aí, não faz sentido isso, volta lá. Ah não, ele não botou o ponto aqui. Ah meu Deus, entendeu? Aí uma coisa que você poderia fazer em 2 sessões você faz em 6, porque você tem que ficar parando. Meu Deus, deixa eu entender o que que tá escrito aqui, entendeu? É meio brabo.

FMFelipe Moura Brasil

É isso, né? Então, Mauro, Wendel, muito obrigado pela moral, muito obrigado pelo tempo dos senhores. É isso mesmo.

MRMauro Ramos

Deus te abençoe, meu filho.

FMFelipe Moura Brasil

Amém. É bom, Mauro, essa daqui é a tua câmera para você falar. Tem gente que tá só ouvindo a gente, lembra? Como é que esses caras te encontram na internet?

MRMauro Ramos

Olha, Instagram e TikTok é Mauro Ramos Dublagem. Tô lá, apareço, falo bobagem, falo coisas sérias, e quero contar com seu prestígio. Por favor, apareçam lá.

FMFelipe Moura Brasil

E Wendel, essa daqui é a tua.

WBWendel Bezerra

Senhoras e senhores, pois é, eu também no Instagram, Wendel_Bezerra. Wendel é com um L só, fico doido quando alguém escreve com dois. O que que tá no título aí, gente? A gente não conhece, erra um pouco. No TikTok, público mais jovem, eu sou o Tio Wendel.

FMFelipe Moura Brasil

Porra, é um bom perfil, né?

WBWendel Bezerra

Muito bom, Tio Wendel.

FMFelipe Moura Brasil

E é isso, então tá aí, ó. Você aí que tá ouvindo a gente, cara, segue os cara lá nas redes sociais. A gente vai deixar facinho para vocês aqui no comentário fixado, só clicar e já era, já tá Quer dizer, já tá no perfil deles, aí se segue. E entra aqui na descrição, cara, que tem lá o Discord para você sugerir novos convidados aí, novos temas também. Vira membro do Flow, que a gente cria conteúdo para você o tempo inteiro. Fica o babaca do Redon ali todo dia fazendo, pensando em, né, coisas para a gente fazer para os membros aí.

E custa menos de R$8, nem para comprar uma seda, tá bom? Então é basicamente isso, gente. Obrigado, valeu, Wendel.

WBWendel Bezerra

Obrigado, valeu, Mauro, mais uma vez. Valeu.

FMFelipe Moura Brasil

E um beijo para vocês, boa noite, tchau, boa noite!

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