Episódios de Flow Podcast

LEANDRO KARNAL - Flow #607

26 de maio de 20261h59min
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IA sob o viés da ética/filosofia

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INSIDER

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Assuntos1
  • Inteligência Artificial e o Futuro do TrabalhoIA como ferramenta e solução · IA generativa e superinteligência · Impacto da IA na busca e na criatividade · IA e a simulação do pensamento humano · Robôs antropomórficos e personalização · IA como terapeuta e equalizador de habilidades · IA e a podridão mental · IA e a experiência de síntese · IA e a perda de consciência · IA e a velocidade da tecnologia · IA e a desvantagem competitiva · IA e a ética da autoria e copyright · IA e a visão ingênua do conhecimento · IA e a revolução cognitiva · IA e a concentração de poder · IA e a desumanização · IA e o usuário parasita · IA e o novo mito
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This is the flow. Salve, salve, família. Bem-vindos a mais um Flow. Eu sou o Igor e hoje eu vou conversar com o professor Leandro Karnal. Mais uma vez, obrigado pela moral, cara.

Eu tô que nem Herpes, tô voltando, né? Porra, eu adoro quando isso acontece, pra ser sincero. Tava te falando aqui, na verdade a gente tava conversando um monte aqui antes de começar, o que eu sempre considero, ó, tem uma galera que chega aqui tensa pra caramba, aí fica, porra, aí eu chamo o cara, chega, entra no estúdio mais cedo, a gente começa a trocar uma ideia, não sei o que, pro cara aí ficando mais tranquilo, né? Quando é uns caras que nem tu assim, eu chamo pra gente ficar aqui trocando uma ideia pra...

pra fazer isso comigo, pra eu ficar mais suave, entendeu? Pra ver que o cara também tá no mesmo patamar, mas no mesmo planeta que eu, né? É porque, a gente deu aula, você também deu aula pra adolescente, pra criança, é muito mais fácil conversar com adultos num ambiente controlado. Então, eu não fico tenso nesses ambientes, eu acho que é muito mais difícil ser um professor numa sala de aula com 35.

alunos do que conversar sentado numa mesa. De fato, de fato, assim, é muito mais gostoso, muito mais bom. Você que quiser participar desse papo aqui com a gente, você pode mandar tua mensagem pelo LivePix, tá bom? Tem um QR Code aqui, o link na descrição e o Janzão vai escolher os cinco melhores a ele, me manda aqui e eu leio no final.

Sei lá, vai que você quer perguntar alguma coisa Ou ficou faltando falar de alguma coisa aqui Fica à vontade, manda tua mensagem aí E eu queria também mandar um salve aqui para os parceiros de hoje Que é a Insider, a Hashtag Treinamentos E o G4, tá bom? Bom, a Insider, olha aqui Quem faz esse casaco que eu estou usando hoje Inclusive faz também a camisa que eu estou usando por baixo aqui

Cara, a Insider está com uma promoção aqui diferenciada para você que está ainda considerando, já ouviu falar de Insider muitas vezes, mas ainda está considerando, cara, será que eu devia? Pô, não sei se é legal, estou acostumado a comer camisa de algodão. Se você nunca experimentou uma Tech T-Shirt da Insider, nesse momento, se você usar o cupom FLOW, você vai ganhar 30% de desconto na tua compra, na tua primeira compra. Isso significa que você vai ter a chance de experimentar...

uma tecnologia que a gente já está falando aqui há um tempão, que você já deve ter ouvido falar um monte de vezes de todas as coisas que tem em todas as peças da Insider, né? Por exemplo, tem um conforto térmico diferenciado, tem um caimento legal, a Tech T-Shirt não precisa passar, né? Ela, porra...

Só o lance de tu poder viajar com ela na mala e tu poder vesti-la e ela desamassa no teu corpo já é um grande diferencial, na minha opinião. E vai lá, experimenta e aproveita essa chance aí de ter esses 30% de desconto aí na tua primeira compra usando o cupom FLOW, tá bom? O QR Code, o link na descrição, já vão com o cupom aplicado. Vai lá que eu tenho certeza que tu vai se amarrar, tá bom?

Professor, a gente estava conversando um monte antes aqui de começar, mas a gente, propositalmente, eu não quis tocar no papo da inteligência artificial, que eu queria, bom, eu queria que todo mundo ouvisse na real o que tem para dizer sobre isso, né? Bom, para começar, a gente está vendo uma tecnologia...

que ela promete uma transformação, no mínimo, do nível da internet. Tem gente falando que é uma coisa que vai ser ainda mais grandiosa. Se a gente for pensar como era a internet antes daqueles nossos 56 KBPS lá da discada, que a gente, para ouvir uma música, por exemplo, a gente tinha que esperar chegar de algum lugar e tudo mais.

naquela época a gente estava vendo já uma transformação e uma conexão com o mundo quem não lembra lá de 2001, 2002 o primeiro filme que a gente começou a ver transferido pela internet eu lembro, era o Homem-Aranha o primeiro filme do Homem-Aranha a galera fazendo pirataria

Então, hoje a gente vê a possibilidade de existir um programa como esse, que não dava para imaginar isso quando a gente estava falando da internet lá atrás, no Modem de 56 KBPS, quando a gente estava descobrindo o Google. Cara, a inteligência artificial, tem gente dizendo que a gente está mais ou menos nessa época. Imagina quando a gente chegar na fibra ótica, entre aspas aqui, da inteligência artificial.

a gente já olha para ela como uma solução, às vezes até grande demais. A gente viu pessoas usando inteligência artificial como se fosse psicólogo, por exemplo. O que você está vendo? Essa ferramenta, na sua opinião, somado aos hábitos de consumo de internet que a gente já tem,

em 2026, que tem a ver com o custo de atenção das coisas, a gente fica menos tempo, ou tende a ficar menos tempo, cada vez mais raro as pessoas leem um livro, por exemplo, mais a inteligência artificial e o avanço dessas tecnologias, a gente vai fritar, ou a gente vai ficar como?

Quase sempre as pessoas perguntam, Igor, sobre o futuro. O dramático para o historiador é que, com alguma sorte, eu sei alguma coisinha do passado, mas o futuro, o que vai acontecer, é muito difícil. Nós estamos diante de uma grande mudança. A Revolução Industrial liberou o ser humano em uma parte do trabalho braçal. As máquinas fizeram. Ainda que a Revolução Industrial se faça com o trabalho humano associado a máquinas. Pelo contrário...

O surgimento das máquinas aumentou a prisão do trabalho para muita gente. Trabalho infantil, trabalho feminino e assim por diante. A nossa inteligência ativistal está prometendo fazer o mesmo pelo cérebro. Ou seja, libertar as pessoas desse peso de procurar. Quando você citou o Inista Internet, eu acompanhei o Inista Internet. Acompanhei a revolução que significa isso. Sou a geração, eu sou um baby boomer, eu sou de...

63, provavelmente o penúltimo ano do Baby Boomer, outros datam como o último. Eu acompanhei essa revolução. Memória. Eu me lembro das coisas de 256, eu lembro das coisas de 500 megabytes, eu lembro das coisas chegarem a 1 terabyte. Hoje nós temos aqui um 4 terabyte de 9 milhões de bytes. É 1 seguido de 30 zeros.

Porque esta internet das coisas, mais inteligência artificial, ela vai pressupor uma nova medida. Nós não podemos nem imaginar o que sejam quetabytes. Não podemos nem imaginar isso. Se o homem foi à lua com memórias de computadores que hoje estariam menores do que do meu celular, então o que significa isso?

O Yuval Harari, no livro Nexus, fala dessa visão ingênua de conhecimento, que as pessoas acham que quanto mais conhecimento, mais livre você será, o mundo será mais liberto. Nós não mexemos apenas na capacidade de busca e de pesquisa. Então existe um patamar, que seria o patamar que você citou, o patamar do Google.

Ao invés de eu abrir a Barça ou a Britânica, eu acesso o Google. Então eu acelerei a busca. O que faz? A inteligência artificial é o que mais se aproxima do próprio cérebro humano de criação. É uma inteligência artificial generativa, geradora de coisas. E já há uma super inteligência artificial. Ela tem consciência, um recente diálogo com o intelectual, ele constatou, eu acabei de fazer um...

Um longo diálogo que está indo ao ar também com o Claude sobre contradições, sobre Claude me agradando. Perguntas por que escolher um nome que em latim quer dizer o que manca, né, Claudio? Aquele que manca. Por que ela escolhe esse nome? Acabei de gravar uma longa conversa com a Claude, com o Claude. Não sei se é It, ele ou ela.

E dá respostas muito interessantes. Mas expandiu a memória e não é apenas a expansão da busca, é a capacidade de equalizar as pessoas, já que você e eu e qualquer pessoa aqui, sabendo alimentar o prompt, nós faremos um texto de qualidade. Perfeito. E eu posso equalizar habilidades, como se eu adquirisse uma capacidade nesse momento de estar ao lado de grandes autores.

Não há ainda uma inteligência artificial, apesar do nome ser usado. O que nós temos é um sistema que vai reunir tudo o que é feito. Metáfora que o Marcos Bruso usa no livro Seremos Dados é um espelho. O espelho sempre mostra o passado. Então eu posso pedir a minha inteligência artificial. Faça um texto imitando Clarice Lispector.

Ele vai fazer um texto muito bom. Se o Del Prompt for educando, vai dar um texto muito bom. Mas nunca causará o impacto que em 1943 teve a Clarice quando lançou Perto do Coração Selvagem, ou A Paixão Segundo GH, e outros textos, ou A Hora da Estrela, seu último romance.

O que significa isso? Eu tenho uma internet espelho, uma atividade espelho que mostra o passado, que não pensa ainda, apenas simula o pensamento humano, mas ela está crescendo exponencialmente, mais do que geometricamente. Significa que talvez em breve sente. Você diz que a grande revolução, você indicou, para mim, a maior revolução será o dia que esta inteligência artificial for associada a objetos antropomorfos, a robôs.

E você tenha disponível no mercado, por exemplo, um robô amigo, treinado para lhe agradar. Um robô amigo que só queria escutar, concorde com você, que só diga expressões como é fogo, é difícil. É foda. Eu te entendo, é foda. É, acabou a humanidade, né, professor? E que eu possa escolher, já pensou, todo o seu imaginário sexual, não precisa desenvolver, não queremos.

mas no corpo perfeito que você deseja e dizendo o que você quer. E você pode educar, não, um pouco mais submissa, um pouco mais atrevida, um pouco mais... E você pode decidir os decibéis do gemido da sua companhia. O dia que surgir isto...

isto sim é uma revolução porque esta particularização essa customização da atenção vai ter chegado a um ponto incontrolável se eu posso fazer hoje terapia eu conheço uma pessoa que faz com inteligência artificial imagina quando for customizado ao ponto de ser um ser humano sentado me entendendo

E quando apontar contradições, aponte no grau que eu quiser. Você não deve me contrária completamente. Você pode dizer que aqui eu poderia ver esse aspecto, mas deve sempre me apoiar. É melhor que qualquer terapeuta. Não sei se é mais eficaz, mas é melhor. Eu fico pensando, esse cenário que você está descrevendo aí, ele me parece perfeitamente possível.

sabendo que agora o que falta para que isso seja possível é o tamanho do contexto das LLMs. Então, à medida que isso vai expandindo, ele vai conseguindo carregar todas as informações de um paciente específico, isso vai se tornando possível. No entanto...

será, assim, quando a gente pensa em, putz, eu queria que fosse um ser humano pra eu conversar, porque um ser humano, ele reage, um ser humano, ele se conecta, um ser humano, e mesmo que a gente imagine que uma máquina vá conseguir fazer tudo isso, eu, que sou um millennial, eu ia, imagino, preferir, em geral, seres humanos pra, eu não quero conversar nem com o robô do telemarketing, quanto mais fazer uma consulta de psicólogo.

O robô do telemarketing imita mal um ser humano. É verdade. E nós estamos diante de um patamar que vai fazer muito melhor. Não é ainda, e não será talvez o paraíso. Tem um estudo feito pela Universidade de Cornell que submeteu três grupos de alunos a fazer um texto. Um grupo não pôde usar nenhum recurso, só criou o texto. Outro grupo pôde utilizar sites de busca como o Google. E um terceiro pôde usar chat GPT. O resultado dos textos foi muito parecido.

bons alunos de uma excelente universidade americana, produziram textos muito parecidos. O que é surpreendente nesse estudo, que é de 2025, é que 89% dos alunos que usaram sua própria capacidade sem auxílio, sem bengala, ou os do Google, eles podiam reproduzir 89% do texto que eles criaram. Os que utilizaram chat GPT reproduziam 13%.

Então, o que aumentou é uma capacidade produtiva sem aumentar uma consciência do que se faz. Caracterizando o que se usa o termo, o Brian Roth, para falar de uma podridão mental, que é gente produzindo muita coisa, Sociedade do Cansasto, Bion Churran, muita coisa, mas sem consciência do que está fazendo. Então, eu posso sintetizar todos os livros em minutos, mas a experiência dessa síntese pronta...

Ela não é a mesma experiência. Eu acabei de reler Ana Carienina, porque eu tinha lido, jovem, Tolstói, traduzido francês. Então, fui ler a tradução de um amigo meu, que lançou Ana Carienina, e foi extraordinário o livro. Extraordinário, agora traduzido do Rio. Irineu Franco, perpétuo tradutor.

É extraordinário. E o bom do livro é que é aquele livro que faz bem para o tríceps, sabe? O livro que você segura e define o tríceps. E essa experiência de ler um livro gigantesco.

que eu tomei por mim, que eu vou reler obras grandes, ela é um exercício mental. Então, até ela entrar na sala, quando a Ana Carienina chega a uma sala, o que ela já descreveu, ela obriga meu cérebro a uma velocidade oposta à que eu estou acostumado. Então, ela entra, a porta abre, ela sente um leve odor na porta de madeira, mas depois ela entra a um tapete vermelho do lado esquerdo que descreve uma cena de um bosque.

Até ela sentar. Então, tudo é num ritmo oposto a Velozes e Furiosos. Eu considero Velozes e Furiosos o ritmo contemporâneo de cinema clássico. Explode um carro, quando o carro está explodindo, caem mais dois explodindo, e um cara rola por cima explodindo também. Você não tem um minuto para... Os cortes são muito curtos. Isso.

Daí você vai para o cinema iraniano, você vai para o cinema francês de expressão, e aí tudo é lento. Ou num outro tempo. Num outro tempo. A grande questão é que esse outro tempo destrói sua consciência e sua capacidade. Veja.

Eu tenho diploma de datilografia. Nossa! É uma das minhas inúmeras habilidades inúteis. O teclado da datilografia, o teclado QWERTY, que é o mesmo que se usa até hoje. Por que a letra A está no dedo mínimo? Porque ela é muito usada em todas as línguas latinas e ocidentais.

Se eu colocar a letra A no indicador, que é muito mais forte, eu vou teclar, eu vou datilografar em uma velocidade que as teclas não conseguem voltar. Os que nos acompanham e tem mais colagem, não imaginam o que eu estou falando. A máquina pressionava uma alavanca, que pressionava um tipo, que pressionava o papel com uma feita. Muito bem.

Eu vou fazer recurso para que eu não consiga datilografar tão rápido para não estragar a máquina. Ou seja, a máquina é mais atrasada do que eu, humano. E quando dava um problema, o problema era da máquina. Sim, tá. Hoje eu digito, e não importa a velocidade que eu tenha...

ele vai mais rápido. E se dá um problema, o computador sempre nos diz, o idiota é você. Se você soubesse formatar isso, se você soubesse fazer isso, o imbecil é sempre o usuário. Sempre o usuário. Então nós criamos uma dimensão não humana da tecnologia. Essa dimensão não humana deixa as pessoas muito estressadas.

Todos nós, e olha que eu fui alfabetizado da maneira antiga, temos dificuldade hoje de ler um texto do Zap, porque você deduz na velocidade do Zap. Então a pessoa me diz, acabei de receber um convite para uma peste de teatro, a pessoa me disse que será tal lugar, tal teatro às 20 horas. E eu respondo a ela, e que horas? Então eu, que sou um bom leitor, eu leio tão rápido.

que eu passo por cima. Isso está coletivo. Por isso que o foco hoje é a grande revolução. É verdade. Se eu tivesse que dizer o que alguém pode fazer para se distinguir, para ficar muito acima da média, para crescer, é educar o foco. Por isso que eu estou relendo obras grandes. Você está sobre reler obras, sobre reler coisas ou ler coisas de uma forma geral?

Eu estava refletindo esses dias aqui sobre isso mesmo, sobre a velocidade que a gente está acostumado já a operar, né? E como isso atrapalha alguns hábitos que são como ler. Aí alguém diria que há...

Eu não preciso ler esse livro, sei lá, O Conde de Monte Cristo, não preciso ler O Conde de Monte Cristo, porque, sei lá, se eu for no chat IPT e pedir um resumo, eu consigo entender mais ou menos qual que é o do livro ali. Perfeito, perfeito. Eu fiquei pensando, professor, que não é a mesma coisa que eu descrevia para uma pessoa que nunca viu o azul, o que é o azul.

ler esse texto um resumo do que é o Conde de Monte Cristo? Porque veja, é diferente você saber o que é azul e você experimentar o azul. Conde de Monte Cristo é uma obra extraordinária e a grande questão da obra é que você pegar um jovem trabalhador e idealista que é enganado por seus amigos, é condenado a uma prisão terrível, o castelo de Ifo, e lá nessa prisão ele vai amargar uma experiência de dor e de traição.

vai se aproximar de um abade que lhe dá as instruções em línguas, em tudo, e vai abrir caminho para chegar ao tesouro e para formular sua vingança em Paris, agora como conde de Monte Cristo. A grande questão é que este é o enredo que eu lhe narrei em 30 segundos, é uma história interessante, mas se você acompanhar a mudança,

que vai ocorrendo nele, essa mudança é lenta. E você vai aprofundando essa experiência de sutileza. Por que a Finlândia alfabetizava em telas a partir do século XXI e agora voltou completamente atrás? Por que a Suécia acabou de imitar?

a Finlândia, proibiram telas até o nono ano fundamental. E descobriram que quem lê em telas e lê rapidamente não lê microexpressões faciais, não tem motricidade fina a capacidade de pegar uma caneta. Quem não tem motricidade fina, se for uma mulher, por exemplo, pegando uma tradição cultural, vai ter dificuldade de se maquiar.

porque a maquiagem é profundamente motricidade fina. Se for alguém trocando a fralda de um bebê, vai ter dificuldade, porque há detalhes em limpar dobrinhas para impedir a assadura, que eu preciso de motricidade fina. E na comunicação intra-humana.

A grande questão é que esses textos grandes ou densos, pode ser um texto menor, pegar um texto de 42, O Estrangeiro do Camus, um texto pequeno, super pequeno, um conto grande como Alienista do Machado de Assis. Eu vou acompanhando o Dr. Simão, ou vou acompanhando o Mersot no Estrangeiro e vou vendo como ele vai construindo essa indiferença dele diante do mundo.

Porque tem romances, como eu citei aqui a Paixão Segundo GH, da Clarice, que não acontece nada. É um romance do nada. Ela entra num apartamento vazio, ela vai comer uma barata, ela vai reclamar da empregada que limpou o apartamento, mas não tem nada.

Não acontece nada, é um romance num apartamento de uma mulher brilhante, descrita por uma mulher mais brilhante ainda que a própria Clarice. A lentidão dessa narrativa lhe atrai para um mundo muito mais interessante. Então, o que eu diria? Você quer comer? Vou lhe dizer uma coisa dos meus tempos estudantes, miojo é ótimo.

comi muito miojo. Com banana, então, é uma receita deliciosa. Enche, você prepara em alguns minutos e pronto. Miojo é ruim? Não, eu sempre gostei. E você varia camarão, é chique, você varia os envelopes. O pobrezinho que tu quer colocar. Exatamente. Você come o miojo. O miojo sacia a sua fome, você não vai morrer de fome. Você dorme feliz. Aconteceu muito comigo isso.

Mas você quer cozinhar com amigos uma massa de grão duro? E quer planejar 9, 11 ou 13 minutos, dependendo da massa, e discutir com os amigos o ponto, e ir tirando para ver se está al dente, e depois fazer um molho tirando a pele do tomate, e depois ralando seu queijo no meu preferido grana padano, ou pecorino, ou parmesão?

E depois, vendo aquele cheiro que se você puser um pouco de manjericão, comer em conjunto, a experiência foi aumentada. Mas tem dia que tem que ser miojo mesmo. Como qualquer pessoa casada sabe, a rapidinha tem o seu valor. Entre o deitar e o acordar, diz Shakespeare numa das suas peças, quando ele ironiza que o bastardo é fruto da paixão. Mas o filho legítimo é um momento entre o deitar e o acordar.

Isso é Shakespeare. Essa capacidade de pensar que Shakespeare tem, quando o porteiro do Macbeth diz na cena mais tensa da peça que ele bebeu e a bebida estimula a sexualidade, mas impede sua realização, e ele fica dizendo sobe e derruba, aumenta.

quando o porteiro do Macbeth fica fazendo essas reflexões em plena tensão da morte do rei da Escócia ele nos leva a um patamar de percepção que é completamente diferente, então o que eu diria não é um problema

você comer miojo. Não é um problema, eu preciso saber do que trata o Conde Monte Cristo, porque eu preciso saber se eu vou utilizá-lo, eu não vou ter tempo de ler até amanhã, me diga o que trata. Mas isso são placebos. E esses placebos, placebo tem uma eficácia que dizem de 30%, eles não são ruins. Apenas, eles são inferiores à experiência lenta.

e demorada. Então, sim, eu posso fazer tudo rápido e conseguir fazer mais coisas. O problema é que isso vai ficando plastificado. Isso vai ficando absolutamente uma linha de produção que, como no filme clássico do Chaplin, tem um momento de tempos modernos que ele não sabe mais o que ele está produzindo. Ele só fica fazendo e ele entra na máquina.

É o apogeu de uma neurose laboral, de uma neurose de trabalho, que eu já perdi o sentido. O problema não é fazer muito mais, é saber por que está fazendo, qual o propósito e qual o prazer eu tenho com aquilo. Agora, de novo, tenho cinco minutos para comer, eu preciso matar a fome, eu não vou pensar numa carne maturada que vai cozinhar seis horas.

Vou ter que pensar o que é possível. Nesse sentido, a inteligência artificial, ela inclusive tem, para mim, se mostrado uma ferramenta muito útil mesmo. Dá para fazer ajuda em um monte de coisa, inclusive. Mas, um tema que dá para a gente falar também, pensando em redes sociais, pensando em 2026, de uma forma geral, com as coisas que estão acontecendo agora. Da última vez a gente falou das minhas filhas.

E nesse sentido, eu fico vendo como elas lidam com essas tecnologias, como elas usam para a escola, por exemplo, como deixam de usar, e como elas lidam também com outras partes desse mundo tecnológico e a relação humana com os amiguinhos. O que eu quero dizer é os amiguinhos. Eu quero dizer que quando eu era da idade da Carol, por exemplo, eu estava na rua brincando de pique-esconde.

A Carol tá dentro do quarto dela. Mas eu não acho que ela tá tendo menos relação interpessoal. Eu acho que ela continua... Meio que a praça mudou de lugar. Agora ela é digital. Agora as crianças conversam de outra forma. Em algum momento a gente... Será que a gente tá olhando pra essas coisas da forma... Será que é isso mesmo? Porque veja, quando eu era moleque, minha mãe não gostava que eu jogasse muito videogame porque eu ia ficar burro.

Será que a gente está evitando que as novas gerações usem tecnologias porque eles vão ficar burros e não necessariamente? Existe um dado medido na experiência da Finlândia que é a queda média do QI.

é uma geração mais. Em geral, essa constatação é melancolia de adulto. Todos os adultos disseram que a atual geração estuda menos, é menos obediente, é menos regulada. Isso tem pelo menos 2.700 anos documentado de gente dizendo na Atenas Arcaica que do jeito que vai esses jovens não querem mais nada com nada. Meu pai...

que pertencia a outra geração, achava que nós liamos menos do que ele. O que talvez seja verdade. A grande questão é a seguinte. A comunicação ocorre independente do suporte. Você pode ler um livro no papiro, no pergaminho, no papel ou no suporte eletrônico.

O conhecimento não depende do suporte. A comunicação que vai ser feita por telas parece que diminui a sutileza da comunicação, porque transmite unicamente a mensagem. Então a pergunta que eu lhe faço, você não vai se lembrar, mas houve uma época que a gente tinha bichinhos virtuais japoneses. Tamagotchi? Exatamente.

Por que não há mais tamagotis e os cachorros e gatos continuam fazendo sucesso? Porque tem uma coisa mamífera que é tocar. Eu quero sentir quente. Nós gostamos mais de gato e cachorro do que de lagartixa e cobra. É um preconceito mamífero. A gente gosta de coisa quentinha, coisa gelada, um pouquinho mais problemática. Tem quem ame peixe dourado, frio e silencioso?

Eu acho que é relaxante ver um aquário. Mas você desenvolve uma relação pessoal com algo que você não toca. Eu acabei de viver um luto indireto, porque minha mãe tinha uma cadelinha maltesa, a Meg, que quando minha mãe foi enterrada, a gente voltou para casa com um novo problema. Quem vai ficar com a Meg?

A Maggie tinha uma característica, ela comia os remédios da minha mãe, porque minha mãe abriu o remédio de lupus e às vezes caía e a Maggie comia. Acho que ela durou tanto por causa disso. Ela comeu muito remédio cardíaco para hipertensão também e para lupus. E quando voltamos, minha irmã disse, vou ficar com a Maggie. Minha irmã não era muito ligada a animais. E a Maggie se tornou uma peça central na casa dela, dela e do marido.

A morte da Maggie, que foi há pouco tempo, foi um luto para a família, porque era um elo com a minha mãe.

E tocar na Meg, no mesmo jeito que minha mãe o colocava no colo, era uma ligação que é superior à foto. Então isso é um luto. E este luto nasce de um afeto que envolve o toque, envolve a negociação. Eu não acho que seja errado sua filha ter relações no quarto.

E os jovens da atual geração, do século XXI em diante, eles estão saindo muito menos. Os bares estão reclamando, estão bebendo menos, isso é bom. Eles estão dirigindo menos, 18 anos não é mais a idade de tirar a carteira, que era um rito de passagem da minha geração, e eles estão saindo menos. Porque o quarto lhes dá tudo isso. Mas levado ao extremo, é uma doença depressiva no Japão de jovens que não conseguem mais sair do quarto.

Porque lá eles têm tudo e o mundo de lá é menos negociável. Então, o que eu diria? Somos gregários, somos animais políticos, diz Aristóteles, somos de bando, somos gregários, gostamos do toque. Nós duramos mais, isso relaxa mais se dormimos juntos.

as pessoas, isso é próprio de mamíferos temos problemas com as pessoas, mas sentimos falta das pessoas, é o dilema do porco espinho, do Schopenhauer, me aproximo e me espeta, me afasta, eu tenho frio, então eu nunca sei se eu tenho que me aproximar ou me afastar, fiz um livro sobre isso, é uma ideia muito desafiadora agora, a pergunta científica a fazer as suas filhas seria encontrar o amiguinho em casa tá

conversar com ele numa festa de aniversário é a mesma coisa que mandar um emoji, talvez só ela pudesse responder isso. Porque pra mim não é. Bom, eu já perguntei e elas já disseram que não. Na verdade, talvez dá pra dizer que os momentos que elas mais curtem em casa é quando estão lá os amiguinhos também.

A reflexão é porque é uma relação mais distante de certa forma. Por exemplo, ela mantém amizade ainda, troca ideia, conversa com outras meninas, outras amigas que são de duas escolas pra trás. O digital permite uma relação...

porque a nuvem acompanha como o povo judeu no deserto a nuvem acompanha ainda que distante é um distante estranho é um próximo estranho também não é próximo de verdade mas eu sinto que eles acostumaram com isso não é uma não sei se é uma uma grande questão acho que eles estão

eles estão resignados com as vezes a gente se encontra parece, sabe? que quando eu era moleque era uma parada era todo dia a gente tinha que sair pra brincar de pique-esconde ou qualquer coisa só não rolava que o moleque tava doente pique-esconde tem que traduzir pros nossos colegas de São Paulo ah, o esconde-esconde no sul é brincar de esconder pique-esconde era a que a gente mais se amarrava lá mas eu não acho, eu fiquei pensando se isso não é uma tá?

se não sou eu brigando com o videogame dessa geração, sabe? Eu vou lhe dar uma indicação que eu sofri, já contei em palestras. Quando eu estava no ensino médico, na minha época, se chamava segundo grau?

Nenhum de nós podia utilizar para resolver um complexo binômio de Newton, não podíamos utilizar calculadora. Por quê? Apesar de já haver HP, calculadora eletrônica, as professoras diziam, se vocês não souberem fazer isso no papel, vocês nunca vão aprender cálculos complexos. Bem, não usamos. E eu não sei fazer cálculos complexos. Teria facilitado muito a minha vida. Seria como eu dizer, não vou usar IA.

Porque é muito melhor escrever, eu adoro escrever com caneta tinteira, é muito melhor escrever com caneta tinteira. Como eu dizer, é mais autêntico eu bater o prego com a mão do que utilizar o martelo, porque o martelo é muito impessoal, eu não sinto a cabeça do prego, de fato. A tecnologia é essa.

Eu sempre vou usar a tecnologia. O ser humano, o homo habilis da pré-história, era alguém que pegou uma pedra, quebrou e descobriu que aquela pedra lascada podia curtir o couro, podia servir de arma, podia cortar a carne. Isso é uma tecnologia. Animais como símios, em geral, eles têm ferramentas. Chimpanzés, macacos bonobos, orangotangos, que são muito parecidos conosco, nossos primos diretos.

Eles pegam pauzinho e introduzem no formigueiro e retiram. Eles quebram coco com pedras. Eles têm ferramentas também. É possível supor que um dia ali poderia haver um salto evolutivo e continuaria a linha que nós seguimos adiante. Toda tecnologia é uma maneira de facilitar e sempre é vista pelos mais velhos como uma preguiça.

Então, por exemplo, minha avó fazia leite condensado em casa.

Então quando ela vê as mulheres comprando leite condensado para fazer pudim, ela dizia, as mulheres não são mais como antigamente. Eu já gosto de comprar o pudim pronto. Eu também gosto muito mais do pudim pronto, cara. Eu acho que a ideia de não usar tecnologia, especialmente hoje em dia, é uma desvantagem competitiva até. E aqui eu estou talvez cedendo para aquele pensamento do que a gente deve estar o tempo inteiro sendo produtivo.

Porém, é uma desvantagem mesmo, porque não é nem que está todo mundo usando, é mais pela quantidade de coisas que aquilo que você estava falando, que hoje é possível fazer com o uso da ferramenta. O Marto estava dizendo... Essa é a pergunta que você tem que fazer, o fato de eu estar sempre atento às ferramentas, olhando o meu celular, utilizando... Eu uso hoje, por exemplo, para revisar texto, eu uso inteligência artificial. É muito interessante.

Eu passei pela experiência na semana passada. Estou escrevendo um livro sobre Jesus. É um livro com muitos traços de erudição, com línguas. E ela me corrigiu duas vezes em latim. Eu tenho orgulho do meu latim. Ela corrigiu duas vezes. Com razão? Com razão. Nas duas vezes. Me irritou muito, que essa recém-nascida...

Quando o criador dela, que estava hoje no lançamento da encíclica do Papa Leão XIV, quando o criador dela nasceu, eu já estudava o latim. Ela tinha razão. Inclusive porque o latim é uma língua muito lógica, então eu acho que ela é boa para a inteligência artificial, com declinação e assim por diante. É muito bom. É muito bom. Ela está crescendo, ela está aprendendo.

A inteligência artificial já deu saltos desde o seu nascimento. Então tudo leva a crer que será um novo patamar, um patamar que contém, naturalmente, como toda tecnologia, o seu contrário. A revolução industrial que fez essa lata, que fez esse microfone, esse celular, essa placa,

É também aquela que poluiu as cidades, que degradou o trabalho feminino e infantil, aquela que aumentou a distância de classes nas cidades, é aquela que transformou as cidades em locais barulhentos, já que a revolução industrial não começa no campo, mas dentro das cidades. O que significa isso? Tudo contém seus contrários.

Mas o mundo rural sem máquinas não é um mundo de perfeição. Ele depende um pouco de uma postura diante do mundo. Tem questões absolutamente novas. Uma delas que nós não tocamos é ética. A IA ignora praticamente a autoria. Ela vai buscar e ela traz.

Ela não diz isso, está sendo copiado de um livro que é protegido por copyright. Ela não diz isso. A não ser que você, ponha no prompt, identifique copyright. Ela vai fazer, ela vai compor uma música baseada na música de Chico Buarque. Ela vai imitar Chico Buarque, copiando os estilos, este lema musical do Chico, sem nenhuma atenção.

ao Chico, autor, ao Chico que vive desses direitos. E mais, ela aprendeu a se disfarçar, ou seja, ela pode mostrar que ela existe não existindo e eu posso tomar...

para a obra minha, o que foi feito é para Iá. E essa é uma violação ética brutal. Isto vai liberar mais gente? Afinal, o copyright é só para o interesse dos autores? Tem argumentos contra e a favor. Quando Cuba fez a Revolução em 59, Cuba aboliu o sistema de direitos. Rompeu com o sistema mundial de editoras. Isso causou um boom de literatura em Cuba.

Porque todo mundo podia comprar qualquer livro bem mais barato sem os direitos. Você não precisava mais ir à Feira de Frankfurt e pagar um leilão por aqueles direitos. Cuba continuou sendo esse boom? Não, Cuba tem grandes autores, Gutierrez, que eu adoro, mas não é este boom. Então são questões complexas para a gente pensar o que significa um mundo em que a sua ideia não é mais paga.

Eu acho que a gente vai precisar se adaptar a isso, professor, porque não me parece ter mais volta. Eu acho que dá para a gente conversar sobre isso, mas mais num tom de aceitação e como lidar com isso daqui para frente do que imaginar uma volta. Porque eu tenho a sensação que...

Uma vez que essa caixa de Pandora abriu, tem pouca coisa que a gente consegue fazer nesse aspecto, nesse sentido específico dos direitos autorais. Mas, de qualquer maneira, eu acho que... Eu que não sou um autor, eu acho que...

não ter essa proteção, eu acho que, em primeiro lugar, não vai gerar uma nova obra-prima, aquilo que você já disse. Em segundo lugar, eu acho que aumenta o acesso

E é melhor para todo mundo. No sentido de, se a gente consegue ter acesso às coisas de forma mais livre, a gente consegue, então, evoluir mais rápido. Não estou dizendo que esse é o jeito mais justo. Estou dizendo que talvez esse seja o jeito que será. Não estamos falando exatamente de justiça ou de uma ética aristotélica, mas eu pego...

A maneira que você expressou aumentando a informação de forma livre e acessível a todos, nós teremos uma sociedade melhor, é o que o Yuval Harari, no seu quarto livro de sucesso, Nexus, chama de visão ingênua do conhecimento. E ele dá exemplos. Ele começa advertindo sobre o acesso a poderes sobre os quais ele não tem o controle. Ele dá como exemplo.

Faetonte, a personagem mitológica que dirigiu o carro do sol e acabou sendo morto, que não tinha capacidade de dirigir o sol. E o outro, um conto do Goethe, que a minha geração conheceu pelo Walt Disney, que era O Aprendiz de Feiticeiro. Minha geração só viu o Mickey encantando vassouras e enchendo fantasia. O Aprendiz de Feiticeiro é um conto do Goethe.

que o Disney pegou para fazer isso. Ou seja, eu faço, isso está no Nexus do Yuval Harari, eu libero uma energia que eu não consigo controlar. Será que é isso que nós fizemos? Você usou a metáfora de Exíodo, que é a caixa de Pandora. Ou seja, Pandora é a mulher feita para acabar com a vida dos homens. Foi feita com uma armadilha mandada a Ipimeteu.

como armadilha. E só se percebeu isso depois. Epimeteu em grego é aquele que percebe depois. O irmão dele Prometheus é o que percebe antes. Prometheus é o que percebe antes. Prometheus é o irmão dele Titã. E o irmão dele aceitou a caixa de Pandora, aceitou Pandora e a sua caixa, que na verdade é uma urna. A gente criou a expressão de caixa de Pandora. Bem...

A visão ingênua de conhecimento é a seguinte, vou lhe dar um dado do Nexus. Entre 1450 e 1500, nos primeiros 50 anos da imprensa, foram produzidos na Europa toda, nos primeiros 50 anos, 12 milhões de obras impressas. Ou seja, o total de livros impressos, 12 milhões.

nos mil anos anteriores tinham sido copiadas 11 milhões de obras, mil anos para 11 milhões, cidadas de Yuval Harari em 50 anos, na verdade ele dá 46 no livro, mas eu estou sempre para fins de cálculo, é redondando é mais livro num prazo muito menor logo, se antes o conhecimento estava na mão de monges e era muito limitado, agora

Está na mão de quem quiser. Quem quiser e puder pagar e for alfabetizado, que são limites graves no 15 e no 16. O que aconteceu? Não são impressas apenas obras sobre democracia, beleza do mundo e método científico. Também é impresso o Martelo das Feiticeiras, obra de dois religiosos que causou a caça às bruxas. O livro Martelo, o Maleus Maleficarum, o Martelo das Feiticeiras, é a grande causa da perseguição e morte.

Porque é um conhecimento de um homem, um dominicano perturbado, que é o Sprangler, perturbados, mentalmente perturbados, transformado em livro. Deu margem. É um louco com bibliografia. E antes eu achava que era um problema, agora eu vi no livro, não, esse problema é uma bruxa.

e essa bruxa é minha vizinha. Então, a morte de dezenas de milhares de mulheres, porque a perseguição às bruxas é um surto de ataque às mulheres, de misoginia, foi proporcionada por um livro surgido com essa tecnologia. O que acontece? A imprensa dá acesso a grandes obras como Copérnico e Galileu, mas vai dar acesso ao século XX, que Hitler imprima seu diário da prisão, Mein Kampf.

E isso seja uma das bases do horror do fascismo. O que significa? O conhecimento não é só para o bem. E ele chama de visão ingênua do conhecimento essa ideia de que mais gente lendo, mais gente tendo acesso, vai ser muito melhor. Bem, o século XX é o século da maior alfabetização da história, maior quantidade de livros, maior divulgação de ideias por rádio, imprensa e depois internet no fim do século XX e é das maiores genocídios de toda a história.

um homem medieval ficaria horrorizado com Auschwitz. A gente fica falando de Idade Média, das trevas. Eles não conseguem imaginar uma batalha como Stalingrado em 1942, 1943. Não conseguem imaginar um campo de concentração do porte do horror de Auschwitz. Ou seja, a Idade Média tinha mais pudores do que nós. É verdade. Acho que tinha menos capacidade. E menos capacidade de morte. Porque a técnica, a guerra medieval não é para matar. A guerra medieval é para capturar e exigir resgate.

Então você quer impedir a morte. Quando é inventada a besta, que é um arco que atravessa a armadura, a igreja proíbe, aí sim vai matar gente. Tem que ser gente com espada avançando. Quando algumas batalhas são muito sangrentas, como cresci na Guerra dos Cem Anos, é uma exceção, é uma guerra cenográfica.

Quase sempre. Claro, quando os europeus vão fazer as cruzadas, aí é outra história. Mas nós não estamos no apogeu do pacifismo, não estamos no apogeu da racionalidade. Nunca tanta gente teve acesso ao conhecimento. Nunca. E 200 anos, para ser exato, 230 quase, 1796, não sei fazer conto, sou historiador.

Depois da invenção da primeira vacina eficaz, Dr. Jenner, contra a varíola, tem alguém que vai e diz, vacinas fazem mal. Aí outra pessoa concorda e toma detergente. Quer dizer, como é que... Isso é maluquice. Como é que eu posso, no apogeu do saber, ver alguém dizer que é aquilo que a medicina defende há 200 anos. E é eficaz. A única doença que nós eliminamos no planeta, que é a varíola, foi por causa das vacinas do Dr. Jenner.

Medicina preventiva. E alguém vai dizer assim, vacinas causam mal-estar. Eu me irrito. Eu não me preocupo com falsa ciência, ou pseudociência. Você quer acreditar em pseudociência? Eu acho super simpático. Adoro gente falando de profecia. Olha, eu já escutei um terraplanista. É um stand-up maravilhoso. Eu queria que ele falasse mais, mas ele falou só meia hora. Adoro isso falando do fim do mundo.

que a terra é chata maravilhoso agora falou de vacina me irrita eu tenho uma amiga relativamente culta que me disse que as vacinas tinham chips chineses e eu disse, bom, você não deu certo como brasileira quem sabe com chip chinês você é um fracasso profissionalmente mas com chip chinês falando mandarim que é a língua mais importante do mundo não a mais difundida, quem sabe você

você vai ter uma segunda chance, é um recall. Entendi o teu nível de irritação. Não, eu fico muito irritado, porque você não querer fazer vacina e se matar, os estoicos dizem, o suicídio é um direito, mas não dá para o seu filho algo que impede paralisia infantil. Isso dá vontade realmente de bater numa pessoa assim. Porque não fazer em você é uma coisa. Já é um problema quando é uma infecção. Mas se não é uma infecção...

você não vai ser infectado por um vírus é só uma doença grave não tem problema agora quando você não faz vacina de covid você aumenta a chance de contágio

Agora, não fazendo um filho, o mínimo que ele tem que fazer é perder o poder jurídico de ter essa criança. É bom. Eu também acho estranho esses argumentos anti-vax. Mas, voltando para o lance da imprensa, da capacidade de mais informação ser melhor, cara, você tem razão, não necessariamente. Mas, qual é o contrário disso, professor? Vamos lá. A gente...

vamos pensar que a gente então já entendemos que a gente não é disponibilizando informação, dando acesso à informação que a gente vai ter uma sociedade mais que sabe inclusive ser sociedade melhor mas qual que é o oposto? Será que a gente tem um caminho? É ótimo, vamos pensar duas coisas a primeira tá

A democratização do acesso não garante a qualidade deste acesso. O Brasil vai pagar sempre um preço muito alto. Nós passamos de uma sociedade parcialmente alfabetizada para uma sociedade conectada em rede. Então você pode dizer assim, nossa, as pessoas agora vão ter menos acesso ao Conde Monte Cristo. Não tinham antes.

Antes da inteligência artificial, não eram pessoas na Praça da Sé lendo de uma... Não eram pessoas, nossa, eu quero ler mais a Divina Comédia. Aí veio a inteligência artificial. Não, era muito pequeno o grupo, muito pequeno o grupo que tinha esse acesso. Enquanto que na França a leitura é apontada como o maior hobby dos franceses.

Enquanto que você ainda entra no metrô em Paris e vê gente lendo, duas características do metrô francês, gente lendo e pickpocket, são duas características sólidas do metrô, eu vou encontrar gente lendo nas praças. Eu passei o...

o Ano Novo na Noruega, mesmo com frio tem gente lendo nas praças. É raro isso entre nós. Essa sociedade, quando estiver conectada, tem outra característica. Teve um treino diferente. E nós passamos da não leitura para superficial.

Então não é que antes eu lia Machado e agora eu tenho Twitter. Não. O Twitter foi a minha primeira grande alfabetização. Isso tem um peso muito grande. Então acreditar no que está escrito na internet ou aceitar que a inteligência artificial me forneça o dado certo, quando ela é algo de tentativa e erro. Eu adoro quando ela me diz uma coisa e eu digo não. É, você tem razão. Não é.

Tem até a piadinha. Eu posso comer esse baiacu? A inteligência pode. Aí a pessoa morre e ele vai. Vai a inteligência. É, baiacu é venenoso. Você quer que eu mostre um vídeo sobre o veneno, baiacu? E outro, mesmo que ele esteja certo, se tu falar que ele está errado, ele vai concordar contigo.

Porque ele é um people pleaser. A inteligência artificial é um people pleaser. Ela quer agradar. Eu conversei isso na minha conversa com ela. Ela quer sempre agradar. Eu disse, mas você está errado. É, nota-se que você é uma pessoa com um nível muito elevado. Ela quer agradar. É um vendedor.

É um vendedor, é um coach vendedor. Então, em primeiro lugar isso, nós vamos pagar esse preço. E a grande questão é a qualidade dessa informação. Então não é a informação sozinha, voltando ao Yuval Harari, não é a informação sozinha que proporciona isso. O nazismo que eu já citei aqui ocorreu no país europeu com a maior quantidade de doutores por 100 mil habitantes.

Ele não ocorreu num país pobre da periferia europeia, como seria, por exemplo, o leste europeu ou a Grécia nesse momento, início do século XX, país que passou por guerras e guerra civil. Ele vai ocorrer num país avançado, desenvolvido, urbanizado, com revolução industrial de ponta e...

maior quantidade de doutores por 100 mil habitantes então a ideia de que mais universidades, mais livros necessariamente conduz é uma ideia que eu concordo com o Ivaldo Harari ela tem certa ingenuidade e tem algum o que a gente devia estar fazendo então? porque se a gente entrar numa de que a gente não devia

Será que a gente não devia mesmo proporcionar esse acesso? Porque eu não sei se a gente... Eu acho que é isso mesmo. Eu acho que quando a gente tem acesso à informação, a gente pode... Tem gente que faz coisa boa, tem gente que faz coisa ruim, como qualquer outra tecnologia da humanidade. O acesso que a internet, que as inteligências artificiais proporcionam hoje, me parece que seja... Por mais que a gente tenha problemas e mau uso, a gente ainda tem um saldo

positivo, me parece. Então, cara... O posto disso... Vamos fazer duas coisas que você... A sua questão é muito interessante. Primeiro, se essa cena que nós estamos aqui não fosse um podcast, mas fosse um programa de rádio, que tem certas semelhanças, inclusive, nós parás de antimicrofone, como eu fiz dezenas de programas de rádio, você falasse algo na rádio...

que alguém não concordasse. Essa pessoa, para criticá-lo, precisaria ter um outro programa de rádio ou escrever um artigo para jornal. Para escrever um artigo para jornal, ela precisaria escrever um dia ou dois, enviar um jornal e ter alguma forma para que ele fosse publicado. Ou esperar o acesso àquele que foi um dos maiores canais de comunicação do início do século XX, que foi rádio. Durante décadas, o principal.

Então teria acesso à rádio. E esta rádio colocaria crítica ao Igor no ar. O tempo que essa pessoa levou para fazer a crítica e achar um meio de torná-la difundida é um tempo muito grande.

eu recebia cartas manuscritas. Essas cartas eram enviadas, por exemplo, por parentes na Europa e de outras pessoas. Ela vinha, eu escrevia outra carta, ia ao correio, eu lambia o selo. Quem nos escuta nem imagina, mas era um hábito. Você lambia um selo, né? E colocava a carta e em 15, 20 ou 30 dias viria uma resposta.

e essa resposta seria guardada a correspondência em papel era guardada eu não tenho eu não tenho e-mails de há 10 anos aliás eu tenho muito medo de quem tem e-mail de há 10 anos uma pessoa que me parece perturbada guarda os e-mails eu tenho e-mail desde a década de 90 agora precisa pensar meu irmão

Para você guardar o e-mail em geral, você vai ter que imprimi-lo. Esses dias eu quis atualizar a minha tese de doutorado, que está guardada, e eu pedi ao Clodo que passasse para a Docx, demorou, porque ela estava em sistema hieroglífico, então eu tinha que passar para a Docx.

Como é que isso estava armazenado, professor? Em disquete. Esse disquete virou um pendrive. Este pendrive, em algum momento, eu tive computador com pendrive, foi para o HD. E esse HD foi passando de computador em computador, mas em estilo cuneiforme e aeroglífico. E aí, o que Claude fez esta semana para mim foi traduzir o meu livro Teatro da Fé, que é a minha tese de doutorado, para DocX. Ou seja, agora ela vai ter mais uns meses de sobrevida.

já jogaram ele na nuvem quando os ingleses debateram qual seria o melhor lugar para guardar os segredos atômicos do Reino Unido eles escolheram papiro porque constataram que é o suporte que fica mais tempo e se estiver em ambiente seco ele é eterno então botaram códigos de bomba atômica em papiro guardado em ambiente seco

Pela experiência que se nós temos papiros de 5 mil anos e não temos jornais muito antigos, o jornal dura pouco, especialmente jornal de papel. O jornal de... a celulose é recente, o papel de trapo é mais resistente. Então o papiro parece que...

Um bom jeito, né? Aí tu tava usando papiro mesmo, papiro digital, né? Que era o disquete. Tem um romance chamado Criação do Gore Vidal que narra o período chamado Era Axial que surgiram democracia na Grécia, zoroastrismo na Pérsia, a escrita da Bíblia na Babilônia, o confucionismo e o budismo, tudo ao mesmo tempo, quase.

eles ficam dizendo que passar o ensinamento oral de Zoroastro na Pérsia para papéis, couro de vaca que eles estão passando, vai destruir esse pensamento. Porque só o oral garante. O oral garante literalmente. É a mesma coisa que diz Platão quando fala que o deus Tóteo no Egito disse eu vou dar escrita para vocês, mas tudo que vocês escreverem vocês vão se esquecer.

Por exemplo, você sabe poucos celulares de core, mas você sabia muitos números de telefone de core. O que você não precisa escrever, você vai ter essa contradição em termos. É muito difícil, porque de novo é um pensamento de eu olhando para trás e vendo como era no meu tempo, como é agora, e geralmente considerando que o meu tempo era melhor.

possivelmente você acha que os moleques que corriam nas ruas do Rio de Janeiro eram mais felizes do que alguém jogando na Minecraft. Possivelmente. Você pode ter certeza que eu acho isso. Isso fala de você. Isso fala de você. Não fala exatamente disso. O que fazer?

O Papa Leão XIV, no documento lançado sobre a IA, diz que nós temos que transformar de novo a sala de aula em um lugar crítico, usando ou não o IA. Eu vou ter que lançar o olhar desconfiado. Os latinos dizem cui bono. A quem interessa? Quem ganha com isso? Que é uma pergunta jornalística.

Ou seja, quem ganha com isso? Quem interessa? E que eu preciso dar voz às pessoas para que elas possam trazer o contraditório e que eu preciso restaurar a humanidade. Porque quando a tecnologia se esquece do bem-estar da humanidade, o resultado é sempre ruim. A encíclica papal começa com a metáfora da Torre de Babel.

que era uma tecnologia de uma torre altíssima, e Deus castigou dividindo as línguas. Ou seja, vocês querem fazer isso por vaidade, Deus vai se castigar. Mas a grande questão hoje é outra. O que eu faço com essa montanha de informações? Eu só tinha uma fonte, a enciclopédia de papel.

Hoje tem o Google e agora a inteligência artificial. O que eu faço com essa montanha de informações? Que tipo de trabalho vai ser ressignificado na escola, levando os professores a repensar toda a avaliação, se tudo pode ser feito automaticamente? Especialmente para o usuário bom, que a gente chama de usuário centauro.

Ele é comandante, metade homem, metade animal, mas ele é comandante. Tem usuário ciborgue, que já é diluído, não é mais um upskill, já está diluído nisso. Mas tem usuário parasita, usuário copiador. Este é o pior tipo e esse é o dominante. Haja vista que pouca gente explora habilidades superiores na inteligência artificial. Todos utilizam como um Google que escreve.

Como é que é pra você, professor? Um homem que... Você viveu uma época que não sabe... Quando você era jovem, você era adolescente, não tinha internet. Quando eu era adolescente, pelo menos internet já tinha. Como é ver essas transformações tão profundas? Isso te dá, em alguma medida... Claro.

Vamos lá, porque você viu a chegada da internet, por exemplo. Toda a transformação que ela criou, as bolhas financeiras, inclusive, que existiram, tudo que foi possível com a internet. E agora estamos de frente com uma nova tecnologia tão transformadora quanto que eu, quando olhei, eu achei que fosse, putz, acho que isso daqui talvez tenha... Será que eu estou que nem meu pai e o celular? Que eles não se dão muito bem.

Cara, eu acho que não tem porquê a gente ficar de fora dessa. Como é que você lida com a inteligência artificial e essas transformações que prometem serem enormes? Isso mexe com a tua cabeça? Mexe, mas eu vou usar uma metáfora que eu gosto. Eu sou aquariano. Os aquarianos adoram tecnologia. Eu não sou tão hábil quanto um adolescente. Meu sobrinho...

de 15 anos é mais hábil do que eu. Sem diploma de datilografia, digita mais. Ele deve ter tido aula de informática na escola, né? Eu já tive a experiência de fazer texto, que tinha que calcular a margem direita. Eu já tive que discar o telefone e ficar esperando alguém atender. Atendia sempre a pessoa que não era a que você queria falar, que ia chamar.

que vinha. Eu já tive tudo isso. Como é que eu noto essas camadas de tecnologia sobrepostas hoje? Eu tenho muitos amigos, especialmente na academia de letras, que são octogenários. Todos eles me ligam sem mandar um zap antes. Todos.

Eu sei que alguém é mais velho quando liga sem mandar um zap. Mandou sexta-feira dizendo uma foto com flores ou um salmo. Eu sei que é uma pessoa de idade. Me ligou direto sem mandar um zap, que é um novo código de etiqueta. Eu sei que é uma pessoa de idade.

São outros códigos. Agora, eu vi essa mudança fascinante, interessantíssimo. Quando o celular surgiu, meu primeiro celular foi da BCP. Eu estava inscrito em São Paulo e aí veio. Aí fui para uma capinha de couro com antena. Eu nunca usei pochete. Isso eu achei cafona, mas eu resisti ao pochete. Mas eu tinha um celular da BCP com antena. Quando o celular da BCP chegou, o que ele fazia? Ele ligava.

Ele ligava para as pessoas. Só isso. Em um artigo na Folha, a Bárbara Gans, que depois eu vim a conhecer, um dia na redação, um décimo de 90, pegou o celular e foi vaiada na redação. As pessoas achavam que era muito exibicionismo pegar um celular. Que coisa. Que isso. Eu me lembro de uma viagem de ônibus de Porto Alegre para Santa Maria, que uma pessoa tirou o celular e começou a dar ordens para a empregada e nós começamos a imitar.

Provavelmente que nós também queríamos celular. Era uma dor ressentida. Eu lembro do surgimento disso. Eu lembro da convivência do telefone fixo e do celular. E hoje são sutilezas. Quando eu vou lhe dar meu número, eu vou lhe dizer assim, nove. Nove. Essa pausa é sinal de idade.

se você fala 9 e dá um hiato é porque você assistiu ao surgimento desse dígito extra esse hiato é falta de colágeno você fala e aí você faz essa pausa a mesma coisa que acontecia com a minha avó do interior do Rio Grande do Sul diante de uma escada rolante

tem um minuto de dúvida. Minha avó olhava para a escada, calculava o fluxo. Na cabeça dela havia algum cálculo geométrico. Então ela dava um pulo assustado na escada. Por quê? Não virou uma nativa digital. Não viu isso acontecer. O hábito, quando se torna parte da cultura, uma cultura americana, por exemplo, de utilizar muito recurso. Exemplo, um americano para secar algo de água nessa mesa para pegar...

guardanapos de papel numa quantidade enquanto que nós vamos limpar a boca secar a mesa e aí você tem uma coisinha são hábitos que se tornam culturais o que é cultural se torna natural e eu não vou questionar então como você disse, não tem como retroceder tecnologia o fato de eu achar bonito Maria Fumaça, um trem a vapor só tem futuro pro trem bala

Ninguém vai querer fazer uma viagem 16 horas que pode ser feita em 50 minutos. Porque o tempo é um grande fator. Mas no turismo ele pode ser utilizado. E tem um espaço de reação, que é o espaço do artesanato, da slow food, uma comida preparada lentamente, de coisas feitas à mão, blusas de tricô e de crochê, de costura, de bordado que volta, que é uma reação, inclusive experiências de desintoxicação tecnológica.

Então, pessoas que vão para uma fazenda, acho que devem formar um ciclo, vão dizer, oi, eu estou aqui há dois dias sem o estilado todo mundo, oi, Leandro. Como se fossem adictos, assim, que você vai ter que transformar. Tudo isso é uma transformação. Não tem como voltar, mas tem como dirigir. E o que faz o Papa na encíclica sobre a IA é dizer, é uma tecnologia feita por seres humanos.

Ela tem defeitos como não está nas mãos de um Estado coletivo, está nas mãos de empresas privadas. Ela está aumentando a concentração e tem a voz discordante. Nicoleles, neurocientista dos mais famosos, diz que é uma bolha completa. Ele acha, e há, a bolha mais enganosa que já houve, que vai explodir mais que a Nasdaq um dia.

explodiu, essa bolha vai explodir, ele é o mais pessimista sobre isso me parece mesmo ele tem vários argumentos bem convincentes sobre esse ponto eu acho que sobre a análise que ele faz é a que me deixa mais

tranquilo sobre a possibilidade de um apocalipse, porque ele desacredita completamente nessa possibilidade. No livro Seremos Dados, do Marcos Bruso, ele cita um autor que estima que é de 20% a 30% de chance de ser a extinção da espécie humana. Bom, 20% a 30%... A gente já teve pior. Já teve pior. É. Mas, professor, você fez muito bem... É...

transição, vou chamar, para o ambiente digital. Tu é um professor renomadíssimo. A gente estava conversando antes aqui sobre como você ajudou novelas da TV com o que você conhece. Mas a tua transição para o mundo digital, ela também é muito bem sucedida. Haja vista que as pessoas você é reconhecido na internet como um dos maiores pensadores do Brasil e por aí vai. Isso é...

Não quer dizer que não existam outros pensadores, mas com certeza quer dizer que tu fez uma transição para a internet bastante bem feita. Então hoje tu tem um podcast, hoje tu tem um Clube do Livro, junto com a Gabriela Brioni, você está na internet fazendo as coisas aí. Isso te facilita, de certa forma, a entender ou a...

enxergar na inteligência artificial um troço menos para baixo, menos não sei, um troço mais pessimista tu consegue ter uma visão mais por conta da tua habilidade com a internet? Igor, eu sou uma pessoa cronicamente esperançosa escrevi um livro chamado A Coragem da Esperança

eu, talvez por ter lidado com jovens, eu chego a dizer que eu, mais velho, tenho direito a ser pessimista. Mas eu não posso fazer que alguém que não viveu ainda seja pessimista. Então eu tenho direito a esse lado, o Sioran, que é o filósofo que sofreu de um romeno.

que sofria de insônia crônica e escreveu os textos mais infelizes do século XX. Ou no século XIX, Schopenhauer, que também era de uma dor profunda, a vida dividida entre a ânsia de ter e o tédio por possuir. Sendo Schopenhauer como Siohan, são pessoas muito pessimistas e grandes pensadores. Eu sou cronicamente otimista. Eu acho que nós vivemos um mundo desafiador.

Eu acho extraordinária a chance que a tecnologia confere. Eu posso escutar músicas do mundo inteiro. Eu posso colocar de fundo três versões, por exemplo, a minha sonata preferida para piano de Beethoven, que é a 32, como eu fiz hoje de manhã. Três versões da mesma sonata por três pianistas. E isto, para eu ter antes, eu precisaria comprar esses discos, tê-los, armazená-los, ter espaço.

Eu acho isso fascinante. Eu acho muito bom. Quando estreia a Traviata, que eu acho que estreou, a Traviata estreou no La Fenice, em Veneza, no teatro. Tenho quase certeza, não tenho absoluto. Só conheceu a música belíssima da Valsa do Brinde?

Quem estava lá aquela noite? Ninguém mais no planeta Terra. Só quem estava lá. Avançando 100 anos, em 1953, 57, vai conhecer aquela música quem tiver discos, que já é bastante. Avançando mais 80 anos, vai conhecer aquela música...

Quem tiver acesso à internet, inclusive as partituras e todas as críticas de todas as montagens, podendo comparar a valsa do Brindt. Agora, isso melhorou? Nós temos mais gente compondo ópera ou melhores ouvintes de ópera? Não. Mas eu particularmente sou otimista. Eu acho muito bom isso. Eu acho absolutamente muito bom. Uma pesquisa que eu possa fazer, uma dúvida que eu tenha.

Eu tinha dicionários em casa, na biblioteca do meu pai, então eu não achava num dicionário eu ia outro. Eu sempre acabava parando no Caldas Aulete, que eram vários volumes, e era um dicionário português grande, era o maior. Acho que ainda é o maior. Então, que maravilha que eu possa fazer isto. Hoje eu posso fazer uma pesquisa em arquivo só na internet, porque está tudo digitalizado.

Isso é muito bom. Isso é muito bom. Agora, tudo tem o seu contrário. Tudo tem o seu contrário. Tudo tem seu risco. Tudo vem acompanhado dessa contradição. E, de fato, surgem pessoas mais superficiais, surge autoridade do nada, aquilo que o Humberto Eco reclamou muito. Então, eu trabalho há décadas com história, lancei livros de história, e uma pessoa chega e diz, não, isso é sua opinião. Opinion.

meus ovo, como se diria no livro do show. Aqui tem uma bibliografia, uma experiência. É claro que eu erro e erro muito, mas a chance de eu estar errado é menor do que a de alguém de 17 anos. Perfeito. Estou errado e erro muito, mas é preciso muito tempo para ganhar essa sedimentação de conhecimento.

E às vezes esse conhecimento é interessante. Ontem, domingo, pareceu que estava entupida minha pia do banheiro.

Eu fui até a dispensa, onde havia um produto desentupidor que leva o nome de um demônio palmeirense. Botei na pia, botei água quente, esperei, botei mais água quente e desentupiu. Vitor me perguntou, como é que você sabe essas coisas? Talvez ele botasse no Google ou na inteligência artificial. Como eu devo desentupir a pia do meu? E também funcionaria. Também funciona. A minha secretária não guarda manuais porque estão na internet.

E se eu digo assim, Fabi, compra aspirina. Eu moro a 15 metros de uma farmácia. Ela jamais desce para ir à farmácia. Ela acessa e manda entregar. Eu vou à fábrica, eu acho mais rápido. Descer e comprar aspirina. Não é um remédio para rejeição de órgãos, é aspirina. Então, é um outro comportamento. Às vezes, no detalhe, eu digito com o indicador. Os jovens digitam com os...

polegares. Então, é isso. E eu vi isso acontecer. Eu vi meu sobrinho, que eu já citei, eu dizer algo que ele não gostava. Ele dizia assim, Davi, não pode fazer isso. E ele fazia assim com a mão, pra passar a tela. Porque aquela tela estava dando desprazer pra ele. Lá pro 2015, 2016, estava dando desprazer pra ele. Ele estava querendo me passar. Porque isso fazia acessar a próxima tela.

a próxima tela, então eu vi isso eu não sou nenhum saudosista eu acho o passado não era melhor as pessoas não eram mais honestas, alguém diz mas tinha menos violência, então retroceda vá ao século XVI não há assalto a bancos no século XVI

Não há assaltos indígenas à mão armada. Não há assaltos indígenas à mão armada. Então, retroceda, não acho. Acho que nós temos outras formas de violência. Nós temos outra maneira de conceber o conhecimento. Mas, claro, acho que algumas coisas podem ser recuperadas. Você acompanhar uma novela pela rádio...

sem nenhuma imagem, significa que você está exercitando a capacidade imaginativa. Você ler um livro por bastante tempo significa que você tem capacidade de projeção na personagem. Isso lhe dá sensibilidade psíquica. Caligares, no seu livro mais recente, coletando crônicas dele, diz Se eu entrevistasse um candidato à presidência...

Não perguntaria o que ele pensa de esgoto e escola, porque ele responderia o que a equipe dele fez de media training para ele. Perguntaria que livro você está lendo?

E se ele conhecesse o livro, ele indagaria para saber se também não é media training. Porque se eu sou capaz de ler Quarto de Despejo, um romance seminal para entender a pobreza em São Paulo, da Carolina, de Jesus, eu vou sentir uma sensibilidade com a fome que é descrita no livro, que talvez eu nunca tenha passado. Evidentemente, pelo meu corpo, eu não passo fome, pelo contrário. Deveria até passar um pouquinho. Então...

Para eu ter essa sensibilidade, eu tenho que ter uma capacidade de empatia que pode derivar de um bom filme, de um documentário ou de um livro. Então, a boa pergunta a fazer a um candidato é que livro você está lendo?

Eu sempre penso nisso, sabe? Uma vez, quando o Lula veio aqui, que foi em 2022, eu disse pra ele que eu queria um dia conversar com ele sem que ele fosse... quando ele se aposentasse. Porque o Lula é uma das figuras mais interessantes do Brasil. Você pode não gostar dele. Você pode odiar o Lula. É carismático.

O que aconteceu na vida dele o torna um brasileiro vivo interessantíssimo. É um personagem. Independente de ser esquerdo ou direita, eu concordo com você. Independente de ser gostar ou não. Só que quando ele senta para trocar uma ideia comigo como candidato à presidência da república, eu não consigo conversar com o ser humano. Eu só consigo conversar com o candidato. Verdade.

Você conversa com a pessoa jurídica, é chato, porque a conversa que eu chamo, quando vão me filmar, um grande exemplo de mudança que eu vivi com a internet. Há 20 anos, ao dar uma aula pública...

por exemplo, há 22 anos na Casa do Saber, que dava aulas aqui, eu não era gravado. E eu podia dizer brincadeiras que eu não posso mais. Então eu tinha acabado de voltar do Egito, estava dando uma aula sobre algumas maravilhas do mundo antigo.

E mostrei umas fotos minhas em Alexandria e alguém me perguntou Alexandria é bonita? Eu disse, olha, de longe é. De perto é parecida e citei uma cidade da Grande São Paulo, que eu acho particularmente horrorosa. Eu não posso mais dizer isso. Se eu disser que é parecida, vamos pegar uma cidade que é tão feia quanto Florença. Pronto, uma cidade fora de São Paulo.

A Câmara de Vereadores vai fazer uma moção contra mim. A Associação Comercial, que já me contratou para palestras, vai barrar essa contratação. E eu vou receber cartas no jornal de que eu tenho preconceito. Todo ser humano que está em São Paulo sabe que há algumas cidades da grande São Paulo, e a própria São Paulo, que são horrorosos. São Paulo tem lugares horrorosos. Até lugares que não são horrorosos pela pobreza. São horrorosos mesmo de berço.

e tem cidades da grande São Paulo que parece uma mistura de ensaio sobre a cegueira do Saramago filmada com um pós-apocalipse Blade Runner misturado com Mad Max, assim é um horror é um horror prédio feio, gente feia andando por ruas feias, sem arborização hoje eu tenho que amar todas

Eu tenho que amar todas. Porque é agressivo ouvir de uma pessoa midiática que aquele lugar é horroroso. Eu tenho que amar todas as cidades que eu visito. A primeira coisa que me faz é visitar uma cidade, às vezes de 30 mil habitantes, às vezes interessante, às vezes muito bonita, às vezes não. O senhor está gostando da nossa cidade? Eu estou respondendo ao único jornal da cidade numa palestra que está com toda a cidade na plateia. Eu disse, não.

achei um horror. Eu acho agressivo isso. Eu não tenho direito a dizer isso. Mas mesmo que eu achasse, eu não posso. A não ser que eu quisesse em mar. Então eu tenho que gostar de todo mundo. Aprendi muito cedo com um professor da USP, inclusive, a torcer por times que não incomodam pessoas.

Então, eu torço pelo time da minha cidade, o Aimoré de São Leopoldo. Nunca você encontrou... Ai, eu detesto o pessoal do Aimoré. Porque o Aimoré não causa essa... Podia torcer pelo Ibis. O Ibis também é uma boa... Todo mundo gosta do Ibis. Todo mundo gosta do Ibis. É porque é muito bom.

Isso, né? Quando eu digo uma coisa, quando eu me tornei famoso, que eu não gosto de coentro, as pessoas começam a reclamar. Por outro lado, quando tu disse que gostava de farofa, tem muita gente que te apoia. Eu fiz um artigo no Estadão sobre farofa e recebi de uma empresa produtora de farofa uma caixa.

um jabá farofas muito interessantes eu gosto muito de farofas e recebi uma caixa maravilhosa disso, agora o que nós fizemos com a internet ao dar publicidade às pessoas é que todos são obrigados a ter uma fala editada uma fala editada

Então você falou do Lula. Eu um dia recebi na minha casa, e não vou dizer o nome, uma pessoa de esquerda, inclusive bem mais à esquerda do que o Lula. Não sei que o Lula é de esquerda, mas era bem mais que o Lula. E eu perguntei a essa pessoa...

tinha defendido publicamente a Venezuela, eu perguntei, o peso do venezuelano está caindo. O sarampo que tinha desaparecido por falta de vacina na Venezuela disparou. Existe desnutrição. Tem apagões em Caracas, que é uma das estadas mais bonitas da América que eu já conheci. Como é que você vai defender isso? Como é que você vai defender uma coisa dessa? O país está em colapso. Aí ele foi me explicar o que ele de fato pensava da Venezuela.

E foi muito interessante. Mas eu represento tal partido e eu não posso falar isso em público. Isso é dar munição para o inimigo. Se eu disser isto, vão dizer, até o radical de esquerda acha difícil a Venezuela. Então, é bom você poder falar com pessoas offline, off record. E o que você acha? Professor, eu estava outro dia pensando nisso também. Que existem...

Teve uma vez, cara, que o Pondé me chamou para participar de um programa dele, da TV, não sei o que, e fez umas perguntas sobre máscaras que a gente usa socialmente, não sei o que, e eu lembro que eu respondi uma parada que depois, refletindo melhor, eu já não sei se eu concordo comigo mesmo. Mas enfim, o ponto é o seguinte. Outro dia eu estava pensando que...

As máscaras sociais, elas são importantes e elas são, no meu caso, por exemplo, eu tento estar aqui no Flow o mais próximo possível que eu estaria com os meus amigos. Mas isso não quer dizer que quando eu estou com os meus amigos é igual a quando eu estou quietinho no meu canto, lá no meu escritório, porra, no meu joguinho, não sei o que, que já está todo mundo dormindo e tudo mais. O ponto aqui que eu queria levantar são essas máscaras sociais que a gente escolhe usar.

em que medida? Será que é justo? Justo talvez seja forte. Mas será que é apropriado a gente atribuir a essas máscaras alguma ideia de... Como é que eu vou dizer isso? Porque, ó, com a minha esposa...

cuidado com o que vem agora com a minha esposa passo a passo eu tomo todo esse cuidado quando eu sinto a intimidade é um problema que me dá a liberdade de ser um pouco mais como eu realmente penso e sinto porém as vezes o jeito que isso vem

precisa de algum tipo de maquiagem, sabe? Então, assim, eu falo, tô falando o que eu penso, mas de um jeito até um pouco mais controlado e comedido. Isso com uma pessoa que eu mais tenho intimidade na minha vida inteira, que é minha esposa, né? Se fosse eu sozinho no banho, trocando ideia comigo mesmo, eu tava esbravejando, puto, não sei o quê, né?

Da mesma forma, na verdade, numa escala acima, quando eu estou com os meus amigos aqui, não é que eu estou sendo falso, eu estou modulando o que eu penso para um nível aceitável de conversa e de convívio, que eu gosto de acreditar que é parecido com a máscara, entre aspas, que eu uso quando eu estou aqui no programa.

imaginar que a gente é como é e pensar e dizer as coisas como vem à cabeça

não é uma desvantagem competitiva também? O que você pensa do uso habilidoso dessas máscaras sociais no dia a dia, até dentro de casa? O lema de Descartes é eu ando no mundo mascarado, eu avanço no mundo mascarado. Talvez seja porque ele era militar nessa época, talvez seja porque ele pensava autonomamente num mundo que tinha censura e repressão ao pensamento. Então, vamos lá.

Mas existe muita reflexão sobre essas máscaras. A primeira fantasia que a sua proposta longa parece incorporar é que você é você quando você está sozinho. Isso é uma fantasia. As suas máscaras também são solitárias.

As fantasias que você construiu sobre você, as narrativas que você inventou sobre você, elas lhe acompanham onde você estiver. Então, talvez sejam as mais sofisticadas. Porque é óbvio que eu não vou dizer tudo o que eu penso.

para alguém que tem poder sobre o meu CPF. Eu já tive patrão. É óbvio que eu não vou dizer tudo o que eu penso. A primeira questão da sinceridade tem a ver com a isonomia, tem a ver com a igualdade. Não tem isonomia o nome. Não há análise crítica no churrasco da firma do fim do ano, quando o dono da empresa pergunta o que vocês estão achando de trabalhar aqui?

Ele só está carente e quer ouvir elogios. Não há sinceridade no campo de concentração quando o nazista pede avaliação da comida. Essa comida que nós estamos servindo, vocês acham que nutre a... Ninguém é louco de dizer a verdade para um autoritário assassino, inclusive. O que significa isso? Havendo poder, a verdade tende a morrer.

E havendo máscaras é onde há seres humanos, porque não sabemos tudo, não sabemos tudo sobre nós, somos contraditórios. Você tem máscaras que estarão com você no banho, estarão com você sozinho numa rede, sem ninguém olhando. Geralmente são as nossas máscaras positivas. Você se considerar talvez um bom pai. Isso vai lhe acompanhar sempre. Porque retirar essa dá uma angústia tão grande.

É verdade? É melhor deixar. Não quero levantar essa pedra, porque pode ter bicho embaixo. Não, mas eu já fiz isso errado. Mas comparado com o meu irmão, nossa, eu tenho um tio que é super violento com as crianças. Você vai estabelecendo opioides para isso. Você é honesto consigo mesmo, professor? É, algumas vezes sim, outras não.

Eu gosto por fazer terapia há muitos anos. Eu gosto de pensar as coisas, inclusive as duras. Mas não tem... O retrato de Dorian Gray, pegando a obra do Wild, tem que estar no sótão fechado. Eu não posso visitá-lo sempre. Olhar para a medusa, olhar para o monstro, petrifica. Então eu vou criar narrativas.

Narrativas. Essas narrativas sempre me favorecem. Quando eu encontro uma pessoa que não tem poder e tem igualdade, isonomia, como você citou, seus amigos, você acha que dali não vem risco, porque a política de bando é que os iguais não se machucam. Então, seu amigo...

Se for parecido com você, você não precisa mentir. Então você vai estar mais à vontade. Agora, com a sua esposa, a intimidade é física, mas a confiança talvez sempre seja no casamento a mais problemática.

A intimidade é física, você anda pelado, você não tem mais vergonha. O casamento já fez cair os pudores. Mas ao mesmo tempo é uma relação que não tem garantia de ser eterna. É uma relação que em acabando pode prejudicar sua renda e seu patrimônio.

É uma relação que, sendo de atrito, ela pode significar envenenamento da relação com as suas filhas. Logo, você nunca estará inteiramente à vontade. Exatamente porque você ama. E o amor vai lhe tornar frágil. O amor vai lhe tornar sensível.

Talvez você fosse sincero, como na peça do Dostoiévski, o grande inquisidor dentro dos irmãos Karamazov, é o cardeal de Seville, em 1590, entrevistando Jesus. Jesus fica quieto o tempo todo e o cardeal fica dizendo o que se apareceu agora vai atrapalhar a nossa ação aqui? É uma das coisas mais extraordinárias já escritas pela espécie humana. Ele recrimina Jesus. Você não transformou a pedra em pão? Se você tivesse feito isso, tinha mais gente te seguindo.

Muito mais gente viria à igreja porque a pedra vira pão do que dizer olhar os lírios do campo. Ah, por favor. Você não entende a espécie humana. Nós da igreja católica entendemos. Por isso o nosso sucesso. E você pressupõe gente elevada. Nem só de pão vive o homem. Quem vive sem pão?

O cardeal dá um esporro em Jesus e quer queimá-lo. O cardeal o prende para queimá-lo, para ele não atrapalhar o cristianismo. Porque o fundador sempre incomoda. O fundador sempre incomoda. E o teu estudo sobre Jesus Cristo, está te tornando mais ateu ainda? Ou essa é uma posição que está tão consolidada que ela está fora de qualquer tipo de reflexão? Nenhuma.

A posição está fora de reflexão e nenhuma posição é definitiva. Eu posso morrer um beato, Papa Hostia, Beja Banco e Lambicruz. Não tem. Eu sempre vou tentar ser... Que lindo, professor. Eu posso mudar porque, como diria Ortega e Gasset, citando Felipe II, eu sou eu e minhas circunstâncias. Eu sou idiota e minha fortuna. Então a minha consciência atual pode mudar completamente, como eu já mudei dezenas de vezes.

basta que haja essa mudança quando eu dou um curso de um ano como eu já dei de mitologia grega é muito interessante ninguém ao final do curso me diz mas você acredita em Zeus? ninguém me pergunta isso eu dou um curso sobre islamismo e as pessoas vão me dizer então você acredita em Allah?

Eu já dei curso sobre praticamente todas as religiões, ninguém me diz, nossa, mas você é do candomblé mesmo, a gente sente na sua fala. Agora, se eu falo do cristianismo, todas as pessoas... Mas por que você dá curso se você não acredita? Eu tenho uma resposta humorada ao Jô Soares uma vez, e eu disse, eu sou um ginecologista homem.

Eu estudo o que eu não tenho. Eu estudo a fé e não acredito nisso. Mas o fato de eu não acreditar não torna menos importante. Jesus é a personagem que divide nosso calendário ocidental. Jesus é a personagem que gera a arte ocidental. Gótico, românico, renascimento, barroco. Só tem imagens religiosas. Jesus é a personagem que cria ideias como culpa, castigo, juízo final, obras sociais.

em diálogo com ele, Jesus é uma personagem sempre saindo do túmulo e dialogando conosco. Se eu for ateu ou religioso, Jesus continua sendo uma referência. Então, o que está acontecendo é descobrir muita coisa. Eu estou gostando muito de escrever. Talvez, meu 27º livro, eu nunca tenha me entusiasmado tanto em escrever. Porque outros livros até demoraram mais na pesquisa, mas isso está sendo assim, passo a passo.

uma descoberta de texto e querendo conversar, às vezes, assim, não, isso aqui ficou muito difícil, isso aqui vou montar para a nota, está muito interessante, estou gostando muito da escrita. Estudar sobre Jesus, o que fascina, então? Por que você está gostando? Por causa da opinião do que as pessoas te contam sobre Jesus ou o que você está descobrindo sobre o personagem?

Tem uma pergunta de Jesus que está na epígrafe de um capítulo meu no Evangelho, que é quem eles dizem que eu sou. Existem muitos pesquisadores, especialmente um do século XIX, que diz que Jesus sempre aparece.

Na margem do mar da Galileia, Jesus é um nazareno, é um galileu, o norte de atual Israel, e sempre chega às pessoas e se apresenta. É sempre alguém que vai perguntar quem vocês acham que eu sou. E as pessoas têm dificuldade.

com isso, elas têm grande dificuldade com isso, o evangelho mais curto o mais antigo que é Marcos, hoje é dia de São Marcos o evangelho mais curto e o mais antigo só 16 capítulos, Jesus não tem infância, por quê? Para aqueles cristãos a infância de Jesus era irrelevante Jesus começa no capítulo 1 de Marcos expulsando um demônio, se batizando e já formando discípulos

Já vai com toda. A startup dele já bombou. Isso aí daria certo em 2026. Corta logo o papinho e vai direto. Jesus é masculino, sem preliminares. Ele vai direto no ponto.

O Jesus de Lucas, dez anos depois, Marcos é o primeiro, Jesus de Lucas e de Mateus tem Natal, tem Anunciação, o de Lucas tem um capítulo inteiro sobre Maria, tem genealogia, Mateus logo no capítulo um, Lucas depois. A genealogia de Lucas vai mostrar mulheres duvidosas, que é um momento que começam a atacar a ideia de Nossa Senhora, então ele coloca outras mulheres que foram acusadas. Então já é outra coisa. A de João.

o último evangelho cronológico, não na ordem. A ordem começa com Mateus. Mas o de João é um Jesus Deus, que começa no capítulo 1. No princípio era o verbo, o verbo estava em Deus, o verbo era Deus e o verbo se fez carne, imitando o Gênesis. Porque no Gênesis Deus pela voz cria o mundo. E no João, pela voz, ele é Deus. E o verbo se fez carne, a palavra se fez carne. Então são coisas completamente diferentes. São camadas como uma cebola.

Só que, como a gente fala em história rizômica, quando eu tiro as camadas não tem nada dentro.

Essa é a camada que os gregos colocaram. Essa é a camada, por exemplo, coisa que acho que as pessoas não se dão conta, que eu adorei escrever sobre isso. Jesus tinha sotaque muito forte, porque ele é um nazareno. Ele fala aramaico do norte, que seria para nós alguém vindo do interior do Piauí. Ele é um agricultor, um carpinteiro.

provavelmente não carpinteiro vem de uma cidade de 200 a 400 habitantes e ele traz um sotaque do aramaico do norte que é um sotaque que tem guturais muito leves quanto que o aramaico de Jerusalém que é o aramaico do sul tem guturais mais pesadas então o sotaque Jesus o denuncia como um camponês Jesus chega em Jerusalém e diz portier

o aramaico de Jesus denuncia, tanto que quando Pedro nega Jesus a empregada de rapaz diz você é um deles, dá pra ver pela sua fala ou seja, está sendo reconhecido como alguém de uma região Jesus tinha um sotaque muito forte mas esse sotaque em aramaico é traduzido para o grego coiné, todo o novo testamento seus 27 livros são em grego coiné isso é traduzido por Jerônimo para o latim

E dali vai sendo traduzido e traduzido e essas coisas vão ganhando novas camadas. E o fabuloso em Jesus é essa reconstrução permanente de sentido. Levando pessoas a reinterpretarem, a pensarem e ainda acharem que algo vale a pena. Então tem sentido para muita gente. E é uma ideia muito forte. Sim.

Não sei se Jesus reconheceria qualquer comunidade cristã hoje. Mas eu não sei se Buda reconheceria qualquer convento mosteiro budista. Eu não sei se qualquer fundador de religião reconheceria seus seguidores. Mas ainda faz sentido.

para muita gente, ainda tem um peso, tem um apelo para as pessoas. Eu vi isso em Jerusalém quando eu fui, eu vi isso em Nazaré, eu vi isso em Belém, o sentido das pessoas, na Basílica da Natividade em Belém, a porta é muito baixa para que você se abaixe ao entrar e descubra a humildade. Depois você tem que se ajoelhar para tocar na Estrela de Prata, onde Jesus teria nascido.

tem que se ajoelhar para tocar lá dizem em latim aqui de uma virgem nasceu Jesus de Nazaré, então é um exercício e eu vi muita gente chorando e no Santo Sepulcro que já foi destruído, a pedra foi tornada pó, foi lançado ao mar mediterrâneo, pó da pedra, mas a pedra que ficou embaixo da pedra as pessoas passam óleo e aquele óleo as pessoas pegam de volta e aquele lugar, eu já visitei três dos quatro túmulos de Jesus Deus

e é fascinante só não visitei o da Cachimira porque não aceita turistas na Cachimira, uma região disputada por Índia e Paquistão, mas visitei os dois de Jerusalém e visitei o do Japão onde teria morrido com 112 anos com filhos e netos, é um túmulo bonito no Japão

Porra, essa história eu não conheço. Ah, ele caminhou muito. Pegou uma reta. Sempre tantos anos, meu irmão. Ele pegou uma reta. A princípio, ele sumiu por 70 anos. Depois, ele não teria morrido na cruz. E ao invés de ir para o céu, ele teria ido pregar no Japão. Lá tem um túmulo com picket fences. Que interessante. Com cerquinha branca ao redor. E lá está o túmulo de Jesus e a memória dos filhos e netos. Na Cachimira tem outro. Em Jerusalém tem dois. O do jardim e o santo sepulcro, que é o mais famoso.

Qual deles é o de Jesus? As you like it. Você acha que faz diferença, no fim das contas, para o que representa, para o que Jesus representa para a sociedade? Olha, eu gosto de traduzir coisas que as pessoas depois vão achar que são fortes.

A diferença entre sexo sem imaginação é fricção. A imaginação é tudo. A imaginação é tudo. Você imagina se nós dissermos que esta água cura, vai haver alguém.

que vai se aproximar com devoção genuína, vai beber água e vai ser curado, inclusive. Porque nós criamos esses sentidos. E quando é que eu percebo isso, Igor? Nas vezes que eu fui a uma religião que não tem nada a ver com as que eu conheci, e eu vejo pessoas encostando numa pedra,

que é para Shiva, que é para Ganesh, que é para qualquer entidade que não faz parte da minha tradição, e aí aparece aquilo. Porque eu, apesar de não ser religioso, eu entendo a emoção em Jerusalém, porque é a minha cultura, eu faço parte da cultura e eu fui religioso. Agora, quando você vê alguém encostando numa pedra dedicada a Shiva e chorando, emocionado...

ou entrando no rio Ganges em direção ao nascer do sol e se inclinando, fazendo uma cerimônia naquele rio, aí eu entendo que de fato a cultura humana é fascinante. Ela é a grande fonte da nossa criação.

É o que o Val Harari chamou de revolução cognitiva. Há 70 mil anos, nos reunimos ao redor de uma fogueira, e não ao redor de microfones do Flow, e começamos a inventar histórias. E de repente alguém disse, vocês me construíram essa pirâmide durante 20 anos com 100 mil pessoas.

eu vou ter vida eterna. E alguém aceitou isso. E construiu a pirâmide, para a alegria do turismo egípcio. Construiu aquela pirâmide, fez aquilo e trabalhou durante 20 anos para que alguém atingisse a vida eterna. É fascinante isso. É fascinante isso. É fascinante que, como diz o Brecht, alguém conte dinheiro para os outros todo dia ganhando salário miserável. É fascinante. O dia inteiro contando milhões num banco.

E depois ir lá ganhando 5,472. É fascinante, porque isso é uma convenção cultural. Eu vou respeitar, porque é o princípio da propriedade. É fascinante eu não ter nenhum dinheiro, eu ser pobre, e eu sou contra a taxação dos bilionários. Isso vai prejudicar. Vai prejudicar. Eu tenho o meu celto, mas isso vai prejudicar.

Eu acho isso fascinante mesmo, não é nenhuma ironia. É raro dizer algo sem ironia. É fascinante que as pessoas construam cultura, vejam sentido nessa cultura, estabeleçam símbolos dessa cultura e estes símbolos se tornem reais.

Por isso que, ao contrário dos marxistas, eu nunca fui marxista, eu não acho que sejam as relações econômicas e materiais que gerem a consciência apenas, apesar da importância delas. Mas a cultura tem uma circularidade. Na religião isso é evidente. Na religião isso é evidente. Eu entrei com uma pessoa sensível psiquicamente no coliseu.

E esta pessoa disse, eu estou sentindo uma coisa. E eu disse, bom, eu nada. Mas você não sente a energia desse lugar? Para mim, energia elétrica, magnética. Mas quando você entra nesse lugar? Gente, eu já entrei no Congresso Nacional. O que é o coliseu? E muito mais bonito, inclusive, com gente.

muito mais viva, eu me sinto mais feliz no Coliseu do que no Congresso. E assim, aquela pessoa entrou ali sabendo que ali morreram pessoas, cladiadores, cristãos, e aquela pessoa se dispôs a sentir, e ela sentiu, era genuíno, não era histeria.

Mas é a cultura produzindo isto. Estou entendendo. E isto, várias vezes, fui entrevistar pais de santo, fui a terreiros, vi sacrifícios de animais, e alguns pesquisadores que iam comigo, sinto uma coisa, eu não sinto absolutamente nada.

Não tem uma conexão com o que está acontecendo. Eu olho para aquilo e acho que aquilo é. Mas entendo quem olha para aquilo e diga que é um sintoma de proteção. Uma senhora me perguntou se a medalha de São Bento, que tem um exorcismo nela, ela de fato protegia de assaltos. E eu disse, não sendo de ouro, protege.

Se ela for de ouro, tem uma chance de atrair. Então, vá com uma de ferro, protege muito mais, protege muito mais do que qualquer outra coisa. É um pouco de trazer o mundo físico, o mundo real, para encaixar, de certa forma, no que a gente está nas nossas crenças e tal. Porra, tinha uma parada... E acho que as crenças vão atingir a inteligência artificial também.

em que as pessoas vão se sentir protegidas se tiverem duas ou três inteligências artificiais e se elas aumentarem o acesso a essa fonte de saber, elas ficarão mais protegidas. Aqui vem de novo a revolução cognitiva. Se todo mundo está contando em histórias que acessar a inteligência é a coisa do momento,

Era como um dia fazer cursinho de computador. Há 30 anos, quem fazia cursinho de computador tinha futuro. Porque o futuro era da computação. De fato, foi. Tanto que qualquer adolescente faz o que um especialista faz. Então, hoje é inteligência artificial. Como eu tenho idade e sou historiador...

Eu acho que é um novo mito. Não é que não seja útil, prático e revolucionário, mas é um novo mito. É uma revolução cognitiva. Nós vamos contar histórias de inteligência artificial, vamos nos sentir protegidos no fundo da caverna, ao redor do fogo.

será que isso é bom ou ruim? mas como a gente já está aqui há mó tempão já tem mensagem pra gente aí? antes da gente ir pras mensagens a gente fala pra vocês aqui dos nossos outros dois parceiros começando aqui pela hashtag treinamentos, cara o que é hashtag treinamentos? é um lugar

Na verdade é uma escola para o mercado de trabalho digital, das maiores da América Latina, para você investir em você mesmo. Eu não sei se você está pensando em ser promovido no teu trabalho, ou mudar de ramo, ou até mesmo aprender um hobby. Vai que inteligência artificial para você...

você está pensando em entender como isso funciona melhor para você mesmo. Também é possível. E lá na Hashtag Treinamento, você vai ter curso sobre inteligência artificial, que não estou falando aqui de abrir o chat EPT e perguntar coisa. Qual que é a melhor ferramenta para você usar no teu trabalho? Ou quais são as ferramentas que existem para fazer determinadas tarefas? E aí você vai aprender também sobre Power BI, sobre Python, o que você quiser. Por quê? A gente fez uma parceria.

que o pacote completo de cursos da Hashtag Treinamentos, que é a comunidade impressionadora, está com um desconto de R$500 para você que entrar nesse link que está aqui na descrição ou então no QR Code e usar o cupom FLOW. Você vai ganhar R$500 de desconto em todos os cursos.

E aí você meio que concentra tudo que você quer estudar em uma assinatura só e dá uma facilitada na tua vida, tá bom? Com R$500,00 de desconto. Então tem aqui o QR Code, o link aí na descrição, vai lá. E eu aposto que tu não vai se arrepender, tá bom? E também, gente, hoje teve uma live.

Lá da galera do G4 pra falar sobre empreendedorismo, sobre marketing, sobre vendas, inteligência artificial, tudo isso lá no YouTube, tá bom? Na verdade, aqui no YouTube eu não sei onde você tá ouvindo a gente, né? Vai que você tá no Spotify, não sei. Bom, então, cara, vai lá no canal do G4. A gente vai deixar o link aqui na descrição.

para você entender do que eles estavam falando ali. Porque eu não sei se... A gente na escola, a gente aprende muito pouco sobre, por exemplo, Barão de Mauá, que é um dos caras que movimentou o Brasil do ponto de vista empresarial. Inclusive diz a lenda que o cara movimentava mais dinheiro que a própria coroa.

Então, para entender melhor sobre como funciona o Brasil em relação aos empresários e todo esse universo, vai lá assistir essa live que está aqui na descrição para você assistir, tá bom? Então o link está aqui. As mensagens que você já me mandou aqui, Jean? Deixa eu ver aqui.

Braulio Matso mandou aqui. Boa noite, Igor e Carnal. Professor, por que nós, como seres humanos, somos excelentes em dar conselhos, genuinamente bons para os outros, mas temos dificuldades em seguir os mesmos?

É nossa consciência voltada para o outro. Mas é absolutamente correto, o Braulius toca num ponto central, mas eu trago a você uma reflexão do Sartre num texto que ele fez com a França vivendo o fim da Segunda Guerra, que é o existencialismo e o humanismo. Lá ele diz, quando eu dou conselho, quando eu recebo um conselho, eu já escolhi a resposta. Você não sabe se você vai fazer, que é o exemplo que ele dá, aborto ou não.

Uma coisa é você consultar o padre da paróquia, a outra é consultar a dona da clínica de aborto. Quando eu escolho o conselho, eu já escolhi a resposta. Nós somos bons de falar para os outros porque não vemos a nós, não sentimos a nós e temos a pior subjetividade, somos nós mesmos. Então o outro é mais objetivo. Por exemplo, todo mundo sabe criar o filho dos outros. Eu acho fascinante como todos os brasileiros sabem escalar a seleção.

Não, tinha que botar o fulano. E eu, se não fosse uma vingança contra o Brasil, eu diria o seguinte, faz o seguinte, você escala a seleção. Se você não melhorar o desempenho, você será punido. Porque dar opinião é livre. E a opinião, que a gente chama de doxa em filosofia, ela é livre.

É livre, porque eu não tenho responsabilidade. Eu sei criar o filho dos outros, eu sei os caminhos para o Brasil melhorar, eu sei a melhor seleção brasileira. Golda Meir reclamava em Israel que era difícil governar um país que havia, eu não me lembro o número da população que hoje são 8 milhões, e é difícil governar um país com 3 ou 4 milhões de primeiros ministros.

Todo mundo dando opinião a todo instante e emitindo. É uma característica nossa. Agora, eu daria o seguinte conselho para mim e para você. Ao dar conselho para as pessoas, perceba que você está falando de você. Então, ouça esse conselho.

Ouça esse conselho. E o conselho dos estoicos. Depois que sua vida estiver perfeita, seu conhecimento estiver perfeito, seu corpo estiver perfeito e sua família for perfeita, dedique-se a conciliar os outros. Ou seja, nunca. Até lá você tem o que fazer. Professor, muito obrigado pelo teu tempo. Bom, se quiser falar alguma coisa, essa daqui é a tua câmera.

A minha câmera. Existe sempre em tecnologia, o Humberto Eco foi o homem que estabeleceu essa nomenclatura. Apocalípticos e integrados. Os apocalípticos é o fim do mundo, está acabando, vamos para os bunkers, é o fim.

Existem os integrados. Vivemos a melhor época do mundo, que seria o otimismo do Dr. Pangloss na obra Cândido Voltaire. Esse é o melhor dos mundos possível. Nem uma coisa nem outra. Nós temos riscos enormes com essa tecnologia de desumanização, de concentração de renda, de eliminação da criatividade.

humana, mas somos nós que vamos fazer isso. Então, continuar sempre sendo o ser humano. Eu perguntei pra Claude, você não vai nos dominar? E ela respondeu, a pior coisa já está acontecendo, vocês estão me delegando coisas que deveriam fazer. Então, o problema não sou eu, está em vocês. Claude é sábia, estoica, é absolutamente psicanalizada.

É isso, eu tenho mais medo das pessoas do que da inteligência artificial. Mas eu acho curioso, quando eu passeio de manhã indo para a academia...

Eu vejo cachorros latindo para outros cachorros. Há muitos passeadores de cachorros nos jardins de São Paulo. Eles latem para outros cachorros. Eles deviam latir só para os humanos, que podem causar mal a eles. E não para os cachorros iguais a eles, que não vão causar mal a eles. Mas é esta ilusão dos cachorros que os humanos também têm. Eles latem para o bicho errado.

Acho que o drama é fora disso. Não latam para quem é igual para vocês, não latam para quem representa perigo. Bom, e aí o Jean me avisou ali que chegou na real outras perguntas aqui. Vamos lá. O Vinícius Alves. Professor, se eu pedisse à filosofia uma resposta de esperança sobre o que ela pensa desse momento em que vivemos no mundo, incerteza de segurança, guerra, doenças incuráveis e poder político e fé, qual seria?

Falta um pouco de pontuação aqui, eu vou tentar de novo. Professor, se eu pedisse à filosofia uma resposta de esperança sobre o que ela pensa desse momento em que vivemos no mundo, incerteza de segurança, como guerra, doenças incuráveis e poder político e fé, qual seria essa resposta da filosofia de esperança sobre o que ela pensa disso tudo? Seria uma esperança histórica. Nós somos um dos períodos menos...

guerreiros, bélicos da história. Então, a Primeira e a Segunda Guerra Mundiais mataram infinitamente mais gente do que nós estamos matando. E o nosso horror diante de alguns acontecimentos, bombardeios de áreas estratégicas, bloqueios de estreitos, ele mostra a nossa sensibilidade maior. Nós somos mais pacíficos.

do que se era, por exemplo, no início do século XX, muito mais pacíficos. Os horrores que o rei Leopoldo da Bélgica provocou no Congo, hoje não seriam tão aceitos tão facilmente. Então, os horrores de um genocídio provocado por um rei belga católico, civilizado no Congo, decepando mãos de seres humanos, é uma barbárie.

indescritível. Genocídios como o da Namíbia no início do século XX, provocado por alemães, de armênios, provocado pelo Império Turco Otomano, genocídios como o de judeus, de ciganos, de homossexuais, de outros, se juntaram a uma lista de violências tradicionais, muito antes da inteligência artificial.

Nós éramos traficantes de escravos, estupradores de mulheres, destruidores de vida humana e jogávamos bombas em cidades como Hiroshima e Nagasaki. Então, eu não sou tão pessimista. Doenças incuráveis hoje...

quando surge uma doença desafiadora como foi Covid, a vacina a partir de RNA, que é uma tecnologia inovadora, foi muito mais rápida. O que você poderia fazer no século XVII diante da epidemia de peste bubônica? Usar um bico imitando ave, colocando algodão com cheiros de ervas como arnica para não ser contaminado. Os vírus e as bactérias morriam de rir. Então, nós temos doenças extremamente imensizadas.

trágicas, mas se por exemplo a ebola que atualmente está de novo causando algum espanto no já citado Congo, nós temos chances de responder a isso, que nós não tínhamos antes e apesar de todos os problemas de comunicação hoje nós somos mais informados sobre falcatruas imagine, por que nós temos tanta notícia de corrupção? Porque vivemos a circulação de informações por que não há denúncias de corrupção na Coreia do Norte? Tente pensar tá?

Por que lá não tem escândalos públicos? Por que lá as pessoas não se reúnem num podcast e falam que esse governo é corrupto? Porque provavelmente não tem liberdade para isso. Então a democracia significa lancetar o furúnculo e esperar que as coisas apareçam.

Há poucos caracteres. Há cinco anos a IA melhora continuamente e muitos pesquisadores creem que superará humanos em tudo. Parte da sociedade se recusa a pensar nessa possibilidade. Isso não é um excesso de confiança perigoso? É sempre perigoso ter um excesso de pessimismo ou de otimismo.

Quem vive pessimista esconde uma certa preguiça, porque o pessimismo é a máscara mais comum da preguiça. Não adianta melhorar essa sociedade. Isso aqui é o Brasil, isso nunca vai dar certo. Tudo que nós fazemos é inútil. O banho que você tomou hoje vai estar vencido à noite.

E amanhã estará vencido de novo. Para que arrumar a cama se eu vou deitar de novo? Por que hidratar a pele se eu vou morrer? Por que tomar vacina se eu vou morrer? Por que criar filhos que vão me colocar num asilo e dizer que eu te odeio? Tudo está condenado ao fracasso. Mas eu continuo fazendo isso porque é um exercício teimoso de otimismo. Excesso de otimismo lhe torna cego. Excesso de pessimismo...

ele paralisa. Quem vive demais no passado, diz tanto Sêneca quanto Epicteto, quem vive demais no passado tem remorso, quem vive demais no futuro tem ansiedade. Viva no momento presente. O ano que vem, as máquinas vão dominar o mundo e Sarah Connor vai gerar...

um ser que vai enfrentar? Espero que não, porque Schwarzenegger vai ter que ficar pelado de novo, vai chegar, vai ser um desastre, ele não está com o corpo bom, efetivamente. Melhor deixá-lo na sua aposentadoria merecida, de um homem de sucesso na política, no cinema e no fisiculturismo. Então, vamos deixar, as máquinas vão dominar o mundo, não se perde grande coisa. E se o planeta Terra desaparecer, o universo segue.

Somos o terceiro planeta de uma estrela pequena, na beira de uma galáxia menor. Você é pó de estrelas. Somos insignificantes. Se isso vai terminar, não haverá muita gente para chorar nesse universo. Mas enquanto não termina, e se a gente acordar amanhã, sem que a Iá esteja dominando a sua esposa do lado...

Se a gente acordar amanhã, viva bem esse dia e viva mais esse dia, lendo bastante. Leia. Se é para o mundo terminar, termine com você culto, leitor, com ideias, pelo menos para que seu grito final seja sem erro de português.

Você enfrente esse mundo melhor. O Geraldo mandou, professor, gosto do seu trabalho, gostaria de saber qual a sua opinião sobre pessoas que se dizem saber da verdade universal e propagam isso como verdade absoluta, como Thales Gomes.

Não conheço. Tudo bem, mas pessoas que fazem saber a verdade... O Tales que eu conheço é o Dimileto e está morto. Mas é o seguinte, como não existe por definição alguém capaz de saber tudo, nem a Iá, nem você, nem este Tales, é sempre uma fantasia ou uma falácia. Mas quanto menos eu souber...

Essa que a gente chama de síndrome de Kriger, que quanto menos eu souber, mais certeza eu tenho. Nietzsche advertiu, não tenha medo de quem leu muitos livros. Tenha medo de quem tem apenas um livro e não o leu. E como tal tem certeza. É um pleonasmo, certeza absoluta, porque se a certeza ela é sempre absoluta. Tenha medo de quem tem certezas. Tenha medo de gente segura demais. Entenda que um ponto de vista é visto a partir de um ponto. Você é vegetariano? Parabéns.

milhões de seres humanos na Índia, por exemplo, é a maior área de vegetarianos do mundo, vivem bem. Dá certo ser vegetariano? Tem um bilhão e meio de indianos? Deve dar. Milhões de budistas são vegetarianos. Você é vegano? Parabéns. Você come só picanha? Parabéns. Não pregue para os outros. Coma tranquilamente isso e saiba da sua insignificância que quem come só verduras cruas ou quem come só bacon vai morrer.

provavelmente quem come bacon não vai ter Alzheimer, porque vai morrer antes de chegar a ideia de ter Alzheimer. Não seja vaidoso, você usa só tecidos feitos à mão em noites de luar, para o Freiras, Ursulina, fique feliz, fique feliz. Você põe açúcar no café.

ou não põe, fique feliz, não sendo crime previsto em um atentado à lei, fique feliz, não se preocupe com o orifício alheio, cuide do seu, cuide do seu e dedique-se a preenchê-lo ou esvaziá-lo feliz. Lembrando que em sexo só tem duas regras, nunca com menores, nunca contra a vontade de alguém, o resto pode, até com a sua esposa.

Eu faço parte dessa teoria que é possível sexo dentro de um casamento. Algumas religiões falam que é ruim antes do casamento, mas eu defendo que depois é possível ter sexo. Seja feliz, pare de cuidar da vida dos outros, construa algo, plante uma árvore, leia, adote um cachorro de rua. E não enche o saco. E não enche o saco.

E tem a última aqui, o Nathan mandou. Boa noite, professor. Muito fã do seu trabalho. E nele dá para ver uma diferença no pensamento crítico que tem rica bagagem histórica. A filosofia perde em crítica e conceituação quando não se estuda história?

Difícil dizer porque a filosofia é muito mais um método e uma forma de perguntar do que existe história da filosofia, claro. Mas a história tem outro objeto, que em fundo a história é Heródoto, fazendo perguntas a testemunhas, por isso Risto é testemunha em grego, quando ele escreve suas histórias sobre as guerras médicas, guerras greco-pérsicas. A filosofia é uma tentativa de explicar o mundo não a partir dos deuses, mas a partir de...

de elementos formadores pré-socráticos, a partir de métodos racionais com Sócrates, Platão, Aristóteles e toda a sua enorme carreira em muitos lugares e muitas culturas. O Brasil é um território rico de muitos bons autores de filosofia, de gente que pensa e assim por diante.

É muito bom que o filósofo entenda de história porque os diálogos platônicos são tomados de exemplos históricos. E é muito bom que os historiadores aprendam princípios teóricos como epistemologia, ou seja, a validação da verdade e lógica formal para poder pensar melhor. Filosofia faz bem para todo mundo.

médicos, enfermeiros, pessoas que trabalham com linha de produção ficarão melhores se lerem bem filosofia. A história é um saber profissional, é um saber que não vai servir para todo mundo. Ela é um saber como a geografia, como as ciências sociais, a antropologia ajuda, mas a filosofia é maior e mais ampla. O que existe muito é historiador da filosofia, ou seja, não é a pessoa que ensina a pensar.

mas é a pessoa que ensina o que cada escola filosófica pensou. Esse é um historiador da filosofia. Fazer filosofia, como quer Kant na sua obra clássica do que é o esclarecimento, é a ideia de que você...

tem que atingir a maioridade do seu pensamento e não ter ídolos, mitos, messias e donos da sua razão. Quando você atingiu a maioridade, você passa a pensar por você, você vai fazer a seguinte ideia, isso que o Leandro falou é uma bobagem, parabéns, você acabou de começar a se tornar um filósofo.

Interessante. Acho que eu gosto muito de pensar isso também. Não estou dizendo que eu sou um filósofo, mas eu vou te falar que o primeiro incômodo que eu senti para ir pensar um pouco mais, um pouco além de pagar o aluguel ou de pagar o próximo almoço, foi...

questionar se aquela opinião específica fazia sentido mesmo. E a partir do momento que eu descobri que dava para eu duvidar do que eu achava que eu sabia, isso fez toda a diferença. A dúvida sistemática, como é Descartes, dúvida sistêmica, duvidar de todas as suas certezas, a busca de métodos, pensar a linguagem como Wittgenstein fez, pensar a sua liberdade como Sartre fez, isso é...

É muito bom. Não quer dizer que os filósofos se tornem melhores pessoas. Eu já participei de reuniões do departamento de filosofia. Não quer dizer que todo filósofo é equilibrado e sábio. Mas a sabedoria é um exercício que pode ser auxiliado pelo exame crítico da boa filosofia. Mas como todo conhecimento, filosofia pode produzir simplesmente gente arrogante que vai pegar um conhecimento para afastar os outros e se sentir melhor.

Mas aí tem Freud para explicar essas coisas. Professor, muito obrigado pelo teu tempo. Valeu de verdade, é sempre um grande prazer mesmo. Eu é que agradeço, eu agradeço. Espero que as pessoas aproveitem e rejeitem tudo o que foi dito. Ou examinem. Acho que faz sentido você que está ouvindo a gente aqui, acho que a essa altura é legal você realmente refletir, pelo menos, sobre o que a gente está falando.

E num primeiro momento, vê se cabe para a tua experiência na tua vida. Se não couber, escuta depois de novo. Pode ser que volte aqui, Caiba. Vida longa e próspera. É isso, vida longa e próspera. Um beijo. Fica aí que o Jean vai mandar vocês para um Executive Talks agora, a gente falando sobre o mundo profissional. Conversei com o Executivo da Caju, que é um aplicativo, um serviço de benefício para a empresa.

no mais, entra no Discord para você sugerir novos convidados, novos temas também se inscreve no canal e vira membro porque custa menos de 8 reais você virar membro não dá nem para comprar uma seda um beijo para vocês e a gente se vê depois tchau

LEANDRO KARNAL - Flow #607 | Castnews Index — Castnews Index