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SIDNEI BARRETO NOGUEIRA - Flow #584

07 de abril de 20262h10min
0:00 / 2:10:37

Professor e babalorixá do Candomblé.

Participantes neste episódio2
I

Igor 3K

HostComediante
S

Sidney Barreto Nogueira

ConvidadoProfessor e babalorixá
Assuntos5
  • Oracao EspiritualExu e sua representação · Relação entre religiões · Autoconhecimento e mudança · Dinâmica de poder e dinheiro · Desafios e superação
  • Desigualdade SocialRacismo religioso · Estigmas sociais · Percepção de religiões afro-brasileiras
  • Responsabilidade PessoalAutorresponsabilidade · Cultura de escassez · Mudança e crescimento pessoal
  • Unidade e comunhão espiritualRelações interpessoais · Impacto da espiritualidade na vida cotidiana
  • Pauta Identitaria e CulturalIdentidade negra · Relação com a ancestralidade
Transcrição315 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

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Salve, salve, família. Bem-vindos a mais um Flow. Eu sou o Igor e hoje eu vou ter um papo espiritual, transcendental e ajudar todo mundo. Hoje, na verdade, eu vou conversar com o Sidney. E aí, Sidney, tudo bom, cara? Tudo jóia, tudo maravilhoso. O Sidney é um babalorixá do Candomblé, além de um estudioso, além de professor, além de escrever uns livros importantes com pessoas importantes, né? Então, obrigado por vir aí, obrigado pela moral, cara.

Eu que agradeço, eu que agradeço. Essa conversa é muito importante. Só o conhecimento que vai quebrar essas barreiras do ódio. Então, quanto mais as pessoas souberem sobre as nossas histórias, e eu falo nossas porque de todo mundo, mais a gente vai se reconhecer.

Em lugares comuns. Então vamos começar por aí, Sidney. É o seguinte. Cara, eu... A gente estava falando aqui antes que é natural. Não diria natural, mas eu diria que é pra mim, por exemplo. Como foi o meu contato com o candomblé, por exemplo. Primeira vez. Minha mãe, ela é evangélica. O meu pai, na verdade, ele era da Umbanda, alguma coisa assim por um tempo. Era uma...

Era uma questão lá em casa, um pouco, sabe? Rolava uma tensão, de alguma forma. Aí depois o meu pai parou, e aí ficou um tempo sem alugar nenhum, aí um dia ele foi na igreja, mas o meu pai nunca virou evangélico. Mas o que eu quero dizer é que quando eu fui crescendo...

e na minha galera ali, a ideia dos caras da... E eu vou falar claramente aqui, tá? Já te disse que eu sou ignorante, então eu vou falar claro pra todo mundo entender. Os macumbeiros, eles eram vistos como... Puta, aquele cara ali, mano, aquele cara ali é perigoso, não se mete muito com aquele cara ali, não.

e vinha uma ideia meio que é do mal. Manja? Até as representações das entidades passavam... Olha como isso aqui é do mal. Obviamente isso aqui é do mal. Está vendo? É uma caveira, sentada num trono de caveira, sei lá. Entendeu? O que você me diria sobre isso? E qual é o impacto real que você acha que isso tem na sociedade? Essa sensação média de que a macumba é do mal?

Olha só, eu acredito que o que você viveu lá, com seu pai umbandista, sua mãe evangélica, são justamente essas tensões que a gente vive hoje, em que o mundo é dividido. Precisa dividir.

Então, você é bom, o outro é ruim, você é gordo, o outro é magro, você é preto, o outro é branco. Tem muito isso, isso está muito posto. As pessoas precisam dividir, dividir o mundo. E, na verdade, nós não precisamos dividir nada, nem deveríamos dividir. Quer dizer, a prova cabal é que, de um jeito ou de outro...

O seu pai ficou com a sua mãe. Sim, estão lá até hoje. Então. Mesmo ele com uma formação espírita umbandista e ela com uma formação evangélica. Não é? Muito provavelmente, num dado momento, ele até abriu um pouco mão, em nome do amor, em nome da família. E está tudo bem. Está tudo bem. Porque as coisas deveriam ser conduzidas, sim, pelo amor e não pelo ódio.

E nós temos uma filosofia de Exu, que é a divindade mais satanizada do candomblé e da umbanda, que é o seguinte, Exu é a mutabilidade, portanto, a mudança é a única certeza da vida. E quando a gente cai nessa armadilha de dividir, de satanizar, é porque a gente não quer aceitar a mudança.

Mas não existe vida sem mudança. Veja que o seu pai, o seu pai mudou um pouco, quer dizer, e cedeu, e certamente houve esses arranjos. Então, eu penso que...

Primeira coisa, a satanização das religiões de matriz africana, Umbanda, Quimbanda, Candomblé, Batuque do Rio Grande do Sul, elas só interessam a quem gosta de hierarquizar o mundo. Então, eu quero que isso seja mais importante e para isso ser mais importante, eu preciso nomear alguma coisa menos importante. Eu quero que isso seja o bem e para isso ser o bem... Algo precisa ser o mal. Algo precisa ser o mal.

E é disso que se trata essa perseguição, quer dizer que é alguém que está interessado, em primeiro, não reconhecer a existência de outras possibilidades religiosas. Eu sou sacerdote, eu sou religioso, eu acredito na religião.

Embora a minha maneira de lidar com religião até vai um pouco além dessa ideia de conexão, de religare. Que é até meio com todo respeito batido. Todo mundo fala, ah, não, religião quer dizer religare. Religare e tal.

que vai até um pouco além, não é? Mas eu, de verdade, acredito na religião. Eu acredito. Eu não tenho nada contra as outras formas de manifestação religiosa. Nós, de terreiro, não perseguimos ninguém. Porque a nossa cultura religiosa, espiritual, não é uma cultura de única verdade.

Mas isso também é verdade em outros... Vamos lá. Isso é verdade na origem, lá em África, por exemplo? Por que eu estou te perguntando isso? Porque estando numa posição de minoria...

É meio que natural que tu seja menos agressivo que a maioria, por exemplo, católico. Mas lá onde havia ou há uma maioria que segue essas religiões, lá há algum tipo de combate, embate? Não, porque você veja, o continente africano é prioritariamente muçulmano.

E aí eles tratam esse segmento muçulmano como religioso.

e a ancestralidade e a espiritualidade como etos, como alguma coisa da identidade, como alguma coisa familiar. Então, é muito comum você ver no continente africano uma pessoa que é muçulmana, mas ela não abandona a sua espiritualidade, a sua ancestralidade. Então, na essência, não é o ou, a conjunção alternativa ou que vale. É o e, todo mundo pode ser isso, é isso, é isso. Você sabe que eu tive em...

Em março do ano passado, eu estive na Carolina do Norte. Eu fui para uma universidade negra da Carolina do Norte e eu fui dar uma palestra lá. Todo ano eles fazem uma grande conferência de religião, política e diversidade. E eu fui convidado e tal. E a professora que me convidou, ela é da Igreja Batista. Ela, o marido e a filha congregam na Igreja Batista.

E aí eu cheguei na quinta-feira, tinha uma agenda e no domingo tinha o culto na igreja. E ela me convidou alguma coisa que eu não faria aqui no Brasil, não com naturalidade. Eu falei, ai professor, eu não sei, será? Porque eu vou desse jeito. Eu vou como pai de santo, eu não vou mudar para poder ir. Perfeito.

Ela falou, não, o meu pastor já sabe que você é um sacerdote como ele, que você é um sacerdote das religiões de matriz africana no Brasil, e ele quer, inclusive, lhe conhecer. E lá fui eu, é uma black church, uma black church batista. E lá fui eu... Dessas que a gente imagina mesmo, com música, com... Exatamente, exatamente. Só tinha visto isso em filme, no filme da Rope.

enfim, e aí lá fui eu pra igreja, tava um frio um frio e lá fui eu pra igreja, nove horas da manhã, o culto era das nove ao meio dia e eu fiquei deslumbrado fiquei muito deslumbrado e aquelas mulheres com aqueles chapéus com aqueles casacos é uma igreja negra então, inclusive foi uma das poucas vezes em que eu pude me ver espelhado e aí

porque para a pessoa negra é difícil se ver. A gente vê o mundo branco, a gente não vê o mundo negro. E eu me senti, cara, eu me senti muito bem nessa igreja, ele falando de Jesus, e nesse dia o sermão foi sobre prosperidade.

Foi sobre endividamento e prosperidade. E ele usou essa palavra que nós usamos no candomblé, o dinheiro, como magia. E nós temos que respeitar o dinheiro, o pastor dizia, e nós temos que cuidar do dinheiro. Então era sobre endividamento, prosperidade e o poder do dinheiro. E aí depois a gente foi jantar. Eu, a professora e o pastor, nós fomos jantar. E ele perguntou o que eu achei.

E eu falei, eu falei, olha, eu achei maravilhoso. E ele falou, você se sentiu em casa? Eu falei, eu me senti em casa. E ele falou para mim, você se batizaria na minha igreja? Eu disse que sim. Porque a minha cultura não é excludente. A minha cultura não é do ou, ela é do e.

Então, se uma igreja não precisa me esvaziar ou tirar o que eu já tenho, eu posso ingressar nessa igreja. Eu só não posso se ela disser... Bom, mas essa não é um pouco a doutrina da coisa? Abandona o velho homem do cristão? Isso é mentira, né? Que ninguém abandona nada. Para!

Isso é falácia, isso é propaganda face. É fake. Propaganda fake, porque ninguém abandona nada. Ninguém abandona nada. Inclusive, essa é a minha grande crítica ao cristianismo.

Uma crítica também porque eu considero um movimento perigoso, este movimento de que você pode a qualquer momento deixar tudo para trás e seguir livremente. Isso não é bom. Não é, quer dizer, não me parece adulto e maduro.

que a qualquer momento eu possa mergulhar na pia batismal e deixar toda a minha sujeira. Isso não me parece bom. Estou entendendo. Você está entendendo o meu raciocínio? Isso me parece que infantiliza as pessoas. Por quê? Tira delas a autorresponsabilidade. Você sabe, com 16 anos eu arrumo meu primeiro emprego.

Eu era muito pobre, sempre fui muito pobre, sempre fui muito pobre. Uma casa com muita gente. Na minha casa tinha meus oito tios e irmãos. Tinha eu, tinha meus três irmãos, tinha papai e mamãe. E tinha os filhos de santo da minha mãe, que naquela época era o terreiro de Umbanda, que minha mãe é mãe de santo. Eu nasci já com a mãe de santo. E aí eu começo a trabalhar com 16 anos.

Tinha um cara, enfim, tinha uma pessoa que ela comprava plásticos aqui no Braz, aqui na região central, e ela colocava os meninos para vender. E eu fui vender plástico, eu ia vender nas ruas. Aquela coisa de camelô. E aí eu tinha um dinheiro. Um mês depois desse emprego, quando eu chego em casa, a conta de água está sobre a minha cama.

O meu pai diz, bom, agora você trabalha, você pode participar das contas da casa. Com 16 anos. E aí, obviamente, eu me encantei com o dinheiro. O que eu fui comprar? A primeira coisa que eu fui comprar roupas de marca. Você quer roupa, né? Eu não tinha roupa, porque a gente era muito pobre, então a roupa era sempre do mais velho. Ela ia passando. Então você tinha pouca coisa sua.

E aí eu tive meu primeiro endividamento com 17 anos. Tu lembra o que tu comprou? Era leves. Uma calça leves. Tá, tá. Nessa época isso era importado, não é? Era importado nessa época. É caríssimo. Acho que eu comprei umas três calças jeans leves e comprei camiseta. Era leves. O momento era leves, pra eu me sentir importante. 17 anos. E aí eu me endividei e fui falar com meu pai.

Eu vou amarrar com o nosso primeiro tema aqui que a gente estava tratando. Aí eu fui falar com o meu pai. Meu pai era Plácido. O nome dele era Plácido. E ele era Plácido mesmo. Era uma pessoa muito tranquila, muito calma. Eu falei, papai, eu estou endividado, eu estou devendo, não sei o que e tal. Eu preciso de dinheiro. Ele falou, o que aconteceu? O que você comprou?

Eu fui lá no quarto e peguei, olha, eu comprei essas três calças, comprei essas três camisas. Eu nunca tinha tido um tênis, tanto que eu não uso tênis até hoje. Porque era caríssimo, o tênis era uma coisa cara. Tinha o conga, aquele tênis popular que você usava no dia a dia. Na minha época era quixute. Quixute, é conga depois quixute. E... Aí ele falou o quê? Por que você comprou isso? Falei, ai pai, eu achava que eu podia.

Aí sabe o que ele falou para mim? Você até pode, mas se você quer gastar mais, arruma outro emprego. Aí minha mãe pulou na frente e falou, mas que horas? Tem que estudar, tem que ir. Enfim. Ele falou de madrugada. Dorme menos e trabalha mais. Então eu fui educado com autorresponsabilidade. Eu não fui educado para culpar Exu pelos meus erros.

Os erros do mundo não são culpa do divino, da espiritualidade, do sagrado. Os erros do mundo são culpa nossa. Nós é que temos dizimado a natureza, nós é que temos transformado o mundo pior do que ele pode ser. Entendeu? Então, eu fui educado com essa cultura da autorresponsabilidade.

Então, você gastou mais e você quer gastar mais? Você quer gastar mais? Então, trabalhe mais. Então, você vai precisar arrumar outro emprego se você não está sendo capaz de viver com o dinheiro do plástico. Então, é nesse sentido que a minha cultura, a minha formação mesmo familiar, e ela está ligada à cultura religiosa, se opõe.

a essa ideia de transferência das religiões hegemônicas, pelas quais eu tenho todo o respeito. Eu nunca trago... Igor, na minha cabeça, eu não estou trazendo lei, não estou trazendo verdade absoluta. Eu não quero isso para todo mundo. Não se trata disso. Eu não tenho nenhuma pretensão. Mas eu preciso dizer, sim, que me incomoda muito esse discurso.

de transferência de responsabilidade. E transferência para forças sobrenaturais. Você sabe, eu sou pai de santo. Você sabe que as pessoas vêm me consultar sobre os seus problemas da vida. E a maioria delas quer facilitar a minha vida, que eu adoro. Como?

Chegando e dizendo que tem uma macumba, que ela está sendo perseguida, que tem inveja. Entendi, a culpa é dos outros. Que ela sonhou com a farofa na encruzilhada. Tem um provérbio, Igor, e Orubá, que eu adoro, que ele diz assim, atalho não é caminho completo.

Atalho não é caminho completo. Essas pessoas, elas querem atalho. Pode até ser que haja inimigos, e eu acredito que há no mundo. Tá, mas e a sua parte?

Qual é a sua parte na sua escassez, na sua infelicidade, na sua tensão, no seu adoecimento? Qual é a sua parte? E aí as religiões hegemônicas, com esse discurso de transferência, que é tudo... Está amarrado. É o satanás, é o demônio, é a macumba, é o...

Mas tu concorda, Sidney, que... Vamos lá. Qualquer tipo de... Você estava me falando que você se batizaria lá na Igreja Batista Negra, lá da Carolina do Norte. O problema é o apagamento de quem você é.

o meu ponto é o seguinte eu acho que as pessoas elas tem coisa pra ganhar quando elas passam quando elas mudam o padrão que elas estão vivendo, o que eu quero dizer com isso? eu quero dizer que um coach que eu tô vendo que ele tá enganando os outros, ele

tem o potencial de ter um efeito positivo na vida de alguém que estava precisando ouvir alguma coisa que atirasse do sofá, por exemplo. Como assim? Então, pô, eu estou aqui pensando, nossa, Deus não me ajuda, Deus não me dá nada, que não sei o quê. E aí eu escuto alguém falar de Jesus, por exemplo. E aí eu vou lá na igreja e o pastor fala umas paradas, que não sei o quê, que me tiram do lugar que eu estava. E agora eu, num lugar diferente, eu passo a ter resultados diferentes.

E esse resultado me parece possível com quase qualquer coisa. Então, um coach pode, mesmo inventando um monte de caô ali, falar alguma coisa que pega em alguém e transforma aquela pessoa. E eu acho que isso pode acontecer com qualquer religião também. Isso do ponto de vista cético. Aqui eu não estou nem falando... .

de espíritos ou outras dimensões, nada disso. Estou falando só do ponto de vista humano. Às vezes, uma palavra é tudo que o cara realmente precisa para ele sair do lugar. E quando você sai do lugar e vai fazer outra coisa, você tem resultados diferentes. E aquela, vou chamar de vibração naquela direção, de, putz, agora eu quero ter um carro, porque o pastor quer ter um carro, por exemplo.

vibrar de certa forma nessa direção, meio que te move no caminho de, de fato, conseguir alguma coisa. Pode ser o seu carro, mas você agora não está mais no sofá, entendeu? Então, eu vejo isso como positivo quase que em qualquer nível.

Não, faz sentido. Faz muito sentido o que você está falando. Faz muito sentido. Eu sou linguista, então, portanto... Tu lida com semiótica. Exato. As palavras são importantíssimas. As palavras... Tem um cientista francês, da linguagem, Banveniste, que diz nós somos produtores e produtos dos discursos que produzimos.

Então tem um efeito bumerangue em tudo que a gente produz. E também por isso que eu sou tão cauteloso em me colocar no mundo, que eu não quero me colocar discursivamente como uma pessoa violenta ou como uma pessoa que está excluindo alguma coisa. Entendeu? Eu não estou. Porque, de verdade, nós somos pessoas...

diversas e contraditórias. A contradição é humana. Está tudo bem. A contradição é Exu. Exu é a própria contradição. Ele vê você sofrendo e ele dá uma gargalhada, transformando o sofrimento em alguma coisa menor do que... Exu tem um ditado que eu adoro, que diz assim, formiga é formiga, elefante é elefante.

Não dê a formiga ao tamanho de um elefante e seja você o elefante. É essa palavra que mobiliza. Sim. Que aí eu começo a ver o mundo de outra maneira. Perfeito. Porque, de verdade, nós estamos programados para a dor, para o sofrimento. Nós não estamos programados para a alegria, para a felicidade. Do ponto de vista espiritual, tu diz? Não, do ponto de vista social. Tá.

do ponto de vista social, nós estamos programados para valorizar mais o sofrimento do que o prazer. É verdade. Isso se reflete em várias camadas. Em várias camadas. Dá para dizer, por exemplo, uma bem idiota é, cara, você que está assistindo a gente, você não prefere clicar numa fofoca ou numa bad trip ou dar vil pra caramba quando a gente está falando de guerra, por exemplo? Exatamente. Exatamente.

Prefere a polêmica odiosa a uma poesia, por exemplo. Isso é do ser humano, infelizmente. É do ser humano, infelizmente. Mas tem aí uma cultura que está atuando, entendeu? Então, eu concordo com você. O ponto que eu trouxe é que eu não sei se eu concordo com a mudança.

Sem compreensão das feridas e das tensões. Perfeito. Entendeu? Então, por exemplo, eu nasci numa família em que... Eu costumo dizer que a minha família era muito implicante. Por quê? Porque eram... Porque eram muita gente. Eram meus oito tios e irmãos. Qual era o tamanho da casa que você morava?

Era uma casa pequena, era tudo beliche. Dormia de dois em dois. Tá. Eu me lembro que no quarto eram quatro beliches. Pedrinho, tu pegou minha cueca de novo. Exato. O travesseiro era motivo de guerra. Eu sei, tu acha que eu não sei? O cobertor era motivo de guerra. Então, e mamãe e papai eram convocados para a guerra. Toda hora. Toda hora eles eram convocados.

Meu pai menos, mas minha mãe não. Minha mãe gostava, ela gosta de uma guerra. E aí aquilo, uma coisa que era pequena, virava um negócio gigantesco. Então, eu sou de uma família, que eu costumo dizer, muito implicante, entendeu? Em que tudo acaba sendo transformado em maior do que é.

E aí, por que eu estou trazendo isso? Porque eu precisei entender isso para me tornar menos implicante. Entendeu? Perfeito. Então, faz sentido o que você está dizendo. Mas tem duas coisas poderosas para a nossa transformação. É autoconhecimento e aceitação da mudança.

O que é mais difícil, Sidney? O autoconhecimento? Porque o autoconhecimento é um caminho infinito, não é? Porque assim, eu não sou filósofo, eu não sou estudioso, nada disso aí, mas eu converso com muita gente. E ao conversar com muita gente, eu tenho acesso a muitos pontos de vista da realidade.

O teu ponto de vista é muito diferente do meu ponto de vista. Você que chegou até aí, nós chegamos até aqui em tempos diferentes, em tudo diferente. E isso me coloca para pensar muito.

no caminho do que eu acho que é o autoconhecimento, porque eu não faço com muito método, entendeu? Assim, eu não estudei nada disso, eu fico só conversando comigo mesmo o tempo inteiro. E me parece infinito. Então, o autoconhecimento, ele é mais complexo do que a aceitação da mudança, na tua opinião?

mais difícil. Porque não dá pra você, acho que o Platão falava, que não dá pra você fazer uma mulher que não tá grávida dar à luz. Não dá pra você tirar, você dizer, tentar fazer uma pessoa compreender algo que ela não tá preparada pra compreender. Se é que... Isso eu tô falando só de explicar um ponto, né? Não tô nem falando de explicar a verdade. Porque aí a gente vai abrir um monte de aba aqui, né, Sidney? Olha só, tem uma coisa no candomblé?

No candomblé nós temos um conjunto de saberes. Um conjunto de saberes do continente africano. O candomblé que eu pratico é um candomblé de origem yorubá. Então, ele é chamado de candomblé nagoquetu. Nagoquetu é um tipo de candomblé. Você tem divisões dentro do candomblé, você tem divisões, como tem nas outras religiões.

E nesse candomblé que eu pratico, nós temos um conhecimento fundamental...

que é o conhecimento de Odu, que ele vem do Corpus Literário de Ifá. Ifá é uma divindade do conhecimento, dos saberes, ele sabe tudo. Esse Corpus Literário conta a história dos Yorubás, ele conta as guerras, ele fala dos sentimentos e da mitologia de todos os orixás, está tudo nesse Corpus.

não adianta que nós somos seres mitológicos. Nós somos seres mitológicos. Tudo que nós vivemos, em alguma medida, já aconteceu na mitologia. Seja ela greco-romana, seja ela na mitologia africana, tudo que nós vivemos aconteceu na mitologia. Portanto, a mitologia é um pouco esse relato de quem nós somos.

O que acontece no candomblé é que a mitologia é vivida um pouco mais de perto. Então, quando você lança os búzios, as conchinhas, e você identifica o orixá da pessoa, você automaticamente diz, olha, você está vivendo esse mito. Eu sou Xangô.

Xangô é o orixá da justiça, é o orixá do trovão. Xangô faz fogueira com os ossos dos mentirosos. Só o pilão emborcado, por conta da sua opacidade, da sua solidez, suporta o peso de Xangô, porque é o peso da justiça. A justiça é pesada. Ela é muito pesada. Não é?

Então, eu... Posso dar um parênteses rapidinho? Sim. Esse é um aspecto interessante, que você acabou de falar sobre Xangô, que é a justiça é pesada. Eu só quero dizer que a gente, às vezes, pede por justiça, e a gente não quer justiça de verdade. A gente quer o que a gente está enxergando do nosso ponto de vista, que é justo...

levando em consideração só o que eu estou achando. Foi a minha esposa que me ensinou isso, falando sobre Xangô. Eu falava que Xangô era o mais legal. Xangô é a justiça. Pensa legal, pensa legal. Tem uma lição de Xangô, que sempre, antes de ir até Xangô, avalia o pedido. Foi exatamente o que ela me falou. Porque dependendo da justiça que você pedir...

ela pode se voltar contra você. Que é isso, né? Na maioria das vezes, quando a gente quer justiça, a gente quer justiça para nós. E justiça para nós não é justiça. Não, justiça para nós não é justiça. A justiça tem que se espalhar. A justiça é coletiva, é comunitária. Justiça é justiça. Exato. A justiça tem que ser para todo mundo. E aí, por que eu estou falando desse ponto? Então, a vivência de terreiro é uma vivência mitológica.

E olha que interessante. Os orixás, eles são uma porção de Deus. Nessa cultura. Tá. Existe um Deus onde tudo deriva. Isso, Olorum Olodumari. Tá. Que é o criador. Que é o criador, a força criadora. Ele está dentro ou fora da criação?

Não, ele está dentro da criação. Tá. É a força criadora. É a força criadora... É uma força, não é uma pessoa. Exato. Não, essa é uma força criadora, é a pré-existência. Tá. Tanto que o Lourum Olodomari não tem gênero. Tá. Ele não tem gênero, porque ele existe antes da invenção do gênero. Tá.

Ele é a força criadora. Eu gosto mais, embora eu use a palavra Deus, mas eu gosto mais de uma tradição força criadora ou pré-existência, aquilo que existe antes de tudo. E aí essa força criadora, Olorum Olodomare, se manifesta nessas dimensões que nós chamamos de dimensões de orixalidade, que são os orixás. Tá. Então...

Eu tenho o Exu, que é a contradição e a mutabilidade, a palavra comunicação. Tudo isso pertence a Exu. E faz parte de... Isso, ele é manifestado. Exato, é uma porção de manifestação de Olorum Olodumari. Olorum Olodumari. Da força criadora. Tá. Todos esses orixás, eles são porções da força criadora. Portanto, todos divinos. Todos são Deus. Todos são Deus.

Tanto que no Candomblé a gente fala menos sobre Olorum e Olodomari. A gente fala sobre os orixás, porque eles são uma centelha de Deus que nós recebemos...

para poder cumprir a nossa jornada mítico-ancestral. Todos nós estamos vivendo uma jornada que, ao mesmo tempo, é mítica e ela é ancestral. Todos nós sofremos os impactos positivos e negativos dos nossos antepassados. Eu fui criado num território de muita escassez.

E eu tinha tudo para ficar na escassez, porque é sobre os impactos dos meus antepassados. E o Candomblé vem e me diz, você precisa romper com isso. E eu sigo rompendo com a escassez. E aí aqueles que vierem depois de mim não vão receber a escassez como uma força.

eles vão receber a prosperidade, a abundância, entendeu? Então, tem um provérbio, é do Daomé, é do Benin, ele não é nem Yorubá, ele é Evefon, que ele diz, nós somos seres espirituais experimentando a materialidade e não o contrário.

A materialidade é transitória, nós estamos experimentando. Mas nós não somos seres materiais. Nós somos seres espirituais experimentando a materialidade. Então, eu recebo Xangô. Eu recebi Xangô da força criadora. Eu recebi Xangô para ser Xangô e porque eu precisava de Xangô.

para não me tornar um estelionatário, para não me tornar um criminoso, para não me tornar um bandido. Então, o orixá que nós recebemos é duplamente o que nós somos e o que nós precisamos. Então, quando o candomblé vem, ele... E eu preciso dizer isso, eu não sou de candomblé para afrontar ninguém. Eu não olhei para o cristianismo e falei, vou ser de candomblé.

Não é isso. Eu acho que você não tinha nem como. Porque, como você disse, vem da tua família. É da minha família. É a cultura familiar. Porque as pessoas acham que é tudo assim. Que você tem uma sexualidade porque você quer afrontar o outro. Que você tem uma identidade de gênero porque você quer afrontar. Que você tem uma religião porque você quer afrontar. Não.

São 8 bilhões de habitantes no mundo. É sério que a gente acha? Alguém acha que todo mundo vai ser uniformizado, pensar do mesmo jeito, desejar do mesmo jeito, considerar a prosperidade do mesmo jeito? É sério? 8 bilhões de habitantes? E alguém acha que a gente vai ser tudo igual? Não! Eu sou macumbeiro!

porque eu tenho uma relação estreita. E, mais do que isso, uma relação de gratidão. Eu fiz um mestrado em semiótica e linguística geral na USP, e aí eu decidi fazer o doutorado. É linguística, portanto, é Ferdinand de Saussure, é França e tal, tal, tal.

E aí, a prova... Nunca pensei que eu fosse escutar esse nome de novo. Vai lá. A prova do doutorado... É claro, todo mundo estudou. A prova era francês. No mestrado era inglês, tal, tal, tal. Eu já tinha feito letras, então em inglês eu ia. Tirava de letra. E aí a prova era francês. Eu não sabia nada de francês. Você sabe o que eu sabia de francês? Oui. Merci beaucoup, mon amour d'agretien.

Merci, Boku, mon amour. É o que eu sabia. Eu não sabia nada. Pessoa preta, pobre. Vai saber o quê de francês? Não vai comer um... Acho que croação, talvez. Abajur. Abajur. Sutiã. Sutiã, exatamente. Não sabia nada. Aí, Igor, fiz a prova a primeira vez. Não passei. Era o teste. Fiz a prova a segunda vez. Não passei.

Francês sempre foi uma língua mais cara que inglês, né? Pra estudar, a aliança francesa é caríssima. Acho que hoje menos, mas no meu tempo era mais cara. Fiz a terceira vez, não passei. As sextas-feiras na casa da mamãe, no terreiro da mamãe, era o que nós chamamos de gira de esquerda. A gira de esquerda é a gira dos Exus e Pombagiras. É sempre sexta?

Não, na casa da minha mãe. Às vezes é segunda, às vezes é sexta. Depende do líder espiritual. Pode ser quinta? Pode ser quinta. Lá era sexta-feira. Começava 8 horas e terminava 1 hora da manhã. Era uma cumba pesada.

O que é uma cumba pesada? Era Exu e Pombagira, porque ele... Mas eu sou ignorante, Sidney. Exu e Pombagira. Quem são os Exus e Pombagiras da Umbanda? Umbanda é mais suave. Não, tem nada de suave. Não, não é? Tá bom, tá bom. Tem nada de suave. Tá vendo como eu sou ignorante? Não. Tá. É... Hoje tem uma Umbanda customizada, né? Que é pra vender. Descara dançandinho no TikTok. É, tem. Porque o capitalismo, ele manda.

E as pessoas vão customizar para vender. Não. Calma que você vai ver o mais leve. Era umbanda, que minha mãe era mãe de santo de umbanda. A gente chama de Tata de Umbanda. Dona Joésia, meu ídolo, a pessoa mais importante da minha vida. E aí, a Lagoana, minha mãe é a Lagoana. Pelo que tu me contou dela, a Dona Joésia é sinistra. É sinistra.

Aí, a terceira vez eu não passei. Era muito longe. Eu morava em Mauá e era Butantã. Era três horas de viagem. Puta merda. Pra chegar na USP. Pegava carruagem, pegava trem, pegava carroça, pegava cavalo. Andava mais um pouco. Andava a pé, fazia o seu... O cárdio. O cárdio. E não chegava. E eu tinha que vir. Naquele tempo não era tudo online, né? Você tinha que vir ver a lista colada na parede.

E a terceira vez meu nome não estava lá. Voltei, isso foi uma sexta-feira, era o dia da gira de Exu, de esquerda. Os Exus e Pomba Gira são homens e mulheres que viveram, eles viveram, e eles foram subversivos na sua época.

Então são mulheres libertárias, mulheres que tiveram vários homens, mulheres que cediam a paixão, entendeu? Mulheres transgressoras pra sua época. E os Exus malandros, malandros. Entendeu? Do cabaré. Então é, Exu e Pombagira, é a materialização da subversão. É quase um... Deixa. Um mini carnaval. É isso.

Eles estão lá no carnaval, por isso que Exu e Pombagira é tema do carnaval tão intensamente. Aí o que acontece? Quando eles morrem, e normalmente eles morrem numa situação de extrema violência, de perseguição, de crime mesmo, eles falam assim, eu não vou reencarnar, eu vou me encantar no mundo espiritual. Eles não querem voltar como encarnados.

E aí eles se encantam. Eu gosto da expressão espírito encantado. Então é um espírito que se encantou no mundo espiritual. Esses são os Exus de Pombagiras, que aí você vai ter Tata Caveira, você vai ter Mariana Valha. E por que esses nomes? Porque são nomes que em alguma medida se conectam à vida que eles levaram.

e, em alguma medida, querem sim projetar um certo medo, entendeu? E um certo poder.

Então, esses nomes não são aleatórios. E existe... Então, Maria Navalha é uma classe, não é uma entidade, é uma classe de entidades. Tem um monte de Maria Navalha. Exatamente, um monte de Maria Navalha. E eles podem... Em que medida que, do ponto de vista espiritual, eles podem escolher não reencarnar? É tipo...

É a vida, as categorias que possibilitaram isso. Foi justamente essa vida de quebra de padrões, essa vida subversiva e transgressora, e a maneira como eles morreram. Entendeu? Então, eles já demonstravam extremo poder durante a vida, porque ser subversivo é um ato de poder.

E aí isso lhes deu a possibilidade de escolher não encarnar. E aí, por que eu estou falando isso? A minha mãe tem um espírito encantado, que é o seu Tranca Rua das Almas. É um Exu, seu Tranca Rua das Almas. Eu convivo com esse Exu desde criança. Toda segunda-feira...

ele recebe a sua oferenda seis horas da manhã. Então, todos nós acordávamos e nós íamos juntos fazer a oferenda do seu Trancarrua das Almas, que era pra proteger toda a família durante a semana, pra prover. E, inclusive, era o único dia que nós comíamos frango. Porque ele recebia um frango branco. Ele recebia o sangue e a gente comia carne.

E era o único dia. Então, para nós, crianças, era um momento de alegria, que a gente ia comer carne. Era muito pobre e tal. E aí eu vivi com o seu Tranca Rua. Era interessante que o seu Tranca Rua, ele incorpora na mamãe, na dona Joésia. E, às vezes, tinha uma situação de briga, de muita tensão, e, de repente, o seu Tranca Rua abaixava na minha mãe. Do nada. Para resolver...

Atenção. Às vezes até a mamãe brigando com meu pai, se eu tranca a rua, vinha. Então, ele é um padrinho. Ele é um professor. Ele é da minha família. Ele não é apenas um espírito. Ele vinha pra nos corrigir. Olha, isso que você fez é errado. Olha, pegou um brinquedo lá na vizinha. Ele vinha. Fala, devolve. Então, as pessoas não sabem nada sobre nós. Sabe, Igor?

Nós temos uma ética rigorosa. Eles estão cuidando da gente e cuidando do nosso comportamento. Não é bagunça, não. Não é bagunça. A espiritualidade, a umbando, o candomblé, não é bagunça. Pode ser que algumas pessoas façam. Tá bom, tudo bem. O ser humano dá defeito. Todo mundo sabe. Mas há uma ética. Aí cheguei. Cheguei da USP, exausto.

chateadão. Muito chateado, que era a terceira reprova, e aí eu já tinha estudado, e fui até o seu, o seu Tranca Rua já estava, ele já estava incorporado, era a hora dele comer seu galo, toda sexta-feira, segunda-feira, ele recebia o frango, na sexta-feira ele recebia um galo, que ele matava no dente e bebia o sangue.

Eu gosto de falar essas coisas para naturalizar. Para as pessoas pararem de gracinha e achar... Tá, mas você come carne e ela é viva? Que ela desce batendo as perninhas? Ela desce batendo as perninhas? É viva? Não é. Não é. Não é viva.

Então eu gosto de falar pra naturalizar. É a minha cultura. Tá bom, você pode não concordar, você pode achar feio, você pode achar um filme de terror. Minha avó não matava no dente, mas ela matava na nossa frente também. Ela quebrava o pescoço, matava e pronto. Pronto. Exato. E comia. Aí cheguei nessa hora, estava lá fazendo o ritual. Aí fui e me ajoelhei diante do seu Tranca Rua das Almas de Mamãe. Que é basicamente a sua mãe.

Se eu estou olhando de fora, está você se ajoelhando... Eu estou vendo minha mãe. Isso.

Eu, de fora, tô vendo você ajoelhado na frente da tua mãe. Exatamente. Você tá vendo minha mãe. Tá. Ele usa uma capa, ele usa uma cartola e tal. Ele tá vestido de preto e vermelho, mas o corpo é da minha mãe. E ele fala e age e parece um homem? Sim. Tem outra voz, tem outro tom, tem outro dialeto. Não vou esquecer, não. Você tá ajoelhado em frente ao seu Tranca Rua das Almas. Sim. Mas deixa eu te perguntar uma coisa. Cara...

o jeito que isso acontece lá de tu chegar e se... Com tanta devoção, com tanto entendimento, nesse momento que você está, o que te convenceu, Sidney? Que realmente é uma entidade. Porque, para mim, essa é a grande questão.

Eu me considero agnóstico. Eu acho... Eu diria que eu tenho certeza que tem alguma coisa, mas eu não sei o que é. Eu não sei definir. Eu acho que é algo que é de onde tudo deriva e eu não consigo nem explicar. Portanto, tu me falar de uma manifestação divina, pra mim é fantástico no sentido que eu...

gostaria de entender isso melhor, porque me parece um conjunto... Se a gente for pensar num jogo, isso aqui que a gente vive é um conjunto de regras e a espiritualidade é outro, que eu não estou acessando, porque eu, sei lá, entendeu? Eu não...

Tô tentando entender. E aí, o que que te convenceu que era quente? Que era pra valer? Que não era tua mãe, com todo respeito, não fingindo? Simulando, simulando. Mas não necessariamente... Mas nem consciente. Porque, assim, eu acredito que as pessoas possam... Entrar em algum tipo de transe físico, sabe? Não necessariamente espiritual. Alguma coisa te convenceu que aquilo ali era quente.

Então vamos lá. Eu lembro, você estava ajoelhada na frente dele porque você tinha bombado na prova de francês. Eu gosto muito do que você falou. Eu gosto muito do que você falou. E eu vou fazer um breve parênteses. Crer não é ruim. Crer é bom. Entendeu? Crer...

E isso, em qualquer religião, acalma o coração. E essa é a minha crítica às religiões hegemônicas, porque a religião não é para ser um lugar de exclusão, de divisão, de ódio e de instrumentalização política para manutenção de poder. Esse é o ponto. Mas crer é alguma coisa boa. Crer na espiritualidade expande consciência.

Se você crê além de si, além do concreto, você está expandindo a sua própria consciência. Até para considerar novas possibilidades. Exatamente. Se você não faz esse exercício, você não se move. Então, desde criança, eu tinha provas daquilo. Entendeu? Eu tinha provas. E aí eu vou seguir com a história e você vai ter essa resposta. Tá.

Aí eu me ajoelho e o seu Tranca Rua falo, o que está acontecendo, meu filho? Eu falei, ai, pai, mais uma vez, a gente tem todo um tratamento respeitoso com essas entidades espirituais. Falei, ai, mais uma vez, eu não passei. Ele deu uma gargalhada e falou, será que não passou? Aí eu falei, ai, até minha orientadora falou que...

é melhor eu desistir, me afastar uns dois anos, me preparar e voltar depois. E aí ele pega e diz assim, é o que você quer? Eu falei, não, eu quero entrar no doutorado, eu estou ansioso, eu tenho pressa. E ele diz assim, o tempo não é medida, o tempo é. Vocês que transformaram o tempo em medida.

Portanto, você não precisa ter pressa e você vai passar na hora certa e dê uma gargalhada. Vai ser um dos melhores conselhos que dá para dar para alguém, né? Eu acho. Eu fiz a quarta vez, não passei. Eu fiz a quinta vez, eu passei. Então, foram dois anos e meio fazendo essa prova, porque ela é semestral. Entrei no doutorado.

Antes disso, quando você não passar... Depois desse papo aí, você tentou mais uma vez e não passou. Não passei. O sentimento mudou ao não passar? Não, eu já estava imbuído já. Eu já estava tomado por aquela palavra que você disse. Tá. Eu já estava tomado por aquela força. E tem uma coisa que o seu Tranca Rua me ensinou desde criança, que é o poder de decidir sobre a minha vida.

Eu me tornei doutor porque eu decidi. Eu que decidi. Porque, na verdade, o mundo estava contra. Ele dizia que não. E a minha formação, e a minha história, enfim, tudo estava contra. Mas você acha que todo mundo tem esse nível de agência, Sidney? Isso, exatamente. Então, nos falta agenciamento. Esse é o ponto.

Mas o que acontece? Eu fui criado com a imagem de Xangô diante de mim. Assim como outras pessoas são criadas com a imagem de Jesus. E eu considero importante. Jamais que eu vou desqualificar isso. Eu sou religioso. Eu não vou desqualificar. As pessoas têm direito de não crer e têm direito de crer. Todo mundo tem direito a alguma coisa. Mas eu fui criado com a imagem desse Deus.

Gordo, gigante, que Xangô é gordo, é preto retinto, ele é gigante, ele usa brinco de argola, ele tem uma trança que vai até o chão, ele está sentado num pilão, ele solta fogo pelas narinas e troveja pela boca. Então, essa experiência de ter um espelho negro me deu agenciamento.

E aí eu fiz a quarta vez, eu fiquei bem, eu nem chorei. Das outras, tu chorou? Eu sou chorão, eu sou muito chorão. Entendi. Eu sou muito chorão. E aí, na quinta vez, eu passei. Na quinta vez, Igor, o Departamento de Linguística da USP fez um convênio com uma instituição de pesquisa francesa, o CNRS.

que é o Centro Nacional de Pesquisa Científica, e com um laboratório na França que chama Lacan, que é um laboratório Langue Langage Culture d'Afrique Noir, que é Língua e Linguagem de Cultura da África Negra. Não, depois eu falava, já podia até transar em francês. Depois desse tempo todo, eu já podia transar em francês. Eu já podia. Eu já estava totalmente.

Tomado já! Boa, boa. E aí, nesse ano que eu entrei, o convênio foi feito. E eu tive uma bolsa sanduíche em 2007, de estágio doutoral. E eu estava preparado já, porque já era uma relação de amor e ódio com a língua francesa. Mas eu estava preparado.

Tinha uma prova que você tem que fazer, como aquelas TOEFL do inglês, você tem que fazer para poder assistir às aulas lá. E eu fui assistir aula na Sorbonne. E eu trabalhei nesse laboratório. E entrei com grandes pesquisadores de linguística, não é? Mas o que eu queria dizer, eu volto no seu tranca-rua. Sabe o que ele me fala? Você nunca foi reprovado. Você só não passou quando era para passar.

Porque eu queria que você fosse... Foi minha primeira viagem para o exterior. Eu nunca tinha. Era pobre, imagina, na Europa. Entendeu? Mas isso é um presente dele? Ou isso é um desenho da tua missão? É um desenho que poderia ser despotencializado pelo meu pessimismo. Tá.

Então, dá para dizer que a gente tem uma... Do ponto de vista religioso, a gente vem fazer alguma coisa aqui e pode se desviar dessa coisa. Eu amo essa pergunta. Sabe por quê? Os yorubás acreditam que é propósito que organiza o mundo. Eles têm um provérbio que diz que é propósito que faz o caminho.

Mas o propósito é inerente do ser humano? Ele já vem? Ele já vem. Da mitologia Yorubá, ele já vem. Nós escolhemos antes de encarnar. E por que a gente é tão ruim com a gente mesmo a ponto de não lembrar o que a gente veio fazer? Pronto. Então você já sabe tudo. O que acontece? Existem duas dimensões da mitologia Yorubá, que é o Orum e o Aie.

O Orum é a dimensão espiritual. A dimensão dos ancestrais, dos espíritos, dos antepassados. É uma dimensão espiritual. Lá não tem carne, não tem materialidade, não tem corpo. Em nenhum momento tu mencionou nada parecido com o inferno, inclusive até agora. Não, mas não existe inferno. Quer dizer, pra nós. Segundo você. Existe, mas é outra mitologia. Tá, perfeito. Esse é o ponto.

Vamos continuar aí, daqui a pouco a gente fala de inferno, vai. Então, Aie. Aie. O Aie é aqui. Que é o físico, é a carne. É o único território em que nós desfrutamos do corpo. Toda dimensão espiritual não tem corpo. Só aqui que tem corpo. E o corpo é bom. E aqui não é ruim, é um lugar bom.

Mitologicamente, aqui é o mercado de Exu. Exu, um dia, acordou muito infeliz. Exu, Exu ou os outros Exus? Não, Exu, Orixá. Primeiro, a Gênesis. Ele acordou muito infeliz. E não era próprio de Exu a infelicidade e a tristeza. E entediado, Iolodomari deu para ele o Aie.

falou, você pode se divertir, papai está te dando um mercado. Aqui é o mercado de Exu. Por isso aqui todas as trocas são possíveis. Por isso que eu disse que Exu é o senhor da mutabilidade. Mas a gente vem aqui, para que a gente vem para cá? Para que a gente vem? A gente vem para poder fazer as trocas.

necessárias para poder afastar o sofrimento da nossa vida. O sofrimento existe, ele é real, mas ele não pode ser crônico, entendeu? E também não pode ser alguma coisa que não vai mudar nunca. Mas o sofrimento também não é meio que para onde a, entre aspas, entropia leva? Se a gente ficar aqui suavinho, uma hora a gente vai sofrer.

o sofrimento é para onde tudo leva no fim das contas. Eu gosto de uma palavra para sofrimento, Igor, que é desafio. E isso está muito na cultura yorubá. Nós somos movidos por desafios e superação de desafios. São duas dimensões da vida. Desafios e superação dos desafios. Entendeu? Então, eu gosto de encarar o sofrimento como um desafio. Porque ele tem algo a ensinar. Por que ele é um desafio?

Porque ele tem algo que precisa ser compreendido e superado. Por isso que ele é um desafio. E tem muito a ver com o Exu, que é o senhor do Aie. E ele está... Exu, mitologicamente, Igor, é o maestro da melodia existencial. Ele está tocando uma melodia em que nós estamos dançando.

E quando a gente erra o passo, ele nos provoca. Aí vem o desafio. Então, por exemplo, eu tenho uma vida... Então é possível viver sem sofrer, se eu dançar sempre na nota certa? Não, não de forma reiterada e contínua. Porque na melodia também inclui sofrimento. Ruídos, exato, porque haverá ruídos na melodia existencial. Vai ter ruído, entendeu? Vai ter distorções melódicas.

Então, haverá ruídos que vão nos fazer errar o passo. Então, Exu ganhou de presente o Aie e ele é o regente do Aie. Quando eu falo de trocas, é isso. Então, por exemplo, você é casado. Sou. Não é? Você está com a sua esposa, você está dançando com ela.

Já há mó tempão, 20 e tantos anos. É uma valsa. É uma valsa. Ali com ela é um samba. É um samba? É um samba. Foda que eu erro direto o passo. Então. Mas errar o passo não quer dizer que excluiu o amor. Esse é o ponto. Eu estou tentando dançar. Você está... Dançando melhor que eu posso. Exato, exatamente. Então, quando vem... Eu também erro o passo às vezes. Quando vem a tensão, quando vem o desafio...

é esse errar o passo, metaforicamente. E aí vocês conversam para poder retomar o passo, em sincronia. Tem uma atora maravilhosa, leia, leia, leia, Igor, Sobonfu Somé. Não facilitei nem. Sobonfu Somé, ela é uma psicanalista de Burkina Faso. Tá. Ela tem um livro que se chama Espírito da Intimidade.

Espírito da Intimidade. Eu vou dar spoiler, porque eu preciso dar spoiler. Não vai ter jeito, vou ter que dar spoiler. Não vai ter jeito. Mas não vai invalidar a leitura. Ela diz o seguinte, no Ocidente, a gente quer começar o amor pelo topo da montanha. O amor romântico é pelo topo. E ela diz que isso é mentira. Ninguém começa o amor pelo topo, começa pelo pé da montanha.

E vai subindo, e vai escorregar, e vai desabar, e vai... Mas não tem que ficar velho pra sacar isso? Tu não consegue ensinar isso pra um adolescente. Ele não tem nenhum equipamento pra entender. Tem que ficar velho pra entender isso aí que você tá falando. Não tem? Ah, eu não sei. Por que eu tô dizendo isso? Ó.

Esse conselho que você recebeu do seu... Tranca-rua. Tranca-rua das almas. Ele me parece um conselho que vem de um lugar de muita sabedoria. E eu não estou dizendo que com isso... Imaturidade, sim. Imaturidade. Eu não estou dizendo que perceber isso me faz um sábio ou me faz um cara maduro. Não. Mas eu estou percebendo na minha própria caminhada que são... É...

Pontos de vista que, do jeito que eu enxergo, estatisticamente mais assertivos. A melhor maneira de lidar, pelo que eu tô vendo, é assim. Cara, as coisas acontecem na hora certa. Porque na minha experiência do Igor, toda vez que eu forcei muito a barra, até rolou. Mas foi estranho, entendeu? As coisas, elas acontecem na hora certa. Foi o que eu te falei antes de conversar contigo lá embaixo, lembra? Eu falei, cara, que tô querendo conversar contigo há um tempão, mas Deus...

Eu uso uma expressão meio bosta, mas eu falo, Deus é foda. Ele faz na hora certa. E é verdade, é verdade. Isso é sabedoria. E aí, eu já conversei com uma entidade antes. Inclusive, a primeira coisa que eu disse a ele, que é o meia-noite. A primeira coisa que eu disse, aquele chapéu ali é dele. Esse é o meia-noite, que é também da falange dos Exus.

ao conversar com a primeira coisa que eu falei, cara, que eu preciso deixar claro, né? Acho que nem eu falei pra ela assim, cara, eu sou ignorante. Eu cheguei pra ele e falei assim, ó, eu nem acredito que tu é um espírito, tá? Eu tô aqui porque minha mulher acredita, é importante pra ela e eu queria trocar uma ideia.

Aí fui bem recebido, fui lá no templo dessa vez, na primeira vez eu fui lá no templo. Pra mim, inclusive, é um pouco escandalizante, volta lá no papo, no início do papo que a gente tava tendo, porque foi escandalizante pra mim olhar e ver um bode, por exemplo, só a cabeça dele, assim, entendeu? Então, é, fica caralho, não sei o quê. Mas entrei lá, um ambiente meio escurinho, com a musiquinha tocando um troço meio egípcio, não sei o quê.

E eu troquei ideia com um cara muito sábio, muito sábio. Eu consigo te dizer que eu não posso garantir pra você botar a mão no meu foco que era uma entidade, tá bom? Mas eu posso dizer pra você com certeza que as três ou quatro vezes que eu conversei com ele, eu tava conversando com um cara extremamente sábio. E assim, muito maduro, sabe? Muito...

Não fala besteira, sabe? Sabe quando tu conversa com um jovem e um jovem fala besteira? Sim, sim. Então, ele não fala besteira. Ele não é nem... No dia ele é nem cuidadoso. Tem coisa que ele... Por exemplo, lida estranho. Ele chama o celular de fofoqueiro, por exemplo. Entendeu? Mas coisas do ser humano de relação pessoal ou de como lidar, como enxergar. Ou enxergue isso aqui de outro jeito. É sempre um conselho muito...

que parece que foi um cara de 90 anos que falou, entendeu? É o que eu quero dizer. Muita maturidade. Então, por mais que eu não veja, que eu não consiga garantir para você que é uma entidade, algo ali é estranho para mim, entendeu? Porque, pô, como é que esse cara que estava tendo outro papo comigo está tendo esse papo agora? Isso aqui é... Isso aqui é... Eu fico pensando isso daqui quietinho no meu canto.

entendeu? Viajando. E não estou falando de adivinhação, eu estou falando de de bons pontos de vista, manja. Sim, de elaboração, de maturidade, e é isso mesmo. Eu gosto, inclusive, você vai gostar desse termo, dessa expressão? Eu gosto de chamar essas entidades de memórias existenciais. Elas são memórias e sim, né? Seu meia-noite tem mais de três séculos.

Então, é verdade. Ele é muito maduro, muito, muito, muito, muito, muito. Ele tem conhecimentos seculares, não é? E essa memória que se manifesta...

ela vai parecer bastante elaborada para nós e bastante madura. Mas eu quero voltar no Aie e no Orum. Perfeito, perfeito. Desculpa. Eu quero voltar. Exu que manda no Aie? O que é estranho. Quer dizer, vai lá, continua. Exu que manda no Aie, ele é o grande mercador. O cristão está falando que o mundo já é do maligno. Mas continua aí. E ele diz o seguinte, se você quiser um galo de 3 quilos...

venha ao meu mercado e traga 3 quilos de inhame. Porque as trocas precisam ser justas. Exu diz o seguinte, se você vem para trocar, leva, mas não deixa nada, você não trocou, você roubou. Perfeito. Perfeito.

Porque na vida tudo é troca. Troca afetiva, troca espiritual, troca financeira. Tudo é troca. Você sabe que as pessoas pedem desconto na minha consulta. Eu sou Babalorixá e a minha formação espiritual, que eu dediquei anos. Portanto, é justo. Exato. Eu tenho 40 anos de dedicação a essa formação teológica, afroteológica. E as pessoas pedem desconto.

E a lição de Exu é o seguinte, a escassez do outro não pode determinar o seu alto valor. A escassez do outro ele tem que resolver.

E se uma música pudesse te levar mais longe? Tá perto de novas histórias, misturando sonhos, culturas e pessoas na energia da latinidade. Com a Latam, você garante sua viagem completa e chega onde todo mundo vai se encontrar. O Rio de Janeiro, Latam Airlines. Bem-vindo a ir mais alto, é viajar com o ritmo da música. Companhia Aérea Oficial do Todo Mundo no Rio 2026.

Então não tem desconto. Não tem desconto. Você tem que resolver sua escassez. Eu posso te ajudar a resolver. Perfeito. Mas não pode ser crônica. Eu posso te ajudar a resolver sua escassez para você poder fazer trocas justas. Então, é esse brinquedo, metaforicamente, que Exu recebeu. E ao contrário do que dizem, Exu é a ordem. Ele é disciplinador. Ele não é bagunça.

Quando o senhor tranca a rua nessa manifestação, diz, o tempo não é medida, o tempo é. Você passou quando você poderia se realinhar à sua escolha no AIE. Então, agora é esse o ponto que a gente estava conversando. Então, eu sou criado aqui. Todos nós somos criados aqui no Orum, no mundo espiritual.

Tem uma divindade no mundo espiritual que é a Jalá. A Jalá, ele é um Oxalá. Ele é um oleiro universal, ele é um fazedor de cabeças destino. É um galpão cheio de cabeças. Ele molda as cabeças com barro, com vento, com folha, com fogo. Ele molda uma série de cabeças. Ele é ébrio, ele é bêbado.

Então, às vezes, ele faz cabeças boas, às vezes, ele faz cabeças não tão boas, porque ele se embebeda. Nós vamos até ele, nos ajoelhamos e escolhemos a nossa cabeça. Então, eu escolhi ser professor. Eu sou muito feliz com o professor. Só não sou mais feliz por conta da política.

de destruição da educação. Mas a vida toda... Eu sou professor desde os meus 19 anos. Eu entrei na faculdade de letras com 18, com 19 eu já era professor aluno. Eu amo ser professor. Só não amo mais, porque decidiram destruir a educação e ir começando pelos professores. Por isso que eu não amo mais, tanto que eu não estou em sala de aula, que eu não vou me sujeitar a um sistema que quer me destruir.

mas também porque eu posso fazer isso. Obviamente que eu posso fazer. Há pessoas que não podem e têm que se submeter. E aí... Escolhe a cabeça. Eu escolhi a cabeça. Aí eu escolhi essa cabeça. Essa cabeça é uma cabeça destino. Ela vem com marcadores. Ela vem com marcadores dos antepassados, daqueles que vieram antes de mim e que são da minha família parental.

Ela vem com marcadores míticos. Muito complexo. E ela vem com marcadores. Você já viu, certamente todo mundo já viu, uma família em que todas as mulheres acabam sendo mães solo. A mãe, a filha, a neta, a bisneta. Isso é marcador espiritual dos antepassados.

Nenhuma delas conseguiu quebrar o ciclo vibracional que começou aqui com a mãe. Isso tem algo a ver com a cabeça que eu escolhi antes de vir para cá. Exatamente. Porém, também tem algo a ver com os meus antepassados. Exatamente. Entendeu? Agora, os meus antepassados, a gente está falando numa escala... Porque, assim, como ser físico, eu só compreendo o tempo de uma maneira linear.

eu sei que daqui a uma hora vai ser uma hora pra frente e não tem jeito de ser diferente. Então, a compreensão do que é um antepassado pra um ser infinito, a gente é um ser infinito? Nós somos seres infinitos. Então, como assim eu tenho um antepassado se eu sou infinito? Então, pra mim isso é complexo também, entendeu? Porque a minha compreensão de tempo é linear. O meu antepassado é meu avô que já morreu e acabou. Não, é porque o tempo não é linear, ele é circular.

A gente está dentro de um tempo circular, a gente está dentro de um círculo. E por isso que existe déjà vu, porque a gente reencontra o que a gente já viveu. Por isso que a gente se apaixona, porque a gente encontra alguém que a gente já conhece. É isso, porque o tempo, primeiro, ele não é linear. Exu matou um pássaro ontem com a pedra que só hoje atirou. Então, o tempo...

O tempo africano não é o tempo ocidental, ele não é presente passado. É em espiral, está tudo se cruzando. Parece um pouco a filosofia hermética também vai por aí. Exatamente. E a gente está dentro de um círculo.

A gente está dentro de um círculo e acumulando experiências. Nesse sentido do círculo, como é que se é um círculo? Isso é uma ideia que se repete na religião, Sidney? Porque assim, você acredita num bem supremo e um mal supremo? Como é que num círculo não tem polo? Não, a gente está o tempo todo lidando com o bem e o mal.

E todo mundo é bom e mal ao mesmo tempo. Exatamente. Em alguma dimensão, em alguma escolha. E o que representa o bem supremo na religião? Existe isso? O bem supremo é o bem coletivo. É o bem para todos. Então, se eu comprar um iPhone, é o bem para mim. Mas ele não é o bem para todos.

Ele é só para mim. Ele vai me dar prazer. Ele me valoriza na sociedade neoliberal, capitalista. Se eu comprar um BID, quer dizer, agrega valor ao paisígeno, semioticamente, que as pessoas vão olhar e falar, esse cara venceu. Grande bosta. Como se alguém vence comprando um BID. Mas, com certeza, comunica algo. Sim, mas comunica algo. Você é comunicador, você sabe disso. Mas isso não é bem coletivo.

bem coletivo, é alguma coisa que se espalhe para todos. Por isso, Igor, que a gente precisa... Tem um provérbio, Yorubá também, que diz o mal não pode receber acenos. A gente não está acenando mais para o mal, a gente abraça, a gente dorme, as pessoas...

As pessoas amam odiar. Elas odeiam antes de elaborar, antes de pensar. Aquilo que você falou dos jovens faz muito sentido. Nós já temos uma população jovem que ama odiar. A escola é simulacro, é território de violência. Hoje, pelos jovens. Porque o ódio só requer adesão.

Ele não requer elaboração. Elaboração, quem requer é o amor. O amor é sofisticado. O amor precisa elaborar. Você está casado a esses anos todos porque você parou para pensar em algumas coisas, porque você elaborou, porque você respirou. Porque eu mudei. Porque você mudou. Então, nós vivemos numa sociedade...

E eu não estou falando que eu não faço isso, mas eu estou falando que eu me protejo disso. Essa tomada de consciência me leva a me proteger disso. Entendeu? Eu não quero cair na armadilha de ter o ódio como dopamina, que é disso que se trata. Sim, é disso que se trata. Exato.

Porque é adesão, é só adesão. É fácil, né? É muito fácil, elaborou. E aí voltamos na noção de autorresponsabilidade, que esse ódio espalhado, esse ódio dopamina, esse ódio atalho, quem que produz? Nós que produzimos.

Nós que produzimos discursos de ódio. Entendeu? Nós que começamos a sentir prazer. Não é com o ódio. Deixa eu te fazer uma pergunta um pouco meio pra fora disso que a gente está falando. Só porque eu estava pensando aqui... Cara, se a gente tem...

Olorum Olodomari, como criador. E a gente tem alguns orixás que descendem dele primariamente. Estou certo até aqui? Sim. Aí, desses orixás, tem ainda umas outras entidades que descendem deles também. Tipo, eu sei que tem Exu, Exu, que é o cara que manda no Aie. E tem umas outras entidades que a gente chama de Exu também, tipo o Meia-Noite. Então, vamos lá, vamos lá.

Eu quero saber onde é que a gente chega, mas vai lá. Quem descende dos orixás somos nós. Tá. Nós que descendemos dos orixás. Nós somos também porção da força criadora. Nós somos porção da força criadora. Nós estamos todos conectados.

é sobre essa ética espiritual e de conexão que se assenta à vida de terreiro. Nada está preso a mim. Nada. Tudo está conectado. Nós estamos conectados. E, por mais que a gente se considere bastante diferente, há pontos em que nós somos comuns. Então, nós que somos descendentes dos orixás.

Agora é o seguinte, nós temos Exu, que é uma divindade, que ele é como Iemanjá, como Inhansã, como Oxalá, é uma divindade. Ele é um orixá primordial, ele é um orixá dos primórdios. Aí o que aconteceu? Exu vem para o Brasil com os escravizados Yorubás. Ele vem para o Brasil, essa divindade.

E aqui já tinha a manifestação desses espíritos encantados, mas eles ainda não tinham o nome de Exu e Pombagira. Eles tinham o nome deles, mas eles não estavam agrupados numa categoria única. Tá bom. Eles existiam, mas como não a cultura que era indígena, eles eram chamados de outras coisas. Exatamente. Aí...

acontece uma assimilação. Então, esses espíritos encantados, Exus e Pombagiras, se parecem muito com o Orixá Exu, porque o Orixá Exu é o Orixá mais humano que nós temos. Ele é muito humano. E aí...

Eu não vou saber te dizer, de verdade, eu não vou saber como é que... Isso requereria uma tese de doutorado. Eu não vou saber dizer para você. Mas, em alguma medida, a Umbanda pega e assimila a figura de Exu. E aí, seu Tranca Rua, seu Tata Caveira, seus Sete Montanhas, começam a ser chamados de Exu com X, que em Yorubá é com S.

Porque não tem X na língua iorubá. Então assimila, é o que eu chamo de assimilação e Exu. E Pombagira também é assimilada de uma divindade bantu, de Angola, do Kikongo. Que chama-se Pambunigila. Pambunigila. Bem próximo de Pombagira. Exatamente. Pambunigila é uma divindade bantu. Exu é iorubá.

e ela é semelhante a Exu, ela também é das estradas, é também uma divindade dos caminhos, e aí, Pambunigila, Pambugila, Pombagira. E aí a gente, esse processo de assimilação de sentido, é uma assimilação de sentido, pega aqui Exu, então aí, então, Seu Tranca Rua, Dona Maria Padilha,

Pombagira Cigana, seu Tata Caveira, seu Meia Noite, eles não são Exus Orixás. Tá. Mas eles se parecem muito. E aí eles levam o nome de Exu Tranca Rua, Exu Meia Noite e a Pombagira, né? Pombagira Maria Padilha das Almas, Pombagira Maria Navalha, Pombagira Cigana. Entendi.

Bom, deixa eu voltar num outro ponto que a gente falou lá no começo, que está anotado o maior tempão aqui, cara. Em algum momento, tu falou do dinheiro visto como magia, né?

Cara, como é que... Vai, o dinheiro é visto como magia mesmo. A gente pode não dar esse nome, mas a gente sabe o que o dinheiro faz. E o dinheiro também é um pouco de tabu, pelo menos na nossa sociedade, quando ele está relacionado à religião. Por exemplo, quando você falou, cara, eu sou o Babá Orixá, eu estudei isso daí e eu cobro pelo meu serviço. Tem outras religiões que elas acessam essa grana de uma outra forma. O cara pede, não sei o quê e tal.

como é que a religião lida com o dinheiro? Bom, primeiro, prosperidade é uma noção interna mesmo nos meus tempos de escassez eu nunca me senti menos próspero

mesmo quando a mistura era casca de batata frita, ou omelete de casca de batata frita, eu nunca me senti menos próspero. E foi por isso que eu fui comprar as calças e as camisas. Porque eu não me sentia menos próspero. Tem uma lição de Exu que diz o seguinte, se a sua porção de dinheiro, de felicidade, de saúde, não está com você, ela está com alguém.

você precisa reavir. E aí eu não estou falando aqui de um dinheiro excessivo, porque ninguém precisa de um bilhão para viver. Ninguém precisa. Quem precisa de um bilhão? Ninguém precisa. Ninguém precisa de cinco apartamentos, de dez carros, de... Ninguém precisa. Estou falando de dinheiro que não ofende essa...

Esse equilíbrio supremo, esse é o ponto. É disso que eu estou falando. Eu recebo muita gente, notadamente negros e negras, que tem o dinheiro como pecaminoso. Que quando acende na carreira e começa a ter um salário de 20 mil...

está se sentindo amaldiçoado, porque veio de uma história de escassez. Sabe nem lidar, né? Eu falo, mas você nunca vai ter esse dinheiro que você considera amaldiçoado. Você não vai ter. Você não vai ter um bilhão. É. Você nunca vai ter. O dinheiro que você tem é para o seu conforto, para a sua saúde. É que o cara está tão acostumado a não ter porra nenhuma no último, que 20 conto parece muito dinheiro, né?

é, nós sabemos que não é. Nós sabemos que não é. E aí, a noção de terreiro de prosperidade, primeiro, ela é interna. Porque uma noção interna de prosperidade, ela vai possibilitar partilha. Porque a ausência de partilha é medo de perder. É o que a gente tem. É medo de perder e manutenção de poder. É só sobre isso.

Então, quando eu digo que o dinheiro... Existe um dinheiro que é maldição, mas tem um dinheiro que é bênção. Então, existe um dinheiro que é maldição. A gente tem visto isso. A gente tem visto isso. A história está aqui na nossa frente. Atena aí o Daniel Vorcar. Exato. Existe um dinheiro que é maldição.

Quer dizer, esse cara é talentoso, ele é inteligente. Olha o que ele conseguiu construir, só que... Ele já tinha chegado, ele não precisava ir tão além. Esse dinheiro é maldição, eu nunca vou ter. Eu nunca vou ter esse dinheiro. Mas existe um dinheiro que nós precisamos e merecemos. Você sabe que eu sou dessa família muito pobre? Meu pai era analfabeto de assinar com o dedo.

Era analfabeto. Seu Plácido. Seu Plácido. Ele era analfabeto. E a gente era muito pobre. E um dia você queria um sorvete, você queria um doce, você queria alguma coisa. É assim, diferente. Algum dos doze. Algum dos doze. E aí papai falava o seguinte. Nesta casa celebramos o que temos para receber o que merecemos. Nós não reclamamos.

Se você acorda respirando, você celebra. Se você pode ir para a escola, você celebra. Se você consegue escrever aqui, nós celebramos o que temos para receber o que merecemos. Então, é uma lógica diferente da acumulação. Eu não vou celebrar só quando eu acumular, quando eu tiver. Eu celebro o que eu já tenho para poder receber o que eu mereço.

E hoje nós temos uma lógica do devir. Ou seja, tudo está no amanhã. Então eu acumulo para poder ter. Eu estou infeliz porque não tenho. Mas olha porque você já tem.

Me parece, Igor, que a gente deixou de celebrar pequenas coisas. Não sei se tão pequenas, mas... Eu gosto da palavra sutileza. A vida tá sem poesia. Falta poesia pra vida. Entendeu? Falta... Esse momento pra mim aqui com você é um momento de celebração. Pra mim também, amém? Entendeu? É um momento especial.

Eu acho até que você é Xangô também, como eu. Será? Eu acho. Você tem um... Dá pra fazer uns testes? Não, eu não dá pra fazer. Não, não, não. Calma, calma, calma. É só pura especulação. Eu sei, calma. Olha só, eu não tô pedindo você fazer um teste comigo aqui. O que eu tô dizendo é, se eu for a um terreiro e conversar com alguém nessa intenção, eu também, que não tenho nenhuma ligação. Ele vai dizer. Consigo. Exato, sim. Eles vão dizer o seu orixá. É que eu sou chucro, daí eu chamei de teste.

Não, o teste está legal, não tem problema. Não tem problema. Então, em que medida, Sidney? Assim, a gente já... Você estava me contando como é que a gente meio que vem para cá. Então a gente vai lá, escolhe uma cabeça. Essa cabeça é feita por um cara que é meio bêbado. E aí ela pode ter umas coisas meio imperfeitas.

E essa é uma parte de quem a gente, da personalidade, vou chamar de personalidade, que a gente manifesta quando está aqui pronto. Sim, sim, sim. Outra parte vem da nossa ancestralidade. Isso, alguma parte já é fixa.

E aí tudo isso vai meio que compor o que eu vim fazer aqui. Propósito, mexendo, não sei o quê. E aí vai lá o Iguinho trocar a ideia com o seu meia-noite, por exemplo, pra fazer uma macumba, que não é o caso, mas é só um...

um exemplo, para alterar alguma coisa que eu não gosto sobre a minha realidade. Por exemplo, eu acho que eu estou duro, eu queria ganhar mais dinheiro e eu vou lá fazer uma macumba para ganhar mais dinheiro. Desculpa, uma entidade X, porque eu não sei como é que funciona. Então, o meu ponto é não é em que medida que eu causo problema e eu devo ficar

do ponto de vista espiritual, pra mim mesmo, quando eu interfiro no que eu talvez não devesse estar interferindo. E outra, o tranca a rua das almas, ele te diria que tu tá indo num caminho errado? Ele, ó, porra, não faz essa macumba, não. Como é que funciona? Essa interferência, usar o divino pra interferir no meu próprio destino. Manja?

Então, como nós conversamos, nós somos muito arrancados do nosso destino. Os padrões nos arrancam do nosso destino.

Entendeu? Então, é justamente sobre isso a espiritualidade, é sobre realinhamento. Eu acredito que você nunca foi tão feliz como comunicador, como é agora, como comunicador. Acredito que você seja feliz como comunicador. Eu acho que essa é a melhor fase da minha vida de vários pontos de vista. Eu também. Eu também sou na melhor fase da minha vida.

Isso quer dizer que eu estou alinhado com a escolha que eu fiz. Que eu me alinhei, quer dizer que eu me alinhei à escolha. Eu sempre fui feliz como professor. Eu sempre fui feliz. Quando eu decidi sair, é porque eu estava vislumbrando que a educação ia acabar, que eles iam... Aí eu decidi sair, que eu não sou pessoa de dar murro em ponta de faca. E eu assumo a minha impotência, que eu não vou mudar o sistema.

Sozinho eu não vou. Não adianta. Eu não tenho superpoderes, gostaria de ter. Só que eu não tenho. Então eu falei, opa, vamos para outro lado. Ainda bem que não tem. Já pensou, teve um ditador. Exato. Ainda bem. Ninguém precisa desse poder todo. Ponto. É isso. E aí, quando a gente chega nesse ponto de maturidade, de equilíbrio, um ponto em que eu não preciso odiar o outro pela diferença,

Eu me alinhei à minha escolha. E eu quebrei algumas... Alguns desafios colocados pelos meus antepassados. Tá. E tem gente que procura atalho pra fazer isso, que é o que eu tô falando. Então. Ou, sei lá. Você está falando do atalho. Exatamente isso. Entendeu?

Porque se eu tranca a rua, eu poderia ter dito eu vou fazer uma magia pra você passar. Imediatamente. Mas atalho não é caminho completo. Se eu passasse da quarta vez, eu não iria pra França. Ou não teria aprendido alguma coisa importante que o processo ensinou. Exatamente. Então, atalho não é caminho. Tem duas lições de terreiro.

que eu amo, uma delas é Atalho não é caminho completo. Três lições. Atalho não é caminho completo. A verdade não tem pressa. Mais dia menos dia ela vai aparecer. Atalho não é caminho completo. A verdade não tem pressa.

Agora me fugiu a outra. Mas tem outra. Tem a terceira aí. Ela vai voltar. Ela escorregou aqui. No meu 57... No meu 57 anos, mas só... Nem todo desejo é caminho.

Esse é muito forte. E como é, Sidney? Tem algumas coisas... Agora eu vou falar da minha experiência pessoal. Cara, tem algumas coisas que acontecem na minha vida que elas são mandadas. Eu só não sei por quem.

Entendeu? Elas são mandadas. Elas acontecem no meio de um caos esquisito, de uma forma... Conexões estranhas que levam pra um troço que eu queria, por exemplo. Que eu vejo assim, pô, isso aqui não era pra ter acontecido desse jeito esquisito. Isso aqui nunca deveria ter... Tipo, ó, uma sequência de três coisas que não acontecem normalmente que dão no resultado. Entendeu? E aí eu vejo assim, eu que sou agnóstico, vou sair a mandado.

Quem mandou isso aí? Essa é a grande dúvida da minha vida, Sidney. Quem mandou isso aí? É pra eu ir? É pra eu não ir? Tem umas, tem umas, que é assim, ó. Eu prometi que eu ia parar. E aí, ia parar de fazer um... Eu ia sacrificar um troço que eu gosto.

Porque sim, porque foi uma espécie de acordo desesperado que eu fiz. Comigo mesmo ou com a divindade. E assim, do nada surge um troço que é o oposto, é o contrário. De parar, entendeu? É, cara, empreende com isso, tá ligado? Eu não sei, eu sei que é mandado. Pelo jeito que chegou, eu sei que é mandado, entendeu? Mas, e aí eu não sei, e aí eu fico, porra, e agora? Agora eu vou...

ficar aqui com os meus botões, conversar com o que eu acredito que é divino e sei lá, e tentar entender. Eu até troquei uma ideia com a minha esposa. Fala lá com meia-noite lá, eu quero trocar uma ideia com ele na hora que ele tiver com o máximo de energia. Pra quê? Pra eu, pô, pra me ajudar aqui, cara. Isso aqui é mandado. Porque é.

Quem mandou? Me ajuda aí, só pra eu saber o que que eu... Porque tem hora que a sensação de acessar em algum nível essas regras do mundo espiritual que eu te falei lá antes, que nem eu olhando pro troço, pro acontecimento, me parece mandado. Entendeu?

Só que eu não tenho a maldade de sacar... Porque é possível que nem tudo que é mandado é bom, certo? Exatamente, nem tudo é bom. Isso que eu estou te falando aqui, isso aí é mandado, é coisa de maluco ou existe? Olha só, eu penso que tem uma divindade Yorubá que é Iuá. Iuá é caráter.

E o apelé é caráter suave. Nós aprendemos no terreiro que devemos caminhar suavemente, não como dinossauro, com o peso de um dinossauro. A gente não precisa amassar o mundo, amassar a terra, a grama. E o A é o nosso caráter. Então, esse desejo que é caminho e que você está sentindo como caminho, ele é um desejo...

resultado das suas escolhas. Já faz tempo que eu queria participar de um grande podcast. Já faz tempo que eu queria que você viesse aqui. Faz tempo que eu queria participar. Eu já tentei várias vezes, outros, enfim, e não deu certo. Mas eu fiquei também, tá bom, tudo bem. Vamos esperar.

Vamos respirar, vamos esperar o momento certo. E aí a gente se encontra. Então, era um desejo que era caminho. Está se mostrando que é caminho. A gente está aqui fazendo.

E que o meu desejo, de alguma maneira, de alguma maneira energética mesmo, ele já estava puxando isso para mim. O meio lei da atração com outro nome. Exatamente. É o que Jung vai chamar de sincronicidade. Perfeito, perfeito. É o que Jung vai chamar de sincronicidade. Como eu vou saber se eu devia seguir esse caminho? Porque, como eu te disse, ele é o oposto... Eu acho que você não precisa saber. Porra, mas eu meio que prometi que eu ia não fazer a parada. Eu acho que você não precisa saber. Sabe por que você não precisa saber?

Porque a gente sempre pode voltar. Tá. Que o mesmo caminho que você fez pra ir, você pode fazer pra voltar. Esse é o ponto. Então, isso vai dar leveza na escolha. Exu é o senhor da encruzilhada. O que é a encruzilhada? O que é mais um dos problemas da suposta modernidade? Vou usar esse termo, mesmo que ele não seja exatamente, totalmente apropriado.

É a linha reta. A gente insiste na linha reta. A gente insiste de um lado e do outro. Alguém tem que estar de um lado da linha ou do outro. A gente tem que estar se equilibrando na linha reta. Há expressões, inclusive, sobre isso. Menino fora da linha, ande na linha. Dentro das quatro linhas. Dentro das quatro linhas. Mulher direita. Ah, ela não é uma mulher direita, porque ela fumava na rua.

Isso é sobre linha reta. É sobre uma necessidade que você não precisa mais, que é necessidade de controle, de certezas. Ninguém precisa de certeza para viver. Só precisa viver. E por que não precisa? Porque a qualquer momento você pode cruzar a linha reta.

Quando você cruza a linha reta, você cria um ponto central, que é o ponto de Exu, que é o ponto de encruzilhada. E da encruzilhada nasce uma espiral de possibilidades. Quando eu viro palestrante, escritor, ocasionalmente professor...

comunicador, defensor da luta contra o racismo religioso, contra a homofobia, contra a transfobia. Eu estou desfrutando da espiral de possibilidades. Então, não precisa. Não precisa de certeza. Só vai. E está bom. Se lá você sentir que não foi exatamente o que você queria, você volta. O divino pune.

Por exemplo, tu prometeu um troço... Sei lá, tu... Lá no terreiro, tu tem uma certa obrigação e você não realiza essa obrigação. O divino pune? Não, o divino não pune quem pune a vida. Porque você se comprometeu com você, você se comprometeu com a comunidade e você desequilibrou. Então, quando você tem um acordo de uma relação monogâmica, você precisa seguir a relação monogâmica.

Exu não vai lhe punir se você trair, se você sair da relação monogâmica. Oxum não vai, Inhansã não vai, eles não estão nem aí. É a própria relação que vai lhe punir. É você que está atraindo o problema para você. Porque você pode comunicar, você tem palavra, você pode repactuar. Nós precisamos aprender que, de tempos em tempos, nós vamos ter que repactuar as relações.

Os acordos com velhos. Exato. Enferrujam. Então, eu preciso... Eu faço isso no terreiro, eu faço isso com a minha mãe, eu faço... Eu sento e falo, mãe, nós vamos precisar repactuar nossa relação, porque eu não sou mais criança. Então, agora eu vou repactuar do lugar de adulto, de independente, de autônomo.

Então, a gente precisa aprender a repactuar e não destruir. Eu não preciso destruir. Eu só preciso repactuar. Uma relação precisa ser ritualizada de tempos em tempos. Ritualizada com celebração. Ritualizada com... O que é o rito? O rito organiza a vida.

Comer com talher é ritual. Dormir com travesseiro é ritual. Falar a verdade é ritual. Nós somos seres mitológicos e rituais. Eu tomo a benção da minha mãe até hoje. Eu me ajoelho, benção mãe e beijo a mão dela. Eu rito. Isso me faz menos órfão. Isso quer dizer que eu tenho mãe.

E eu tenho uma mãe que nunca saiu do lugar de mãe. Ela nunca saiu. Hoje ela está com 78 anos de idade. A gente leva ela ao médico, ela não deixa a gente entrar. Ela fala, não, eu não estou senil. Eu te levo no médico, você é meu filho, você não me leva. Quando eu sair, eu te conto o que o médico disse. Ou seja, ela não está saindo do lugar. Ela não está produzindo orfandade. Hoje os deslocamentos são excessivos. Todo mundo desloca.

Eu nem sei, eu tenho pessoas que são casadas, que têm filhos, eu fico olhando a relação, aquela não me parece uma relação de pais e filhos. Me parece outro tipo de relação. Porque eu nem vou dizer se bom ou ruim, mas tem deslocamento. Um pai não tem medo do filho. Uma mãe não tem medo do filho. Uma mãe tem que ter liberdade para dizer não.

Entendeu? Então, a sua relação só está de pé todos esses anos, que já é um fenômeno extraordinário, para os tempos contemporâneos. Não é comum. Não é comum, você sabe. Que hoje, na primeira frustração, a gente descarta. Sabe por quê? Porque as pessoas não estão crescendo. Porque você tem um bando de bebê chorão.

As pessoas não conseguem lidar com a frustração. Eu consegui a vida toda lidar com a frustração. Por que eu fiz a prova cinco vezes? Porque eu estava preparado para a frustração. Porque eu passei fome. Porque eu tinha que dividir cama, travesseiro, bife em três partes. Porque eu fui forjado com mais nãos do que sim. Existe uma semente no candomblé que se chama Orobô. É uma noz de cola.

Ela é amarga. Amarga, amarga, amarga, amarga. Terrível. Ela tem propriedades anti-inflamatórias. Ela tem propriedades da cafeína para dar uma energia. Mas ela é muito amarga. E aí, quando meu pai pesava a mão, quando ele era, naquele tempo, vou dizer, ruim. Um pai ruim.

Ele nos chamava e dizia se você não provar o amargo, você não vai reconhecer o doce quando ele vier. E eu estou lhe preparando para lá fora. Lá fora você não vai ter mel o tempo todo. Então, é uma crise existencial querer tudo do meu jeito.

Entendeu? Isso não é bom. As pessoas não estão crescendo. O amor é sofisticado e desafiador. Não existe um amor que não seja desafiador. O amor romântico não existe. Isso é tudo mentira. Não existe amor romântico. O amor é uma construção e você precisa ser capaz de vislumbrar.

Os desafios, não estou dizendo que as pessoas têm que ficar para sempre numa relação. Eu nem acredito nisso, de viver um feliz para sempre. Nem acredito. Mas eu estou dizendo que as pessoas não têm ficado.

Mas não porque elas não têm o potencial de ficar, é porque elas não estão sabendo lidar com o outro em primeiro lugar, me parece. Me parece que assim, não é que... Vamos lá, eu poderia ter, em vários momentos da minha relação com a minha esposa, ter me separado e inventado alguma desculpa. E ter dito que a gente não dá certo junto, qualquer coisa. Mas eu sei a verdade, eu sei que eu vacilei e para continuar junto...

Eu tenho que ser maduro de reconhecer essa porra e mudar. Assim como ela. E as coisas vão mudando porque a gente vai mudando. Eu estou com 41. Isso significa que ela está com 39. Então, é...

tá ficando véia, vai chegar a menopausa, as coisas vão mudando e a gente precisa entender que é... Na verdade, acho que o meu segredo, Sidney, é o seguinte, eu tenho dois segredos. Um, as regras foram setadas muito cedo e a regra é simples, ela é, cara...

eu não vou mandar em você e você não vai mandar em mim. Nós somos duas pessoas diferentes. A gente tá junto porque a gente curte. A gente vai fazer as coisas junto porque a gente curte. Isso eu tô falando, cara. Eu sei que parece... Ah, não, caralho, olha como ele é. Mas quando a gente começou a namorar, eu tinha 19, ela tinha 16. Na primeira semana de namoro, ela tinha combinado, antes da gente começar a namorar, que ela ia pra praia com uma família que eu conhecia também, nossos amigos, entendeu?

ia com a mãe, o pai do cara, dois garotos lá e mais um monte de amigo. Ela, pô, não vou porque eu tô namorando agora. Pô, vai, como é que tu não vai? Tu vai deixar de ir porque tu tá namorando? Porque eu não vou deixar de jogar o meu dotinho na segunda-feira lá, que é um joguinho, porque eu tô namorando.

Não vou deixar de fazer essa parada. E essa regra foi clara desde sempre. Ela foi dolorida no começo, mas foi clara desde sempre. E a outra coisa é a noção que deriva dessa primeira coisa, que é, cara, eu sou completamente diferente de você. E a gente vai ter embate. A gente vai... Eu não gosto dos mesmos filmes que você gosta. Você não gosta de jogar videogame que nem eu gosto. Mas tem alguma coisa que...

que a gente se completa de um jeito que não dá pra... Se a gente fizer um... Se a gente abrir mão de ser monolítico, a gente consegue essa junção e vai ser maneiro. Claro que isso era muito menos óbvio no começo, quando a gente começou a namorar. A gente era muito jovem. Mas a noção estava ali. E eu acho que até a forma como a coisa se construiu ajuda. Porque a gente morava em cidades diferentes, se via...

Duas vezes por semana. Quando era mais. Não podia ser na segunda-feira. Porque segunda-feira era o dia do jogar meu Dota. Entendeu? Então, as coisas foram se construindo de uma forma que... Cara, agora a gente está há 20 e tantos anos juntos. E essa relação longeva é a prova cabal de que as coisas não são aleatórias.

Então, esse encontro de vocês não é aleatório. Entendeu? Há forças universais conduzindo esse encontro. E eu penso que é isso que as pessoas precisam entender, que a gente não está no controle. A gente não está no controle. Mas a ilusão de controle é ensinada para a gente desde sempre. Todo millennial, que nem eu, o objetivo dele é ter uma casa, um carro e uma família.

Eu preciso seguir esse caminho. Eu tenho que ter uma casa, um carro e uma família. É isso que eu tenho que ter na minha vida. Depois disso aí é lucro. Mas isso eu tenho que ter. Certo? Então assim, tem... Isso é meio que... Meu pai e minha mãe me... Porra, me...

Encher o meu saco pra ir pra escola técnica. Encher o meu saco pra eu seguir um certo caminho. Pra eu poder ter, no fim das contas, uma casa, um carro e uma família. Que era um quadro. Quase um quadro que eu tava trabalhando dentro dele. Vivendo dentro dele com esses objetivos. E é muito doido quando tu chega lá. E tu alcança. E tu vê que não era isso. Ou que não era suficiente. No meu caso foi... Porra, e agora? O que eu faço agora, mané?

Foi uma das fases mais sinistras da minha vida. O que eu faço agora? Você sabe que eu exonerei três vezes de concurso público na escola. A primeira vez minha mãe surtou. Minha mãe surtou porque era estabilidade. Eu falei, não, mas eu não quero mais. É pedir a conta. Não importa se é público, se é estável. Porque tem muito isso.

Essa falsa noção de estabilidade, de estabilidade. Porque ela aproxima a ilusão do controle. Exato. Ela é a irmã mais nova do controle. Essa ideia de estabilidade. E aí Exu dá uma gargalhada. Você sabe que tem uma história de Exu. Ele era muito amigo de...

de uma outra divindade. E essa divindade era casada e o marido adoece. O marido adoece, começa a definhar, começa a definhar. Todo mundo sabia do poder de Exu, de transmutar, de transformar e tal. E ela chama Exu, e ela fala Exu. E o marido morimbundo na cama, sofrendo muito, gemendo.

disse que chorava lágrimas de sangue. E ela sofrendo junto, obviamente que era a esposa. E ela chama Exu. E ela... Exu vem visitar e tal. Eles eram muito amigos. E aí ela fala, cura meu marido, por favor.

E aí Exu deita do lado do morimbundo, abraça o morimbundo, e o morimbundo morre. Exu levanta e ela pergunta, eu queria que você curasse, não que você o matasse. E Exu fala, eu o curei.

Agora eu levei a dor dele e a sua. E Exu chora as lágrimas de sangue. Então, Exu é muito nosso amigo. Ele é muito nosso amigo, mas ele não vai fazer o que a gente quer. Ele vai fazer o que é certo. Essa noção satânica de Exu é muito mentirosa. Quem acha que Exu é o satanás? Não tem, não tem. Não tem para nós. Se você falar, quem é o diabo para você? Eu falo...

Eu não sei. Porque ele não é da minha cultura religiosa, portanto eu não sei. Mas Exu foi, por conta do sincretismo, ele é simbolizado de certa forma. Inclusive, para algumas histórias que eu ouço, é para assustar mesmo na porta do terreiro um diabão.

Então, de certa forma, essa construção é natural também, não é? Ao longo do tempo. Porque, por conta de como surge hoje, a gente é foda. Mas falar ou associar Exu ao diabo, alguém que não tem nenhum conhecimento, é...

concorda comigo que era o caminho natural por conta, dado o que rolou? Eu acho que teve uma fase em que Exu foi utilizado, sim, que o sincretismo foi utilizado como elemento de proteção do terreiro. E aí nós temos essa construção imagética com chifre, com rabo, que é para proteger o terreiro. Fala, ó, fica aí.

que o Satanás está aqui. Então, sim, teve um momento histórico de perseguição da polícia, de perseguição, que entrava, batia, levava as coisas, que o terreiro se apropria do sincretismo e, sim, também coloca Exu no lugar de Satanás. Mas era um mecanismo... Não é a verdade sobre Exu. Era um mecanismo metafórico de proteção. Perfeito.

Então teve isso ao longo da história, não é? E agora, hoje, isso é alguma coisa que é usada contra nós. Sim. Então nós usamos uma ferramenta para nos proteger e hoje essa ferramenta é usada contra nós. E daí vem o meu discurso de dessatanização. Porque, de verdade, nós falamos lá atrás...

E se você me perguntar, onde está o inferno para vocês? Dentro de nós. Eu que potencializo ou enfraqueço o meu inferno. O inferno para nós é a sombra junguiana. Todo mundo tem luz e sombra.

O inferno é a nossa sombra. É aquilo que eu preciso ver, que eu preciso lidar. Aquilo que me traz mais sofrimento. Aquilo que me deixa na escassez. Aquilo que me faz odiar. Eu estou escrevendo um livro, e esse livro vai sair o ano que vem, que é sobre...

pensamentos de desertificação da vida, a vida transformada no deserto. Isso é bem fácil hoje em dia, né? Bem comum, inclusive. Exatamente. O que produz a perseguição da Erika Hilton como mulher na Comissão das Mulheres, de Defesa das Mulheres? O que produz essa pauta? Ela produz o quê?

Ela não produz nada. Ela só dá prazer a quem é contra. Porque Igor não produz mais vagas de emprego, essa pauta. Não diminui a desigualdade social. Não diminui feminicídio. Verdade. Não melhora a qualidade da educação. Não melhora a vida dos mais velhos. Não melhora a vida na periferia. Não coloca bandido na cadeia.

é pauta de desertificação da vida. Não faz nada. Quando eu me aproprio da pauta de luta contra o racismo religioso, essa pauta não é de desertificação da vida. É uma pauta que não quer que os terreiros sejam atacados, queimados, que uma pessoa leve uma pedrada na rua por ser de terreiro, está de roupa branca, que uma pessoa não deixa de ser contratada quando diz que é macumbeira.

Você sabe que as mulheres macumbeiras têm dificuldade para se relacionar. Não duvido. Porque as famílias criaram uma ideia de que ela vai fazer amarração para você. Então, essas pautas são de desertificação. Essas pautas, elas não produzem. É terra árida mesmo. É terra árida. Não produz nada. Produz o quê?

Está melhorando o que socialmente, culturalmente? E aí pode existir algum argumento que diga produz pelo menos o debate. Eu não acho. Eu acho que produz apenas o embate. Que é um cara que não está afim nem de entender o que você está dizendo. Então não tem debate. Tem embate. Sei lá. Eles estão de ouvidos cerrados.

Então, não. Não produz debate. Produz embate. Exatamente. Tem um provérbio, tem um provérbio em Yorubá, que ele diz assim. O mentiroso produz a mentira. O beligerante produz a guerra. Perfeito. A boa boca produz a maldição.

A boa boca produz a benção. E a boca ruim produz a maldição. Então, nós conversamos ao longo aqui sobre isso, que é uma decisão, acho que é uma decisão, e também está muito movida pela conquista de likes, pela colheita de likes.

porque o ódio produz likes, ele produz adesão. Então, essa pessoa não elaborou. Eu conheço gente que adere rapidamente a essas pautas, mas se você perguntar, ela não elaborou, ela não sabe nada. Está no máximo repetindo o que alguém falou. Exatamente, exatamente. Então...

E aí, nesse livro, porque eu vou fazer uma pesquisa em neurociência, e eu falava sobre isso, e a neurociência explica que o ódio produz dopamina rapidamente. E mais que produz dopamina, ele lhe inclui num grupo rapidamente. Você passa a fazer parte de um clã. O amor não, o amor... Ele...

precisa de elaboração, precisa de ponderação. E é tudo que o ódio não precisa. O ódio não precisa ponderar. Eu só odeio, eu só não concordo, eu não quero saber, eu não quero lhe ouvir. E eu penso que... Tem um provérbio também de Oxum. Oxum é uma divindade das águas, é uma divindade feminina. Eu gostaria muito que os homens acessassem e eu gostaria muito que os homens acessam.

A epistemologia de Oxum, porque nós navegamos no rio Oxum quando estivemos no útero de mamãe. O líquido amniótico para os yorubás é um rio Oxum. Todos nós fomos acolhidos, refrescados, envolvidos pelo rio Oxum, que é o líquido amniótico.

Então, não pode, um homem não pode desrespeitar, matar, violentar uma mulher. Não pode. Você morou lá oito, sete, oito, nove meses. Você foi banhado. Você foi nutrido. Mas que parte que a gente está esquecendo? Mesmo na hora do ódio, eu não estou dizendo que eu não vou ter raiva de uma mulher. Tá, mas que parte que eu não estou entendendo? Que todo mundo veio dali.

que parte que eu não estou entendendo? É o ódio, porque o ódio não precisa de compreensão. Então, eu gostaria muito que os homens entendessem para além das pautas do feminismo. Deixe isso de lado. Vê outra coisa. Eu nasci de oito meses, eu morei oito meses na barriga da mamãe.

Ela é mulher, não faz sentido que eu não tenha respeito pelas mulheres. Não faz nenhum sentido. Foi a minha primeira morada no AIE, é a nossa primeira morada.

E aí, não é que dizer... As pessoas querem sempre, com argumentos rasos, muito rasos, e elas querem dizer que é uma violação, que é isso, que é aquilo, mas ela não foi olhar. Se você perguntar quem foi a última mulher que esteve à frente dessa comissão, ela não sabe. Se você perguntar quais foram os projetos aprovados,

Ela não sabe por quê. Não interessa. Interessa que eu sou contra. Isso não é bom, Igor. Isso nos desumaniza. A gente é maior do que isso. Maior, melhor e mais humano.

Amém. Espero que a gente... Eu sou otimista nesse sentido. Eu espero que a gente vá... Por exemplo, se a gente vai olhar pra... Olhando pra redes sociais, que hoje em dia são mais do que isso, a gente não sabe usar. A gente usa pra disseminar o ódio. Pra discutir o ódio, pra falar de ódio. Mas eu tenho a esperança que é como a Idade Média Europeia. Que é...

os caras estavam... Em algum momento, eles passaram para o iluminismo, entendeu? Em algum momento, eles começaram a usar o cérebro, porque a gente está na internet, a gente está queimando bruxa, cancelando os outros, a gente está inventando moeda, um bitcoin, a gente está aprendendo a lidar com a ferramenta e pondo para fora, na maioria das vezes, só a pior parte, né? Porque eu sei que se eu chegar aqui no Sidney e te xingar,

existe uma chance de tu me dar um socão. Agora lá no meu computador, eu coloco o nome Josézinho 53, eu posso ser um babaca à vontade. E eu espero que a gente evolua como sociedade para entender que você deveria agir como um ser decente mesmo quando você está sozinho e escondido. Eu não sei, eu já não estou tão esperançoso.

Eu acho que a gente vai conseguir isso em pequenos territórios. No macro, não. No macro, não. Quer dizer, a própria pandemia nos mostra isso, que a gente não aprendeu a lição. A pandemia foi uma lição. A pandemia foi uma grande lição, uma grande provocação, um desafio coletivo.

E a gente conseguiu se dividir. E a gente achava que a gente ia evoluir, que a gente ia melhorar. É, falar que quando a gente sair, a gente vai se abraçar.

E não aconteceu. E não aconteceu. Ficou só um pouco mais longe, né? Porque agora tem trabalho remoto, híbrido, por exemplo. Exato. E ainda nos afastou mais, né? Que isso aqui que a gente está fazendo, a gente faz pouco. E a gente precisa conversar mais, a gente precisa se falar mais, a gente precisa se conhecer mais.

E por isso que esse trabalho De comunicação é fundamental Seu trabalho é fundamental E eu rogo a Exu que lhe proteja Exu é o senhor da comunicação Da palavra e mantenha isso Amém, pelo visto aí Exu é o que está, é o mais Olha minha esposa Olá, como vai? Como é gravar tudo bem, pode dar um oi Não, vem aqui, me dá um beijo

Eu já conheço, porque seu marido te ama e ele fala muito de você. Eu falo muito? Você falou bastante. Tá bom, tá bom. Bom, de qualquer forma, é isso. Sidney, muito obrigado pela moral, obrigado por vir aí, obrigado pelo teu tempo. E eu vou te falar, cara, a gente vai precisar, talvez, marcar um outro.

porque... Você fez anota... Falta algumas coisas aí. Você fez anotações. Eu anotei algumas coisas aqui. A gente falou sobre elas. Adoro, adoro que você tenha feito anotações. Deixa eu te perguntar uma coisa, então, para a gente finalizar. Que é o seguinte, cara...

Existem várias expressões religiosas que lidam com transe. Acho que quase todas. Se você for para o evangélico do sapatinho de fogo, que eu esqueci o nome agora... O... O ribalabalá... Isso é como o nome dos caras.

pentecostais. Os pentecostais lidam com o transe, como falarem línguas, não sei o que. Nas religiões de matriz africana também lida-se com o transe, eles se incorporam e tal. Tem algumas religiões que fazem uso de substâncias para induzir o transe, por exemplo, não sei se necessariamente para induzir o transe, mas acho que sim, não sou tão conhecido, não conheço tanto assim, mas a arruasca, por exemplo, Santo Daime.

como isso é entendido na tua religião? uso de substâncias, drogas e tudo mais? a Umbanda não usa a mediunidade é um dom natural ele vai ser desenvolvido ele vai ser aprimorado com o trabalho de incorporação na Umbanda nós chamamos o transe de incorporação e aí

Porque você tem esses espíritos encantados que incorporam. Isso é muito interessante e eu particularmente considero bastante saudável porque o transe é sobre ceder. Você precisa ceder para poder alterar a sua consciência. Você precisa entregar o controle. Exatamente, você tem que entregar o controle. Você tem que ceder.

Então, a Umbanda e outras religiões assemelhadas trabalham com o transe de incorporação. Você incorpora. Então, quando eu vou ali na mamãe, ela está com o seu tranca-rua, ela incorporou o seu tranca-rua, ele tomou conta. As funções vitais são dela, sem dúvida. Ela continua viva. Ninguém morre durante a incorporação.

mas tem um estado de consciência alterado por esse outro espírito. Então, tem dois espíritos ali habitando. Tem o espírito de mamãe e tem o espírito seu tranca-rua. Não se faz uso de elementos para fortalecer o transe. O que se faz é o uso de bebida, de cigarro, de charuto, enfim, que é alguma coisa que a entidade gosta e ela usava quando era viva.

Ou algo parecido com o que era quando era vivo. Ou algo parecido. Perfeito. Já está muito especialista, já está expert. Não, só porque... Mas é inteligente, né? Não, eu estou considerando aqui. Se você me falou que a falange meia-noite tem três séculos, então três séculos atrás não tinha bucanas. Não tinha, não tinha. Mas os caras tomam hoje. Não tinha. Exato. Meia-noite lá não foi uma vape, não. Ele acha meio escroto, né? E aí, no candomblé, nós chamamos de transe de excorporação.

Como é isso? Porque Xangô me habita. É uma centelha de Olorum Olodomari que me habita, está aqui dentro. E quando eu me transformo em Xangô, ele excorpora, ele não incorpora. Entendeu?

Tanto que todos nós, filhos de Xangô, estamos conectados por essa mesma centelha mitológica e ancestral. Todas as filhas de Oxum. Entendeu? Tem algum tipo de característica semelhante? Exatamente, certamente. Então, no candomblé, é o transe de excorporação. Também não tem o uso de algum elemento, de alguma folha? Não tem. Também não tem.

Mas eu confesso que tem os rituais que vão potencializando isso. O elemento é o rito. É a iniciação, raspar a cabeça, ficar recolhido. As oferendas vão potencializando esse transe de excorporação. Mas não tem. Eu acho que isso é muito da cultura indígena.

É muito da cultura indígena. As culturas africanas até tem, porque o continente africano é enorme e diverso, mas não chegou no Brasil. Mas é, entendi. Tá bom, entendi. Bom, Sidney, muito obrigado pela tua presença, obrigado pela moral. Como eu disse, a gente provavelmente vai ter que fazer um outro aí. Vamos ver se... Um troço que eu estava querendo fazer, que me parece até, não sei, tem que estudar viabilidade, era fazer uma mesa ecumênica.

Eu adoro. Trocar uma ideia com diferentes pontos de vista. Eu adoro. Se você conseguir trazer, se eles se sentarem... Tu toparia? Eu topo se eles se sentarem à mesa comigo, mas normalmente eles não querem. Tá bom, mas eu tenho os caras que são mais esclarecidos. Ah, então sim. Eu topo, claro que eu topo. Legal.

Não falei que eu ia me converter? Que eu ia me batizar lá na igreja da Carolina do Norte? O cara queria se batizar numa igreja batista. Mas, obrigado. Sidney, para as pessoas te encontrarem na internet, o que eles pesquisam? Arroba professor.sidney com demude e no final é o meu Instagram com produção de conteúdo. O meu conteúdo é nesse sentido mesmo, de valorização dos saberes ancestrais.

é didático pedagógico sobre a espiritualidade. O que eu mais recebo é denúncia, que as pessoas adoram mandar uma denúncia. Elas mandam denúncia do que elas acham que está errado.

Olha que interessante. E aí elas querem a minha adesão, mas o meu Instagram não é da polêmica, ele não é disso. Eventualmente eu corro para o lugar de professor, de ativista, mas ali é o território do griô, do pai de santo, de alguém que está compartilhando esses saberes ancestrais com leveza, com alegria, com bom humor. Mas as pessoas querem sempre me arrastar.

É pro lugar de denúncia, que ela viu um espírito e achou que era marmotagem. Marmotagem é aquela coisa fake, aquela coisa mal feita. É, golpe, estelionato. Aí eles me mandam os vídeos.

Mas eu não sou, eu não sou, eu sou Xangô, né? Xangô é a justiça, eu não quero, eu não quero fazer esse papel. Então tem muita coisa legal, tem muita coisa legal, tem indicações de referências bibliográficas, tem cursos. E eu acho que tem, sobretudo, leveza.

arroba professor Sidney. Só vem. Muito obrigado pela tua presença mais uma vez. Vocês que assistiram aí, a gente vai deixar no YouTube, a gente vai deixar todas as redes do professor Sidney facinho para você no comentário fixado para você chegar com um clique só, tá bom? Já entra aí no Discord para você sugerir novos convidados, novos temas também e vira membro que tem conteúdo para os membros todo dia, tá bom? No Discord e aqui no YouTube.

Então fique esperto. Obrigado pela moral, Sidney, mais uma vez. Valeu. E a gente se vê depois.

Chegou a hora de deixar os carros da idade da pedra para trás. O BYD Dolphin Mini foi o elétrico mais vendido no varejo por dois meses consecutivos. Pela primeira vez, um carro 100% elétrico lidera essa posição no Brasil. E chegou a sua vez de ter um carro mais econômico que moto. BYD Dolphin Mini, a partir de R$ 109.990 para a CNPJ.

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