Episódios de Café Crime e Chocolate

322 - KD Kempamma - A Falsa Benzedeira e Assassina de Bengaluru | Índia

04 de julho de 202635min
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Uma mulher acima de qualquer suspeita, que usava a fé e rituais sagrados para mascarar um rastro silencioso de mortes se tornando a primeira assassina em série da Índia

O Café Crime e Chocolate é um podcast brasileiro que conta casos de crimes reais acontecidos no mundo inteiro com pesquisas detalhadas, narrado com respeito e foco nas vítimas.

Produção: CMB Media

Narração: Tatiana Daignault

Fontes principais: Dijiworld / The Times of India / Filme: Cyanide Mallika

Outras fontes  e fotos sobre o caso você encontra aqui

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AVISO: A escolha dos casos a serem contados não refletem preferência ou crítica por qualquer posição política, religião, grupo étnico, clube, organização, empresa ou indivíduo.

Participantes neste episódio1
T

Tatiana Daignault

HostJornalista
Assuntos8
  • Homicídios em ItuclaroRenuca · Elizabeth · Yashodama · Munyama · Pilama · Nangavene
  • O Cianeto de PotássioCianeto de Potássio · Ourives · Envenenamento · Infarto Agudo do Miocárdio
  • Benzedeiras e cura de doençasKadde Kempamma · Benzedeira e Assassina · Bengaluru · Índia
  • Assassinato de GisbertaNangavene · Cianeto de Potássio · Celular Roubado · Kanakapura Road
  • Origens e FormaçãoKadde Kempamma · Kagalipuram · Titifund · Dívidas
  • Julgamento e CondenaçãoKadde Kempamma · Pena de Morte · Prisão Perpétua · Supremo Tribunal
  • Prisão e delação de VorcaroMamata Rajan · Mandala Puja · Roscote · Roubo
  • Curiosidade sobre a vida alheiaKadde Kempamma · Chica Sassikala · Prisão Central de Parapanangarhana · Corrupção
Transcrição3 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
TDTatiana Daignault

Olá, pessoal! Eu sou Tatiana Deino e esse é o Café, Crime e Chocolate, um podcast para quem gosta de ouvir histórias de crimes reais com cafezinho na mão, chocolate ao lado e fatos bem apurados. Cada episódio é produzido usando fontes seguras, como entrevistas, documentários e arquivos públicos. O objetivo aqui é informar, provocar reflexão e servir de alerta, sempre com respeito às vítimas e seus familiares. Como o programa aborda temas delicados, violentos e às vezes contém efeitos sonoros, escute com cautela.

Dada a natureza de seu conteúdo, esse episódio não é recomendado para menores de 14 anos. Hoje, em 2026, a cidade de Bangalore, em Karnataka, na Índia, é uma metrópole massiva, considerada um dos maiores polos de TI no país. No ranking de terceira maior cidade da Índia, com uma população estimada em aproximadamente 13 milhões e 600 mil pessoas em 2024, seu crescimento foi considerado expresso. Mas nos anos 90, ela ainda era composta por pequenos vilarejos rurais isolados, com vigilância e policiamento que seguiam padrões antigos.

E foi lá nessa época que, entre preces de fiéis e o incenso dos templos, uma predadora silenciosa encontrou o cenário perfeito para transformar a esperança alheia em uma arma letal, deixando para trás uma trilha de crimes que desafiaria a lógica das autoridades por quase uma década. Então, bora substituir o café desse episódio por um chá, pois hoje eu vou contar a vocês a terrível história de Kadde Kempama. A falsa benzedeira da Índia.

K.D. Kempamma nasceu na década de 1970 em Kagalipuram, um vilarejo rural ao redor de Bangalore. Naquela época, o destino de muitas jovens que nasciam ali parecia desenhado antes mesmo do nascimento. E como para a maioria delas, para quem pama, a sala de aula durou muito pouco tempo. Entre a necessidade de ajudar a família no campo e uma cultura local que não valorizava a instrução feminina, os livros foram rapidamente substituídos pelo trabalho doméstico.

No entanto, Ela foi privada de uma educação formal, mas não de uma ambição silenciosa. Casada ainda jovem com um alfaiate local, a falta de estudos parecia fechar as portas para um mundo de luxo e riqueza que ela tanto secretamente cobiçava. Depois que seus 3 filhos nasceram e o trabalho em casa aumentou, sua insatisfação se fez mais presente. Determinada a romper com a mediocridade econômica, ela arquitetou um titifund. Uma espécie de consórcio rotativo informal de poupança muito popular na Índia, que funcionava mais ou menos assim: um organizador, que nesse caso era a Kimpama, reúne um grupo de pessoas, por exemplo, umas 20 pessoas, e todo mês cada participante contribui com uma quantia fixa em dinheiro, por exemplo, R$100 cada.

Esse dinheiro é colocado em um fundo comum gerando um lucro maior do que se eles tivessem colocado suas quantias ali cada um individualmente. Então vamos supor um total de R$2.000 por mês, tá? Então uma vez por mês esse montante é totalizado e entregue a um dos membros do grupo, seja por sorteio ou por uma espécie de leilão, onde quem aceitar receber um pouco menos da bolada para pagar o dinheiro primeiro leva. O processo se repete todo mês até que todos os participantes tenham recebido sua parte do bolo.

No papel de organizadora, a responsabilidade de quem pama era recolher o dinheiro de todo mundo mensalmente, gerenciar os pagamentos e garantir que o sistema funcionasse. Em troca, ela ficaria com uma comissão ou teria o direito de pegar a primeira bolada de dinheiro sem os juros. Porém, o empreendimento ruiu de forma catastrófica, soterrando a pobre mulher sob uma verdadeira montanha de dívidas. A partir desse fracasso, a vida doméstica piorou ainda mais, transformando-se em um cenário de horror cotidiano.

Credores agressivos passaram a assediar a residência da família, amigos começaram a desaparecer e brigas conjugais aumentaram. Pra tentar sair do buraco que havia se enfiado, Kempama começou a trabalhar fora como empregada doméstica e babá. Ou seja, foi obrigada a fazer pros outros aquilo que ela não gostava de fazer nem pra sua própria família em sua própria casa. Acontece que nesse trabalho, Kempama começou a furtar alguns itens de pequeno valor.

E ao que sua audácia foi aumentando, ela foi pega e denunciada. O que a levou, em 1998, à cadeia. Incapaz de suportar a vergonha, a pressão e os escândalos à sua porta, seu marido pediu o divórcio e a expulsou de casa. Endividada e agora sem teto, Kempama submergiu no estado mais vulnerável do mercado informal. Ela passou a desempenhar funções de baixa valorização social, alternando-se como cozinheira e faxineira de restaurantes sujos e baratos, onde o salário mal cobria suas necessidades básicas, tornando impossível amortizar as dívidas do passado, quem dirá sustentar o padrão de vida refinado que ela tanto idealizava.

Foi então que Kim Pama conseguiu emprego como assistente em uma oficina de um Ourives local, e ali ela viu pela primeira vez o manuseio do cianeto de potássio, um composto químico altamente controlado mas rotineiramente utilizado na purificação e no polimento do ouro. Fazendo perguntas aparentemente inofensivas ao Ourives, ela aprendeu que a ingestão de uma fração mínima daquela substância bloqueava o oxigênio nas células, causando um colapso fulminante em minutos.

E mais importante para os seus planos, os sintomas externos de um envenenamento por cianeto como a perda súbita de consciência e a parada cardiorrespiratória, assemelhavam-se perfeitamente a um infarto agudo do miocárdio. Para uma polícia que ainda trabalhava de forma isolada, sem computadores interligados, e diante de corpos que não tinham nenhuma marca de agressão ou briga, esses tipos de morte passariam facilmente por um ataque cardíaco.

Era o crime perfeito. Então, para ter certeza de que o plano funcionaria, Kempama começou a comparar o que via na oficina com cenas de filmes de suspense que ela assistia na televisão. Então, convencida de que o método era infalível, ela usou uma identidade falsa para comprar o veneno em lojas de produtos industriais e, de um dia para o outro, deixou de ser uma ladra que agia por impulso para se transformar em uma assassina fria e calculista.

Essa mudança drástica na sua trajetória aconteceu na virada de 1998 para 1999, no município de Roscote. O alvo de sua primeira aplicação prática de cianeto era Mamata Rajan, uma mulher de 30 anos que desfrutava de uma situação financeira confortável, mas vinha enfrentando um momento de profunda instabilidade emocional e estava bem vulnerável. Sabendo disso, Kempama se aproximou não como a ex-faxineira que acumulava dívidas, mas como uma figura piedosa, uma curandeira espiritual que afirmava ter canal direto com o sagrado através de um mandala puja.

No hinduísmo, o mandala puja é um período de rituais e orações muito importante que dura cerca de 41 dias. Ele é especialmente famoso no estado de Kerala, vizinho de Karnataka, onde ela agia e de onde ela veio, culminando em uma grande peregrinação ao famoso templo de Sabarimala. Durante esse período, os devotos praticam o autocontrole, a meditação e realizam rituais de purificação para atrair bênçãos, saúde e prosperidade. É um rito associado à cura e à superação de grandes dificuldades.

Sabendo que as pessoas tinham um respeito profundo por essa celebração, Kempama se apropriou do nome e da mística do ritual, usando o respeito que as pessoas tinham por ele como uma cortina de fumaça. Ao prometer uma cerimônia tão poderosa, ela garantia a confiança cega de suas vítimas, que iam ao seu encontro de coração aberto e sem saber que estavam caminhando para uma armadilha. Frequentando templos em Bangalore, Hassan e Tumkur, Kempamma se apresentava como uma mulher piedosa e uma curandeira experiente que sabia conduzir bem uma dalapuja, porém de forma personalizada, para resolver crises graves como doenças, infertilidade ou até falência.

Às suas clientes, ela apresentava uma inovação ao ritual, que era a exigência macabra que suas clientes ou vítimas estivessem cobertas de joias de ouro e mantivessem seus olhos fechados durante o momento de beber a tal da água benta, que era a base toda desse ritual. Foi assim que ela convenceu Mamata de que suas angústias eram todas frutos de energias negativas e que somente um ritual de purificação severo e secreto poderia reverter sua situação.

Ela sabia como reverter tudo, mas somente sob uma condição crucial. Para que as divindades aceitassem a oferta, a quantidade e a pureza do ouro seria fundamental. Mamata deveria comparecer ao rito vestindo suas roupas mais luxuosas e usando todas as suas joias. Eu digo todas, sem deixar nenhuma para trás, e quanto mais, melhor. Sem desconfiar do perigo, a jovem seguiu as instruções à risca. Então, no dia marcado, Kempama a conduziu para um local isolado, longe dos olhos do público, onde a encenação começou.

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TDTatiana Daignault

O cenário de devoção camuflava o verdadeiro propósito do encontro. No ápice da cerimônia, Khenpan instruiu Mamata a fechar os olhos em profunda oração para receber o terta, que era a água benta purificadora. A água, contudo, estava contaminada com uma dose letal de cianeto de potássio. E no momento em que Mamata bebeu o líquido, o composto químico bloqueou instantaneamente a oxigenação de suas células. Para garantir que a vítima não expelisse a substância e que a morte fosse fulminante, Kempama agiu com violência física direta, obstruindo as narinas da jovem e forçando-a a engolir o veneno por completo.

Em poucos minutos, sem conseguir respirar ou esboçar qualquer reação de defesa, Pamata desabou sem vida. Com o corpo estendido no chão, Kempama demonstrou um desengajamento moral que definiria sua assinatura na crônica policial futura. Sem qualquer hesitação ou remorso, ela tirou do cadáver todas as joias e peças de valor, indo embora e deixando-a para trás, dando início à segunda parte de seu plano: transformar o ouro das vítimas em dinheiro vivo.

Usando nomes falsos, ela procurava pequenas agências financeiras para penhorar as peças ou ourives locais dispostos a comprar o metal sem fazer muitas perguntas. O ouro que antes representava os sonhos e as preces de uma mulher inocente servia agora para pagar dívidas e financiar a vida de luxo com que Kempama sempre havia sonhado. Seu objetivo era continuar com o mesmo modus operandi e buscar novas vítimas. Entretanto, Kempama foi parar na cadeia por um crime não relacionado ao assassinato de Mamata.

Fingindo que ia realizar um ritual religioso na casa de uma cliente, ela tentou furtar objetos de valor enquanto a mulher estava de olhos fechados. Acontece que a mulher desconfiou, abriu os olhos, pegou-a bem no flagrante, gritou por socorro, e Kempama foi capturada na localidade de Bidade. Por essa tentativa de roubo, ela foi condenada e cumpriu 5 anos de reclusão. Pois aqueles furtos dos quais ela já tinha sido presa antes tiveram suas penas acumuladas com a atual.

Porém, quando saiu em liberdade, ela se lembrou de como o crime contra a mamata havia sido não apenas viável, mas terrivelmente fácil e lucrativo, e resolveu voltar à ativa, abrindo portas para quase uma década de impunidade. Se o primeiro assassinato provou que o cianeto funcionava, o segundo mostrou que Kempama havia se tornado uma predadora implacável. Em 2006, ela encontrou Renuca. O ponto fraco daquela mulher não era o dinheiro, mas o sonho de ser mãe.

Mais especificamente, a pressão para gerar um herdeiro homem. E Kempama leu aquela dor perfeitamente. Prometendo que um ritual sagrado em um dormitório de peregrinos resolveria o problema, desde que muito ouro estivesse presente, é claro. Enquanto Renuca fechava os olhos rezando pelo filho que nunca teria, Kempama colocava em suas mãos o cálice com veneno. A partir dali, o padrão estava fixado. Se no caso de Renuca A criminosa explorou o desejo de ser mãe.

Com sua terceira vítima, ela agiu num novo nível de crueldade, ao manipular o desespero e o amor de uma avó. A ação seguiu o mesmo padrão metodológico, apenas adaptado à tragédia da vítima. No templo de Kabbalama, Kempama conheceu Elizabeth, uma idosa que não buscava riqueza, Nem a cura pra uma doença física. Ela buscava uma criança. Sua neta havia desaparecido misteriosamente e aquela avó estava disposta a qualquer coisa pra trazê-la de volta pra casa.

Então, ao mapear o desespero de Elizabeth, Kim Pama não hesitou. Ela prometeu que o ritual certo traria a resposta e a revelação do paradeiro da menina. Mas o preço do milagre era ouro. O ritual foi marcado e no dia da cerimônia, Elizabeth fechou os olhos pensando na neta e segurando o cálice com o que pensava ser a água sagrada. Ela bebeu o veneno acreditando que estava dando o primeiro passo para o reencontro com a netinha. Para Kempama, no entanto, aquela dor imensurável valia apenas o peso do ouro que a idosa carregava em seu pescoço.

Ainda nos primeiros meses de 2007, a crônica de mortes de Kempama ganharia mais um capítulo, dessa vez no complexo religioso de Sadangamut, em Thumkur. E ali, a natureza predadora da criminosa se voltaria contra uma vulnerabilidade diferente: a dor física e o esgotamento causados por uma doença crônica. A vítima da vez era Yashodama, uma mulher que há anos sofria com os impactos de uma asma severa. Quem convive com problemas respiratórios crônicos conhece o desespero de faltar o ar e a exaustão de tentar tratamentos sem sucesso.

E era exatamente dessa fragilidade que Kenpama precisava. Apresentando-se sob mais um de seus pseudônimos, a assassina abordou Yashodama demonstrando uma falsa preocupação com as crises de falta de ar da vítima. Em tom de extrema sabedoria espiritual, ela comentou que a asma não era apenas uma condição médica, mas o reflexo de um bloqueio espiritual que a medicina tradicional jamais conseguiria curar. A solução, segundo ela, estava em uma intervenção divina por meio, é claro, do mandala puja, realizado em um ambiente diferente de todos os outros e mais purificado.

Para que essa cura se manifestasse e os pulmões de Ashodama se limpassem, as divindades exigiam uma contrapartida material. Ela deveria comparecer ao rito carregando todas as suas joias de ouro, pois o metal supostamente era o que canalizaria a energia da cura. Movida pela esperança de voltar a respirar sem agonia, Yashodama aceitou a oferta da ritualística. No dia marcado, Kim Pama a conduziu para um dos aposentos reservados a peregrinos dentro do próprio complexo do templo.

E o roteiro macabro sempre foi acontecendo com precisão cirúrgica. Diante do altar improvisado, Kempana ordenou que a vítima se ajoelhasse e fechasse os olhos em profunda concentração. Ao que Yashodama ingeriu a água sagrada, acreditando que aquele seria o fim de seu sofrimento crônico, o veneno atacou seu sistema celular, bloqueando por completo sua capacidade de absorver oxigênio. Enquanto a vítima sufocava no chão, Kempamma repetiu sua assinatura física brutal.

Ela pressionou as narinas da mulher com força, abafando os gemidos de agonia e garantindo que ela não expelisse a substância. Assim que os movimentos de Yashodhama cessaram, Kempamma removeu os colares, anéis e braceletes de ouro do cadáver e deixou-o para trás, trancado no quarto de hóspedes do templo, enquanto viajava de volta para Bangalore, Pronta para faturar mais algumas milhas de rúpias nas casas de penhor. Se nas semanas anteriores Kampama havia se fantasiado de médica para os doentes com asma e de vidente para os desesperados em busca de desaparecidos, no templo de Adiyu ela assumiu o papel de empresária da fé.

Sua quinta vítima, Munyama, não sofria de dores físicas. Ela alimentava um sonho. A jovem queria muito se tornar uma cantora de hinos devocionais reconhecida em todo o estado. E quem pama farejou essa ambição de longe, prometendo a um ritual secreto que abriria as portas do sucesso e abençoaria sua voz. Mas tudo isso desde que ela treinasse as cordas vocais durante o ritual completamente coberta de ouro. Então, no dia marcado, Muneyama juntou as poucas joias que tinha com outras emprestadas de sua mãe e sua avó, fechou os olhos e deu início ao ajuste do tom, algo que acreditava ser o início de uma carreira de sucesso na indústria de louvor, as primeiras notas de uma música que nunca chegaria a cantar.

Ao beber o que pensava ser o Terta, O veneno paralisou justamente a voz que ela tanto queria libertar. E pra Kempama, a melodia daquela noite foi apenas o silêncio de mais uma vítima e o tilintar de novas joias em sua bolsinha. Ainda no ano de 2007, a autoconfiança de Kadê Kempama havia atingido um patamar perigoso. Após fazer 5 vítimas sem levantar uma única suspeita das autoridades, Ela percebeu que seu disfarce de mulher piedosa era tão infalível que ela podia enganar até mesmo quem passava a vida inteira dentro dos santuários.

No templo de Hebbal, em Bangalore mesmo, o alvo da criminosa seria Pilama, uma mulher que não era apenas uma devota comum, mas a própria sacerdotisa da instituição. Enganar uma sacerdotisa exigia de Kempama uma abordagem muito mais sofisticada. Ela não podia simplesmente oferecer uma cura milagrosa ou uma promessa de riqueza. Por isso, a assassina mapeou a grande ambição institucional de Pilama: o desejo de ver o seu templo crescer, prosperar e ganhar prestígio na comunidade.

Apresentando-se com uma postura de extrema reverência e generosidade, Kempama aproximou-se da líder religiosa fingindo ser uma seguidora muito rica e devota, disposta a fazer uma doação monumental à instituição. Ela prometeu que financiaria do próprio bolso a construção de um arco colossal na entrada do Templo de Hepau, uma obra cara que traria não apenas visibilidade, mas status para o santuário de Pilama. A sacerdotisa, deslumbrada com a possibilidade de ver seu templo transformado por aquela generosa benfeitora, aceitou o convite para um encontro privado.

Kim Pam alegou que, antes de liberar os fundos para a construção do Arco, as divindades precisavam aprovar o projeto em um ritual exclusivo de consagração: o seu próprio mandala piuja. Só que para que os deuses validassem essa possível aliança entre a doadora e o templo, a sacerdotisa deveria comparecer à cerimônia paramentada com suas melhores vestes litúrgicas e todas as joias de ouro que possuía, como símbolo da pureza em sua liderança.

E tomada pela empolgação, Pailama caminhou direto para uma armadilha. Kempama a conduziu a um espaço reservado e deu início ao teatro espiritual. Sempre. Com as preces em andamento, a sacerdotisa fechou os olhos para conduzir o momento de conexão divina e estendeu as mãos para receber o terta. Ao ingerir a água, que naquele caso não era nada sagrada, o cianeto de potássio agiu com a rapidez devastadora de sempre. Com a profanação do altar completa e sem demonstrar qualquer sinal de hesitação por ter tirado a vida de uma figura sagrada, Kempama retirou os colares, anéis e adornos de ouro da mulher que havia dedicado sua vida inteira para cuidar do templo e escapou sorrateiramente, pronta para transformar aquele ouro da fé em mais dinheiro vivo no mercado informal de Bangalore.

A esse ponto, a engrenagem letal de Kempama parecia estar não somente ativa, mas quase que automatizada. Ela já havia cruzado o estado de Karnataka quase que inteiro, deixando um rastro de mortes invisíveis e todas mascaradas pela farsa do infarto. Mas foi o caso de sua sétima vítima confirmada que marcou o início do desmoronamento de todo o seu império de mentiras. Nangavene era uma jovem mulher de 30 anos que carregava uma angústia profundamente enraizada em certas parcelas da cultura tradicional da época.

Ela tentava desesperadamente engravidar, mas sua maior aflição era a pressão social para dar à luz a um bebê do sexo masculino para que fosse herdeiro. Sabendo dessa angústia, Kempama se aproximou com a mesma máscara de curandeira benevolente. Ela prometeu que um ritual específico e ultra secreto seria capaz de alinhar as energias de seu corpo e garantir a gestação de um menino. A condição era de sempre, só que dessa vez a execução teve um requinte de frieza ainda maior.

Kempama tentou acelerar o ritual pulando completamente a parte da oração e apenas pediu para que a jovem se deitasse para dormir depois de tomar a falsa água benta. Dessa vez, porém, a assassina felizmente cometeu um erro fatal motivado por um excesso de autoconfiança, algo que, para o bem da humanidade, acontece com muitos assassinos em série. Desta vez, além do ouro, ela decidiu roubar o telefone celular de Nagavene. Dias depois, ela usou o aparelho para chamar um táxi.

Em segundos, o sistema da polícia emitiu um alerta vermelho. O celular da vítima estava ativo e se movendo pelas ruas de Bangalore. O telefone de Nagavene, que deveria estar mudo, tinha acabado de se transformar em um farol que guiaria a polícia direto para o criminoso ou criminosa que havia tirado sua vida. Cruzando dados da triangulação das antenas com as informações do taxista, os investigadores descobriram o destino final daquela misteriosa passageira.

O que Kempama não sabia era que, a essa altura, os legistas já haviam notado que o corpo de Nagavene apresentava uma decomposição acelerada incomum, uma espécie de indicador forense clássico de intoxicação química. E isso, somado ao desaparecimento de seu celular e joias, incluindo a aliança de seu casamento, havia alertado a polícia. Ao contrário dos distritos anteriores, que arquivavam os casos como mortes naturais, os investigadores desta vez decidiram ir a fundo.

Duas pistas não se encaixavam: o laudo preliminar da perícia, que apontava uma falha biológica atípica nos tecidos da vítima, e o roubo de seus pertences. No dia 31 de dezembro de 2007, véspera de Ano Novo, a rotina do terminal rodoviário de Kanakapura Road estava agitada. Entre centenas de passageiros que viajavam para celebrar a data, uma mulher de meia-idade, vestindo um sari comum e carregando uma bolsa de plástico, esperava calmamente no ponto de ônibus.

Para quem passava, ela parecia apenas mais uma dona de casa voltando do mercado. Os policiais da paisana fecharam o cerco discretamente e quando a abordagem aconteceu, Kempama não teve nem tempo de reagir. Ao revistarem sua bolsa, os agentes encontraram provas irrefutáveis do crime: telefone celular de Nagavene, pequenos frascos contendo o pó cristalino de cianeto de potássio e uma quantidade massiva de joias de ouro que ela ainda não havia tempo de penhorar.

Com sua prisão, a polícia de Bangalore se viu diante de um arquivo criminal bem maior do que eles imaginavam e que viria a se tornar um capítulo intrigante da história da Índia atual. À medida que as investigações avançavam e as delegacias de diferentes distritos iam cruzando seus prontuários, o verdadeiro tamanho do rastro de mortes causadas por ela veio à tona. O processo judicial que se seguiu foi complexo e desmembrado. Devido à gravidade, à independência de cada homicídio e o fato deles terem acontecido em jurisdições diferentes, a justiça indiana optou por julgá-la em tribunais separados para cada uma de suas vítimas.

Corpos precisaram ser exumados, o que na cultura indiana é algo muito delicado. Registros das instituições financeiras provando o penhor do ouro roubado precisaram ser catalogados. E testemunhas capazes de atestar que algumas das mulheres estavam indo ao encontro de uma curandeira precisaram ser localizadas. Mas quando tudo isso ficou pronto, os promotores se viram com uma quantidade avassaladora de provas, e a resposta do Judiciário foi implacável.

Entre 2009 e 2012, as sentenças começaram a ser proferidas em uma sequência de condenações sem precedentes. Pelo assassinato de Nagavene e de outras 6 mulheres, Kempamma foi considerada culpada de homicídio qualificado, roubo e profanação. A brutalidade do método e o uso predatório da fé alheia levou o juiz a aplicar a punição máxima: a sentença de morte por enforcamento. E assim Kempamma tornava uma das raríssimas mulheres na história moderna da Índia a receber a à pena capital.

No entanto, a defesa recorreu das decisões, levando o caso até o Supremo Tribunal, e em 2012 as sentenças foram revisadas. Embora tenham mantido a culpabilidade integral pelos crimes hediondos, os juízes decidiram comutar a pena de morte. A alegação foi de que, apesar da frieza extrema, o histórico de vida da ré e a ausência de crimes violentos com armas de fogo permitiam que sua punição fosse convertida. A pena capital foi transformada em prisão perpétua rigorosa, sem direito a qualquer tipo de condicional ou indulto.

Hoje, a mulher que fingia se preocupar com os aflitos e enganava sem piedade mulheres fragilizadas ocupa uma cela na prisão central de Parapanangarhana, em Bangalore. Afastada dos templos, desprovida do luxo que tentou comprar com a vida de suas vítimas e sob vigilância constante do Estado? Cadê quem pama, cumpre sua pena no anonimato do cárcere? Sua história marcou os arquivos policiais da região, destacando algo que serve para qualquer outra cultura e nação: como a vulnerabilidade emocional e a fé cega podem ser instrumentalizadas pelos mais frios e calculistas dos predadores.

E para fechar o episódio de hoje, temos um daqueles desdobramentos de bastidores que parecem saídos de uma comédia dramática de ficção. Em 2017, quase 10 anos após sua prisão, o nome de Kempana voltou a estampar as manchetes de jornais da Índia por um motivo bizarro. Sua nova vizinha de cela, a bilionária— bilionária mesmo, gente, não milionária, bilionária— e poderosa líder política indiana Chica Sassikala havia sido condenada por corrupção, enviada para o mesmo presídio de Bangalore.

E o destino, ou a falta de espaço na ala feminina, colocou a criminosa mais rica do estado na cela colada à da assassina em série mais perigosa do país. Kempama, que se dizia uma fã da linha política de Sassikala, ficou literalmente obcecada. Ela tentava puxar assunto pelas grades, pedia audiências e se oferecia voluntariamente para pegar e carregar a bandeja de comida, comida de Sacicala, para que a rainha das fortunas não enfrentasse as filas do refeitório.

Só que aí vem o engraçado: o pânico na segurança da prisão foi tão grande Tá? Porque, gente, era basicamente uma envenenadora em série tentando servir comida para uma bilionária. Será que isso não parecia com nada de antes? Não, né? Ela não envenenava pessoas, mulheres que tinham algo que ela queria, ouro e tudo mais? Bom, a diretoria da prisão decretou uma transferência de emergência nesse caso. Kentama foi enviada para um presídio de segurança máxima, a centenas de quilômetros de lá, e a bilionária ficou sem sua fã.

Ou seja, a impressão é que mesmo atrás das grades, quem pama não conseguia se conter ao ver uma mulher rica e em estado vulnerável. Bom, pessoal, esse foi o caso de hoje. Me digam o que vocês acharam. Embora eu não seja a favor de pena de morte, eu achei curioso a justiça ter convertido a pena dela, alegando que o crime não teve a violência física de um tiro ou de uma facada. E é aí que eu pergunto a vocês: trancar uma mulher em um quarto, fazer com que ela beba um veneno que queima suas células por dentro enquanto ela reza de olhos fechados, e depois tapar o nariz dela até ela morrer sufocada— se isso não é a definição mais pura de crueldade e tortura, eu não sei o que é.

Por isso, espero a opinião de vocês. Agora eu vou indo e volto daqui uns dias com mais um caso criminal. Enquanto isso, cuidem-se, protejam-se e procurem não rezar de olhos fechados.